{"id":17825,"date":"2022-05-08T13:53:59","date_gmt":"2022-05-08T16:53:59","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=17825"},"modified":"2022-05-08T13:53:59","modified_gmt":"2022-05-08T16:53:59","slug":"fascismo-brasileiro-como-geramos-este-inferno","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2022\/05\/08\/fascismo-brasileiro-como-geramos-este-inferno\/","title":{"rendered":"Fascismo brasileiro: como geramos este inferno"},"content":{"rendered":"<p><strong>Lu\u00eds Carlos Petry<\/strong> &#8211; H\u00e1 in\u00fameras maneiras de percorrer um mesmo caminho, e o livro\u00a0<em>O ovo da serpente,\u00a0<\/em>de Rud\u00e1 Ricci (<a href=\"https:\/\/kotter.com.br\/loja\/fascismo-brasileiro-e-o-brasil-que-gerou-seu-ovo-da-serpente\/\">Kotter Editorial<\/a>, 2022), entre muitas outras coisas, demonstra o quanto \u00e9 imposs\u00edvel chegar a um lugar sem se passar por outro. O outro, e os outros, eis a quest\u00e3o! \u2013 o outro, o semelhante, na simples alteridade ou no encontro com os outros na coletividade, se constitui em\u00a0<em>n\u00f3 g\u00f3rdio\u00a0<\/em>que anela as ci\u00eancias sociais com a psican\u00e1lise. E nessa travessia de passagem pelo outro, o qual para Sartre se constitui em um inferno, muitas vezes se efetiva o inferno, n\u00e3o somente para o sujeito individual, mas igualmente para a coletividade de um povo, de uma na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No in\u00edcio do 18\u00ba Brum\u00e1rio, Marx refere que Hegel, na\u00a0<em>Filosofia da hist\u00f3ria<\/em>, de 1837, havia proposto que todos os grandes fatos ou todos os grandes homens se repetem, ao menos duas vezes na hist\u00f3ria. E Marx acrescenta que o fil\u00f3sofo havia se esquecido \u201cde acrescentar: a primeira vez como\u00a0<em>trag\u00e9dia<\/em>, a segunda como\u00a0<em>farsa<\/em>\u201d. Na continua\u00e7\u00e3o, Marx traz algo surpreendente:<\/p>\n<blockquote><p>Os homens fazem a sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria; contudo, n\u00e3o a fazem de livre e espont\u00e2nea vontade, pois n\u00e3o s\u00e3o eles quem escolhem as circunst\u00e2ncias sob as quais ela \u00e9 feita, mas estas lhes foram transmitidas assim como se encontram. A tradi\u00e7\u00e3o de todas as gera\u00e7\u00f5es passadas \u00e9 como um pesadelo que comprime o c\u00e9rebro dos vivos. E justamente quando parecem estar empenhados em transformar a si mesmos e as coisas, em criar algo nunca antes visto, exatamente nessas \u00e9pocas de crise revolucion\u00e1ria, eles conjuram temerosamente a ajuda dos esp\u00edritos do passado, tomam emprestados os seus nomes, as suas palavras de ordem, o seu figurino, a fim de representar, com essa vener\u00e1vel roupagem tradicional e essa linguagem tomada de empr\u00e9stimo, as novas cenas da hist\u00f3ria mundial.<\/p><\/blockquote>\n<p>Marx n\u00e3o somente ensinou que a hist\u00f3ria se repete em um ciclo cont\u00ednuo, seja como trag\u00e9dia ou farsa, mas mostra algo muito interessante nessa estrutura. A repeti\u00e7\u00e3o \u00e9 realizada com o retorno de\u00a0<em>algo<\/em>, o qual Freud (1900), anos mais tarde, descreveu como o\u00a0<em>retorno do recalcado.<\/em>\u00a0\u00c9 o recalcado por todos n\u00f3s, individual e socialmente, que se repete. \u00c9 o que aprendemos com esta leitura conjunta: na hist\u00f3ria enfrentamos momentos de repeti\u00e7\u00e3o, esses momentos est\u00e3o situados nas condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas que vivemos e todo o nosso passado vivido nos pressiona e nos oprime no sentido da repeti\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 algo mais indicado por Marx nesse texto, algo que muitas vezes deixamos escapar, que foi assim fixado por Freud: a repeti\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica se alimenta e se repete, ainda que com outras roupagens, de algo que ficou recalcado, ou seja, irremediavelmente esquecido na nossa pr\u00f3pria hist\u00f3ria, mas soterrado em nossa psiqu\u00ea coletiva.<\/p>\n<p>\u00c9 nessa dire\u00e7\u00e3o de Marx que Freud mostra que os sintomas ps\u00edquicos repetem de modo diverso os nossos ide\u00e1rios recalcados, os quais vivemos inconscientemente em meio a uma profunda e visceral ambival\u00eancia. Uma ambival\u00eancia que nasce de experi\u00eancias e tend\u00eancias que vivem no mais profundo e tenro de nossas vidas, de nossa hist\u00f3ria, ou como disse o psicanalista vienense, de nossa pr\u00f3pria ontog\u00eanese como sujeitos.<\/p>\n<p>Pois s\u00e3o essas tenras experi\u00eancias do sujeito humano que realizam o seu ciclo de passagem do estado de sujeito em posi\u00e7\u00e3o puramente anacl\u00edtica<sup>\u00a0<\/sup>para a viv\u00eancia em uma coletividade social, inicialmente a fam\u00edlia, posteriormente os amigos, a escola, o trabalho, enfim, a coletividade social. Nesse caminho que trilha o humano \u00e9 que se forma a vida<a id=\"sdfootnote1anc\" href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=161&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fcrise-brasileira%2Ffascismo-brasileiro-como-geramosnosso-inferno%2F#sdfootnote1sym\"><sup>1<\/sup><\/a>\u00a0em sociedade, sua participa\u00e7\u00e3o e os v\u00e1rios modos de aliena\u00e7\u00e3o nos quais est\u00e1 inserido. Nesse caminho encontramos a intera\u00e7\u00e3o e conex\u00e3o do que descobre a psican\u00e1lise com os estudos das ci\u00eancias sociais.<\/p>\n<p>intera\u00e7\u00e3o entre a psican\u00e1lise e as ci\u00eancias sociais \u00e9 um tema que possui in\u00fameras vicissitudes e nuances. O que liga os sujeitos humanos entre si? O que os torna uma coletividade? O que os faz viver em sociedade e construir a hist\u00f3ria, assaz conturbada, mas consistente, que delineamos no Ocidente, dos gregos at\u00e9 hoje, em cerca de mais de tr\u00eas mil anos? Estas s\u00e3o algumas quest\u00f5es que todos nos fazemos, pelo menos uma vez na vida, ainda que a maioria das pessoas as vem a esquecer muito rapidamente no decorrer de sua exist\u00eancia.<\/p>\n<p>No centro dessa feliz conjun\u00e7\u00e3o se encontram as ci\u00eancias sociais, como um lugar de chegada, digamos, seguindo Adorno, em uma filosofia que \u00e9 uma teoria cr\u00edtica do social, uma profunda filosofia. A possibilidade de troca e m\u00fatua influ\u00eancia entre a psican\u00e1lise e as ci\u00eancias sociais foi amplamente pensada pelo fil\u00f3sofo e soci\u00f3logo Theodor Adorno em seus\u00a0<em>Ensaios<\/em>\u00a0<em>sobre psicologia social e psican\u00e1lise<\/em>.<a id=\"sdfootnote1anc\" href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=161&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fcrise-brasileira%2Ffascismo-brasileiro-como-geramosnosso-inferno%2F#sdfootnote1sym\"><sup>2<\/sup><\/a>\u00a0Ao estudar a obra de Freud, Adorno chega \u00e0 conclus\u00e3o de que a abordagem freudiana sobre o humano pode ser considerada consistente do ponto de vista da sociologia.<\/p>\n<p>Ora, Freud dedicou-se extensamente a pensar o desenvolvimento do sujeito humano, considerado individualmente, tanto em seus sucessos e alegrias quanto em suas tristezas e sofrimentos. Nesse caminho ele descobre que todo ser humano constr\u00f3i seu ser por meio da rela\u00e7\u00e3o com os seus semelhantes, inicialmente os pais, seguido dos irm\u00e3os, a fam\u00edlia proximal, os colegas e professores na escola, os companheiros de trabalho e de lazer, os amores e, finalmente, todos dentro de uma cont\u00ednua e abrangente intera\u00e7\u00e3o social, durante toda a vida do sujeito.<\/p>\n<p>Nesse processo, dois poderosos e basilares motores ps\u00edquicos se fazem presentes o tempo todo. Em primeiro lugar, o que Freud<sup><a id=\"sdfootnote1anc\" href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=161&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fcrise-brasileira%2Ffascismo-brasileiro-como-geramosnosso-inferno%2F#sdfootnote1sym\">3<\/a>\u00a0<\/sup>chamou de escolha de objeto amoroso-afetivo-er\u00f3tico, o qual tem na M\u00e3e o seu primeiro lugar de parada de um longo percurso para todos n\u00f3s humanos. Em segundo, o que ele designou como identifica\u00e7\u00e3o, a qual possui uma estrutura tr\u00edplice. Inicialmente, junto com o apego amoroso \u00e0 M\u00e3e, a\u00a0<em>identifica\u00e7\u00e3o com o Pai<\/em>, como um modelo a ser seguido e como uma possibilidade de ser como ele e, no futuro, substitu\u00ed-lo. Em segundo, a\u00a0<em>identifica\u00e7\u00e3o com um tra\u00e7o<\/em>, uma identifica\u00e7\u00e3o que faz com que venhamos a recolher das pessoas amadas, os pais, tios, av\u00f3s, irm\u00e3os, inclusas nos la\u00e7os microssociais da fam\u00edlia, daqueles que admiramos e idealizamos, como amigos, professores, chefes e l\u00edderes, a partir dos quais desenvolvemos pequenos, leves ou grandes e severos tra\u00e7os de nossa complexa e fragment\u00e1ria personalidade.<\/p>\n<p>As duas primeiras formas de identifica\u00e7\u00e3o s\u00e3o respons\u00e1veis pela forma\u00e7\u00e3o da subjetividade individual do humano e, entendidas como atuantes na forma\u00e7\u00e3o dos aspectos particulares do humano, frequentemente designados como estilo de ser de cada um de n\u00f3s. Muitos aspectos dessas duas identifica\u00e7\u00f5es s\u00e3o conscientes para o sujeito humano, mas nem todos. Os mais profundos permanecem inconscientes para a maior parte das pessoas pela vida toda.<\/p>\n<p>Freud vislumbra um terceiro tipo de identifica\u00e7\u00e3o, o qual transcende o universo individual e particular, que joga o humano na cena do processo coletivo, social, designado como o grupo e, finalmente, a massa. Essa identifica\u00e7\u00e3o, que funciona como um cont\u00e1gio e tem, em muitos momentos, um comportamento viral, pode ser entendida como uma identifica\u00e7\u00e3o solid\u00e1ria, realizada entre os sujeitos de um grupo ou no interior de uma massa. Ela \u00e9 sempre e o tempo todo inconsciente e sobre seus processos e consequ\u00eancias o sujeito individual n\u00e3o tem controle. Ela est\u00e1 fundada nos desejos e mo\u00e7\u00f5es inconscientes dos sujeitos de um grupo ou massa.<\/p>\n<p>Quando estamos em nosso conv\u00edvio em sociedade, fora de nossos circuitos familiares, estamos suscet\u00edveis a est\u00edmulos e processos que possuem uma base e for\u00e7a inconscientes, que s\u00e3o formadas por puls\u00f5es, mo\u00e7\u00f5es e desejos. Em dados momentos, podemos deixar de agir como indiv\u00edduos isolados e passar a agir coordenadamente em grupo, como se f\u00f4ssemos uma entidade \u00fanica. Na passagem dos comportamentos individuais para as a\u00e7\u00f5es aparentemente aleat\u00f3rias e espont\u00e2neas dentro de uma massa, temos o funcionamento do mecanismo da identifica\u00e7\u00e3o solid\u00e1ria.<\/p>\n<p>Este fen\u00f4meno se manifesta em situa\u00e7\u00f5es tr\u00e1gicas, por exemplo, quando automaticamente um grupo de pessoas se re\u00fane e desenvolve comportamentos solid\u00e1rios, com grande intensidade humanit\u00e1ria. \u00c9 o caso das recentes enchentes e cat\u00e1strofes no Brasil, que mostraram na grande m\u00eddia a for\u00e7a benfazeja desse tipo de identifica\u00e7\u00e3o, no qual as pessoas agiam juntas, em solidariedade aos atingidos pelas trag\u00e9dias, e se condo\u00edam pelas v\u00edtimas soterradas pelos escombros dos deslizamentos.<\/p>\n<p>Mas este fen\u00f4meno tamb\u00e9m se manifesta em outras situa\u00e7\u00f5es, que nada t\u00eam de humanit\u00e1rias, que revelam o que temos de pior e mais nefasto na estrutura do g\u00eanero humano. Ela pode ser facilmente identificada quando pessoas aparentemente pacatas e tranquilas v\u00eam a desempenhar comportamentos agressivos e hostis em situa\u00e7\u00f5es de agrupamento social, como manifesta\u00e7\u00f5es, passeatas e outras. Ocorre quando uma manifesta\u00e7\u00e3o, at\u00e9 ent\u00e3o pac\u00edfica, muda de rumo e termina em pancadaria generalizada, por exemplo.<\/p>\n<p>Com Freud come\u00e7amos a entender que os sujeitos em uma massa podem vir a desempenhar, em determinadas situa\u00e7\u00f5es, comportamentos pareados com seus desejos e mo\u00e7\u00f5es inconscientes compartilhados. \u00c9 com base nestas mo\u00e7\u00f5es e desejos inconscientes que \u00e9 realizada a identifica\u00e7\u00e3o solid\u00e1ria, a qual possui uma estrutura horizontal do ponto de vista social e estrutura a massa como um organismo vivo e coordenado.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o se complexifica quando entra em cena a personagem do l\u00edder carism\u00e1tico das massas. Freud diz que os sujeitos das massas se identificam, cada um deles, com determinados tra\u00e7os presentes no l\u00edder, o que permite que a sua influ\u00eancia ultrapasse o Eu de cada sujeito e se instale no Supereu, dominando os processos ps\u00edquicos, moment\u00e2nea ou permanentemente.<\/p>\n<p>\u00c9 justamente aqui que o pensamento psicanal\u00edtico de Freud se encontra com a pesquisa em ci\u00eancias sociais de Adorno. Sobre isso, ele escreve nos seus\u00a0<em>Ensaios sobre psicologia social e psican\u00e1lise:<\/em><\/p>\n<blockquote><p>N\u00e3o \u00e9 exagero se dissermos que Freud, apesar de seu pouco interesse pela dimens\u00e3o pol\u00edtica do problema, claramente antecipou o surgimento e a natureza dos movimentos de massa fascistas em categorias puramente psicol\u00f3gicas.<\/p><\/blockquote>\n<p>Dito desse modo, o que trouxe Freud parece ter os ares de uma psicologia social que situa a organiza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es humanas em sociedade. Ser\u00e1 a partir de Freud que Adorno ir\u00e1 enfatizar o papel desempenhado pelo v\u00ednculo libidinal na forma\u00e7\u00e3o do sujeito adulto e sua participa\u00e7\u00e3o nos fen\u00f4menos (identifica\u00e7\u00e3o e mo\u00e7\u00f5es) de massa. \u00c9 nesse sentido que as configura\u00e7\u00f5es das modalidades dos v\u00ednculos er\u00f3ticos sublimados na identifica\u00e7\u00e3o com o l\u00edder e as correspondentes identifica\u00e7\u00f5es solid\u00e1rias entre os membros da massa formam a base sobre a qual cada um de n\u00f3s se identificar\u00e1 com este ou aquele modelo de intera\u00e7\u00e3o social ou valores e efetuar\u00e1 as correspondentes escolhas de seus companheiros e de representantes (l\u00edderes).<\/p>\n<p>Assim como todos os seres humanos se diferenciam, os sujeitos humanos que se tornam l\u00edderes se diferenciam uns dos outros. \u00c9 nesse sentido que o olhar, tanto de Freud como de Adorno, se voltou para aqueles l\u00edderes que tendem a manipular as massas para seus objetivos ego\u00edstas, aqueles que carecem de empatia pelo semelhante e que t\u00eam o seu narcisismo fixado na puls\u00e3o de poder, como uma defesa contra a sua impot\u00eancia.<\/p>\n<p>Esses l\u00edderes nascem das personalidades autorit\u00e1rias. Aos olhos do senso comum, estes indiv\u00edduos podem n\u00e3o parecer mais neur\u00f3ticos que os seus semelhantes, entretanto eles possuem caracter\u00edsticas que s\u00e3o peculiares, como o narcisismo exacerbado, a vontade de poder e controle extremamente acentuadas, uma posi\u00e7\u00e3o sexista, machista e homof\u00f3bica, bem como uma tend\u00eancia \u00e0 eugenia\u2026 isto no sentido de considerar a si e aos seus como superiores dos demais humanos, principalmente os diferentes, os ex\u00f3ticos e os advers\u00e1rios. Estes sujeitos configuram uma modalidade opressora, que foi situada por Paulo Freire em seu livro\u00a0<em>Pedagogia do Oprimido<\/em>.<a id=\"sdfootnote1anc\" href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=161&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fcrise-brasileira%2Ffascismo-brasileiro-como-geramosnosso-inferno%2F#sdfootnote1sym\"><sup>4<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Para atingir o controle sobre os membros de um grupo ou massa, contudo, o l\u00edder precisa poder agir sobre o v\u00ednculo er\u00f3tico sublimado entre os membros de uma massa. Adorno identifica isso nos estudos freudianos e diz que: \u201cse os indiv\u00edduos no grupo se combinam em uma unidade (massa), certamente deve haver algo que os une, e este v\u00ednculo poderia ser precisamente o que \u00e9 caracter\u00edstico de um grupo\u201d (Freud apud Adorno, 1951, p.159). O v\u00ednculo entre os membros do grupo, em sua identifica\u00e7\u00e3o solid\u00e1ria, produz uma liga\u00e7\u00e3o de car\u00e1ter afetivo er\u00f3tico sublimado, tanto horizontalmente, entre si, como verticalmente, para com o l\u00edder.<\/p>\n<p>Trata-se aqui de um problema fundamental: o l\u00edder fascista precisa apresentar este\u00a0<em>algo<\/em>\u00a0para cada um dos indiv\u00edduos (isoladamente), a fim de que possa arregimentar milh\u00f5es para seus objetivos incompat\u00edveis com seus pr\u00f3prios autointeresses racionais. E dentro da conjuntura do capitalismo, que se estruturou como uma sociedade de pensamento neoliberal, esta perspectiva assume aspectos multifacetados e fragment\u00e1rios. O sistema de fundo que alimenta o solo no qual germina a personalidade autorit\u00e1ria fascista \u00e9 disperso, fragment\u00e1rio e tende \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de c\u00e9lulas ideol\u00f3gicas que n\u00e3o possuem comunica\u00e7\u00e3o entre si. S\u00e3o, em tese, autocentradas e autorreferenciais em seus modelos de a\u00e7\u00e3o, mas que se projetam em espelho com a lideran\u00e7a.<a id=\"sdfootnote1anc\" href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=161&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fcrise-brasileira%2Ffascismo-brasileiro-como-geramosnosso-inferno%2F#sdfootnote1sym\"><sup>5<\/sup><\/a><\/p>\n<p>Nelas, os processos s\u00e3o desenvolvidos a partir de insatisfa\u00e7\u00f5es e ressentimentos inicialmente difusos, vividos pelos sujeitos humanos que encobrem ou solapam as lutas de classe, e mesmo os campos de atividades laborais n\u00e3o presentes na \u00e9poca de Marx, ou mesmo da primeira metade do s\u00e9culo XX. Eles depositam no sujeito individual a absoluta responsabilidade por sua vida, seu destino e a possibilidade da quimera de uma felicidade lucrativa que poderia ser quantificada em uma constante e rand\u00f4mica capacidade de reinventar a si mesmo. Como diz Adorno, o homem contempor\u00e2neo tem de ser resiliente ao limite. E \u00e9 o que nos mostra Richard Sennett em seus livros\u00a0<em>A corros\u00e3o do car\u00e1ter: o desaparecimento das virtudes com o novo capitalismo<\/em>\u00a0e\u00a0<em>Autoridade.<a id=\"sdfootnote1anc\" href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=161&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fcrise-brasileira%2Ffascismo-brasileiro-como-geramosnosso-inferno%2F#sdfootnote1sym\"><sup>6<\/sup>\u00a0<\/a><\/em>O homem ordin\u00e1rio \u00e9, ao mesmo tempo, empurrado para fora da organiza\u00e7\u00e3o de classe que vigorou at\u00e9 o final da metade do s\u00e9culo XX e jogado na perspectiva de se converter em um empreendedor de si mesmo, uma esp\u00e9cie de\u00a0<em>uberista<\/em>\u00a0de seu pr\u00f3prio ser de sujeito, capaz de se refazer a cada nova esta\u00e7\u00e3o do ano ou crise da sociedade ou econ\u00f4mica, seja ela local ou global.<\/p>\n<p>Esse processo descrito, que recebe o verniz multimidi\u00e1tico de moderniza\u00e7\u00e3o autonomista, inicialmente (anos 1990 a 2010) e, mais recentemente, de digitaliza\u00e7\u00e3o da vida, animado pelas redes sociais (2013 em diante), fomenta o desamparo do ressentimento difuso que \u00e9 transformado em algoritmos operando nas redes sociais que, de acordo com Manovich (2001), transformam a pr\u00f3pria cultura da qual vieram, pois os aplicativos digitais, os\u00a0<em>apps<\/em>\u00a0dos\u00a0<em>smartphones,\u00a0<\/em>nascem em uma dada cultura e retroagem sobre ela, modificando-as.<a id=\"sdfootnote1anc\" href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=161&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fcrise-brasileira%2Ffascismo-brasileiro-como-geramosnosso-inferno%2F#sdfootnote1sym\"><sup>7<\/sup><\/a><\/p>\n<p>O profundo estudo realizado por Ricci mostra as diversas faces desse espectro, como quando indica\u00a0<em>as tr\u00eas ondas\u00a0<\/em>que produziram o campo p\u00fatrido que alimentou o fen\u00f4meno da repeti\u00e7\u00e3o do fascismo brasileiro, quando em institui\u00e7\u00f5es ditas de pesquisa, mas que nada mais fazem que difus\u00e3o de supostos conhecimentos marcados ideologicamente e usados no interesse dos empres\u00e1rios que os sustentam. Formam um conjunto de institutos dedicados \u00e0 propaganda neoliberal, como, por exemplo, o Instituto Millenium. N\u00e3o somente se colocam como uma nova e descolada via de acesso a um futuro melhor, mas tamb\u00e9m invadem o mundo acad\u00eamico e substituem a pesquisa e a reflex\u00e3o pela tend\u00eancia, a opini\u00e3o p\u00fablica e as regras do mercado. Este arrazoado \u00e9, claro, apenas um p\u00e1lido exemplo do estruturado levantamento realizado pelo pesquisador das ci\u00eancias sociais, a ponta o iceberg<em>,<\/em>que mostra que o Titanic da cultura e da sociedade brasileira ora ruma ao caos e \u00e0 fragmenta\u00e7\u00e3o de seus coletivos, parafraseando o lema fixado por Werner Herzog em seu filme\u00a0<em>Cora\u00e7\u00e3o de cristal<\/em>: \u201ccada um por si e Deus contra todos\u201d.<a id=\"sdfootnote2anc\" href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=161&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fcrise-brasileira%2Ffascismo-brasileiro-como-geramosnosso-inferno%2F#sdfootnote2sym\"><sup>8<\/sup><\/a><a id=\"sdfootnote2anc\" href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=161&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fcrise-brasileira%2Ffascismo-brasileiro-como-geramosnosso-inferno%2F#sdfootnote2sym\"><\/a><\/p>\n<p>Se \u2013 como dissemos anteriormente, e exploramos em parceria com Ricci em outro lugar<a id=\"sdfootnote1anc\" href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=161&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fcrise-brasileira%2Ffascismo-brasileiro-como-geramosnosso-inferno%2F#sdfootnote1sym\"><sup>9<\/sup><\/a>\u00a0\u2013 apesar do car\u00e1ter ca\u00f3tico e fragment\u00e1rio com o qual nos defrontamos, seja\u00a0<em>nas ruas,<\/em>\u00a0seja nas\u00a0<em>institui\u00e7\u00f5es,\u00a0<\/em>juntos com Adorno consideramos que a abordagem freudiana igualmente se encontra f\u00e9rtil no campo da sociologia. As massas n\u00e3o s\u00e3o um fen\u00f4meno biol\u00f3gico instintivo, mas sim uma forma\u00e7\u00e3o ps\u00edquica vol\u00e1til e fragment\u00e1ria que necessita da participa\u00e7\u00e3o de cada um dos indiv\u00edduos, a fim de formar um todo din\u00e2mico e mut\u00e1vel. Uma forma\u00e7\u00e3o ps\u00edquica que flutua de uma perspectiva autorit\u00e1ria para outra, sempre cerzindo sua teia entre o ressentimento inconsciente e a vontade de poder na \u00e2nsia de superar o outro, em virtude de sua fal\u00eancia f\u00e1lica e humana.<\/p>\n<p>Essas foram algumas das reflex\u00f5es entrecruzadas entre a psican\u00e1lise e as ci\u00eancias sociais que nasceram no contexto do desenvolvimento do livro\u00a0<em>Fascismo brasileiro: e o Brasil gerou o seu ovo da serpente\u00a0<\/em>e o acompanhamento do trabalho do cientista social Rud\u00e1 Ricci nestes \u00faltimos tr\u00eas anos e meio.<\/p>\n<p>Existem duas observa\u00e7\u00f5es do psicanalista franc\u00eas Jacques Lacan muito pertinentes ao que aqui abordamos. A primeira \u00e9 que n\u00e3o podemos dizer toda a verdade. Por isso sempre utilizamos a palavra, a linguagem e a poesia, as quais sempre dizem parte de algo que nos toca e nos interessa, como a democracia, a solidariedade e o amor partilhado com o pr\u00f3ximo. A segunda diz que da nossa condi\u00e7\u00e3o de sujeitos somos todos respons\u00e1veis, o que nos indica que fazemos escolhas sempre guiados pelos nossos mais secretos e inconfessados desejos.<\/p>\n<p>Nesse sentido,\u00a0<em>a gera\u00e7\u00e3o do seu ovo da serpente<\/em>, neste Brasil que era pintado como um para\u00edso das n\u00e3o diferen\u00e7as, mostra verdadeiramente a sua cara. A cara que tem pintada em seu rosto n\u00e3o os s\u00edmbolos da democracia, da solidariedade, mas sim os mais de 350 anos de escravid\u00e3o, de diferen\u00e7a social, de repress\u00e3o, de machismo, de homofobia, de horror aos pobres e quejandos.<\/p>\n<p>A nossa condi\u00e7\u00e3o atual tem uma hist\u00f3ria e uma historicidade que lhe s\u00e3o peculiares. Acreditamos\u00a0<em>uberisticamente<\/em>\u00a0fazer a nossa pr\u00f3pria hist\u00f3ria com nossas pr\u00f3prias m\u00e3os e esfor\u00e7o empreendedores, mas parece que, ao final do percurso inicial dessa vaga fascista, muitos est\u00e3o a perceber que n\u00e3o controlavam as tais circunst\u00e2ncias do fazimento de sua hist\u00f3ria e por ela eram engolidos. \u00c9 nesse sentido que a \u201ctradi\u00e7\u00e3o de todas as gera\u00e7\u00f5es passadas\u201d, que assentiu com os processos opressivos em nosso pa\u00eds entintado de alma escravocrata, talvez agora venha a realmente oprimir o c\u00e9rebro dos viventes!<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o temamos. A hist\u00f3ria se repete no que tem de ruim, mas tamb\u00e9m no que tem de bom, e a psican\u00e1lise de Freud mostra que n\u00e3o \u00e9 somente como trag\u00e9dia e farsa que ela se reedita, mas fundamentalmente como sintoma social de uma sociedade que n\u00e3o conseguiu analisar os seus mais temerosos fantasmas e reparar os seus d\u00e9bitos.<\/p>\n<p>___________________<\/p>\n<p><a id=\"sdfootnote1sym\" href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=161&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fcrise-brasileira%2Ffascismo-brasileiro-como-geramosnosso-inferno%2F#sdfootnote1anc\">1<\/a>\u00a0A posi\u00e7\u00e3o anacl\u00edtica \u00e9 um termo utilizado por Freud para descrever a depend\u00eancia absoluta do beb\u00ea frente aos seus pais e, fundamentalmente, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 m\u00e3e. A esp\u00e9cie humana, sabemos hoje pelos estudos da antropologia comparada, \u00e9 a que possui o maior per\u00edodo de depend\u00eancia para com os seus genitores, o que chamamos de inf\u00e2ncia.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/wp-admin\/post.php?post=3064241&amp;action=edit#sdfootnote1anc\">2<\/a>\u00a0Adorno, Theodor W. (2015).\u00a0<em>Ensaios sobre psicologia social e psican\u00e1lise<\/em>. S\u00e3o Paulo. UNESP.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/wp-admin\/post.php?post=3064241&amp;action=edit#sdfootnote1anc\">3\u00a0<\/a>O trabalho mestre de Freud sobre os pontos que estamos a discutir \u00e9: Freud, Sigmund. (2020).\u00a0<em>A psicologia das massas e an\u00e1lise do eu<\/em>. In. Cultura, Sociedade, Religi\u00e3o. O mal-estar na cultura e outros ensaios. Belo Horizonte. Aut\u00eantica.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/wp-admin\/post.php?post=3064241&amp;action=edit#sdfootnote1anc\">4\u00a0<\/a>Freire, Paulo. (1974).\u00a0<em>Pedagogia do Oprimido<\/em>. Rio de Janeiro. Editora Paz e Terra.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/wp-admin\/post.php?post=3064241&amp;action=edit#sdfootnote1anc\">5\u00a0<\/a>Como dissemos, para atingir esta meta ele precisa produzir artificialmente o v\u00ednculo entre cada um e ele, e os indiv\u00edduos entre si. A estrutura do v\u00ednculo de um a um dentro de uma massa possui caracter\u00edsticas e uma natureza libidinais. Verticalmente, na identifica\u00e7\u00e3o com um ou mais tra\u00e7os apresentados pelo l\u00edder, e horizontalmente, de forma solid\u00e1ria (ainda que na base competitiva), entre os membros da massa, no tr\u00e2nsito deslocado de seus desejos.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/wp-admin\/post.php?post=3064241&amp;action=edit#sdfootnote1anc\">6\u00a0<\/a>Sennett, Richard. (2012). A corros\u00e3o do car\u00e1ter: o desaparecimento das virtudes com o novo capitalismo. Rio de Janeiro. Edi\u00e7\u00f5es BestBolso; (2012). Autoridade. Rio de Janeiro. Record.<\/p>\n<p><a id=\"sdfootnote1sym\" href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=161&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fcrise-brasileira%2Ffascismo-brasileiro-como-geramosnosso-inferno%2F#sdfootnote1anc\">7<\/a>\u00a0Manovich, Lev. (2001).\u00a0<em>The Language of New Media<\/em>. Cambridge, Massachusetts: MIT Press.<\/p>\n<p><a id=\"sdfootnote2sym\" href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=161&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fcrise-brasileira%2Ffascismo-brasileiro-como-geramosnosso-inferno%2F#sdfootnote2anc\">8<\/a>\u00a0Herzog, Werner. (1976).\u00a0<em>Herz aus Glas<\/em>. Alemanha.<\/p>\n<p>9 Na publica\u00e7\u00e3o, Petry, Lu\u00eds Carlos &amp; Ricci, Rud\u00e1. (2022).\u00a0<em>O fascismo de massa<\/em>. Curitiba. Editora Kotter.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Fascismo brasileiro: como geramos este inferno &#8211; Outras Palavras &#8211; https:\/\/outraspalavras.net\/crise-brasileira\/fascismo-brasileiro-como-geramosnosso-inferno\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lu\u00eds Carlos Petry &#8211; H\u00e1 in\u00fameras maneiras de percorrer um mesmo caminho, e o livro\u00a0O ovo da serpente,\u00a0de Rud\u00e1 Ricci (Kotter Editorial, 2022), entre muitas outras coisas, demonstra o quanto \u00e9 imposs\u00edvel chegar a um lugar sem se passar por outro. 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