{"id":17809,"date":"2022-05-03T12:26:35","date_gmt":"2022-05-03T15:26:35","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=17809"},"modified":"2022-05-08T13:47:25","modified_gmt":"2022-05-08T16:47:25","slug":"a-europa-e-seus-cem-anos-de-solidao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2022\/05\/03\/a-europa-e-seus-cem-anos-de-solidao\/","title":{"rendered":"A Europa e seus cem anos de solid\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><strong>Boaventura de Souza Santos &#8211;\u00a0<\/strong>Cem anos depois da Primeira Guerra Mundial os l\u00edderes europeus caminham son\u00e2mbulos para uma nova guerra total. Tal como em 1914, pensam que a guerra da Ucr\u00e2nia ser\u00e1 limitada e de curta dura\u00e7\u00e3o. Em 1914, dizia-se nos minist\u00e9rios que a guerra duraria tr\u00eas semanas. Foram quatro anos e mais de 20 milh\u00f5es de mortos. Tal como em 1918, domina hoje a posi\u00e7\u00e3o de que \u00e9 necess\u00e1rio punir exemplarmente a pot\u00eancia agressora de modo a deix\u00e1-la prostrada e humilhada por muito tempo.<\/p>\n<p>Em 1918, a pot\u00eancia vencida foi a Alemanha (e tamb\u00e9m o Imp\u00e9rio Otomano). Houve vozes discordantes (John Maynard Keynes e outros) para quem a humilha\u00e7\u00e3o total da Alemanha seria desastrosa para a reconstru\u00e7\u00e3o da Europa e para a paz duradoura no continente e no mundo. N\u00e3o foram ouvidas, e 21 anos depois a Europa estava de novo em guerra. Seguiram-se cinco anos de destrui\u00e7\u00e3o e mais de 70 milh\u00f5es de mortos. A hist\u00f3ria n\u00e3o se repete e aparentemente nada ensina. Mas serve para ilustrar e mostrar semelhan\u00e7as e diferen\u00e7as. Vejamos umas e outras \u00e0 luz de duas ilustra\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Em 1914, havia cem anos que a Europa vivia em relativa paz, com muitas guerras, mas circunscritas e de pouca dura\u00e7\u00e3o. O segredo dessa paz fora a Confer\u00eancia de Viena (1814-1815). Nessa confer\u00eancia tratou-se de p\u00f4r fim ao ciclo de transforma\u00e7\u00e3o, turbul\u00eancia e guerra que come\u00e7ara com a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa e se agravara com as guerras napole\u00f4nicas. O pacto com que terminou a confer\u00eancia foi assinado nove dias antes da derrota final de Napole\u00e3o em Waterloo.<\/p>\n<p>Nessa confer\u00eancia, dominaram as for\u00e7as conservadoras e o per\u00edodo que se seguiu foi denominado Restaura\u00e7\u00e3o (da velha ordem europeia). A reuni\u00e3o de Viena tem, no entanto, uma outra caracter\u00edstica que nos faz record\u00e1-la agora. Foi presidida por um grande estadista austr\u00edaco, Klemens von Metternich, que teve com principal preocupa\u00e7\u00e3o incorporar todas as pot\u00eancias europeias, tanto as vencedoras como as vencidas, de modo a garantir uma paz duradoura. Claro que a pot\u00eancia perdedora (a Fran\u00e7a) teria de sofrer as consequ\u00eancias (perdas territoriais), mas o pacto foi firmado por ela e por todas as outras pot\u00eancias (\u00c1ustria, Inglaterra, R\u00fassia e Pr\u00fassia) e com condi\u00e7\u00f5es impostas a todos de modo a garantir uma paz duradoura na Europa. E assim se cumpriu.<\/p>\n<p>S\u00e3o muitas as diferen\u00e7as em rela\u00e7\u00e3o ao nosso tempo. A principal \u00e9 que, desta vez, o teatro de guerra \u00e9 a Europa, mas as partes em conflito s\u00e3o uma pot\u00eancia europeia (a R\u00fassia) e uma pot\u00eancia n\u00e3o europeia (os EUA). A guerra tem todas as caracter\u00edsticas de uma\u00a0<em>proxy war<\/em>, uma guerra em que os contendores se aproveitam de outro pa\u00eds (a Ucr\u00e2nia), o pa\u00eds do sacrif\u00edcio, para realizar objetivos geoestrat\u00e9gicos que em muito transcendem os desse pa\u00eds e mesmo os da regi\u00e3o em que se integra (a Europa).<\/p>\n<p>Verdadeiramente, a R\u00fassia s\u00f3 est\u00e1 em guerra com a Ucr\u00e2nia porque est\u00e1 em guerra com a OTAN, uma organiza\u00e7\u00e3o cujo supremo comandante aliado para a Europa \u00e9 \u201ctradicionalmente um comandante norte-americano\u201d. Uma organiza\u00e7\u00e3o que, sobretudo depois do fim da primeira Guerra Fria, tem servido os interesses geoestrat\u00e9gicos dos EUA. A R\u00fassia sacrifica de modo ilegal e brutal os princ\u00edpios da autodetermina\u00e7\u00e3o dos povos, de que j\u00e1 foi um importante arauto em contextos geopol\u00edticos anteriores, para fazer valer as suas preocupa\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a depois de as n\u00e3o ver reconhecidas por vias pac\u00edficas e por um indisfar\u00e7\u00e1vel saudosismo imperial.<\/p>\n<p>Por sua vez, os EUA est\u00e3o apostados desde o final da primeira Guerra Fria em aprofundar a derrota da R\u00fassia, uma derrota que foi talvez mais autoinfligida do que provocada pela superioridade do advers\u00e1rio. Por um breve per\u00edodo, a disputa diplom\u00e1tica em Washington foi entre a \u201cparceria para a paz\u201d e \u201ca expans\u00e3o da OTAN para garantir a seguran\u00e7a dos pa\u00edses emergentes do bloco sovi\u00e9tico\u201d. Com o presidente Bill Clinton foi esta \u00faltima pol\u00edtica que prevaleceu.<\/p>\n<p>Por raz\u00f5es diferentes, tamb\u00e9m para os EUA, a Ucr\u00e2nia \u00e9 o pa\u00eds do sacrif\u00edcio. A guerra da Ucr\u00e2nia est\u00e1 sujeita ao objetivo de infligir uma derrota incondicional \u00e0 R\u00fassia que, de prefer\u00eancia, tem de durar at\u00e9 provocar o\u00a0<em>regime change<\/em>\u00a0em Moscou. A dura\u00e7\u00e3o da guerra est\u00e1 sujeita a esse objetivo. Se o primeiro-ministro brit\u00e2nico se autoriza a afirmar que as san\u00e7\u00f5es contra a R\u00fassia continuar\u00e3o qualquer que seja agora a posi\u00e7\u00e3o da R\u00fassia, qual \u00e9 o incentivo desta para p\u00f4r fim \u00e0 guerra? Afinal, basta que Vladimir Putin seja afastado (tal como aconteceu a Napole\u00e3o em 1815) ou \u00e9 a R\u00fassia que tem de ser afastada para travar a expans\u00e3o da China? Tamb\u00e9m houve\u00a0<em>regime change<\/em>\u00a0na humilhada Alemanha em 1918, mas o seu decurso terminaria em Hitler e numa guerra ainda mais devastadora.<\/p>\n<p>A grandeza pol\u00edtica do presidente Volodymyr Zelenskii tanto poderia ser constru\u00edda como o corajoso patriota que defende o seu pa\u00eds do invasor at\u00e9 \u00e0 \u00faltima gota de sangue, como a do corajoso patriota que, perante o perigo de tanta morte inocente e dada a assimetria de for\u00e7a militar, consegue, com o apoio dos seus aliados, uma negocia\u00e7\u00e3o forte e uma paz digna. O fato de prevalecer hoje a primeira constru\u00e7\u00e3o n\u00e3o decorre das inclina\u00e7\u00f5es pessoais do presidente Zelenskii.<\/p>\n<p>A segunda ilustra\u00e7\u00e3o para ver semelhan\u00e7as e diferen\u00e7as com o passado recente diz respeito \u00e0 posi\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica da Europa. Durante as duas guerras mundiais do s\u00e9culo XX, a Europa era o autoproclamado centro do mundo. Por essa raz\u00e3o \u00e9 que as guerras foram mundiais. Cerca de 4 milh\u00f5es das tropas \u201ceuropeias\u201d eram de fato africanas e asi\u00e1ticas e muitos milhares de mortes de n\u00e3o europeus foram o pre\u00e7o do sacrif\u00edcio por serem habitantes de col\u00f4nias de pa\u00edses distantes envolvidos em guerra que n\u00e3o lhes diziam respeito.<\/p>\n<p>Hoje, a Europa \u00e9 um canto do mundo, e a guerra da Ucr\u00e2nia torn\u00e1-lo-\u00e1 ainda mais pequeno. Durante s\u00e9culos foi o extremo da Eur\u00e1sia, essa grande massa de terra entre a China e a Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica, por onde circularam saberes, produtos, inova\u00e7\u00f5es cient\u00edficas, culturas. Muito do que mais tarde foi atribu\u00eddo ao excepcionalismo europeu (desde a revolu\u00e7\u00e3o cient\u00edfica do s\u00e9culo XVI at\u00e9 \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o industrial de 1800) n\u00e3o se entende nem ocorreria sem essa circula\u00e7\u00e3o multissecular.<\/p>\n<p>A guerra da Ucr\u00e2nia, sobretudo se se prolongar, corre o risco, n\u00e3o s\u00f3 de amputar a Europa de uma das suas pot\u00eancias hist\u00f3ricas (a R\u00fassia), como de a isolar do resto do mundo e, muito especialmente, da China. O mundo \u00e9 imensamente maior do que aquilo que se v\u00ea com \u00f3culos europeus. Vistos com estes \u00f3culos, os europeus nunca se sentiram t\u00e3o fortes, t\u00e3o unidos ao seu parceiro maior, t\u00e3o confiantemente do lado certo da hist\u00f3ria, com o mundo da \u201cordem liberal\u201d dominando o planeta e t\u00e3o suficientemente forte para daqui a algum tempo se aventurar a conquistar ou, pelo menos, neutralizar a China, depois de ter arrasado o seu principal parceiro, a R\u00fassia.<\/p>\n<p>Vistos com \u00f3culos n\u00e3o europeus, a Europa e os EUA est\u00e3o orgulhosamente quase s\u00f3s, talvez capazes de ganhar uma batalha, mas certamente a caminho da derrota na guerra da hist\u00f3ria. Mais de metade da popula\u00e7\u00e3o do mundo vive em pa\u00edses que decidiram n\u00e3o aplicar san\u00e7\u00f5es \u00e0 R\u00fassia. Muitos dos que votaram (e bem) na ONU contra a invas\u00e3o ilegal da Ucr\u00e2nia fizeram-no com justifica\u00e7\u00f5es da sua experi\u00eancia hist\u00f3rica, a qual n\u00e3o era a de serem invadidos pela R\u00fassia, mas antes pelos EUA, pela Inglaterra, pela Fran\u00e7a, por Israel.<\/p>\n<p>As suas decis\u00f5es n\u00e3o foram resultado da ignor\u00e2ncia, mas da precau\u00e7\u00e3o. Como podem eles confiar em pa\u00edses que, depois de terem criado um sistema de transfer\u00eancias financeiras (SWIFT) com o objetivo de defender as transa\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas de interfer\u00eancias pol\u00edticas, expulsam um pa\u00eds por raz\u00f5es pol\u00edticas? Em pa\u00edses que se arrogam poder confiscar as reservas financeiras e de ouro de pa\u00edses soberanos como o Afeganist\u00e3o, a Venezuela e agora a R\u00fassia? Em pa\u00edses que proclamam a liberdade de express\u00e3o como um sacrossanto valor universal, mas recorrem \u00e0 censura logo que se sentem desmascarados por ela? Em pa\u00edses supostamente amantes da democracia que n\u00e3o hesitam em provocar golpes sempre que os eleitos n\u00e3o conv\u00eam aos seus interesses? Em pa\u00edses para quem, segundo as conveni\u00eancias do momento, o \u201cditador\u201d Nicolas Maduro pode, de repente, virar parceiro comercial? O mundo perdeu a inoc\u00eancia, se \u00e9 que alguma vez a teve.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Boaventura: a Europa e seus cem anos de solid\u00e3o &#8211; Outras Palavras &#8211; https:\/\/outraspalavras.net\/geopoliticaeguerra\/boaventura-a-europa-e-seus-cem-anos-de-solidao\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Boaventura de Souza Santos &#8211;\u00a0Cem anos depois da Primeira Guerra Mundial os l\u00edderes europeus caminham son\u00e2mbulos para uma nova guerra total. 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