{"id":17843,"date":"2022-05-17T12:50:40","date_gmt":"2022-05-17T15:50:40","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=17843"},"modified":"2022-05-14T10:00:01","modified_gmt":"2022-05-14T13:00:01","slug":"as-armadilhas-do-feminismo-radical","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2022\/05\/17\/as-armadilhas-do-feminismo-radical\/","title":{"rendered":"As armadilhas do feminismo radical"},"content":{"rendered":"<p><strong>ERICA WEST<\/strong> &#8211; Criticar o feminismo liberal\u00a0\u00e9 f\u00e1cil para muitas feministas socialistas. Muitas de n\u00f3s vieram para o socialismo\u00a0a partir do liberalismo, ent\u00e3o compreendemos bem\u00a0suas limita\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>No entanto, a hist\u00f3ria e a ess\u00eancia do feminismo radical n\u00e3o \u00e9 assim t\u00e3o conhecida. Se o \u201cradical\u201d do feminismo radical sugere uma pol\u00edtica que os socialistas poderiam adotar, um olhar mais cuidadoso revela uma ideologia incompat\u00edvel com o feminismo socialista. Marcado por uma estreita compreens\u00e3o sobre a opress\u00e3o de g\u00eanero e tendo uma estrat\u00e9gia equivocada para a transforma\u00e7\u00e3o, o feminismo radical \u2014 em \u00faltima inst\u00e2ncia \u2014 falha ao n\u00e3o conseguir oferecer \u00e0s mulheres um caminho n\u00edtido para sua liberta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O feminismo radical surgiu do feminismo da segunda onda na d\u00e9cada de 1970, ao lado, mas de maneira mutuamente exclusiva, do feminismo socialista e marxista. No entanto, compartilham alguns pontos em comuns.\u00a0<a href=\"https:\/\/jacobin.com.br\/2019\/05\/a-promessa-do-socialismo-feminista\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Como as feministas socialistas<\/a>, as feministas radicais problematizam o individualismo do liberalismo e argumentam que as escolhas pessoais e as conquistas individuais n\u00e3o s\u00e3o suficientes para transformar a sociedade. Al\u00e9m disso, elas localizam a opress\u00e3o das mulheres em um\u00a0<a href=\"https:\/\/jacobin.com.br\/2020\/09\/por-que-o-capitalismo-e-o-feminismo-nao-podem-coexistir\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">contexto mais amplo<\/a>\u00a0e referente \u00e0 sociedade.<\/p>\n<p>Desde o seu princ\u00edpio, o feminismo radical elencou como quest\u00f5es essenciais a viol\u00eancia sexual e a viol\u00eancia dom\u00e9stica, considerando-as fundamentais para sustentar a opress\u00e3o contra as mulheres.\u00a0<a href=\"http:\/\/www.nytimes.com\/2005\/04\/12\/arts\/andrea-dworkin-writer-and-crusading-feminist-dies-at-58.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Andrea Dworkin<\/a>, uma das feministas radicais mais proeminentes da d\u00e9cada de 1980, se distinguiu em sua trajet\u00f3ria contra a viol\u00eancia sexual. Em um de seus\u00a0<a href=\"http:\/\/www.nostatusquo.com\/ACLU\/dworkin\/WarZoneChaptIIIE.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">discursos\u00a0<\/a>mais famosos, ela pedia uma tr\u00e9gua de 24 horas durante a qual n\u00e3o houvesse um \u00fanico caso de estupro. Dworkin implorava aos homens na plat\u00e9ia para que tentassem entender o profundo medo da viol\u00eancia sexual que as mulheres vivem todos os dias.<\/p>\n<p>Esse compromisso de combater a viol\u00eancia sexual \u2014 um flagelo que dificulta todos os aspectos da vida das mulheres \u2014 \u00e9 admir\u00e1vel. Assim como tamb\u00e9m \u00e9 a \u00eanfase das feministas radicais na reforma em larga escala ao inv\u00e9s de vit\u00f3rias parciais em uma escala micro.<\/p>\n<p>Contudo, o modo como as feministas radicais passaram a lidaram com o caminho para a concretiza\u00e7\u00e3o de mudan\u00e7as \u00e9 preocupante e sintom\u00e1tica de falhas mais profundas em sua ideologia.<\/p>\n<p>O seu trabalho anti-pornografia \u00e9 emblem\u00e1tico. Na d\u00e9cada de 1980, muitas feministas radicais trabalharam pela proibi\u00e7\u00e3o da pornografia, a considerando como sendo inerentemente mis\u00f3gina e violenta. Algumas, como Dworkin e\u00a0<a href=\"https:\/\/www.law.umich.edu\/FacultyBio\/Pages\/FacultyBio.aspx?FacID=camtwo\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Catherine MacKinnon<\/a>\u00a0\u2014 uma feminista radical acad\u00eamica, advogada e professora \u2014 foram ainda mais longe. Se aliando a reacion\u00e1rios crist\u00e3os como o ex-procurador geral dos EUA, Edwin Meese, elas pressionaram por uma s\u00e9rie de decretos locais banindo a pornografia. \u201cEntre os muitos legisladores com quem trabalhamos\u201d, MacKinnon\u00a0<a href=\"http:\/\/www.nytimes.com\/1990\/03\/11\/books\/l-the-politics-of-pornography-302090.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">disse entusiasmada<\/a>\u00a0em um artigo de opini\u00e3o de 1990 no\u00a0<em>New York Times<\/em>, \u201cuma delas \u00e9 uma pol\u00edtica conservadora. Tivemos a honra de trabalhar com ela\u201d.<\/p>\n<p>Alguns aspectos da pornografia s\u00e3o, sem d\u00favida, desprez\u00edveis, racistas e violentos. Entretanto, a proibi\u00e7\u00e3o da pornografia faria pouco para abordar as preocupa\u00e7\u00f5es materiais e imediatas das mulheres envolvidas no setor. Al\u00e9m do mais, n\u00e3o faz sentido se aliar aos conservadores para combater a opress\u00e3o contra as mulheres \u2013 essas s\u00e3o as mesmas pessoas que querem restringir os direitos reprodutivos das mulheres e tornar ainda pior o j\u00e1 prec\u00e1rio Estado de Bem-Estar social.<\/p>\n<p>O trabalho anti-pornografia das feministas radicais lan\u00e7a uma luz sobre os perigos em uma identifica\u00e7\u00e3o err\u00f4nea das ra\u00edzes da opress\u00e3o contra as mulheres. Nos basear na censura, encorajar o aparelho carcer\u00e1rio, fazer alian\u00e7as com os inimigos de mudan\u00e7as progressistas \u2014 \u00e9 para a\u00ed que a an\u00e1lise do feminismo radical nos conduz.<\/p>\n<p><strong>Classe e a origem da opress\u00e3o contra a mulher<\/strong><\/p>\n<p>No n\u00facleo dos erros te\u00f3ricos do Feminismo Radical est\u00e1 a sua concep\u00e7\u00e3o de\u00a0<a href=\"https:\/\/jacobin.com.br\/2019\/08\/porque-a-classe-ainda-e-importante\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">classe<\/a>.<\/p>\n<p>Para as feministas radicais, as duas classes principais da sociedade n\u00e3o s\u00e3o a classe trabalhadora (que vende sua for\u00e7a de trabalho) e os capitalistas (que os exploram), mas os homens (os opressores) e as mulheres (as oprimidas). Esta \u00e9 a\u00a0<a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/history\/etol\/newspape\/isj2\/1994\/isj2-062\/smith.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">teoria do patriarcado<\/a>.<\/p>\n<p>As feministas radicais nem sempre reconhecem a exist\u00eancia\u00a0<a href=\"https:\/\/ominhocario.wordpress.com\/2017\/03\/27\/uma-definicao-de-capitalismo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">do capitalismo<\/a>, e mesmo quando o fazem, o consideram como sendo uma esfera completamente separada, isolada da opress\u00e3o feminina. Seu objetivo final \u00e9 abolir o g\u00eanero, que elas consideram inerentemente hier\u00e1rquico e opressivo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s mulheres.<\/p>\n<p>Enquanto as marxistas compartilham dessa antipatia em rela\u00e7\u00e3o ao patriarcado, n\u00f3s temos uma concep\u00e7\u00e3o diferente sobre as classes e as ra\u00edzes da opress\u00e3o das mulheres. Definimos a classe n\u00e3o em termos de g\u00eanero, mas em termos econ\u00f4micos: a classe de uma pessoa \u00e9 determinada pela sua rela\u00e7\u00e3o com os meios de produ\u00e7\u00e3o e o Estado. Hillary Clinton e Sheryl Sandberg, por exemplo, pertencem a uma classe diferente da de uma estudante de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o que luta em um sindicato ou a m\u00e3e de quatro filhos que trabalha em um restaurante de\u00a0<em>fast food<\/em>\u00a0em troca de sal\u00e1rio m\u00ednimo.<\/p>\n<p>As socialistas se op\u00f5em a todos os coment\u00e1rios machistas lan\u00e7ados contra Clinton, Sandberg e outras mulheres da elite, mas o fato \u00e9 que os interesses delas como capitalistas e pol\u00edticas bem colocadas est\u00e3o fundamentalmente em desacordo com os interesses da grande maioria da sociedade.<\/p>\n<p>Eis um exemplo recente: quando as trabalhadoras de um hotel Double Tree Hilton tentaram se sindicalizar em Cambridge, Massachusetts, h\u00e1 alguns anos, elas\u00a0<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=E57IJldeoc0\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">pediram explicitamente<\/a>\u00a0o apoio de Sandberg, afirmando que elas estavam tomando seu conselho de\u00a0<a href=\"https:\/\/leanin.org\/book\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">\u201cfazer acontecer\u201d<\/a>. Sandberg\u00a0<a href=\"https:\/\/www.jacobinmag.com\/2014\/05\/these-housekeepers-asked-sheryl-sandberg-to-lean-in-with-them-what-happened-next-will-not-amaze-you\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">recusou-se a apoi\u00e1-las<\/a>. E n\u00e3o \u00e9 de admirar. A \u201csororidade\u201d ou \u201cirmandade\u201d universal estava correndo contra os interesses concretos do capital. As verdadeiras lealdades de Sandberg vieram \u00e0 tona, de forma alta e evidente.<\/p>\n<p>Como marxistas, sabemos que o inimigo n\u00e3o s\u00e3o os homens, mas a classe capitalista \u2014 que \u00e9 plural nos quesitos de g\u00eanero e ra\u00e7a \u2014 e que a nossa estrat\u00e9gia deve refletir isso. A opress\u00e3o contra as mulheres n\u00e3o \u00e9 inata aos seres humanos, mas, pelo contr\u00e1rio, surgiu em um momento hist\u00f3rico e pol\u00edtico particular, ao lado do desenvolvimento da sociedade de classes e do n\u00facleo familiar.<\/p>\n<p>A opress\u00e3o contra as mulheres persiste n\u00e3o apenas porque os homens nos odeiam, mas por conta do papel que desempenhamos historicamente no n\u00facleo familiar. Enquanto os homens iam trabalhar todas as manh\u00e3s para participar da produ\u00e7\u00e3o capitalista \u2014 fazendo carros na f\u00e1brica, escrevendo documentos no escrit\u00f3rio \u2014 as mulheres estavam tipicamente envolvidas naquilo que hoje \u00e9 conhecido como reprodu\u00e7\u00e3o social: a reprodu\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica de novos trabalhadores (ou seja, ter filhos) e a reprodu\u00e7\u00e3o di\u00e1ria dos trabalhadores \u2014 lavar roupa, alimentar a fam\u00edlia, preparar os filhos para a escola, e assim por diante.<\/p>\n<p>Mesmo nas \u00faltimas d\u00e9cadas, conforme as mulheres entraram em massa na for\u00e7a de trabalho assalariada, elas ainda tendem a arcar com a \u201c<a href=\"https:\/\/books.google.com\/books\/about\/The_Second_Shift.html?id=G1ZS3bU3ZMUC\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">dupla jornada<\/a>\u201d, realizando a reprodu\u00e7\u00e3o social em casa ao retornarem do trabalho.<\/p>\n<p>Essas tarefas s\u00e3o vitais para o capitalismo. Os trabalhadores precisam ser alimentados, vestidos e preparados todos os dias para que o capitalismo funcione. Mas \u00e9 do interesse do capitalismo que este trabalho seja feito de gra\u00e7a e na esfera privada.<\/p>\n<p>Como resultado, as feministas socialistas argumentam que a \u00fanica maneira de libertar as mulheres \u00e9 acabar com a sociedade de classes, de uma vez por todas.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/estudosdopresente.com.br\/\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/jacobin.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/WhatsApp-Image-2022-05-06-at-14.13.55.jpeg?resize=300%2C600&#038;ssl=1\" sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" srcset=\"https:\/\/jacobin.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/WhatsApp-Image-2022-05-06-at-14.13.55.jpeg 300w, https:\/\/jacobin.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/WhatsApp-Image-2022-05-06-at-14.13.55-150x300.jpeg 150w\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"600\" \/><\/a><\/p>\n<p>Ao longo do caminho, existem reformas pelas quais podemos e devemos lutar, como aumentar o sal\u00e1rio m\u00ednimo, introduzir a licen\u00e7a-maternidade remunerada e implementar a creche universal. Feministas socialistas como Silvia Federici tamb\u00e9m defenderam \u201c<a href=\"https:\/\/caringlabor.files.wordpress.com\/2010\/11\/federici-wages-against-housework.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">sal\u00e1rios para tarefas dom\u00e9sticas<\/a>\u201c, a fim de proporcionar \u00e0s mulheres a independ\u00eancia financeira e reconhecer sua labuta na esfera dom\u00e9stica como trabalho. Outras, como Angela Davis, propuseram socializar essas tarefas dom\u00e9sticas para eliminar o \u00f4nus desigual e de g\u00eanero das mulheres.<\/p>\n<p>Mas nenhuma dessas reformas \u2014 e muito menos a derrubada do capitalismo \u2014\u00a0<a href=\"https:\/\/jacobin.com.br\/2019\/07\/para-salvar-a-democracia-precisamos-da-luta-de-classes\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">ser\u00e1 conquistada<\/a>\u00a0sem movimentos sociais unit\u00e1rios e de massas. E \u00e9 a\u00ed que entra a classe trabalhadora.\u00a0<a href=\"https:\/\/jacobin.com.br\/2022\/01\/por-que-a-classe-trabalhadora\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Devido \u00e0 sua posi\u00e7\u00e3o na sociedade<\/a>, a classe trabalhadora como um todo \u2014 em toda a gl\u00f3ria de sua pluralidade de g\u00eanero, ra\u00e7a e gera\u00e7\u00f5es \u2014 \u00e9 o agente social que pode lutar para reformar radicalmente o capitalismo \u2014 e, em \u00faltima inst\u00e2ncia, para se ir al\u00e9m dele.<\/p>\n<p>Esse objetivo final inclui a aboli\u00e7\u00e3o do g\u00eanero? Provavelmente!\u00a0<a href=\"https:\/\/www.boitempoeditorial.com.br\/produto\/a-origem-da-familia-da-propriedade-privada-e-do-estado-859\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Citando Engels<\/a>:<\/p>\n<blockquote><p>Isso ser\u00e1 respondido quando uma nova gera\u00e7\u00e3o surgir: uma gera\u00e7\u00e3o de homens que nunca em suas vidas souberam o que \u00e9 comprar a rendi\u00e7\u00e3o de uma mulher com dinheiro ou qualquer outro instrumento social de poder; Uma gera\u00e7\u00e3o de mulheres que nunca souberam o que \u00e9 entregar-se a um homem de qualquer outra forma que n\u00e3o o amor real ou se recusar a se entregar ao seu amante pelo medo das conseq\u00fc\u00eancias econ\u00f4micas. Quando essas pessoas estiverem no mundo, eles v\u00e3o se importar muito pouco com o que algu\u00e9m acha hoje que eles deveriam fazer; eles v\u00e3o fazer sua pr\u00f3pria pr\u00e1tica e sua opini\u00e3o p\u00fablica correspondente sobre a pr\u00e1tica de cada indiv\u00edduo \u2014 e esse ser\u00e1 o fim disso.<\/p><\/blockquote>\n<p><strong>O feminismo radical e suas exclus\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos, a vis\u00e3o de muitas pessoas sobre o Feminismo Radical tem sido influenciada por suas opini\u00f5es sobre as TERFs, ou \u201cfeministas radicais trans-excludentes\u201d, na sigla em ingl\u00eas. Nem todas as feministas radicais s\u00e3o TERFs. MacKinnon tem sido uma defensora aberta dos direitos das trans durante d\u00e9cadas, e tem criticado as TERFs por seu preconceito. \u201cQualquer pessoa que se identifica como uma mulher, quer ser uma mulher, se sente como uma mulher, no que me diz respeito, \u00e9 uma mulher\u201d, disse ela em uma\u00a0<a href=\"http:\/\/oncenturyavenue.org\/2015\/03\/harm-is-harm-hello\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">entrevista em 2015<\/a>.<\/p>\n<p>Mas, embora n\u00e3o sejam sin\u00f4nimos, o feminismo radical cont\u00e9m muitas TERFs em suas fileiras, e suas id\u00e9ias centrais se prestam a uma exclus\u00e3o das pessoas trans, especialmente das mulheres trans.<\/p>\n<p>Para muitas feministas radicais, n\u00e3o importa o g\u00eanero com que algu\u00e9m se identifica e se apresenta \u2014 s\u00f3 importa o sexo que lhe foi atribu\u00eddo no nascimento. Se os homens s\u00e3o os opressores e a fonte da opress\u00e3o contra as mulheres, por consequ\u00eancia esses homens mant\u00eam esse poder de oprimir, mesmo ap\u00f3s a transi\u00e7\u00e3o. A sua socializa\u00e7\u00e3o como homem, n\u00e3o importa qu\u00e3o pouco vivida ou atormentada pela viol\u00eancia de g\u00eanero, os tornaria agentes da opress\u00e3o feminina. Assim, muitas feministas radicais pro\u00edbem as pessoas trans, e especialmente as mulheres trans, de seus espa\u00e7os pol\u00edticos e organizacionais.<\/p>\n<p>Essa exclus\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas uma quest\u00e3o de intoler\u00e2ncia \u2014 \u00e9 tamb\u00e9m hipocrisia: enquanto as feministas radicais lutam vigorosamente contra a viol\u00eancia sexual, proporcionalmente as mulheres trans s\u00e3o as maiores v\u00edtimas de viol\u00eancia f\u00edsica e sexual, especialmente as mulheres trans negras.<\/p>\n<p>As TERFs podem argumentar que as mulheres trans n\u00e3o t\u00eam o mesmo sistema reprodutivo que as mulheres cis e que, portanto, elas n\u00e3o poderiam compreender as lutas das mulheres em rela\u00e7\u00e3o ao controle de natalidade e contra a esteriliza\u00e7\u00e3o for\u00e7ada. Mas, ent\u00e3o, o que elas teriam a dizer a respeito de solidariedade com as mulheres l\u00e9sbicas, ou mulheres cis que n\u00e3o podem ou escolhem n\u00e3o ter filhos? Os argumentos que as TERFs apresentam s\u00e3o t\u00e3o fracos quanto s\u00e3o preconceituosos.<\/p>\n<p>O feminismo radical tamb\u00e9m se mant\u00e9m em um not\u00e1vel sil\u00eancio sobre a quest\u00e3o do racismo e est\u00e1 imerso em uma estrat\u00e9gia politicamente suspeita sobre como lutar contra isso.<\/p>\n<p>Os homens negros perpetuam o machismo exatamente da mesma forma que os homens brancos. Mas sua experi\u00eancia com o racismo tamb\u00e9m fortalecem seus la\u00e7os com as mulheres negras em suas comunidades. Como Sharon Smith\u00a0<a href=\"https:\/\/www.haymarketbooks.org\/books\/423-women-and-socialism-revised-and-updated-edition\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">escreve<\/a>, \u201ca necessidade de lutar\u00a0<em>ao lado\u00a0<\/em>dos homens na luta contra o racismo ou na luta de classes [faz] as id\u00e9ias separatistas n\u00e3o parecerem atraentes\u201d para mulheres negras.<\/p>\n<p>Na verdade, para muitas mulheres, a luta contra o racismo est\u00e1 intrinsecamente ligada \u00e0 luta contra o machismo (ambos arraigados no capitalismo).<\/p>\n<p>O Coletivo do Rio Combahee, um grupo lend\u00e1rio de socialistas feministas negras, incorporou esse entendimento, escrevendo em sua\u00a0<a href=\"http:\/\/circuitous.org\/scraps\/combahee.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">declara\u00e7\u00e3o de 1979<\/a>: \u201cPrecisamos articular a verdadeira situa\u00e7\u00e3o de classe de pessoas que n\u00e3o s\u00e3o apenas trabalhadores sem ra\u00e7a e sem sexo, mas para quem a opress\u00e3o racial e de g\u00eanero s\u00e3o determinantes em suas vidas econ\u00f4micas\/no trabalho\u201d.<\/p>\n<p>As mulheres n\u00e3o podem reduzir suas experi\u00eancias de opress\u00e3o apenas ao seu g\u00eanero. A maioria de n\u00f3s s\u00e3o trabalhadoras. Muitas de n\u00f3s s\u00e3o m\u00e3es, n\u00e3o-brancas, LGBTs e muito mais. Precisamos entender como todas essas coisas se amarram para combater a domina\u00e7\u00e3o em todas as esferas \u2014 e vencer.<\/p>\n<p><strong>Como enfrentar a opress\u00e3o contra a mulher<\/strong><\/p>\n<p>Enquanto as feministas radicais tentam postular o separatismo como uma estrat\u00e9gia pol\u00edtica \u2014 sendo, para algumas, at\u00e9 mesmo o objetivo \u2013, as feministas socialistas entendem que a nossa for\u00e7a est\u00e1 em nossa quantidade. As separa\u00e7\u00f5es entre trabalhadoras e trabalhadores, entre pessoas cis e trans, s\u00e3o\u00a0<em>prejudiciais<\/em>\u00a0para os nossos objetivos gerais, s\u00f3 nos enfraquecem e tornam a luta contra o capitalismo mais dif\u00edcil.<\/p>\n<p>O objetivo das feministas socialistas \u00e9 construir a solidariedade por toda a classe trabalhadora. O nosso futuro \u00e9 um s\u00f3 e a luta contra a opress\u00e3o de g\u00eanero \u00e9 insepar\u00e1vel da luta contra a transfobia, o racismo, e o capitalismo de forma mais ampla. Todo e qualquer movimento ou teoria feminista que de forma impl\u00edcita ou expl\u00edcita exclui as pessoas trans, que as retrata em g\u00eaneros diferentes daqueles com que elas se identificam, ou que perpetuam a transfobia n\u00e3o deve ter lugar\u00a0<a href=\"https:\/\/jacobin.com.br\/2019\/06\/o-socialismo-e-pelo-humanismo-real\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">na esquerda<\/a>.<\/p>\n<p>Recentemente, o portal\u00a0<em>Left Forum<\/em>\u00a0<a href=\"https:\/\/www.dailydot.com\/irl\/left-forum-anti-transgender\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">gerou pol\u00eamica<\/a>\u00a0ao incluir um painel que pretendia colocar em quest\u00e3o a legitimidade das pessoas trans e de sua necessidade de acesso a cuidados m\u00e9dicos. Ap\u00f3s muita controv\u00e9rsia, o painel foi cancelado \u2014 de forma correta. Com o movimento por direitos para as pessoas trans ganhando f\u00f4lego, a esquerda deve ser solid\u00e1ria \u00e0s pessoas trans e n\u00e3o bin\u00e1rias.<\/p>\n<p>Se por um lado h\u00e1 coisas nas quais podemos encontrar inspira\u00e7\u00e3o dentro do Feminismo Radical \u2014 por exemplo, a \u00eanfase na luta contra a viol\u00eancia sexual \u2013, sua an\u00e1lise sobre a raiz da opress\u00e3o contra as mulheres e as consequ\u00eancias disso nas suas ideias sobre como podemos nos organizar politicamente s\u00e3o um fracasso.<\/p>\n<p>Ao inv\u00e9s de enxergar os homens como sendo a fonte prim\u00e1ria da opress\u00e3o contra a mulher, devemos identificar a sociedade de classes como a verdadeira culpada. Lutar contra o capitalismo continua sendo o \u00fanico caminho para se conquistar a total emancipa\u00e7\u00e3o das mulheres.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: As armadilhas do feminismo radical &#8211; https:\/\/jacobin.com.br\/2022\/04\/as-armadilhas-do-feminismo-radical\/<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ERICA WEST &#8211; Criticar o feminismo liberal\u00a0\u00e9 f\u00e1cil para muitas feministas socialistas. Muitas de n\u00f3s vieram para o socialismo\u00a0a partir do liberalismo, ent\u00e3o compreendemos bem\u00a0suas limita\u00e7\u00f5es. No entanto, a hist\u00f3ria e a ess\u00eancia do feminismo radical n\u00e3o \u00e9 assim t\u00e3o conhecida. 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