{"id":17847,"date":"2022-05-16T12:56:14","date_gmt":"2022-05-16T15:56:14","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=17847"},"modified":"2022-05-14T09:59:27","modified_gmt":"2022-05-14T12:59:27","slug":"antropofagia-ambiental","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2022\/05\/16\/antropofagia-ambiental\/","title":{"rendered":"Antropofagia ambiental"},"content":{"rendered":"<p><strong>Carlos Bocuhy<\/strong> &#8211;\u00a0<span style=\"font-family: Lato, sans-serif;\">O ano de 2022 \u00e9 um marco temporal emblem\u00e1tico: completamos 100 anos da Semana da Arte Moderna (1922) e 50 anos da Confer\u00eancia de Estocolmo (1972). M\u00e1rio de Andrade, precursor do movimento modernista, foi um vision\u00e1rio. O modernismo apregoava antropofagia, um processo de nacionalismo cr\u00edtico para absorver cultura global, transformar e recriar a cultura Tupiniquim. Um desafio de manter a tend\u00eancia vanguardista europeia, mas sem perder o car\u00e1ter nacionalista. <\/span><\/p>\n<blockquote><p><em>S\u00f3 a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<blockquote><p>Oswald de Andrade em Manifesto Antrop\u00f3fago, 1928<\/p><\/blockquote>\n<p>Cinquenta anos depois do modernismo, em Estocolmo, despontou uma proposta global para a grande corre\u00e7\u00e3o dos rumos da civiliza\u00e7\u00e3o humana em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 sua pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia, ao que se denominou sustentabilidade.<\/p>\n<p>O tempo voa e o futuro \u00e9 incerto. Mais cinquenta anos \u2013 e agora o Brasil se apresenta como ant\u00edtese da modernidade. Na esfera governamental deixou de se apropriar do conhecimento, de participar da vanguarda, perdendo protagonismo ao abandonar os signos ambientais universais. \u00a0Sem o refazimento cultural preconizado pelo movimento antropof\u00e1gico do modernismo e com total aus\u00eancia de valores de uma vanguarda sustent\u00e1vel, recolheu-se \u00e0 insignific\u00e2ncia de uma velha rep\u00fablica das bananas, no ostracismo de um colonialismo predat\u00f3rio e fora de seu tempo.<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/Campanha-de-Membros-oeco-_-1x1-1.gif?w=640&amp;ssl=1\" srcset=\"data:image\/gif;base64,R0lGODlhAQABAIAAAAAAAP\/\/\/yH5BAEAAAAALAAAAAABAAEAAAIBRAA7\" data-recalc-dims=\"1\" data-lazy-src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.oeco.org.br\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/Campanha-de-Membros-oeco-_-1x1-1.gif?w=640&amp;is-pending-load=1#038;ssl=1\" \/><\/p>\n<p>Este cen\u00e1rio in\u00f3spito n\u00e3o gera credibilidade. Em reuni\u00f5es e publica\u00e7\u00f5es de investidores internacionais, afirma-se ami\u00fade o risco elevado de se colocar recursos no Brasil para longo prazo. Claudio Frischtak, s\u00f3cio e gestor da Inter B Consultoria Internacional de Neg\u00f3cios, afirmou recentemente que, \u201cnos \u00faltimos tr\u00eas anos, o Brasil sofreu destrui\u00e7\u00e3o reputacional no exterior por n\u00e3o conseguir acompanhar a mudan\u00e7a de mentalidade que est\u00e1 ocorrendo nos neg\u00f3cios. Empresas,\u00a0<a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/mercado\/2019\/09\/230-fundos-que-administram-r-65-trilhoes-exortam-brasil-a-proteger-a-amazonia.shtml\" target=\"_blank\" rel=\"nofollow external noopener noreferrer\" data-wpel-link=\"external\">fundos de investimento e de pens\u00e3o, importantes investidores de longo prazo, est\u00e3o incluindo o meio ambiente na an\u00e1lise de retorno do investimento<\/a>. Quem insiste em ignorar isso, vive em outro planeta.\u201d<\/p>\n<p>A devasta\u00e7\u00e3o ambiental brasileira gera falta de credibilidade internacional, mas tamb\u00e9m divisas na m\u00e3o de poucos especuladores que aniquilam ecossistemas essenciais para muitos. \u00a0Enquanto o mundo experimenta crescimento com pouco desenvolvimento, o Brasil experimenta retra\u00e7\u00e3o e antidesenvolvimento. O setor p\u00fablico investiu, em m\u00e9dia, cerca de R$ 46 bilh\u00f5es ao ano em infraestrutura de 2018 a 2021, contra R$ 57 bilh\u00f5es anuais dos tr\u00eas anos anteriores.<\/p>\n<p>Em que pese a matriz do movimento econ\u00f4mico global ter avan\u00e7ado pouco em sustentabilidade neste come\u00e7o de Antropoceno, apresentando ganhos quantitativos e n\u00e3o qualitativos conforme comprova o aquecimento global, no Brasil as condi\u00e7\u00f5es da gest\u00e3o ambiental se transformaram em algo t\u00e3o fr\u00e1gil e confuso como Macuna\u00edma, o personagem de M\u00e1rio de Andrade.<\/p>\n<p>As consequ\u00eancias da inc\u00faria chegam em contas mensais. No m\u00eas de abril a Amaz\u00f4nia totalizou 74% mais alertas de desmatamentos do que no mesmo m\u00eas de 2021. Nada menos que 1.012,5 km\u00b2 foram desmatados. Nos limites do tipping point, a Amaz\u00f4nia d\u00e1 sinais de fenecimento. A prote\u00e7\u00e3o da Floresta Amaz\u00f4nica vem se configurando em retumbante fracasso, o que tem gerado forte press\u00e3o da opini\u00e3o p\u00fablica internacional.<\/p>\n<p>O Brasil fechou o s\u00e9culo XX com avan\u00e7os institucionais extraordin\u00e1rios. O final dos tempos da ditadura foi acompanhado de uma verdadeira revolu\u00e7\u00e3o cidad\u00e3, evoluindo para normativas democr\u00e1ticas e ambientais, ainda sob a influ\u00eancia da Confer\u00eancia de Estocolmo e apoiada no estabelecimento da Pol\u00edtica Nacional do Meio Ambiente (PNMA), de 1981.<\/p>\n<p>A Constitui\u00e7\u00e3o Cidad\u00e3 de 1988 incorporou o esp\u00edrito destes tempos. Trouxe diretrizes ambientais claras, dando um passo \u00e0 frente de muitas na\u00e7\u00f5es do Primeiro Mundo, antecipando a plena participa\u00e7\u00e3o social para a \u00e1rea ambiental. Aqueles tempos lan\u00e7aram alicerces s\u00f3lidos para uma governan\u00e7a eficiente que no cen\u00e1rio internacional do s\u00e9culo XXI continua a se fortalecer, com o advento da Enc\u00edclica Laudato Si (2015) e o Acordo de Escaz\u00fa (2018).<\/p>\n<p>Esses fluxos virtuosos contrastam com o atual refluxo cultural brasileiro. For\u00e7as econ\u00f4micas pouco saud\u00e1veis acabaram por protagonizar no Brasil uma esp\u00e9cie de coaliz\u00e3o reacion\u00e1ria, em movimento de contrarreforma para atender ao interesse deles, os poucos.<\/p>\n<p>Esse tiro no p\u00e9 dos brasileiros tornou o Pa\u00eds motivo de esc\u00e1rnio internacional. Para o desespero dos quadros mais l\u00facidos do Itamaraty, a falta de estadistas que pudessem potencializar melhores pr\u00e1ticas cedeu espa\u00e7o \u00e0 contrarreforma assinada por Jair Bolsonaro a partir de 2019, configurando-se como refluxo civilizat\u00f3rio, um fen\u00f4meno conhecido como\u00a0<em>backlash.\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Devolvemos aos ventos do imponder\u00e1vel as estruturas e os mecanismos de gest\u00e3o ambiental estatal e de controle social. As amea\u00e7as clim\u00e1ticas come\u00e7am a soprar cada vez mais fortes sobre o Brasil, consolidando um novo normal agressivo para as \u00e1reas equatoriais\/tropicais.<\/p>\n<p>M\u00e1rio de Andrade parecia antecipar o\u00a0<em>backlash<\/em>\u00a0brasileiro. O personagem de Piaim\u00e3, o comedor de gente, se apropria do territ\u00f3rio e aniquila com Macuna\u00edma. Assim a economia sem car\u00e1ter se lan\u00e7a sobre um sistema ambiental fr\u00e1gil. Piaim\u00e3, o gigante, transita com muita facilidade nos bastidores do poder, onde muitos comandam como mercadores da coisa p\u00fablica. Para os prepostos de interesses n\u00e3o ambientais, o objetivo primordial e expl\u00edcito parece ser apenas o de facilitar a passagem dos bois, n\u00e3o importando os sinais dos tempos.<\/p>\n<p>A Amaz\u00f4nia deixou de sequestrar carbono em v\u00e1rios pontos. Os estudos sobre os efeitos da mudan\u00e7a do clima prenunciam a perda de 85% da capacidade produtiva nacional ao final do s\u00e9culo XXI, por conta dos crescentes desequil\u00edbrios ambientais.<\/p>\n<p>Os conceitos e princ\u00edpios ambientais existentes na literatura internacional se apresentam como fontes cristalinas inesgot\u00e1veis. Deveriam estar sendo digeridos em um processo modernista antropof\u00e1gico. A extensa rela\u00e7\u00e3o dos Objetivos do Desenvolvimento Sustent\u00e1vel (ODS) da ONU e os acordos ambientais correlatos com componentes de transpar\u00eancia e controle social, como a Conven\u00e7\u00e3o de Arhuss (1998) e o Acordo de Escaz\u00fa (2018), se configuram como proposituras irretoc\u00e1veis para desenhos institucionais e robustos instrumentos de gest\u00e3o e agendas ambientais. Com vontade pol\u00edtica, poderiam facilmente constituir um modelo que, a partir do conhecimento, da transpar\u00eancia e do controle social, evoluiriam para uma governan\u00e7a ambiental democr\u00e1tica com possibilidades de retroalimenta\u00e7\u00e3o permanente.<\/p>\n<p>De outro lado, \u00e9 poss\u00edvel identificar os retrocessos que assolaram o Sistema Nacional do Meio Ambiente (Sisnama), como a normatiza\u00e7\u00e3o e os meios operacionais atingidos por coa\u00e7\u00e3o, ina\u00e7\u00e3o e inani\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica. At\u00e9 uma pesquisa escolar b\u00e1sica poderia trazer resultados sobre o que j\u00e1 foi divulgado nos mais variados meios de comunica\u00e7\u00e3o, com apoio do depoimento de dezenas de especialistas. A cobertura do bolo seria, sem d\u00favida, a declara\u00e7\u00e3o atual da ministra Carmem L\u00facia, do STF, sobre a vig\u00eancia de um Estado de Coisas Inconstitucional, coroada por uma caquistocracia, ou o governo dos piores.<\/p>\n<p>Entre vit\u00f3rias e derrotas, segue a saga da hist\u00f3ria ambiental brasileira. Macuna\u00edma continua atual, assim como as propostas trazidas pela Semana da Arte Moderna de 1922. \u00c9 hora de antropofagia ambiental. \u00c9 hora de reconstru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Antropofagia ambiental &#8211; ((o))eco &#8211; https:\/\/oeco.org.br\/colunas\/antropofagia-ambiental\/?utm_campaign=shareaholic&amp;utm_medium=whatsapp&amp;utm_source=im<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carlos Bocuhy &#8211;\u00a0O ano de 2022 \u00e9 um marco temporal emblem\u00e1tico: completamos 100 anos da Semana da Arte Moderna (1922) e 50 anos da Confer\u00eancia de Estocolmo (1972). M\u00e1rio de Andrade, precursor do movimento modernista, foi um vision\u00e1rio. 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