{"id":17785,"date":"2022-04-27T12:01:25","date_gmt":"2022-04-27T15:01:25","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=17785"},"modified":"2022-04-24T10:33:58","modified_gmt":"2022-04-24T13:33:58","slug":"o-que-perpetua-a-iniquidade-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2022\/04\/27\/o-que-perpetua-a-iniquidade-brasileira\/","title":{"rendered":"O que perpetua a iniquidade brasileira?"},"content":{"rendered":"<p><strong>C\u00e9sar Locatelli &#8211;\u00a0<\/strong>Parece existir uma for\u00e7a, equipar\u00e1vel \u00e0 gravitacional, que faz a sociedade desigual sempre retornar ao seu curso secular ap\u00f3s fugazes diverg\u00eancias de seu padr\u00e3o. Tr\u00eas momentos da hist\u00f3ria brasileira marcam notavelmente essa breve sa\u00edda do rumo e r\u00e1pido retorno \u00e0 reprodu\u00e7\u00e3o da iniquidade.<\/p>\n<p>Ainda na primeira metade do s\u00e9culo XIX, aos africanos libertos, que exerciam a profiss\u00e3o de pedreiros, alfaiates, sapateiros etc., foi institu\u00eddo um imposto exorbitante, do qual seriam isentos aqueles que se retirassem do Brasil. A antrop\u00f3loga e historiadora Manuela Carneiro da Cunha estima que cerca de 8 mil libertos deixaram o pa\u00eds rumo a \u00c1frica. \u201cO Brasil renunciava \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de uma classe m\u00e9dia negra\u201d, revela M\u00e1rio Theodoro em\u00a0<em>A Sociedade Desigual<\/em>. A Lei de Terras (1850) e os est\u00edmulos dados aos imigrantes europeus viriam a agir no mesmo sentido.<\/p>\n<p>\u201cAssim, ao final do s\u00e9culo XIX, fosse no campo ou na cidade, os negros no Brasil pareciam condenados \u00e0 pobreza e \u00e0 mis\u00e9ria. Quando houve a possibilidade de alguma ascens\u00e3o social, como ocorrido na primeira metade daquele s\u00e9culo, ela foi refreada, inclusive com san\u00e7\u00f5es de ordem econ\u00f4mica e jur\u00eddica por parte do poder p\u00fablico e incentivo para deixar o pa\u00eds. Progressivamente alijados dos setores mais din\u00e2micos da economia \u2013 a produ\u00e7\u00e3o exportadora, a ind\u00fastria e os ramos mais pr\u00f3speros do com\u00e9rcio \u2013, os negros ficaram restritos aos servi\u00e7os pessoais e subalternos. A pobreza urbana no Brasil do s\u00e9culo XIX \u00e9 negra.\u201d (p. 117)<\/p>\n<p>O segundo momento, que continha todos os ingredientes que foram necess\u00e1rios e suficientes para, em outros pa\u00edses, reduzir-se a desigualdade e a pobreza, foi o longo per\u00edodo de industrializa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, entre 1930 e 1980. O crescimento per capita m\u00e9dio do produto interno brasileiro foi de \u201cimpressionantes 3,86% anuais\u201d, por 50 anos!<\/p>\n<p>Mais uma vez os negros foram exclu\u00eddos. Explica Theodoro que \u201ca concentra\u00e7\u00e3o de renda observada no per\u00edodo foi refor\u00e7ada a partir da clivagem racial. A popula\u00e7\u00e3o negra n\u00e3o participou diretamente dessa festa, n\u00e3o logrou compartilhar plenamente os frutos desse que foi um dos per\u00edodos de maior crescimento de um pa\u00eds na hist\u00f3ria recente. Crescer gerando pobreza, mis\u00e9ria e desigualdade: esse foi o preceito do per\u00edodo de maior prosperidade vivenciado pelo Brasil. Um \u2018milagre\u2019 para poucos\u201d (p. 138).<\/p>\n<p>Entre 2004 e 2014, os governos Lula e Dilma promoveram a retirada de 30 milh\u00f5es de pessoas da pobreza. Al\u00e9m do crescimento econ\u00f4mico do per\u00edodo, concorreu para essa redu\u00e7\u00e3o in\u00e9dita da pobreza na hist\u00f3ria brasileira o processo sustentado de redistribui\u00e7\u00e3o de renda, pela via de aumentos reais do sal\u00e1rio m\u00ednimo, do Bolsa Fam\u00edlia e da Previd\u00eancia Social.<\/p>\n<p>Os benef\u00edcios impactaram brancos e negros, entretanto, n\u00e3o o fizeram de modo homog\u00eaneo: \u201cApesar da benfazeja evolu\u00e7\u00e3o de redu\u00e7\u00e3o da pobreza, houve um aumento da participa\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o negra no grupo que se manteve em situa\u00e7\u00e3o de pobreza: o percentual de negros entre os 10% mais pobres subiu de 73,2% em 2004 para 76% em 2014\u201d (p. 154).<\/p>\n<p>A despeito dessa \u201canomalia\u201d, uma d\u00e9cada de desvio de rota, a sociedade desigual volta aos trilhos: \u201cdesde 2016 adotou-se no pa\u00eds uma estrat\u00e9gia de pol\u00edtica econ\u00f4mica e fiscal que terminou por fragilizar os direitos do trabalho e enfraquecer e reduzir a base financeira, contributiva e or\u00e7ament\u00e1ria da seguridade social brasileira. Os impactos nocivos aos trabalhadores s\u00e3o evidentes, bem como as consequ\u00eancias para o fortalecimento da informalidade e da precariedade do trabalho\u201d. (p. 164)<\/p>\n<p>Por mais que a sociedade desigual se perpetue como se estivesse sujeita a uma for\u00e7a gravitacional, que sempre a devolve para as condi\u00e7\u00f5es de reproduzir as desigualdades, \u00e9 evidente que as for\u00e7as que a tornam imut\u00e1vel s\u00e3o for\u00e7as sociais que nada t\u00eam de natural. Que for\u00e7a poderosa seria essa, ent\u00e3o? M\u00e1rio Theodoro responde logo na introdu\u00e7\u00e3o de seu livro:<\/p>\n<p>\u201cA pobreza, a mis\u00e9ria e, principalmente, a desigualdade s\u00e3o fen\u00f4menos que remontam \u00e0 pr\u00f3pria cria\u00e7\u00e3o do Brasil, e t\u00eam ra\u00edzes na quest\u00e3o racial. Os quase quatro s\u00e9culos de escravid\u00e3o forjaram as condi\u00e7\u00f5es para o aparecimento, o fortalecimento e o consequente protagonismo do racismo como fator de organiza\u00e7\u00e3o e estrutura\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es sociais no pa\u00eds. Desse modo, o racismo consolidou-se como a ideologia que diferencia e hierarquiza as pessoas em uma escala de valores que tem como polo positivo o biotipo branco caucasiano e como polo negativo o biotipo negro africano. \u00c9 sob essa valora\u00e7\u00e3o que a sociedade brasileira se organiza e opera \u2014 e \u00e9 nela que se baseia o reconhecimento social do indiv\u00edduo, historicamente constru\u00eddo e que explica a perpetua\u00e7\u00e3o da desigualdade.\u201d (p. 15)<\/p>\n<p>Em outras palavras, est\u00e1 marcado a ferro nos valores da sociedade brasileira que o que \u00e9 branco \u00e9 superior. Ao olhar para a desigualdade, a partir dessa perspectiva superior, parece \u201cnatural\u201d que uma parte da sociedade tenha mais direitos que a outra. \u201cO racismo assume, desse modo, papel central como elemento organizador da sociedade desigual\u201d, complementa Theodoro. Desse modo, o que perpetua a sociedade desigual \u00e9 o racismo e seus desdobramentos.<\/p>\n<p>O profundo trabalho do autor \u00e9 testar suas premissas, de que a naturaliza\u00e7\u00e3o da desigualdade \u00e9 funcional e que os grupos hegem\u00f4nicos t\u00eam interesses na exist\u00eancia e na perpetua\u00e7\u00e3o do racismo, contra a hist\u00f3ria do pa\u00eds desde sua constitui\u00e7\u00e3o escravagista at\u00e9 os dias atuais.<\/p>\n<p>Seu estudo caminha atrav\u00e9s do mercado de trabalho brasileiro (cap\u00edtulo 2), com abundantes evid\u00eancias das limita\u00e7\u00f5es da for\u00e7a de trabalho negra \u00e0 informalidade e ao subemprego. Prossegue com os sistemas de educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade (cap\u00edtulo 3), que atende privilegiadamente as classes com mais recursos, ou seja, segmentos majoritariamente brancos. A an\u00e1lise da ocupa\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os urbanos e rurais (cap\u00edtulo 4) constata a a expuls\u00e3o dos trabalhadores negros do campo e a semiaparta\u00e7\u00e3o das cidades, onde \u00e0 popula\u00e7\u00e3o negra restam as favelas, os mocambos e as periferias.<\/p>\n<p>A viol\u00eancia como pr\u00e1tica de Estado (cap\u00edtulo 5), com amplas evid\u00eancias de que o racismo marca as decis\u00f5es do sistema de justi\u00e7a e seus operadores, \u00e9 entendida como o elemento aglutinador da sociedade. O aprofundamento anal\u00edtico da sociedade desigual (cap\u00edtulo 6) \u00e9 a tentativa de, ao juntar as partes, desvendar a raz\u00e3o de sua perenidade.<\/p>\n<p>Um de suas constata\u00e7\u00f5es fundamentais \u00e9 que:<\/p>\n<p>\u201cEm resumo, o racismo se desdobra em discrimina\u00e7\u00e3o e preconceito no cotidiano, nas rela\u00e7\u00f5es pessoais, no trabalho, nas escolas, nas reparti\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, nos hospitais e postos de sa\u00fade, nos bares e nas esquinas e o combust\u00edvel para esses comportamentos \u00e9 a vig\u00eancia em n\u00edvel macro de outras facetas desse mesmo racismo: a branquitude, que legitima a ideia de superioridade e de poder do branco; o biopoder, que desincumbe o Estado de qualquer obriga\u00e7\u00e3o ou responsabilidade social para com a popula\u00e7\u00e3o negra; e por fim, e mais diretamente letal, a necropol\u00edtica, que faz do Estado o executor de uma pol\u00edtica de morte e de genoc\u00eddio.\u201d (p. 335)<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: O que perpetua a iniquidade brasileira? &#8211; Outras Palavras &#8211; https:\/\/outraspalavras.net\/desigualdades-mundo\/o-que-perpetua-a-iniquidade-brasileira\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>C\u00e9sar Locatelli &#8211;\u00a0Parece existir uma for\u00e7a, equipar\u00e1vel \u00e0 gravitacional, que faz a sociedade desigual sempre retornar ao seu curso secular ap\u00f3s fugazes diverg\u00eancias de seu padr\u00e3o. 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