{"id":18000,"date":"2022-06-27T12:36:27","date_gmt":"2022-06-27T15:36:27","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=18000"},"modified":"2022-06-25T19:38:22","modified_gmt":"2022-06-25T22:38:22","slug":"as-novas-fabricas-do-capitalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2022\/06\/27\/as-novas-fabricas-do-capitalismo\/","title":{"rendered":"As novas f\u00e1bricas do capitalismo"},"content":{"rendered":"<p><strong>Moritz Altenried<\/strong> &#8211; Recentemente, ele lan\u00e7ou o livro<a href=\"https:\/\/press.uchicago.edu\/ucp\/books\/book\/chicago\/D\/bo123166001.html\">\u00a0<em>The Digital Factory: the human labor of automation<\/em><\/a>\u00a0(<em>A f\u00e1brica digital: o trabalho humano de automa\u00e7\u00e3o<\/em>, em tradu\u00e7\u00e3o livre). Altenried aborda trabalhadores em diversos setores, como moderadores de conte\u00fado, entregadores, quem trabalha em galp\u00f5es da Amazon, gamers, e otimizadores de mecanismos de busca. Este \u00e9 mais um livro que mostra o papel do trabalho humano no est\u00e1gio atual do capitalismo. Moritz Altenried explora quest\u00f5es de divis\u00e3o do trabalho, geografias, e as lutas dos trabalhadores.<\/p>\n<p>Em entrevista ao DigiLabour, Altenried explica o que significam essas f\u00e1bricas digitais, a no\u00e7\u00e3o de taylorismo digital, o papel das infraestruturas, da migra\u00e7\u00e3o e do g\u00eanero, al\u00e9m de analisar as quest\u00f5es em comum nos setores analisados por ele no livro.<\/p>\n<p><strong>Digilabour: Uma das coisas mais interessantes do seu livro \u00e9 a variedade de setores analisados, como log\u00edstica, games,\u00a0<\/strong><strong><em>crowdwork<\/em><\/strong><strong>\u00a0e m\u00eddias sociais. Quais s\u00e3o as semelhan\u00e7as entre os setores?\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Moritz Altenried \u2013\u00a0<\/strong>A ideia por tr\u00e1s de olhar para esses locais muito diferentes era testar as ideias e hip\u00f3teses do livro em diferentes setores e locais para pensar em desenvolvimentos mais amplos que caracterizam as atuais transforma\u00e7\u00f5es do trabalho e do capitalismo. Ao mesmo tempo, eu queria dar conta da diversidade de regimes e situa\u00e7\u00f5es de trabalho que encontramos globalmente, mesmo em um determinado local, como uma cidade. Assim, minha ideia \u00e9 menos descrever uma nova forma paradigm\u00e1tica de trabalho, mas dar conta da heterogeneidade dos regimes de trabalho no capitalismo contempor\u00e2neo. Indiscutivelmente, essa mesma heterogeneidade \u00e9 o tra\u00e7o que caracteriza o trabalho no capitalismo global de hoje.<\/p>\n<p>Dito isso, eu estava interessado em um certo tipo do que chamo de<em>\u00a0f\u00e1bricas digitai<\/em>s. O termo f\u00e1brica refere-se aqui menos a um edif\u00edcio de concreto (tamb\u00e9m pode ser relacionado ao trabalho por plataformas ou aos setor de games), mas sim a locais em que as tecnologias digitais garantem e imp\u00f5em regimes de trabalho \u00e0s vezes curiosamente semelhantes aos das f\u00e1bricas tayloristas no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, mesmo que pare\u00e7am completamente diferentes. Os trabalhadores que otimizam mecanismos de busca no Google, trabalhadores dos galp\u00f5es da Amazon, trabalhadores por plataformas e testadores de jogos, entregadores ou gerentes de conte\u00fado em plataformas de m\u00eddias sociais s\u00e3o exemplos dos trabalhadores das f\u00e1bricas digitais de hoje. Seu trabalho \u00e9 repetitivo e estressante, muitas vezes chato, mas tamb\u00e9m pode ser emocionalmente muito exigente. Muitas vezes, requer pouca qualifica\u00e7\u00e3o formal, mas um alto grau de habilidade e conhecimento. Essas formas de trabalho est\u00e3o inseridas em sistemas digitais, mas \u2013 pelo menos por enquanto \u2013 n\u00e3o automatiz\u00e1veis.<\/p>\n<p>No livro, uso o termo taylorismo digital para descrever novos modos de padroniza\u00e7\u00e3o, decomposi\u00e7\u00e3o, quantifica\u00e7\u00e3o e vigil\u00e2ncia do trabalho mediado por tecnologias digitais. E isso \u00e9 observ\u00e1vel em todos os diferentes lugares da minha pesquisa. Ao mesmo tempo, essas formas de gerenciamento algor\u00edtmico, organiza\u00e7\u00e3o digital e controle do trabalho permitem a r\u00e1pida inclus\u00e3o \u2013 e igualmente r\u00e1pida expuls\u00e3o \u2013 de for\u00e7as de trabalho muito heterog\u00eaneas, muitas vezes migrantes, nos processos de produ\u00e7\u00e3o. Podemos observar isso em diferentes ind\u00fastrias. Estou tentando teorizar esse processo a partir do conceito de multiplica\u00e7\u00e3o do trabalho emprestado de Sandro Mezzadra e Brett Neilson.<\/p>\n<p>Podemos pensar em um centro de distribui\u00e7\u00e3o da Amazon. Aqui, um processo de trabalho altamente padronizado e organizado digitalmente permite a inclus\u00e3o flex\u00edvel de trabalhadores tempor\u00e1rios e sazonais para dimensionar a for\u00e7a de trabalho de acordo com a demanda flutuante, por exemplo, na \u00e9poca do Natal. Ou, para dar um exemplo de<a href=\"https:\/\/journals.sagepub.com\/doi\/metrics\/10.1177\/0308518X211054846\">\u00a0minhas pesquisas mais recentes<\/a>, podemos pensar nas formas pelas quais as plataformas de trabalho, com seus contratos flex\u00edveis e r\u00edgida supervis\u00e3o digital dos trabalhadores s\u00e3o voltadas quase perfeitamente para a explora\u00e7\u00e3o de trabalhadores migrantes. Por meio do trabalho guiado por aplicativos multil\u00edngues, h\u00e1 muito pouco treinamento necess\u00e1rio e um alto n\u00edvel de controle sobre o processo de trabalho \u00e9 facilmente alcan\u00e7\u00e1vel. Uma alta flutua\u00e7\u00e3o na for\u00e7a de trabalho n\u00e3o \u00e9 problema aqui. Pelo contr\u00e1rio, \u00e9 parte do c\u00e1lculo das plataformas que podem contar com um ex\u00e9rcito de reserva latente de \u2013 muitas vezes predominantemente migrantes \u2013 trabalhadores que podem ser admitidos e expulsos das plataformas com custos e problemas m\u00ednimos.<\/p>\n<p><strong>Se o livro come\u00e7asse a ser escrito hoje, qual outro setor voc\u00ea incluiria?<\/strong><\/p>\n<p>Esta \u00e9 uma pergunta muito boa. Eu sinto que todos os exemplos, da Amazon aos games, das plataformas de entrega \u00e0 modera\u00e7\u00e3o de conte\u00fado para m\u00eddias sociais, s\u00e3o t\u00e3o importantes, se n\u00e3o mais, do que eram nove anos atr\u00e1s, quando comecei a pesquisa para este projeto. Mas certamente haveria outros lugares muito bons. Por exemplo, como o livro trata dos limites da automa\u00e7\u00e3o, os campos do cuidado e da reprodu\u00e7\u00e3o social em geral s\u00e3o incrivelmente interessantes. Al\u00e9m disso, o trabalho mais recente sobre plataformas de entrega, log\u00edstica urbana e migra\u00e7\u00e3o que estou fazendo com meus colegas aqui em Berlin e na Europa se encaixaria muito bem no livro. Ind\u00fastrias mais tradicionais, como o setor automotivo, tamb\u00e9m seriam muito interessantes. Eu estou planejando olhar para ag\u00eancias de trabalho tempor\u00e1rio por um bom tempo, e muito mais\u2026<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, os estudos de caso podem levar em conta muitos outros locais. Por exemplo, a pesquisa sobre o cultivo de ouro em games provavelmente come\u00e7aria hoje na Venezuela e n\u00e3o na China (onde o apogeu do cultivo de ouro parece ter acabado). Consegui descrever essa transi\u00e7\u00e3o no livro, mas seria muito interessante falar com os trabalhadores digitais da Venezuela hoje, por exemplo, e ver como essa economia paralela continua se transformando.<\/p>\n<p><strong>O que significa dizer que o capitalismo digital n\u00e3o \u00e9 o fim da f\u00e1brica, mas sua explos\u00e3o e multiplica\u00e7\u00e3o? Ou ainda, o que significa entender a plataforma como uma f\u00e1brica?<\/strong><\/p>\n<p>Para mim, pensar a f\u00e1brica era atrativo, em primeiro lugar, porque parece ser um ponto de partida bastante intempestivo para uma an\u00e1lise do capitalismo contempor\u00e2neo. Para a teoria social e pol\u00edtica, a f\u00e1brica tem sido um local central de an\u00e1lises cr\u00edticas das sociedades capitalistas \u2013 pense em Marx, mas tamb\u00e9m em muitos outros. No entanto, para a maioria das teorias do p\u00f3s-fordismo, do capitalismo cognitivo e assim por diante, o papel mais importante da f\u00e1brica \u00e9 o de um contra-exemplo contra o qual se analisa a transforma\u00e7\u00e3o do trabalho e do capitalismo. Ent\u00e3o, para mim, foi atraente analisar a atual transforma\u00e7\u00e3o do capitalismo pelo \u00e2ngulo da f\u00e1brica, tamb\u00e9m como contraponto, ou talvez como complemento, por exemplo, de um vi\u00e9s nas teorias do trabalho imaterial ou cognitivo (que s\u00e3o muito importantes na minha opini\u00e3o). Para o livro, centralizar a f\u00e1brica implicava menos \u00eanfase na import\u00e2ncia cont\u00ednua das f\u00e1bricas industriais, mas um certo conceito de f\u00e1brica digital, como j\u00e1 mencionei. Resumindo: com esse conceito, estou tentando explicar como as tecnologias digitais permitem que a l\u00f3gica das f\u00e1bricas encontre novas formas espaciais, como a plataforma. E \u00e9 isso que quero dizer com a explos\u00e3o ou multiplica\u00e7\u00e3o da f\u00e1brica.<\/p>\n<p>Vamos pensar novamente em uma plataforma como Uber ou Deliveroo: aqui, a tecnologia digital permite a organiza\u00e7\u00e3o, controle e medi\u00e7\u00e3o semi-automatizada do trabalho em detalhes granulares. Tal n\u00edvel de organiza\u00e7\u00e3o e controle r\u00edgido, mas espacialmente distribu\u00eddo, era impens\u00e1vel fora dos espa\u00e7os disciplinares das f\u00e1bricas antes das tecnologias digitais. Hoje, a tecnologia digital \u00e9 capaz de assumir as fun\u00e7\u00f5es espaciais e disciplinares da f\u00e1brica tradicional. Assim, novas formas de coordena\u00e7\u00e3o e controle funcionam \u00e0 dist\u00e2ncia e podem chegar \u00e0s ruas do espa\u00e7o urbano, se pensarmos em entregadores ou motoristas de Uber. Ou em resid\u00eancias particulares, se pensarmos no trabalho remoto por plataformas. Para mim, uma das coisas mais fascinantes sobre o\u00a0<em>crowdwork<\/em>\u00a0\u00e9 como a tecnologia digital permite que plataformas como Appen ou Amazon Mechanical Turk sincronizem um conjunto profundamente heterog\u00eaneo e globalmente distribu\u00eddo de trabalhadores dom\u00e9sticos em uma linha de produ\u00e7\u00e3o digital bem organizada. Esse \u00e9 um excelente exemplo da f\u00e1brica digital, eu acho.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea fala sobre taylorismo digital, tanto em um sentido pol\u00eamico quanto sistem\u00e1tico. O que isso quer dizer?<\/strong><\/p>\n<p>Polemicamente, o termo tem sido usado com frequ\u00eancia nos \u00faltimos anos para denunciar as condi\u00e7\u00f5es ruins e estressantes do trabalho digital, o que obviamente \u00e9 um bom uso do termo. No livro, no entanto, estou tentando desenvolver uma no\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica de taylorismo digital. E eu acho que tem havido algum interesse disperso de outros pesquisadores nos \u00faltimos anos tamb\u00e9m, para us\u00e1-lo como um termo conceitual. Como mencionei anteriormente, uso o termo para descrever como uma variedade de formas e combina\u00e7\u00f5es de\u00a0<em>software<\/em>\u00a0e<em>\u00a0hardware<\/em>\u00a0como um todo permitem novos modos de padroniza\u00e7\u00e3o, decomposi\u00e7\u00e3o, desqualifica\u00e7\u00e3o, quantifica\u00e7\u00e3o e vigil\u00e2ncia do trabalho. Muitas vezes, o gerenciamento algor\u00edtmico (semi-)automatizado desempenha um papel crucial.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes, tamb\u00e9m duvidei do termo, pois n\u00e3o quero defender um simples renascimento do taylorismo, mas procurar enfatizar como as tecnologias digitais permitem o surgimento de elementos cl\u00e1ssicos do taylorismo de maneiras novas e muitas vezes inesperadas. Ainda assim, \u00e9 impressionante para mim como a tecnologia digital pode quase radicalizar os conceitos de Taylor e permitir coisas com as quais Taylor s\u00f3 poderia sonhar. E, inversamente, a obsess\u00e3o do taylorismo pelos estudos de tempo e movimento, de medir e quantificar o trabalho pode ser entendida como uma forma de \u201cminera\u00e7\u00e3o de dados\u00a0<em>avant la lettre<\/em>\u201d como bem descreveu Claus Pias.<\/p>\n<p>O taylorismo digital, para mim, parece produtivo como um conceito para tra\u00e7ar essas genealogias e analisar como as tecnologias digitais (baseadas em sensores, dispositivos em rede e arquiteturas de<em>\u00a0software<\/em>\u00a0integradas) podem mover o taylorismo para fora do espa\u00e7o disciplinar da f\u00e1brica e do escrit\u00f3rio. E tamb\u00e9m, ver como isso d\u00e1 uma qualidade cibern\u00e9tica ao taylorismo digital de hoje no sentido de que muitas vezes h\u00e1 um esfor\u00e7o de gerenciamento e corre\u00e7\u00e3o de problemas em tempo real.<\/p>\n<p>Por fim, acho importante dizer que n\u00e3o estou defendendo o taylorismo digital como a \u00fanica ou \u00fanica forma hegem\u00f4nica de trabalho no capitalismo digital. Acho que o taylorismo digital \u00e9 uma tend\u00eancia importante no mundo do trabalho contempor\u00e2neo, mas coexiste \u2013 e deve coexistir \u2013 com outros regimes de trabalho que apresentam caracter\u00edsticas diferentes. Isso remonta \u00e0s observa\u00e7\u00f5es iniciais sobre a heterogeneidade e a multiplicidade de regimes de trabalho que caracterizam o capitalismo contempor\u00e2neo \u2013 e provavelmente todas as formas de capitalismo que existiram.<\/p>\n<p><strong>Gosto muito quando voc\u00ea destaca no livro o papel das materialidades e das infraestruturas para o trabalho. Qual \u00e9 o papel das infraestruturas digitais para o que voc\u00ea chama de f\u00e1bricas digitais?<\/strong><\/p>\n<p>Eu acho que muito disso j\u00e1 ficou claro, quando falamos sobre a forma como, por exemplo, uma plataforma torna-se uma f\u00e1brica digital no sentido de que \u00e9 uma infraestrutura de produ\u00e7\u00e3o, uma infraestrutura de explora\u00e7\u00e3o do trabalho. Ao mesmo tempo, embora essas empresas tendam a se apresentar dessa forma, elas n\u00e3o consistem em algoritmos. Para que esses algoritmos funcionem, essas plataformas dependem de dispositivos digitais de todos os tipos, sat\u00e9lites, cabos de fibra \u00f3tica,\u00a0<em>data centers<\/em>\u00a0e assim por diante. Em seguida, estradas para permitir a constru\u00e7\u00e3o desses\u00a0<em>data centers<\/em>, navios para colocar os cabos submarinos transoce\u00e2nicos que s\u00e3o a base da internet global, sistemas de reprodu\u00e7\u00e3o social para reproduzir a for\u00e7a de trabalho de, por exemplo, programadores, engenheiros e guardas de seguran\u00e7a nesses<em>\u00a0data centers<\/em>, e assim por diante\u2026 Muitos estudos importantes t\u00eam enfatizado a pr\u00f3pria materialidade relacionada ao digital. Podemos pensar nos trabalhos de Nicole Starosielski, Lisa Parks, Jennifer Gabrys, Keller Easterling e muitos outros. O papo de uma economia \u201csem peso\u201d ou \u201cvirtual\u201d j\u00e1 foi devidamente desmascarado, mas acho que qualquer an\u00e1lise do capitalismo digital deve pensar em suas infraestruturas e materialidades, especialmente em um momento de conflitos globais de recursos e energia e uma dram\u00e1tica crise clim\u00e1tica\u2026<\/p>\n<p><strong>Nos seus trabalhos, voc\u00ea foca especialmente em quest\u00f5es de migra\u00e7\u00e3o e g\u00eanero. Qual sua compreens\u00e3o sobre migra\u00e7\u00e3o virtual e como isso ajuda a entender os contextos de trabalho atualmente?<\/strong><\/p>\n<p>O termo migra\u00e7\u00e3o virtual \u00e9 interessante e temos debatido muito aqui em Berlin, especialmente no meu trabalho colaborativo com Manuela Bojadzijev e Mira Wallis. O termo tende a provocar pesquisadores de migra\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m provoca debates importantes em estudos cr\u00edticos de migra\u00e7\u00e3o\u2026 \u00c9 retirado do livro<a href=\"https:\/\/www.dukeupress.edu\/virtual-migration\">\u00a0<em>Virtual Migration: The Programming of Globalization<\/em><\/a>, de A. Aneesh, onde ele teoriza o trabalho de engenheiros de\u00a0<em>software<\/em>\u00a0indianos que trabalham para empresas estrangeiras remotamente enquanto permanecem na \u00cdndia. Seu trabalho \u00e9, como ele argumenta, situado em contextos culturais, espaciais e temporais que n\u00e3o combinam com sua localiza\u00e7\u00e3o f\u00edsica, portanto, eles \u201cmigram sem migra\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Essa no\u00e7\u00e3o provocativa foi muito produtiva para descrever a situa\u00e7\u00e3o dos garimpeiros no cap\u00edtulo de games do meu livro. S\u00e3o jogadores profissionais que jogam games para ganhar dinheiro no jogo \u2013 \u201couro\u201d \u2013 e outros itens que s\u00e3o vendidos \u2013 por dinheiro do \u201cmundo real\u201d \u2013 para jogadores \u201cde lazer\u201d que desejam avan\u00e7ar rapidamente no jogo. Como essa pr\u00e1tica \u00e9 proibida na maioria dos jogos e desaprovada pelas culturas de games, o cultivo de ouro tornou-se uma economia paralela digital com fascinantes consequ\u00eancias econ\u00f4micas e culturais. Inicialmente, os cultivadores de ouro estavam localizados principalmente na China. Hoje, a Venezuela se tornou outro ponto de acesso. De qualquer forma, os jogadores profissionais t\u00eam que entrar nos servidores dos games, que est\u00e3o ocupados de forma predominante por jogadores ocidentais, pois esses s\u00e3o os clientes mais importantes. Em muitos jogos, os fazendeiros de ouro s\u00e3o atacados por jogadores \u201cde lazer\u201d ocidentais, pois s\u00e3o percebidos como destruidores da economia e da cultura dos games. O trabalho com cultivo de ouro tornou-se profundamente racializado e no jogo World of Warcraft, por exemplo, os jogadores ocidentais \u00e0s vezes formam grupos de \u201cvigilantes\u201d para ca\u00e7ar \u201cfazendeiros chineses\u201d e obstruir seu trabalho no jogo.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, como entender a situa\u00e7\u00e3o e as experi\u00eancias desses trabalhadores de games chineses ou venezuelanos, econ\u00f4mica e culturalmente? Eles trabalham horas a fio em uma cultura digital, com idioma e, \u00e0s vezes, fuso hor\u00e1rio estranho ao seu, s\u00e3o tratados como imigrantes ilegais e trabalhadores estrangeiros enquanto os frutos de seu trabalho s\u00e3o vendidos a jogadores ocidentais. Eles temem que possam ser banidos do jogo por quem publica os games, bem como ataques racistas de outros jogadores. O seu papel econ\u00f4mico e a sua posi\u00e7\u00e3o legal situam-se entre diferentes geografias e, em muitos aspectos, muito semelhantes aos dos trabalhadores migrantes. Assim, suas experi\u00eancias s\u00e3o, em muitos aspectos, as mesmas experi\u00eancias dos trabalhadores migrantes do \u201cmundo real\u201d. Tamb\u00e9m podemos pensar em trabalhadores de\u00a0<em>call centers\u00a0<\/em>das Filipinas fazendo atendimento ao cliente para clientes dos Estados Unidos ou algu\u00e9m que trabalha por meio de uma plataforma como um\u00a0<em>freelancer<\/em>\u00a0como assistente pessoal virtual para um cliente do outro lado do globo como mais exemplos de tais tend\u00eancias e situa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Olhando para essas situa\u00e7\u00f5es na perspectiva dos estudos de migra\u00e7\u00e3o, parece um pouco question\u00e1vel se podemos manter uma defini\u00e7\u00e3o de migra\u00e7\u00e3o como o movimento f\u00edsico de um corpo por meio de uma fronteira. Em uma \u00e9poca em que as tecnologias digitais permitem comunica\u00e7\u00e3o e coopera\u00e7\u00e3o em tempo real e incorporada entre trabalhadores e indiv\u00edduos al\u00e9m das fronteiras e fusos hor\u00e1rios, a matriz comum da migra\u00e7\u00e3o ligada ao trabalho ou \u00e0 terceiriza\u00e7\u00e3o\/offshoring parece estar em quest\u00e3o porque em muitos pontos n\u00e3o fica claro o que est\u00e1 realmente atravessando fronteiras. S\u00e3o corpos, dados, produtos?<\/p>\n<p><strong>Como voc\u00ea relaciona trabalho de cuidados, trabalho reprodutivo e trabalho remoto em plataformas digitais?<\/strong><\/p>\n<p>Em minha an\u00e1lise sobre\u00a0<em>crowdwork<\/em>, trabalho em nuvem ou\u00a0<em>gig\u00a0<\/em>remota \u2013 termos que tem sido muito usados \u200b\u200bno momento \u2013 ficou claro para mim que h\u00e1 um grande grupo de crowdworkers em v\u00e1rias plataformas que combinam trabalho para as plataformas com trabalho reprodutivo, por exemplo, cuidar de crian\u00e7as, idosos ou pessoas doentes. Isso \u00e9 poss\u00edvel porque eles podem trabalhar em casa e colocar algum trabalho digital em seus computadores sempre que tiverem tempo para faz\u00ea-lo entre as tarefas dom\u00e9sticas.<\/p>\n<p>\u00c9 muito interessante aqui, como as plataformas digitais se alimentam das crises de reprodu\u00e7\u00e3o social \u00e0 medida que se desenrolam em diferentes geografias. Em locais onde h\u00e1 pouca infraestrutura social e assistencial, voc\u00ea encontrar\u00e1 muitos trabalhadores nessas situa\u00e7\u00f5es e estes s\u00e3o, n\u00e3o surpreendentemente, predominantemente mulheres. Assim, \u00e9 interessante ver como o trabalho n\u00e3o remunerado de reprodu\u00e7\u00e3o social interage com novas formas de trabalho assalariado viabilizado por plataformas. O que vemos aqui tamb\u00e9m \u00e9 a indexa\u00e7\u00e3o de novos recursos de trabalho ao capital, \u00e0 medida que pessoas ou tempo de pessoas se tornam dispon\u00edveis como tempo de trabalho potencial que antes era inating\u00edvel para o trabalho assalariado. N\u00e3o estou pensando apenas em mulheres que combinam trabalho de assist\u00eancia com\u00a0<em>crowdwork<\/em>, mas tamb\u00e9m, por exemplo, em um estudante fazendo algumas tarefas na Amazon Mechanical Turk entre as aulas ou em pessoas em \u00e1reas onde h\u00e1 poucas possibilidades de trabalho assalariado\u00a0<em>offline<\/em>.<\/p>\n<p>E ent\u00e3o, \u00e9 fascinante situar o trabalho remoto por plataformas na longa<a href=\"https:\/\/www.platform-mobilities.net\/en\/aktivitaeten#digital-platform-labour-and-social-reproduction\">\u00a0hist\u00f3ria do trabalho em casa<\/a>, que j\u00e1 \u00e9 uma hist\u00f3ria de trabalho predominantemente feminino. Em meados do s\u00e9culo XIX, Marx escreveu sobre a fun\u00e7\u00e3o central e a renova\u00e7\u00e3o do trabalho em casa como um ex\u00e9rcito de reserva constitu\u00eddo predominantemente por mulheres e crian\u00e7as. Ele descreve o trabalho em casa como um \u201cdepartamento externo da f\u00e1brica\u201d, o que \u00e9 uma formula\u00e7\u00e3o realmente interessante para mim. Ent\u00e3o, h\u00e1 uma longa hist\u00f3ria de trabalho em casa que tamb\u00e9m \u00e9 instrutiva para entender o momento presente e as plataformas digitais. Por exemplo, \u00e9 tamb\u00e9m Marx que sublinha a import\u00e2ncia dos sal\u00e1rios por pe\u00e7a para os primeiros sistemas industriais de trabalho dom\u00e9stico. E o que vemos na economia de plataformas de hoje, n\u00e3o apenas de maneira remota, mas tamb\u00e9m em plataformas como Uber e Deliveroo, \u00e9 um renascimento digital dos sal\u00e1rios por pe\u00e7a. Assim, a aten\u00e7\u00e3o a esses aspectos tamb\u00e9m nos permite situar a economia de plataformas em uma longa hist\u00f3ria de trabalho flex\u00edvel, que \u00e9 em grande parte tamb\u00e9m a hist\u00f3ria do trabalho feminino e migrante.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: As novas f\u00e1bricas do capitalismo &#8211; Outras Palavras &#8211; https:\/\/outraspalavras.net\/trabalhoeprecariado\/as-novasfabricas-do-capitalismo\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Moritz Altenried &#8211; Recentemente, ele lan\u00e7ou o livro\u00a0The Digital Factory: the human labor of automation\u00a0(A f\u00e1brica digital: o trabalho humano de automa\u00e7\u00e3o, em tradu\u00e7\u00e3o livre). Altenried aborda trabalhadores em diversos setores, como moderadores de conte\u00fado, entregadores, quem trabalha em galp\u00f5es da Amazon, gamers, e otimizadores de mecanismos de busca. 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