{"id":17897,"date":"2022-06-02T12:26:04","date_gmt":"2022-06-02T15:26:04","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=17897"},"modified":"2022-05-28T11:31:12","modified_gmt":"2022-05-28T14:31:12","slug":"medellin-inspiracao-para-resgatar-as-cidades-brasileiras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2022\/06\/02\/medellin-inspiracao-para-resgatar-as-cidades-brasileiras\/","title":{"rendered":"Medell\u00edn: inspira\u00e7\u00e3o para resgatar as cidades brasileiras"},"content":{"rendered":"<p><strong>Tiago Coelho &#8211; <\/strong>Em 2 de julho de 2014, quando o Rio de Janeiro sediava a Copa do Mundo e se preparava para a Olimp\u00edada, foi inaugurado um telef\u00e9rico na cidade para facilitar o acesso dos moradores \u00e0 Provid\u00eancia, a favela carioca mais antiga, erguida a partir de 1888 no morro de mesmo nome. O governo fez grande alarde do novo meio de transporte: depois de mais de um s\u00e9culo, finalmente a popula\u00e7\u00e3o da Provid\u00eancia poderia chegar \u00e0s suas casas sem ter que escalar as ruas do morro.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/opara.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/outraspalavras\/uploads\/2022\/05\/24125148\/188_questoesurbanasII-1024x680.jpg?resize=640%2C425&#038;ssl=1\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" srcset=\"https:\/\/opara.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/outraspalavras\/uploads\/2022\/05\/24125148\/188_questoesurbanasII-1024x680.jpg 1024w, https:\/\/opara.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/outraspalavras\/uploads\/2022\/05\/24125148\/188_questoesurbanasII-300x199.jpg 300w, https:\/\/opara.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/outraspalavras\/uploads\/2022\/05\/24125148\/188_questoesurbanasII-768x510.jpg 768w, https:\/\/opara.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/outraspalavras\/uploads\/2022\/05\/24125148\/188_questoesurbanasII-272x182.jpg 272w, https:\/\/opara.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/outraspalavras\/uploads\/2022\/05\/24125148\/188_questoesurbanasII.jpg 1440w\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"425\" \/><\/p>\n<p><em>Vista de Santo Domingo S\u00e1vio, em Medell\u00edn, com os tr\u00eas blocos do Parque Biblioteca Espa\u00f1a, projetado pelo arquiteto colombiano Giancarlo Mazzanti: a cidade investiu pesado em complexos culturais e esportivos nas favelas e tornou as ruas dos morros acess\u00edveis a carros e \u00f4nibus<\/em><\/p>\n<p>Logo ap\u00f3s o in\u00edcio das obras, moradores relataram que fam\u00edlias estavam sendo removidas de suas casas de maneira traum\u00e1tica e que uma das poucas \u00e1reas de lazer dispon\u00edveis na Provid\u00eancia \u2013 uma quadra esportiva \u2013 havia sido destru\u00edda para dar lugar a uma esta\u00e7\u00e3o. Depois da inaugura\u00e7\u00e3o do telef\u00e9rico, pessoas que moravam na parte mais alta da favela perceberam que ele n\u00e3o teria grande serventia para elas, pois nenhuma esta\u00e7\u00e3o fora constru\u00edda nos lugares de acesso mais dif\u00edcil do local. O telef\u00e9rico custou 76 milh\u00f5es de reais na \u00e9poca e funcionou apenas um ano e meio. Em dezembro de 2016, o servi\u00e7o foi interrompido \u2013 e os moradores tiveram que escalar novamente as ruas do Morro da Provid\u00eancia.<\/p>\n<p>Esse foi mais um dos v\u00e1rios projetos de urbanismo social feitos no Rio de Janeiro nos \u00faltimos trinta anos para integrar as favelas ao restante da cidade. E foi mais um que n\u00e3o deu certo. Seja porque foi mal planejado, seja porque os governos seguintes n\u00e3o quiseram dar prosseguimento a ele.<\/p>\n<p>Entre esses projetos, o principal foi o Favela-Bairro, lan\u00e7ado em 1995. Com o nome oficial de Programa de Urbaniza\u00e7\u00e3o de Assentamentos Populares, seu objetivo era melhorar as condi\u00e7\u00f5es de vida nas comunidades, cuidando da infraestrutura e moradia, da oferta de servi\u00e7os e da cria\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os de lazer e cultura. O projeto teve financiamento da prefeitura e do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Todas as interven\u00e7\u00f5es foram feitas com a participa\u00e7\u00e3o de escrit\u00f3rios de arquitetura, contratados por concurso, como o do arquiteto Manoel Ribeiro, escolhido para atuar na Serrinha, no bairro de Madureira, na Zona Norte, e depois em outras cinco favelas.<\/p>\n<p>Ribeiro partiu de um dos princ\u00edpios b\u00e1sicos do urbanismo social, o di\u00e1logo com a comunidade, para entender quais interven\u00e7\u00f5es seriam importantes para ela. Na Serrinha, os pedidos concentraram-se em rede de esgoto e \u00e1gua encanada, escadarias e rampas com corrim\u00f5es, ilumina\u00e7\u00e3o de ruas e becos. Como a favela \u00e9 ber\u00e7o da Escola de Samba Imp\u00e9rio Serrano e cultiva a tradi\u00e7\u00e3o do jongo (dan\u00e7a ancestral africana), tamb\u00e9m entrou no rol principal o pedido de um palco para manifesta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas. Tudo foi feito conforme a prescri\u00e7\u00e3o dos moradores, que participaram das obras e foram remunerados pelo trabalho. A interlocu\u00e7\u00e3o com lideran\u00e7as comunit\u00e1rias foi frequente, e o narcotr\u00e1fico n\u00e3o dificultou a implementa\u00e7\u00e3o do projeto. \u201cAs obras facilitaram o tr\u00e2nsito das pessoas mais velhas, as ruas ficaram mais seguras com ilumina\u00e7\u00e3o, os servi\u00e7os b\u00e1sicos de saneamento foram levados at\u00e9 as pessoas que n\u00e3o dispunham deles. A comunidade tamb\u00e9m ficou mais acess\u00edvel para visitantes, que passaram a ir at\u00e9 l\u00e1 para acompanhar as manifesta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas e provar quitutes de cozinheiras locais\u201d, conta Ribeiro.<\/p>\n<p>O sucesso obtido pelas interven\u00e7\u00f5es do Favela-Bairro, que numa primeira fase contemplaram 38 comunidades, chamou a aten\u00e7\u00e3o de gestores p\u00fablicos na Col\u00f4mbia. Naquela \u00e9poca, a cidade de Medell\u00edn vivia dias terr\u00edveis, piores ainda que os da capital fluminense, com o pa\u00eds conflagrado por disputas violentas. Nos anos 1990, um grupo de autoridades veio ao Brasil para conhecer o projeto, com o objetivo de aplicar algumas de suas li\u00e7\u00f5es em um grande plano para melhorar as condi\u00e7\u00f5es de vida nas comunidades de Medell\u00edn \u2013 outras li\u00e7\u00f5es foram colhidas em diferentes cidades do mundo. No Rio, os colombianos se atentaram a algumas iniciativas, como os servi\u00e7os de distribui\u00e7\u00e3o de \u00e1gua e esgoto, a constru\u00e7\u00e3o de melhores vias de acesso e a regulariza\u00e7\u00e3o da propriedade.<\/p>\n<p>De volta \u00e0 Col\u00f4mbia, eles come\u00e7aram a desenvolver um projeto para Medell\u00edn. Enquanto isso, o Favela-Bairro come\u00e7ou a definhar \u2013 at\u00e9 que, em 2010, acabou. No mesmo ano, inspirado nesse projeto, o prefeito Eduardo Paes (PMDB, hoje no PSD) criou o Morar Carioca, que foi, por\u00e9m, esvaziado ainda em sua gest\u00e3o e na de seu sucessor, Marcelo Crivella (Republicanos).<\/p>\n<p>Um relat\u00f3rio publicado em 2020 pelo BID examinou o estado da infraestrutura nas 88 comunidades que participaram da segunda fase do Favela-Bairro, entre os anos 2000 e 2008. Concluiu que muitas obras estavam deterioradas por falta de manuten\u00e7\u00e3o da prefeitura ou por vandalismo. Criminosos haviam destru\u00eddo a ilumina\u00e7\u00e3o para melhor se esconder e feito buracos ou barricadas nas ruas reformadas para dificultar o acesso da pol\u00edcia ou de gangues rivais. \u201cSei que, por causa dos tiroteios, \u00e9 dif\u00edcil para os funcion\u00e1rios da prefeitura entrarem l\u00e1 para fazer a manuten\u00e7\u00e3o. Mas poderia haver uma interlocu\u00e7\u00e3o entre a prefeitura e as lideran\u00e7as comunit\u00e1rias para viabilizar da melhor forma poss\u00edvel a manuten\u00e7\u00e3o das obras\u201d, diz Ribeiro. \u201cFalta tamb\u00e9m uma mudan\u00e7a na mentalidade do poder p\u00fablico de que os servi\u00e7os de manuten\u00e7\u00e3o feitos no asfalto devam ser feitos tamb\u00e9m na favela.\u201d<\/p>\n<p>A partir dos anos 2000, na mesma \u00e9poca em que o Favela-Bairro se esvaziava, o plano de urbanismo social de Medell\u00edn dava certo \u2013 e a cidade colombiana tornava-se modelo para as metr\u00f3poles brasileiras. O Rio de Janeiro passou de mestre a aprendiz, e come\u00e7ou a copiar as inova\u00e7\u00f5es da Col\u00f4mbia. At\u00e9 a ideia dos telef\u00e9ricos nas favelas do Complexo do Alem\u00e3o e da Provid\u00eancia foi importada de l\u00e1. \u201c\u00c9 incompreens\u00edvel que os altos investimentos feitos para a Copa do Mundo no Rio n\u00e3o tenham sido aproveitados para fazer uma interven\u00e7\u00e3o positiva na Provid\u00eancia\u201d, diz o jornalista e consultor de gest\u00e3o p\u00fablica colombiano Jorge Melguizo, que esteve nessa favela em dezembro passado. \u201cN\u00e3o vi l\u00e1 nenhum parque, nenhuma pra\u00e7a, nenhum campo de futebol, nada que fosse ben\u00e9fico para os moradores. E o telef\u00e9rico est\u00e1 parado.\u201d Em Medell\u00edn, ao contr\u00e1rio, as seis linhas de telef\u00e9ricos criadas para ligar as favelas ao Centro da cidade est\u00e3o em pleno funcionamento. Transportam cerca de 95 mil pessoas por dia.<\/p>\n<p>Enquanto Melguizo visitava o Rio de Janeiro em dezembro passado, a\u00a0<strong>piau\u00ed<\/strong>\u00a0foi a Medell\u00edn conhecer os projetos de urbanismo social que agora despertam interesse n\u00e3o apenas no Brasil, mas no mundo todo, pelos \u00f3timos resultados que alcan\u00e7ou.<\/p>\n<p>A segunda maior cidade colombiana, com 2,6 milh\u00f5es de habitantes, lembra muito o Rio de Janeiro, mas sem as praias, pois se situa no cora\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, esparramada no Vale do Aburr\u00e1 e cercada pela Cordilheira dos Andes. Pr\u00e9dios altos acumulam-se na parte baixa do vale, as favelas espalham-se pelas encostas e a vegeta\u00e7\u00e3o frondosa preenche o restante da paisagem.<\/p>\n<p>A Linha J do Metrocable \u2013 como o sistema de telef\u00e9ricos \u00e9 chamado \u2013, com 2,7 km de extens\u00e3o, parte da esta\u00e7\u00e3o San Javier e atravessa uma das \u00e1reas mais pobres da cidade, deixando os moradores nas esta\u00e7\u00f5es Juan XXIII, Vallejuelos e, finalmente, La Aurora, a mais alta. Conforme sobe o telef\u00e9rico, a vis\u00e3o da favela se faz mais ampla \u2013 e surge um mar de casas simples de tijolos aparentes, como nas comunidades cariocas. A diferen\u00e7a \u00e9 que ali se v\u00ea nitidamente o resultado das interven\u00e7\u00f5es urban\u00edsticas: ruas amplas, limpas e pavimentadas, com\u00e9rcio vibrante, escadarias e rampas, s\u00f3lidas coberturas de encostas e obras de conten\u00e7\u00e3o de deslizamentos de morros. N\u00e3o h\u00e1 sinal de lix\u00f5es ou esgotos a c\u00e9u aberto. No miolo da favela, h\u00e1 uma escola, uma quadra poliesportiva, uma pra\u00e7a e um centro de conviv\u00eancia.<\/p>\n<p>O comerci\u00e1rio Arley Sanchez, de 34 anos, que tomou o telef\u00e9rico com sua mulher, me contou que as ruas s\u00e3o suficientemente largas para permitir o tr\u00e2nsito dos caminh\u00f5es de lixo e de entregas. \u201cVeja aquela ponte\u201d, disse Sanchez. \u201cEla liga duas \u00e1reas que, no passado, eram de bandos rivais. Quem morava num lugar n\u00e3o podia cruzar para o outro.\u201d Quando passamos pela esta\u00e7\u00e3o Vallejuelos, Sanchez apontou para um barranco coberto de vegeta\u00e7\u00e3o. \u201cNa minha inf\u00e2ncia, muitos corpos eram despejados ali. Mas isso ficou para tr\u00e1s. Hoje, vivo tranquilo, sem sustos.\u201d Ele, a mulher e um dos filhos moram em La Aurora, em um apartamento popular financiado pelo governo.<\/p>\n<p>Depois de cerca de quinze minutos, chegamos a La Aurora. A sa\u00edda da esta\u00e7\u00e3o d\u00e1 para uma pra\u00e7a bem cuidada e com rede wi-fi. Alguns adolescentes estavam reunidos no local, conversando, ouvindo m\u00fasica e ensaiando dan\u00e7as que filmavam com o celular. Micro-\u00f4nibus aguardavam os moradores que chegavam pelo telef\u00e9rico para lev\u00e1-los a pontos mais distantes. Os bilhetes do sistema de transporte s\u00e3o integrados, de acordo com a necessidade do usu\u00e1rio. Para quem usa metr\u00f4, telef\u00e9rico e \u00f4nibus, custa 3 125 pesos (cerca de 4 reais). Ao contr\u00e1rio de outras \u00e1reas, esta em La Aurora tem pr\u00e9dios altos de moradia popular, com sacadas, acabamentos de qualidade, acessibilidade para deficientes e \u00e1reas de conviv\u00eancia no entorno.<\/p>\n<p>Enquanto esperava o seu sandu\u00edche comprado numa barraca de rua, Isabel Vargas, uma venezuelana de 27 anos, me disse que n\u00e3o era perigoso circular por ali. \u201cH\u00e1 gangues em todos os bairros de Medell\u00edn, mas n\u00e3o s\u00e3o vistas com facilidade, porque est\u00e3o escondidas na maior parte das vezes\u201d, contou. Vargas chegou a Medell\u00edn h\u00e1 dois anos, em busca de uma vida melhor. Por ser imigrante, tem dificuldade em conseguir emprego formal e trabalha como vendedora ambulante de cigarros e vinho barato. Perto dali, havia dois policiais, com as pistolas guardadas no coldre, dando orienta\u00e7\u00f5es \u00e0s pessoas. Foram as \u00fanicas pessoas armadas que vi no local. Apesar de ser um bairro pobre, La Aurora n\u00e3o transmite a impress\u00e3o de ser um lugar violento e apartado da cidade, pois \u00e9 bastante acess\u00edvel, a partir do Centro da cidade.<\/p>\n<p>No alto de La Aurora, resolvi fazer um teste: chamar um carro por aplicativo para voltar ao Centro de Medell\u00edn. Em boa parte das favelas cariocas, o morador tem dificuldade para fazer o mesmo. A corrida \u00e9 frequentemente cancelada quando o motorista descobre que foi solicitada de dentro da comunidade. E, mesmo quando o morador pede o carro do lado de fora da favela, h\u00e1 motoristas que se recusam a busc\u00e1-lo, pois os navegadores de GPS identificam a regi\u00e3o como \u201c\u00e1rea de risco\u201d.<\/p>\n<p>Fiz o pedido, que foi logo aceito pelo motorista Diego Alejandro. Pelo mapa do aplicativo, dava para ver o carro subindo o morro at\u00e9 La Aurora. As vias p\u00fablicas das partes mais altas dos morros s\u00e3o acess\u00edveis a carros, \u00f4nibus e at\u00e9 caminh\u00f5es. \u201cEu circulo em todos os bairros sem medo\u201d, disse Alejandro. \u201cMedell\u00edn ficou conhecida como uma das cidades mais violentas do mundo, mas j\u00e1 deixamos isso para tr\u00e1s. Teve a participa\u00e7\u00e3o do governo, das empresas, mas o povo contribuiu muito. As gera\u00e7\u00f5es foram entendendo que aceitar a viol\u00eancia s\u00f3 leva a mais viol\u00eancia.\u201d<\/p>\n<p>O telef\u00e9rico de La Aurora faz parte do amplo projeto de urbanismo social implantado em Medell\u00edn \u2013 uma das solu\u00e7\u00f5es encontradas pelas autoridades para enfrentar os graves problemas que atingiram a cidade a partir dos anos 1970.<\/p>\n<p>Nessa \u00e9poca, conflitos violentos no campo e as a\u00e7\u00f5es da guerrilha das For\u00e7as Armadas Revolucion\u00e1rias da Col\u00f4mbia (Farc) aceleraram o fluxo migrat\u00f3rio para Medell\u00edn, que vivia um novo ciclo de industrializa\u00e7\u00e3o. O governo tamb\u00e9m enfrentava os narcotraficantes, concentrados no chamado Cartel de Medell\u00edn, sob o comando de Pablo Escobar. Na d\u00e9cada de 1980, a viol\u00eancia explodiu, e a cultura do medo e da morte se espalhou.<\/p>\n<p>Sem qualquer perspectiva de futuro, os adolescentes das comunidades eram cooptados como soldados pelo narcotr\u00e1fico ou pela guerrilha. \u201cEu tinha 15 anos quando um vizinho de 18 anos passou a vender drogas e foi morto em sua casa. Foi a primeira pessoa que eu conhecia que morreu assassinada\u201d, conta Melguizo, o consultor de gest\u00e3o p\u00fablica colombiano. \u201cOs outros vizinhos diziam: \u2018Ele morreu porque vendia drogas.\u2019 Como se a morte dele fosse um problema a menos. E eu disse: \u2018Mas vamos ficar contentes com isso? Agora temos um assassino no bairro. N\u00e3o estamos seguros.\u2019\u201d Melguizo nasceu h\u00e1 59 anos na Comuna 13, na \u00e9poca um bairro pobre e que depois se tornou uma imensa favela, hoje com quase 200 mil habitantes.<\/p>\n<p>O narcotr\u00e1fico mostrava seu poder assassinando ou sequestrando pol\u00edticos, ativistas de direitos humanos e quem mais se dispusesse a enfrent\u00e1-lo. \u201cChegou a um ponto que n\u00e3o sab\u00edamos de onde vinham as balas. Em todos os lugares voc\u00ea poderia ser uma v\u00edtima. Cada um de n\u00f3s se sentia como um sobrevivente na cidade\u201d, recorda Melguizo. \u201cA viol\u00eancia se naturalizou. Nossa sociedade pensava: \u2018Vivemos numa guerrilha?\u2019 Sim, mas isso \u00e9 a Col\u00f4mbia. \u2018Est\u00e3o matando muita gente?\u2019 Sim, mas isso faz parte da Col\u00f4mbia.\u201d Enquanto os operadores do narcotr\u00e1fico enchiam os bolsos de dinheiro, a popula\u00e7\u00e3o das favelas vivia em condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias, abandonada pelo Estado.<\/p>\n<p>Em 1991, com cerca de 380 homic\u00eddios por 100 mil habitantes, Medell\u00edn ganhou o t\u00edtulo de cidade mais violenta do mundo \u2013 eram quase seis vezes mais homic\u00eddios do que na cidade do Rio de Janeiro na mesma \u00e9poca (65,2 por 100 mil habitantes). No mesmo ano, o governo colombiano decidiu criar o Conselho Presidencial para Medell\u00edn, a fim de combater a viol\u00eancia e a desigualdade com pol\u00edticas p\u00fablicas para as regi\u00f5es marginalizadas da cidade. Diversos setores da sociedade se reuniram para projetar o futuro: gestores p\u00fablicos, empres\u00e1rios, acad\u00eamicos e pessoas da sociedade civil. O conselho tamb\u00e9m fomentou debates com as organiza\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias, durante os quais foram feitas propostas para enfrentar a desigualdade em Medell\u00edn e em sua regi\u00e3o metropolitana.<\/p>\n<p>Em dezembro de 1993, uma opera\u00e7\u00e3o conjunta dos governos da Col\u00f4mbia e dos Estados Unidos capturou e matou Pablo Escobar. O narcotr\u00e1fico viu seu poder se fragmentar entre v\u00e1rios grupos e passou a atuar nas sombras. \u201cNesse momento, resolvemos olhar de frente e conversar sobre a viol\u00eancia em que viv\u00edamos e a sociedade na qual hav\u00edamos nos transformado, naturalizando a morte e a mis\u00e9ria\u201d, diz Melguizo, que atuou em projetos educacionais e de comunica\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria em favelas e sindicatos. Entre 1994 e 1996, os primeiros planos de urbaniza\u00e7\u00e3o social foram formulados, e n\u00e3o visavam o curto prazo \u2013 tra\u00e7avam metas para 2015.<\/p>\n<p>Nos anos 2000, o governo do presidente \u00c1lvaro Uribe ampliou o combate ao narcotr\u00e1fico e ocupou a Comuna 13 com helic\u00f3pteros e artilharia. Na investida, 18 pessoas foram mortas e 281 presas. Uribe tamb\u00e9m promoveu uma pol\u00edtica de \u201cdesmobiliza\u00e7\u00e3o\u201d, em que negociou com traficantes um plano de anistia ou redu\u00e7\u00e3o de penas em troca da confiss\u00e3o dos crimes, da suspens\u00e3o da matan\u00e7a entre gangues, do desarmamento e da entrega dos bens adquiridos na atividade do tr\u00e1fico. Essas medidas garantiram a redu\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia.<\/p>\n<p>Melguizo havia deixado Medell\u00edn no final dos anos 1990 para trabalhar em uma ONG em Bilbao, na Espanha. Quando retornou \u00e0 Col\u00f4mbia, foi convidado para ser, em 2005, secret\u00e1rio de Cultura Cidad\u00e3 da Prefeitura de Medell\u00edn e no governo do prefeito Sergio Fajardo, eleito em 2004.<\/p>\n<p>Fajardo e sua equipe desenvolveram o Projeto Urbano Integral (PUI), um conjunto de interven\u00e7\u00f5es abrangentes e integradas de urbanismo em \u00e1reas socialmente marginalizadas e vulner\u00e1veis de Medell\u00edn. O objetivo era enfrentar problemas cr\u00f4nicos de mobilidade, habita\u00e7\u00e3o, meio ambiente, servi\u00e7os p\u00fablicos b\u00e1sicos e escassez de espa\u00e7os de conviv\u00eancia, recrea\u00e7\u00e3o e educacionais.<\/p>\n<p>A Prefeitura de Medell\u00edn sobrep\u00f4s tr\u00eas mapas para identificar os locais com maior taxa de pobreza, viol\u00eancia e densidade demogr\u00e1fica. Sobre esses dados, colocou mais um filtro, a fim de identificar onde havia a maior popula\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as de 0 a 6 anos. Localizadas, as regi\u00f5es mais cr\u00edticas passaram a receber os PUI. Fam\u00edlias que viviam em \u00e1reas de risco foram reassentadas em habita\u00e7\u00f5es constru\u00eddas pelo governo. O sistema de transporte foi ampliado at\u00e9 as regi\u00f5es pobres. Houve forte investimento em projetos de arte e educa\u00e7\u00e3o, com a cria\u00e7\u00e3o de complexos culturais e das bibliotecas-parque, hoje espalhadas pela periferia de Medell\u00edn, al\u00e9m da universaliza\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os b\u00e1sicos. Diferentes secretarias municipais foram envolvidas no projeto, sob a coordena\u00e7\u00e3o de um \u00f3rg\u00e3o diretamente respons\u00e1vel por dirigir as a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Os principais financiadores dos PUI foram as Empresas P\u00fablicas de Medell\u00edn (EPM), uma gigantesca companhia controlada pela prefeitura, respons\u00e1vel por saneamento, energia el\u00e9trica, telecomunica\u00e7\u00e3o e coleta de lixo, entre outros servi\u00e7os essenciais da cidade. Mas houve tamb\u00e9m contribui\u00e7\u00e3o internacional e de empresas privadas locais. O projeto durou de 2004 a 2011, per\u00edodo durante o qual o \u00cdndice de Qualidade de Vida (IQV) subiu de 82,20 (em 2004) para 83,48 (em 2011).<\/p>\n<p>Para Mauricio Fraga, professor da Faculdade do Maranh\u00e3o (Facam) e autor do livro Urbanismo Social e Criminalidade, o enfraquecimento do narcotr\u00e1fico, as mudan\u00e7as promovidas pelos projetos de urbanismo social e a participa\u00e7\u00e3o ativa da popula\u00e7\u00e3o nas transforma\u00e7\u00f5es contribu\u00edram para o sucesso do projeto. \u201cMedell\u00edn renasceu com pol\u00edticas p\u00fablicas cujo lema era \u2018O melhor para os mais pobres\u2019. A cidade investiu pesado nas bibliotecas-parque e em grandes complexos culturais e esportivos, atrativos para as crian\u00e7as e adolescentes, desviando-os da criminalidade. Ficou provado que, quanto mais investimento social, menos mortes\u201d, diz Fraga. Mas ele ressalta que um projeto assim depende \u201cda boa vontade pol\u00edtica\u201d n\u00e3o apenas dos governantes, mas da popula\u00e7\u00e3o em geral. \u201cMedell\u00edn conseguiu porque teve isso, e o projeto contou com o apoio da sociedade, criando uma plataforma de transpar\u00eancia para que ela acompanhasse os gastos p\u00fablicos.\u201d<\/p>\n<p>Fraga cita em seu livro que 79% do or\u00e7amento municipal de Medell\u00edn passou a ser aplicado em melhorias na cidade. A porcentagem da \u00e1rea de educa\u00e7\u00e3o no or\u00e7amento passou de 12%, em 2003, para 40%, em 2006. No que foi seguida pela da cultura, cujo or\u00e7amento saltou de 0,68% para 5%, no mesmo per\u00edodo.<\/p>\n<p>\u201cA Col\u00f4mbia \u00e9 uma aula de cidadania para a gente, de como resolver os problemas dos mais pobres de maneira mais ampla\u201d, diz Tomas Alvim, coordenador do Laborat\u00f3rio Arq.Futuro de Cidades do Insper (Instituto de Ensino e Pesquisa). \u201cN\u00e3o se resolve esses problemas focando s\u00f3 em educa\u00e7\u00e3o ou em sa\u00fade. Tem que resolver os problemas de moradia, saneamento, regulariza\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria, capacita\u00e7\u00e3o profissional. O Estado precisa olhar para o cidad\u00e3o e atend\u00ea-lo de forma integral e transversal. Foi o que Medell\u00edn fez, com um grande projeto de converg\u00eancia de pol\u00edticas p\u00fablicas nos territ\u00f3rios onde a viol\u00eancia e a pobreza eram mais fortes.\u201d<\/p>\n<p>Melguizo \u2013 que tamb\u00e9m foi secret\u00e1rio municipal de Desenvolvimento Social do governo Alonso Salazar, que em 2008 sucedeu o de Fajardo \u2013 destaca a import\u00e2ncia da persist\u00eancia e renova\u00e7\u00e3o dos projetos. \u201cA sustentabilidade e continuidade dependem de tr\u00eas coisas: participa\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria em todas as suas etapas, alta qualidade e renova\u00e7\u00e3o constante de suas propostas. Esses espa\u00e7os precisam se converter, permanentemente, em essenciais para o cotidiano da comunidade, sen\u00e3o perdem o sentido.\u201d<\/p>\n<p>Gra\u00e7as \u00e0s mudan\u00e7as em Medell\u00edn, o n\u00famero de homic\u00eddios na cidade despencou. Passou de 160 por 100 mil habitantes em 2000 para 35,3 em 2005, um ano depois do in\u00edcio dos PUI. Manteve-se nesse patamar nos tr\u00eas anos seguintes, mas em 2009 voltou a crescer, chegando a 94 mortes por 100 mil habitantes. Nos quatro anos seguintes, caiu novamente: 86 (em 2010), 69,6 (em 2011), 52 (em 2012) e 38 (em 2013). E seguiu reduzindo, com 14 mortes em 2020 \u2013 n\u00famero equivalente ao da cidade do Rio de Janeiro, no mesmo ano, quando foram registrados 14,2 homic\u00eddios dolosos por 100 mil habitantes, segundo o Instituto de Seguran\u00e7a P\u00fablica do governo do estado.<\/p>\n<p>A pol\u00edtica de desmobiliza\u00e7\u00e3o da criminalidade em Medell\u00edn contribuiu para a redu\u00e7\u00e3o de homic\u00eddios, mas n\u00e3o acabou com o narcotr\u00e1fico. O que leva a outra explica\u00e7\u00e3o para a queda dos assassinatos, segundo o livro Criminal Enterprises and Governance in Latin America and the Caribbean (Empresas criminosas e governan\u00e7a na Am\u00e9rica Latina e no Caribe), de Enrique Desmond Arias: o chamado pacto del fusil, um acordo de n\u00e3o agress\u00e3o que foi selado entre os principais grupos controladores do tr\u00e1fico.<\/p>\n<p>No tempo em que os criminosos reinavam, Medell\u00edn fechava mais cedo. As mil\u00edcias paramilitares impunham toques de recolher \u00e0s 18 horas. O governo aconselhava que a popula\u00e7\u00e3o se recolhesse \u00e0s 22 horas. Mas esse tempo ficou para tr\u00e1s. Numa noite de dezembro passado, por volta das 21 horas, jovens se divertiam no Complexo Esportivo Atanasio Girardot, inaugurado em 1953 e um dos maiores e mais bem equipados da Am\u00e9rica Latina, com mais de 900 mil m<sup>2<\/sup>. Em um dos gin\u00e1sios, algumas pessoas treinavam voleibol. Outras aguardavam em uma imensa fila na frente do est\u00e1dio de futebol para assistir ao show de Karol G, uma artista pop colombiana. O transporte p\u00fablico garantiu que jovens de classes sociais distintas chegassem com facilidade ao local para aproveitar a noite de s\u00e1bado.<\/p>\n<p>Em torno do complexo esportivo, onde h\u00e1 v\u00e1rias lanchonetes e bares descolados, jovens comiam perros calientes (cachorros-quentes) e bebiam cervejas long neck e drinques coloridos. Para os que estavam com pouco dinheiro, a op\u00e7\u00e3o eram os bu\u00f1uelos (bolinho frito, recheado ou n\u00e3o) ou arepas (p\u00e3o de milho usado para sandu\u00edches) nas padarias ou barraquinhas de rua. Ambulantes vendiam bebidas em copos pl\u00e1sticos. Numa cal\u00e7ada, dois rapazes estavam parados diante de um muro. Passaram dois policiais em suas motocicletas e pararam. Pediram aos jovens que mostrassem os documentos, usando \u201cpor favor\u201d no final da frase. Os policiais conferiram os pap\u00e9is, os devolveram e foram embora.<\/p>\n<p>Uma abordagem policial sempre \u00e9 humilhante. Mas quem \u00e9 preto e vive no Brasil sabe que, al\u00e9m de humilhante, pode ser letal. N\u00e3o \u00e9 incomum policiais militares com fuzis abordarem pessoas no Rio de Janeiro. Em Medell\u00edn, me chamou a aten\u00e7\u00e3o como os policiais mantiveram um distanciamento m\u00ednimo dos interpelados, a arma sempre no coldre, o tom de voz s\u00f3brio, e n\u00e3o recorreram a palavras agressivas.<\/p>\n<p>A Pol\u00edcia Nacional da Col\u00f4mbia \u00e9 unificada \u2013 ao contr\u00e1rio do Brasil, onde h\u00e1 as pol\u00edcias civil e militar \u2013 e responde diretamente ao presidente do pa\u00eds. Nos \u00faltimos anos, diminu\u00edram os casos de corrup\u00e7\u00e3o e liga\u00e7\u00e3o com o narcotr\u00e1fico entre os policiais e aumentaram os investimentos em intelig\u00eancia, tecnologia e pr\u00e1ticas preventivas. (Os protestos contra a pol\u00edtica fiscal do governo no ano passado, entretanto, expuseram a extrema trucul\u00eancia com que pode agir a Pol\u00edcia Nacional. Suas a\u00e7\u00f5es durante manifesta\u00e7\u00f5es de rua levaram a 28 mortes e a centenas de casos de abusos denunciados por organiza\u00e7\u00f5es internacionais, como a ONU e a Human Rights Watch.)<\/p>\n<p>O administrador de empresas Murilo Cavalcanti, secret\u00e1rio de Seguran\u00e7a Cidad\u00e3 da Prefeitura do Recife, j\u00e1 fez 36 viagens a Medell\u00edn, quase sempre acompanhado de outras pessoas que querem conhecer a experi\u00eancia de urbanismo social da cidade colombiana. \u201cSe for preciso, venho mais 36 vezes. O modelo de Medell\u00edn \u00e9 muito profundo e pedag\u00f3gico. E n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil de entender\u201d, diz ele. \u201cA cidade fez uma pactua\u00e7\u00e3o que envolveu setor p\u00fablico, sociedade civil, ONGs, universidade e empres\u00e1rios para tir\u00e1-la, literalmente, do inferno em que vivia. Era a cidade do medo e da desesperan\u00e7a.\u201d<\/p>\n<p>Na sua 36\u00aa visita, no in\u00edcio de dezembro passado, ele viajou com P\u00e2mela Alves, secret\u00e1ria executiva de Planejamento e Gest\u00e3o por Resultados da Prefeitura do Recife, e com Marcos Toscano, secret\u00e1rio executivo de Inova\u00e7\u00e3o Urbana. A\u00a0<strong>piau\u00ed<\/strong>\u00a0acompanhou o grupo em sua visita a alguns marcos do urbanismo social em Medell\u00edn.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, o grupo foi at\u00e9 o alto da favela Santo Domingo S\u00e1vio n\u00ba 1, que no passado foi uma das mais pobres e violentas da cidade e era dominada por milicianos. Tamb\u00e9m ali houve uma interven\u00e7\u00e3o urban\u00edstica de qualidade, com destaque para o Parque Biblioteca Espa\u00f1a, projetado pelo arquiteto colombiano Giancarlo Mazzanti. Junto com o Museu de Arte Moderna, o Museu de Antioquia e o Jardim de Inf\u00e2ncia Timayui, o parque forma um conjunto que colocou Medell\u00edn na lista das cidades com atraentes obras arquitet\u00f4nicas. \u00c9 um complexo de tr\u00eas pr\u00e9dios pretos impressionantes que parecem rochas quadrangulares imensas penduradas na encosta. Ali, as pessoas t\u00eam acesso \u00e0 biblioteca, computadores com internet e cursos de arte, ci\u00eancia e tecnologia.<\/p>\n<p>Na mesma favela, Cavalcanti e seus colegas seguiram por uma rua de com\u00e9rcio popular. Por causa dos riscos que se corre ao entrar em comunidades cariocas, fiquei atento para algum sinal da presen\u00e7a de traficantes ou da pol\u00edcia nas ruelas do bairro. Mas n\u00e3o havia. \u201cOlha essa pracinha!\u201d, disse Cavalcanti, um homem alto e magro, que n\u00e3o deixa os detalhes passarem despercebidos. \u201cRepara na qualidade dos materiais que n\u00e3o enferrujam. Na m\u00e3o de tinta rec\u00e9m-retocada. E olha aquela escola, como \u00e9 bonita.\u201d Era o Instituto Educativo La Candelaria. Assim que o Estado chegou a Santo Domingo S\u00e1vio, a escola foi uma das primeiras constru\u00e7\u00f5es. Fica perto de um mirante, de onde os turistas observavam a cidade. \u201cVirou um s\u00edmbolo importante para quem vive aqui. Antes era tudo dominado pela mil\u00edcia paramilitar\u201d, disse o secret\u00e1rio de Seguran\u00e7a Cidad\u00e3 do Recife.<\/p>\n<p>A segunda parada de Cavalcanti e sua equipe foi a favela de Moravia, que fica perto de Santo Domingo. Havia ali, nos tempos em que a criminalidade imperava em Medell\u00edn, um lix\u00e3o onde fam\u00edlias miser\u00e1veis catavam res\u00edduos, e gangues despejavam os corpos de pessoas assassinadas. O lix\u00e3o foi removido e no lugar foram instalados o Centro de Desenvolvimento Cultural de Moravia e um dos maiores jardins urbanos da Col\u00f4mbia.<\/p>\n<p>O centro cultural \u00e9 um pr\u00e9dio amplo de tijolos vermelhos (como as casas no entorno), com um anfiteatro no meio, onde jovens que ali aprenderam a arte circense se apresentam para crian\u00e7as da comunidade. Jasmine Pal\u00e1cios, de 45 anos, sua filha pequena e um sobrinho estavam assistindo a um desses espet\u00e1culos. Ela \u00e9 t\u00e9cnica em com\u00e9rcio exterior e cresceu em Moravia. \u201cMinha inf\u00e2ncia foi muito dura. Minha m\u00e3e foi abandonada pelo meu pai e teve que trabalhar fora de casa para nos sustentar. Fic\u00e1vamos sozinhos, eu e meus irm\u00e3os. Garotos de nossa idade eram assassinados na frente de nossa casa\u201d, disse. A vis\u00e3o de cad\u00e1veres \u00e9 uma esp\u00e9cie de trauma que acompanha quem viveu em Medell\u00edn nas d\u00e9cadas de 1980 e 1990.<\/p>\n<p>Pal\u00e1cios contou sobre outro tipo de viol\u00eancia enfrentado por sua gera\u00e7\u00e3o. \u201cNaquela \u00e9poca, as garotas eram abusadas pelos criminosos ou for\u00e7adas a se relacionar com eles. Muitas jovens engravidavam cedo. Minha m\u00e3e tinha medo de que o mesmo acontecesse com a gente\u201d, recordou. \u201cMas as coisas mudaram. Medell\u00edn varreu a viol\u00eancia e apareceram oportunidades para estudar, aprender, descobrir coisas novas. Eu me formei. A cidade em que minha filha vive hoje \u00e9 completamente diferente daquela da minha inf\u00e2ncia. Vejo para ela oportunidades que minha m\u00e3e n\u00e3o enxergava para mim. N\u00e3o tinha um lugar como esse, que a gente pudesse frequentar.\u201d<\/p>\n<p>Toda obra urban\u00edstica em bairros pobres de Medell\u00edn \u00e9 tamb\u00e9m uma esp\u00e9cie de memorial. Na parede do Centro Cultural Moravia h\u00e1 fotografias em preto e branco do antigo lix\u00e3o, com crian\u00e7as brincando na sujeira e as casas miser\u00e1veis em volta. Uma das fotos mostra um casebre de madeira com uma placa na frente: \u201cComit\u00ea Popular \u2013 A casa \u00e9 um direito, n\u00e3o uma esmola\u201d \u2013 imagem que ressalta a import\u00e2ncia das organiza\u00e7\u00f5es de bairro na luta por direitos em Medell\u00edn.<\/p>\n<p>Cavalcanti apontou um pr\u00e9dio de seu projeto preferido na cidade: o dos jardins de inf\u00e2ncia do Programa Buen Comienzo (Bom come\u00e7o), que, no conjunto, atendem 74 mil crian\u00e7as na primeira inf\u00e2ncia em toda a cidade. Est\u00e3o instalados em locais onde o desemprego \u00e9 alto e os pequenos correm risco de desnutri\u00e7\u00e3o. A crian\u00e7a recebe assist\u00eancia educacional e de sa\u00fade, ao mesmo tempo que sua fam\u00edlia tem ajuda financeira.<\/p>\n<p>De Moravia, Cavalcanti e seus colegas seguiram para a Comuna 13, a favela mais famosa de Medell\u00edn, por ser considerado um dos territ\u00f3rios mais violentos da cidade. O objetivo do grupo do Recife era visitar a ONG Casa de Las Estrategias, que pesquisa a criminalidade e desenvolve projetos de reafirma\u00e7\u00e3o da cidadania e de desnaturaliza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia entre os jovens. Na entrada do local, havia uma bandeira colorida em que se lia: \u201cNada justifica o homic\u00eddio.\u201d A economista Camila Uribe, diretora executiva da institui\u00e7\u00e3o, explicou que garotos de bairros muito pobres ainda se organizam em gangues e se envolvem com o crime. Os homic\u00eddios ocorrem n\u00e3o apenas em raz\u00e3o de disputas do tr\u00e1fico de drogas mas de brigas entre os jovens. \u201cEles n\u00e3o pedem permiss\u00e3o para os chef\u00f5es do tr\u00e1fico para matar. A maioria mata e morre por quest\u00f5es f\u00fateis\u201d, disse Uribe. \u201cEm Medell\u00edn, ocorrem em m\u00e9dia quinhentos homic\u00eddios por ano. Estimo que, desse total, dez foram cometidos pela pol\u00edcia.\u201d<\/p>\n<p>Se a pol\u00edcia n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o letal para jovens em Medell\u00edn quanto \u00e9 nas cidades brasileiras, ela tampouco se interessa em proteg\u00ea-los. \u201cEntrevistamos policiais de Medell\u00edn para uma pesquisa e descobrimos que 40% deles n\u00e3o est\u00e3o dispostos a proteger um jovem desses territ\u00f3rios. Uma das alega\u00e7\u00f5es dos policiais \u00e9 que eles n\u00e3o t\u00eam ferramentas institucionais para dar prote\u00e7\u00e3o\u201d, afirmou Uribe. \u201cMas h\u00e1 tamb\u00e9m muita estigmatiza\u00e7\u00e3o. Alguns policiais dizem: \u2018Esse problema \u00e9 dos chef\u00f5es do crime, eles que resolvam.\u2019\u201d<\/p>\n<p>Todo enfeitado com bandeirinhas coloridas, o morro da Comuna 13 estava lotado de turistas naquele s\u00e1bado. Sobe-se at\u00e9 l\u00e1 n\u00e3o por telef\u00e9rico, mas por escadas rolantes. Em cada patamar, guias da pr\u00f3pria comunidade oferecem passeios, como o que faz um circuito por muros grafitados. Por toda parte, havia um clima de festa parecido com o que se v\u00ea nos fins de semana na regi\u00e3o bo\u00eamia da Lapa, no Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>A guia tur\u00edstica Cristina Zapata, de 32 anos, cresceu na Comuna 13. No passado, em um s\u00e1bado como aquele, ela estaria em casa, pois eram frequentes os tiroteios na favela. Por isso, a guia comemorava o vaiv\u00e9m de gente na porta de sua casa, onde vive com o pai, ex-pedreiro, e a m\u00e3e, ex-bab\u00e1. Atualmente o sustento da fam\u00edlia vem da lojinha de suvenires que montaram na frente de casa e do trabalho de Zapata como guia. \u201cAs escadas rolantes mudaram nossa vida. Depois que Medell\u00edn foi considerada a cidade mais inovadora do mundo, at\u00e9 Bill Clinton veio aqui e, depois, n\u00e3o pararam de chegar turistas\u201d, disse ela.<\/p>\n<p>\u201cHoje, quem visita Medell\u00edn n\u00e3o pode deixar de vir \u00e0 Comuna 13. \u00c9 parte da identidade da cidade\u201d, afirmou, orgulhoso, o estudante Juan Sebastian, de 17 anos. \u201cCada fam\u00edlia passou a lutar para que um filho n\u00e3o entrasse para o crime e se mantivesse na escola. Os filhos mais velhos tinham a responsabilidade de dar o exemplo para os mais novos, evitando contato com a criminalidade.\u201d<\/p>\n<p>Quando j\u00e1 estava escurecendo, um micro-\u00f4nibus na entrada da favela nos levou at\u00e9 o metr\u00f4. Da janela, Cavalcanti exclamou: \u201cRepare naquele banco de pra\u00e7a! \u00c9 o mesmo usado nos bairros mais ricos da cidade. Eles ficam um de frente para o outro. \u00c9 para estimular as pessoas a sentarem uma de frente para a outra e conversarem.\u201d Ele contou que Jorge Melguizo costuma lhe dizer que o contr\u00e1rio de inseguran\u00e7a n\u00e3o \u00e9 seguran\u00e7a, mas conviv\u00eancia. \u201cEm espa\u00e7os onde as pessoas convivem, elas se protegem. Antes n\u00e3o era assim\u201d, disse Cavalcanti. \u201cChegou a um ponto aqui que n\u00e3o importava mais se voc\u00ea era rico, pobre ou de classe m\u00e9dia: a viol\u00eancia mais cedo ou mais tarde iria te atingir. Medell\u00edn estava no fundo do po\u00e7o quando decidiu reagir. Acho que n\u00f3s, no Brasil, ainda n\u00e3o chegamos t\u00e3o fundo. Mas estamos nos aproximando.\u201d<\/p>\n<p>Medell\u00edn ainda enfrenta dif\u00edceis desafios, como outras metr\u00f3poles da Am\u00e9rica Latina. Entre 2019 e 2020, por causa da pandemia, o n\u00famero de pessoas em situa\u00e7\u00e3o de pobreza aumentou de 921 mil para 1,2 milh\u00e3o, nos c\u00e1lculos da entidade privada Medell\u00edn C\u00f3mo Vamos, que faz an\u00e1lises sobre a qualidade de vida na cidade.<\/p>\n<p>Segundo Melguizo, isso pode botar abaixo os esfor\u00e7os que a cidade fez nos \u00faltimos vinte anos. \u201cHoje, muitos jovens entendem que seu futuro pode estar em outro neg\u00f3cio que o narcotr\u00e1fico. Mas a pandemia trouxe a preocupa\u00e7\u00e3o de que eles abandonem as escolas\u201d, afirmou, em dezembro. \u201cEstamos h\u00e1 dois anos com escolas fechadas fisicamente. Se os adolescentes se retirarem do mundo educacional, n\u00e3o ter\u00e3o chance no mercado de trabalho, que tamb\u00e9m foi afetado. Logo, suas fam\u00edlias voltar\u00e3o a uma espiral de pobreza, e os jovens podem ver oportunidades no crime.\u201d<\/p>\n<p>O principal interlocutor entre os gestores p\u00fablicos brasileiros e os colombianos \u00e9 Murilo Cavalcanti, o secret\u00e1rio de Seguran\u00e7a Cidad\u00e3 do Recife. Convidado por ele, Melguizo chegou \u00e0 capital pernambucana para explicar o modelo de Medell\u00edn a uma plateia formada por secret\u00e1rios municipais e funcion\u00e1rios da Prefeitura do Recife, em 16 de dezembro passado. \u201cEm Medell\u00edn, paramos de olhar o mapa da cidade para aplicar pol\u00edticas baseadas em \u00e1reas. Fomos ver os indicadores por bairro e ouvir suas necessidades. \u00c9 preciso reconhecer, valorizar e potencializar o que h\u00e1 em cada territ\u00f3rio. Quais s\u00e3o os bairros mais violentos? O que eles precisam? A transforma\u00e7\u00e3o l\u00e1 n\u00e3o foi s\u00f3 urbana, mas cultural. Qualificar o servi\u00e7o p\u00fablico n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma quest\u00e3o est\u00e9tica, mas tamb\u00e9m \u00e9tica\u201d, disse Melguizo aos ouvintes.<\/p>\n<p>\u201cA que horas fecham os museus no Recife?\u201d, ele perguntou, de repente, ao respons\u00e1vel pela pasta municipal de Cultura. O funcion\u00e1rio respondeu que era \u00e0s 17 horas. \u201cMas as pessoas trabalham at\u00e9 depois desse hor\u00e1rio. Precisamos que os servi\u00e7os funcionem at\u00e9 mais tarde. Os espa\u00e7os que deixamos vazios \u00e0 noite s\u00e3o ocupados por vendedores de drogas\u201d, continuou Melguizo. \u201cO Rio recebeu aportes financeiros para a Copa do Mundo e o que restou foram projetos que agora est\u00e3o fechados. O telef\u00e9rico que deveria ligar as favelas ao restante da cidade n\u00e3o funciona. N\u00e3o foram perguntar \u00e0s mulheres das comunidades onde deveria ser instalada uma escola.\u201d<\/p>\n<p>A conversa com Melguizo aconteceu no audit\u00f3rio do Centro Comunit\u00e1rio da Paz (Compaz) Dom H\u00e9lder C\u00e2mara, na favela recifense do Coque. O Compaz \u00e9 um projeto formulado para \u00e1reas pobres em que h\u00e1 grande incid\u00eancia dos chamados crimes violentos letais intencionais. S\u00e3o quatro unidades no Recife, que atendem mais de 40 mil pessoas cadastradas. Feito com parceria p\u00fablico-privada, todas t\u00eam a mesma caracter\u00edstica: equipamentos modernos, bem preservados, e boa oferta de servi\u00e7os p\u00fablicos. Os moradores disp\u00f5em de biblioteca, avalia\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas numa sala ambulatorial, atividades para a terceira idade e cursos de programa\u00e7\u00e3o de computador, empreendedorismo, artes marciais, capoeira e bal\u00e9, entre outros. O projeto Compaz \u00e9 claramente inspirado no que foi feito em Medell\u00edn, inclusive no que diz respeito \u00e0 governan\u00e7a. Onze secretarias de governo atuam articuladas para zelar pelas unidades, sob o comando da Secretaria de Seguran\u00e7a Cidad\u00e3.<\/p>\n<p>A primeira unidade inaugurada, em 2016, foi o Compaz Governador Eduardo Campos, uma constru\u00e7\u00e3o de 13 mil m<sup>2<\/sup>\u00a0no topo do bairro Alto Santa Terezinha, na Zona Norte do Recife. O centro comunit\u00e1rio atende os moradores do bairro, que tem 7 703 habitantes, e tamb\u00e9m os do entorno: \u00c1gua Fria (43 529 habitantes), Linha do Tiro (14 867) e Alto Jos\u00e9 Bonif\u00e1cio (12 462). Em fevereiro passado, somente neste Compaz havia 15 mil pessoas cadastradas.<\/p>\n<p>Articulador social da unidade, Elisandro Damasceno chama a aten\u00e7\u00e3o para as casas ao redor do pr\u00e9dio, mais bem preservadas que as mais distantes. \u201c\u00c9 um efeito do urbanismo social. Quando voc\u00ea chega com uma interven\u00e7\u00e3o como este pr\u00e9dio, mexe com a autoestima da vizinhan\u00e7a ao redor. Os moradores querem acompanhar a transforma\u00e7\u00e3o e d\u00e3o um trato em suas casas\u201d, diz Damasceno, que cresceu no Alto Santa Terezinha, \u00e9 formado em engenharia agr\u00e1ria e fez p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em urbanismo social no Insper. \u201cTanto mais que, antes de constru\u00ed-lo, n\u00f3s levamos a maquete do projeto nas reuni\u00f5es comunit\u00e1rias para saber quais servi\u00e7os os moradores gostariam que tivesse.\u201d<\/p>\n<p>Debaixo de Sol forte, Lohana Spears, de 27 anos, andou por vinte minutos do bairro Dois Unidos at\u00e9 o Compaz Governador Eduardo Campos. Queria apresentar seu curr\u00edculo numa ag\u00eancia de empregos que fica na unidade. \u201cVim tentar um trabalho. Se tiver vaga em sal\u00e3o de beleza ou restaurante, vai ser \u00f3timo. Para quem \u00e9 trans, \u00e9 muito dif\u00edcil achar alguma coisa\u201d, disse a jovem. Era a primeira vez que ela ia ao Compaz, que lhe foi indicado por uma vizinha. \u201cTem lugares que eu evito ir porque nem sempre sou bem tratada. Mas aqui me trataram muito bem. A recepcionista disse que d\u00e1 para fazer cursos de gra\u00e7a. Mas hoje estou mesmo atr\u00e1s \u00e9 de um emprego. N\u00e3o quero depender mais dos meus pais.\u201d<\/p>\n<p>Elson Ferreira, de 17 anos, estava sentado na escadaria que d\u00e1 acesso ao v\u00e3o livre do pr\u00e9dio. Aproveitava o wi-fi gratuito para ver v\u00eddeos no celular. Ele est\u00e1 no segundo ano do ensino m\u00e9dio e fez uma aula de capoeira no Compaz. \u201cTenho muitos projetos na minha cabe\u00e7a. Penso em fazer medicina, mas o que eu quero mesmo \u00e9 dar palestra\u201d, disse. \u201cQuero falar num espa\u00e7o desses para o meu povo. Eu venho em quase todas as palestras daqui. Aqui tem de tudo, mas tem uns carinhas no bairro que n\u00e3o se interessam. Tem que chegar neles.\u201d Perguntei o que ele faria se fosse gestor do Compaz. Ferreira se animou: \u201cEu ia fazer um neg\u00f3cio com o nome Minha Favela, Minha Gente. Chamaria o [youtuber] Whindersson Nunes pra falar. Ele \u00e9 nordestino e veio da pobreza igual a gente. \u00c9 uma inspira\u00e7\u00e3o para qualquer garoto da minha idade. Eu ia dizer: \u2018Whindersson, d\u00e1 o recado pra molecada do meu bairro. Qual \u00e9 a atitude certa?\u2019 Duvido que os garotos daqui n\u00e3o iam vir e ouvir o que ele tem a dizer.\u201d<\/p>\n<p>Na favela do Coque, onde fica o Compaz Dom H\u00e9lder C\u00e2mara, vivem 12 629 pessoas. \u00c9 um dos lugares mais pobres do Recife. Antes da inaugura\u00e7\u00e3o do centro comunit\u00e1rio, n\u00e3o havia ali nenhuma institui\u00e7\u00e3o do Estado, seja para seguran\u00e7a ou cultura e lazer. Agora, as crian\u00e7as da regi\u00e3o v\u00e3o direto da escola para o Compaz, onde podem jogar bola, brincar no parque e usar o computador da biblioteca, al\u00e9m de se refugiar do calor no pr\u00e9dio climatizado. Ana Campelo, gerente-geral da unidade do Coque, percebeu que algumas crian\u00e7as que vivem em moradias prec\u00e1rias passaram a usar todo dia os banheiros do Compaz, onde h\u00e1 papel higi\u00eanico dispon\u00edvel. Assim como toda a estrutura, os banheiros estavam muito limpos quando a\u00a0<strong>piau\u00ed<\/strong>\u00a0visitou o local, entre 13 e 16 de dezembro.<\/p>\n<p>No Coque, a desburocratiza\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os ainda \u00e9 uma meta a ser alcan\u00e7ada. Quando Campelo avisou a um grupo de crian\u00e7as que mais tarde haveria uma festa de Natal com Papai Noel, uma menina, ao me ver com uma caneta e bloco de papel, achou que eu fosse um funcion\u00e1rio do local e me perguntou: \u201cPode me dar uma senha? Tem que trazer documento?\u201d N\u00e3o precisava. Mas essa era a maneira que ela entendia a rela\u00e7\u00e3o com um equipamento p\u00fablico. Um garoto perguntou a Campelo se poderia entrar na piscina. \u201cPode, mas tem que vir com um respons\u00e1vel para fazer seu cadastro para as aulas de nata\u00e7\u00e3o\u201d, explicou a gerente-geral. \u201cMas eu queria entrar s\u00f3 para tomar banho, est\u00e1 muito calor\u201d, disse o menino. A piscina do Compaz Dom H\u00e9lder C\u00e2mara, entretanto, tem finalidade educativa.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m servi\u00e7os para os adultos em todas as unidades do Compaz. Na sala do projeto municipal M\u00e3e Coruja s\u00e3o dadas orienta\u00e7\u00f5es sobre amamenta\u00e7\u00e3o e cuidados b\u00e1sicos com o rec\u00e9m-nascido. As mulheres disp\u00f5em tamb\u00e9m de uma sala com assistente social pronta para atender casos de viol\u00eancia dom\u00e9stica. Dali, elas podem ser encaminhadas para delegacias, a fim de pedir medida protetiva contra os agressores, receber apoio para frequentar abrigos em casos extremos e obter atendimento psicol\u00f3gico. H\u00e1 ainda uma sala de media\u00e7\u00e3o de conflitos extrajudiciais, \u00e0 qual os moradores recorrem para resolver problemas como pedidos de pens\u00e3o aliment\u00edcia, d\u00edvidas feitas no bairro e briga entre vizinhos. Caso as pend\u00eancias n\u00e3o sejam resolvidas e uma das partes quiser, o caso pode ser encaminhado para a Justi\u00e7a ou para a Defensoria P\u00fablica.<\/p>\n<p>A Prefeitura do Recife tem ainda o Programa Mais Vida nos Morros, que promove interven\u00e7\u00f5es urban\u00edsticas em bairros pobres e melhorias em casas prec\u00e1rias. Hoje, a cidade \u00e9 uma refer\u00eancia para outras no pa\u00eds em urbanismo social. Em dezembro, recebeu uma comitiva do governo piauiense para conhecer os Compaz.<\/p>\n<p>Em 2007, quando Pernambuco atingiu a taxa de 4 557 mil homic\u00eddios no ano, o governo do estado lan\u00e7ou o Programa Pacto Pela Vida. O professor Jos\u00e9 Luiz Ratton, do Departamento de Sociologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), foi um dos idealizadores e coordenou o mecanismo de consulta \u00e0 sociedade civil. O projeto criou um comit\u00ea de gest\u00e3o, diretamente ligado ao governador, para acompanhar os indicadores de viol\u00eancia e distribuiu suas a\u00e7\u00f5es em 26 \u00e1reas integradas de seguran\u00e7a na regi\u00e3o metropolitana e no interior de Pernambuco, com trabalho conjunto das pol\u00edcias militar e civil, priorizando a investiga\u00e7\u00e3o dos crimes e a prote\u00e7\u00e3o \u00e0s pessoas. \u201cDemos gratifica\u00e7\u00f5es para o policial que reduzisse pr\u00e1ticas de homic\u00eddios. O importante naquele momento era diminuir mortes. E cada comandante era cobrado em sua \u00e1rea\u201d, conta Ratton. Em 2013, o n\u00famero de homic\u00eddios caiu para 3 124 mil casos.<\/p>\n<p>O Pacto Pela Vida ganhou pr\u00eamios, virou refer\u00eancia no pa\u00eds, mas deixou de ter acompanhamento e, como as experi\u00eancias no Rio de Janeiro, tamb\u00e9m entrou em decl\u00ednio. \u201cN\u00e3o foram implementadas as pol\u00edticas de preven\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria, secund\u00e1ria e terci\u00e1ria, voltadas para a redu\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia contra mulheres, jovens, LGBTQIA+ e pessoas negras, como estava previsto inicialmente\u201d, diz Ratton. Em 2014, os \u00edndices de homic\u00eddios voltaram a crescer, com 3 358 casos \u2013 chegando a 5 419 casos em 2017. No ano seguinte, ca\u00edram de novo. Em 2021, foram registrados 3 370 homic\u00eddios.<\/p>\n<p>Apesar de reconhecer a import\u00e2ncia do Compaz como instrumento de cidadania, Ratton \u00e9 c\u00e9tico quanto \u00e0 capacidade de esse projeto dar uma resposta mais direta no combate \u00e0 criminalidade. \u201cO Compaz \u00e9 um equipamento social maravilhoso, mas o impacto na redu\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia \u00e9 limitado. V\u00e3o l\u00e1 m\u00e3es, crian\u00e7as e jovens que est\u00e3o na escola. Quem frequenta o local j\u00e1 n\u00e3o pratica viol\u00eancia de forma sistem\u00e1tica vinculada a grupos armados\u201d, diz ele. \u201cQual \u00e9 o efeito prov\u00e1vel do Compaz? A presen\u00e7a do Estado por meio do equipamento inibe alguns dos comportamentos violentos no entorno. Efetivamente, o Compaz goza de uma legitimidade social que ao menos regula indiretamente os mercados il\u00edcitos. Mas \u00e9 uma diminui\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia sem foco. Tanto que o Recife n\u00e3o sai de um n\u00famero parecido de homic\u00eddios, mesmo com o Compaz se multiplicando pela cidade.\u201d<\/p>\n<p>Para Ratton, o centro comunit\u00e1rio poderia trazer para sua estrutura projetos que estabelecessem di\u00e1logos com quem vive a realidade do crime. \u201cN\u00e3o \u00e9 incompat\u00edvel com o Compaz ter programas de reinser\u00e7\u00e3o de egressos do sistema prisional em que eles sejam treinados para mediar conflitos nessas \u00e1reas. O mercado de drogas \u00e9 imortal e invenc\u00edvel. O que se pode fazer \u00e9 reduzir a viol\u00eancia no mercado de drogas, o que j\u00e1 \u00e9 um ganho enorme para a sociedade.\u201d<\/p>\n<p>O problema tamb\u00e9m tem ra\u00edzes mais fundas \u2013 como a situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e pol\u00edtica do pa\u00eds. No bairro Alto Santa Terezinha, pr\u00f3ximo do Compaz, ocorreram dois casos de crimes letais em 2016, ano da inaugura\u00e7\u00e3o da unidade. Em 2018, n\u00e3o houve nenhum. Mas, a partir de ent\u00e3o, com o agravamento da crise pol\u00edtica e econ\u00f4mica, os n\u00fameros voltaram a crescer, at\u00e9 atingir sete casos no ano passado.<\/p>\n<p>Murilo Cavalcanti acredita no potencial do Compaz para reduzir crimes violentos, mas acha que a efetividade do projeto vai al\u00e9m dos n\u00fameros. \u201cH\u00e1 um impacto que n\u00e3o \u00e9 mensur\u00e1vel, que os colombianos chamam de cultura cidad\u00e3, quando as pessoas do entorno deixam de jogar lixo na rua, depredar o patrim\u00f4nio p\u00fablico, destruir os \u00f4nibus que atendem aquela regi\u00e3o. E eu acho que o Compaz tem sido uma pe\u00e7a importante nisso, na dissemina\u00e7\u00e3o de uma cultura n\u00e3o violenta, de mostrar que n\u00e3o se deve fazer justi\u00e7a com as pr\u00f3prias m\u00e3os\u201d, afirma.<\/p>\n<p>Para a professora de seguran\u00e7a p\u00fablica e ativista Eliana Sousa Silva, que d\u00e1 aulas na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em urbanismo social do Insper e \u00e9 fundadora da ONG Redes da Mar\u00e9, do Rio de Janeiro, os projetos de urbanismo social podem ter um car\u00e1ter preventivo, como complemento de pol\u00edticas de seguran\u00e7a p\u00fablica. \u201cEsses centros s\u00e3o uma oferta para a juventude pobre ter outras perspectivas de cidadania que transformem a rela\u00e7\u00e3o deles com a viol\u00eancia.\u201d Mas ela ressalta que os projetos n\u00e3o podem existir sozinhos. \u201cDevem vir acompanhados de uma ideia abrangente e estrutural do direito dos cidad\u00e3os a pol\u00edticas p\u00fablicas. Sen\u00e3o, correm o risco de ser uma obra vazia.\u201d<\/p>\n<p>Aliar projetos de urbanismo social com os de seguran\u00e7a p\u00fablica \u00e9 uma pr\u00e1tica que come\u00e7a a se disseminar no Brasil. No Par\u00e1, criou-se o Projeto Usina da Paz, parte do programa estadual Territ\u00f3rios da Paz, que articula seguran\u00e7a p\u00fablica com a\u00e7\u00f5es de cidadania. Um Complexo Comunit\u00e1rio Usina da Paz j\u00e1 foi inaugurado em Ananindeua, e outros nove est\u00e3o previstos. No Cear\u00e1, existe a Rede Cuca. Em Alagoas, h\u00e1 o Programa Vida Nova nas Grotas, uma parceria do governo do estado com a ONU-Habitat (Programa das Na\u00e7\u00f5es Unidas para os Assentamentos Humanos), que faz interven\u00e7\u00f5es urban\u00edsticas em bairros pobres de Macei\u00f3.<\/p>\n<p>Numa tarde de dezembro, Ruan e Joanderson, ambos com 10 anos, passavam na Estrada Icu\u00ed-Guajar\u00e1, em Ananindeua, no Par\u00e1, e ficaram curiosos com os dois pr\u00e9dios da Usina da Paz. Erguidos havia dois meses, as constru\u00e7\u00f5es grandes diferem em tudo do que se v\u00ea naquele bairro, de casas t\u00e9rreas muito simples. Os meninos decidiram entrar em um deles. Depararam com salas de m\u00fasica, oficinas e biblioteca equipada com computadores. H\u00e1, no total, oitenta servi\u00e7os gratuitos de esporte, lazer, educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade e profissionaliza\u00e7\u00e3o. Quando uma funcion\u00e1ria explicou que era tudo gratuito, eles arregalaram os olhos.<\/p>\n<p>Ananindeua, na Regi\u00e3o Metropolitana de Bel\u00e9m, \u00e9 a segunda cidade mais populosa do Par\u00e1, com 540 mil habitantes, e as ruas em torno da Usina da Paz s\u00e3o ainda mais pobres que as do bairro Alto Santa Terezinha, no Recife. L\u00ednguas negras de esgoto sem tratamento saem das casas e cruzam ruas sem asfalto.<\/p>\n<p>Em 2018, Ananindeua alcan\u00e7ou a exorbitante taxa de 92,47 homic\u00eddios por 100 mil habitantes, que no ano seguinte baixou para 43,91, segundo o Atlas da Viol\u00eancia. Por isso, foi a primeira cidade do Par\u00e1 a receber a Usina da Paz, inaugurada em outubro do ano passado em um terreno de 10 725 m<sup>2<\/sup>. A \u00e1rea constru\u00edda \u00e9 de 4 103 m<sup>2<\/sup>, com dois pr\u00e9dios principais, o audit\u00f3rio e a quadra poliesportiva. Os pr\u00e9dios circulares de ferro e madeira, projetados pela arquiteta Bel Lobo, s\u00e3o t\u00e3o surpreendentes quanto os de Medell\u00edn.<\/p>\n<p>No p\u00e1tio em frente aos pr\u00e9dios, funciona uma feira onde mulheres da regi\u00e3o vendem seus produtos de artesanato, produzindo ali certa movimenta\u00e7\u00e3o. Em Medell\u00edn, acontece algo parecido: nas favelas que receberam a\u00e7\u00f5es de urbanismo social sempre tem uma feira ou barraquinhas. Diante do ambulat\u00f3rio da Usina da Paz de Ananindeua, havia uma grande fila. Outra, ainda maior, se formara em frente ao Centro de Refer\u00eancia da Assist\u00eancia Social (CRAS), onde se estava fazendo cadastro para o Programa Aux\u00edlio Brasil, para seguro-desemprego e outros benef\u00edcios do governo. A biblioteca, por\u00e9m, estava vazia naquela tarde de sexta-feira.<\/p>\n<p>Em visita ao local, o educador Ricardo Balestreri, titular da Secretaria Estrat\u00e9gica de Articula\u00e7\u00e3o da Cidadania do governo do Par\u00e1, abriu a porta de uma sala: era um curso de corte e costura, com mais de vinte alunas. Entre elas, Edna Valesca, de 46 anos, que frequenta a Usina da Paz de segunda a sexta. \u201cAl\u00e9m do curso de costura, acompanho minha filha, que tem epilepsia e retardo mental leve, nas aulas de refor\u00e7o de portugu\u00eas e matem\u00e1tica. Com o que aprendi aqui ajudo meu marido nas despesas de casa, costurando e vendendo bolsas e aventais\u201d, disse a estudante, que mora no bairro desde que nasceu. \u201cNunca teve nessas bandas nada oferecido por governo nenhum. \u00c9 tudo uma novidade. Aqui dentro passa uma sensa\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a. A gente que \u00e9 m\u00e3e quer proteger nossos filhos. \u00c9 muita viol\u00eancia l\u00e1 fora.\u201d<\/p>\n<p>\u201cS\u00e3o d\u00e9cadas de abandono nessa regi\u00e3o. \u00c9 um desafio oferecer a experi\u00eancia de dispor de servi\u00e7os do Estado e fazer a popula\u00e7\u00e3o abra\u00e7ar esse equipamento\u201d, afirma Balestreri. A Usina da Paz Icu\u00ed-Guajar\u00e1 \u00e9 dirigida por um coronel da reserva, Marcos Lopes, que listou os principais crimes que costumam ocorrer nas cercanias: viol\u00eancia dom\u00e9stica, homic\u00eddio, latroc\u00ednio, roubo e viol\u00eancia sexual contra menores.<\/p>\n<p>H\u00e1 mais problemas em Ananindeua: 67,6% das pessoas n\u00e3o t\u00eam acesso \u00e0 \u00e1gua encanada e 97,9% n\u00e3o t\u00eam rede de esgoto, segundo dados de 2019 (os mais recentes) do Sistema Nacional de Informa\u00e7\u00f5es sobre Saneamento (SNIS). Balestreri reconhece que h\u00e1 problemas de infraestrutura, mas acredita na capacidade irradiadora de transforma\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o urbano por meio de projetos como o Usina da Paz e o Compaz. \u201cO primeiro fator \u00e9 o da autoestima que esses aparelhos provocam na popula\u00e7\u00e3o. O segundo, \u00e9 que ele \u00e9 motivacional para a gest\u00e3o p\u00fablica. Quando voc\u00ea come\u00e7a a cuidar de um bairro, voc\u00ea insere na realidade um elemento novo, o de que o territ\u00f3rio merece mais aten\u00e7\u00e3o e atrai mais investimento.\u201d Ele deixa clara a diferen\u00e7a entre Medell\u00edn e o que est\u00e1 sendo feito na periferia de Bel\u00e9m: \u201cMedell\u00edn passou por um processo de reformas urbanas mais amplas. \u00c9 diferente do que n\u00f3s estamos fazendo aqui: um programa de inclus\u00e3o social oferecido pelo Estado, mas com grande possibilidade de transforma\u00e7\u00e3o do entorno.\u201d<\/p>\n<p>Tomas Alvim, do Insper, destaca outra diferen\u00e7a essencial entre o projeto de Medell\u00edn e os que costumam ser feitos no Brasil. \u201cO urbanismo social colombiano tem sobrevivido h\u00e1 vinte anos com mudan\u00e7as de prefeitos e partidos e ideologias distintas. Projetos que foram constru\u00eddos com o povo e para o povo. Isso \u00e9 fundamental para que pol\u00edticas p\u00fablicas sobrevivam no longo prazo\u201d, diz. \u201c\u00c9 diferente do que ocorre no Brasil. O Bolsa Fam\u00edlia teve sua g\u00eanese no governo Fernando Henrique, se aperfei\u00e7oou no governo Lula e veja o que est\u00e1 acontecendo agora. Um projeto vencedor de distribui\u00e7\u00e3o de renda prestes a ser extinto. Isso dificilmente aconteceria em Medell\u00edn.\u201d<\/p>\n<p>Cavalcanti afirma que, sendo o Compaz um projeto n\u00e3o de governo, mas da popula\u00e7\u00e3o, isso pode impedir que seja descontinuado em futuras gest\u00f5es. O Compaz sobreviveu \u00e0 troca de governo municipal em 2021, de Geraldo Julio para Jo\u00e3o Campos \u2013 mas eram ambos do mesmo partido, o PSB. Pode ser a exce\u00e7\u00e3o que confirma a regra \u2013 e a regra tem sido, por raz\u00f5es diversas, de descontinuidade absoluta.<\/p>\n<p>Tome-se o caso do telef\u00e9rico que atendia \u00e0s comunidades do Complexo do Alem\u00e3o, no Rio de Janeiro, onde vivem cerca de 180 mil pessoas. Inspirado no projeto de Medell\u00edn, foi inaugurado em julho de 2011 e transportava 10 mil passageiros por dia. Ao viajar nele, a francesa Christine Lagarde, ent\u00e3o diretora do Fundo Monet\u00e1rio Internacional e atual presidente do Banco Central Europeu, chegou a dizer, \u00e0 guisa de elogiar o telef\u00e9rico, que se sentia \u201cnuma esta\u00e7\u00e3o de esqui\u201d dos Alpes. Em outubro de 2016, pouco mais de um m\u00eas depois do fim da Olimp\u00edada no Rio, j\u00e1 n\u00e3o havia mais o telef\u00e9rico do Alem\u00e3o. Teve uma vida t\u00e3o curta quanto o do Morro da Provid\u00eancia.<\/p>\n<p>Em Po\u00e1, munic\u00edpio da Regi\u00e3o Metropolitana de S\u00e3o Paulo, fica a ONG Gerando Falc\u00f5es, comandada por Edu Lyra, que atua em rede com v\u00e1rias favelas brasileiras para pensar solu\u00e7\u00f5es para a pobreza. Uma dessas parcerias foi com o Morro da Provid\u00eancia, no Rio de Janeiro, por interm\u00e9dio da ONG Instituto Entre o C\u00e9u e a Favela. O projeto Favela 3D dividiu a Provid\u00eancia em dezesseis microrregi\u00f5es e ouviu os moradores sobre suas demandas em \u00e1reas como sa\u00fade, cidadania, cultura, educa\u00e7\u00e3o, autonomia da mulher, gera\u00e7\u00e3o de renda, entre outros.<\/p>\n<p>A partir da\u00ed, chegou-se a v\u00e1rias propostas, como criar uma escola de ensino m\u00e9dio perto de uma das microrregi\u00f5es que n\u00e3o dispunha de nenhuma. Os alunos precisavam sair da favela para chegar a uma escola em outro bairro. \u201cNesses casos estamos falando de pobreza tamb\u00e9m. Um jovem que trabalha o dia todo para sustentar a fam\u00edlia acaba desistindo da escola porque ela est\u00e1 longe de casa. E tem aqueles que nem sequer t\u00eam dinheiro para se deslocar. A gente percebe como a falta de acesso a equipamentos p\u00fablicos impede o desenvolvimento dos moradores. Em outras microrregi\u00f5es, uma creche pode fazer mais falta que uma escola\u201d, diz Cintia Sant\u2019anna, que cresceu na Provid\u00eancia e fundou a ONG Instituto Entre o C\u00e9u e a Favela, que d\u00e1 aulas de refor\u00e7o escolar, cursos de qualifica\u00e7\u00e3o profissional para as mulheres e de teatro.<\/p>\n<p>As propostas do projeto Favela 3D foram colocadas na mesa e apresentadas \u00e0 Prefeitura do Rio de Janeiro. O prefeito Eduardo Paes (PSD) sinalizou que pode juntar as secretarias para ajudar a melhorar a qualidade de vida na Provid\u00eancia. A meta para a execu\u00e7\u00e3o das melhorias \u00e9 de dois anos. A piau\u00ed perguntou a Sant\u2019anna se, em 2024, a Provid\u00eancia seria um territ\u00f3rio menos pobre. \u201c\u00c9 tudo no que acredito neste momento. Se eu deixar de acreditar, nem levanto da cama.\u201d<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Medell\u00edn: inspira\u00e7\u00e3o para resgatar as cidades brasileiras &#8211; Outras Palavras &#8211; https:\/\/outraspalavras.net\/outrasmidias\/medellin-inspiracao-para-resgatar-as-cidades-brasileiras\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tiago Coelho &#8211; Em 2 de julho de 2014, quando o Rio de Janeiro sediava a Copa do Mundo e se preparava para a Olimp\u00edada, foi inaugurado um telef\u00e9rico na cidade para facilitar o acesso dos moradores \u00e0 Provid\u00eancia, a favela carioca mais antiga, erguida a partir de 1888 no morro de mesmo nome. 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