{"id":17733,"date":"2022-04-10T14:53:49","date_gmt":"2022-04-10T17:53:49","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=17733"},"modified":"2022-04-10T14:53:49","modified_gmt":"2022-04-10T17:53:49","slug":"as-ninhadas-do-rancor-e-do-odio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2022\/04\/10\/as-ninhadas-do-rancor-e-do-odio\/","title":{"rendered":"As ninhadas do rancor e do \u00f3dio"},"content":{"rendered":"<p><strong>Luiz Carlos Checchia &#8211; <\/strong>A incurs\u00e3o militar russa na Ucr\u00e2nia tem revelado como o nazismo est\u00e1 presente em boa parte do cotidiano daquela na\u00e7\u00e3o. Alguns exemplos j\u00e1 s\u00e3o not\u00f3rios, como os chamados Batalh\u00f5es de Azov e o de Aidar, que originalmente eram mil\u00edcias nazistas e que, ap\u00f3s atuarem no golpe de Estado que ocorreu l\u00e1, em 2014, foram incorporadas \u00e0s for\u00e7as p\u00fablicas sem se descaracterizar de suas ideologias. Tamb\u00e9m \u00e9 cada vez mais evidente a influ\u00eancia popular do movimento-partido de extrema-direita Pravy Sector, respons\u00e1vel por manifesta\u00e7\u00f5es violentas contra migrantes e minorias \u00e9tnicas. Essas e outras situa\u00e7\u00f5es detalhadamente apresentadas nos document\u00e1rios\u00a0<em>Ucr\u00e2nia, as M\u00e1scaras da Revolu\u00e7\u00e3o<\/em>, do franc\u00eas Paul Moreira e<em>Ucr\u00e2nia em Chamas<\/em>, dirigido por Igor Lopatonok e produzido por Oliver Stone, ambos de 2016, demonstram como o nazismo e o fascismo s\u00e3o tolerados por boa parte da sociedade ucraniana e participam da sustenta\u00e7\u00e3o do Estado que se formou ap\u00f3s o golpe. Se essas evid\u00eancias n\u00e3o justificam por completo a opera\u00e7\u00e3o militar russa naquele pa\u00eds, ao menos comprovam que um de seus objetivos, desnazificar a Ucr\u00e2nia, n\u00e3o \u00e9 letra morta nem palavras vazias.<\/p>\n<p>Isso posto, fica mais f\u00e1cil entender o que quer dizer o grito de guerra de parte da extrema-direita brasileira que brada pela \u201cucraniza\u00e7\u00e3o do Brasil\u201d. Nos parece que n\u00e3o gritam apenas pela tomada do poder pelo golpe, como aconteceu na Ucr\u00e2nia, em 2014, e aqui em 2016, mas fazem um constante chamado \u00e0 estrutura\u00e7\u00e3o do Estado brasileiro sobre ideologias e organiza\u00e7\u00f5es nazifascistas. A nazifica\u00e7\u00e3o do Brasil, ou para ser mais amplo e completo, a sua fascistiza\u00e7\u00e3o, parece ser um risco pouco levado a s\u00e9rio, pois apesar de seus problemas com racismo e misoginia, muita gente ainda acredita que o pa\u00eds estaria longe de alguma forma de ascens\u00e3o do fascismo. Por isso, quando as elei\u00e7\u00f5es de 2018 chegaram ao seu fim e Jair Messias Bolsonaro foi eleito com mais de 55% dos votos v\u00e1lidos, passamos a nos perguntar, afinal, como \u00e9 que um fascista chegou ao governo brasileiro? N\u00e3o s\u00e3o poucos os que ainda insistem em dizer que se trata de um \u201cponto fora da curva\u201d, um \u201cequ\u00edvoco hist\u00f3rico\u201d, um \u201cdesvio em nossa democracia\u201d, mas que logo ser\u00e1 superado e nunca ocorrer\u00e1 novamente.<\/p>\n<p>Lamentavelmente, nos parece que a quest\u00e3o \u00e9 muito mais complexa e exige um olhar mais atento e cuidadoso sobre a presen\u00e7a da fascismo em nosso pa\u00eds. Esse pequeno texto tem por objetivo, portanto, apresentar ligeiramente algumas das mais importantes experi\u00eancias fascistas no Brasil, n\u00e3o no sentido de elenc\u00e1-las temporalmente, como sucess\u00e3o de eventos ocorridos cada qual em seu tempo e contexto, mas como presen\u00e7a constante que se atualiza gra\u00e7as \u00e0s experi\u00eancias acumuladas gera\u00e7\u00e3o ap\u00f3s gera\u00e7\u00e3o. Ou seja, as gera\u00e7\u00f5es de fascistas n\u00e3o se substituem, mas se sobrep\u00f5em, acumulam-se, conectam-se e formam legados que ser\u00e3o assimilados pelas gera\u00e7\u00f5es que vir\u00e3o.<\/p>\n<p>Sabemos que no Brasil os adeptos das ideologias de extrema-direita dividem-se entre os que defendem as ideologias fascistas e os que defendem as ideologias nazistas, o que pode confundir algumas pessoas. Para ajudar a compreens\u00e3o e distin\u00e7\u00e3o entre ambos, faremos abaixo alguns poucos par\u00e1grafos explicativos para estabelecer a diferen\u00e7a entre fascismo e nazismo e situ\u00e1-los sob um mesmo conceito, o de\u00a0<em>forma-fascismo<\/em>.<\/p>\n<p><strong>Um pouco\u00a0sobre a teoria do\u00a0fascismo<\/strong><\/p>\n<p>Trabalhamos aqui neste texto com a seguinte ideia: o fascismo \u00e9 uma\u00a0<em>forma-pol\u00edtica<\/em>. O que nos exige claro, explicar o que queremos dizer com \u201cforma-pol\u00edtica\u201d: trata-se de um conceito que nos ajuda a entender as conex\u00f5es hist\u00f3ricas, culturais e pol\u00edticas existentes entre fen\u00f4menos que muitas vezes s\u00e3o muito diferentes entre si. No caso do fascismo, pensemos nas suas mais diversas express\u00f5es, como o fascismo italiano, o nazismo alem\u00e3o, os integralismo brasileiro e portugu\u00eas, os movimentos\u00a0<em>skinheads<\/em>\u00a0etc. Cada um deles \u00e9 um \u201cfascismo em particular\u201d, que se caracteriza pelas especificidades de cada povo e na\u00e7\u00e3o, cada cultura, cada momento hist\u00f3rico etc. Mas todos s\u00e3o \u201cfascismo\u201d, e por isso, precisamos entender o que existe em comum entre eles, o que compartilham, o que os agrupam sob um conjunto de princ\u00edpios e significados compartilhados. Precisamos, portanto, entender a sua\u00a0<em>forma-pol\u00edtica<\/em>, que passaremos a chamar simplesmente de\u00a0<em>forma-fascismo<\/em>.<\/p>\n<p>Para come\u00e7ar, apresentamos o contexto comum a todas as express\u00f5es da\u00a0<em>forma-fascismo<\/em>, que \u00e9 o\u00a0<em>imperialismo<\/em>, e a sua classe de origem, que \u00e9 a\u00a0<em>pequena-burguesia<\/em>. Enquanto o capitalismo ainda era baseado na concorr\u00eancia entre empresas e firmas de diferentes tamanhos, a pequena-burguesia tinha certa relev\u00e2ncia econ\u00f4mica e pol\u00edtica. Mas j\u00e1 no fim do s\u00e9culo XIX, a grande burguesia passou a organizar-se em cart\u00e9is e trustes, e passaram a controlar todas as etapas da produ\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m expandiram suas opera\u00e7\u00f5es para diversas partes do planeta. Como consequ\u00eancia da concentra\u00e7\u00e3o de capitais e o controle sobre a produ\u00e7\u00e3o, o capitalismo perdeu rapidamente seu car\u00e1ter concorrencial e local, que de alguma forma favorecia a pequena-burguesia, ou melhor dizendo, era seu ambiente de neg\u00f3cios. Essas mudan\u00e7as fizeram com que os pequenos burgueses mergulhassem continuadamente na insignific\u00e2ncia pol\u00edtica, assumindo posi\u00e7\u00f5es marginais nos processos de produ\u00e7\u00e3o de riquezas. Por outro lado, a organiza\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora em sindicatos e partidos pol\u00edticos criou uma massa mobilizada o bastante para lutar por melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho e sal\u00e1rios mais altos, o que tamb\u00e9m incomodou demais a pequena-burguesia, afinal, cada vez mais ela tem que atender \u00e0s demandas de seus empregados e funcion\u00e1rios, muitas vezes reduzindo imensamente suas margens de lucro. Ressentida e limitada, espremida entre burgueses e trabalhadores, que se tornaram as classes principais do capitalismo, a pequena-burguesia perdeu quase que totalmente as condi\u00e7\u00f5es de disputar o poder de maneira aut\u00f4noma e protagonista, como explicou o fil\u00f3sofo grego Nicos Poulantzas, em livros como\u00a0<em>Fascismo e ditadura<\/em>, de 1972, e\u00a0<em>As classes sociais no capitalismo de hoje<\/em>, de 1975.<\/p>\n<p>No entanto, as crises que s\u00e3o comuns \u00e0s din\u00e2micas do capitalismo, se tornaram cada vez mais intensas no imperialismo. Grande parte delas \u00e9 localizada e manobrada pelas autoridades. Mas outras evoluem at\u00e9 se tornarem grandes crises sociais, daquelas que combinam problemas pol\u00edticos e econ\u00f4micos de tal magnitude que leva ao descr\u00e9dito dos pol\u00edticos e partidos tradicionais (sejam os de esquerda ou de direita). Um dos resultados poss\u00edveis do descr\u00e9dito pol\u00edtico \u00e9 o v\u00e1cuo na hegemonia do Estado. \u00c9 nesse cen\u00e1rio de dr\u00e1sticas crises e de falta de confian\u00e7a da popula\u00e7\u00e3o nos pol\u00edticos tradicionais que a pequena-burguesia encontra as condi\u00e7\u00f5es prop\u00edcias para sua mobiliza\u00e7\u00e3o e para disputar o poder. E quando entra na disputa pol\u00edtica, ela organiza seu programa em torno de seu ressentimento com as demais classes. Como seu horizonte \u00e9 regressivo, portanto, n\u00e3o pensa na supera\u00e7\u00e3o da ordem burguesa, mas t\u00e3o somente criar uma sociedade em que as rela\u00e7\u00f5es fossem boas como foram em algum ponto do passado. Evidentemente que se fala de um passado imagin\u00e1rio, mitificado, mas cuja cren\u00e7a \u00e9 forte o bastante para mobilizar as for\u00e7as contra qualquer inimigo que se coloque no seu caminho. Esses inimigos geralmente s\u00e3o aqueles que apresentar pautas progressistas e\/ou de supera\u00e7\u00e3o da ordem, como comunistas, socialistas, e feministas, movimentos populares e, nos casos de fascismos com alta carga racista, judeus, negros e toda sorte de migrantes.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, o ressentimento da pequena-burguesia \u00e9 uma constante nas sociedades capitalistas. Por isso, quando surge um movimento fascista de grande porte, \u00e0s vezes capaz de vencer elei\u00e7\u00f5es locais ou nacionais, n\u00e3o se trata de um \u201cequ\u00edvoco\u201d, ou de um \u201cmomento ruim\u201d, mas da emerg\u00eancia de uma\u00a0<em>forma-pol\u00edtica<\/em>\u00a0que constitui o capitalismo imperialista. Uma\u00a0<em>forma-pol\u00edtica<\/em>\u00a0que se mant\u00e9m na obscuridade dos c\u00edrculos restritos de seus adeptos (agora ampliados pelas redes sociais), mas que pode\u00a0<em>emergir<\/em>\u00a0sempre que as\u00a0<em>situa\u00e7\u00f5es<\/em>\u00a0lhe forem favor\u00e1veis.<\/p>\n<p>Assim, para encerrar esse excurso te\u00f3rico estamos falando de uma forma-pol\u00edtica, a forma-fascismo; de uma\u00a0<em>situa\u00e7\u00e3o-fascista<\/em>, ou seja, os cen\u00e1rios de agudas crises e descr\u00e9dito pol\u00edtico; e, por fim, da possibilidade da\u00a0<em>emerg\u00eancia fascista<\/em>, quando seus militantes e organiza\u00e7\u00f5es conseguem mobiliza\u00e7\u00e3o popular suficiente para aproveitar a ocasi\u00e3o de crise para disputarem o poder pol\u00edtico. Por fim, fiquemos atentos ao fato de que, cada emerg\u00eancia fascista leva a uma atualiza\u00e7\u00e3o da forma-fascismo, j\u00e1 que novas gera\u00e7\u00f5es de fascistas parecem demonstrar grande facilidade em corrigir erros das gera\u00e7\u00f5es anteriores e de ajustarem discursos e pr\u00e1ticas. Isso posto, podemos agora abordar algumas das principais\u00a0<em>emerg\u00eancias fascistas<\/em>\u00a0que ocorreram em nossa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p><strong>As\u00a0emerg\u00eancias\u00a0fascistas no Brasil<\/strong><\/p>\n<p>Desde que surgiu no mundo pela primeira vez nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX, uma ou outra na\u00e7\u00e3o \u00e9 governada por um l\u00edder fascistas. Mas grandes emerg\u00eancias envolvendo diversas na\u00e7\u00f5es governadas ou com governos fortemente influenciados pelo fascismo ocorreu em tr\u00eas momentos hist\u00f3ricos. Naquelas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XX, entre os anos de 1970 e 1990, e agora, nas primeiras d\u00e9cadas do s\u00e9culo XXI. N\u00e3o \u00e9 coincid\u00eancia tratarem-se de per\u00edodos de grande crise imperialista, formando o que j\u00e1 definimos por\u00a0<em>situa\u00e7\u00f5es fascistas<\/em>. O Brasil nunca ficou de fora dessas\u00a0<em>emerg\u00eancias<\/em>, em cada um desses momentos a mobiliza\u00e7\u00e3o fascista em nosso pa\u00eds foi de grande vulto. Em suma, temos uma bem consolidada tradi\u00e7\u00e3o fascista no pa\u00eds e que remonta \u00e0 primeira hora do fascismo. Afinal, a primeira c\u00e9lula nazista no Brasil foi fundada por imigrantes alem\u00e3es na cidade catarinense de Benedito Timb\u00f3, em 1928, anos antes de Hitler chegar ao poder na Alemanha, conforme explica a pesquisadora Ana Dietrich, em seu livro\u00a0<em>Nazismo Tropical? O Partido Nazista no Brasil<\/em>, publicado em 2012. Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que, depois da tomada nazista do Estado germ\u00e2nico, a se\u00e7\u00e3o brasileira do seu partido foi a maior no estrangeiro, com quase 3 mil filiados, distribu\u00eddos em dezessete estados diferentes, desde o Norte at\u00e9 o Sul do pa\u00eds. Isso considerando que apenas os alem\u00e3es natos podiam se filiar, ficando seus descendentes circunscritos a outras formas de participa\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria. J\u00e1 o Partido Nacional Fascista Italiano, por sua vez, manteve no Brasil suas se\u00e7\u00f5es, chamadas de\u00a0<em>fasci all\u2019estero,<\/em>\u00a0que organizaram uma rede de entidades culturais e de lazer que se constitu\u00edam como espa\u00e7os de sociabilidade e conviv\u00eancia, como escreveu o pesquisador Jo\u00e3o F\u00e1bio Bertonha, em diversos de seus artigos e livros a respeito, e do qual destacamos a colet\u00e2nea<em>Sobre a Direita, Estudos Sobre o Fascismo, Nazismo e Integralismo<\/em>. A organiza\u00e7\u00e3o social fascista\u00a0<em>Opera Nazionale Dopolavoro de S\u00e3o Paulo<\/em>, por exemplo, chegou a organizar um time de futebol que disputou na divis\u00e3o intermedi\u00e1ria, em 1938, arrastando atr\u00e1s de si uma significativa torcida. Os fascistas italianos tamb\u00e9m operaram uma eficiente imprensa. Somente o jornal\u00a0<em>O Fanfulla<\/em>, que j\u00e1 era um tradicional jornal da comunidade italiana quando Mussolini ascendeu ao poder, tornou-se um fundamental ve\u00edculo propagand\u00edstico que chegou a ter, em 1934, tiragem de 40 mil exemplares di\u00e1rios, conforme afirmou Teresa Malatian, em seu artigo \u201cImprensa Italiana em S\u00e3o Paulo e o Fascismo: o\u00a0<em>Fanfulla\u00a0<\/em>(1921-1942)\u201d, publicado em 2015.<\/p>\n<p>Essa primeira\u00a0<em>emerg\u00eancia fascista<\/em>\u00a0no Brasil contou tamb\u00e9m com express\u00f5es nascidas aqui. Em seu fundamental livro\u00a0<em>Integralismo, o\u00a0<\/em><em>f<\/em><em>ascismo\u00a0<\/em><em>b<\/em><em>rasileiro na\u00a0<\/em><em>d<\/em><em>\u00e9cada de 30<\/em>, H\u00e9lgio Trindade cita algumas organiza\u00e7\u00f5es fascistas que surgiram no pa\u00eds, naquele per\u00edodo, como a A\u00e7\u00e3o Social Brasileira, Legi\u00e3o Cearense do Trabalho, Partido Nacional Sindicalista, A\u00e7\u00e3o Imperial Patrionovista e a Legi\u00e3o Cruzeiro do Sul. Mas indubitavelmente a mais destacada delas foi a A\u00e7\u00e3o Integralista Brasileira, a AIB, criada por Miguel Reale, Gustavo Barroso e Pl\u00ednio Salgado, em 7 de outubro de 1932. Inicialmente era um movimento pol\u00edtico, mas em seu II Congresso Nacional, em 1935,tornou-se um partido que passou a disputar os governos e os parlamentos brasileiros.<\/p>\n<p>A atua\u00e7\u00e3o da AIB foi bem sucedida o bastante para noticiarem, em seu peri\u00f3dico nacional\u00a0<em>A Offensiva<\/em>, que, no ano de 1936, a organiza\u00e7\u00e3o contava com mais de 1,3 milh\u00e3o de filiados em suas fileiras. A despeito de todo o cuidado que se deve ter com tal informa\u00e7\u00e3o, que, afinal, foi prestada pela pr\u00f3pria AIB, o fato \u00e9 que a organiza\u00e7\u00e3o manteve uma base popular expressiva e bem capilarizada em diversos estados brasileiros. O seu ocaso veio com a institui\u00e7\u00e3o do Estado Novo varguista, em 1937, que proibiu as atividades partid\u00e1rias no pa\u00eds e levando os integralistas a atuarem na clandestinidade, como ocorreu com os demais partidos brasileiros. Com o fim do Estado Novo, os integralistas se organizaram em um novo partido, o Partido Republicano Popular. Foram novamente extintos, desta vez pelo golpe empresarial-militar de 1964, que imp\u00f4s o bipartidarismo no Brasil, constitu\u00eddo pelo partido de apoio ao regime ditatorial, a Arena (Alian\u00e7a Renovadora Nacional), escolhido pelos integralistas, e o partido de oposi\u00e7\u00e3o permitida, o Movimento Democr\u00e1tico Brasileiro (MDB).<\/p>\n<p>A segunda\u00a0<em>emerg\u00eancia fascista<\/em>\u00a0no Brasil formou-se inicialmente como movimentos de rua, os\u00a0<em>skinheads<\/em>, visto que a atua\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria estava limitada e os integralistas acomodados nas estruturas do regime militar atuando pela Arena. Foi um grupo de ex-punks frustrados pelo rumos tomados pelo movimento que fundaram o movimento\u00a0<em>skinhead\u00a0<\/em>no Brasil, na segunda metade dos anos de 1970. Aqueles jovens viviam, ent\u00e3o, as consequ\u00eancias do fracasso do chamado Milagre Econ\u00f4mico da ditadura empresarial-militar, e por isso padeciam com a falta de oportunidades e de expectativas. Pouco lhes restava sen\u00e3o perambular pelas ruas dos bairros oper\u00e1rios da regi\u00e3o metropolitana de S\u00e3o Paulo, onde o movimento teve in\u00edcio. Todavia, foi somente no final dos anos de 1980 que ocorreu o encontro dos\u00a0<em>skinheads<\/em>\u00a0brasileiros e as ideologias nazifascistas gra\u00e7as, principalmente, ao aumento do interc\u00e2mbio entre grupos locais e europeus. Como consequ\u00eancia, os grupos brasileiros se dividiram, grosso modo, entre aqueles que abra\u00e7aram uma postura fascista, com forte aproxima\u00e7\u00e3o aos integralistas, e aqueles que assumiram o nazismo como linha ideol\u00f3gica. Destacaram-se entre os primeiros os Carecas do Sub\u00farbio e, entre os segundos, o movimento White Power, como explicitam Alessandro Bracht e Carlos Eduardo Fran\u00e7a, nos seus artigos \u201cO nacionalismo dos\u00a0<em>s<\/em><em>kinheads<\/em>\u00a0brasileiros\u201d, de 2005, e \u201cAs m\u00faltiplas percep\u00e7\u00f5es, representa\u00e7\u00f5es e ressignifica\u00e7\u00f5es das forma\u00e7\u00f5es identit\u00e1rias dos \u2018Carecas do Brasil\u2019 e do Poder Branco Paulista\u201d, de 2010, respectivamente. Com a redemocratiza\u00e7\u00e3o, os fascistas se reorganizaram nas agremia\u00e7\u00f5es partid\u00e1rias, destacando-se dentre elas o Prona, Partido de Reedifica\u00e7\u00e3o da Ordem Nacional, tendo o m\u00e9dico En\u00e9as Carneiro como seu principal l\u00edder. Logo na primeira elei\u00e7\u00e3o p\u00f3s-ditadura, En\u00e9as, que contava apenas com escassos quinze segundos no hor\u00e1rio de propaganda eleitoral, ficou em 12<sup><u>o<\/u><\/sup>\u00a0lugar, entre os 21 candidatos. J\u00e1 nas elei\u00e7\u00f5es de 1994, ficou em terceiro lugar, tendo menos de dois minutos para sua campanha de r\u00e1dio e TV. Nas elei\u00e7\u00f5es de 1998, contando com 35 segundos em seu tempo de propaganda, ficou com a quarta coloca\u00e7\u00e3o. Em 2002, concorreu a uma cadeira no parlamento, e obteve mais de 1,5 milh\u00e3o de votos, tornando-se o recordista de votos para a C\u00e2mara dos Deputados. Seu recorde s\u00f3 foi quebrado por um outro candidato fascista, Eduardo Bolsonaro, em 2018, em plena ascens\u00e3o do fascismo-bolsonarista.<\/p>\n<p>Atualmente vivemos a terceira\u00a0<em>emerg\u00eancia fascista<\/em>\u00a0no Brasil e em diversos outros pa\u00edses. Seguramente essa situa\u00e7\u00e3o est\u00e1 ligada \u00e0s oscila\u00e7\u00f5es nas din\u00e2micas do imperialismo ocorridas desde, pelo menos, 2008, quando a mais severa crise do capitalismo eclodiu. H\u00e1 dois eventos pol\u00edticos de maior import\u00e2ncia para a compreens\u00e3o do fascismo recente no Brasil. O primeiro deles \u00e9 o golpe ocorrido na Ucr\u00e2nia, em 2014, como resultado da guerra h\u00edbrida tocada pelo imperialismo. Como aludimos no in\u00edcio deste escrito, a derrubada do governo daquela na\u00e7\u00e3o ocorreu por meio de organiza\u00e7\u00f5es nazistas financiadas e fomentadas tanto pelos golpistas locais quanto pelos estrangeiros. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que os principais grupos fascistas ucranianos, como os Batalh\u00f5es de Azov e Aidar, Pravy Sector e outros foram todos fundados entre 2013 e 2014. Ap\u00f3s assumirem o Estado e o governo da Ucr\u00e2nia, parte dessas organiza\u00e7\u00f5es passaram a realizar interc\u00e2mbios com grupos de outras na\u00e7\u00f5es e financiar parte delas. Alguns dos agrupamentos brasileiros fizeram parte desses interc\u00e2mbios e acredita-se firmemente de que tamb\u00e9m algumas delas receberam algum tipo de apoio financeiro. O outro evento foi o conjunto de manifesta\u00e7\u00f5es ocorridas no Brasil, em 2013, em protesto ao aumento do valor das passagens de \u00f4nibus. O que come\u00e7ou como atos com agenda progressistas, logo foi tomado por agrupamentos de extrema-direita organizados entre si e que em pouco tempo expulsaram partidos, sindicatos e coletivos de esquerda. As pautas foram mudadas, assumindo teor regressivo e, em pouco tempo, acabaram se tornado a pot\u00eancia que levou \u00e0 elei\u00e7\u00e3o do Congresso mais conservador desde aquele institu\u00eddo pela Ditadura empresarial-militar de 1964. Muitos dos agrupamentos de extrema-direita nas ruas eram justamente aqueles formados ou estimulados pelos acontecimentos na Ucr\u00e2nia, dois anos antes.<\/p>\n<p>H\u00e1 dois ambientes sociais que n\u00e3o s\u00e3o fascistas em sua natureza, mas que s\u00e3o facilmente captur\u00e1veis por ideologias extremadas, que s\u00e3o, de um lado, as igrejas neopentecostais e, de outro, as for\u00e7as armadas e for\u00e7as auxiliares (PMs). S\u00e3o muitos os motivos pelos quais s\u00e3o de f\u00e1cil captura pelo fascismo, e destacamos algumas delas: a cren\u00e7a na for\u00e7a de lideran\u00e7as, a estrutura vertical com pouca possibilidade de mobiliza\u00e7\u00e3o interna, a impossibilidade de debates internos acerca de decis\u00f5es tomadas pelas c\u00fapulas e o constante c\u00f3digo de obedi\u00eancia absoluta. Nenhum desses fatores \u00e9 ruim em si, h\u00e1 situa\u00e7\u00f5es e ambientes que s\u00e3o determinantes para sua efetividade. Todavia, facilitam a contamina\u00e7\u00e3o por ideais e pr\u00e1ticas fascistas, pois facilitam a sua dissemina\u00e7\u00e3o, sobretudo quando realizada \u201cde cima para baixo\u201d e eliminam qualquer forma de argumenta\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria ou resist\u00eancia. Ao mesmo tempo s\u00e3o ambientes que carregam forte conservadorismo em sua natureza, e isso \u00e9 sempre algo perigoso. Houve um forte furor em 2015 quando s\u00edtios eletr\u00f4nicos de informa\u00e7\u00e3o veicularam o v\u00eddeo do grupo Gladiadores do Altar. Tratava-se de um pelot\u00e3o de rapazes em ordem-unida, entoando gritos de guerra em un\u00edssono. Eram todos fortes e usando camisetas e cal\u00e7as camufladas e coturnos. Em pouco tempo soube-se que os Gladiadores do Altar tinham unidades espalhadas em diversos estados e alguns outros pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina. Depois da grande e negativa repercuss\u00e3o, todos os v\u00eddeos relativos ao grupo foram retirados da internet e as autoridades da Igreja Universal alegaram que o grupo havia sido mal interpretado, que era um projeto tempor\u00e1rio, e que as cr\u00edticas n\u00e3o passavam de \u201cintoler\u00e2ncia religiosa\u201d. A antrop\u00f3loga Adriana Dias, que pesquisa h\u00e1 muito tempo a quest\u00e3o do fascismo e dos grupos\u00a0<em>skinheads<\/em>\u00a0no Brasil falou, em entrevista \u00e0 ag\u00eancia de informa\u00e7\u00e3o\u00a0<em>Vice<\/em>, publicada em 26 de novembro de 2019, que atualmente existe um grande n\u00famero de ex-integrantes das gangues de rua convertendo-se \u00e0s igrejas neopentecostais visando participar de uma organiza\u00e7\u00e3o conservadora em que pudessem comungar de seus posicionamentos sem levantar suspeitas ou cr\u00edticas como os agrupamentos\u00a0<em>skinheads<\/em>. Em outra mat\u00e9ria, desta vez para a ag\u00eancia\u00a0<em>Deutsche Welle<\/em>, de 26 de junho de 2020, Adriana Dias aborda o aumento de c\u00e9lulas e, principalmente, de integrantes em cada c\u00e9lula nazifascista no Brasil. Na mesma mat\u00e9ria, a organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o governamental SaferNet Brasil, que atua na defesa e promo\u00e7\u00e3o de direitos humanos, noticia que entre 2019 e 2020 houve um extraordin\u00e1rio aumento de 11.564% no n\u00famero de p\u00e1ginas eletr\u00f4nicas nazifascistas denunciadas. Certamente as movimenta\u00e7\u00f5es desde, pelo menos, 2013, quando agrupamentos de extrema-direita se colocaram \u00e0s ruas para a disputa violenta pelo poder, o aumento de seus militantes e organiza\u00e7\u00f5es s\u00f3 faz crescer e se espalhar, como noticiaram os s\u00edtios eletr\u00f4nicos do jornal\u00a0<em>Estado de Minas Gerais<\/em>, em 16 de abril de 2013, da ag\u00eancia de not\u00edcias BBC, em 18 de janeiro de 2017, e do\u00a0<em>Observat\u00f3rio do Terceiro Setor<\/em>, em 30 de junho de 2020, dentre outros.<\/p>\n<p>Embora seja uma inc\u00f3gnita o tamanho do apoio dos militares ao presidente Jair Bolsonaro e quais s\u00e3o os setores das for\u00e7as que mais se engajam nele, qualquer reflex\u00e3o a respeito deve levar em termo que nenhum outro governo teve tantos militares ocupando postos de governo. Segundo mat\u00e9ria veiculada pelo jornal\u00a0<em>O Globo<\/em>, em 27 de junho de 2021, o Tribunal de Contas da Uni\u00e3o publicou que at\u00e9 julho de 2020, houve, nos governos Bolsonaro, um aumento de 122% no n\u00famero de militares ocupando cargos civis e militares do governo, chegando a um expressivo contingente de 6.157 pessoas. Mas o fato mais escandaloso que a reportagem apresenta foi a mudan\u00e7a no car\u00e1ter das fun\u00e7\u00f5es dos cargos ocupados por esse contingente, tornando-as todas elas militares, permitindo assim que os oficiais tomem posse desses gabinetes sem precisarem ir para a reserva. Isso significa a tomada do governo por um grande n\u00famero de oficiais com algum grau de lealdade ao bolsonarismo ou que, ao menos, veja nele um meio para alcan\u00e7ar objetivos de interesse de grupos internos e nem sempre conhecidos que existem nas for\u00e7as armadas. Mas os principais apoios ao bolsonarismo v\u00eam das for\u00e7as auxiliares, as Pol\u00edcias Militares, cuja mais recente demonstra\u00e7\u00e3o ocorreu nos atos de 7 de setembro de 2021, como pode ser visto nas mat\u00e9rias veiculadas pelos s\u00edtios eletr\u00f4nicos da ag\u00eancia de informa\u00e7\u00e3o\u00a0<em>Poder 360<\/em>\u00a0e do jornal\u00a0<em>El Pa\u00eds<\/em>, de 23 de agosto e de 25 de agosto, respectivamente, e de outros informativos, visto que o assunto foi bastante noticiado.<\/p>\n<p><strong>\u00c0 guisa de conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>As experi\u00eancias nazifascistas no Brasil, desde a primeira c\u00e9lula nazista em Benedito Timb\u00f3, at\u00e9 as gangues de hoje, demonstram uma presen\u00e7a constante, profunda e consolidada da\u00a0<em>forma-fascismo<\/em>\u00a0no pa\u00eds. Mesmo quando h\u00e1 refluxos, eles nunca s\u00e3o efetivos o bastante para afastar o risco de uma nova<em>\u00a0emerg\u00eancia<\/em>\u00a0fascista, quando menos esperarmos. Afinal, enquanto houver crises econ\u00f4micas e pol\u00edticas capitalistas, a cadela do fascismo continuar\u00e1 a multiplicar sua ninhada.<\/p>\n<p>Por isso, \u00e9 fundamental ter consci\u00eancia de que mesmo a mais estrepitosa vit\u00f3ria eleitoral sobre qualquer l\u00edder fascista n\u00e3o significa uma vit\u00f3ria definitiva sobre o fascismo, em qualquer na\u00e7\u00e3o que seja. Mesmo as a\u00e7\u00f5es de desnazifica\u00e7\u00e3o ocorridas nos pa\u00edses derrotados na Segunda Guerra Mundial n\u00e3o impediram a sua ressurg\u00eancia em outros tempos. Ainda, a vit\u00f3ria sobre o fascismo s\u00f3 ser\u00e1 total quando da vit\u00f3ria sobre o capitalismo. Mas at\u00e9 l\u00e1, \u00e9 imprescind\u00edvel que as experi\u00eancias nazifascistas tornem-se tema constante de debates p\u00fablicos, nas organiza\u00e7\u00f5es sociais, partid\u00e1rias e sindicais, nas igrejas e em todas as entidades sociais de relevo na forma\u00e7\u00e3o social brasileira. Deveria ser mat\u00e9ria de destaque nas escolas, assunto de disciplinas espec\u00edficas nas universidades e tema de filmes e pe\u00e7as teatrais. Enfim, manter o fascismo como um assunto sempre urgente e aquecido talvez seja a \u00fanica forma de evitarmos ou atenuarmos suas pr\u00f3ximas\u00a0<em>emerg\u00eancias<\/em>.<\/p>\n<p>N\u00e3o esque\u00e7amos que somos uma das na\u00e7\u00f5es que compuseram as for\u00e7as aliadas na Segunda Guerra Mundial. A For\u00e7a Expedicion\u00e1ria Brasileira, a despeito de suas grandes limita\u00e7\u00f5es materiais, protagonizou importantes feitos naquele conflito, mais de 14 mil soldados das for\u00e7as alem\u00e3s (dentre eles um n\u00famero significativo de oficiais), se renderam aos nossos pracinhas. Ainda assim, pouco se fala de nossa presen\u00e7a naquela guerra. Com as honrosas exce\u00e7\u00f5es da pe\u00e7a teatral\u00a0<em>A Cobra Vai Fumar<\/em>, de C\u00e9sar Vieira, de 2012, e o bel\u00edssimo filme\u00a0<em>Estrada 47<\/em>, do diretor Vicente Ferraz, de 2013, nossa participa\u00e7\u00e3o entre as for\u00e7as aliadas continua ignorada pela nossa produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica, cultural e de mem\u00f3ria. \u00c9 como se nunca tiv\u00e9ssemos nos engajado na maior das lutas contra o nazifascismo.<\/p>\n<p>Como defendeu a militante comunista Clara Zetkin, em documento para a Internacional Comunista, em 1923, o fascismo n\u00e3o poder\u00e1 ser vencido apenas militarmente (e acrescentamos: eleitoralmente), mas apenas as vit\u00f3rias pol\u00edtica e ideol\u00f3gica poderiam super\u00e1-lo em definitivo. Isso significa n\u00e3o deix\u00e1-lo correr para as sombras, mas mant\u00ea-lo sob as luzes do sol e dos debates p\u00fablicos. Enquanto vivermos em um pa\u00eds capitalista e submetidos ao imperialismo, essas\u00a0<em>emerg\u00eancias<\/em>\u00a0da\u00a0<em>forma-fascismo<\/em> no Brasil continuar\u00e3o a ser um risco sempre constante. Devemos ent\u00e3o estar sempre atentos e preparados para isso. Afinal, como j\u00e1 alertou Hamlet: \u201cEstar preparado \u00e9 tudo\u201d.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: As ninhadas do rancor e do \u00f3dio &#8211; Outras Palavras &#8211; https:\/\/outraspalavras.net\/historia-e-memoria\/as-ninhadas-do-rancor-e-do-odio\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Luiz Carlos Checchia &#8211; A incurs\u00e3o militar russa na Ucr\u00e2nia tem revelado como o nazismo est\u00e1 presente em boa parte do cotidiano daquela na\u00e7\u00e3o. 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