{"id":17958,"date":"2022-06-15T12:49:04","date_gmt":"2022-06-15T15:49:04","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=17958"},"modified":"2022-06-11T17:51:42","modified_gmt":"2022-06-11T20:51:42","slug":"um-mergulho-nas-entranhas-do-telegram","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2022\/06\/15\/um-mergulho-nas-entranhas-do-telegram\/","title":{"rendered":"Um mergulho nas entranhas do Telegram"},"content":{"rendered":"<p><strong>Darren Loucaides &#8211; <\/strong>Em 6 de janeiro de 2021, enquanto uma multid\u00e3o de apoiadores de Donald Trump come\u00e7ava a se reunir perto da base do Monumento a Washington, Elies Campo passava uma tarde agrad\u00e1vel na casa de sua fam\u00edlia em Tortosa, na Espanha. O dia 6 de janeiro, ou Dia de Reis, \u00e9 o ponto alto da temporada de festas no pa\u00eds, um momento em que os parentes se visitam e as crian\u00e7as ganham presentes. Campo, um engenheiro espanhol de 38 anos que mora no Vale do Sil\u00edcio, na Calif\u00f3rnia, ficara quase totalmente afastado da casa dos parentes desde o come\u00e7o da pandemia. Agora, cercado por tios, tias e primos, pela primeira vez p\u00f4de pegar no colo os novos beb\u00eas da fam\u00edlia. Sua cabe\u00e7a n\u00e3o podia estar mais longe dos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Tudo mudou l\u00e1 pelas oito da noite, quando um amigo norte-americano escreveu para saber se Campo tinha visto as not\u00edcias de Washington. Em seguida, veio uma avalanche de mensagens similares sobre a multid\u00e3o que acabava de invadir o Capit\u00f3lio, sede do Parlamento dos Estados Unidos. Enquanto via as cenas de viol\u00eancia no celular, ele come\u00e7ou a ser consumido por uma pergunta: Como isso poderia afetar a empresa na qual trabalhava?<\/p>\n<p>Campo trabalhava no Telegram, o aplicativo de mensagens e rede social com uma base global de centenas de milh\u00f5es de usu\u00e1rios. Agora, olhando outras plataformas de m\u00eddias sociais, ele percebeu que figuras da ultradireita estavam postando links para canais p\u00fablicos no Telegram e incentivando seus seguidores a usar o aplicativo.<\/p>\n<p>Com a cabe\u00e7a a mil, Campo pediu desculpas aos familiares, foi ao andar de cima e continuou vasculhando as m\u00eddias sociais no laptop e no celular. Seis horas depois, tanto o Facebook quanto o Twitter tinham bloqueado os posts de Trump. Campo tamb\u00e9m via uma quantidade cada vez maior de aliados de Trump que, temendo ser igualmente banidos daquelas plataformas, inundavam o Telegram com mensagens e traziam junto seu p\u00fablico.<em>\u00a0D\u00e9u m\u00e9u<\/em>, ele murmurou para si mesmo em catal\u00e3o \u2013 Meu Deus.<\/p>\n<p>No mundo das redes sociais, o Telegram \u00e9 nitidamente peculiar. Frequentador das listas das dez maiores plataformas do mundo, tem apenas cerca de trinta funcion\u00e1rios, at\u00e9 bem pouco tempo n\u00e3o tinha fonte corrente de receitas e \u2013 numa era em que as empresas de tecnologia se deparam com uma press\u00e3o cada vez maior para silenciar discursos de \u00f3dio e informa\u00e7\u00f5es falsas \u2013 praticamente n\u00e3o faz modera\u00e7\u00e3o de conte\u00fado, a n\u00e3o ser para eliminar pornografia ilegal e incita\u00e7\u00f5es \u00e0 viol\u00eancia. O Telegram tem como dogma, e como discurso de marketing, que a plataforma da empresa deve estar dispon\u00edvel para todos, independentemente de ponto de vista pol\u00edtico ou ideologia. \u201cN\u00f3s vemos o Telegram como uma ideia\u201d, disse Pavel Durov, o russo que criou o aplicativo. \u201c\u00c9 a ideia de que todas as pessoas deste planeta t\u00eam o direito de ser livres.\u201d<\/p>\n<p>Campo compartilhava dessa cren\u00e7a \u2013 mas como chefe do setor de crescimento, neg\u00f3cios e parcerias do Telegram, ele tamb\u00e9m arcava com o fardo de suas consequ\u00eancias. Em meados da d\u00e9cada de 2010, quando a imprensa come\u00e7ou a se referir ao Telegram como o \u201caplicativo preferido\u201d de jihadistas, Campo foi quem mais se irritou com o Estado Isl\u00e2mico. Ele diz que muitas vezes fica com a impress\u00e3o de se comportar como um pai ansioso quando troca mensagens com Durov. \u201cEu sou o chato\u201d, diz ele. Agora, Campo estava incomodado com a maneira como a imprensa e os parceiros comerciais do Telegram interpretariam a corrida para o aplicativo por parte de norte-americanos simpatizantes dos insurrecionistas.<\/p>\n<p>Por isso, ele escreveu uma longa mensagem para Durov. \u201cBoa noite, Pavel\u201d, ele lembra de ter come\u00e7ado. \u201cVoc\u00ea deu uma olhada no que est\u00e1 acontecendo nos Estados Unidos? Viu que o Trump est\u00e1 sendo bloqueado em outras redes sociais?\u201d Ele alertou que a ades\u00e3o da ultradireita ao Telegram tinha o potencial de \u201ceclipsar\u201d um fato bem mais lisonjeiro que, por mera coincid\u00eancia, estava levando \u00e0 corrida de novos usu\u00e1rios para a plataforma.<\/p>\n<p>Naquela mesma semana, o rival WhatsApp, muito maior do que o Telegram, havia atualizado seus termos de servi\u00e7o. Informa\u00e7\u00f5es confusas deram aos usu\u00e1rios a falsa impress\u00e3o de que eles precisariam passar a compartilhar uma quantidade maior de informa\u00e7\u00f5es pessoais com o Facebook, empresa propriet\u00e1ria do WhatsApp e alvo de crescente desconfian\u00e7a. Na realidade, a nova pol\u00edtica n\u00e3o exigia que os usu\u00e1rios compartilhassem mais dados do que eles j\u00e1 forneciam havia anos (o n\u00famero do telefone, o nome de perfil, certos metadados). Mesmo assim, muitos dos 2 bilh\u00f5es de usu\u00e1rios do WhatsApp ficaram assustados com os novos termos de servi\u00e7o, e milh\u00f5es abandonaram o aplicativo \u2013 muitos dos quais correram para os bra\u00e7os do Telegram.<\/p>\n<p>Durov, segundo Campo, tranquilizou-o sobre a avalanche dos apoiadores de Trump no aplicativo. \u201cComparado com o crescimento que a gente est\u00e1 tendo pela mudan\u00e7a dos termos de servi\u00e7o do WhatsApp, isso \u00e9 insignificante, e restrito \u00e0 narrativa norte-americana\u201d, respondeu Durov, segundo a lembran\u00e7a de Campo. Se fosse necess\u00e1rio, Durov acrescentou, ele poderia publicar algo em seu pr\u00f3prio canal p\u00fablico no Telegram. Ainda com medo, Campo continuou sem dormir at\u00e9 de manh\u00e3 cedo, olhando para suas telas.<\/p>\n<p>Claro que nos dias seguintes Campo come\u00e7ou a receber perguntas de jornalistas sobre a ado\u00e7\u00e3o em massa do Telegram pela ultradireita norte-americana. Ele encaminhou essas perguntas para Durov, recomendando que ele falasse \u00e0 imprensa. Em 8 de janeiro, Durov, de fato, foi a seu canal p\u00fablico \u2013 mas apenas para comemorar o imenso crescimento global do Telegram e para falar mal do Facebook, que, segundo ele, tinha toda uma equipe dedicada a descobrir \u201cpor que o Telegram \u00e9 t\u00e3o popular\u201d. Em 12 de janeiro, Durov fez um novo post para comemorar que, nas 72 horas anteriores, sua rede havia recebido a ades\u00e3o de 25 milh\u00f5es de novos usu\u00e1rios. O Telegram, segundo ele, agora reunia uma popula\u00e7\u00e3o de mais de meio bilh\u00e3o de pessoas. \u201cJ\u00e1 tivemos outras ondas\u201d, escreveu Durov. \u201cMas essa \u00e9 diferente.\u201d Dois dias depois, ele proclamou: \u201cPodemos estar testemunhando a maior migra\u00e7\u00e3o digital da hist\u00f3ria da humanidade.\u201d<\/p>\n<p>No entanto, embora espalhasse aos quatro ventos a not\u00edcia das estat\u00edsticas globais \u2013 38% dos novos usu\u00e1rios vinham da \u00c1sia, 27% da Europa, 21% da Am\u00e9rica Latina e 8% do Oriente M\u00e9dio \u2013, Durov n\u00e3o fez qualquer men\u00e7\u00e3o ao crescimento na Am\u00e9rica do Norte. S\u00f3 em 18 de janeiro ele postou que sua equipe vinha \u201cmonitorando de perto a situa\u00e7\u00e3o\u201d nos Estados Unidos e que os moderadores do Telegram haviam bloqueado centenas de incita\u00e7\u00f5es p\u00fablicas \u00e0 viol\u00eancia. Mas desdenhou do problema, dizendo que menos de 2% dos usu\u00e1rios do Telegram ficavam nos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Para Campo, a leitura desses posts foi estranha. Durov basicamente ignorara seus conselhos e se recusara a discutir com ele qualquer declara\u00e7\u00e3o p\u00fablica. Mais do que isso, embora fosse o chefe da \u00e1rea de crescimento do Telegram, fun\u00e7\u00e3o important\u00edssima nas empresas de m\u00eddias sociais, Campo ficara sabendo de todas aquelas estat\u00edsticas por meio do canal p\u00fablico de Durov, como todos os outros assinantes.<\/p>\n<p>Essa era outra coisa altamente anormal no Telegram: Campo jamais podia acessar os dados brutos sobre usu\u00e1rios. \u201cEu n\u00e3o tenho como acessar nenhum painel virtual com todos os n\u00fameros\u201d, disse-me ele em maio de 2021. Isso era muito diferente do procedimento operacional padr\u00e3o do lugar em que Campo trabalhava antes: o WhatsApp.<\/p>\n<p>Em 2014, depois que o Facebook comprou o WhatsApp, Campo pediu demiss\u00e3o em protesto contra os algoritmos \u201cviciantes\u201d do gigante da m\u00eddia e seu \u201cimpacto para a humanidade\u201d. No entanto, no WhatsApp, Campo diz que todo empregado tinha acesso aos n\u00fameros de usu\u00e1rios nos diferentes mercados. No Telegram, caso Campo quisesse estat\u00edsticas, precisava explicar a raz\u00e3o para seu chefe. Durov \u00e9 \u201cmuito, muito, muito restritivo\u201d, diz Campo. \u201cTudo tem que passar por ele.\u201d<\/p>\n<p>Portanto, se o dono dizia que a atividade da ultradireita norte-americana era min\u00fascula, Campo n\u00e3o tinha outra op\u00e7\u00e3o a n\u00e3o ser confiar na palavra dele. E, no Telegram, isso estava longe de ser a \u00fanica coisa que dependia da palavra de Pavel Durov.<\/p>\n<p>H\u00e1 anos o mundo se inquieta com o dom\u00ednio aparentemente inexor\u00e1vel do Facebook, agora rebatizado de Meta: sua implac\u00e1vel neutraliza\u00e7\u00e3o dos concorrentes, seja por aquisi\u00e7\u00e3o ou por elimina\u00e7\u00e3o; o modo como subjuga a pol\u00edtica, a cultura e todas as facetas da vida \u00edntima \u00e0s prioridades de um algoritmo concebido para an\u00fancios comerciais; a sucess\u00e3o crescente de esc\u00e2ndalos sobre viola\u00e7\u00e3o de privacidade; e seu hist\u00f3rico de pedidos dissimulados de desculpas quando \u00e9 flagrado. Por\u00e9m, ao longo do \u00faltimo ano, o imp\u00e9rio de Mark Zuckerberg passou a parecer um pouco menos inating\u00edvel. Com mais frequ\u00eancia, legisladores norte-americanos t\u00eam agido contra a empresa. Al\u00e9m disso, a poderosa capacidade da Meta de produzir efeitos em rede, que \u00e9 o motor de sua supremacia, pareceu ter operado em sentido inverso por breves instantes \u2013 como quando houve o \u00eaxodo em massa de usu\u00e1rios do WhatsApp e, depois, quando ocorreu um apag\u00e3o no pr\u00f3prio Facebook, em outubro do ano passado. De algum modo, o Telegram, com sua equipe min\u00fascula, tornou-se um dos maiores benefici\u00e1rios desses trope\u00e7os.<\/p>\n<p>Se isso \u00e9 bom para o mundo \u00e9 outra quest\u00e3o, obscurecida pela escassa compreens\u00e3o que se tem sobre o Telegram, inclusive nos Estados Unidos. A imensa maioria dos jornalistas continua a se referir ao Telegram como um \u201caplicativo de mensagens criptografadas\u201d. Essa descri\u00e7\u00e3o irrita os peritos em seguran\u00e7a, que alertam para o fato de que, ao contr\u00e1rio de servi\u00e7os de mensagem como o Signal ou o WhatsApp, o Telegram n\u00e3o tem criptografia de ponta a ponta na sua configura\u00e7\u00e3o padr\u00e3o. Ou seja, os usu\u00e1rios precisam ativamente acionar os \u201c<em>chats<\/em>\u00a0secretos\u201d do aplicativo (algo que poucas pessoas de fato fazem). Al\u00e9m disso, apenas conversas individuais podem ser criptografadas de ponta a ponta, n\u00e3o conversas em grupo.<sup>[1]<\/sup>\u00a0Os especialistas alertam que, para milh\u00f5es de pessoas que usam o Telegram em pa\u00edses com regimes repressivos, essa confus\u00e3o pode custar muito caro.<\/p>\n<p>A pr\u00f3pria express\u00e3o \u201caplicativo de mensagens\u201d \u00e9 um pouco enganosa e pode levar muita gente a subestimar o Telegram. Ao longo dos anos, o aplicativo se tornou um h\u00edbrido deliberado de um servi\u00e7o de mensagens e uma plataforma de m\u00eddias sociais \u2013 rivalizando n\u00e3o apenas com o WhatsApp e o Signal, mas tamb\u00e9m, e cada vez mais, com o pr\u00f3prio Facebook. Os usu\u00e1rios podem participar de canais p\u00fablicos ou privados com n\u00fameros ilimitados de seguidores, onde qualquer um pode curtir, compartilhar ou comentar. Eles tamb\u00e9m podem participar de grupos privados com at\u00e9 200 mil membros \u2013 uma escala que torna p\u00edfio o limite de 256 membros do WhatsApp.<sup>[2]<\/sup>\u00a0Por\u00e9m, ao contr\u00e1rio do que acontece no Facebook, no Telegram n\u00e3o existe publicidade dirigida nem\u00a0<em>feed<\/em>\u00a0movido a algoritmo.<\/p>\n<p>Embora o Telegram tenha diversos canais e grupos dedicados a temas apol\u00edticos, como a cena de tecnologia em Miami ou os filmes de Bollywood, como \u00e9 chamada a Hollywood da \u00cdndia, o aplicativo se mostrou particularmente adequado para o ativismo pol\u00edtico. Sua mescla de mensagens privadas e canais p\u00fablicos torna o Telegram uma ferramenta perfeita de organiza\u00e7\u00e3o: ideal para fazer proselitismo em p\u00fablico e, depois, conspirar em segredo. \u201cEu chamo isso de dobradinha\u201d, diz Megan Squire, cientista da computa\u00e7\u00e3o da Universidade Elon, na Carolina do Norte, que estuda o Telegram. \u201cVoc\u00ea pode fazer propaganda e planejamento no mesmo aplicativo.\u201d<\/p>\n<p>O aplicativo tem sido vital para manifestantes pr\u00f3-democracia, da Belarus a Hong Kong. Contudo, a direita global parece achar o Telegram particularmente conveniente. Na Alemanha, um movimento contra as restri\u00e7\u00f5es impostas durante a pandemia de Covid usou o aplicativo para organizar protestos gigantescos na regi\u00e3o central de Berlim em 2020, levando a uma invas\u00e3o da escadaria do Parlamento por uma turba de extremistas, num sinistro pren\u00fancio do 6 de janeiro norte-americano. (O objetivo declarado de alguns dos manifestantes era mostrar a Trump que eles estavam prontos para que ele livrasse a Alemanha de uma conspira\u00e7\u00e3o do Estado Profundo alem\u00e3o.) No Brasil, o presidente ultradireitista Jair Bolsonaro tamb\u00e9m aderiu ao Telegram, baixado em cerca de metade dos celulares do pa\u00eds.<sup>[3]<\/sup>\u00a0Analistas de desinforma\u00e7\u00e3o alertam para o perigo que isso representa para as elei\u00e7\u00f5es presidenciais no Brasil em 2022, cujos resultados Bolsonaro amea\u00e7a contestar.<sup>[4]<\/sup><\/p>\n<p>Nos Estados Unidos, aplicativos norte-americanos, como o Parler e o Gab, tamb\u00e9m foram inundados por usu\u00e1rios da extrema direita depois de 6 de janeiro, mas perderam o impulso rapidamente. Sofreram hackeamentos catastr\u00f3ficos, e o Parler perdeu a hospedagem na Amazon. Nenhum deles tinha a capacidade de resist\u00eancia do Telegram. N\u00e3o demorou para que Donald Trump Jr. come\u00e7asse a testar o clima do Telegram para o comandante em chefe que estava de sa\u00edda. \u201cA censura das grandes empresas de tecnologia est\u00e1 ficando cada vez pior, e se esses tiranos baniram meu pai, o presidente dos Estados Unidos, quem eles n\u00e3o v\u00e3o banir?\u201d, tuitou ele. O movimento ligado a Trump precisava de um lugar que \u201crespeitasse\u201d a liberdade de express\u00e3o, disse. \u201cFoi por isso que aderi ao Telegram.\u201d<\/p>\n<p>No m\u00eas seguinte, o canal p\u00fablico de Donald Trump Jr. chegou a 1 milh\u00e3o de membros. Um canal chamado @real_DonaldJTrump \u2013 \u201cReservado para o 45\u00ba presidente dos Estados Unidos\u201d que publicava \u201cposts sem censura do gabinete de Donald J. Trump\u201d \u2013 tamb\u00e9m estava ganhando tra\u00e7\u00e3o. Logo o canal tinha mais de 1 milh\u00e3o de membros. Aliados populares de Trump seguiram o mesmo caminho, e seus canais cresceram rapidamente, ao mesmo tempo em que grupos dos Proud Boys, dos Boogaloo Boys e do QAnon tamb\u00e9m proliferaram.<sup>[5]<\/sup>\u00a0De acordo com Megan Squire, que rastreou a atividade da ultradireita na plataforma desde 2019, o n\u00famero de usu\u00e1rios norte-americanos de extrema direita no Telegram pode facilmente chegar a cerca de 10 milh\u00f5es, mesmo n\u00famero que Durov apresenta como sendo a quantidade total de usu\u00e1rios norte-americanos do aplicativo. Squire admite, contudo, que a falta de transpar\u00eancia quanto ao n\u00famero de usu\u00e1rios da plataforma torna muito dif\u00edcil saber com certeza.<sup>[6]<\/sup><\/p>\n<p>Em minhas muitas e longas conversas com Campo, ele pareceu extremamente dividido em rela\u00e7\u00e3o ao Telegram. O executivo ainda sentia uma profunda admira\u00e7\u00e3o por Durov, e via as ondas de novos usu\u00e1rios como uma confirma\u00e7\u00e3o dos motivos pelos quais saiu do seu antigo emprego no WhatsApp. Mas ele tinha come\u00e7ado a se perguntar sobre a falta de transpar\u00eancia e sobre a cultura insular em torno de seu chefe, um sujeito cujos caprichos podem cada vez mais influenciar o destino da democracia no planeta.<\/p>\n<p>Durov, de 37 anos, se tornou um dos mais poderosos e meticulosamente enigm\u00e1ticos magnatas do setor de tecnologia no mundo. Depois de anos de declarado nomadismo, ele e o Telegram hoje est\u00e3o oficialmente sediados nos Emirados \u00c1rabes Unidos. Um post recente no Instagram mostra Durov de pernas cruzadas, sem camisa e com o corpo bem definido no topo de um pr\u00e9dio de onde se pode observar a paisagem de Dubai. Quando n\u00e3o est\u00e1 exibindo seu torso impressionante, Durov invariavelmente usa roupas pretas, que a imprensa normalmente descreve como uma homenagem a Neo, do filme\u00a0<em>Matrix<\/em>. Ele interage com o p\u00fablico quase que unicamente por meio de seu canal do Telegram, onde faz o papel de rei fil\u00f3sofo e de executivo sobre quest\u00f5es de liberdade de express\u00e3o, arquitetura de sistemas e as virtudes de consumir uma dieta baseada exclusivamente em peixes, abster-se de \u00e1lcool e dormir sozinho. Dentro do Telegram, segundo Campo, o n\u00facleo da empresa, composto basicamente por desenvolvedores russos, enxerga seu l\u00edder \u201cquase como uma figura divina\u201d, dirigindo-se ao chefe como \u201co senhor\u201d e jamais o contradizendo. Nas palavras de Anton Rozenberg, um ex-funcion\u00e1rio: \u201c\u00c9 uma seita.\u201d<\/p>\n<p>Se for assim, o Telegram \u00e9 uma seita particularmente fechada. Apesar das recomenda\u00e7\u00f5es de Campo, Durov n\u00e3o d\u00e1 entrevistas nem fala em p\u00fablico h\u00e1 anos, e os funcion\u00e1rios tamb\u00e9m s\u00e3o, em sua maioria, incrivelmente fechados. Procurei mais de quarenta pessoas que t\u00eam proximidade com a empresa e consegui falar com nove ex-funcion\u00e1rios e tr\u00eas colaboradores atuais de Durov. Para compreender o impacto do seu aplicativo, que se transforma rapidamente em uma das maiores plataformas do mundo, \u00e9 preciso compreender algo ainda mais obscuro do que o algoritmo do Facebook: o ambiente interno do Telegram.<\/p>\n<p>Enquanto a hist\u00f3ria da origem do Facebook envolve uma s\u00e9rie de relacionamentos formados nos dormit\u00f3rios da Universidade Harvard e rompidos ao longo dos anos, a hist\u00f3ria da origem do Telegram tem a ver com uma s\u00e9rie de relacionamentos formados em grande medida num per\u00edodo ainda anterior: em quartos de crian\u00e7as, olimp\u00edadas escolares de matem\u00e1tica e laborat\u00f3rios de inform\u00e1tica de universidades. E embora muitos desses la\u00e7os tamb\u00e9m tenham sido desfeitos e gerado rancores posteriores, um relacionamento sempre permaneceu no centro do Telegram: o de Pavel Durov com seu irm\u00e3o Nikolai, quatro anos mais velho.<\/p>\n<p>Quando Pavel nasceu, j\u00e1 estava claro que Nikolai era diferente das outras crian\u00e7as. Aos 3 anos, dizem que ele conseguia ler quase como um adulto. Aos 8, resolvia equa\u00e7\u00f5es de terceiro grau. Na adolesc\u00eancia, representava a R\u00fassia em olimp\u00edadas internacionais tanto de matem\u00e1tica quanto de inform\u00e1tica, e chegou a se tornar bicampe\u00e3o mundial de programa\u00e7\u00e3o. Pavel tamb\u00e9m era impressionante. Come\u00e7ou a programar aos 10 anos, sob a tutela de Nikolai, s\u00f3 que o mais velho dos Durov era \u201cum g\u00eanio entre os g\u00eanios\u201d, diz Anton Rozenberg, que conheceu Nikolai ainda garoto num clube de matem\u00e1tica.<\/p>\n<p>Nikolai, por\u00e9m, tamb\u00e9m era um jovem dolorosamente desajeitado que nunca cresceu. Por anos, continuou dependente da m\u00e3e de um modo incomum. Mais tarde, em um texto, Rozenberg escreveria: \u201cEla controla quase tudo que ele faz. Onde ele come, aonde ele vai, quantos passos deve dar da esta\u00e7\u00e3o de trem e qual t\u00e1xi deve pegar.\u201d Pavel era pr\u00f3ximo da m\u00e3e, mas de um jeito diferente. \u201cEu era um menino teimoso que vivia batendo de frente com os professores\u201d, escreveu ele em seu canal p\u00fablico do Telegram. \u201cMinha m\u00e3e sempre ficou do meu lado \u2013 nunca ficou contra os filhos.\u201d\u00a0Andrei Lopatin, que conheceu os irm\u00e3os em torneios do clube de matem\u00e1tica quando tinha 11 anos, lembra de Pavel como um menino \u201cque queria que tudo fosse do jeito que ele desejava\u201d.<\/p>\n<p>Os dois irm\u00e3os frequentaram a Universidade Estatal de S\u00e3o Petersburgo, onde o pai era professor de filologia, disciplina acad\u00eamica que abrange o estudo da l\u00edngua e da literatura. Nikolai estudou matem\u00e1tica. Pavel estudou filologia, escreveu poesia e parecia estar seguindo os passos do pai \u2013 at\u00e9 come\u00e7ar a construir sites. Ele criou uma biblioteca online em que os alunos de seu departamento podiam compartilhar anota\u00e7\u00f5es e outros materiais de estudo. A coisa se tornou t\u00e3o popular que alguns estudantes come\u00e7aram a faltar \u00e0s aulas e passaram a decorar respostas de provas antigas, de acordo com Ilya Perekopsky, colega de estudos de filologia e amigo de Pavel.<\/p>\n<p>Depois disso, Pavel criou um f\u00f3rum online, no qual se denominava \u201co Arquiteto\u201d e instigava debates sobre temas que iam do libertarianismo (ele pr\u00f3prio era um \u00e1vido inimigo de \u201cditaduras socialistas\u201d e um devoto do livre mercado) at\u00e9 a discuss\u00e3o sobre a possibilidade de meninos e meninas serem de fato amigos entre si. \u201cEle intencionalmente provocava debates sobre t\u00f3picos muito diferentes\u201d, diz Perekopsky. Pavel tamb\u00e9m criou contas com pseud\u00f4nimos para incitar discuss\u00f5es e atrair usu\u00e1rios. \u201c\u00c9 um tipo de marketing, certo?\u201d, indaga Perekopsky. O f\u00f3rum tomou conta da universidade. E Pavel se viu gastando cada vez mais tempo com seus sites.<\/p>\n<p>Os portais universit\u00e1rios de Pavel acabaram chamando a aten\u00e7\u00e3o de Vyacheslav Mirilashvili, um ex-colega de escola. Mirilashvili, que se mudara para os Estados Unidos, tinha acabado de ver o Facebook decolar e pensou que algo semelhante poderia funcionar na R\u00fassia. Com o dinheiro que Mirilashvili ganhou trabalhando para seu pai, um israelo-georgiano que se tornou um magnata do ramo imobili\u00e1rio, ele e Pavel reimaginaram o site universit\u00e1rio como uma ferramenta para encontrar colegas e amigos de inf\u00e2ncia. Mirilashvili tamb\u00e9m convocou um amigo russo-israelense chamado Lev Binzumovich Leviev. No outono de 2006, os tr\u00eas se tornaram cofundadores do VKontakte \u2013 uma express\u00e3o russa que significa \u201cmanter contato\u201d. Pavel Durov inicialmente programou o site sozinho. Com um design simples nas cores branco e azul, o VKontakte parecia um dos muitos clones do Facebook que pipocavam mundo afora.<\/p>\n<p>O VK, como a rede social ficou conhecida, decolou rapidamente. Por\u00e9m, os\u00a0<em>bugs<\/em>\u00a0no site se multiplicaram junto com os novos usu\u00e1rios, mesmo depois de Nikolai Durov come\u00e7ar a ajudar o irm\u00e3o, assim que voltou de um programa de doutorado na Alemanha. Quando Rozenberg voluntariamente informou aos Durov a exist\u00eancia de um\u00a0<em>bug<\/em>, o pr\u00f3prio Pavel agradeceu e o convidou para fazer parte da empresa como administrador de sistemas, respondendo a Nikolai.<\/p>\n<p>Pavel agora estava focado em gest\u00e3o e design. Ilya Perekopsky, seu amigo do departamento de filologia, tamb\u00e9m entrou para a empresa como vice-presidente. Completando o time havia Andrei Lopatin, companheiro de muitos anos de Nikolai nas competi\u00e7\u00f5es de matem\u00e1tica, que entrou para a equipe t\u00e9cnica do VK.<\/p>\n<p>Foi um momento empolgante, diz Rozenberg. \u201cNos primeiros anos, eu trabalhei sem parar nos feriados, de manh\u00e3 at\u00e9 tarde da noite.\u201d Embora a equipe operasse basicamente em modo remoto, Rozenberg se lembra de v\u00e1rios encontros na casa dos Durov. Os irm\u00e3os ainda moravam com os pais. O apartamento ficava num t\u00edpico pr\u00e9dio em estilo sovi\u00e9tico na regi\u00e3o Norte de S\u00e3o Petersburgo, uma \u00e1rea composta de torres altas e praticamente id\u00eanticas. Era comum que eles trabalhassem at\u00e9 tarde. Quando Rozenberg ia pegar o \u00faltimo metr\u00f4 para casa, a m\u00e3e dos Durov mandava que Pavel e Nikolai o acompanhassem at\u00e9 a esta\u00e7\u00e3o. Na lembran\u00e7a de Rozenberg, esse era o \u00fanico jeito que ela tinha de tirar os dois da frente das telas.<\/p>\n<p>O VK n\u00e3o demorou a entrar no radar de outras redes sociais \u00e1vidas por compras. Em 2009, uma pequena delega\u00e7\u00e3o do VK visitou a sede do Facebook, em Palo Alto, na Calif\u00f3rnia. De acordo com Andrew Rogozov, chefe de desenvolvimento do VK, a viagem foi arranjada pela empresa do investidor russo-israelense Yuri Milner, que tinha a\u00e7\u00f5es em ambas as empresas. Segundo Rogozov, Pavel Durov n\u00e3o gostou muito de Sheryl Sandberg, diretora de opera\u00e7\u00f5es do Facebook, nem de Christopher Cox, respons\u00e1vel pela parte de produtos, que pareceram pouco interessados numa conversa mais longa com a equipe do VK.<\/p>\n<p>Mas Durov encontrou uma alma g\u00eamea em Zuckerberg, que o convidou para jantar em sua casa naquela noite. Os dois compreendiam \u201ca natureza obsoleta do Estado\u201d, segundo uma cita\u00e7\u00e3o atribu\u00edda a Durov no livro\u00a0<em>Code of Pavel Durov<\/em>\u00a0(O c\u00f3digo de Pavel Durov), de 2012, escrito por Nikolai Kononov, jornalista que trabalhou como editor na vers\u00e3o russa da revista\u00a0<em>Forbes<\/em>.<\/p>\n<p>Segundo o relato de Kononov, Durov e Zuckerberg viam as redes sociais como uma superestrutura colocada sobre a humanidade, que permitia que a informa\u00e7\u00e3o se espalhasse longe do controle centralizador dos governos e dos Estados. Mas Durov achou que Zuckerberg j\u00e1 havia cedido \u00e0s press\u00f5es comerciais e do establishment. \u201cO DNA da empresa \u00e9 definido por Sheryl Sandberg, uma ex-lobista de Washington\u201d, zombou ele. Para Rogozov, que tamb\u00e9m participou do jantar e ficou impressionado com a falta de emo\u00e7\u00f5es do rob\u00f3tico Zuckerberg, a experi\u00eancia de estar em \u201cterrit\u00f3rio inimigo\u201d inspirou-os de um modo espec\u00edfico: \u201cN\u00f3s podemos concorrer com esses caras, certo? Porque eles t\u00eam uma quantidade enorme de recursos e est\u00e3o perguntando pra gente como n\u00f3s fazemos as coisas.\u201d Zuckerberg, por exemplo, queria muito saber como o VK carregava t\u00e3o r\u00e1pido, apesar de ter uma equipe de menos de vinte pessoas, na compara\u00e7\u00e3o com o quadro de funcion\u00e1rios do Facebook, que tinha mil pessoas e continuava em expans\u00e3o. Tamb\u00e9m houve perguntas de ambos os lados sobre como abarcar novos mercados. Rogozov comenta com um sorriso ir\u00f4nico que, n\u00e3o muito depois, o Facebook come\u00e7ou a atender o mercado russo, enquanto o VK lan\u00e7ou uma vers\u00e3o internacional em v\u00e1rias l\u00ednguas.<\/p>\n<p>Em 2010, o VK se mudou para um endere\u00e7o ilustre numa avenida central de S\u00e3o Petersburgo. A nova sede da empresa ficava na Casa Singer, um marco arquitet\u00f4nico com fachada\u00a0<em>art nouveau<\/em>, entradas encimadas por esculturas gigantes de figuras aladas, uma torre com redoma de cobre e vidro, e candelabros ornamentando os tetos. \u201cFicamos muito orgulhosos de trabalhar num lugar daqueles\u201d, diz Lopatin. \u201cMas parecia que a empresa tinha come\u00e7ado a crescer demais.\u201d<\/p>\n<p>Enquanto o VK se tornava de longe a maior rede social da R\u00fassia, seus usu\u00e1rios descaradamente desrespeitavam leis de direitos autorais, publicando e compartilhando filmes e m\u00fasicas pirateados. Mas Durov posava de indiferente. \u201cA melhor coisa da R\u00fassia naquele momento era o fato de que a esfera da internet era completamente desregulamentada\u201d, disse ele, mais tarde, ao\u00a0<em>New York Times<\/em>. \u201cEm certos aspectos, era mais liberal que a dos Estados Unidos.\u201d Pouco tempo depois, por\u00e9m, operar na R\u00fassia se tornou acima de tudo um problema \u2013 um problema que Durov precisou se esfor\u00e7ar para transformar numa vantagem.<\/p>\n<p>Em dezembro de 2011, o partido R\u00fassia Unida, de Vladimir Putin, dominou as elei\u00e7\u00f5es parlamentares em meio a muitas alega\u00e7\u00f5es de fraude. Protestos imensos eclodiram no frio do inverno, e o l\u00edder ativista Alexei Navalny esteve entre as centenas de presos. Certo dia, o administrador de um grupo pr\u00f3-Navalny no VK, que contava com 80 mil membros, reclamou no Twitter que usu\u00e1rios tinham sido bloqueados ao postar na plataforma. Em resposta, Durov disse que sua equipe tinha resolvido o problema. \u201cEst\u00e1 tudo certo\u201d, informou ele, em uma mensagem privada. \u201cNos \u00faltimos dias, a FSB pediu que bloque\u00e1ssemos grupos de oposi\u00e7\u00e3o, incluindo o seu\u201d, disse, referindo-se \u00e0 sucessora da KGB. \u201cN\u00f3s n\u00e3o fazemos esse tipo de coisa por princ\u00edpio. N\u00e3o sei como isso pode acabar para n\u00f3s, mas estamos firmes.\u201d Ent\u00e3o, Durov tomou o ousado passo de tornar p\u00fablico seu conflito com os servi\u00e7os de seguran\u00e7a, publicando no Twitter a carta que a FSB mandara para o VK e, junto, colocou sua \u201cresposta oficial\u201d como principal executivo: uma foto de um cachorro de olhos azuis com um capuz azul e a l\u00edngua de fora.<\/p>\n<p>Houve quem saudasse Durov como her\u00f3i, mas uma fonte que trabalhava no VK na \u00e9poca acredita que ele rapidamente se deu conta de que \u201cse a m\u00eddia fizesse dele o l\u00edder da oposi\u00e7\u00e3o, ele n\u00e3o ia durar muito\u201d. Tendo sido em grande medida invis\u00edvel antes de seu confronto com o Kremlin, Durov come\u00e7ou a cultivar uma imagem p\u00fablica cada vez mais temperamental. Numa carta para um jornal online, afirmou ser apol\u00edtico e brincou que, na verdade, n\u00e3o apoiava a democracia. Em maio de 2012, no dia de um grande festival municipal em S\u00e3o Petersburgo, Durov mais uma vez foi parar nas manchetes. Junto com o vice-presidente do VK, Perekopsky, Durov come\u00e7ou a fazer avi\u00f5ezinhos com notas de 5 mil rublos \u2013 mais ou menos 150 d\u00f3lares, antes da grande desvaloriza\u00e7\u00e3o do rublo ap\u00f3s a invas\u00e3o russa da Ucr\u00e2nia \u2013 e jog\u00e1-los pelas janelas da Casa Singer para a multid\u00e3o que participava do festival l\u00e1 embaixo. Rozenberg se lembra de ver Durov e Perekopsky rindo enquanto as pessoas do lado de fora se engalfinhavam para apanhar o dinheiro.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, o relacionamento de Durov com o Kremlin era mais amb\u00edguo do que parecia. Pouco mais de um ano depois dos protestos, o jornal russo\u00a0<em>Novaya Gazeta<\/em><sup>[7]<\/sup>\u00a0publicou uma suposta carta de Durov para Vladislav Surkov, primeiro chefe de gabinete de Putin na \u00e9poca, considerado o respons\u00e1vel por moldar a estrat\u00e9gia de m\u00eddia do presidente russo. Durov aparentemente assegurava a Surkov que o VK vinha \u201cativamente fornecendo informa\u00e7\u00f5es sobre milhares de usu\u00e1rios de nosso site na forma de endere\u00e7os de IP, n\u00fameros de telefone celular e outras informa\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para sua identifica\u00e7\u00e3o\u201d. Ele tamb\u00e9m alertava o Kremlin que bloquear grupos de oposi\u00e7\u00e3o s\u00f3 os levaria para o Facebook, que estava fora do alcance do governo russo. Embora tenha negado que a carta fosse real, Durov mais tarde reconheceu que ele e Surkov tinham se encontrado v\u00e1rias vezes na sede do VK entre 2009 e 2011.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, dias ap\u00f3s o furo do\u00a0<em>Novaya Gazeta<\/em>, Durov teria se envolvido em um atropelamento e fugido. A v\u00edtima era um policial. Durov negou que estivesse dirigindo o carro, mas brincou com o incidente no VK: \u201cQuando voc\u00ea atropela um policial, \u00e9 importante ir para frente e para tr\u00e1s, at\u00e9 sair tudo que tem l\u00e1 dentro.\u201d Pouco tempo depois, a pol\u00edcia russa fez uma opera\u00e7\u00e3o na sede do VK. \u201cDe repente, vinte homens silenciosos aparecem vestindo jaquetas de couro\u201d, postou Nikolai Durov.<\/p>\n<p>No dia seguinte, veio a p\u00fablico que os dois outros cofundadores do VK tinham vendido sua participa\u00e7\u00e3o na empresa para um fundo de investimentos russo chamado United Capital Partners. Pavel Durov fez tudo isso parecer parte de um ataque coordenado ligado ao Kremlin, e a imprensa ocidental engoliu a hist\u00f3ria com farinha \u2013 pouco importava o fato de que Durov estava em conflito aberto com seus cofundadores havia meses, desde que descobriu que os dois estavam, sigilosamente, negociando a venda de sua participa\u00e7\u00e3o. Quando Durov deixou de comparecer a uma audi\u00eancia judicial relacionada ao atropelamento, houve relatos de que ele tinha ido embora da R\u00fassia e estava nos Estados Unidos \u2013 especificamente, na sede de uma empresa chamada Digital Fortress, em Buffalo, no estado de Nova York. Corriam boatos de que Durov estava criando uma nova rede social nos Estados Unidos. E ent\u00e3o, em 14 de agosto de 2013, um novo aplicativo apareceu na iTunes Store: o Telegram.<\/p>\n<p>O logotipo do Telegram \u00e9 um avi\u00e3o de papel, lembrando os rublos que voaram sobre a multid\u00e3o na Casa Singer. A desenvolvedora que assinou o aplicativo \u00e9 a Digital Fortress, cujo propriet\u00e1rio nominal era David \u201cAxel\u201d Neff, um norte-americano que conheceu Perekopsky durante os primeiros anos dele nos Estados Unidos. E a arquitetura se baseava em um protocolo de dados customizado chamado MTProto, desenvolvido por Nikolai Durov. Andrei Lopatin diz ter come\u00e7ado a ajudar Nikolai na escrita do protocolo em 2012. Agora, com o lan\u00e7amento oficial do Telegram, Pavel Durov convidou Lopatin para ser o diretor executivo de uma empresa-m\u00e3e russa, batizada de Telegraph, \u201conde trabalhavam todos os desenvolvedores do Telegram\u201d, de acordo com Lopatin. Enquanto isso, Pavel continuava como diretor executivo do VK.<\/p>\n<p>As duas empresas, na verdade, estavam inexoravelmente interligadas. Nikolai deixou seu cargo no VK para se concentrar no Telegram, mas Rozenberg diz que ele nem chegou a mudar de sala na Casa Singer. De acordo com Rozenberg, que assumiu no lugar de Nikolai como novo chefe da parte t\u00e9cnica do VK, alguns funcion\u00e1rios ficaram confusos, sem saber quais espa\u00e7os pertenciam a qual empresa.<\/p>\n<p>Em suas descri\u00e7\u00f5es iniciais do Telegram, Pavel Durov frequentemente citava as revela\u00e7\u00f5es de Edward Snowden sobre softwares espi\u00f5es usados por governos e afirmava que ele e Nikolai tinham criado o aplicativo a partir de preocupa\u00e7\u00f5es com a vigil\u00e2ncia do governo russo. Al\u00e9m dos\u00a0<em>chats<\/em>\u00a0normais, uma fun\u00e7\u00e3o de \u201c<em>chats<\/em>\u00a0secretos\u201d usaria criptografia de ponta a ponta e armazenaria mensagens localmente nos dispositivos do usu\u00e1rio. Os servidores de nuvem do aplicativo, onde todas as demais mensagens eram armazenadas, seriam espalhados por v\u00e1rias jurisdi\u00e7\u00f5es para dificultar que um governo, sozinho, pudesse for\u00e7ar o Telegram a entregar alguma informa\u00e7\u00e3o; a propriedade da empresa, do mesmo modo, seria dividida entre v\u00e1rias empresas criadas para esse fim. No entanto, Durov tamb\u00e9m dizia que o Telegram continuaria sendo um aplicativo sem fins lucrativos para evitar press\u00f5es legais e comerciais.<\/p>\n<p>Com o Telegram come\u00e7ando a decolar rapidamente em todos os continentes, a nova acionista majorit\u00e1ria do VK, a United Capital Partners, parecia olhar com ci\u00fames para o novo aplicativo. A empresa acusou Durov de despesas irregulares e de desenvolver o Telegram usando recursos do VK. Durov, por sua vez, come\u00e7ou a\u00a0reunir o n\u00facleo de desenvolvedores mais leais a ele, dizendo que a nova propriet\u00e1ria do VK era \u201cuma empresa do Kremlin\u201d e que era inimiga deles. Em janeiro de 2014, Perekopsky deixou seu cargo no VK depois de uma discuss\u00e3o com Durov. (Perekopsky diz que n\u00e3o pode falar sobre o que aconteceu, por motivos legais, mas admite que houve um conflito e que eles \u201cdiscordaram\u201d.)<\/p>\n<p>O que veio a seguir foi uma longa batalha na Justi\u00e7a pelo controle do VK e do Telegram. Em uma tentativa de se apossar do Telegram, a United Capital Partners comprou de Neff, o amigo norte-americano de Perekopsky, tr\u00eas das empresas que tinham sido criadas para serem propriet\u00e1rias do novo aplicativo. Durov disse que Neff o \u201ctraiu\u201d. (Neff recusou pedidos de entrevista para comentar o tema.)<\/p>\n<p>Com o controle do Telegram em jogo, Durov tomou uma atitude dr\u00e1stica. Em abril de 2014, ele e sua equipe entraram em uma s\u00e9rie de avi\u00f5es e voaram de S\u00e3o Petersburgo para Amsterd\u00e3, Nova York, Buffalo, Washington e Boston para visitar pessoalmente os centros de dados que abrigavam os servidores do Telegram \u2013 e para ter certeza de que a United Capital Partners n\u00e3o teria acesso a eles. Lopatin se lembra da viagem como algo fren\u00e9tico, e eles terminaram em cima da hora. Depois que o \u00faltimo voo pousou, Durov soube que finalmente tinha sido demitido do VK.<\/p>\n<p>Mais tarde, Durov passou a dizer que seu advers\u00e1rio n\u00e3o era uma \u00fanica empresa de investimentos, mas sim um regime inteiro. \u201cEstou fora da R\u00fassia e n\u00e3o tenho planos de voltar\u201d, ele disse ao jornal digital\u00a0<em>TechCrunch<\/em>\u00a0em Dubai. \u201cInfelizmente, o pa\u00eds \u00e9 incompat\u00edvel com o neg\u00f3cio da internet no momento.\u201d Ele chegou a obter cidadania da min\u00fascula ilha caribenha de S\u00e3o Crist\u00f3v\u00e3o e N\u00e9vis. Por\u00e9m, embora Durov alegasse para a imprensa que o Kremlin o expulsou do VK e da R\u00fassia, m\u00faltiplas fontes familiarizadas com a hist\u00f3ria da sa\u00edda de Durov do VK disseram que os supostos elos entre a United Capital Partners e o Kremlin eram insignificantes. \u201cA maior parte das grandes e m\u00e9dias corpora\u00e7\u00f5es \u00e9 favor\u00e1vel ao Kremlin; nada de novo nisso\u201d, diz Steve Korshakov, programador e empreendedor que entrou para o Telegram em 2013.<\/p>\n<p>Em todo caso, Durov acabou conseguindo o que queria \u2013 controle pleno do Telegram \u2013 em parte por meio da intercess\u00e3o de um aliado ainda mais poderoso do Kremlin. Em janeiro de 2014, Durov tinha vendido sua participa\u00e7\u00e3o no VK para um empres\u00e1rio chamado Ivan Tavrin, que, por sua vez, vendeu essas a\u00e7\u00f5es para um gigante da internet chamado Mail.ru Group, que acabou comprando a parte da United Partners Capital por 1,5 bilh\u00e3o de d\u00f3lares em 2014. Como parte do neg\u00f3cio, a United Partners Capital concordou em abrir m\u00e3o de suas pretens\u00f5es sobre o Telegram. De acordo com Tavrin, a ren\u00fancia aconteceu, em grande medida, gra\u00e7as a um dos acionistas controladores do Mail.ru, Alisher Usmanov, um dos mais ricos empres\u00e1rios da R\u00fassia, que, assim como muitos oligarcas do pa\u00eds, tinha la\u00e7os com o Kremlin.<\/p>\n<p>\u201cSem a ajuda de Usmanov, Durov n\u00e3o seria dono do Telegram hoje\u201d, diz Tavrin, que insiste em dizer que a sa\u00edda de Durov do VK teve a ver apenas com neg\u00f3cios, n\u00e3o com pol\u00edtica. \u201cPavel \u00e9 o rei das rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e do marketing. Provavelmente um dos melhores no mundo. Eu acho que ele queria fazer o papel de bonzinho para o Ocidente.\u201d<\/p>\n<p>Se os integrantes da equipe de Durov no Telegram tinham esperan\u00e7as de navegar num barco mais est\u00e1vel agora que ele era dono inconteste da empresa, estavam errados. As rela\u00e7\u00f5es do fundador da empresa com alguns dos funcion\u00e1rios continuaram a se deteriorar. Em outubro de 2014, Andrei Lopatin, que conhecia os Durov desde os 11 anos de idade, foi expulso do cargo de diretor executivo da Telegraph, a empresa-m\u00e3e do Telegram. Por algum motivo, Lopatin diz, Durov tinha come\u00e7ado a fazer bullying com ele. \u201cAt\u00e9 hoje eu n\u00e3o entendi o motivo\u201d, diz. E Steve Korshakov, que tinha entrado para o Telegram para desenvolver a vers\u00e3o do aplicativo para Android, se viu numa disputa com Durov depois de menos de um ano na fun\u00e7\u00e3o. Korshakov atribuiu isso ao estilo de lideran\u00e7a do fundador da empresa, explicando que Durov basicamente quer que seus empregados se concentrem em agrad\u00e1-lo: \u201cVoc\u00ea tem que descobrir do que ele gosta.\u201d<\/p>\n<p>Mundo afora, o mito de cria\u00e7\u00e3o do Telegram se espalhava numa vers\u00e3o mais afiada e mais pitoresca. Em uma entrevista de dezembro de 2014 ao\u00a0<em>New York Times<\/em>, Durov afirmou que a inspira\u00e7\u00e3o para o Telegram surgiu quando uma \u201cequipe da Swat\u201d visitou seu apartamento depois que ele enfrentou a FSB em dezembro de 2011. Com homens armados \u00e0 espreita do lado de fora da casa, ele ligou para seu irm\u00e3o. \u201cEu percebi que n\u00e3o tinha um meio de comunica\u00e7\u00e3o com ele\u201d, disse Durov ao jornal. \u201cFoi assim que o Telegram come\u00e7ou.\u201d<\/p>\n<p>Em entrevistas, Durov retrataria o Telegram como uma empresa distribu\u00edda por v\u00e1rios pa\u00edses, que n\u00e3o ficava sob a jurisdi\u00e7\u00e3o de nenhuma na\u00e7\u00e3o, nem exposta aos aparatos oficiais de seguran\u00e7a \u2013 e, acima de tudo, ficava fora do alcance da R\u00fassia de Putin. Ele retratou a si mesmo na entrevista ao\u00a0<em>New York Times<\/em>\u00a0como um \u201cexilado\u201d, uma vers\u00e3o que seria reproduzida em in\u00fameras reportagens. O jornal o descreveu como um \u201cn\u00f4made, que fica poucas semanas em cada pa\u00eds, acompanhado por um pequeno grupo de programadores\u201d. O Instagram de Durov parecia corroborar isso, com fotos de hot\u00e9is glamorosos e pontos tur\u00edsticos dos lugares que visitava \u2013 Beverly Hills, Paris, Londres, Roma, Veneza, Bali, Helsinque.<\/p>\n<p>A realidade das opera\u00e7\u00f5es di\u00e1rias do Telegram, por\u00e9m, era consideravelmente mais tediosa: Durov continuava alugando uma parte da Casa Singer. Lopatin, o antigo executivo da Telegraph, diz que o fundador da empresa voltou para a R\u00fassia no segundo semestre de 2014: \u201cQuando sa\u00ed do Telegram, ele estava na Casa Singer todos os dias \u00fateis. Todos os membros da equipe tamb\u00e9m estavam na R\u00fassia.\u201d Outros funcion\u00e1rios do VK e do Telegram, na \u00e9poca, confirmam que Pavel Durov estava frequentemente na Casa Singer. Nikolai, que finalmente sa\u00edra do apartamento da m\u00e3e, trabalhava de um flat ali perto, segundo Anton Rozenberg, que o ajudou a mobiliar a casa nova. Rozenberg, que ficou sem emprego depois de se demitir do VK em solidariedade a Pavel, diz que costumava se encontrar com Nikolai nessa \u00e9poca para ir ao cinema ou jogar jogos de tabuleiro. Lopatin diz que, antes de ser demitido, a equipe viajava para o exterior algumas vezes, todos juntos, mas na maior parte do tempo todos estavam em S\u00e3o Petersburgo.<\/p>\n<p>O mito, se \u00e9 que se pode chamar assim, sem d\u00favida ajudou a promover o Telegram internacionalmente. No in\u00edcio de 2016, o aplicativo se aproximava de 100 milh\u00f5es de usu\u00e1rios. E o n\u00facleo central da equipe do Telegram se empenhava para fazer atualiza\u00e7\u00f5es constantes, que possibilitariam a ades\u00e3o de mais usu\u00e1rios de outros aplicativos de mensagem. Esse trabalho por vezes tamb\u00e9m atra\u00eda outros empreendedores da \u00e1rea de tecnologia. Elies Campo entrou para a empresa no in\u00edcio de 2015, depois de conseguir, por meio de um amigo comum, uma reuni\u00e3o com Pavel Durov em Palo Alto. (\u201cEra dif\u00edcil conseguir falar com ele\u201d, lembra Campo, que chegou a desconfiar que Durov suspeitava que ele era um espi\u00e3o do WhatsApp.) Desde o come\u00e7o, Campo viu seu novo chefe como um \u201cvision\u00e1rio\u201d: \u201cAcho que, entre todas as pessoas que conheci, ele tem o modo mais sofisticado de conceber um produto.\u201d<\/p>\n<p>Segundo Campo, era \u201cmuito empolgante ver como Pavel pensava nos servi\u00e7os de mensagens e em todas as caracter\u00edsticas que ele queria implantar\u201d. Somente em 2015, a pequena equipe do Telegram criou uma plataforma para que os usu\u00e1rios pudessem criar e publicar seus pr\u00f3prios\u00a0<em>chatbots<\/em>; acrescentaram aos grupos de\u00a0<em>chats<\/em>\u00a0as fun\u00e7\u00f5es de responder, citar e criar hashtags; adicionaram um\u00a0<em>player<\/em>\u00a0de v\u00eddeo e um novo editor de fotos; e, pela primeira vez, lan\u00e7aram canais p\u00fablicos para quem quisesse transmitir para uma quantidade ilimitada de seguidores. Apenas o Facebook, com sua equipe muito maior, estava acrescentando fun\u00e7\u00f5es num ritmo semelhante.<\/p>\n<p>Campo se lembra desses tempos como um momento din\u00e2mico. Ele continuou morando em Palo Alto, e acompanhava os desenvolvedores do aplicativo, basicamente russos, em suas excurs\u00f5es ocasionais pelo mundo, inclusive para sua cidade natal, Barcelona. \u201cA equipe toda viajava junto\u201d, diz ele. Para Campo, em outras palavras, o mito era verdade. Ecoando a ret\u00f3rica de seu chefe, ele dizia que o lugar do Telegram \u201cn\u00e3o \u00e9 um pa\u00eds, ele \u00e9 um produto global\u201d.<\/p>\n<p>Em 2016, Rozenberg tamb\u00e9m entrou para o Telegram, com a tarefa de combater\u00a0<em>spams<\/em>. Sem os conflitos entre acionistas que foram uma tortura na era do VK, diz Rozenberg, aquele era \u201cum emprego dos sonhos\u201d. Mas, em janeiro de 2017, ele teve uma discuss\u00e3o dram\u00e1tica com seu amigo Nikolai. Rozenberg diz que tinha a ver com uma disputa rom\u00e2ntica, e Nikolai queria que ele fosse embora. (Nikolai n\u00e3o respondeu aos pedidos de coment\u00e1rios.)<\/p>\n<p>Rozenberg diz que Pavel manifestou certa compaix\u00e3o pela situa\u00e7\u00e3o dele. Mas n\u00e3o iria tomar partido contra o irm\u00e3o. Em abril, depois de se recusar a pedir demiss\u00e3o, Rozenberg foi demitido por \u201cn\u00e3o comparecimento ao trabalho\u201d. Com isso, mais um antigo colega e amigo dos Durov foi deixado pelo caminho. Mas Rozenberg n\u00e3o ficou quieto. Em setembro de 2017, divulgou um relato de seu tempo com os Durov na plataforma de publica\u00e7\u00f5es online\u00a0<em>Medium<\/em>, expondo algumas das supostas contradi\u00e7\u00f5es do Telegram, a come\u00e7ar pelo endere\u00e7o: por que os funcion\u00e1rios de um exilado russo, que trabalhavam em uma empresa espalhada por v\u00e1rios pa\u00edses, continuavam tendo sua sede na R\u00fassia?<\/p>\n<p>Em resposta, Durov disse \u00e0 imprensa russa que Rozenberg, na verdade, trabalhara para a Telegraph. E descreveu a Telegraph como uma empresa completamente independente para a qual o Telegram terceirizava o trabalho de modera\u00e7\u00e3o. Disse ainda que a equipe do Telegram havia se encontrado pela \u00faltima vez na Casa Singer no come\u00e7o de 2015, e insinuou que Rozenberg sofria de \u201cuma doen\u00e7a mental\u201d. No entanto, em sua disputa com a United Capital Partners em 2014, o pr\u00f3prio Durov revelara seus elos com a Telegraph, sediada na R\u00fassia, em documentos que apresentou aos tribunais. Rozenberg tamb\u00e9m compartilhou comigo mensagens que parecem demonstrar que Durov o considerava seu empregado.<\/p>\n<p>Mais problem\u00e1tica, por\u00e9m, talvez fosse a alega\u00e7\u00e3o de Rozenberg de que seu hist\u00f3rico de conversas pelo Telegram sumiu durante seu conflito com os irm\u00e3os Durov. Os\u00a0<em>chats<\/em>\u00a0foram magicamente restabelecidos na manh\u00e3 seguinte, e Pavel atribuiu tudo a uma pequena falha mec\u00e2nica. Mas Rozenberg ficou pensando se Nikolai n\u00e3o estava por tr\u00e1s da exclus\u00e3o das mensagens. At\u00e9 onde o Telegram era de fato seguro se uma disputa f\u00fatil bastava para colocar em risco a informa\u00e7\u00e3o de um usu\u00e1rio? Diz Rozenberg: \u201cTodos os seus\u00a0<em>chats<\/em>, \u00e0 exce\u00e7\u00e3o dos\u00a0<em>chats<\/em>\u00a0secretos, absolutamente todos os grupos, todos os canais, est\u00e3o armazenados nos servidores do aplicativo. Portanto, o Telegram tem acesso a essas informa\u00e7\u00f5es.\u201d<\/p>\n<p>\u00c0 medida que o Telegram se tornava imensamente popular em pa\u00edses com regimes opressivos, como o Ir\u00e3, peritos em seguran\u00e7a tamb\u00e9m come\u00e7aram a questionar a arquitetura de privacidade do aplicativo. \u201cO Telegram vai enfrentar uma press\u00e3o cada vez maior ao longo do tempo para colaborar com as exig\u00eancias do governo iraniano\u201d, tuitou Edward Snowden no fim de 2017, afirmando que o compromisso moral de Pavel Durov de proteger os usu\u00e1rios n\u00e3o era suficiente para enfrentar aquele tipo de press\u00e3o. Imitando o discurso do fundador do Telegram, o antigo her\u00f3i de Durov tuitou: \u201cConfie que n\u00e3o vamos entregar os dados. Confie que n\u00f3s n\u00e3o lemos suas mensagens. Confie que n\u00e3o vamos fechar seu canal\u201d, escreveu ele, completando em seguida: \u201cPode ser que @Durov seja um anjo. Tor\u00e7o que seja! Mas j\u00e1 houve anjos que ca\u00edram.\u201d<\/p>\n<p>Mais ou menos nessa \u00e9poca, Durov mudou a base oficial do Telegram para Dubai, finalmente cortando os la\u00e7os de longa data dos irm\u00e3os com a Casa Singer e resolvendo algumas das aparentes contradi\u00e7\u00f5es no relacionamento com a R\u00fassia. Mas era dif\u00edcil saber se as controv\u00e9rsias levantadas por Snowden e pelo post de Rozenberg n\u00e3o tinham causado danos ao crescimento do Telegram. O aplicativo agora estava perto de 200 milh\u00f5es de usu\u00e1rios, que enviavam 70 bilh\u00f5es de mensagens por dia. O Telegram tinha uma popularidade fenomenal na \u00c1sia, na Am\u00e9rica Latina e, cada vez mais, na Europa.<\/p>\n<p>O aplicativo continuava sendo gratuito para os usu\u00e1rios, sem an\u00fancios. Mas prestar suporte para 200 milh\u00f5es de usu\u00e1rios n\u00e3o \u00e9 barato. Durov tinha sa\u00eddo do VK com 300 milh\u00f5es de d\u00f3lares, segundo foi divulgado, mas continuava bancando pessoalmente o aplicativo havia quatro anos. O Telegram precisava encontrar um modo de pagar por seus crescentes custos de servidor. Vender participa\u00e7\u00f5es na empresa e se arriscar a ter mais batalhas \u00e9picas entre acionistas n\u00e3o parecia atraente. Mas Durov n\u00e3o tinha como continuar financiando o Telegram para sempre. E, por isso, come\u00e7ou a bolar um plano novo e ousado.<\/p>\n<p>Em junho de 2017, Ilya Perekopsky estava dirigindo um Mercedes convers\u00edvel pelas curvas de uma estrada do Sul da Fran\u00e7a, em f\u00e9rias, quando viu uma mensagem pipocar no celular. Era Pavel Durov. Seu antigo amigo, ex-chefe e ex-advers\u00e1rio estava sugerindo que os dois fizessem uma reuni\u00e3o formal. Nos \u00faltimos anos, Perekopsky vinha investindo no mercado de criptomoedas. De tempos em tempos, ele enviava links para Durov: \u201cEu era uma esp\u00e9cie de evangelizador das criptomoedas\u201d, diz Perekopsky. Agora, ele estava feliz da vida em ler a mensagem: Durov queria se encontrar para discutir a cria\u00e7\u00e3o de um novo neg\u00f3cio naquela \u00e1rea.<\/p>\n<p>Eles marcaram de se encontrar em Paris, onde, segundo Perekopsky, era comum que Durov passasse algum tempo durante o ver\u00e3o. Desde o primeiro encontro, Perekopsky percebeu que o projeto de Durov n\u00e3o tinha precedentes em termos de escala. \u201cEle simplesmente acreditava na ideia de criar uma criptomoeda de fato voltada para o mercado de massa que circularia entre as pessoas sem o envolvimento dos bancos\u201d, diz Perekopsky. Ao longo dos meses seguintes, eles se encontraram v\u00e1rias vezes em Paris e Dubai \u00e0 medida que o plano de Durov se cristalizava. Em outubro de 2017, Durov tinha oficialmente colocado Perekopsky de volta ao time para \u201cajudar a liderar\u201d o novo projeto.<\/p>\n<p>Havia pouco, Perekopsky levantara 30 milh\u00f5es de d\u00f3lares para uma plataforma de troca de criptomoedas chamada Blackmoon. E apresentou Durov para John Hyman, um brit\u00e2nico veterano na \u00e1rea de bancos de investimento. Hyman entrou para o pequeno time que estava tratando da parte de neg\u00f3cios do novo projeto. Passou a ser o conselheiro-chefe da \u00e1rea de investimento do Telegram. Em meados de dezembro, Durov voou para Londres para encontrar os dois e finalizar os detalhes, e Hyman come\u00e7ou a marcar reuni\u00f5es com potenciais investidores durante a visita. Pouco depois, o plano se tornou p\u00fablico.<\/p>\n<p>Eles pretendiam construir uma nova plataforma de\u00a0<em>blockchain<\/em>\u00a0\u2013 a tecnologia que registra as transa\u00e7\u00f5es em criptomoedas dos usu\u00e1rios \u2013 chamada Telegram Open Network, com uma criptomoeda representada pelo\u00a0<em>token<\/em>\u00a0Gram. O c\u00e9rebro por tr\u00e1s da TON, Nikolai Durov, era descrito no panfleto da nova plataforma como \u201cum guru de sistemas de processamento distribu\u00eddos\u201d. O sistema que Nikolai projetara prometia ser mais r\u00e1pido do que as atuais tecnologias de\u00a0<em>blockchain<\/em>. Enquanto os\u00a0<em>tokens<\/em>\u00a0Bitcoin e a Ethereum tinham limite de 7 e 15 transa\u00e7\u00f5es por segundo, respectivamente, a propaganda da TON prometia milh\u00f5es de transa\u00e7\u00f5es por segundo. O plano ambicioso testaria at\u00e9 o limite os desenvolvedores do Telegram.<\/p>\n<p>A ideia era aproveitar a imensa base de usu\u00e1rios do aplicativo e prover a \u201cmassa cr\u00edtica para levar as criptomoedas a serem adotadas em grande escala\u201d. At\u00e9 ent\u00e3o, elas tinham ficado limitadas \u00e0s pessoas com paci\u00eancia e conhecimento para criar carteiras digitais e se inscrever em plataformas de troca de criptomoedas. Mas, com carteiras digitais embutidas diretamente no aplicativo do Telegram \u2013 como o Facebook Pay, s\u00f3 que para criptomoedas \u2013, a TON pretendia conectar instantaneamente milh\u00f5es de usu\u00e1rios comuns ao\u00a0<em>blockchain<\/em>. Transformaria a criptomoeda em algo comum de uma hora para outra. Em \u00faltima inst\u00e2ncia, a TON se tornaria \u201cuma alternativa Visa\/Mastercard para a nova economia descentralizada\u201d. Para exibir as credenciais do Telegram em sistemas distribu\u00eddos, a propaganda ressaltava as redes de servidores independentes da empresa espalhados por diferentes continentes e jurisdi\u00e7\u00f5es. Ao final do processo, o objetivo era fazer com que a TON sa\u00edsse das m\u00e3os do Telegram e passasse para as m\u00e3os da \u201ccomunidade global de c\u00f3digo aberto\u201d.<\/p>\n<p>Parecia uma trama ut\u00f3pica que revolucionaria o pr\u00f3prio modo como o dinheiro funcionava. \u201cA ideia era mesmo mudar o mundo\u201d, diz Perekopsky. O plano tamb\u00e9m resolveria o maior enigma do Telegram: como conseguir dinheiro sem abrir m\u00e3o do controle. Em vez de vender a\u00e7\u00f5es para investidores, Durov ia criar sua pr\u00f3pria moeda \u2013 ou, na verdade, toda uma nova economia integrada, que giraria em torno do Telegram.<\/p>\n<p>Hyman estava maravilhado com o modo como a equipe do aplicativo funcionava. Ele diz que jamais tinha visto algo parecido. No Morgan Stanley \u2013 empresa global de servi\u00e7os financeiros \u2013, onde Hyman trabalhou em cargos importantes durante dezessete anos, um projeto como esse mobilizaria uma equipe quarenta vezes maior. \u201cE eles n\u00e3o teriam feito melhor\u201d, diz. Os investidores ficaram em \u00eaxtase. Eles \u201cgostavam da natureza centralizada do processo\u201d, segundo Hyman. \u201cEra muito eficiente. N\u00f3s pod\u00edamos avan\u00e7ar mais r\u00e1pido e tomar decis\u00f5es de forma mais veloz.\u201d Para Hyman, era um exemplo da paix\u00e3o que Durov tinha por romper com as burocracias que travavam o fluxo de informa\u00e7\u00f5es e finan\u00e7as.<\/p>\n<p>Novas criptomoedas costumam ser lan\u00e7adas por meio de uma oferta inicial, colocando \u00e0 venda\u00a0<em>tokens<\/em>\u00a0da moeda, como se fossem a\u00e7\u00f5es de uma empresa que est\u00e1 abrindo seu capital. O Telegram captou 1,7 bilh\u00e3o de d\u00f3lares \u2013 na \u00e9poca, o maior ICO da hist\u00f3ria<sup>[8]<\/sup>\u00a0\u2013 de 175 investidores. Mas sinais de alerta estavam piscando desde o come\u00e7o. Embora a empresa de in\u00edcio tenha anunciado uma oferta p\u00fablica, o ICO acabou sendo privado. N\u00e3o havia muito como saber quem eram os investidores privados, nem de onde o dinheiro tinha vindo. Em resposta a um colega empres\u00e1rio que perguntou sobre a quest\u00e3o, Hyman escreveu: R\u00fassia, Israel e o \u201cf\u00e3-clube do Pavel\u201d.<\/p>\n<p>Mas as metas do projeto n\u00e3o estavam sendo atingidas. Durov disse a um amigo e investidor que a equipe de tecnologia do Telegram, que se dividia entre o trabalho no aplicativo e na TON, era pequena demais. \u00c9 uma forma de subestimar bastante o problema. Na \u00e9poca, o Telegram estava lutando contra uma suspens\u00e3o na R\u00fassia porque a empresa se recusara a entregar suas chaves de criptografia para os servi\u00e7os de seguran\u00e7a. Num dram\u00e1tico jogo de gato e rato, a ag\u00eancia russa respons\u00e1vel pela regula\u00e7\u00e3o das telecomunica\u00e7\u00f5es acabou bloqueando boa parte da internet na R\u00fassia em um caso gigantesco de danos colaterais, mas o Telegram \u2013 provavelmente por meio de uma t\u00e9cnica chamada\u00a0<em>domain fronting<\/em>, que oculta a fonte do tr\u00e1fego de internet \u2013 conseguiu manter sua plataforma acess\u00edvel aos russos quase sem interrup\u00e7\u00e3o. (Mais tarde, quando o regime de Alexander Lukashenko derrubou a internet no dia das elei\u00e7\u00f5es na Belarus, o Telegram usou t\u00e9cnicas \u201canticensura\u201d semelhantes para permanecer online, e acabou se transformando no principal meio de comunica\u00e7\u00e3o durante um per\u00edodo de agita\u00e7\u00e3o no pa\u00eds.)<\/p>\n<p>A rede de teste da TON finalmente foi colocada online em janeiro de 2019, com meio ano de atraso. Mas \u00e0 medida que o lan\u00e7amento oficial se aproximava \u2013 o que significava que os investidores seriam autorizados a vender seus\u00a0<em>grams<\/em>\u00a0\u2013 a Comiss\u00e3o de Valores Mobili\u00e1rios dos Estados Unidos (SEC, na sigla em ingl\u00eas) fez tudo parar.<\/p>\n<p>A SEC alegou que a revenda de\u00a0<em>grams<\/em>\u00a0equivaleria \u00e0 distribui\u00e7\u00e3o de t\u00edtulos n\u00e3o registrados. Tamb\u00e9m criticou a TON por servir como um meio clandestino para levantar fundos. Afirmou, ainda, que a empresa gastara 90% do 1,7 bilh\u00e3o de d\u00f3lares que obteve com o ICO, tendo pago despesas do Telegram sem jamais fazer distin\u00e7\u00e3o entre o dinheiro gasto no aplicativo e o gasto na TON. E-mails tamb\u00e9m demonstravam que Hyman estava ciente de que j\u00e1 havia um mercado semiclandestino de revenda de\u00a0<em>grams<\/em>\u00a0antes do lan\u00e7amento, embora isso fosse proibido pelo acordo assinado pelos investidores.<\/p>\n<p>\u201cFoi um choque\u201d, diz Perekopsky, referindo-se ao processo da SEC. \u201cFoi um dos dias mais decepcionantes da minha vida.\u201d Perekopsky alega que eles estavam em contato com a comiss\u00e3o norte-americana durante todo o processo e que o Telegram tinha contratado \u201cos melhores escrit\u00f3rios de advocacia do mundo\u201d para se certificar de que estava seguindo as normas. Perekopsky tamb\u00e9m rejeita a ideia de que a TON era meramente um ve\u00edculo para levantar dinheiro para o Telegram. Ele afirma que havia meios \u201cmais f\u00e1ceis\u201d de conseguir dinheiro do que construir uma\u00a0<em>blockchain<\/em>\u00a0do zero.<\/p>\n<p>Pavel Cherkashin, russo que morava em S\u00e3o Francisco e investiu na TON, foi um dos muitos que se sentiram tra\u00eddos. \u201cO que me deixou furioso foi entender que Durov pegou o dinheiro que levantou para a TON e usou para manter o Telegram, que n\u00e3o ia trazer valor nenhum para os investidores\u201d, diz ele. Do ponto de vista de Cherkashin, Durov tinha o conhecimento t\u00e9cnico e a vis\u00e3o de produto para fazer a TON funcionar, mas falhou na hora de construir a infraestrutura necess\u00e1ria para que o neg\u00f3cio fosse bem-sucedido \u2013 por n\u00e3o querer abrir m\u00e3o do controle. J\u00e1 Perekopsky n\u00e3o v\u00ea problemas em usar o dinheiro da TON para pagar as despesas correntes do Telegram. \u201cFalando francamente, a gente nunca escondeu o fato de que o dinheiro seria usado tanto para o Telegram quanto para o\u00a0<em>blockchain<\/em>\u201d, diz ele.<\/p>\n<p>De in\u00edcio, segundo Perekopsky, Durov n\u00e3o estava disposto a desistir. \u201cAch\u00e1vamos que dava para brigar e ganhar na Justi\u00e7a j\u00e1 que est\u00e1vamos 100% certos\u201d, lembra Perekopsky. Mas depois que a SEC norte-americana interrogou Durov por dois dias em Dubai, ficou claro que o plano tinha chegado ao fim. \u201cOs Estados Unidos usam seu controle sobre o d\u00f3lar e sobre o sistema financeiro global para fechar qualquer banco ou conta banc\u00e1ria no mundo\u201d, Durov escreveu mais tarde, acrescentando que \u201coutros pa\u00edses n\u00e3o t\u00eam plena soberania sobre o que permitem em seu territ\u00f3rio\u201d. Ele p\u00f4s a culpa pela derrocada da TON em um \u201cmundo excessivamente centralizado\u201d. N\u00e3o passou nem perto de pedir desculpas.<\/p>\n<p>Hyman acha que os reguladores podem ter ido atr\u00e1s da TON porque era \u201crealmente um tipo de amea\u00e7a disruptiva\u201d \u00e0s institui\u00e7\u00f5es financeiras tradicionais. Na verdade, a SEC estava de olho em ICOs em geral desde 2017, impondo multas a alguns e encerrando as atividades de outros. Por\u00e9m, nenhum deles tinha atra\u00eddo tanto investimento quanto a TON, o que daria a milh\u00f5es de usu\u00e1rios comuns do Telegram acesso f\u00e1cil a uma criptomoeda. Cherkashin acha que n\u00e3o foi coincid\u00eancia que o Facebook tenha come\u00e7ado a trabalhar para valer em sua pr\u00f3pria criptomoeda e em seu\u00a0<em>blockchain<\/em>\u00a0mais ou menos na mesma \u00e9poca do Telegram. Ele ouviu rumores de que Zuckerberg ficou furioso ao ler pela primeira vez sobre a TON. Ao emitir uma moeda, uma plataforma de m\u00eddias sociais romperia com uma das mais importantes fun\u00e7\u00f5es do Estado-na\u00e7\u00e3o. Durov e Zuckerberg teriam percebido isso de maneira muito clara.<\/p>\n<p>Depois do fracasso da TON, Perekopsky permaneceu no Telegram como vice-presidente. Em mar\u00e7o de 2021, ele ajudou a conseguir mais de 1 bilh\u00e3o de d\u00f3lares com a venda de t\u00edtulos de cinco anos no Telegram, sendo que parte do dinheiro foi usada para pagar investidores \u2013 embora investidores norte-americanos, inclusive Cherkashin, tenham recebido apenas 72%. No in\u00edcio da TON, a propaganda era cheia de idealismo. \u201cO Telegram foi fundado em 2013 por libert\u00e1rios para preservar a liberdade por meio da criptografia\u201d, explicava o texto, mencionando a Wikip\u00e9dia como \u201cum modelo para os fundadores do Telegram\u201d. A investiga\u00e7\u00e3o da SEC, no entanto, fez com que a TON parecesse mais com uma sofisticada m\u00e1quina de fazer dinheiro.<\/p>\n<p>Em julho de 2021, uma investiga\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica internacional sobre o uso que v\u00e1rios governos vinham fazendo do Pegasus, um software espi\u00e3o produzido pela empresa israelense NSO Group, informou que um dos n\u00fameros de telefone de Durov tinha sido alvo da ferramenta digital de espionagem. A investiga\u00e7\u00e3o, batizada de Projeto Pegasus, sugeria que provavelmente os clientes eram os governantes dos Emirados \u00c1rabes Unidos.<\/p>\n<p>Para peritos em seguran\u00e7a, a not\u00edcia serviu como um lembrete de que, ao mudar da R\u00fassia para Dubai em 2017, o Telegram tinha apenas mudado de jurisdi\u00e7\u00e3o autorit\u00e1ria. Mas Durov n\u00e3o pareceu incomodado. Desde que morava na R\u00fassia, em 2011, ele dizia presumir que seus telefones estavam \u201ccomprometidos\u201d e, por isso, tomava as devidas precau\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>De modo geral, Durov n\u00e3o tem demonstrado em rela\u00e7\u00e3o aos Emirados \u00c1rabes Unidos, um regime acusado de in\u00fameros e sist\u00eamicos abusos contra os direitos humanos, aquele mesmo antagonismo que demonstrara anteriormente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 R\u00fassia. Perekopsky me garantiu que, em Dubai, o Telegram jamais havia passado por qualquer tipo de press\u00e3o, por mais leve que fosse. Por isso, ele era s\u00f3 elogios aos l\u00edderes dos Emirados. \u201cN\u00e3o parece um governo\u201d, disse. \u201cParece mais um grupo de empres\u00e1rios dirigindo o pa\u00eds. S\u00e3o muito pragm\u00e1ticos, muito r\u00e1pidos para tomar decis\u00f5es.\u201d<\/p>\n<p>\u00c0 medida que os confrontos com o Kremlin iam se tornando coisa do passado, a vigil\u00e2ncia autorit\u00e1ria, em certo sentido, deixou de ser o inimigo simb\u00f3lico do Telegram. Em vez disso, Durov cada vez mais retratou sua plataforma como um heroico opositor do Facebook, da Apple e do Google. (Do Facebook, por ser o seu principal concorrente; da Apple e do Google, porque o Telegram precisa seguir as regras deles para permanecer nas lojas de aplicativos.) Num post em seu canal no come\u00e7o do ano passado, Durov, outrora o flagelo libert\u00e1rio das ditaduras socialistas, alegou que tinha passado a rejeitar a oposi\u00e7\u00e3o entre capitalismo e socialismo, que agora considerava obsoleta. \u201cPrefiro pensar em termos de \u2018centraliza\u00e7\u00e3o\u00a0<em>versus<\/em>\u00a0descentraliza\u00e7\u00e3o\u2019\u201d, escreveu. \u201cMonop\u00f3lios capitalistas e ditaduras socialistas s\u00e3o igualmente ruins.\u201d<\/p>\n<p>Em sua batalha para derrubar os monop\u00f3lios capitalistas do Vale do Sil\u00edcio, o Telegram passou a ocupar o imenso espa\u00e7o aberto pelas Big Techs, como s\u00e3o chamadas as quatro gigantes da tecnologia (Amazon, Apple, Google e Facebook), depois que passaram a adotar pol\u00edticas de modera\u00e7\u00e3o mais estritas. Em todo o mundo, havia relatos di\u00e1rios sobre canais e grupos do Telegram lotados de pessoas contr\u00e1rias \u00e0 vacina, de negacionistas da Covid e de provocadores de extrema direita que espalham desinforma\u00e7\u00e3o e organizam protestos. Tais relatos aumentaram depois que Facebook, Twitter e YouTube come\u00e7aram a repreender esse tipo de conte\u00fado no ano passado. \u201cEm meus vinte anos gerindo plataformas de discuss\u00e3o\u201d, escreveu Durov, em 2021, \u201cpercebi que teorias da conspira\u00e7\u00e3o s\u00f3 ganham for\u00e7a quando seu conte\u00fado \u00e9 removido por moderadores.\u201d Em junho do ano passado, o governo alem\u00e3o processou o Telegram por n\u00e3o cumprir as regras segundo as quais as empresas de m\u00eddias sociais devem fiscalizar reclama\u00e7\u00f5es e designar um representante para contato no pa\u00eds. \u00c0 medida que a Alemanha impunha protocolos de sa\u00fade mais rigorosos para enfrentar a variante \u00d4micron, a rea\u00e7\u00e3o dos negacionistas no pa\u00eds ficou ainda mais extremada.<\/p>\n<p>Desde 6 de janeiro de 2021, enquanto isso, a posi\u00e7\u00e3o do aplicativo entre os seguidores de Trump continuou a se consolidar. Canais de figuras da ultradireita surgem a toda hora. O advogado de Trump, Lin Wood, transformado em adepto da teoria da conspira\u00e7\u00e3o nas elei\u00e7\u00f5es norte-americanas, est\u00e1 perto de 1 milh\u00e3o de seguidores. O ex-administrador da 8chan, Ron Watkins, tem quase meio milh\u00e3o.<a href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/materia\/por-dentro-do-telegram\/#_ftn9\"><sup>[9]<\/sup><\/a>\u00a0Entre os pol\u00edticos eleitos com o apoio de Trump que abriram canais bem-sucedidos no Telegram est\u00e3o os congressistas de extrema direita Marjorie Taylor Greene, Madison Cawthorn e Lauren Boebert.<\/p>\n<p>Em agosto de 2021, o Telegram chegou a 1 bilh\u00e3o de downloads. Durante a desastrosa queda do Facebook em todo o planeta em outubro passado, o aplicativo recebeu 70 milh\u00f5es de novos \u201crefugiados\u201d, segundo Durov. Por\u00e9m, \u00e0 medida que o Telegram chegava mais perto de cumprir a sua meta e atingir os mesmos n\u00fameros do WhatsApp, Elies Campo continuava cismado. \u201cN\u00f3s estamos passando a imagem de que somos uma empresa aberta, supostamente favor\u00e1vel \u00e0 liberdade de express\u00e3o e \u00e0 transpar\u00eancia entre os usu\u00e1rios\u201d, disse ele durante um de nossos encontros em Ciutadella, um parque imponente pontilhado por monumentos no limite da cidade velha de Barcelona. \u201cE por outro lado, somos completamente opacos em rela\u00e7\u00e3o ao modo como trabalhamos.\u201d Ele se perguntava se a cultura insular, at\u00e9 mesmo desconfiada, do Telegram, n\u00e3o estava prejudicando a empresa.<\/p>\n<p>Quanto mais ele falava, mais eu percebia que essa cultura tamb\u00e9m havia afastado Campo. Ele lembrava que, no \u00faltimo retiro da empresa antes da pandemia em 2019, Durov alugou uma casa enorme em uma cidadezinha na Finl\u00e2ndia cercada por lagos e florestas de pinheiros. Quando o grupo inteiro se reunia para fazer as refei\u00e7\u00f5es, a conversa era em russo. \u201cSou o \u00fanico que fala em ingl\u00eas com Pavel\u201d, diz Campo. \u201cIsso, naturalmente, gera um ponto de atrito.\u201d Ele tamb\u00e9m percebia que a equipe desconfiava dele por residir no Vale do Sil\u00edcio e ter, supostamente, uma mentalidade norte-americana. Campo conta que, certa vez, enquanto tentava estabelecer rela\u00e7\u00f5es comerciais entre o Telegram e empresas dos Estados Unidos, Durov se perguntou em voz alta se ele tinha \u201cinteresses econ\u00f4micos\u201d nas empresas e se essa seria a raz\u00e3o pela qual \u201ctinha tanto interesse em trabalhar com elas\u201d.<\/p>\n<p>Ao longo do ano passado, Campo come\u00e7ou a fazer preparativos para sair do Telegram. Ele passou o in\u00edcio do segundo semestre ocupado em seu \u00faltimo grande projeto na empresa, ajudando a desenvolver novas funcionalidades que pretendiam finalmente monetizar o aplicativo. No novo plano, donos de grandes canais v\u00e3o poder publicar posts patrocinados e oferecer assinaturas pagas, e o Telegram receber\u00e1 uma parte disso. (O Telegram afirma que jamais vai oferecer an\u00fancios direcionados com base nos dados dos usu\u00e1rios.)<\/p>\n<p>Antes de nosso \u00faltimo telefonema em outubro, Campo fez algo incomum. At\u00e9 ent\u00e3o, v\u00ednhamos nos comunicado basicamente via Telegram, tanto para mensagens quanto para chamadas. Dessa vez, por\u00e9m, ele escreveu: \u201cAdd vc em outra plataforma.\u201d Ele tinha me adicionado no Signal. Liguei para ele pelo Signal e perguntei por que ele n\u00e3o queria mais conversar pelo Telegram. Ele respondeu: \u201cPorque como \u00e9 que a gente vai saber?\u201d Existia alguma chance de o Telegram poder monitorar as comunica\u00e7\u00f5es privadas de algu\u00e9m? \u201cTecnicamente, \u00e9 poss\u00edvel\u201d, disse Campo. Ele explicou que fazer isso em larga escala seria dif\u00edcil, mas a criptografia entre o usu\u00e1rio e o servidor, em tese, poderia ser desativada em uma conta espec\u00edfica. \u201cN\u00e3o sei se isso est\u00e1 acontecendo ou n\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>Quando eu me preparava para concluir minha reportagem no m\u00eas seguinte, consegui falar com outro executivo s\u00eanior do Telegram: Ilya Perekopsky. Em novembro, escrevi para ele pela nona vez, sem jamais ter recebido uma resposta substancial. Dessa vez, Perekopsky respondeu em vinte minutos e perguntou se eu estava em Barcelona. Por pura coincid\u00eancia, ele disse que estava acabando de chegar de Dubai. Dois dias depois nos encontramos em um elegante restaurante \u00e0 beira-mar ao Sul de Barcelona, perto de onde os pais de Perekopsky t\u00eam uma casa. Com seu topete louro e as ma\u00e7\u00e3s do rosto salientes, Perekopsky me lembrou um David Bowie russo vestindo camisa xadrez debaixo de um colete acolchoado.<\/p>\n<p>Enquanto com\u00edamos peixe grelhado, debaixo de um Sol quente at\u00edpico para a esta\u00e7\u00e3o, Perekopsky pediu desculpas por n\u00e3o ter respondido antes. Explicou que, preocupado com a possibilidade de que eu escrevesse um texto contando apenas um lado da hist\u00f3ria, resolveu mostrar meu e-mail para Durov. \u201cAcho melhor responder pessoalmente\u201d, disse Perekopsky para o chefe, que teria aprovado sem demora o encontro. \u201cN\u00f3s realmente n\u00e3o gostamos muito de nos comunicar com o mundo exterior porque achamos que isso vai tirar o nosso foco\u201d, disse. Durov, segundo ele, prefere usar os seus pr\u00f3prios canais, onde suas palavras n\u00e3o podem ser distorcidas ou \u201ccensuradas\u201d por um jornalista.<\/p>\n<p>Perekopsky estava ansioso, por\u00e9m, para falar do que classificava como \u201ccensura\u201d do Google e da Apple. Segundo ele, as duas empresas tinham exigido recentemente que o Telegram bloqueasse canais p\u00fablicos que estavam promovendo narrativas antivacina e desinforma\u00e7\u00e3o sobre o coronav\u00edrus. \u201cO que eu quero dizer \u00e9 que essa hist\u00f3ria da Covid \u00e9 muito engra\u00e7ada. Isso que eles est\u00e3o fazendo \u00e9 100% censura.\u201d Ele parecia genuinamente surpreso com aquilo. \u201cA gente s\u00f3 acha que as pessoas devem ter a opini\u00e3o delas, entende? Se elas discordam, elas podem discordar. Elas podem usar o Telegram para expressar suas opini\u00f5es. Da nossa parte, n\u00f3s sempre ficamos neutros.\u201d<\/p>\n<p>Sobre Trump, Perekopsky alegou que a empresa n\u00e3o prestou muita aten\u00e7\u00e3o \u00e0 migra\u00e7\u00e3o do movimento do ex-presidente para o Telegram.<sup>[10]<\/sup>\u00a0Ele descreveu a entrada de direitistas norte-americanos no aplicativo como algo inusitado e, ao mesmo tempo, divertido. \u201cFoi engra\u00e7ado ver que eles n\u00e3o encontraram uma plataforma melhor l\u00e1 mesmo nos Estados Unidos para expressar as opini\u00f5es deles\u201d, disse. \u201cIsso provavelmente \u00e9 s\u00f3 uma prova de que n\u00f3s somos a \u00fanica plataforma independente onde n\u00e3o existe censura e onde voc\u00ea pode de fato expressar suas opini\u00f5es.\u201d Depois, admitiu que a entrada de norte-americanos foi mais do que algo divertido. \u201cN\u00f3s ficamos orgulhosos. Um pouco\u201d, disse. Mencionando uma conversa que teve com Durov naquela semana de janeiro, ele disse ter ouvido o seguinte do fundador do Telegram: \u201c\u00c9 uma marca de qualidade que mostra que n\u00f3s somos uma plataforma neutra.\u201d<\/p>\n<p>Com o Sol come\u00e7ando a se p\u00f4r e o clima ficando mais fresco, Perekopsky se apressou a esclarecer \u2013 como Durov j\u00e1 fez muitas vezes em seu canal p\u00fablico \u2013 que a empresa leva incita\u00e7\u00f5es \u00e0 viol\u00eancia muito a s\u00e9rio e age com rapidez e consist\u00eancia para eliminar conte\u00fado ilegal. A pesquisadora Megan Squire descobriu que muitos posts da extrema direita incitando viol\u00eancia permaneceram no ar por meses. Conhecido infectologista e um dos principais integrantes da for\u00e7a-tarefa formada pela Casa Branca para responder \u00e0 pandemia, Anthony Fauci e suas filhas tiveram informa\u00e7\u00f5es privadas reveladas por um canal de extrema direita no Telegram. O endere\u00e7o da pr\u00f3pria Squire foi publicado em um grupo dos Proud Boys em janeiro e permaneceu no ar por meses, apesar de ela ter denunciado o post repetidamente. Perekopsky disse que o Telegram atualizou seus termos para banir publica\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es privadas de terceiros no in\u00edcio de 2021 e prometeu que ia se ocupar do caso de Squire. (O endere\u00e7o dela foi finalmente removido um m\u00eas depois de eu mencionar a hist\u00f3ria.)<\/p>\n<p>Eu queria perguntar sobre a cultura do pr\u00f3prio Telegram. Campo e Rozenberg n\u00e3o tinham sido os \u00fanicos a insinuar que havia uma atmosfera de culto \u00e0 personalidade em torno de Durov. \u201cSer parte da equipe de fato faz a realidade parecer diferente\u201d, disse-me Andrei Lopatin. \u201cEu tive muita sorte de conseguir sair.\u201d Mas Perekopsky discordou da ideia de que Durov criou uma cultura de lealdade cega e de obedi\u00eancia, ou de que ningu\u00e9m jamais discorda dele. O executivo insistiu que havia pouca hierarquia interna na empresa e descreveu a estrutura do Telegram como \u201chorizontal\u201d. Em vez de comandar, Durov prefere convencer todo mundo a \u201ccompartilhar da vis\u00e3o dele\u201d, disse Perekopsky. \u201cEle \u00e9 muito convincente! Extremamente convincente.\u201d<\/p>\n<p>Hyman \u2013 que concordou em conversar comigo depois de eu ter falado com Perekopsky, e que continua a dar conselhos financeiros para o Telegram como consultor \u2013 tamb\u00e9m usou a palavra \u201chorizontal\u201d para descrever o aplicativo. Disse que \u00e9 \u201cbesteira\u201d que exista uma cultura de desconfian\u00e7a e de lealdade cega a Durov. \u201c\u00c9 uma empresa muito exigente, darwinista. E imagino que nem todo mundo tenha tido sucesso.\u201d Durov n\u00e3o respondeu a pedidos para ser entrevistado nem para checar alguns dados objetivos. Seu irm\u00e3o Nikolai e o departamento de comunica\u00e7\u00f5es do Telegram tamb\u00e9m n\u00e3o deram retorno.<\/p>\n<p>Em seu post sobre \u201ccentraliza\u00e7\u00e3o\u00a0<em>versus<\/em>\u00a0descentraliza\u00e7\u00e3o\u201d, o pr\u00f3prio Durov sugeriu que o Facebook vinha perdendo terreno para o Telegram porque a pequena equipe de sua plataforma evitou a centraliza\u00e7\u00e3o e a hierarquia excessiva. O que, \u00e9 claro, leva a outra quest\u00e3o: como exatamente um grupo obscuro de trinta programadores reunidos em torno de um l\u00edder carism\u00e1tico em Dubai \u00e9 menos centralizado do que uma grande empresa? Durov insinuou uma esp\u00e9cie de resposta em seu post. \u201cOs humanos evolu\u00edram de forma a ter melhor desempenho em grupos de menos de 150 pessoas\u201d, escreveu. \u201cEm um ambiente natural, toda pequena comunidade \u00e9 capaz de produzir um l\u00edder excepcional.\u201d<\/p>\n<p>Se Durov \u00e9 esse l\u00edder natural dentro do Telegram, s\u00f3 o tempo dir\u00e1 se o pr\u00f3prio Telegram continuar\u00e1 a ascender at\u00e9 tornar-se um l\u00edder natural entre as plataformas. A nascente estrat\u00e9gia de monetiza\u00e7\u00e3o da empresa \u00e9 modesta, para dizer o m\u00ednimo. Em todo o mundo, a plataforma parece fadada a m\u00faltiplos confrontos. Desde o come\u00e7o de 2022, autoridades da Alemanha e do Brasil amea\u00e7aram banir o Telegram em fun\u00e7\u00e3o do tr\u00e1fego descontrolado de desinforma\u00e7\u00e3o.<sup>[11]<\/sup>\u00a0No Brasil, autoridades pensam em bloquear o aplicativo durante o per\u00edodo anterior \u00e0s elei\u00e7\u00f5es presidenciais de outubro.<sup>[12]<\/sup>\u00a0Mas claro, o Telegram j\u00e1 conseguiu burlar bloqueios governamentais antes.<\/p>\n<p>Nenhum desses impasses havia produzido uma verdadeira crise at\u00e9 o momento de meu almo\u00e7o com Perekopsky, mas era muito f\u00e1cil ver que tudo isso estava no horizonte. Sentado ali com ele, pensei na conversa que Zuckerberg e Durov supostamente tiveram mais de uma d\u00e9cada atr\u00e1s. Os dois viam suas nascentes redes sociais como estruturas transcendentes que iriam libertar as comunica\u00e7\u00f5es do controle estatal: governos e reguladores seriam reduzidos ao n\u00edvel de inc\u00f4modos, transformados em figuras obsoletas diante da for\u00e7a libertadora de uma plataforma. Enquanto pensava nisso sob um Sol de inverno que ia desaparecendo e encerrava minha conversa com o vice-presidente do Telegram, senti um arrepio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Notas:<\/p>\n<p><sup>[1]<\/sup>\u00a0O vazamento das conversas entre o ex-juiz Sergio Moro e os procuradores da Lava Jato, ocorrido em 2019, decorreu de outra falha de seguran\u00e7a do Telegram que n\u00e3o a aus\u00eancia de criptografia de ponta a ponta em conversas em grupo.\u00a0Por meio de outro aplicativo, um\u00a0<em>hacker<\/em>\u00a0entrou na caixa postal do celular do procurador Deltan Dallagnol e p\u00f4de ouvir o c\u00f3digo de acesso exigido para logar no Telegram a partir de qualquer dispositivo, como se fosse o dono da conta. Assim, teve acesso a todos os di\u00e1logos do procurador \u2013 coletivos e individuais, criptografados ou n\u00e3o. O conte\u00fado vazado mostrou que Moro combinava estrat\u00e9gias de a\u00e7\u00e3o com a for\u00e7a-tarefa da Lava Jato para incriminar o ex-presidente Lula. Por atuar sem a isen\u00e7\u00e3o requerida de um magistrado, Moro foi declarado parcial no caso do tr\u00edplex do Guaruj\u00e1 pelo Supremo Tribunal Federal.<\/p>\n<p><sup>[2]<\/sup>\u00a0No dia 14 de abril, o WhatsApp anunciou que passar\u00e1 a oferecer uma nova ferramenta para \u201cforma\u00e7\u00e3o de comunidades\u201d. A novidade permitir\u00e1 que diversos grupos (com m\u00e1ximo de 256 membros cada um) sejam agregados num mesmo espa\u00e7o compartilhado. Isso possibilitar\u00e1 que os administradores dessas \u201ccomunidades\u201d enviem mensagens a alguns milhares de pessoas ao mesmo tempo. No Brasil, a nova ferramenta s\u00f3 entrar\u00e1 em vigor depois das elei\u00e7\u00f5es de outubro, de modo a reduzir o alcance de desinforma\u00e7\u00e3o sobre o pleito.<\/p>\n<p><sup>[3]<\/sup>\u00a0O canal de Jair Bolsonaro no Telegram foi criado em 9 de janeiro de 2021, um dia depois de o Twitter bloquear definitivamente o perfil de Donald Trump. Desde ent\u00e3o, Bolsonaro e seus filhos fazem apelos aos seus seguidores em outras redes para que criem contas no Telegram. Em outubro de 2021, o canal do presidente atingiu 1 milh\u00e3o de seguidores.<\/p>\n<p><sup>[4]<\/sup>\u00a0No dia 15 de fevereiro, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) firmou uma parceria com oito redes sociais com a finalidade de combater a desinforma\u00e7\u00e3o durante as elei\u00e7\u00f5es. Entre as grandes plataformas, o Telegram foi a \u00fanica que, num primeiro momento, se recusou a aderir ao acordo. S\u00f3 veio a assin\u00e1-lo no dia 25 de mar\u00e7o, depois que uma ordem judicial determinou a suspens\u00e3o do funcionamento do aplicativo em todo o Brasil (ver nota 12).<\/p>\n<p><sup>[5]<\/sup>\u00a0S\u00e3o todos grupos de extrema direita criados nos \u00faltimos anos. Os Proud Boys s\u00e3o um clube exclusivamente masculino fundado por nacionalistas e supremacistas brancos em 2016. Os Boogaloo Boys come\u00e7aram a se aglutinar na internet no in\u00edcio da d\u00e9cada de 2010 e pregam a deflagra\u00e7\u00e3o de uma guerra civil \u2013 ou \u201cguerra racial\u201d. O QAnon, cujos l\u00edderes n\u00e3o s\u00e3o conhecidos, surgiu em 2017. Dado a teorias conspirat\u00f3rias, acredita que o ex-presidente Donald Trump liderava uma luta contra uma rede mundial de satanistas ped\u00f3filos. Todos os tr\u00eas grupos participaram da invas\u00e3o do Capit\u00f3lio em janeiro de 2021.<\/p>\n<p><sup>[6]<\/sup>\u00a0Em 2021, a Panorama Mobile Time\/Opinion Box fez um perfil dos usu\u00e1rios do Telegram no Brasil com um recorte por sexo, idade e classe social, mas n\u00e3o por orienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p><sup>[7]<\/sup>\u00a0O jornal\u00a0<em>Novaya Gazeta<\/em>, fundado em 1993, suspendeu sua circula\u00e7\u00e3o no final de mar\u00e7o. Com a crescente censura \u00e0 imprensa praticada pelo regime de Vladimir Putin, sobretudo depois da invas\u00e3o da Ucr\u00e2nia, o jornal entendeu que n\u00e3o era mais poss\u00edvel exercer jornalismo isento na R\u00fassia. No ano passado, seu diretor, Dmitry Muratov, dividiu o Pr\u00eamio Nobel da Paz com a jornalista filipina Maria Ressa: um reconhecimento da luta de ambos pela liberdade de imprensa em seus pa\u00edses.<\/p>\n<p><sup>[8]<\/sup>\u00a0ICO \u00e9 a sigla em ingl\u00eas de Initial Coin Offering, opera\u00e7\u00e3o por meio da qual as empresas levantam dinheiro para criar uma nova moeda, um aplicativo ou um servi\u00e7o. No mundo das criptomoedas, \u00e9 o equivalente ao IPO, a opera\u00e7\u00e3o em que empresas levantam dinheiro com venda de a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><sup>[9]<\/sup>\u00a0O 8chan, que mudou de nome para 8kun, \u00e9 um site\/f\u00f3rum digital que abriga extremistas violentos. Mensagens postadas no f\u00f3rum anunciaram com anteced\u00eancia ataques a tiros contra inocentes ocorridos nos Estados Unidos e na Nova Zel\u00e2ndia.<\/p>\n<p><sup>[10]<\/sup>\u00a0Em fevereiro, o ex-presidente Donald Trump lan\u00e7ou a sua pr\u00f3pria plataforma, a Truth Social, aberta apenas para usu\u00e1rios dos Estados Unidos e do Canad\u00e1. A Truth Social tem enfrentado problemas t\u00e9cnicos e, segundo os dados mais recentes, teve apenas 1,2 milh\u00e3o de downloads at\u00e9 agora.<\/p>\n<p><sup>[11]<\/sup>\u00a0No dia 11 de fevereiro, o Telegram cedeu \u00e0 press\u00e3o do governo da Alemanha e bloqueou 64 canais que promoviam discurso de \u00f3dio, principalmente antissemita, e espalhavam desinforma\u00e7\u00e3o sobre a pandemia.<\/p>\n<p><sup>[12]<\/sup> No dia 18 de mar\u00e7o, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), suspendeu o funcionamento do Telegram no Brasil porque a plataforma vinha descumprindo decis\u00f5es judiciais. Em agosto do ano passado, por exemplo, o STF ordenara que o Telegram retirasse do ar uma mensagem do presidente Jair Bolsonaro com informa\u00e7\u00f5es falsas sobre a urna eletr\u00f4nica, mas n\u00e3o obtivera nem resposta da plataforma. A suspens\u00e3o decretada em mar\u00e7o finalmente levou o Telegram a colaborar com a Justi\u00e7a. No dia 25, a plataforma aderiu ao acordo proposto pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e que j\u00e1 tinha sido assinado por oito redes sociais. Pelo acordo, o Telegram se compromete, a exemplo das demais redes, a combater a difus\u00e3o de desinforma\u00e7\u00e3o sobre a elei\u00e7\u00e3o, sobre a Justi\u00e7a Eleitoral e sobre as urnas eletr\u00f4nicas.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Um mergulho nas entranhas do Telegram &#8211; Outras Palavras &#8211; https:\/\/outraspalavras.net\/outrasmidias\/telegram-liberdade-privacidade-ou-rede-obscura\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Darren Loucaides &#8211; Em 6 de janeiro de 2021, enquanto uma multid\u00e3o de apoiadores de Donald Trump come\u00e7ava a se reunir perto da base do Monumento a Washington, Elies Campo passava uma tarde agrad\u00e1vel na casa de sua fam\u00edlia em Tortosa, na Espanha. 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