{"id":17753,"date":"2022-04-17T12:28:12","date_gmt":"2022-04-17T15:28:12","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=17753"},"modified":"2022-04-14T10:31:18","modified_gmt":"2022-04-14T13:31:18","slug":"laval-uma-nova-guerra-civil-mundial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2022\/04\/17\/laval-uma-nova-guerra-civil-mundial\/","title":{"rendered":"Laval: Uma nova guerra civil mundial?"},"content":{"rendered":"<p><strong>Christian Laval<\/strong> &#8211; <span style=\"font-family: Lato, sans-serif;\">\u201cO novo \u00e9 a manifesta\u00e7\u00e3o cada vez mais aberta e assumida do car\u00e1ter violento e autorit\u00e1rio do neoliberalismo, em qualquer uma de suas variantes hist\u00f3ricas e nacionais. O que vemos agora, em plena luz, \u00e9 uma nova guerra civil mundial\u201d, escreve Christian Laval, professor em\u00e9rito de Sociologia na Universit\u00e9 Paris Nanterre.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Lato, sans-serif;\">\u201cEm vez de relegitimar e restaurar as formas da democracia cl\u00e1ssica, o que significaria ao menos moderar as l\u00f3gicas neoliberais e come\u00e7ar a reduzir as desigualdades atacando as grandes fortunas e as poderosas multinacionais, os governos preferem empregar m\u00e9todos autorit\u00e1rios e violentos que permitem n\u00e3o fazer concess\u00f5es que sejam muito caras aos mais ricos, mesmo que exacerbem a crise da democracia liberal\u201d, avalia.<\/span><\/p>\n<p>Laval exp\u00f5e alguns dos argumentos desenvolvidos no livro coletivo (escrito junto com Pierre Dardot, Haud Gu\u00e9guen e Pierre Sauv\u00eatre) Le choix de la guerre civile: Une autre histoire du n\u00e9olib\u00e9ralisme, Lux Editions, Montreal, 2021, apresentado no curso Direitas radicais e neoliberalismo autorit\u00e1rio, organizado pela Universidade do Pa\u00eds Basco, com as Funda\u00e7\u00f5es Betiko e Viento Sur e o Centro de Pesquisa em Multilinguismo, discurso e comunica\u00e7\u00e3o (MIRCo).<\/p>\n<p><strong>Eis o artigo.<\/strong><\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o mundial se caracteriza por uma grande crise das formas da democracia liberal cl\u00e1ssica. Esta crise se manifestou, primeiro, por poderosos movimentos que reivindicaram uma verdadeira democracia entre 2010 e 2016. Depois, manifestou-se em um sentido completamente diferente, com a ascens\u00e3o reativa de for\u00e7as da extrema direita e o surgimento de governos com aspectos abertamente ditatoriais, nacionalistas, violentos, racistas, sexistas e, em alguns casos, fascistizantes. Trump, Salvini, Bolsonaro, Orb\u00e1n e Erdogan s\u00e3o algumas das figuras emblem\u00e1ticas que se somam na longa lista de d\u00e9spotas e tiranos que fazem estragos em todos os continentes.<\/p>\n<p>Ao desestimular as reivindica\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas, sociais e ecol\u00f3gicas que entram em contradi\u00e7\u00e3o com o projeto neoliberal, estes dirigentes s\u00f3 conseguiram encontrar base eleitoral enaltecendo os valores morais e religiosos tradicionais e o nacionalismo dos grupos sociais mais conservadores. Estes governos n\u00e3o est\u00e3o a\u00ed para administrar uma situa\u00e7\u00e3o, acomodar interesses diferentes, representar a popula\u00e7\u00e3o. Realizam uma guerra contra inimigos. Esta postura guerreira parece nova, ao menos para aqueles que tinham f\u00e9 nas democracias de tipo cl\u00e1ssica.<\/p>\n<p>Os liberais norte-americanos ainda permanecem sob o choque da invas\u00e3o do Capit\u00f3lio pelos fanatizados partid\u00e1rios de Trump, no dia 6 de janeiro de 2021. Como foi poss\u00edvel semelhante viola\u00e7\u00e3o da democracia?, perguntam-se. Para compreender o fato \u00e9 preciso adotar um ponto de vista estrat\u00e9gico, o de governos que est\u00e3o comprometidos em uma guerra total: social, \u00e9 claro, porque se busca enfraquecer os direitos sociais da popula\u00e7\u00e3o; \u00e9tnica, porque pretende excluir os estrangeiros de qualquer possibilidade de acolhida e de coexist\u00eancia; pol\u00edtica e jur\u00eddica, utilizando novos meios de repress\u00e3o e de criminaliza\u00e7\u00e3o da esquerda e dos movimentos sociais; cultural e moral, ao atacar os direitos individuais e as evolu\u00e7\u00f5es culturais das sociedades.<\/p>\n<p>Esta sequ\u00eancia hist\u00f3rica, cujo apogeu foi, de momento, o dia 6 de janeiro, n\u00e3o cai do c\u00e9u. H\u00e1 v\u00e1rias d\u00e9cadas, diversos sinais permitiam pressentir tal momento pol\u00edtico, efeito de uma combina\u00e7\u00e3o de diferentes fatores, embora todos ligados ao colapso da cren\u00e7a na representa\u00e7\u00e3o e legitimidade das elites e da classe pol\u00edtica. Para prev\u00ea-lo, bastava estar atento ao sentimento de exclus\u00e3o e de marginaliza\u00e7\u00e3o de uma grande parte da popula\u00e7\u00e3o, a ascens\u00e3o de uma c\u00f3lera antissistema, e o \u00f3dio crescente \u00e0s minorias, estrangeiros e inimigos internos.<\/p>\n<p>Os comentaristas se contentam em estigmatizar esta rea\u00e7\u00e3o complexa e contradit\u00f3ria, classificando-a como populista. Com isso, n\u00e3o explicam nada, embora considerem necess\u00e1rio preconizar a continuidade da abertura, da modernidade, do multilateralismo e, na Europa, a continua\u00e7\u00e3o da constru\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Europeia.<\/p>\n<p>Este momento de crise n\u00e3o tem uma causa \u00fanica. No entanto, parece que \u00e9 preciso levar a s\u00e9rio uma delas: a implementa\u00e7\u00e3o, h\u00e1 v\u00e1rias d\u00e9cadas, de um determinado tipo de governo que consegue se afastar do controle dos cidad\u00e3os para impor pela for\u00e7a transforma\u00e7\u00f5es profundas das sociedades, das institui\u00e7\u00f5es e das subjetividades. Como n\u00e3o ver uma rela\u00e7\u00e3o entre esta chamada rea\u00e7\u00e3o populista e o neoliberalismo, que fez nascer uma nova sociedade organizada como um mercado?<\/p>\n<p>Na verdade, esta rea\u00e7\u00e3o, longe de colocar fim ao per\u00edodo neoliberal, constitui uma nova fase e uma nova forma do mesmo. O que estamos vendo hoje \u00e9 um neoliberalismo cada vez mais violento, que se apoia nas c\u00f3leras e frustra\u00e7\u00f5es populares para refor\u00e7ar ainda mais o imp\u00e9rio do poder sobre a popula\u00e7\u00e3o e faz\u00ea-la aceitar retrocessos sociais imposs\u00edveis de contemplar sem que ao menos uma parte consinta.<\/p>\n<p>\u00c9 um novo neoliberalismo? N\u00e3o exatamente. Trata-se muito mais, como acaba de ser dito, de uma fase hist\u00f3rica em que, diante de m\u00faltiplas contesta\u00e7\u00f5es e tem\u00edveis prazos impostos pela crise clim\u00e1tica, para garantir a continuidade de seu projeto neoliberal, os governos s\u00f3 se fortalecem com as paix\u00f5es populares dirigidas contra minorias, estrangeiros, intelectuais.<\/p>\n<p>Com isso, obt\u00eam certo apoio popular, deslocando os desafios pol\u00edticos do campo da injusti\u00e7a social para o campo dos valores da na\u00e7\u00e3o e a religi\u00e3o, desviando os medos sociais e as indigna\u00e7\u00f5es morais para um conjunto de objetivos considerados como tantos outros desvios e amea\u00e7as: imigrantes, negros, mulheres, homossexuais, sindicalistas, militantes, intelectuais, e contra todas as for\u00e7as sociais, corpos profissionais e institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas que se op\u00f5em a esta domestica\u00e7\u00e3o da sociedade.<\/p>\n<p>O caso do Brasil \u00e9 muito instrutivo deste ponto de vista. Naquele pa\u00eds, n\u00e3o existe nenhuma esfera da vida cotidiana e nenhuma institui\u00e7\u00e3o que n\u00e3o tenham sido afetadas por um retrocesso dos direitos humanos, liberdade de pensamento e igualdade. \u00c9 o que demonstram os repetidos ataques contra o meio ambiente, o mercado de trabalho, o sistema de aposentadorias, a universalidade da escola p\u00fablica, os direitos dos povos aut\u00f3ctones.<\/p>\n<p>E n\u00e3o se deve esquecer que para esses neoliberais abertamente autorit\u00e1rios, como o bolsonarismo, o inimigo \u00e9 acima de tudo a esquerda e o socialismo. Inclusive, \u00e9 poss\u00edvel dizer que se trata de uma guerra civil cont\u00ednua contra a igualdade em nome da liberdade. \u00c9 uma das principais faces do neoliberalismo atual, visto pelo \u00e2ngulo da estrat\u00e9gia.<\/p>\n<p><strong>Um novo fascismo?<\/strong><\/p>\n<p>Costuma-se falar de um novo fascismo. Embora seja verdade que o \u00f3dio e a puls\u00e3o criminosa est\u00e3o no centro da expans\u00e3o das formas ditatoriais de poder, como demonstra mais uma vez o caso atual do Brasil, e tamb\u00e9m a pr\u00e1tica e a ret\u00f3rica de Trump, existem importantes diferen\u00e7as em rela\u00e7\u00e3o ao fascismo cl\u00e1ssico. Ignor\u00e1-las levaria ao erro de diagn\u00f3stico. Diferente dos anos 1930, que viram a emerg\u00eancia dos fascismos europeus como rea\u00e7\u00e3o diante do deixar fazer do liberalismo econ\u00f4mico e suas consequ\u00eancias, os neoliberalismos nacionalistas, autorit\u00e1rios e xen\u00f3fobos de hoje em dia n\u00e3o pretendem reenquadrar o mercado no Estado total, nem mesmo, mais simplesmente, enquadrar os mercados, mas pretendem, ao contr\u00e1rio, acelerar a extens\u00e3o da racionalidade capitalista \u00e0 custa de aumentar ainda mais as desigualdades econ\u00f4micas, consequ\u00eancia inevit\u00e1vel do livre jogo da concorr\u00eancia e das privatiza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Nesse sentido, estes governos n\u00e3o viram as costas para o neoliberalismo, como alguns afirmam de forma imprudente, mas desnudam a l\u00f3gica intrinsecamente autorit\u00e1ria e violenta do pr\u00f3prio neoliberalismo. Embora o Brasil seja o espelho crescente de uma guerra total contra as institui\u00e7\u00f5es da sociedade que n\u00e3o se dobram ao modelo neoliberal, seria err\u00f4neo pensar que esta viol\u00eancia estatal se circunscreve aos chamados pa\u00edses perif\u00e9ricos.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m no pr\u00f3prio centro dos pa\u00edses capitalistas mais desenvolvidos se exerce esta viol\u00eancia, ainda que sob formas diferentes. As viol\u00eancias policiais com as quais o governo liberal de Macron queria impor medidas impopulares, em 2018, ou o envio de tropas federais por Trump contra os manifestantes de Portland e de Chicago e a forma posterior de acender o fogo questionando o resultado das elei\u00e7\u00f5es presidenciais que eram desfavor\u00e1veis a ele, s\u00e3o exemplos recentes.<\/p>\n<p>Evidentemente, essas formas de viol\u00eancia saem do marco pol\u00edtico liberal cl\u00e1ssico, baseado desde o Iluminismo nas liberdades individuais e coletivas, no respeito ao sufr\u00e1gio universal, na pluralidade de opini\u00f5es, na defesa do conhecimento racional e no respeito \u00e0 verdade. Contudo, n\u00e3o nos deixemos confundir pela idealiza\u00e7\u00e3o do modelo pol\u00edtico cl\u00e1ssico nas democracias ocidentais.<\/p>\n<p>Se o neoliberalismo p\u00f4de se impor nos Estados Unidos e na Europa por governos legalmente eleitos (Giscard, Mitterrand, Thatcher, Blair, Reagan, Clinton, Schmidt, Kohl), n\u00e3o se privou, e h\u00e1 muito tempo, do uso da for\u00e7a legal, sobretudo policial e judicial, e de todos os tipos de medidas de coa\u00e7\u00e3o regulat\u00f3rias, administrativas e disciplinares \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o dos Estados. Se estes v\u00eam refor\u00e7ando h\u00e1 muito tempo a vigil\u00e2ncia dos indiv\u00edduos em nome da luta antiterrorista, as pot\u00eancias capitalistas privadas n\u00e3o ficam para tr\u00e1s, impondo, sobretudo aos assalariados, uma gest\u00e3o baseada no controle individual que em parte destruiu a capacidade de defesa coletiva na esfera do trabalho. Mas, ent\u00e3o, por que \u00e9 poss\u00edvel falar em uma nova fase do neoliberalismo?<\/p>\n<p><strong>A confiss\u00e3o da viol\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p>O novo \u00e9 a manifesta\u00e7\u00e3o cada vez mais aberta e assumida do car\u00e1ter violento e autorit\u00e1rio do neoliberalismo, em qualquer uma de suas variantes hist\u00f3ricas e nacionais. O que vemos agora, em plena luz, \u00e9 uma nova guerra civil mundial. A express\u00e3o guerra civil mundial foi utilizada, desde a sua inven\u00e7\u00e3o por Carl Schmitt, em v\u00e1rios sentidos diferentes. Para ele, desde meados dos anos 1940, a Weltb\u00fcrgerkrieg se refere ao final das guerras interestatais pr\u00f3prias do mundo westfaliano e ao nascimento de guerras assim\u00e9tricas, realizadas em nome de um ideal de justi\u00e7a que permite \u00e0s superpot\u00eancias exercer um poder de pol\u00edcia no marco de um direito internacional renovado e exercido com uma vontade mission\u00e1ria.<\/p>\n<p>Para Arendt, a express\u00e3o se refere muito mais \u00e0 guerra travada pelos regimes totalit\u00e1rios \u2013 nazismo e stalinismo \u2013 que, apesar de importantes semelhan\u00e7as, n\u00e3o puderam evitar o enfrentamento direto por causa de sua vontade expansionista. Essa forma de an\u00e1lise foi retomada por Ernst Nolte, em sua obra\u00a0<em>La guerra civil europea<\/em>, 1917-1945. Outros autores assumiram esta express\u00e3o para falar do confronto internacional entre as for\u00e7as do progresso, surgidas do Iluminismo, e o fascismo. Foi o caso de Eric Hobsbawm, em\u00a0<em>A era dos extremos: o breve s\u00e9culo XX<\/em>.<\/p>\n<p>Evidentemente, utilizamos a express\u00e3o em um sentido muito diferente, por isso a import\u00e2ncia do adjetivo nova. A nova guerra civil mundial n\u00e3o op\u00f5e diretamente uma ordem global de tipo imperial, mesmo que seja dirigida por uma pot\u00eancia hegem\u00f4nica, \u00e0 popula\u00e7\u00e3o, como tamb\u00e9m n\u00e3o op\u00f5e dois regimes pol\u00edticos ou dois sistemas hegem\u00f4nicos entre si. Op\u00f5e Estados, cujos meios de comunica\u00e7\u00e3o est\u00e3o monopolizados por oligarquias agrupadas, a amplos setores de suas pr\u00f3prias popula\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Mas qual \u00e9 o objeto desta guerra? Oficialmente, trata-se de se opor a qualquer forma de intrus\u00e3o de um inimigo exterior e de combater todos os seus aliados que, no interior, minam a unidade nacional, a homogeneidade do povo, a grandeza e a identidade da na\u00e7\u00e3o. Pode-se dizer que, para os defensores de um capitalismo sem fronteiras, \u00e9 paradoxal inflamar as paix\u00f5es com um nacionalismo exacerbado e com um racismo pouco velado, mas, na \u00faltima d\u00e9cada, j\u00e1 se provou que a divis\u00e3o do povo e a inflex\u00e3o de setores inteiros da popula\u00e7\u00e3o contra seus pr\u00f3prios interesses significaram enormes \u00eaxitos pol\u00edticos.<\/p>\n<p>Nesse sentido, o Brexit \u00e9 uma obra-prima do g\u00eanero. A Fran\u00e7a oferece um exemplo muito interessante de uma manobra pol\u00edtica bastante surpreendente. Desde o outono de 2020, enquanto se esfor\u00e7a para conter a epidemia e multiplica seus erros de gest\u00e3o, o governo se lan\u00e7ou em uma ampla campanha de caluniosos ataques contra as universidades, em especial contra as ci\u00eancias sociais, acusadas de estar \u201cpervertida pelo islamo-esquerdismo\u201d. A palavra se refere a um puro fantasma, constru\u00eddo seguindo o modelo do judaico-bolchevismo dos fascistas e os nazistas de antes da guerra.<\/p>\n<p>O ministro da Educa\u00e7\u00e3o nacional, assim como o do Ensino Superior e o do Interior (que dirige a pol\u00edcia), durante meses, foram se revezando para fazer a opini\u00e3o p\u00fablica acreditar que o terrorismo encontrava apoio no meio universit\u00e1rio, que estaria contaminado pelos estudos p\u00f3s-coloniais, decoloniais e outras teorias do g\u00eanero. \u00c9 assombroso que tal quantidade de ignor\u00e2ncias e de cal\u00fanias tenham sido emitidas pelos representantes de um governo que se diz liberal. Em algum momento, Macron n\u00e3o se apresentou como o anti-Orb\u00e1n na Europa?<\/p>\n<p>Deve-se concluir: esse discurso de \u00f3dio de tipo fascistoide nada mais \u00e9 do que uma vers\u00e3o local de uma l\u00f3gica guerreira mais geral que consiste em designar, neste caso, no corpo de universit\u00e1rios e pesquisadores, o inimigo a ser esmagado, e que pode encontrar outros alvos em outros lugares ou mais tarde.<\/p>\n<p>A palavra guerra n\u00e3o pode ser tomada, aqui, como uma simples met\u00e1fora. A luta estrat\u00e9gica pela domina\u00e7\u00e3o \u00e0 qual se dedicam os agentes pol\u00edticos, econ\u00f4micos e intelectuais do neoliberalismo, \u00e0s vezes com o pretexto de lutar contra o terrorismo ou o islamismo radical, pretende consolidar o poder das oligarquias dominantes por outros meios distintos ao da confronta\u00e7\u00e3o pac\u00edfica de opini\u00f5es.<\/p>\n<p>Para dizer de outra maneira, em vez de relegitimar e restaurar as formas da democracia cl\u00e1ssica, o que significaria ao menos moderar as l\u00f3gicas neoliberais e come\u00e7ar a reduzir as desigualdades atacando as grandes fortunas e as poderosas multinacionais, os governos preferem empregar m\u00e9todos autorit\u00e1rios e violentos que permitem n\u00e3o fazer concess\u00f5es que sejam muito caras aos mais ricos, mesmo que exacerbem a crise da democracia liberal. Ellen M. Wood chama isso de guerra sem fim (infinite war): a guerra neoliberal n\u00e3o tem objetivos limitados, como seria a destrui\u00e7\u00e3o de um ex\u00e9rcito inimigo ou a conquista de um territ\u00f3rio, mas \u00e9 marcada pelo objetivo ilimitado da domina\u00e7\u00e3o do Estado sobre a popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A guerra em quest\u00e3o requer todos os meios pelos quais o Estado afirma seu dom\u00ednio sobre a popula\u00e7\u00e3o, come\u00e7ando, para al\u00e9m do Ex\u00e9rcito, pela Pol\u00edcia e a Justi\u00e7a e, claro, pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o de massas e as tecnologias de vigil\u00e2ncia, o que sup\u00f5e a estreita subordina\u00e7\u00e3o, ou ao menos a neutraliza\u00e7\u00e3o dos agentes do Estado para que cumpram da melhor forma poss\u00edvel sua fun\u00e7\u00e3o de domina\u00e7\u00e3o. A situa\u00e7\u00e3o presente nos confirma o que dizia Foucault quando, ao contr\u00e1rio de Clausewitz, afirmava em seu curso,\u00a0<em>A sociedade punitiva<\/em>, que \u201ca pol\u00edtica \u00e9 a continua\u00e7\u00e3o da guerra por outros meios\u201d (Foucault, 2013: 29).<\/p>\n<p>Maximizar a divis\u00e3o das for\u00e7as populares por meio da inflama\u00e7\u00e3o nacionalista e racista, mobilizar uma parte da popula\u00e7\u00e3o contra os intelectuais irrespons\u00e1veis e perigosos e, por fim, encontrar um inimigo a combater n\u00e3o \u00e9 um fim em si. N\u00e3o h\u00e1 nada de gratuito em designar um inimigo, se a pol\u00edtica tem alguma racionalidade. Mas qual \u00e9 o inimigo \u00faltimo? Tem como nome gen\u00e9rico a igualdade e aqueles que a almejam.<\/p>\n<h3><strong>O neoliberalismo como estrat\u00e9gia pol\u00edtica contra a igualdade<\/strong><\/h3>\n<p>\u00c9 claro, n\u00e3o existe uma \u00fanica forma de neoliberalismo que seria id\u00eantico em todas as partes. A ordem econ\u00f4mica mundial \u00e9 constru\u00edda se apoiando em estrat\u00e9gias nacionais diferenciadas e singulares em cada ocasi\u00e3o. Esta plasticidade e este car\u00e1ter proteiforme do neoliberalismo devem nos prevenir contra qualquer tenta\u00e7\u00e3o essencialista, embora n\u00e3o por causa disso devemos deixar de destacar a l\u00f3gica antidemocr\u00e1tica inerente ao neoliberalismo desde a sua forma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O neoliberalismo autorit\u00e1rio n\u00e3o se op\u00f5e a um neoliberalismo que antes n\u00e3o fosse. O neoliberalismo assume uma l\u00f3gica de enfrentamento violento com todas as for\u00e7as e as formas de vida que n\u00e3o cabem no marco de um mundo hier\u00e1rquico e desigual baseado na concorr\u00eancia. E, para se realizar, este projeto neoliberal que pretende a constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade de mercado pura requer a viol\u00eancia do Estado.<\/p>\n<p>Falar em nova guerra civil mundial \u00e9, portanto, reinterpretar o neoliberalismo pelo \u00e2ngulo de sua viol\u00eancia intr\u00ednseca e, sobretudo, questionar a maneira acad\u00eamica de compreend\u00ea-lo como conjunto de doutrinas ou como posi\u00e7\u00f5es puramente ideol\u00f3gicas. \u00c9 aceitar o campo em que se desenvolve, o da luta pol\u00edtica pela domina\u00e7\u00e3o, e entend\u00ea-la como uma estrat\u00e9gia pol\u00edtica de transforma\u00e7\u00e3o das sociedades em ordens concorrenciais que sup\u00f5em o enfraquecimento ou a elimina\u00e7\u00e3o das for\u00e7as de oposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O termo neoliberalismo \u00e9 objeto de um uso inflacionista que, hoje em dia, provoca certa confus\u00e3o. O vi\u00e9s universit\u00e1rio, que Bourdieu chamaria de escol\u00e1stico, consiste em n\u00e3o ver no neoliberalismo mais do que uma corrente intelectual com fronteiras tamb\u00e9m problem\u00e1ticas, em que o estudioso se dedica a discutir sua unidade e a destacar sua diversidade, \u00e0s vezes at\u00e9 negando sua exist\u00eancia em nome do n\u00famero e diferen\u00e7a dessas variantes.<\/p>\n<p>\u00c9 muito f\u00e1cil constatar, e isso n\u00e3o deixou de ser feito doutamente, que desde os anos 1920 e 1930 existem diverg\u00eancias epistemol\u00f3gicas e ontol\u00f3gicas entre as diferentes correntes que hoje s\u00e3o chamadas, retroativamente, de neoliberais. Embora o conhecimento direto dos autores seja indispens\u00e1vel, limitar-se \u00e0 hist\u00f3ria das ideias \u00e9 ignorar que o neoliberalismo, na hist\u00f3ria pol\u00edtica efetiva, n\u00e3o \u00e9 apenas um conjunto de teorias, uma colet\u00e2nea de obras, uma s\u00e9rie de autores, mas um projeto pol\u00edtico anticoletivista efetivado por te\u00f3ricos e ensa\u00edstas que tamb\u00e9m s\u00e3o empreendedores pol\u00edticos.<\/p>\n<p>Durante d\u00e9cadas, n\u00e3o pararam de buscar apoios e aliados entre as elites pol\u00edticas e econ\u00f4micas, constru\u00edram redes, criaram associa\u00e7\u00f5es e\u00a0<em>think tanks<\/em>\u00a0para ganhar influ\u00eancia, desenvolveram uma verdadeira vis\u00e3o do mundo e at\u00e9 mesmo uma utopia radical, que permitiram o triunfo da governamentabilidade neoliberal, em quarenta anos de incans\u00e1veis esfor\u00e7os. O neoliberalismo, portanto, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 Hayek, ou R\u00f6pke, ou Lippmann, \u00e9 uma vontade pol\u00edtica comum de instaurar uma sociedade livre, baseada principalmente na concorr\u00eancia, em um marco determinado de leis e princ\u00edpios expl\u00edcitos, protegido pelos Estados soberanos, encontrando na moral, na tradi\u00e7\u00e3o e na religi\u00e3o ancoragens para uma estrat\u00e9gia de mudan\u00e7a radical da sociedade.<\/p>\n<p>Em outras palavras, o neoliberalismo, como o socialismo, como o fascismo, deve ser compreendido como uma luta estrat\u00e9gica dirigida contra outros projetos pol\u00edticos qualificados pelos neoliberais, globalmente e sem muitas nuances, como coletivistas, como o objetivo de impor \u00e0s sociedades certas normas de funcionamento de conjunto, sendo a concorr\u00eancia a principal delas para todos os neoliberais, j\u00e1 que \u00e9 a \u00fanica que assegura a soberania do indiv\u00edduo-consumidor.<\/p>\n<p>Somente esta dimens\u00e3o estrat\u00e9gica e conflituosa permite compreender tanto as condi\u00e7\u00f5es de surgimento como a sua continuidade no tempo e as consequ\u00eancias para o conjunto da sociedade. Sem esta defini\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do neoliberalismo, nos perdemos no imbr\u00f3glio das posi\u00e7\u00f5es doutrinais e na busca de pequenas diferen\u00e7as individuais, esquecendo o principal: o projeto unificador de uma empresa pol\u00edtica, ao mesmo tempo militante e governamental.<\/p>\n<p>Quando nos deslocamos do campo puramente te\u00f3rico ao dos preceitos pr\u00e1ticos e as raz\u00f5es para atuar, descobrimos uma grande conflu\u00eancia de todas estas diferentes correntes no objetivo pol\u00edtico perseguido, o que permite falar justamente de uma racionalidade pol\u00edtica do neoliberalismo perfeitamente identific\u00e1vel. Este foi o enfoque de Foucault, \u00e0s vezes mal compreendido por aqueles que o censuram por ter ignorado a heterogeneidade das escolas te\u00f3ricas do neoliberalismo. O que o unifica relativamente \u00e9 o objetivo pol\u00edtico de instaura\u00e7\u00e3o ou de restabelecimento de uma ordem de mercado ou de uma ordem de concorr\u00eancia, considerada n\u00e3o s\u00f3 como a fonte de toda prosperidade, mas como o fundamento da liberdade individual.<\/p>\n<p>Essa ordem pode ser concebida de forma diferente, seja como uma ordem espont\u00e2nea que reivindica ser confirmada e apoiada pelo marco jur\u00eddico (o neoliberalismo austro-americano de Hayek), bem como uma ordem social constru\u00edda por uma vontade normativa do legislador (o ordoliberalismo alem\u00e3o). Mas todo o cosmos neoliberal est\u00e1 convencido, antes de tudo, que \u00e9 necess\u00e1ria uma a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica para realizar e defender tal ordem social.<\/p>\n<p>Esta tamb\u00e9m foi a base do acordo formulado, pela primeira vez, durante o Col\u00f3quio Lippmann, de 1938, e em uma segunda com a funda\u00e7\u00e3o da Sociedade de Mont P\u00e8lerin, em 1947. Todos os grandes combates posteriores do neoliberalismo pol\u00edtico confirmam este acordo, e nenhum neoliberal deixar\u00e1 de denunciar o Estado de bem-estar e de lutar contra o comunismo [1].<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 preciso muita exegese para compreender como todos esses empreendedores pol\u00edticos interpretam o sentido de sua pr\u00f3pria a\u00e7\u00e3o. O dizem e o escrevem com todas as letras. Assim, R\u00f6pke: \u201cA humanidade se deixar\u00e1 levar pelo coletivismo, enquanto n\u00e3o tiver em vista outro objetivo palp\u00e1vel, dito de outra maneira, enquanto n\u00e3o tiver frente ao coletivismo um contraprograma que possa entusiasm\u00e1-la\u201d [2]. E se equivoca quem pense que existam ordoliberais mais sociais, mais moderados e mais razo\u00e1veis, que esperam do Estado servi\u00e7os indispens\u00e1veis, e neoliberais mais radicais, os austro-americanos, que querem eliminar completamente o Estado [3].<\/p>\n<p>Exceto alguns anarco-libert\u00e1rios que mant\u00eam a chama do foco ut\u00f3pico na vers\u00e3o radical de um Von Mises, a imensa maioria dos te\u00f3ricos do neoliberalismo que querem desempenhar um papel pol\u00edtico eficaz tem uma concep\u00e7\u00e3o positiva do Estado, ainda que muito diferente dos promotores do Estado social. Quer se chamem Rougier, Lippmann, Eucken, Hayek ou R\u00f6pke, todos concordam em fazer do Estado o guardi\u00e3o supremo das leis fundamentais do mercado, papel eminente que deve obrig\u00e1-lo a se aliviar das responsabilidades sociais que os coletivistas o fizeram suportar indevidamente desde o final do s\u00e9culo XIX.<\/p>\n<p><strong>O mercado acima de tudo<\/strong><\/p>\n<p>Os neoliberais t\u00eam a convic\u00e7\u00e3o de que o que est\u00e1 em jogo com a ordem de mercado \u00e9 muito mais do que uma decis\u00e3o de pol\u00edtica econ\u00f4mica, \u00e9 uma civiliza\u00e7\u00e3o inteira, baseada na liberdade e na responsabilidade individual do cidad\u00e3o-consumidor. E como a sociedade livre se baseia em seu fundamento, o Estado, com todas as suas prerrogativas soberanas, conserva um eminente papel a desempenhar, e faz disso o dever de utilizar os meios mais violentos e mais contr\u00e1rios aos direitos humanos, caso a situa\u00e7\u00e3o o exigir.<\/p>\n<p>O mercado competitivo \u00e9 uma esp\u00e9cie de imperativo categ\u00f3rico que permite legitimar as medidas mais extremas, inclusive o recurso \u00e0 ditadura militar se necess\u00e1rio, como ocorreu com o golpe de Estado no Chile, aplaudido pelas c\u00fapulas intelectuais do neoliberalismo mundial. Para dizer em uma linguagem um pouco envelhecida, mas que expressa claramente as coisas: o mercado \u00e9 a nova grande raz\u00e3o do Estado neoliberal. Este ponto fixo explica a plasticidade pol\u00edtica do neoliberalismo.<\/p>\n<p>Em algumas ocasi\u00f5es hist\u00f3ricas, o neoliberalismo parece se confundir com o advento ou o restabelecimento da democracia liberal, em outras circunst\u00e2ncias, quando a ordem de mercado parece amea\u00e7ada, conjuga-se com as formas pol\u00edticas mais autorit\u00e1rias, chegando at\u00e9 a viola\u00e7\u00e3o dos direitos mais elementares dos indiv\u00edduos. E em muitos outros casos, a democracia parlamentar se v\u00ea pouco a pouco esvaziada de sua subst\u00e2ncia por um Estado policial que exerce vigil\u00e2ncia e malevol\u00eancia, diante de tudo o que possa amea\u00e7ar a sacralizada ordem da concorr\u00eancia. Assim \u00e9 poss\u00edvel considerar as circunst\u00e2ncias t\u00e3o distintas que atravessou o neoliberalismo, dos anos 1930 at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>A refunda\u00e7\u00e3o te\u00f3rica do liberalismo nos anos 1930 pretendia ser uma rea\u00e7\u00e3o \u00e0s formas ditatoriais do comunismo russo, do fascismo italiano e do nazismo alem\u00e3o, todas entendidas como a consequ\u00eancia l\u00f3gica do dirigismo e do nacionalismo econ\u00f4mico. O ordoliberalismo alem\u00e3o, de finais dos anos 1940, foi a principal fonte da refunda\u00e7\u00e3o de uma Alemanha ocidental desnazificada e democratizada e, mais tarde, nos anos 1950 e 1960, o principal fundamento doutrinal de um mercado comum europeu, contemplado como a base das institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas e da paz.<\/p>\n<p>Mais adiante ainda, entre os anos 1970 e in\u00edcios dos anos 1990, a l\u00f3gica neoliberal avan\u00e7ou \u00e0 medida que ocorreu o enfraquecimento e a posterior queda dos regimes comunistas, e acompanhou o progressivo desaparecimento das ditaduras militares anticomunistas, tanto na Europa como na Am\u00e9rica Latina. Gra\u00e7as ao mercado universal que estava sendo constru\u00eddo, podia parecer que o Estado jamais poderia esmagar a sociedade, oprimir os indiv\u00edduos, bloquear a informa\u00e7\u00e3o. A abertura do mundo exigia um Estado apaziguado, respeitoso com os cidad\u00e3os, n\u00e3o desejar mais controlar e reprimir a popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Inclusive, a globaliza\u00e7\u00e3o foi entendida por certo n\u00famero de ensa\u00edstas e jornalistas como o meio mais radical e mais eficaz de estender as liberdades pol\u00edticas \u00e0 China! As pr\u00f3prias guerras mudavam de sentido: n\u00e3o derivavam mais de na\u00e7\u00f5es inimigas, n\u00e3o pretendiam conquistar, opunham a civiliza\u00e7\u00e3o do Bem \u00e0s for\u00e7as obscuras do Mal. A grande ilus\u00e3o, que favoreceu justamente o desenvolvimento do neoliberalismo, foi ter acreditado no casamento feliz entre o mercado e a democracia.<\/p>\n<p>Essa \u00e9poca acabou. \u00c9 o momento do enfrentamento brutal contra os revoltosos e descontentes, da instrumentaliza\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a e o exerc\u00edcio da for\u00e7a desencadeada pelos policiais. Mas o mais novo e desconcertante, na atualidade mais recente, \u00e9 sem d\u00favida a nova conjuga\u00e7\u00e3o entre o neoliberalismo e o populismo nacionalista mais autorit\u00e1rio, como se, na gama de t\u00e9cnicas para impor a liberdade dos mercados contra todas as reivindica\u00e7\u00f5es de igualdade, novos poderes tivessem conseguido a fa\u00e7anha de desviar a c\u00f3lera das massas e de a fazer servir, por incr\u00edvel que possa parecer, para promover o neoliberalismo mais radical.<\/p>\n<p>Um erro constante na ci\u00eancia pol\u00edtica consiste em simplesmente opor progressistas da globaliza\u00e7\u00e3o a populistas nacionalistas. A situa\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea exige mais sutileza na an\u00e1lise. O neoliberalismo de hoje n\u00e3o \u00e9 mais o de ontem, est\u00e1 dividido entre vers\u00f5es aparentemente muito diferentes, o que pode ser a melhor garantia para a sua sobreviv\u00eancia e refor\u00e7o.<\/p>\n<p>Assim como a crise econ\u00f4mica e financeira de 2008 foi uma bela oportunidade para se ir mais longe ainda na via neoliberal, a atual crise da representa\u00e7\u00e3o, no centro da democracia liberal, oferece \u00e0s for\u00e7as conservadoras a oportunidade para mobilizar as massas mais desfavorecidas e mais desesperadas para coloc\u00e1-las a servi\u00e7o de uma forma de neoliberalismo t\u00e3o turvador que \u00e9 dif\u00edcil identific\u00e1-lo como tal, j\u00e1 que \u00e9 ao mesmo tempo nacionalista, reacion\u00e1rio e racista. E enquanto outrora o neoliberalismo se baseava no medo f\u00f3bico das massas, fonte de todas as derivas coletivistas, agora parece se transformar em uma esp\u00e9cie de fundamentalismo da na\u00e7\u00e3o e do povo.<\/p>\n<p>O aspecto j\u00e1 habitual de usar a viol\u00eancia neoliberal contra as institui\u00e7\u00f5es e as pessoas for\u00e7a a interrogar de uma forma nova a hist\u00f3ria do neoliberalismo em suas rela\u00e7\u00f5es com a viol\u00eancia e o Estado. A quest\u00e3o pol\u00edtica e te\u00f3rica em quest\u00e3o \u00e9 se as apar\u00eancias liberais, pluralistas, abertas, modernistas do neoliberalismo, que serviram para seduzir a novas gera\u00e7\u00f5es urbanas, culturalmente avan\u00e7adas e em sua \u00e9poca tecnologicamente de ponta, n\u00e3o foram iscas que dissimularam, durante um per\u00edodo que j\u00e1 ficou para atr\u00e1s, o car\u00e1ter profundamente agressivo e regressivo de uma estrat\u00e9gia que hoje se avalia melhor, pelos obst\u00e1culos e contesta\u00e7\u00f5es que encontra e que precisa superar por todos os meios.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancia<\/strong><\/p>\n<p>Foucault, Michel (1992). Genealog\u00eda del racismo. Madrid: Ed. de La Piqueta.<\/p>\n<p><strong>Notas<\/strong><\/p>\n<p>[01] Quando em 1948 os ordoliberais alem\u00e3es passaram \u00e0 a\u00e7\u00e3o para convencer os dirigentes alem\u00e3es da dupla zona anglo-americana de liberar os pre\u00e7os e reformar a moeda, o primeiro n\u00famero de seu \u00f3rg\u00e3o de combate, o Ordojahrbuch, que se apresentava como o manifesto do ordoliberalismo, colocou como introdu\u00e7\u00e3o um grande texto de filosofia social de Hayek. \u201cO verdadeiro e o falso individualismo\u201d, F. Hayek, \u201cDer Wahre und falsche Individualismus\u201d, Ordojahrbuch, n\u00ba 1, 1948. Cf. Patricia Commun, Les ordolib\u00e9raux, Histoire d\u2019un lib\u00e9ralisme \u00e0 l\u2019allemande, Les Belles Lettres, 2016.<\/p>\n<p>[02] Citado por Jean Solchany, Wilhelm R\u00f6pke, l\u2019autre Hayek, Aux origines du n\u00e9olib\u00e9ralisme, Par\u00eds, Publications de la Sorbonne, 2015, p. 85.<\/p>\n<p>[03] A biografia de R\u00f6pke, de Jean Solchany, oferece uma nega\u00e7\u00e3o definitiva das interpreta\u00e7\u00f5es que veem no soci\u00f3logo liberal um contrapeso moderado ao ultraliberalismo de Hayek. Demonstra que R\u00f6pke \u00e9 muito mais radical na cr\u00edtica da modernidade democr\u00e1tica do que Hayek, at\u00e9 o ponto de condenar a descoloniza\u00e7\u00e3o e aprovar o apartheid sul-africano.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Laval: Uma nova guerra civil mundial? &#8211; Outras Palavras &#8211; https:\/\/outraspalavras.net\/outrasmidias\/laval-uma-nova-guerra-civil-mundial\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Christian Laval &#8211; \u201cO novo \u00e9 a manifesta\u00e7\u00e3o cada vez mais aberta e assumida do car\u00e1ter violento e autorit\u00e1rio do neoliberalismo, em qualquer uma de suas variantes hist\u00f3ricas e nacionais. 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