{"id":17798,"date":"2022-05-01T12:34:59","date_gmt":"2022-05-01T15:34:59","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=17798"},"modified":"2022-04-25T19:36:43","modified_gmt":"2022-04-25T22:36:43","slug":"o-canto-de-sereia-do-neofascismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2022\/05\/01\/o-canto-de-sereia-do-neofascismo\/","title":{"rendered":"O canto de sereia do neofascismo"},"content":{"rendered":"<p><strong>RAFAEL R. IORIS &#8211;\u00a0<\/strong>Considera\u00e7\u00f5es sobre a crise da democracia e a rearticula\u00e7\u00e3o da l\u00f3gica neoliberal<\/p>\n<p>A surpreendente ascens\u00e3o ao poder de Donald Trump, nos EUA, em 2016, e de Jair Bolsonaro, no Brasil, em 2018, representou n\u00e3o s\u00f3 problemas graves nas estruturas pol\u00edticas de tais pa\u00edses, como tamb\u00e9m uma crise mais ampla na l\u00f3gica de funcionamento da democracia liberal, que parece mesmo estar enfrentando hoje um dos seus maiores desafios. Tragicamente, ao inv\u00e9s de oferecer formas reais de atender \u00e0s demandas por novas e mais eficientes pr\u00e1ticas de representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica,\u00a0<em>tais l\u00edderes,\u00a0<\/em>e seus similares ao redor do mundo, aceleram a pr\u00f3pria crise estrutural em curso.<\/p>\n<p>De fato, como itera\u00e7\u00f5es renovadas de demagogos autorit\u00e1rios do passado, Trump e Bolsonaro aprofundam a deslegitima\u00e7\u00e3o da representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica mediada, mas como resposta prop\u00f5em n\u00e3o o aprofundamento da l\u00f3gica democr\u00e1tica, mas sim a fragmenta\u00e7\u00e3o do tecido social, onde \u2018escolhidos\u2019 ser\u00e3o protegidos pelo grande l\u00edder, enquanto \u2018rejeitados\u2019, de toda natureza, teriam que ser exclu\u00eddos, quando n\u00e3o mesmo eliminados por completo.<\/p>\n<p>Esse salvacionismo midi\u00e1tico se vale mesmo da xenofobia e do recrudescimento das divis\u00f5es como instrumentos centrais da sua l\u00f3gica. E foi assim que, de maneira concreta, Donald Trump exacerbou a imagem do imigrante amea\u00e7ador, ao passo que Jair Bolsonaro reativou, de maneira tacanha mas ainda assim efetiva, a imagem rediviva da amea\u00e7a comunista. Mas, embora eficazmente promovidos nas redes digitais, tais dispositivos ret\u00f3ricos n\u00e3o teriam sido suficientes para trazer ao poder tais personagens n\u00e3o fosse o caso de muitos eleitores que j\u00e1 se sentiam fortemente frustrados com a pol\u00edtica institucional, assim como com v\u00e1rias mudan\u00e7as de vi\u00e9s econ\u00f4mico, demogr\u00e1fico e cultural ocorrendo em seus respectivos pa\u00edses ao longo dos \u00faltimos anos.<\/p>\n<p>\u00c9 fato que as muitas transforma\u00e7\u00f5es (pol\u00edticas, ideol\u00f3gicas, econ\u00f4micas, etc.) que v\u00eam se desenrolando de maneira r\u00e1pida desde o final da Guerra Fria t\u00eam, sim, revelado, cada dia mais claramente, seus limites e contradi\u00e7\u00f5es. Lembremos que o triunfalismo neoliberal dos anos 1990, aliado \u00e0 imposi\u00e7\u00e3o de ajustes econ\u00f4micos dur\u00edssimos no Sul Global e \u00e0 globaliza\u00e7\u00e3o espacial do processo produtivo, amparava-se na no\u00e7\u00e3o de ganhos que, se ocorreram para alguns, levaram tamb\u00e9m ao aprofundamento de desigualdades estruturais de toda ordem. Al\u00e9m disso, tal processo vem ocorrendo em meio a uma ampla complexifica\u00e7\u00e3o das demandas de grupos sociais cada vez mais diversos, muitas vezes auto-excludentes, enquanto nossa l\u00f3gica b\u00e1sica de representa\u00e7\u00e3o continua ancorada em preceitos e funcionamentos formulados ainda no s\u00e9culo XIX.<\/p>\n<p>Mas antes que joguemos a crian\u00e7a fora com a \u00e1gua do banho, cabe lembrar que se o Liberalismo pol\u00edtico n\u00e3o nasceu democr\u00e1tico, ao longo dos \u00faltimos 250 anos seu escopo e meios para buscar garantir n\u00e3o s\u00f3 a vontade das maiorias legitimamente representadas, mas tamb\u00e9m para assegurar a participa\u00e7\u00e3o de minorias religiosas, \u00e9tnicas, raciais, culturais ou ideol\u00f3gicas no processo deliberativo, expandiram-se de forma importante, mesmo que certamente n\u00e3o ideal.<\/p>\n<p>\u00c9 certo tamb\u00e9m que o liberalismo se ocupou historicamente mais com a quest\u00e3o da igualdade legal e formal do que com a consecu\u00e7\u00e3o de igualdade das condi\u00e7\u00f5es reais de exist\u00eancia. Mas ainda assim, a no\u00e7\u00e3o liberal de uma dignidade humana intr\u00ednseca, se n\u00e3o foi capaz de produzir igualdade efetiva, foi fundamental para amparar a pr\u00f3pria agenda de promo\u00e7\u00e3o da igualdade ao longo da hist\u00f3ria recente. E \u00e9 exatamente a centralidade da no\u00e7\u00e3o da igualdade formal, com potencial emancipat\u00f3rio inerente, ainda que historicamente limitado, que se tornou alvo da extrema direita global, em ascens\u00e3o nos \u00faltimos anos.<\/p>\n<p>Como sabemos, l\u00edderes de diversos pa\u00edses \u2013 como Viktor Orb\u00e1n, na Hungria, Narendra Modi na \u00cdndia, Rodrigo Duterte nas Filipinas, Recep Erdogan na Turquia, Vladimir Putin na R\u00fassia, Donald Trump nos EUA e Jair Bolsonaro no Brasil \u2013 t\u00eam buscado erodir garantias constitucionais de grupos minorit\u00e1rios; destruir a independ\u00eancia investigativa e judicial de \u00f3rg\u00e3os aut\u00f4nomos do aparelho de Estado; deslegitimar vozes de oposi\u00e7\u00e3o; suprimir a liberdade de imprensa; e reprimir atores contr\u00e1rios a tais desdobramentos, que acabam sendo tratados como inimigos da suposta verdadeira na\u00e7\u00e3o. E dada a rapidez com que tais eventos t\u00eam ocorrido, assim como sua natureza complexa, n\u00e3o temos ainda uma base conceitual consensual para defini-los.<\/p>\n<p>Por um lado, o car\u00e1ter formalmente democr\u00e1tico e o apelo popular de tais lideran\u00e7as poderia remeter-nos a um af\u00e3 demasiado f\u00e1cil de caracteriz\u00e1-los como uma nova vers\u00e3o de um populismo, nesse caso, de direita. Ainda assim, entendo que talvez seja melhor caracteriz\u00e1-los por meio de uma an\u00e1lise da experi\u00eancia hist\u00f3rica do Fascismo, tendo em vista o estilo agressivo, a l\u00f3gica persecut\u00f3ria, a a\u00e7\u00e3o destrutiva contra opositores e a promo\u00e7\u00e3o dos interesses do grande capital manifestadas por tais pol\u00edticos. Tais elementos parecem, sim, ecoar din\u00e2micas anteriores embora cabe tamb\u00e9m ressaltar que a mobiliza\u00e7\u00e3o que os sustenta tende a n\u00e3o operar mais por meio de partidos de massas, mas, sim, pelas redes digitais, e n\u00e3o parece haver hoje a preocupa\u00e7\u00e3o em prover assist\u00eancia social seletiva \u00e0s fra\u00e7\u00f5es do lumpensinato adesista.<\/p>\n<p>E assim, como epifen\u00f4menos de for\u00e7as mais profundas, tais experi\u00eancias tendem a ocorrer em momentos de crises econ\u00f4micas nacionais, vinculadas a processos de reestrutura\u00e7\u00e3o produtiva mais amplos, e do enfraquecimento do sistema partid\u00e1rio estabelecido. Da mesma forma, tendem a apresentar um discurso moralista que ataca o processo pol\u00edtico formal, embora participem do mesmo. H\u00e1 tamb\u00e9m uma recorrente utiliza\u00e7\u00e3o de uma l\u00f3gica bin\u00e1ria que op\u00f5e os bons aos maus cidad\u00e3os. E assim, como bem demonstra o caso de Jair Bolsonaro, o apelo do salvacionismo n\u00e3o se atrela hoje ao provimento de melhorias concretas de vida mas, sim, \u00e0 reitera\u00e7\u00e3o constante, e em bom som, da vilifica\u00e7\u00e3o do inimigo. Nesse sentido, enquanto a cr\u00edtica neoliberal tecnocr\u00e1tica (do Estado gerente) dos anos 1990 buscava redesenhar o papel do Estado na sociedade, hoje, ataca-se a pr\u00f3pria l\u00f3gica representativa, apresentando o grande l\u00edder como instrumento de uma a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica n\u00e3o mediada.<\/p>\n<p>Interessantemente, mais do que no centro do capitalismo, onde as pol\u00edticas econ\u00f4micas se demonstram cada dia mais protecionistas, busca-se em pa\u00edses da periferia, como no Brasil, \u00cdndia, Col\u00f4mbia, etc., promover toda uma s\u00e9rie de pol\u00edticas fiscais, tribut\u00e1rias e regulat\u00f3rias de vi\u00e9s neoliberal \u2013 dessa vez, por meios ainda mais autorit\u00e1rios. E assim, o \u201cn<em>eofascismo\u201d\u00a0<\/em>emerge hoje como instrumento central na promo\u00e7\u00e3o da agenda do grande capital em contextos de recrudescimento do econ\u00f4mico. Sua agenda n\u00e3o se resume mais ao ajuste econ\u00f4mico estrutural dos anos 1990, mas busca desmantelar princ\u00edpios centrais da pr\u00f3pria l\u00f3gica e cultura democr\u00e1tica, como igualdade formal e acesso ao processo deliberativo formal.<\/p>\n<p>Por isso, vemos cada vez mais fortemente um movimento para reverter conquistas fundamentais de grupos historicamente marginalizados por meio da deteriora\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os p\u00fablicos b\u00e1sicos, elimina\u00e7\u00e3o de direitos de matriz econ\u00f4mica (trabalhistas e previdenci\u00e1rios) e das legisla\u00e7\u00f5es ambientais. Minorias de todo tipo v\u00eam, pois, sendo perseguidas em todos pa\u00edses onde tais lideran\u00e7as chegaram ao poder e o pr\u00f3prio sufr\u00e1gio universal vem sendo redefinido n\u00e3o como uma conquista civilizat\u00f3ria necess\u00e1ria para o funcionamento da democracia, mas como um privil\u00e9gio de alguns que estariam usurpando a vontade de uma maioria supostamente oprimida.<\/p>\n<p>Esse tem sido bem o caso dos EUA ao longo dos \u00faltimos anos, embora o processo venha de mais longe. Lembremos que o movimento neoconservador (Neo-Con), que surge no final dos anos 1960, foi fundamental para levar ao poder Richard Nixon e Ronald Reagan por meio de um discurso de vi\u00e9s culturalista que articulava a no\u00e7\u00e3o de uma maioria amea\u00e7ada por mudan\u00e7as sociais em curso. Competentemente os Neo-Cons deram assim o mote para o partido Republicano articular uma vis\u00e3o econ\u00f4mica de matriz neoliberal mas que n\u00e3o obstante encontrou forte apoio junto ao eleitorado branco, pobre, religioso e conservador.<\/p>\n<p>Ao chegar ao poder, especialmente nos anos 1980, com Reagan, institucionalizava-se a no\u00e7\u00e3o do \u201c<em>Estado como problema\u201d<\/em><em>,<\/em>\u00a0abrindo espa\u00e7o para a r\u00e1pida desindustrializa\u00e7\u00e3o e financeiriza\u00e7\u00e3o da economia norte-americana. Questionava-se a capacidade, assim como a pr\u00f3pria legitimidade do Estado como agente capaz de atender \u00e0s demandas coletivas da popula\u00e7\u00e3o, aprofundando assim a pr\u00f3pria deslegitima\u00e7\u00e3o da representatividade democr\u00e1tica como forma de dar respostas a necessidades reais crescentes de amplos setores da sociedade.<\/p>\n<p>A elei\u00e7\u00e3o de Barack Obama, em 2008, exacerbou ainda mais o ressentimento com o sistema pol\u00edtico formal, especialmente junto \u00e0 base do partido Republicano, que se demonstrou muito receptiva aos apelos do\u00a0<em>outsider\u00a0<\/em>pleno, Donald Trump, em 2016. Lembremos que, sob uma ret\u00f3rica xenof\u00f3bica e racista, j\u00e1 em seu primeiro discurso de campanha, Trump demonizou a imagem do imigrante que viria ao pa\u00eds, especialmente da fronteira sul, n\u00e3o s\u00f3 para supostamente tomar os empregos dos norte-americanos brancos, mas tamb\u00e9m para roubar suas propriedades e estuprar suas mulheres.<\/p>\n<p>Donald Trump conseguiu, assim, ativar a frustra\u00e7\u00e3o de pelo menos duas gera\u00e7\u00f5es desses segmentos brancos pobres e conservadores de forma a mobiliz\u00e1-los a finalmente irem \u00e0s urnas animados para defender\u00a0<em>sua Am\u00e9rica.\u00a0<\/em>Para tanto, utilizou-se de uma estrat\u00e9gia inovadora de comunica\u00e7\u00e3o ancorada nas m\u00eddias digitais. Prometia-se uma\u00a0<em>Am\u00e9rica\u00a0<\/em>que renasceria das cinzas da decad\u00eancia industrial das \u00faltimas d\u00e9cadas e da vergonha da derrota das interven\u00e7\u00f5es militares, mas claro, sem adotar as estrat\u00e9gias corporativistas e multiclassistas consagradas nos EUA pelo\u00a0<em>New Deal<\/em>\u00a0dos anos 1930 e solidificadas nas duas d\u00e9cadas ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial. Seria, sim, a \u201c<em>Am\u00e9rica grande\u00a0<\/em>de novo\u201d, mas somente para alguns.<\/p>\n<p>Na Am\u00e9rica Latina, no Brasil em particular, a onda autorit\u00e1ria neoliberal ganhou lastro na rea\u00e7\u00e3o aos governos reformistas da chamada Onda Rosa, do in\u00edcio dos anos 2000. De maneira concreta, Pepe Mujica no Uruguai, Michelle Bachelet no Chile, Lula no Brasil, Evo Morales na Bol\u00edvia, ou mesmo Hugo Chavez na Venezuela \u2013 os principais governos da Onda Rosa \u2013 foram capazes de implementar significativas mudan\u00e7as no padr\u00e3o de gastos p\u00fablicos, expandindo programas sociais de maneira significativa, assim como imprimir um novo tom, mais inclusivo, no debate p\u00fablico em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 quest\u00e3o da exclus\u00e3o hist\u00f3rica de minorias (muitas vezes, de fato, maiorias) \u00e9tnicas e\/ou culturais.<\/p>\n<p>Mas embora tenham tentado implementar algumas novas estrat\u00e9gias de crescimento voltada ao mercado dom\u00e9stico, tais governos seguiram um caminho de reprimariza\u00e7\u00e3o de suas economias, valendo-se, em grande parte, da alta demanda por commodities no mercado global, fruto da pujan\u00e7a e voracidade da economia chinesa. Assim, embora cr\u00edticos da ordem econ\u00f4mica global, os governos da Onda Rosa n\u00e3o conseguiram (muitas vezes, nem tentaram) escapar da depend\u00eancia de suas economias na exporta\u00e7\u00e3o de produtos prim\u00e1rios, em alta demanda no mercado internacional no in\u00edcio do s\u00e9culo, mas que a partir de 2010-2012, sofrem uma forte queda de pre\u00e7os. De fato, a partir do in\u00edcio da segunda d\u00e9cada do s\u00e9culo, os efeitos econ\u00f4micos da crise do mercado imobili\u00e1rio norte-americano e, de maneira associada, da liquidez e demanda globais, passam a ser sentidos pelos governos regionais de maneira contundente. O crescimento econ\u00f4mico registrado na regi\u00e3o como um todo, entre os anos de 2014 e 2020, foi, na m\u00e9dia, o mais baixo dos \u00faltimos 70 anos.<\/p>\n<p>De maneira especialmente impactante, os trabalhadores, base pol\u00edtica central dos governos da Onda Rosa, foram os primeiros a sentir a queda na produ\u00e7\u00e3o dom\u00e9stica para a exporta\u00e7\u00e3o e, consequentemente, de seus novos n\u00edveis de consumo. Passaram mesmo a questionar de maneira surpreendentemente r\u00e1pida os ganhos, certamente fr\u00e1geis, que tais governos tinham promovido. Mas essa frustra\u00e7\u00e3o e a busca por alternativas n\u00e3o ficou restrita aos setores mais diretamente ligados \u00e0 produ\u00e7\u00e3o para exporta\u00e7\u00e3o. E muitas vezes fruto do trabalho cr\u00edtico das m\u00eddias locais oligopol\u00edsticas e conservadoras, as ditas classes m\u00e9dias tamb\u00e9m se envolveram de maneira decisiva na veicula\u00e7\u00e3o do seu descontentamento, inclusive ocupando as ruas, arena tradicionalmente das esquerdas, desde pelo menos o processo de transi\u00e7\u00e3o das ditaduras para democracia nos anos 1980 e 1990.<\/p>\n<p>Como resultado, a regi\u00e3o como um todo passou a experimentar uma s\u00e9rie de crises pol\u00edticas, onde a pr\u00f3pria l\u00f3gica representativa liberal seria crescentemente questionada. Mesmo grupos que tinham ganhado muito com o crescimento econ\u00f4mico durante a bonan\u00e7a do in\u00edcio do s\u00e9culo, como as elites do agroneg\u00f3cio, se convertem rapidamente em cr\u00edticos vorazes dos governos de ent\u00e3o. Tais grupos passaram mesmo a liderar uma verdadeira cruzada pelo fim de programas sociais, que assumiram, assim, o papel meton\u00edmico de representar tudo o que estaria indo mal em um contexto de taxas de crescimento historicamente baixas.<\/p>\n<p>Os primeiros governos de direita que chegaram ao poder embasados na rearticula\u00e7\u00e3o das for\u00e7as conservadoras regionais atacaram os programas implementados pelas administra\u00e7\u00f5es anteriores e restabeleceram as bases da l\u00f3gica neoliberal dos anos 1990. De in\u00edcio, seriam ainda coaliz\u00f5es que aceitavam a institucionalidade democr\u00e1tica formal. E assim, Sebasti\u00e1n Pi\u00f1era, no Chile (2010-2014), Mauricio Macri, na Argentina (2015-2019), Pedro Pablo Kuczynski, no Per\u00fa (2016-2018), como talvez mesmo Michel Temer, no Brasil (2016-2018), ainda se ocuparam em manter o funcionamento da democracia liberal como meio inclusive de conseguir perseguir as \u201c<em>reformas que o pa\u00eds precisa\u201d.\u00a0<\/em>Mas essa fase parece n\u00e3o ter sido suficientemente eficiente na implementa\u00e7\u00e3o da agenda econ\u00f4mica das oligarquias regionais vinculadas ao capital global, crescentemente oligopolizado.<\/p>\n<p>E assim, Jair Bolsonaro, no Brasil, mas tamb\u00e9m Jeanine Anez, na Bol\u00edvia, Nayib Bukele, em El Salvador, e Ivan Duque, na Col\u00f4mbia, aprofundaram os ataques \u00e0 l\u00f3gica da representa\u00e7\u00e3o em moldes liberais, garantidora da exist\u00eancia e da manifesta\u00e7\u00e3o da oposi\u00e7\u00e3o e de \u00f3rg\u00e3os de controle do poder central \u2013 criando assim uma verdadeira situa\u00e7\u00e3o de Choque (Naomi Klein)<a href=\"https:\/\/boletimluanova.org\/o-canto-da-serie-do-neo-facismo\/#_ftn2\"><sup>[1]<\/sup><\/a>\u00a0\u2013 a fim de promover, da forma mais autorit\u00e1ria, e efetiva, as reformas que o grande capital buscava em um contexto global de aprofundamentos das disputas econ\u00f4micas, geopol\u00edticas e militares, cada dia mais acirradas e violentas. E mesmo que alguns desses personagens j\u00e1 n\u00e3o ocupem mais a cadeira presidencial, e que outros se encontrem enfraquecidos, o fato \u00e9 que s\u00e3o express\u00f5es claras da obsolesc\u00eancia da pol\u00edtica institucional, assim como do apelo a solu\u00e7\u00f5es de vi\u00e9s autorit\u00e1rio que t\u00eam sido apresentadas nos \u00faltimos anos.<\/p>\n<p>Ainda que, por vezes, fora do poder, como no caso de Donald Trump, mas especialmente ainda no seu controle, a alternativa neofascista atual permanecer\u00e1 como um fator central nas defini\u00e7\u00f5es dos rumos da democracia no mundo. Entend\u00ea-la e resistir a ela s\u00e3o tarefas centrais que teremos que cumprir nos pr\u00f3ximos anos.<\/p>\n<p><strong>Nota<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/boletimluanova.org\/o-canto-da-serie-do-neo-facismo\/#_ftnref2\">[1]<\/a>\u00a0<em>The Shock Doctrine: The Rise of Disaster Capitalism.<\/em>\u00a0New York, Picador, 2007.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>RAFAEL R. 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