{"id":17885,"date":"2022-05-30T12:37:16","date_gmt":"2022-05-30T15:37:16","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=17885"},"modified":"2022-05-25T17:10:53","modified_gmt":"2022-05-25T20:10:53","slug":"por-uma-politica-heterodoxa-de-combate-a-inflacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2022\/05\/30\/por-uma-politica-heterodoxa-de-combate-a-inflacao\/","title":{"rendered":"Por uma pol\u00edtica heterodoxa de combate \u00e0 infla\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><strong>CARLOS \u00c1GUEDO PAIVA &#8211;\u00a0<\/strong>Por onde estruturaremos um programa de combate \u00e0 infla\u00e7\u00e3o que nos livre das mazelas e efeitos desindustrializantes da ancoragem monet\u00e1rio-cambial introduzida pelo Plano Real?<\/p>\n<p><strong>Introdu\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Em\u00a0<a href=\"https:\/\/aterraeredonda.com.br\/tarefas-de-um-futuro-governo-de-esquerda\/\">artigo anterior<\/a>, publicado no site A Terra \u00e9 Redonda, procurei demonstrar a urg\u00eancia em superar o padr\u00e3o de controle da infla\u00e7\u00e3o vigente no Brasil desde o Plano Real. E isto na medida em que a equa\u00e7\u00e3o vigente \u2013 para al\u00e9m de todo o discurso e de toda a parafern\u00e1lia econom\u00e9trica do sistema de Metas \u2013 continua a se basear, fundamentalmente, na intera\u00e7\u00e3o \u201cjuros-c\u00e2mbio\u201d: eleva-se a taxa de juros para atrair recursos externos e valorizar o real, deprimindo o pre\u00e7o de importados e de exportados. Quem sofre \u00e9 a perna fr\u00e1gil do trip\u00e9 dos\u00a0<em>tradables:<\/em>\u00a0a ind\u00fastria de transforma\u00e7\u00e3o. Nas duas outras pernas do trip\u00e9 \u2013 agroneg\u00f3cio e ind\u00fastria extrativa mineral \u2013, assentadas em recursos naturais, por oposi\u00e7\u00e3o a recursos artificiais, tecnol\u00f3gicos e organizacionais \u2013 o Brasil vai muito bem obrigado.<\/p>\n<p>Mas a cada vez que o drag\u00e3o inflacion\u00e1rio tira a cabe\u00e7a para fora o Banco Central aciona seu esquema de ajuste, revalorizando o real e expondo a ind\u00fastria de transforma\u00e7\u00e3o \u00e0 concorr\u00eancia externa. O que tem grav\u00edssimas consequ\u00eancias \u2013 infelizmente, ainda pouco entendidos e reconhecidos por economistas de todos os matizes, a come\u00e7ar pelos heterodoxos \u2013 sobre a capacidade competitiva da ind\u00fastria no longo prazo. Pois a cada varia\u00e7\u00e3o da taxa de c\u00e2mbio real, o que fica evidente \u00e9 que o controle da infla\u00e7\u00e3o \u00e9 quest\u00e3o de princ\u00edpio; a defesa da ind\u00fastria e da soberania produtiva nacional, definitivamente, n\u00e3o \u00e9.<\/p>\n<p>Ora, num mundo crescentemente globalizado e oligopolizado, no qual a hegemonia industrial asi\u00e1tica (e, em especial chinesa) \u00e9 cada vez maior, a \u201cinforma\u00e7\u00e3o\u201d repetida desde 1994, h\u00e1 quase tr\u00eas d\u00e9cadas, de que a defesa da ind\u00fastria \u00e9 secund\u00e1ria e que ela ser\u00e1 usada como \u201cboi de piranha\u201d a cada novo surto inflacion\u00e1rio tem consequ\u00eancias. E a principal consequ\u00eancia \u00e9 a depress\u00e3o da taxa de investimento e a disposi\u00e7\u00e3o para inovar e correr riscos no segmento. Se queremos enfrentar esta triste realidade que vem deprimindo, h\u00e1 d\u00e9cadas, nossa taxa de crescimento, \u00e9 preciso desenvolver uma nova pol\u00edtica de combate \u00e0 infla\u00e7\u00e3o. E o in\u00edcio de tudo tem que ser a compreens\u00e3o do objeto.<\/p>\n<p><strong>O peculiar inflacionismo brasileiro<\/strong><\/p>\n<p>Por raz\u00f5es pouco compreendidas e relativamente pouco discutidas na literatura<a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=83&amp;url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fpor-uma-politica-heterodoxa-de-combate-a-inflacao%2F#_edn1\" name=\"_ednref1\">[i]<\/a>, o Brasil apresenta uma elevada propens\u00e3o \u00e0 infla\u00e7\u00e3o. Quer me parecer que esta \u201ccompuls\u00e3o inflacion\u00e1ria\u201d seja mais uma express\u00e3o do padr\u00e3o excludente e espoliativo do capitalismo brasileiro. Afinal, a despeito da infla\u00e7\u00e3o ser definida como \u201celeva\u00e7\u00e3o geral dos pre\u00e7os\u201d (por oposi\u00e7\u00e3o a processos de \u201caltera\u00e7\u00e3o de pre\u00e7os relativos\u201d), o que a caracteriza \u00e9 que os pre\u00e7os n\u00e3o sobem, todos, simultaneamente. Aqueles agentes com maior capacidade de precifica\u00e7\u00e3o, elevam seus pre\u00e7os \u00e0 frente dos demais, e se beneficiam ao longo do per\u00edodo em que os \u00faltimos n\u00e3o alcan\u00e7am recompor os seus pr\u00f3prios pre\u00e7os. Na medida em que os \u201cretardat\u00e1rios\u201d alcan\u00e7am os protagonistas, estes recome\u00e7am o circuito, muitas vezes alimentando processos que levam \u00e0 espiral inflacion\u00e1ria (taxas crescentes).<\/p>\n<p>Sem sombra de d\u00favida, o Plano Real \u00e9 um marco e um divisor de \u00e1guas no inflacionismo brasileiro. N\u00e3o obstante, desde sua implementa\u00e7\u00e3o o Brasil continuou a apresentar taxas de infla\u00e7\u00e3o positivas e em patamares significativamente superiores \u00e0 maioria dos pa\u00edses desenvolvidos e, inclusive, de parcela expressiva dos pa\u00edses subdesenvolvidos. Este ponto fica claro quando observamos o Quadro 1, abaixo.<\/p>\n<p>Quadro 1<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/aterraeredonda.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/aguedo1.png?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p>As taxas de infla\u00e7\u00e3o est\u00e3o agrupadas por per\u00edodos selecionados em fun\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas econ\u00f4micas e\/ou em fun\u00e7\u00e3o dos mandatos presidenciais no Brasil. O primeiro per\u00edodo levado em considera\u00e7\u00e3o s\u00e3o os dois mandatos de FHC, entre 1995 e 2002. Como no primeiro ano desta s\u00e9rie \u2013 1995 \u2013 a taxa de infla\u00e7\u00e3o foi significativamente elevada (22,5%) e muito acima da m\u00e9dia anual entre 1995 e 2020 (6,75% a.a.), tamb\u00e9m calculamos a infla\u00e7\u00e3o acumulada apenas no per\u00edodo 1996-2002.<a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=83&amp;url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fpor-uma-politica-heterodoxa-de-combate-a-inflacao%2F#_edn2\" name=\"_ednref2\">[ii]<\/a><\/p>\n<p>O primeiro a observar \u00e9 que o Brasil apresenta taxas de infla\u00e7\u00e3o superiores \u00e0 m\u00e9dia mundial em todo o per\u00edodo e em cada um dos subper\u00edodos selecionados, sem qualquer exce\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>De outro lado, excetuado o per\u00edodo Dilma (que inclui o ano de 2015, quando a taxa de infla\u00e7\u00e3o atingiu dois d\u00edgitos), em todos os demais per\u00edodos o Brasil apresenta uma taxa de infla\u00e7\u00e3o inferior \u00e0 m\u00e9dia dos pa\u00edses emergentes e bastante pr\u00f3xima (mas discretamente inferior) \u00e0 m\u00e9dia da Am\u00e9rica Latina e Caribe (\u00e1rea da Cepal).<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante, do meu ponto de vista, \u00e9 preciso entender que: (i) o Plano Real \u00e9 um \u201cpacto social\u201d baseado exatamente no enfrentamento e controle da infla\u00e7\u00e3o e de seus perversos efeitos redistributivos (concentradores de renda). Ele foi a condi\u00e7\u00e3o da vit\u00f3ria de FHC em 1994 e 1998. Lula s\u00f3 consegue se eleger quando assume o compromisso de manter intocado este \u201cpacto social\u201d, na \u201cCarta aos Brasileiros. Em suma: o combate \u00e0 \/ controle da infla\u00e7\u00e3o est\u00e1 no centro do programa econ\u00f4mico \u201cconsensuado\u201d no pa\u00eds; (ii) o Plano Real estruturou-se (e estrutura-se!) sobre ancoragem cambial, a qual depende de abund\u00e2ncia de recursos externos e reservas cambiais. Malgrado alguns curtos per\u00edodos de escassez de divisas (sempre por volatilidade especulativa, como em 2002 e 2009), o Brasil contou com abund\u00e2ncia de recursos em moeda forte e o Banco Central exerceu com autonomia e independ\u00eancia (inclusive excessiva!) seu papel de \u201cxerife anti-inflacionista\u201d, puxando juros e deprimindo o valor do d\u00f3lar;<\/p>\n<p>(iii) Quando comparamos nossa performance inflacion\u00e1ria com a performance da \u201cm\u00e9dia\u201d dos pa\u00edses emergentes, estamos nos comparando com regi\u00f5es e pa\u00edses tais como o Oriente M\u00e9dio e a \u00c1sia Central,<a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=83&amp;url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fpor-uma-politica-heterodoxa-de-combate-a-inflacao%2F#_edn3\" name=\"_ednref3\">[iii]<\/a>\u00a0que envolve na\u00e7\u00f5es situadas entre o Marrocos, na \u00c1frica, at\u00e9 o Paquist\u00e3o, na \u00c1sia, passando por Tun\u00edsia, Arg\u00e9lia, L\u00edbia, Egito e Sud\u00e3o, no continente africano, e por L\u00edbano, S\u00edria, Autoridade Palestina, Faixa de Gaza, Iraque e Ir\u00e3 Afeganist\u00e3o, na \u00c1sia. Parcela expressiva destes pa\u00edses vivenciaram e vivenciam guerra civil, golpes de Estado e circunscri\u00e7\u00f5es cambiais e\/ou embargos comerciais extraordinariamente pesados; Europa em Desenvolvimento, situados no Leste Europeu e que viveram sob infla\u00e7\u00e3o elevad\u00edssima durante mais de uma d\u00e9cada de complexa e dolorosa transi\u00e7\u00e3o para a economia capitalista: entre 1994 e 2002 a infla\u00e7\u00e3o m\u00e9dia anual dos pa\u00edses desta regi\u00e3o foi de 57,63%; a \u00c1frica Subsaariana, cujos problemas cambiais, de instabilidade pol\u00edtica e de estrangulamento de oferta s\u00e3o t\u00e3o grandes ou maiores do que os pa\u00edses do Oriente M\u00e9dio e \u00c1sia Central.<\/p>\n<p>(iv) Quando tomamos apenas os pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina (\u00e1rea da Cepal) \u00e9 preciso entender que esta regi\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 muito desigual, que se desdobra em taxas de infla\u00e7\u00e3o igualmente diversas. Alguns pa\u00edses como a Venezuela vivem, nos anos recentes, uma crise associada \u00e0 queda dos pre\u00e7os do petr\u00f3leo e ao embargo econ\u00f4mico orquestrado pelos EUA. Neste pa\u00eds, a taxa m\u00e9dia anual de infla\u00e7\u00e3o nos \u00faltimos 4 anos superou os 7.000%. A Argentina foi submetida a choques externos e inflex\u00f5es radicais de pol\u00edtica econ\u00f4mica nos \u00faltimos anos e sua taxa m\u00e9dia anual de eleva\u00e7\u00e3o de pre\u00e7os neste per\u00edodo foi de 37,54%. Se incluirmos pa\u00edses da Am\u00e9rica Central e Caribe \u2013 como Haiti, Nicar\u00e1gua, Guatemala, etc. \u2013 fica f\u00e1cil entender porque o Brasil alcan\u00e7a uma performance discretamente melhor que a m\u00e9dia da regi\u00e3o. A grande quest\u00e3o \u00e9 porque essa superioridade \u00e9 t\u00e3o discreta, porque a performance nacional \u00e9 t\u00e3o similar \u00e0 performance m\u00e9dia latino-americana.<\/p>\n<p>A precariedade da performance nacional fica plenamente evidenciada quando a comparamos com a dos pa\u00edses desenvolvidos. Entre 1995 e 2020, a infla\u00e7\u00e3o anual m\u00e9dia brasileira foi 6,75% a.a., enquanto a m\u00e9dia dos pa\u00edses desenvolvidos foi aproximadamente um quarto deste \u00edndice: 1,75%. Mesmo quando retiramos o ano de 1995 como \u201cat\u00edpico\u201d, a m\u00e9dia anual brasileira fica em 6,17% contra 1,72% dos pa\u00edses desenvolvidos. Vale dizer: a infla\u00e7\u00e3o anual m\u00e9dia do Brasil \u00e9 algo entre 4 e 3,5 vezes maior do que a infla\u00e7\u00e3o anual m\u00e9dia dos pa\u00edses desenvolvidos.<\/p>\n<p>Por qu\u00ea? Por irresponsabilidade fiscal ou monet\u00e1ria? \u2026 N\u00e3o nos parece necess\u00e1rio esgrimir argumentos para criticar esta tese do senso comum conservador. Tampouco podemos explicar estes \u00edndices por aus\u00eancia de concorr\u00eancia externa ao setor\u00a0<em>tradable<\/em>. Pelo contr\u00e1rio: como tenho defendido em diversos textos, blogs e grupos em redes sociais, a exposi\u00e7\u00e3o competitiva imposta pela persistente \u00e2ncora cambial est\u00e1 na base de nossa acelerada desindustrializa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A pretens\u00e3o de que, na base deste problema, encontrar-se-ia, fundamentalmente, ganhos salariais reais acima da infla\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m n\u00e3o se sustenta. Esta tese \u2013 esgrimida por economistas que resgatam a curva de Phillips para criticar as pol\u00edticas petistas de emprego e sal\u00e1rio m\u00ednimo \u2013 revela sua insubsist\u00eancia quando vemos a performance inflacion\u00e1ria do per\u00edodo Temer-Bolsonaro. Ao longo de cinco anos de elevado desemprego<a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=83&amp;url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fpor-uma-politica-heterodoxa-de-combate-a-inflacao%2F#_edn4\" name=\"_ednref4\">[iv]<\/a>, a taxa m\u00e9dia anual de infla\u00e7\u00e3o foi de 4,35% a.a.; o que corresponde a 3,2 a taxa m\u00e9dia dos pa\u00edses desenvolvidos e 30% superior \u00e0 m\u00e9dia mundial.<a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=83&amp;url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fpor-uma-politica-heterodoxa-de-combate-a-inflacao%2F#_edn5\" name=\"_ednref5\">[v]<\/a><\/p>\n<p>Por\u00e9m, do meu ponto de vistam, h\u00e1, nesta tese de inflex\u00e3o \u201cneokeynesiana\u201d, um pouco mais de consist\u00eancia do que os defensores radicais de uma certa heterodoxia est\u00e3o dispostos a admitir. Se tomamos a taxa m\u00e9dia de infla\u00e7\u00e3o dos \u201canos petistas\u201d (2003-2015), ela se revela superior \u00e0 taxa dos anos \u201cp\u00f3s-golpe\u201d em quase dois pontos percentuais: 6,26% a.a. Simultaneamente, neste per\u00edodo \u2013 mais uma vez, de acordo com os dados do FMI \u2013 a taxa m\u00e9dia de desemprego foi inferior aos anos Temer-Bolsonaro em pouco menos de 3 pontos percentuais: 9,5%.<a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=83&amp;url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fpor-uma-politica-heterodoxa-de-combate-a-inflacao%2F#_edn6\" name=\"_ednref6\">[vi]<\/a><\/p>\n<p>A quest\u00e3o \u00e9 que (a despeito da infla\u00e7\u00e3o brasileira ser irredut\u00edvel a press\u00f5es salariais) entendemos, em conson\u00e2ncia com Kalecki e a corrente p\u00f3s-keynesiana, que: (i) a eleva\u00e7\u00e3o dos sal\u00e1rios nominais em uma economia oligopolizada que opera com\u00a0<em>mark-ups\u00a0<\/em>r\u00edgidos e expressivos \u00e9 um elemento de press\u00e3o sobre os pre\u00e7os e tende a contribuir para a acelera\u00e7\u00e3o da infla\u00e7\u00e3o em segmentos n\u00e3o expostos \u00e0 concorr\u00eancia externa e altamente empregadores (como os servi\u00e7os, por exemplo); (ii) a queda da taxa de desemprego (eleva\u00e7\u00e3o do emprego acima do crescimento da oferta de m\u00e3o-de-obra) amplia o poder de barganha da classe trabalhadora e sua capacidade de press\u00e3o por sal\u00e1rios nominais mais elevados e este movimento \u2013 em si mesmo ben\u00e9fico e positivo! \u2013 tamb\u00e9m carrega consigo elementos de press\u00e3o inflacion\u00e1ria; (iii) o apoio governamental \u00e0 eleva\u00e7\u00e3o dos sal\u00e1rios nominais (que t\u00eam o sal\u00e1rio m\u00ednimo como refer\u00eancia!) \u00e9 uma estrat\u00e9gia leg\u00edtima e necess\u00e1ria de refor\u00e7o a pol\u00edticas redistributivas, a despeito de comportar uma press\u00e3o de custos com potencial componente inflacion\u00e1rio.<\/p>\n<p>Na verdade, a quest\u00e3o que nos interessa tratar \u00e9 justamente esta: se, num futuro governo de esquerda, quisermos operar com vistas a elevar os sal\u00e1rios nominais e reais, redistribuir a renda em prol dos trabalhadores e elevar de forma significativa o n\u00edvel de emprego da economia, estaremos introduzindo elementos de press\u00e3o inflacion\u00e1ria com grande potencial de acelera\u00e7\u00e3o e aprofundamento da compuls\u00e3o inflacionista que caracteriza a economia brasileira. Neste quadro, mantida a \u201cautonomia-independ\u00eancia\u201d relativa do Banco Central, muito provavelmente ser\u00e1 preservada a estrat\u00e9gia de combate \u00e0 infla\u00e7\u00e3o adotada desde 1994 com todas as suas consequ\u00eancias delet\u00e9rias para o crescimento econ\u00f4mico: eleva\u00e7\u00e3o dos juros, valoriza\u00e7\u00e3o do real (deprecia\u00e7\u00e3o do d\u00f3lar), exposi\u00e7\u00e3o competitiva da ind\u00fastria e, por fim, desindustrializa\u00e7\u00e3o. Urge, pois, desenvolver e propor e \u2013 uma vez no governo \u2013 colocar em pr\u00e1tica pol\u00edticas alternativas e genuinamente heterodoxas de combate \u00e0 infla\u00e7\u00e3o, capazes de superar o dualismo \u201cortodoxia monet\u00e1ria\u201d (que redunda em real sobrevalorizado) e\/ou \u201cortodoxia fiscal\u201d (que redunda em desemprego elevado). O objetivo da pr\u00f3xima se\u00e7\u00e3o \u00e9, justamente, apontar para esta \u201cterceira via\u201d.<\/p>\n<p><strong>Fundamentos de uma estrat\u00e9gia heterodoxa de combate \u00e0 infla\u00e7\u00e3o no Brasil<\/strong><\/p>\n<p>Tal como Kalecki procurou demonstrar em diversos trabalhos, no m\u00e9dio prazo, a eleva\u00e7\u00e3o dos sal\u00e1rios nominais s\u00f3 \u00e9 um instrumento eficaz para a redistribui\u00e7\u00e3o da renda em prol dos trabalhadores se ela vier acompanhada de depress\u00e3o da taxa de\u00a0<em>mark-up<\/em>. O que \u00e9 o mesmo que dizer que a distribui\u00e7\u00e3o da renda \u00e9 fun\u00e7\u00e3o da depress\u00e3o do grau de monop\u00f3lio (m\u00e9dio) da economia e do aprofundamento da concorr\u00eancia em pre\u00e7os (Kalecki, 1938).<a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=83&amp;url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fpor-uma-politica-heterodoxa-de-combate-a-inflacao%2F#_edn7\" name=\"_ednref7\">[vii]<\/a><\/p>\n<p>Ora, esta concep\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 novidade dentro do campo heterodoxo brasileiro<a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=83&amp;url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fpor-uma-politica-heterodoxa-de-combate-a-inflacao%2F#_edn8\" name=\"_ednref8\">[viii]<\/a>\u00a0e fez parte das estrat\u00e9gias pol\u00edticas econ\u00f4micas adotadas ao longo dos anos petistas. Da forma como lemos o antol\u00f3gico artigo de Andr\u00e9 Singer intitulado\u00a0<em>Cutucando on\u00e7as com varas curtas<\/em>\u00a0(Singer, 2015), sua tese central \u00e9 justamente esta: em seu primeiro mandato, Dilma buscou enfrentar (e efetivamente enfrentou!) o grau de monop\u00f3lio de um amplo conjunto de segmentos empresariais cujo poder de precifica\u00e7\u00e3o havia sido ampliado pelas pol\u00edticas privatistas de FHC. Dentre estes setores, h\u00e1 que se salientar: (1) o segmento banc\u00e1rio-financeiro, cuja rentabilidade foi acicatada pelas novas pol\u00edticas de cr\u00e9dito e de juros do Banco do Brasil, da Caixa Econ\u00f4mica Federal e do BNDES; (2) o segmento log\u00edstico, afetado pela nova lei dos portos de 2013, pelas tentativas de alterar o marco regulat\u00f3rio das ferrovias (com a introdu\u00e7\u00e3o do direito de passagem, que suprimiria o monop\u00f3lio das concession\u00e1rias) e pelas novas regras e leil\u00f5es-concess\u00f5es rodovi\u00e1rias; e (3) os servi\u00e7os industriais de utilidade p\u00fablica, com \u00eanfase nas concession\u00e1rias de gera\u00e7\u00e3o, transmiss\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o de energia el\u00e9trica, que foram pressionadas a alterar os contratos de concess\u00e3o assinados no per\u00edodo FHC por modalidades voltadas a garantir uma maior flexibilidade no pre\u00e7o de oferta da energia el\u00e9trica, com vantagens para o consumidor (nas quedas de pre\u00e7os) e para as concession\u00e1rias (na alta de pre\u00e7os, em fun\u00e7\u00e3o de problemas de gera\u00e7\u00e3o e oferta).<\/p>\n<p>Acredito que um dos desdobramentos destas \u201ccutucadas\u201d tenha sido a radical inflex\u00e3o da \u201copini\u00e3o p\u00fablica\u201d acerca do governo Dilma na transi\u00e7\u00e3o de 2012 para 2013 (ano que se inicia com o an\u00fancio da nova pol\u00edtica de juros do Banco Central e que ser\u00e1 marcado pelas \u201cjornadas juninas\u201d). A m\u00eddia \u2013 que nunca fora solid\u00e1ria com os governos do PT, e j\u00e1 havia incensado a farsa do Mensal\u00e3o \u2013 vai aprofundar suas cr\u00edticas \u00e0 terceira gest\u00e3o do PT, assumindo para si a fun\u00e7\u00e3o de \u201cfor\u00e7a opositora\u201d, promovendo fartamente todas as manifesta\u00e7\u00f5es e protestos de rua a partir de 2013.<\/p>\n<p>Simultaneamente, a base pol\u00edtica no congresso vai sendo dilu\u00edda at\u00e9 ser totalmente dissolvida, a partir da movimenta\u00e7\u00e3o de lideran\u00e7as do PMDB e do PSDB cujos intere$es nas atividades portu\u00e1rias (como Temer e Cunha), rodovi\u00e1rias (Padilha), e na gera\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o de energia el\u00e9trica (A\u00e9cio Neves) haviam sido prejudicados. A Nova Lei dos Portos foi a \u00faltima grande vit\u00f3ria de Dilma no Congresso. A partir da\u00ed, todas as iniciativas da presidenta de enfrentamento dos grandes oligop\u00f3lios (sa\u00fade privada, ferrovias, etc.) foram barradas. E o di\u00e1logo entre Minist\u00e9rio da Fazenda, Pal\u00e1cio da Alvorada e Banco Central foi se tornando cada dia mais truncado.<\/p>\n<p>Ora, de um lado, parece-me evidente que a estrat\u00e9gia \u201ckaleckiana\u201d adotada por Dilma de redistribuir renda, controlar a infla\u00e7\u00e3o e alavancar a competitividade da produ\u00e7\u00e3o nacional<a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=83&amp;url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fpor-uma-politica-heterodoxa-de-combate-a-inflacao%2F#_edn9\" name=\"_ednref9\">[ix]<\/a>\u00a0via transfer\u00eancia dos ganhos de produtividade dos setores oligopolizados para os pre\u00e7os (e, portanto, para o conjunto da sociedade) era perfeitamente correta e necess\u00e1ria. Mas, de outro, acredito que ela n\u00e3o precisaria (e, talvez, tendo em vista as consequ\u00eancias finais deste processo, n\u00e3o devesse) iniciar este enfrentamento pelos \u201cpolos hegem\u00f4nicos\u201d do grande capital: sistema financeiro e servi\u00e7os concedidos-privatizados durante os leil\u00f5es e rega-bofes do governo FHC. Acredito que exista uma alternativa que permitiria \u201ccomer o mingau pelas beiradas\u201d,<a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=83&amp;url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fpor-uma-politica-heterodoxa-de-combate-a-inflacao%2F#_edn10\" name=\"_ednref10\">[x]<\/a>\u00a0uma alternativa que n\u00e3o foi tentada e que deveria ser numa nova gest\u00e3o do PT (ou, eventualmente, de outra composi\u00e7\u00e3o-governo de esquerda).<\/p>\n<p>Do meu ponto de vista, a alternativa de menor custo pol\u00edtico e de maior efic\u00e1cia econ\u00f4mica de controle inflacion\u00e1rio e redistribui\u00e7\u00e3o de renda via depress\u00e3o do\u00a0<em>mark-up<\/em>\u00a0encontra-se em focar diretamente nas elevadas margens do com\u00e9rcio que vigoram no Brasil. Mais: acredito que se deveria dar \u00eanfase, inicialmente, nos segmentos que comercializam produtos que fazem parte da \u201ccesta do IPCA\u201d e que, portanto, impactam diretamente daqueles \u00edndices de infla\u00e7\u00e3o que orientam as pol\u00edticas monet\u00e1rias do Banco Central. Expliquemo-nos.<\/p>\n<p>Acredito que os economistas \u2013 inclusive da \u201cbanda heterodoxa\u201d \u2013 ainda n\u00e3o tomaram plena consci\u00eancia do grau de financeiriza\u00e7\u00e3o da economia brasileira em geral e da financeiriza\u00e7\u00e3o do sistema de comercializa\u00e7\u00e3o em particular. O Brasil \u00e9 o \u00fanico pa\u00eds do mundo onde a maior parte das mercadorias \u00e9 vendida em \u201cdiversas vezes sem juros\u201d. De passagens a\u00e9reas (vendidas usualmente em \u201cv\u00e1rias vezes sem juros\u201d diretamente pela Gol, Tam, Azul, ou por revendedoras, como Submarino, Decolar, etc.) a compras em supermercado (pagas com cart\u00e3o de cr\u00e9dito e\/ou em cart\u00f5es das pr\u00f3prias redes, como Zaffari, P\u00e3o de A\u00e7\u00facar, etc.), passando por magazines de roupas (C&amp;A, Renner, Riachuelo, etc.) a magazines de eletrodom\u00e9sticos e utilidades para o lar (Magazine Lu\u00edza, Ponto Frio, Lojas Colombo, etc.), concession\u00e1rias de ve\u00edculos (Volkswagen, Renault, Fiat, etc.), praticamente tudo no pa\u00eds \u00e9 vendido a prazo. Por qu\u00ea? Porque todos os grandes grupos comerciais do pa\u00eds, ou est\u00e3o associados, ou contam com financeiras e\/ou bancos pr\u00f3prios, e obt\u00eam a maior parte dos seus lucros do sistema de financiamento aos seus clientes, por oposi\u00e7\u00e3o aos ganhos derivados do processo de comercializa\u00e7\u00e3o em sentido estrito.<a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=83&amp;url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fpor-uma-politica-heterodoxa-de-combate-a-inflacao%2F#_edn11\" name=\"_ednref11\">[xi]<\/a><\/p>\n<p>Esta estrat\u00e9gia dos grandes varejistas tem desdobramentos para o pequeno capital associado ao com\u00e9rcio. Na medida em que os pre\u00e7os \u201c\u00e0 vista\u201d com os quais operam as grandes redes comerciais j\u00e1 inclui o juro (que, teoricamente, n\u00e3o \u00e9 cobrado quando o cliente \u201copta\u201d pela compra a prazo), estes pre\u00e7os s\u00e3o significativamente superiores aos custos de aquisi\u00e7\u00e3o dos produtos comercializados junto \u00e0 ind\u00fastria. Esta elevada margem de lucro do grande com\u00e9rcio \u00e9 percebida pelo pequeno comerciante como uma vantagem. Afinal, ele adquire suas mercadorias em lotes menores e, usualmente, a pre\u00e7os superiores e, se a margem do grande com\u00e9rcio fosse menor, a sua tamb\u00e9m seria acicatada pela concorr\u00eancia. Por\u00e9m, esta percep\u00e7\u00e3o do pequeno comerciante \u00e9 apenas parcialmente verdadeira. Na realidade, seus \u201cganhos\u201d s\u00e3o mais aparenciais do que reais. Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>Porque os consumidores exigem do pequeno varejo o mesmo tratamento que obt\u00e9m junto ao grande: a venda a prazo. S\u00f3 que, no caso do pequeno varejista, como regra geral, o parcelamento (usualmente, em mais de uma parcela, para compras vultosas) se d\u00e1 via cart\u00e3o de cr\u00e9dito. Para al\u00e9m dos custos financeiros imediatos que o comerciante incorre no momento em que faz uso destes instrumentos, ele incorre, tamb\u00e9m, em custos mediatos, pois n\u00e3o recebe o valor total de sua venda, necessitar\u00e1 tomar empr\u00e9stimo (capital de giro) para a reposi\u00e7\u00e3o de estoque.<a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=83&amp;url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fpor-uma-politica-heterodoxa-de-combate-a-inflacao%2F#_edn12\" name=\"_ednref12\">[xii]<\/a>\u00a0Ora, a venda a cr\u00e9dito por parte do grande varejo que conta com bancos e financeiras associadas gera ganhos extraordin\u00e1rios. Mas o mesmo n\u00e3o se d\u00e1 para o pequeno comerciante, que arca com a maior parte dos custos de financiamento concedidos pelo sistema banc\u00e1rio ao seu cliente e, por extens\u00e3o, a ele mesmo.<\/p>\n<p>O \u201c(re)equil\u00edbrio financeiro\u201d do pequeno com\u00e9rcio \u00e9 obtido por uma segunda via, igualmente perversa: em fun\u00e7\u00e3o da grande desigualdade de renda que caracteriza a estrutura social brasileira, uma parcela significativa da popula\u00e7\u00e3o nacional n\u00e3o tem acesso a cart\u00e3o de cr\u00e9dito e a sistemas de financiamento. Esta parcela realiza suas compras e pagamentos rigorosamente \u00e0 vista, via papel-moeda. N\u00e3o gratuitamente, no Brasil atual o volume de papel-moeda em circula\u00e7\u00e3o corresponde aproximadamente ao volume dos dep\u00f3sitos \u00e0 vista nos bancos comerciais: em 2020, ambos giravam em torno de 250 bilh\u00f5es de reais.<a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=83&amp;url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fpor-uma-politica-heterodoxa-de-combate-a-inflacao%2F#_edn13\" name=\"_ednref13\">[xiii]<\/a><\/p>\n<p>Esta parcela da popula\u00e7\u00e3o \u2013 justamente a mais pobre! \u2013 paga \u00e0 vista o pre\u00e7o a prazo. Como ela realiza parcela expressiva de suas compras no pequeno com\u00e9rcio (situado na periferia das cidades, na proximidade das resid\u00eancias populares) ela contribui para a sustenta\u00e7\u00e3o deste estrato varejista e, inadvertidamente, contribui para a sustenta\u00e7\u00e3o de um perverso sistema de precifica\u00e7\u00e3o marcado por exorbitantes margens \u201cfinanceiras de com\u00e9rcio\u201d.<\/p>\n<p>Do meu ponto de vista, urge interferir e alterar esta articula\u00e7\u00e3o perversa entre com\u00e9rcio e finan\u00e7as em nosso pa\u00eds a partir de pol\u00edticas p\u00fablicas especificamente voltadas para tanto. Desde logo, seria preciso mostrar a \u201cnudez do rei\u201d. H\u00e1 um engodo coletivo. O consumidor realmente acredita que est\u00e1 sendo beneficiado pelo parcelamento \u201csem juros\u201d. E o pequeno comerciante realmente acredita que est\u00e1 sendo beneficiado por vender seus produtos ao elevado pre\u00e7o praticado pelo grande comerciante.<a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=83&amp;url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fpor-uma-politica-heterodoxa-de-combate-a-inflacao%2F#_edn14\" name=\"_ednref14\">[xiv]<\/a><\/p>\n<p>Com vistas a calcular o desconto que um pequeno comerciante poderia conceder sem deprimir sua margem de rentabilidade (mas, at\u00e9, ampliando-a), tentei calcular os custos financeiros m\u00e9dios que este estrato incorre em suas vendas a prazo. Este c\u00e1lculo, contudo, mostrou-se muito mais complexo do que eu poderia imaginar inicialmente. Por diversos motivos. Em primeiro lugar, encontra-se o fato de que os riscos de opera\u00e7\u00e3o com dinheiro papel variam em cada localidade. Falo dos riscos de assalto do estabelecimento comercial e\/ou do respons\u00e1vel por realizar os dep\u00f3sitos diariamente. Em segundo lugar, os custos de opera\u00e7\u00e3o com cart\u00e3o de cr\u00e9dito tamb\u00e9m n\u00e3o s\u00e3o uniformes.<\/p>\n<p>Novas bandeiras est\u00e3o ingressando no mercado e concorrendo com as bandeiras tradicionais pelo oferecimento de melhores condi\u00e7\u00f5es de financiamento para os comerciantes. Al\u00e9m disso, os comerciantes que recorrem a empr\u00e9stimos banc\u00e1rios para capital de giro (que sustenta parte de suas opera\u00e7\u00f5es de cr\u00e9dito ao cliente), deparam-se com taxas de juros e encargos banc\u00e1rios (taxas diversas, reciprocidades, etc.) diversificados. Por fim, ouvi relatos por parte dos comerciantes de problemas espec\u00edficos para a utiliza\u00e7\u00e3o de papel-moeda (por oposi\u00e7\u00e3o aos cart\u00f5es) que me surpreenderam, tais como: (1) a morosidade do pagamento com dinheiro \u00e9 maior, levando \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de filas; (2) e o n\u00famero de pessoas nos caixas teria que ser maior, mas (3) nem todos os pequenos comerciantes contam com pessoal suficiente e confi\u00e1vel que saiba calcular adequadamente o troco; dentre outros.<\/p>\n<p>Vale notar, que parte destas dificuldades podem ser dribladas, atualmente, com o sistema de pagamento via pix. Por\u00e9m ainda seria preciso enfrentar outro problema: a car\u00eancia de conhecimento em finan\u00e7as do pequeno comerciante e, por extens\u00e3o, sua dificuldade em dimensionar o impacto positivo para sua rentabilidade na ado\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas que o liberem do pagamento de juros e taxas banc\u00e1rias.<\/p>\n<p>Uma pol\u00edtica de apoio \u00e0 forma\u00e7\u00e3o e informa\u00e7\u00e3o do pequeno comerciante poderia conscientiz\u00e1-lo das vantagens que teria se concedesse descontos para os consumidores dispostos a adquirir as mercadorias \u00e0 vista. Por menores que fossem estes descontos, eles fazem diferen\u00e7a para as fam\u00edlias de baixo or\u00e7amento e teriam consequ\u00eancias sobre a evolu\u00e7\u00e3o do n\u00edvel geral de pre\u00e7os. E isto na medida em que a depress\u00e3o dos pre\u00e7os no pequeno varejo teria de ser (pelo menos em parte) acompanhada pela queda de pre\u00e7os no grande varejo.<a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=83&amp;url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fpor-uma-politica-heterodoxa-de-combate-a-inflacao%2F#_edn15\" name=\"_ednref15\">[xv]<\/a><\/p>\n<p>Um tal programa de apoio \u00e0 concorr\u00eancia e depress\u00e3o de pre\u00e7os teria muito maior efic\u00e1cia se ele viesse acompanhado de sistemas p\u00fablicos de divulga\u00e7\u00e3o dos menores pre\u00e7os de oferta no com\u00e9rcio em cada bairro. Um programa que poderia ter in\u00edcio com \u00eanfase na cesta de produtos que comp\u00f5em o IPCA.<\/p>\n<p>Igualmente bem, parece-me que seria importante legislar e regular o processo de financiamento ao consumidor atrav\u00e9s da obrigatoriedade de exposi\u00e7\u00e3o das taxas de juros efetivamente embutidas nas opera\u00e7\u00f5es de cr\u00e9dito. Uma vez que os cart\u00f5es das grandes empresas de varejo est\u00e3o associados a financeiras espec\u00edficas, a refer\u00eancia dos juros das lojas deve ser a taxa de juros cobrada pelas mesmas para o cr\u00e9dito pessoal.<\/p>\n<p>Estas s\u00e3o apenas algumas ideias que necessitam de determina\u00e7\u00e3o para que possam vir a transformar-se em um programa efetivo e eficaz de controle de pre\u00e7os por mecanismos de mercado que reforcem a concorr\u00eancia e deprimam a margem de lucro (mark-up). Mas, parece-me, \u00e9 um bom ponto de partida. E isto porque traz \u00e0 luz e busca enfrentar exatamente um dos tra\u00e7os mais peculiares da economia nacional: as formas veladas da financeiriza\u00e7\u00e3o e da indu\u00e7\u00e3o \u00e0 compra \u00e0 cr\u00e9dito.<\/p>\n<p>Outrossim, mesmo que se chegue \u00e0 conclus\u00e3o de que n\u00e3o \u00e9 este o \u201ccaminho a ser trilhado\u201d, acredito que o problema em si seja pertinente e urgente. Por isto mesmo, trago estes pontos \u00e0 reflex\u00e3o. Se n\u00e3o for por aqui, por onde estruturaremos um programa de combate \u00e0 infla\u00e7\u00e3o que nos livre das mazelas e efeitos desindustrializantes da ancoragem monet\u00e1rio-cambial introduzida pelo Plano Real?<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>KALECKI, M. (1938) The determinants of distribution of the National Income. In: OSIATYNSKI, J. (ed.). (1990)\u00a0<em>Collected Works of Michal Kalecki.\u00a0<\/em>Oxford: Clarendon Press.Vol. II.<\/p>\n<p>PAIVA, C. A. (2004).\u00a0 Lendo o Real com um olho em Keynes e outro em Kalecki.\u00a0<em>Indicadores Econ\u00f4micos FEE.<\/em>\u00a0V. 16, n. 2. Porto Alegre: FEE. Disp. em\u00a0<a href=\"http:\/\/revistas.fee.tche.br\/index.php\/indicadores\/article\/view\/257\">http:\/\/revistas.fee.tche.br\/index.php\/indicadores\/article\/view\/257<\/a><\/p>\n<p>SINGER, A. (2015) \u201cCutucando on\u00e7as com varas curtas: o ensaio desenvolvimentista no primeiro mandato de Dilma Rousseff (2011-2014). In:\u00a0<em>Novos Estudos.\u00a0<\/em>N. 102. Julho.<\/p>\n<p>SYLOS-LABINI, P. (1984) \u201cPre\u00e7os e distribui\u00e7\u00e3o de renda na ind\u00fastria de transforma\u00e7\u00e3o\u201d. In:\u00a0<em>Ensaios sobre desenvolvimento e pre\u00e7os.\u00a0<\/em>Rio de Janeiro: Forense Universit\u00e1ria.<\/p>\n<p><strong>Notas<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=83&amp;url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fpor-uma-politica-heterodoxa-de-combate-a-inflacao%2F#_ednref1\" name=\"_edn1\">[i]<\/a>\u00a0A despeito de exerc\u00edcios brilhantes e inovadores, como, dentre outros, o cl\u00e1ssico trabalho de Ign\u00e1cio Rangel sobre\u00a0<em>A Infla\u00e7\u00e3o Brasileira.<\/em><\/p>\n<p><a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=83&amp;url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fpor-uma-politica-heterodoxa-de-combate-a-inflacao%2F#_ednref2\" name=\"_edn2\">[ii]<\/a>\u00a0Usualmente se pretende que a infla\u00e7\u00e3o elevada em 1995 seria um reflexo dos \u201cpercal\u00e7os do ajuste\u201d e da persist\u00eancia da in\u00e9rcia inflacion\u00e1ria herdada de 1994. N\u00e3o obstante, em tese, de acordo com os formuladores do programa, a in\u00e9rcia deveria ter sido anulada durante o per\u00edodo de implanta\u00e7\u00e3o da Unidade Real de Valor (URV), no primeiro semestre de 1994. O fato deste \u201cajuste\u201d n\u00e3o ter ocorrido a contento e a infla\u00e7\u00e3o elevada haver persistido por mais de um ano ap\u00f3s a plena implanta\u00e7\u00e3o do Real (no segundo semestre de 1994 e ao longo dos primeiros meses de 1995) j\u00e1 \u00e9 uma primeira demonstra\u00e7\u00e3o da tese que estamos querendo esgrimir: a tend\u00eancia inflacionista da economia brasileira e a resili\u00eancia da infla\u00e7\u00e3o a programas de ajuste e controle do n\u00edvel geral de pre\u00e7os.<\/p>\n<p><a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=83&amp;url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fpor-uma-politica-heterodoxa-de-combate-a-inflacao%2F#_ednref3\" name=\"_edn3\">[iii]<\/a>\u00a0Nome \u201cfantasia\u201d que o FMI d\u00e1 aos pa\u00edses de hegemonia mu\u00e7ulmana cont\u00edguos.<\/p>\n<p><a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=83&amp;url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fpor-uma-politica-heterodoxa-de-combate-a-inflacao%2F#_ednref4\" name=\"_edn4\">[iv]<\/a>\u00a0Segundo o WEO-FMI, a taxa m\u00e9dia de desemprego ao longo destes cinco anos seria de 12,49%. Esta taxa \u00e9 discretamente inferior \u00e0quela calculada pelo IBGE.<\/p>\n<p><a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=83&amp;url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fpor-uma-politica-heterodoxa-de-combate-a-inflacao%2F#_ednref5\" name=\"_edn5\">[v]<\/a>\u00a0Vale notar que, como tomamos o World Economic Outlook como fonte de dados para compara\u00e7\u00e3o e ainda n\u00e3o existem informa\u00e7\u00f5es sobre taxa de infla\u00e7\u00e3o de 2021 para todos os pa\u00edses do mundo, n\u00e3o estamos incluindo nesta s\u00e9rie a performance inflacion\u00e1ria do ano passado, quando o IPCA superou os 10%. O salto inflacion\u00e1rio foi devido, em grande parte, \u00e0 desvaloriza\u00e7\u00e3o do real, derivado das baixas taxas de juro praticadas pelo Bacen. O que revela \u2013 mais uma vez \u2013 a import\u00e2ncia de termos pol\u00edticas alternativas \u00e0 ancoragem cambial para conter os pre\u00e7os.<\/p>\n<p><a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=83&amp;url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fpor-uma-politica-heterodoxa-de-combate-a-inflacao%2F#_ednref6\" name=\"_edn6\">[vi]<\/a>\u00a0Estes resultados n\u00e3o se alteram significativamente quando extra\u00edmos da s\u00e9rie os dois anos de pol\u00edtica econ\u00f4mica \u201cat\u00edpica\u201d das gest\u00f5es petistas: 2003 e 2015. Nestes dois anos, foram adotas estrat\u00e9gias fiscais e monet\u00e1rias ortodoxas, que elevaram significativamente desemprego. No primeiro caso, para enfrentar as press\u00f5es inflacion\u00e1rias herdadas da desvaloriza\u00e7\u00e3o cambial de 2002; no segundo caso (com pouco ou nenhum sucesso!), com vistas a obter a flexibiliza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica monet\u00e1rio-cambial do Banco Central que estava levando \u00e0 sobrevaloriza\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica do real e, por consequ\u00eancia, \u00e0 desindustrializa\u00e7\u00e3o no Brasil. Entre 2004 e 2014, a taxa de infla\u00e7\u00e3o m\u00e9dia anual da economia brasileira foi de 5,6% (1,3 ponto percentual acima da taxa m\u00e9dia do per\u00edodo Temer-Bolsonaro). E a taxa de desemprego m\u00e9dia (de acordo com o WEO-FMI) foi de 9,2%. A inflex\u00e3o de 2015 \u2013 por mais desastrada que tenha sido \u2013 coloca uma quest\u00e3o que me parece fundamental: a dificuldade de operar com a autonomia (para n\u00e3o falar em independ\u00eancia) efetiva do Banco Central com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s determina\u00e7\u00f5es e pol\u00edticas econ\u00f4micas estruturantes dos governos de esquerda (vale dizer: dos governos petistas!) no Brasil contempor\u00e2neo. Voltaremos a este ponto mais adiante.<\/p>\n<p><a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=83&amp;url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fpor-uma-politica-heterodoxa-de-combate-a-inflacao%2F#_ednref7\" name=\"_edn7\">[vii]<\/a>\u00a0Na verdade, Kalecki pretende (corretamente) que a queda do grau de monop\u00f3lio e, por extens\u00e3o, do mark-up, levaria \u00e0 redistribui\u00e7\u00e3o independentemente de qualquer eleva\u00e7\u00e3o dos sal\u00e1rios nominais. S\u00f3 que, neste caso, a redistribui\u00e7\u00e3o se daria com defla\u00e7\u00e3o e, portanto, com eleva\u00e7\u00e3o das taxas reais de juros. O que pode acarretar em novos empecilhos ao processo de desenvolvimento.<\/p>\n<p><a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=83&amp;url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fpor-uma-politica-heterodoxa-de-combate-a-inflacao%2F#_ednref8\" name=\"_edn8\">[viii]<\/a>\u00a0Em grande parte, por influ\u00eancia da Escola da Unicamp, onde Dilma fez cr\u00e9ditos de Mestrado e Doutorado.<\/p>\n<p><a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=83&amp;url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fpor-uma-politica-heterodoxa-de-combate-a-inflacao%2F#_ednref9\" name=\"_edn9\">[ix]<\/a>\u00a0No jarg\u00e3o conservador: \u201cenfrentar o custo Brasil\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=83&amp;url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fpor-uma-politica-heterodoxa-de-combate-a-inflacao%2F#_ednref10\" name=\"_edn10\">[x]<\/a>\u00a0Dentre o memor\u00e1vel fraseado pol\u00edtico de Leonel Brizola, uma das tiradas que mais gosto \u00e9: \u201cMingau quente se come pelas beiradas. Quem p\u00f5e a colher direto no centro e leva na boca est\u00e1 pedindo para se queimar.\u201d<\/p>\n<p><a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=83&amp;url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fpor-uma-politica-heterodoxa-de-combate-a-inflacao%2F#_ednref11\" name=\"_edn11\">[xi]<\/a>\u00a0Interessante observar que mesmo os analistas econ\u00f4micos da imprensa burguesa apontam para esta peculiaridade do nosso sistema de comercializa\u00e7\u00e3o. Vale a pena ler as an\u00e1lises disseminadas na rede sobre as causas do fracasso do Wal-Mart no Brasil. Sem explicitar toda a problem\u00e1tica, h\u00e1 diversos textos que apontam, com clareza, para a parte vis\u00edvel deste enorme e perigoso iceberg, como, por exemplo:\u00a0<a href=\"https:\/\/veja.abril.com.br\/economia\/seis-razoes-que-explicam-o-fracasso-do-walmart-no-brasil\/\">https:\/\/veja.abril.com.br\/economia\/seis-razoes-que-explicam-o-fracasso-do-walmart-no-brasil\/<\/a><\/p>\n<p><a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=83&amp;url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fpor-uma-politica-heterodoxa-de-combate-a-inflacao%2F#_ednref12\" name=\"_edn12\">[xii]<\/a>\u00a0In\u00fameras vezes, a opera\u00e7\u00e3o \u00e9 autom\u00e1tica: a gestora do cart\u00e3o (a bandeira, seja Visa, Master, ou outra qualquer) ou o banco onde o comerciante tem conta realiza o parcelamento e recebe o valor a prazo, mas entrega parte do valor da venda imediatamente ao comerciante. O fato da opera\u00e7\u00e3o ser \u201cuma s\u00f3\u201d n\u00e3o muda em nada a subst\u00e2ncia do processo: o pequeno comerciante est\u00e1 pagando juros para financiar seu cliente.<\/p>\n<p><a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=83&amp;url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fpor-uma-politica-heterodoxa-de-combate-a-inflacao%2F#_ednref13\" name=\"_edn13\">[xiii]<\/a>\u00a0Veja-se, por exemplo:\u00a0<a href=\"https:\/\/www.istoedinheiro.com.br\/papel-moeda-tem-recorde-de-circulacao-no-pais\/\">https:\/\/www.istoedinheiro.com.br\/papel-moeda-tem-recorde-de-circulacao-no-pais\/<\/a><\/p>\n<p><a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=83&amp;url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fpor-uma-politica-heterodoxa-de-combate-a-inflacao%2F#_ednref14\" name=\"_edn14\">[xiv]<\/a>\u00a0Na verdade, o pequeno comerciante sempre apresenta uma \u201cvantagem locacional\u201d com rela\u00e7\u00e3o ao grande varejista: ele est\u00e1 mais pr\u00f3ximo do consumidor. Adquirir os bens no pequeno com\u00e9rcio envolve poupar \u00f4nibus, t\u00e1xi, gasolina ou simplesmente tempo e sola de sapato. De sorte que, efetivamente, seus pre\u00e7os s\u00e3o discretamente superiores aos do grande varejista. Mas esta margem \u00e9 relativamente pequena. E n\u00e3o cabe deprimi-la: \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o de sua sobreviv\u00eancia. O que cabe \u00e9 esclarecer e evidenciar os custos financeiros no qual o comerciante incorre ao vender a prazo com base em financiamento banc\u00e1rio ou das bandeiras dos cart\u00f5es de cr\u00e9dito VISA, Master, etc.<\/p>\n<p><a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=83&amp;url=https%3A%2F%2Faterraeredonda.com.br%2Fpor-uma-politica-heterodoxa-de-combate-a-inflacao%2F#_ednref15\" name=\"_edn15\">[xv]<\/a>\u00a0Se isto n\u00e3o ocorresse, a percentagem das vendas do pequeno varejo \u2013 que \u00e9 amplamente empregador \u2013 seria ampliada e as consequ\u00eancias sociais e econ\u00f4micas do processo em termos de depress\u00e3o do grau de monop\u00f3lio da economia seriam igualmente expressivas.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Por uma pol\u00edtica heterodoxa de combate \u00e0 infla\u00e7\u00e3o &#8211; A TERRA \u00c9 REDONDA &#8211; https:\/\/aterraeredonda.com.br\/por-uma-politica-heterodoxa-de-combate-a-inflacao\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>CARLOS \u00c1GUEDO PAIVA &#8211;\u00a0Por onde estruturaremos um programa de combate \u00e0 infla\u00e7\u00e3o que nos livre das mazelas e efeitos desindustrializantes da ancoragem monet\u00e1rio-cambial introduzida pelo Plano Real? Introdu\u00e7\u00e3o Em\u00a0artigo anterior, publicado no site A Terra \u00e9 Redonda, procurei demonstrar a urg\u00eancia em superar o padr\u00e3o de controle da infla\u00e7\u00e3o vigente no Brasil desde o Plano [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":17886,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[5],"tags":[70],"class_list":["post-17885","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-economia","tag-neoliberalismo"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.8 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Por uma pol\u00edtica heterodoxa de combate \u00e0 infla\u00e7\u00e3o - Controversia<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2022\/05\/30\/por-uma-politica-heterodoxa-de-combate-a-inflacao\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_PT\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Por uma pol\u00edtica heterodoxa de combate \u00e0 infla\u00e7\u00e3o - Controversia\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"CARLOS \u00c1GUEDO PAIVA &#8211;\u00a0Por onde estruturaremos um programa de combate \u00e0 infla\u00e7\u00e3o que nos livre das mazelas e efeitos desindustrializantes da ancoragem monet\u00e1rio-cambial introduzida pelo Plano Real? 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