{"id":17728,"date":"2022-04-09T12:42:14","date_gmt":"2022-04-09T15:42:14","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=17728"},"modified":"2022-04-08T20:46:04","modified_gmt":"2022-04-08T23:46:04","slug":"o-desmonte-da-seguranca-alimentar-em-numeros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2022\/04\/09\/o-desmonte-da-seguranca-alimentar-em-numeros\/","title":{"rendered":"O desmonte da seguran\u00e7a alimentar, em n\u00fameros"},"content":{"rendered":"<p><strong>Schirlei Alves &#8211;\u00a0<\/strong>Aricelia Ferreira Alves, 19 anos, vive com o marido e seus dois filhos, uma beb\u00ea de 9 meses e um menino de 3 anos, em Lagoa de Dentro, uma das comunidades isoladas e de dif\u00edcil acesso do munic\u00edpio de Pil\u00e3o Arcado, no sert\u00e3o da Bahia. No dia em que percorremos a regi\u00e3o onde a jovem mora, em meados de dezembro de 2021, a Caatinga estava coberta de folhas verdes e adornada com flores brancas e amarelas.<\/p>\n<p>Quem passa pela estrada nessa \u00e9poca do ano n\u00e3o imagina que a mesma vegeta\u00e7\u00e3o fica completamente cinza por cerca de nove meses, per\u00edodo que costuma durar a seca. O baixo volume de chuva impede que o solo se mantenha nutrido para o plantio.<\/p>\n<p>Distante apenas 12 quil\u00f4metros do Rio S\u00e3o Francisco, um dos mais importantes cursos d\u2019\u00e1gua do Brasil, a comunidade n\u00e3o tem acesso \u00e0 \u00e1gua encanada, a \u00e1gua de po\u00e7o \u00e9 salgada e a \u00e1gua distribu\u00edda poucas vezes ao m\u00eas em caminh\u00f5es pipa n\u00e3o \u00e9 tratada.<\/p>\n<p>A \u00fanica forma de se obter \u00e1gua pot\u00e1vel \u00e9 por meio da cisterna \u2014 uma tecnologia desenvolvida por um\u00a0<a href=\"https:\/\/www.asabrasil.org.br\/98-imprensa\/asa-na-midia\/1401-a-experiencia-da-asa-na-construcao-de-uma-comunicacao-libertadora-no-semiarido#:~:text=Ningu%C3%A9m%20conhecia%20Pedro%20Dami%C3%A3o%2C%20ningu%C3%A9m,cisterna%2C%20foi%20o%20Manoel%20Apol%C3%B4nio.\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">sergipano<\/a>\u00a0e que foi incorporada a um programa do governo federal em 2003, no mandato Lula, ap\u00f3s articula\u00e7\u00e3o da sociedade civil. A\u00a0<a href=\"https:\/\/www.tenhosede.org.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">tecnologia coleta \u00e1gua da chuva<\/a>\u00a0e a armazena em reservat\u00f3rios constru\u00eddos no quintal das casas. S\u00f3 que Aricelia ainda n\u00e3o teve acesso \u00e0 cisterna, portanto, n\u00e3o conta com uma fonte pr\u00f3pria de \u00e1gua para beber, cozinhar e muito menos plantar. Segundo o pr\u00f3prio Minist\u00e9rio da Cidadania, 1,4 milh\u00e3o de fam\u00edlias brasileiras est\u00e3o na mesma condi\u00e7\u00e3o que ela.<\/p>\n<figure><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/opara.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/outraspalavras\/uploads\/2022\/03\/21175030\/aricelia-1-1024x683-1.jpg?resize=640%2C427&#038;ssl=1\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" srcset=\"https:\/\/opara.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/outraspalavras\/uploads\/2022\/03\/21175030\/aricelia-1-1024x683-1.jpg 1024w, https:\/\/opara.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/outraspalavras\/uploads\/2022\/03\/21175030\/aricelia-1-1024x683-1-300x200.jpg 300w, https:\/\/opara.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/outraspalavras\/uploads\/2022\/03\/21175030\/aricelia-1-1024x683-1-768x512.jpg 768w, https:\/\/opara.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/outraspalavras\/uploads\/2022\/03\/21175030\/aricelia-1-1024x683-1-272x182.jpg 272w\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"427\" \/><figcaption><em>Lagoa de Dentro, uma das comunidades isoladas e de dif\u00edcil acesso do munic\u00edpio de Pil\u00e3o Arcado, no sert\u00e3o da Bahia<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p>O recurso federal executado na a\u00e7\u00e3o or\u00e7ament\u00e1ria de Acesso \u00e0 \u00c1gua para Consumo Humano e Produ\u00e7\u00e3o de Alimentos na Zona Rural, mais conhecida como Programa de Cisternas, encolheu 96,8% em seis anos (de R$ 714 milh\u00f5es, em 2014, caiu para R$ 22,5 milh\u00f5es, em 2020).<\/p>\n<p>Os dados foram obtidos pela reportagem de\u00a0<strong>O Joio e O Trigo<\/strong>\u00a0via Lei de Acesso \u00e0 Informa\u00e7\u00e3o (LAI), por meio do Minist\u00e9rio da Cidadania. N\u00f3s solicitamos, mas n\u00e3o recebemos os valores de 2021. Segundo Alexandre Pires, coordenador da Articula\u00e7\u00e3o do Semi\u00e1rido Brasileiro (ASA) \u2014 principal rede que p\u00f5e em pr\u00e1tica o projeto atrav\u00e9s da verba p\u00fablica \u2014, n\u00e3o houve pagamento do recurso no \u00faltimo ano. A Articula\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m tentou apresentar um plano de universaliza\u00e7\u00e3o do acesso \u00e0 \u00e1gua ao Congresso Nacional e ao Minist\u00e9rio da Cidadania, mas n\u00e3o teve sucesso.<\/p>\n<p>\u201cPara al\u00e9m da falta de prioridade do governo, a gente ainda tem o fato de que a secretaria [Secretaria Nacional de Inclus\u00e3o Social e Produtiva] a que o projeto estava vinculado foi esfacelada por completo. O menor or\u00e7amento foi o de 2006, com R$ 63 milh\u00f5es. O or\u00e7amento de 2021 foi de R$ 61 milh\u00f5es e sem opera\u00e7\u00e3o\u201d, disse Pires.<\/p>\n<p>Esse valor corresponde ao or\u00e7amento inicial previsto a partir da lei or\u00e7ament\u00e1ria sancionada por Bolsonaro. Mas esse recurso pode ser alterado tanto para baixo quanto para cima. No Painel do Or\u00e7amento Federal, onde est\u00e3o dispon\u00edveis todas as a\u00e7\u00f5es do governo, consta que o or\u00e7amento de 2021 foi reduzido pela metade e a previs\u00e3o de recurso para 2022 \u00e9 de apenas R$ 46,7 milh\u00f5es.<\/p>\n<p>Se a verba fosse mantida no patamar de 2014, considerando a corre\u00e7\u00e3o anual pelo \u00cdndice Nacional de Custo de Constru\u00e7\u00e3o (INCC) e a hip\u00f3tese de execu\u00e7\u00e3o cont\u00ednua dos recursos, \u00e9 bem prov\u00e1vel que Aricelia j\u00e1 tivesse recebido a t\u00e3o sonhada cisterna.<\/p>\n<figure><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/opara.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/outraspalavras\/uploads\/2022\/03\/21175246\/Screenshot-2022-03-21-at-17-52-25-Projecao_Cisternas_final-1024x408.png?resize=640%2C255&#038;ssl=1\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" srcset=\"https:\/\/opara.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/outraspalavras\/uploads\/2022\/03\/21175246\/Screenshot-2022-03-21-at-17-52-25-Projecao_Cisternas_final-1024x408.png 1024w, https:\/\/opara.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/outraspalavras\/uploads\/2022\/03\/21175246\/Screenshot-2022-03-21-at-17-52-25-Projecao_Cisternas_final-300x120.png 300w, https:\/\/opara.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/outraspalavras\/uploads\/2022\/03\/21175246\/Screenshot-2022-03-21-at-17-52-25-Projecao_Cisternas_final-768x306.png 768w, https:\/\/opara.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/outraspalavras\/uploads\/2022\/03\/21175246\/Screenshot-2022-03-21-at-17-52-25-Projecao_Cisternas_final.png 1359w\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"255\" \/><\/figure>\n<p>Um\u00a0<a href=\"https:\/\/www.in.gov.br\/en\/web\/dou\/-\/edital-de-justificativa-n-3\/2021-367601363\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">edital de justificativa<\/a>, publicado pelo Minist\u00e9rio da Cidadania em 16 de dezembro de 2021, firmou 11 conv\u00eanios com cons\u00f3rcios intermunicipais e prefeituras para aplica\u00e7\u00e3o de R$ 31 milh\u00f5es do valor que n\u00e3o foi executado durante o ano na implanta\u00e7\u00e3o de tecnologias de acesso \u00e0 \u00e1gua. Os conv\u00eanios devem atender nove estados. A dispensa de concorr\u00eancia p\u00fablica \u00e9 justificada pela condi\u00e7\u00e3o de extrema pobreza do p\u00fablico-alvo. O edital traz a informa\u00e7\u00e3o de que 647 mil fam\u00edlias rurais n\u00e3o possuem nenhuma solu\u00e7\u00e3o adequada de acesso \u00e0 \u00e1gua no Semi\u00e1rido e 1,4 milh\u00e3o de fam\u00edlias est\u00e3o na mesma condi\u00e7\u00e3o no Brasil. A refer\u00eancia \u00e9 o Cadastro \u00danico \u2014 ferramenta do governo federal abastecida pelas prefeituras. O documento n\u00e3o informa qual ser\u00e1 o tipo de tecnologia empregada a partir desses conv\u00eanios, diz apenas que h\u00e1 27 possibilidades.<\/p>\n<p>As cisternas constru\u00eddas pela rede da ASA s\u00e3o de placas de cimento, t\u00eam formato cil\u00edndrico, s\u00e3o cobertas e instaladas a uma profundidade que mant\u00e9m a \u00e1gua fresca. Esse tipo de cisterna \u2014 que foi a principal tecnologia usada em anos anteriores \u2014 custa em torno de R$ 4,5 mil. Supondo que a mesma tecnologia seja empregada nos conv\u00eanios, seria poss\u00edvel construir apenas 6,9 mil unidades com o recurso dispon\u00edvel.<\/p>\n<figure><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/opara.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/outraspalavras\/uploads\/2022\/03\/21175328\/cisterna-1024x683-1.jpg?resize=640%2C427&#038;ssl=1\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" srcset=\"https:\/\/opara.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/outraspalavras\/uploads\/2022\/03\/21175328\/cisterna-1024x683-1.jpg 1024w, https:\/\/opara.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/outraspalavras\/uploads\/2022\/03\/21175328\/cisterna-1024x683-1-300x200.jpg 300w, https:\/\/opara.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/outraspalavras\/uploads\/2022\/03\/21175328\/cisterna-1024x683-1-768x512.jpg 768w, https:\/\/opara.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/outraspalavras\/uploads\/2022\/03\/21175328\/cisterna-1024x683-1-272x182.jpg 272w\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"427\" \/><figcaption><em>Cisterna de cimento<\/em><\/figcaption><\/figure>\n<p><strong>Queda no or\u00e7amento e falta de informa\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Al\u00e9m da a\u00e7\u00e3o de acesso \u00e0 \u00e1gua, procuramos informa\u00e7\u00f5es sobre outros seis programas alimentares que faziam parte do escopo de pol\u00edticas de seguran\u00e7a alimentar e nutricional e que eram complementares. S\u00e3o eles:<\/p>\n<ul>\n<li>Programa de Aquisi\u00e7\u00e3o de Alimentos (PAA)<\/li>\n<li>Assist\u00eancia T\u00e9cnica e Extens\u00e3o Rural (Ater)<\/li>\n<li>Distribui\u00e7\u00e3o de Alimentos a Grupos Populacionais Tradicionais e Espec\u00edficos<\/li>\n<li>Bolsa Verde<\/li>\n<li>Apoio a organiza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e promo\u00e7\u00e3o da cidadania de mulheres rurais<\/li>\n<li>Apoio ao desenvolvimento sustent\u00e1vel de comunidades quilombolas, povos ind\u00edgenas e comunidades tradicionais<\/li>\n<\/ul>\n<p>Os tr\u00eas primeiros da lista tiveram redu\u00e7\u00f5es de or\u00e7amento acima de 50% e os outros tr\u00eas n\u00e3o existem mais. O programa com maior or\u00e7amento entre eles \u00e9 o Programa de Aquisi\u00e7\u00e3o de Alimentos (PAA), que compra alimentos da agricultura familiar, gerando renda para esse p\u00fablico, e os distribui para institui\u00e7\u00f5es carentes. Assim como o Programa de Cisternas, o PAA existe h\u00e1 quase 20 anos e foi um importante gerador de renda para as fam\u00edlias rurais no Brasil. Ele surgiu como uma estrat\u00e9gia a partir do programa Fome Zero, criado em 2003. Nos anos seguintes, foram criados o Sistema Nacional de Seguran\u00e7a Alimentar e a Pol\u00edtica e o Plano Nacional de Seguran\u00e7a Alimentar e Nutricional.<\/p>\n<p>Um estudo do<a href=\"https:\/\/ojoioeotrigo.com.br\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/td_2482.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">\u00a0Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada (Ipea)<\/a>\u00a0sobre o PAA, publicado em 2019, aponta que, na \u00e9poca da cria\u00e7\u00e3o do programa, foi observado que gerar renda aos agricultores familiares n\u00e3o era suficiente. Eles precisavam de outras condi\u00e7\u00f5es para poder produzir, como \u201cacesso a conhecimento, recursos financeiros para a compra de insumos, acesso \u00e0 terra e \u00e0 \u00e1gua\u201d. Para suprir essas car\u00eancias \u00e9 que outras pol\u00edticas surgiram, como a Pol\u00edtica Nacional de Assist\u00eancia T\u00e9cnica e Extens\u00e3o Rural, o programa de cr\u00e9dito do Pronaf e o pr\u00f3prio Programa de Cisternas (que j\u00e1 era uma demanda antiga no Semi\u00e1rido).<\/p>\n<p>Em 2019, o PAA teve redu\u00e7\u00e3o de 77,3% no valor executado se comparado a 2014. Em 2020, o or\u00e7amento s\u00f3 n\u00e3o foi pior porque recebeu um incremento de R$ 500 milh\u00f5es via a\u00a0<a href=\"http:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/_ato2019-2022\/2020\/Mpv\/mpv957.htm#:~:text=MEDIDA%20PROVIS%C3%93RIA%20N%C2%BA%20957%2C%20DE%2024%20DE%20ABRIL%20DE%202020&amp;text=Abre%20cr%C3%A9dito%20extraordin%C3%A1rio%2C%20em%20favor,62%2C%20combinado%20com%20o%20art.\">Medida Provi<\/a><a href=\"http:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/_ato2019-2022\/2020\/Mpv\/mpv957.htm#:~:text=MEDIDA%20PROVIS%C3%93RIA%20N%C2%BA%20957%2C%20DE%2024%20DE%20ABRIL%20DE%202020&amp;text=Abre%20cr%C3%A9dito%20extraordin%C3%A1rio%2C%20em%20favor,62%2C%20combinado%20com%20o%20art.\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">s<\/a><a href=\"http:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/_ato2019-2022\/2020\/Mpv\/mpv957.htm#:~:text=MEDIDA%20PROVIS%C3%93RIA%20N%C2%BA%20957%2C%20DE%2024%20DE%20ABRIL%20DE%202020&amp;text=Abre%20cr%C3%A9dito%20extraordin%C3%A1rio%2C%20em%20favor,62%2C%20combinado%20com%20o%20art.\">\u00f3ria 957<\/a>\u00a0\u2014 um recurso ligado \u00e0 pandemia e que foi conquistado ap\u00f3s press\u00e3o da\u00a0<a href=\"https:\/\/agroecologia.org.br\/2020\/04\/28\/paa-urgente-mais-recursos-e-agilidade-na-compra-e-distribuicao-dos-alimentos\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Articula\u00e7\u00e3o Nacional de Agroecologia<\/a>. Naquele ano, o Minist\u00e9rio da Cidadania executou 43,7% do recurso dispon\u00edvel (R$ 291,9 milh\u00f5es). Como os dados que solicitamos via Lei de Acesso \u00e0 Informa\u00e7\u00e3o est\u00e3o incompletos, n\u00e3o foi poss\u00edvel entender o que ocorreu em 2021.<\/p>\n<p>O que podemos afirmar \u00e9 que, de acordo com a atualiza\u00e7\u00e3o do Painel do Or\u00e7amento Federal, o or\u00e7amento de 2021 foi na casa dos\u00a0 R$ 135,2 milh\u00f5es. Destes, apenas R$ 58 milh\u00f5es foram pagos aos agricultores, o que representa redu\u00e7\u00e3o de 86,5% se comparado a 2014. Mas \u00e9 prov\u00e1vel que a sobra do recurso de 2020 tenha sido aplicada em 2021. Significa que or\u00e7amentos empenhados em anos anteriores, mas que n\u00e3o foram totalmente executados, podem ser pagos nos anos subsequentes. Essa sobra de recursos \u00e9 chamada pelo governo de \u201crestos a pagar\u201d e n\u00e3o consta no painel.<\/p>\n<figure><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/opara.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/outraspalavras\/uploads\/2022\/03\/21175411\/Screenshot-2022-03-21-at-17-53-57-PAA-1024x424.png?resize=640%2C265&#038;ssl=1\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" srcset=\"https:\/\/opara.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/outraspalavras\/uploads\/2022\/03\/21175411\/Screenshot-2022-03-21-at-17-53-57-PAA-1024x424.png 1024w, https:\/\/opara.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/outraspalavras\/uploads\/2022\/03\/21175411\/Screenshot-2022-03-21-at-17-53-57-PAA-300x124.png 300w, https:\/\/opara.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/outraspalavras\/uploads\/2022\/03\/21175411\/Screenshot-2022-03-21-at-17-53-57-PAA-768x318.png 768w, https:\/\/opara.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/outraspalavras\/uploads\/2022\/03\/21175411\/Screenshot-2022-03-21-at-17-53-57-PAA.png 1366w\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"265\" \/><\/figure>\n<p>De acordo comCarlos Eduardo Leite, do N\u00facleo Executivo da Articula\u00e7\u00e3o Nacional de Agroecologia (ANA) pelo Nordeste e coordenador geral do Servi\u00e7o de Assessoria a Organiza\u00e7\u00f5es Populares Rurais (Sasop), os programas eram pol\u00edticas que chegavam ao agricultor familiar e davam condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas de produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Desmonte de pol\u00edticas alimentares<\/strong><\/p>\n<p>A extin\u00e7\u00e3o do Conselho Nacional de Seguran\u00e7a Alimentar e Nutricional (Consea), em setembro de 2019, \u00e9 apontada pelas organiza\u00e7\u00f5es ligadas ao tema como uma das principais atua\u00e7\u00f5es de desmonte das pol\u00edticas alimentares. Institu\u00eddo em 1993, ainda no governo Itamar Franco e com uma pausa durante o governo Fernando Henrique, o Consea tinha a tarefa de articular as tr\u00eas inst\u00e2ncias de governo (municipal, estadual e federal), os representantes da sociedade civil e as institui\u00e7\u00f5es que trabalhavam com a seguran\u00e7a alimentar. Era o Consea que monitorava o andamento e a presta\u00e7\u00e3o de contas dos programas alimentares e fazia a conex\u00e3o direta com o presidente da Rep\u00fablica.<\/p>\n<p>\u201cHavia uma agenda organizada por tr\u00e1s da seguran\u00e7a alimentar e nutricional que estava ancorada em parte nesses programas, em parte no Consea e em uma alian\u00e7a com o Minist\u00e9rio P\u00fablico na defesa dos povos e comunidades tradicionais e no questionamento da agenda fundi\u00e1ria. O jeito de voc\u00ea matar esse espa\u00e7o e esse questionamento da ind\u00fastria de alimentos \u00e9 eliminando o Consea e deixando morrer de inani\u00e7\u00e3o essas outras coisas\u201d, avaliou uma especialista em Pol\u00edticas P\u00fablicas e Gest\u00e3o Governamental e servidora de carreira que atuou nas pol\u00edticas de seguran\u00e7a alimentar, mas que prefere n\u00e3o se identificar por medo de sofrer persegui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A especialista ouvida pela reportagem lembra que os programas j\u00e1 come\u00e7aram a perder or\u00e7amento no governo Dilma (2011-2016) por conta da crise fiscal, mas enfraqueceram ainda mais nas gest\u00f5es seguintes (Temer e Bolsonaro) com a desestrutura\u00e7\u00e3o de minist\u00e9rios e secretarias que pensavam estrat\u00e9gias de combate \u00e0 fome.<\/p>\n<p><strong>Balde na cabe\u00e7a, carrinho na m\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Embora o Programa de Cisternas, ao longo de quase 20 anos, tenha alcan\u00e7ado mais de um milh\u00e3o de fam\u00edlias que vivem no Semi\u00e1rido, em nove estados do Nordeste e em Minas Gerais muitas fam\u00edlias como a de Aric\u00e9lia, a jovem do in\u00edcio da nossa hist\u00f3ria, ainda n\u00e3o t\u00eam acesso a uma fonte de \u00e1gua.<\/p>\n<p>\u201cO acesso \u00e0 \u00e1gua no Semi\u00e1rido foi, desde o princ\u00edpio, alocado dentro da a\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a alimentar do governo federal ligado ao [extinto] Minist\u00e9rio do Desenvolvimento Social, no combate \u00e0 fome, ou seja, numa associa\u00e7\u00e3o direta entre ter acesso \u00e0 \u00e1gua e ter acesso a alimentos\u201d, disse Alexandre Pires, da ASA.<\/p>\n<p>Quem tem acesso \u00e0 rede de \u00e1gua e esgoto n\u00e3o faz ideia de como \u00e9 carregar baldes e bacias para realizar os afazeres b\u00e1sicos do dia a dia. Mais distante ainda est\u00e1 a realidade de quem n\u00e3o tem uma fonte de \u00e1gua no quintal de casa para fazer esse manuseio e depende da solidariedade de vizinhos para alimentar os pr\u00f3prios filhos.<\/p>\n<p>T\u00edmida com a nossa presen\u00e7a, Aric\u00e9lia conta em poucas palavras como \u00e9 a rotina de quem ainda n\u00e3o tem a tecnologia. Quando o marido consegue algum contrato para trabalhar de pedreiro na cidade, ela se encarrega de caminhar quil\u00f4metros todos os dias para buscar \u00e1gua. Mas quem tem a cisterna tamb\u00e9m precisa racionar o l\u00edquido para que ele dure o ano inteiro. Dividir o pouco que se tem \u00e9 um desafio.<\/p>\n<p>\u201cQuando o meu marido n\u00e3o est\u00e1 em casa, eu preciso levar os meninos junto comigo, no sol quente. A dor no bra\u00e7o [de carregar os baldes] \u00e9 ruim. Tem vezes que eu deixo as crian\u00e7as l\u00e1 [na casa dos vizinhos] e venho botar \u00e1gua aqui e tem vezes que eu deixo s\u00f3 a menina e ele [filho de 3 anos] vem atr\u00e1s de mim.\u201d<\/p>\n<p>A mesma dificuldade \u00e9 vivida pelo casal Narla dos Santos Louren\u00e7o, 20 anos, e Francisco dos Santos Silva, 26, que moram na comunidade Pimenteira, no munic\u00edpio de Remanso, na microrregi\u00e3o de Juazeiro. Ela equilibra um balde na cabe\u00e7a e ele carrega um compartimento maior dentro de um carrinho para buscar \u00e1gua na casa dos pais de Francisco. Como a \u00e1gua pot\u00e1vel da cisterna \u00e9 dividida entre duas fam\u00edlias, o casal faz uso dela apenas para beber e cozinhar. As outras tarefas do dia a dia s\u00e3o feitas com \u00e1gua salgada coletada de um po\u00e7o.<\/p>\n<p>\u201cPor conta da \u00e1gua salgada, tem que usar mais detergente para lavar a lou\u00e7a, sen\u00e3o fica tudo manchado. Para lavar a roupa tamb\u00e9m gasta mais sab\u00e3o, porque n\u00e3o ensaboa. E para lavar o cabelo \u00e9 a mesma coisa\u201d, contou Narla.<\/p>\n<figure><iframe loading=\"lazy\" title=\"Como a redu\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de recursos destinados \u00e0 seguran\u00e7a alimentar afeta a popula\u00e7\u00e3o brasileira\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/wL4PG4QRx_M?feature=oembed\" width=\"500\" height=\"281\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/figure>\n<p>Um dos t\u00e9cnicos do Servi\u00e7o de Assessoria a Organiza\u00e7\u00f5es Populares Rurais (Sasop) que nos acompanhou no percurso, Neilton Dias da Silva, explica que a maioria das fam\u00edlias possui apenas a cisterna da primeira \u00e1gua, ou seja, de consumo, com capacidade de 16 mil litros de armazenamento. A capta\u00e7\u00e3o da \u00e1gua da chuva \u00e9 feita aproveitando o telhado das casas, que escoa a \u00e1gua atrav\u00e9s das calhas. O reservat\u00f3rio, por\u00e9m, acaba n\u00e3o sendo suficiente para abastecer a fam\u00edlia o ano inteiro. Por isso, elas dependem dos caminh\u00f5es pipa, bancados pelo Ex\u00e9rcito, que distribuem \u00e1gua coletada no rio S\u00e3o Francisco (que n\u00e3o \u00e9 tratada). \u201cSe o pipa n\u00e3o vem logo, a cisterna fica seca e a fam\u00edlia \u00e9 obrigada a comprar \u00e1gua\u201d, disse o t\u00e9cnico.<\/p>\n<p>Quando precisam comprar \u00e1gua de fornecedores privados, os moradores gastam em m\u00e9dia R$ 200 para abastecer o reservat\u00f3rio, o que corresponde a metade ou quase toda a renda da fam\u00edlia. J\u00e1 os que possuem a cisterna de segunda \u00e1gua, que comporta 52 mil litros e serve para produzir alimentos, conseguem garantir \u00e1gua para consumo por mais tempo. Essa \u00e9 uma tecnologia que capta a \u00e1gua da chuva por meio de um cal\u00e7ad\u00e3o de cimento de 200 metros quadrados constru\u00eddo sobre o solo. A \u00e1gua \u00e9 direcionada para a cisterna atrav\u00e9s de um cano. A constru\u00e7\u00e3o custa em m\u00e9dia R$ 19 mil. S\u00f3 recebe a cisterna de segunda \u00e1gua quem j\u00e1 tem a primeira. A ASA estima que h\u00e1 800 mil fam\u00edlias aguardando a constru\u00e7\u00e3o dessa tecnologia.<\/p>\n<p><strong>Acesso \u00e0 \u00e1gua permite que fam\u00edlias produzam o pr\u00f3prio alimento<\/strong><\/p>\n<p>O quintal de dona Jandira Ribeiro de Souza, 78 anos, na comunidade Caldeir\u00e3o do Boi, que tamb\u00e9m fica em Pil\u00e3o Arcado, \u00e9 a prova viva de que o acesso a mais de uma tecnologia (cisternas de primeira e segunda \u00e1gua) possibilita a produ\u00e7\u00e3o de alimentos no Semi\u00e1rido. Ela foi uma das primeiras moradoras da comunidade a ser contemplada, em 2003. A cisterna menor, que \u00e9 bastante antiga, j\u00e1 est\u00e1 com problema, ent\u00e3o ela usa a do filho, que mora ao lado, para coletar \u00e1gua pot\u00e1vel. J\u00e1 a cisterna de produ\u00e7\u00e3o, que abastece as duas casas, permite que ela, os filhos e as noras plantem quase tudo o que consomem e ainda mantenham um pequeno laguinho de peixe. No quintal tem hortali\u00e7as, legumes, verduras, frutas e ervas medicinais de todo tipo. Jandira tamb\u00e9m planta leucena, uma leguminosa que serve de ra\u00e7\u00e3o para algumas cabras que ela e os filhos criam.<\/p>\n<p>\u201cEu viajei duas l\u00e9guas [para me inscrever no programa] e ganhar a cisterna. Fui [participar das reuni\u00f5es] montada num jumento [\u2026]. N\u00e3o foi brincadeira n\u00e3o, meu esposo n\u00e3o queria ir, mas eu disse: \u2018eu vou, que eu n\u00e3o vou ficar sem \u00e1gua, todo mundo vai por que eu n\u00e3o posso ganhar uma?\u2019. [\u2026] Antes da cisterna n\u00e3o plantava n\u00e3o, minha filha.\u201d<\/p>\n<figure><iframe loading=\"lazy\" title=\"Como a redu\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de recursos destinados \u00e0 seguran\u00e7a alimentar afeta a popula\u00e7\u00e3o brasileira\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/bJ0NKCkeyk8?feature=oembed\" width=\"500\" height=\"281\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/figure>\n<p>O que n\u00e3o d\u00e1 para plantar, a fam\u00edlia compra com a renda obtida atrav\u00e9s do antigo Bolsa Fam\u00edlia, agora Aux\u00edlio Brasil, como o arroz, o a\u00e7\u00facar, a tapioca e a carne (essa \u00faltima com menos frequ\u00eancia).<\/p>\n<p>A constru\u00e7\u00e3o dos tanques foi feita por profissionais da pr\u00f3pria comunidade, que receberam capacita\u00e7\u00e3o para fazer o servi\u00e7o. O material tamb\u00e9m foi comprado localmente. Todo esse processo ajudou a gerar renda nas comunidades atendidas pelo programa.<\/p>\n<p><strong>Conex\u00e3o entre programas alimentares gera renda no meio rural<\/strong><\/p>\n<p>O acesso \u00e0 \u00e1gua permite que as fam\u00edlias que vivem em regi\u00f5es isoladas, onde n\u00e3o h\u00e1 alternativas de renda, forne\u00e7am seus alimentos a programas de governo. No ano passado, a fam\u00edlia da dona Jandira acessou pela primeira vez o PAA e conseguiu uma renda extra de R$ 3 mil, que foi dividida entre tr\u00eas fam\u00edlias. Os alimentos produzidos no quintal de casa foram vendidos em tr\u00eas etapas. Se houvesse mais investimento para que a pol\u00edtica de seguran\u00e7a alimentar fosse cont\u00ednua, os produtores teriam uma garantia de renda mais duradoura.<\/p>\n<p>O recurso do PAA chegou ao conhecimento dos moradores de Pil\u00e3o Arcado de \u00faltima hora. Embora tenha durado apenas tr\u00eas meses, abriu uma porta para a jovem Angela Souza Santos, 19 anos, da comunidade Jatob\u00e1. A possibilidade de vender para o programa foi um incentivo para que ela desse in\u00edcio ao pr\u00f3prio neg\u00f3cio e ajudasse na renda familiar. \u201cA gente fez tr\u00eas entregas de petas e hortali\u00e7as. S\u00f3 de petas n\u00f3s fornecemos um total de R$ 3 mil, foi biscoito pra danar, s\u00f3 sei que encheram o carro e levaram tudo\u201d, contou.<\/p>\n<p>Angela tem esperan\u00e7a de continuar vendendo para o PAA \u2014 programa que j\u00e1 n\u00e3o leva mais o mesmo nome. A Medida Provis\u00f3ria que instituiu o Aux\u00edlio Brasil no lugar do Bolsa Fam\u00edlia tamb\u00e9m mudou o PAA para Alimenta Brasil. Quando a MP ainda estava em vota\u00e7\u00e3o no Congresso, no segundo semestre do ano passado, as entidades que atuam na \u00e1rea de seguran\u00e7a alimentar\u00a0<a href=\"https:\/\/fbssan.org.br\/2021\/10\/entidades-se-posicionam-pela-rejeicao-de-mp-que-extingue-bolsa-familia-e-paa-2\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">se manifestaram contra<\/a>\u00a0as mudan\u00e7as sob o argumento de que faltavam crit\u00e9rios bem definidos, o que poderia dar margem para mascarar a aus\u00eancia de recursos.<\/p>\n<p>O professor da Universidade Federal do Rec\u00f4ncavo Baiano (UFRB) e ex-diretor da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), Silvio Porto, que contribuiu para a elabora\u00e7\u00e3o do manifesto das entidades, n\u00e3o acredita que o programa ter\u00e1 chances de crescimento no novo formato. \u201cEmbora tenha sido mantida a estrutura do grupo gestor e o nome das modalidades, tudo est\u00e1 por ser regulamentado, \u00e9 um cheque em branco porque n\u00e3o se sabe de que forma ela se dar\u00e1. O que provavelmente vai acontecer \u00e9 que n\u00e3o ter\u00e1 execu\u00e7\u00e3o e, se tiver, ser\u00e1 numa escala muito pequena.\u201d<\/p>\n<p><strong>Mulheres, as mais afetadas<\/strong><\/p>\n<p>Diferente de Jandira e Angela, a agricultora e uma das diretoras do Movimento de Mulheres Camponesas no Brasil Lucivanda Silva, 46 anos, conhece o PAA h\u00e1 muito tempo e est\u00e1 sentindo na pele o impacto da redu\u00e7\u00e3o de recursos. Ela, que vive em Governador Valadares, mesorregi\u00e3o do Rio Doce, em Minas Gerais, conta que v\u00e1rios agricultores de sua regi\u00e3o perderam acesso ao PAA e ao programa de Assist\u00eancia T\u00e9cnica e Extens\u00e3o Rural durante a pandemia. As mais afetadas, na avalia\u00e7\u00e3o de Lucivanda, foram as mulheres. As agricultoras n\u00e3o tinham como escoar a produ\u00e7\u00e3o porque as feiras tamb\u00e9m pararam. Elas acabaram doando os alimentos para as mulheres da \u00e1rea urbana que perderam seus empregos.<\/p>\n<p>\u201cA gente tira o sustento do rural, mas tamb\u00e9m precisa vender uma parte para comprar o b\u00e1sico como rem\u00e9dios e pagar a conta de luz\u201d, disse Lucivanda. \u201cA gente sabe que o recurso reduziu, mas o pouco que tinha foi limitado. Se compraram aqui na regi\u00e3o, foi de quem n\u00e3o precisava, compraram de grandes associa\u00e7\u00f5es que n\u00e3o s\u00e3o da agricultura familiar\u201d, advertiu.<\/p>\n<p>A sobreviv\u00eancia das mulheres do campo na regi\u00e3o do Rio Doce tem dependido do apoio de entidades e organiza\u00e7\u00f5es que atuam com projetos sociais. Nem o Aux\u00edlio Emergencial elas conseguiram acessar no per\u00edodo mais cr\u00edtico da pandemia. Governador Valadares foi uma das cidades mais afetadas pelo rompimento da barragem de rejeitos em Mariana, em 2015, o que tamb\u00e9m gerou preconceito sobre o trabalho das camponesas. \u201cMuita gente n\u00e3o compra os nossos produtos porque acha que a gente usa \u00e1gua do Rio Doce\u201d, contou. Lucivanda garante que as produtoras n\u00e3o usam a \u00e1gua contaminada do rio, pois contam com cisternas e po\u00e7os artesianos para irrigar a produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No or\u00e7amento do Executivo aprovado para 2022, h\u00e1 um total de R$ 200 milh\u00f5es previstos para o PAA. Por\u00e9m, metade desse recurso, ou seja, R$ 100 milh\u00f5es, est\u00e1 sob o guarda-chuva da emenda parlamentar do relator da Lei Or\u00e7ament\u00e1ria Anual, que este ano \u00e9 o deputado Hugo Leal (PSD-RJ). N\u00e3o h\u00e1 garantias de que a emenda do relator, que ficou conhecida como \u201cor\u00e7amento secreto\u201d, ser\u00e1 executada. Se for, o relator ter\u00e1 autonomia para decidir quais s\u00e3o os munic\u00edpios que v\u00e3o receber esse recurso do PAA.<\/p>\n<p>Os R$ 100 milh\u00f5es que restaram est\u00e3o divididos da seguinte forma: uma fatia de R$ 18,3 milh\u00f5es corresponde a emendas individuais impositivas, que normalmente s\u00e3o direcionadas pelos deputados e senadores aos seus estados, e outra parcela de R$ 29,2 milh\u00f5es \u00e9 de emenda de bancada estadual de execu\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria. Nos dois casos, o Minist\u00e9rio da Cidadania tem obriga\u00e7\u00e3o de executar o recurso com o PAA. A \u00faltima fatia de R$ 53 milh\u00f5es tem gest\u00e3o discricion\u00e1ria do Minist\u00e9rio da Cidadania, ou seja, a pasta tem autoriza\u00e7\u00e3o para usar o recurso, mas n\u00e3o tem obriga\u00e7\u00e3o de execut\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Silvio Porto faz um alerta sobre a opera\u00e7\u00e3o de programas como o PAA e o de Cisternas por emendas parlamentares, uma vez que elas deixam de estar sujeitas aos crit\u00e9rios de sele\u00e7\u00e3o dos editais. \u201c\u00c9 importante que o parlamentar queira operar, mas a opera\u00e7\u00e3o n\u00e3o poderia ser da forma como \u00e9\u201d, avalia. \u201cEssa coisa direcionada serve exatamente para um processo de subordina\u00e7\u00e3o, \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que amarra a organiza\u00e7\u00e3o ao parlamentar, que est\u00e1 fazendo isso mediante uma expectativa de retorno eleitoral.\u201d<\/p>\n<p><strong>Redu\u00e7\u00e3o de recurso faz cooperativas desistirem de Assist\u00eancia T\u00e9cnica<\/strong><\/p>\n<p>O or\u00e7amento de Assist\u00eancia T\u00e9cnica e Extens\u00e3o Rural (Ater) caiu 89,6% em seis anos (de 2014 para 2020). Esse programa foi criado em 2010 para ajudar os agricultores familiares a aperfei\u00e7oar o sistema de produ\u00e7\u00e3o e acessar diferentes formas de renda. Cooperativas ou associa\u00e7\u00f5es s\u00e3o contratadas para oferecer esse servi\u00e7o aos agricultores por meio de uma equipe multidisciplinar, que normalmente \u00e9 formada por t\u00e9cnico agr\u00edcola, engenheiro agr\u00f4nomo, veterin\u00e1rio, bi\u00f3logo e assistente social.<\/p>\n<p>Escolhemos avaliar o or\u00e7amento, e n\u00e3o o valor pago desse programa, porque os contratos firmados com as cooperativas que prestam o servi\u00e7o s\u00e3o longos e podem durar at\u00e9 36 meses, sendo pagos \u00e0 medida que s\u00e3o finalizadas as etapas de execu\u00e7\u00e3o das atividades. Segundo o Minist\u00e9rio da Agricultura, Pecu\u00e1ria e Abastecimento (Mapa), outro fator que influencia nessa an\u00e1lise \u00e9 o fato de que os valores empenhados no final do ano podem ser classificados como restos a pagar para o ano seguinte.<\/p>\n<figure><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/opara.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/outraspalavras\/uploads\/2022\/03\/21175638\/Screenshot-2022-03-21-at-17-56-28-Assistencia-Tecnica-e-Extensao-Rural-1024x424.png?resize=640%2C265&#038;ssl=1\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" srcset=\"https:\/\/opara.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/outraspalavras\/uploads\/2022\/03\/21175638\/Screenshot-2022-03-21-at-17-56-28-Assistencia-Tecnica-e-Extensao-Rural-1024x424.png 1024w, https:\/\/opara.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/outraspalavras\/uploads\/2022\/03\/21175638\/Screenshot-2022-03-21-at-17-56-28-Assistencia-Tecnica-e-Extensao-Rural-300x124.png 300w, https:\/\/opara.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/outraspalavras\/uploads\/2022\/03\/21175638\/Screenshot-2022-03-21-at-17-56-28-Assistencia-Tecnica-e-Extensao-Rural-768x318.png 768w, https:\/\/opara.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/outraspalavras\/uploads\/2022\/03\/21175638\/Screenshot-2022-03-21-at-17-56-28-Assistencia-Tecnica-e-Extensao-Rural.png 1366w\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"265\" \/><\/figure>\n<p>Dois integrantes de cooperativas contratadas pelo programa, que pediram para n\u00e3o serem identificados, disseram que o pagamento sempre foi um problema. Eles afirmam que a situa\u00e7\u00e3o piorou a partir de 2017, quando o Minist\u00e9rio do Desenvolvimento Agr\u00e1rio (MDA) virou uma secretaria dentro do Mapa. A burocracia, afirmam os trabalhadores, engessou a atua\u00e7\u00e3o dos t\u00e9cnicos na atividade em campo. O or\u00e7amento tamb\u00e9m minguou, for\u00e7ando as cooperativas a diminu\u00edrem as equipes multidisciplinares, o que, segundo eles, afetou a qualidade do trabalho.<\/p>\n<p>\u201cN\u00f3s hav\u00edamos contratado t\u00e9cnicos para trabalhar em 100% das metas e, no meio do caminho, tivemos que chamar todo mundo e dizer que n\u00e3o daria pra fazer tudo porque, segundo eles, n\u00e3o havia or\u00e7amento\u201d, contou um dos prestadores de servi\u00e7o.<\/p>\n<p><strong>Tr\u00eas a\u00e7\u00f5es ligadas \u00e0 seguran\u00e7a alimentar desapareceram<\/strong><\/p>\n<p>O Minist\u00e9rio do Meio Ambiente confirmou ao\u00a0<strong>Joio\u00a0<\/strong>que o Programa Bolsa Verde foi descontinuado. No per\u00edodo em que foi operado, entre 2013 e 2017, contou com recursos que variaram entre R$ 50 milh\u00f5es e R$ 90 milh\u00f5es. Segundo o economista e ex-secret\u00e1rio Nacional de Seguran\u00e7a Alimentar Arnoldo de Campos, o Bolsa Verde teve um papel importante na redu\u00e7\u00e3o do desmatamento, especialmente na Amaz\u00f4nia. As fam\u00edlias que tinham direito ao benef\u00edcio moravam nas florestas. Embora n\u00e3o fosse um valor muito expressivo, ele se somava ao Bolsa Fam\u00edlia e complementava a renda.<\/p>\n<p>\u201cA renda era para a fam\u00edlia ajudar a cuidar daquele ambiente e n\u00e3o precisar desmatar para ganhar dinheiro. A pol\u00edtica era da \u00e1rea ambiental, mas tinha impacto na seguran\u00e7a alimentar, porque essas comunidades s\u00e3o extremamente pobres. Ent\u00e3o, pra poder viabilizar gente para o garimpo e a minera\u00e7\u00e3o, aceitando qualquer coisa, voc\u00ea tira o Bolsa Verde, porque tira a dignidade das pessoas\u201d, disse o ex-secret\u00e1rio.<\/p>\n<p>As outras duas a\u00e7\u00f5es que foram encerradas s\u00e3o a de Apoio a Organiza\u00e7\u00e3o Econ\u00f4mica e Promo\u00e7\u00e3o da Cidadania de Mulheres Rurais e a de Apoio ao Desenvolvimento Sustent\u00e1vel de Comunidades Quilombolas, Povos Ind\u00edgenas e Comunidades Tradicionais. Elas eram vinculadas a programas do extinto Minist\u00e9rio do Desenvolvimento Agr\u00e1rio (MDA) e contavam com or\u00e7amentos muito pequenos, pois eram pol\u00edticas que ainda estavam em desenvolvimento.<\/p>\n<p>Michela Cala\u00e7a, do Movimento de Mulheres Camponesas, chegou a coordenar a a\u00e7\u00e3o referente \u00e0s mulheres rurais no segundo mandato do governo Dilma. Nos anos em que o programa prosperou, segundo Michela, v\u00e1rias atividades foram constru\u00eddas com o intuito de protagonizar as mulheres do campo. Ocorreram chamadas p\u00fablicas s\u00f3 para mulheres no Programa de Assist\u00eancia T\u00e9cnica e Extens\u00e3o Rural, foram criados grupos de forma\u00e7\u00e3o e houve encaminhamentos das agricultoras para programas de gera\u00e7\u00e3o de renda.<\/p>\n<p>\u201cEra um programa que estava testando a\u00e7\u00f5es de pol\u00edticas para mulheres e construindo isso junto com elas. Isso teve um impacto interessante e resultados muito bons porque era feito em di\u00e1logo. Mas eram experi\u00eancias pontuais quando voc\u00ea pensa no Brasil inteiro com o or\u00e7amento que tinha\u201d, explicou Michela.<\/p>\n<p>Como eram a\u00e7\u00f5es com pouco investimento, as fam\u00edlias que visitamos no sert\u00e3o da Bahia nunca ouviram falar delas. Na regi\u00e3o da agricultora Lucivanda, em Minas Gerais, tamb\u00e9m n\u00e3o ocorreu nenhuma atividade. Conversamos com Luzia Ant\u00f4nia Apodonepa, lideran\u00e7a ind\u00edgena no Mato Grosso, que tamb\u00e9m n\u00e3o ouviu falar desses programas. Ela teve conhecimento apenas do PAA e do Programa Nacional de Alimenta\u00e7\u00e3o Escolar (Pnae). Embora tenha feito movimentos para que os ind\u00edgenas da Aldeia Umutina\/Balatipon\u00e9, em Barra do Bugres, pudessem produzir alimentos para esses programas, n\u00e3o obteve sucesso.<\/p>\n<p>\u201cOs ind\u00edgenas moram em cima do territ\u00f3rio rico de \u00e1gua, minerais, terra f\u00e9rtil, mas muitas comunidades n\u00e3o conseguem produzir nem para consumo pr\u00f3prio, pois quando v\u00e3o atr\u00e1s do recurso, n\u00e3o t\u00eam direito, porque n\u00e3o t\u00eam o documento da terra. Como voc\u00ea vai pegar recurso se voc\u00ea n\u00e3o comprova que \u00e9 dono da terra? N\u00f3s somos considerados agricultores familiares, mas quando vamos acessar o programa, n\u00e3o temos direito. O \u00edndio \u00e9 um povo sem terra\u201d, disse Luzia.<\/p>\n<p>No Painel do Or\u00e7amento Federal, a a\u00e7\u00e3o das mulheres rurais aparece entre os anos 2014 e 2019. S\u00f3 que no \u00faltimo ano, j\u00e1 no governo Bolsonaro, o or\u00e7amento diminuiu 98,8% (de R$ 32,5 milh\u00f5es, em 2014, para R$ 400 mil, em 2019) e nem sequer chegou a ser executado. Os valores pagos nos anos anteriores tamb\u00e9m foram bem inferiores ao or\u00e7amento.<\/p>\n<p>O or\u00e7amento da a\u00e7\u00e3o envolvendo as comunidades quilombolas, povos ind\u00edgenas e comunidades tradicionais foi ainda mais inexpressivo. Os valores executados entre 2013 e 2015 n\u00e3o chegam a R$ 2 milh\u00f5es. Os or\u00e7amentos de 2016 e 2017 n\u00e3o foram executados e n\u00e3o h\u00e1 informa\u00e7\u00f5es sobre os anos seguintes.<\/p>\n<p>O Mapa confirmou que as duas a\u00e7\u00f5es foram descontinuadas e justificou que os mesmos p\u00fablicos, tanto das mulheres rurais quanto dos quilombolas, povos ind\u00edgenas e comunidades tradicionais, continuam sendo atendidos pelas a\u00e7\u00f5es da Secretaria de Agricultura Familiar e Cooperativismo.A nova a\u00e7\u00e3o que inclui esses grupos chama Desenvolvimento Sustent\u00e1vel da Bioeconomia.. Embora tenha tido um or\u00e7amento de R$ 8 milh\u00f5es no primeiro ano de opera\u00e7\u00e3o, o valor executado foi de apenas R$ 501. Dos R$ 7 milh\u00f5es previstos para 2021, apenas R$ 254,9 mil foram executados.<\/p>\n<figure><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/opara.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/outraspalavras\/uploads\/2022\/03\/21175708\/grafico-painel-orcamento-federal-v1-1024x352-1.png?resize=640%2C220&#038;ssl=1\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" srcset=\"https:\/\/opara.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/outraspalavras\/uploads\/2022\/03\/21175708\/grafico-painel-orcamento-federal-v1-1024x352-1.png 1024w, https:\/\/opara.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/outraspalavras\/uploads\/2022\/03\/21175708\/grafico-painel-orcamento-federal-v1-1024x352-1-300x103.png 300w, https:\/\/opara.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/outraspalavras\/uploads\/2022\/03\/21175708\/grafico-painel-orcamento-federal-v1-1024x352-1-768x264.png 768w\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"220\" \/><\/figure>\n<p>J\u00e1 pelo Programa de Distribui\u00e7\u00e3o de Alimentos a Grupos Populacionais Tradicionais e Espec\u00edficos, que distribui cestas b\u00e1sicas, embora tenha tido um or\u00e7amento tr\u00eas vezes maior em 2021 se comparado a 2014, o valor executado caiu pela metade (de R$ 40,9 milh\u00f5es para R$ 18,6). Esse programa continua existindo e tem or\u00e7amento para 2022.<\/p>\n<h3><strong>Contrapontos<\/strong><\/h3>\n<p>O Minist\u00e9rio da Cidadania justificou que a retra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica causada pela pandemia impactou o setor da constru\u00e7\u00e3o civil e, consequentemente, o Programa de Cisternas. Al\u00e9m da escassez de material no mercado, as entidades executoras \u201cregistraram pre\u00e7os at\u00e9 100% superiores\u201d aos praticados antes da pandemia. Para acompanhar o novo cen\u00e1rio, o Minist\u00e9rio afirma que est\u00e1 atualizando o custo unit\u00e1rio de refer\u00eancia das tecnologias para buscar recursos que possam financiar a contrata\u00e7\u00e3o de mais reservat\u00f3rios.<\/p>\n<p>Sobre o PAA, o\u00a0<strong>Joio\u00a0<\/strong>recebeu duas informa\u00e7\u00f5es diferentes. A primeira foi enviada via Lei de Acesso \u00e0 Informa\u00e7\u00e3o em 16 de novembro de 2021. Na ocasi\u00e3o, a ouvidoria do Minist\u00e9rio da Cidadania n\u00e3o informou o valor pago aos agricultores no ano corrente. No Painel de Or\u00e7amento Federal, por\u00e9m, foi publicado o valor de R$ 58 milh\u00f5es como pagos em 2021. Quando questionamos o Minist\u00e9rio da Cidadania por e-mail sobre a redu\u00e7\u00e3o do or\u00e7amento, eles nos responderam que fizeram um pagamento de R$ 260,9 milh\u00f5es aos agricultores \u2014 valor 4,5 vezes maior do que o publicado no\u00a0<a href=\"https:\/\/drive.google.com\/file\/d\/1wmq8fOaQXMkAgt2J_CcSZLiSZiGzVfol\/view?usp=sharing\">Painel do Or\u00e7amento Federal<\/a>. N\u00f3s questionamos a discrep\u00e2ncia de valores, mas n\u00e3o recebemos retorno at\u00e9 a publica\u00e7\u00e3o desta reportagem. At\u00e9 ent\u00e3o, o painel do or\u00e7amento n\u00e3o havia sido atualizado com o novo valor informado pelo Minist\u00e9rio. Fontes ouvidas pela reportagem disseram que esse valor 4,5 vezes maior pode ser a sobreposi\u00e7\u00e3o de valores classificados como \u201crestos a pagar\u201d, ou seja, recursos empenhados em anos anteriores e que s\u00f3 foram pagos em 2021.<\/p>\n<p>Sobre o programa de distribui\u00e7\u00e3o de cestas b\u00e1sicas, a ouvidoria do Minist\u00e9rio da Cidadania informou via LAI, em novembro de 2021, que foram pagos 18,6 milh\u00f5es e esse valor serviu para atender 164,2 mil fam\u00edlias at\u00e9 aquele momento. Por\u00e9m, quando questionamos a redu\u00e7\u00e3o de or\u00e7amento por e-mail, em 11 de mar\u00e7o deste ano, o Minist\u00e9rio afirmou que mais de 1 milh\u00e3o de cestas de alimentos foram distribu\u00eddas, beneficiando cerca de 600 mil fam\u00edlias, mas n\u00e3o falou sobre o valor aplicado.<\/p>\n<p>O Mapa justificou que o programa de Assist\u00eancia T\u00e9cnica e Extens\u00e3o Rural foi reduzido em fun\u00e7\u00e3o \u201cda crise econ\u00f4mica no pa\u00eds\u201d e pela \u201cconsequente redu\u00e7\u00e3o or\u00e7ament\u00e1ria\u201d. \u201cO processo de repactua\u00e7\u00e3o de todos os contratos em execu\u00e7\u00e3o levou em considera\u00e7\u00e3o o est\u00e1gio em que cada contrato se encontrava e as particularidades de cada projeto, com a garantia de pagamento de todos os servi\u00e7os j\u00e1 executados\u201d.<\/p>\n<p>O desmonte da seguran\u00e7a alimentar, em n\u00fameros &#8211; Outras Palavras<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"D1scchJGcc\"><p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/outrasmidias\/o-desmonte-da-seguranca-alimentar-em-numeros\/\">O desmonte da seguran\u00e7a alimentar, em n\u00fameros<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" title=\"&#8220;O desmonte da seguran\u00e7a alimentar, em n\u00fameros&#8221; &#8212; Outras Palavras\" src=\"https:\/\/outraspalavras.net\/outrasmidias\/o-desmonte-da-seguranca-alimentar-em-numeros\/embed\/#?secret=eumIsxARbE#?secret=D1scchJGcc\" data-secret=\"D1scchJGcc\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Schirlei Alves &#8211;\u00a0Aricelia Ferreira Alves, 19 anos, vive com o marido e seus dois filhos, uma beb\u00ea de 9 meses e um menino de 3 anos, em Lagoa de Dentro, uma das comunidades isoladas e de dif\u00edcil acesso do munic\u00edpio de Pil\u00e3o Arcado, no sert\u00e3o da Bahia. 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