{"id":17623,"date":"2022-04-01T12:32:41","date_gmt":"2022-04-01T15:32:41","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=17623"},"modified":"2022-03-30T19:35:34","modified_gmt":"2022-03-30T22:35:34","slug":"depois-do-neoliberalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2022\/04\/01\/depois-do-neoliberalismo\/","title":{"rendered":"Depois do neoliberalismo"},"content":{"rendered":"<p><strong>Paolo Gerbaudo &#8211; <\/strong>Em\u00a0<em>A Grande Transforma\u00e7\u00e3o<\/em>, publicado em 1944, quando a Segunda Guerra Mundial ainda acontecia, o historiador econ\u00f4mico austro-h\u00fangaro Karl Polanyi analisou como os Estados responderam \u00e0 implos\u00e3o do sistema econ\u00f4mico internacional da\u00a0<em>Belle \u00c9poque<\/em>. No rescaldo do\u00a0<em>crash\u00a0<\/em>de Wall Street em 1929, sociedades de todo o mundo tentaram desesperadamente superar o caos causado pelo desemprego vertiginoso e pela instabilidade monet\u00e1ria. Polanyi descreveu esse processo como um \u201cmovimento duplo\u201d \u2013 um impulso para o reequil\u00edbrio social, que se distanciava da economia de\u00a0<em>laissez-faire<\/em>\u00a0de um capitalismo altamente internacionalizado e movia-se em dire\u00e7\u00e3o ao intervencionismo estatal. O bolchevismo, o fascismo, o nazismo e a socialdemocracia de Roosevelt e Leon Blum foram respostas diferentes ao mesmo dilema: como proteger a sociedade da for\u00e7a disruptiva do capitalismo desenfreado.<\/p>\n<p>H\u00e1 algum tempo, alguns economistas v\u00eam falando de um novo \u201cmomento Polanyi\u201d: uma crise derivada da globaliza\u00e7\u00e3o que levou ao surgimento de todos os tipos de sentimentos protecionistas. Os crescentes limites \u00e0 mobilidade e as preocupa\u00e7\u00f5es com as cadeias de suprimento que acompanharam a pandemia apenas aceleraram um realinhamento pol\u00edtico que come\u00e7ou na d\u00e9cada de 2010. A estagna\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica que se estende desde a crise financeira de 2008 minou a credibilidade dos m\u00e9todos do livre mercado. Surgiram rivalidades comerciais e tens\u00f5es geopol\u00edticas entre os Estados Unidos e a China e entre o Reino Unido e a Uni\u00e3o Europeia. Movimentos populistas \u00e0 esquerda e \u00e0 direita agora questionam v\u00e1rios aspectos do consenso neoliberal.<\/p>\n<p>A globaliza\u00e7\u00f5 n\u00e3o tem mais a mesma popularidade de antes. Nos Estados Unidos, a mudan\u00e7a ficou mais clara durante a guerra comercial de Trump com a China, mas este n\u00e3o \u00e9 um tema s\u00f3 dos republicanos. A pol\u00edtica comercial de Joe Biden tamb\u00e9m \u00e9 protecionista: no in\u00edcio de seu per\u00edodo na Casa Branca ele emitiu diretivas de\u00a0<em>buy american\u00a0<\/em>que direcionam as compras do Estado para empresas dos EUA e se envolveu na disputa para garantir o fornecimento de semicondutores e minerais raros para os EUA.<\/p>\n<p>A cren\u00e7a no livre com\u00e9rcio n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico pilar da globaliza\u00e7\u00e3o neoliberal que est\u00e1 abalado. Figuras de todos o espectro pol\u00edtico est\u00e3o come\u00e7ando a abandonar suas cr\u00edticas ao intervencionismo e ajuda estatal e a questionar a conten\u00e7\u00e3o de gastos p\u00fablicos, o aperto da pol\u00edtica monet\u00e1ria e o compromisso com a baixa tributa\u00e7\u00e3o dos ricos e das corpora\u00e7\u00f5es. A interven\u00e7\u00e3o estatal pesada tornou-se amplamente aceita. No n\u00edvel monet\u00e1rio, ela se d\u00e1 com flexibiliza\u00e7\u00e3o quantitativa e grandes programas de compra de t\u00edtulos; e no n\u00edvel fiscal com d\u00e9ficit p\u00fablico e investimentos p\u00fablicos maci\u00e7os. A estrat\u00e9gia de transi\u00e7\u00e3o verde, a que muitos pa\u00edses aderiram, envolve planejamento estatal para cumprir as metas de emiss\u00f5es de CO\u00b2, uso de ve\u00edculos el\u00e9tricos e energia renov\u00e1vel. Por isso, revive uma das formas de interven\u00e7\u00e3o estatal mais criticadas pelos neoliberais.<\/p>\n<p>Em todas essas \u00e1reas, h\u00e1 um apelo \u00e0 prote\u00e7\u00e3o contra os riscos sist\u00eamicos criados pela globaliza\u00e7\u00e3o neoliberal. A prote\u00e7\u00e3o agora \u00e9 invocada em toda parte \u2013 n\u00e3o apenas no sentido de protecionismo comercial, mas em tudo, desde pol\u00edtica pand\u00eamica e as discuss\u00f5es sobre como se adaptar \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas at\u00e9 os debates sobre pol\u00edtica industrial e a necessidade de pol\u00edticas de bem-estar social.<\/p>\n<p>A direita populista parece ter chegado a um acordo com esse novo estado de coisas p\u00f3s-neoliberal (e em alguns lugares contribuiu ativamente para urdi-lo). Desenvolveu uma estrat\u00e9gia que se concentra na prote\u00e7\u00e3o da identidade e da propriedade e formou uma coaliz\u00e3o que abrange desde a classe m\u00e9dia alta e as pequenas empresas at\u00e9 os trabalhadores marginalizados. A esquerda, por outro lado, est\u00e1 em nega\u00e7\u00e3o sobre a virada atual ou ainda indecisa sobre como responder a ela. Para avan\u00e7ar, a esquerda deve enfrentar um mundo em que a globaliza\u00e7\u00e3o neoliberal est\u00e1 em decl\u00ednio e o intervencionismo estatal tende a se tornar cada vez mais importante. Em outras palavras, os progressistas precisam desenvolver suas pr\u00f3prias pol\u00edticas de prote\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Globaliza\u00e7\u00e3o e externaliza\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>A l\u00f3gica da globaliza\u00e7\u00e3o pode ser resumida em um imperativo: externalizar. A externaliza\u00e7\u00e3o implica tornar os sistemas de produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o mais \u00e1geis e flex\u00edveis para conectar produtores pobres com consumidores ricos. \u00c9 vis\u00edvel nas pr\u00e1ticas de terceiriza\u00e7\u00e3o,\u00a0<em>offshoring<\/em>\u00a0e pol\u00edtica econ\u00f4mica voltada para a exporta\u00e7\u00e3o. Exigiu a elimina\u00e7\u00e3o de barreiras estruturais nas regulamenta\u00e7\u00f5es estatais e nas rela\u00e7\u00f5es trabalhistas. Nos termos de Polanyi, a globaliza\u00e7\u00e3o foi uma estrat\u00e9gia de \u201cdesencaixe\u201d dos processos econ\u00f4micos das comunidades territoriais, seus grupos de interesse (trabalhadores e moradores) e institui\u00e7\u00f5es sociais e pol\u00edticas (como sindicatos e governo).<\/p>\n<p>A externaliza\u00e7\u00e3o fez com que as empresas se concentrassem nos ramos de atividade mais rent\u00e1veis, abandonando aqueles com margens menores, mesmo que tivessem um papel estrat\u00e9gico no ciclo de produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o. A partir da d\u00e9cada de 1980, a empresa fordista verticalmente integrada deu lugar \u00e0 corpora\u00e7\u00e3o horizontalmente integrada, culminando nas \u201cempresas-plataforma\u201d do capitalismo digital. Essas mudan\u00e7as foram acompanhadas pela internacionaliza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o. Realoca\u00e7\u00e3o de f\u00e1bricas e outras formas de\u00a0<em>offshoring<\/em>\u00a0buscaram tirar proveito de custos trabalhistas mais baixos, \u00e0s custas dos trabalhadores, nos pa\u00edses mais ricos. Em muitos lugares, esse desenvolvimento levou as corpora\u00e7\u00f5es multinacionais a se tornarem menos dependentes da demanda dom\u00e9stica, cortando assim um v\u00ednculo de interesse comum com os trabalhadores.<\/p>\n<p>A globaliza\u00e7\u00e3o certamente teve efeitos positivos. Tirou centenas de milh\u00f5es de pessoas da pobreza em pa\u00edses como China e \u00cdndia e tornou produtos e servi\u00e7os mais baratos e mais dispon\u00edveis, para consumidores de todo o mundo. Mas os frutos da prosperidade que criou foram altamente concentrados, levando a uma crescente desigualdade no interior dos pa\u00edses e ajudando a alimentar movimentos populistas de direita em todo o mundo.<\/p>\n<p>Agora as feridas criadas pela globaliza\u00e7\u00e3o est\u00e3o evidentes, junto com os efeitos perturbadores de seu decl\u00ednio. Muitos dos indicadores de interconex\u00e3o econ\u00f4mica global est\u00e3o estagnando ou declinando. O com\u00e9rcio global contraiu 5,3% em 2020, em grande parte devido \u00e0 pandemia, mas a desacelera\u00e7\u00e3o j\u00e1 havia come\u00e7ado durante a d\u00e9cada de 2010. O investimento externo direto, tanto em termos de aquisi\u00e7\u00f5es quanto de novos projetos, vem caindo severamente desde a crise financeira de 2008. Em 2020, os fluxos anuais de investimento estrangeiro direto ca\u00edram 42% em todo o mundo, ficando abaixo de US$ 1 trilh\u00e3o pela primeira vez desde o in\u00edcio dos anos 2000.<\/p>\n<p>Essas tend\u00eancias s\u00e3o exacerbadas pelo crescente conflito geopol\u00edtico entre o Ocidente e a China. A globaliza\u00e7\u00e3o prosperou sob a incompar\u00e1vel supremacia dos EUA. Em um mundo mais multipolar, podemos esperar que as grandes pot\u00eancias sejam mais zelosas em defender suas esferas de com\u00e9rcio e acesso a recursos e bens estrat\u00e9gicos. Com a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial do Com\u00e9rcio no limbo institucional \u2013 seu \u00f3rg\u00e3o de apela\u00e7\u00e3o, onde s\u00e3o discutidas as disputas comerciais, est\u00e1 suspenso por causa do conflito entre China e Estados Unidos \u2013 e pa\u00edses de todo o mundo adotando medidas mais protecionistas desde a crise de 2008, a expans\u00e3o para mercados externos j\u00e1 muito saturados n\u00e3o \u00e9 mais uma op\u00e7\u00e3o t\u00e3o atraente como no in\u00edcio da globaliza\u00e7\u00e3o. A prioridade para os Estados e grandes empresas agora \u00e9 a prote\u00e7\u00e3o: prote\u00e7\u00e3o dos mercados existentes, das margens de lucro e da riqueza acumulada, ou o que Marx chamou de \u201cprote\u00e7\u00e3o de conquistas\u201d.<\/p>\n<p><strong>Um mundo de riscos sist\u00eamicos<\/strong><\/p>\n<p>Enquanto os capitalistas tentam proteger seus ganhos, est\u00e3o surgindo formas de protecionismo com car\u00e1ter mais social. Elas tentam corrigir os desequil\u00edbrios criados pelo neoliberalismo. A externaliza\u00e7\u00e3o fundamentalmente transferiu os riscos sociais do sistema econ\u00f4mico \u2013 deslocando-os das empresas e dos ricos para os trabalhadores e cidad\u00e3os. Em um mundo externalizado, a sociedade tem que arcar com as consequ\u00eancias da degrada\u00e7\u00e3o ambiental, da pobreza e da desigualdade, com sal\u00e1rios estagnados e seguran\u00e7a cada vez menor no emprego. Tudo para garantir as margens de lucro.<\/p>\n<p>Outros riscos sist\u00eamicos podem ser atribu\u00eddos \u00e0 fragilidade log\u00edstica e organizacional do sistema global de produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o. A externaliza\u00e7\u00e3o criou empresas com estruturas \u201c\u00e1geis\u201d e \u201cenxutas\u201d, onde o desperd\u00edcio, a inefici\u00eancia e o excesso de capacidade devem ser eliminados para reduzir os custos fixos. As desvantagens dessa abordagem<em>\u00a0just-in-time<\/em>\u00a0ficaram aparentes durante a interrup\u00e7\u00e3o das cadeias de suprimento, na pandemia. Depois de cair em 2020, a demanda se recuperou rapidamente em 2021, levando a uma crise log\u00edstica e contribuindo para uma infla\u00e7\u00e3o mais alta. Regras anticont\u00e1gio, mudan\u00e7as nos padr\u00f5es de consumo (menor consumo de servi\u00e7os e maior de bens dom\u00e9sticos dur\u00e1veis) e um d\u00e9ficit de trabalhadores contribu\u00edram para tensionar as cadeias de suprimento. Mas os problemas subjacentes s\u00e3o de car\u00e1ter estrutural: superespecializa\u00e7\u00e3o na divis\u00e3o global do trabalho e a presen\u00e7a de gargalos no fornecimento de mat\u00e9rias-primas e componentes.<\/p>\n<p>Em \u00faltima an\u00e1lise, no entanto, os maiores riscos que a globaliza\u00e7\u00e3o neoliberal gerou n\u00e3o s\u00e3o ambientais ou econ\u00f4micos, mas pol\u00edticos. O custo social da reestrutura\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica produzida pelas pol\u00edticas neoliberais criou ex\u00e9rcitos de eleitores descontentes, especialmente nas \u00e1reas suburbanas e rurais. Os \u201cdeixados para tr\u00e1s\u201d apoiar\u00e3o compreensivelmente os pol\u00edticos que s\u00e3o vistos como escudos, em uma competi\u00e7\u00e3o internacional cada vez mais acirrada \u2013 incluindo movimentos populistas de direita. Como argumentou Thomas Piketty, muitos trabalhadores deram as costas \u00e0 esquerda porque sentem que ela n\u00e3o os protege mais. Mesmo centristas com Biden perceberam que a globaliza\u00e7\u00e3o traz custos pol\u00edticos que n\u00e3o podem ser ignorados. Sua agenda econ\u00f4mica \u00e9 concebida como uma ap\u00f3lice de seguro contra o retorno de Trump ou de um s\u00f3sia de Trump. Mas as obstru\u00e7\u00f5es do Congresso est\u00e3o prejudicando gravemente a credibilidade de sua presid\u00eancia e tornando mais prov\u00e1vel o retorno da direita.<\/p>\n<p>O novo mundo dos riscos sist\u00eamicos ajuda a entender o jarg\u00e3o das pol\u00edticas protecionistas que se cristalizou ap\u00f3s a pandemia. Termos como \u201cresili\u00eancia\u201d, \u201crobustez\u201d, \u201cprepara\u00e7\u00e3o\u201d e \u201cinfraestrutura\u201d e slogans como\u00a0<em>build back better<\/em>\u00a0(adotados por Biden e pelo primeiro-ministro brit\u00e2nico Boris Johnson) projetam prioridades radicalmente diferentes daquelas prevalecentes no auge da globaliza\u00e7\u00e3o neoliberal: como \u201cflexibilidade\u201d, \u201ccompetitividade\u201d, \u201coportunidade\u201d e \u201cabertura\u201d. Essa virada na ret\u00f3rica e na pol\u00edtica \u00e9 uma admiss\u00e3o impl\u00edcita de que o neoliberalismo fracassou. Mas embora o\u00a0<em>mainstream<\/em>\u00a0pol\u00edtico pare\u00e7a ter aceitado que a globaliza\u00e7\u00e3o deve ser temperada pelo controle pol\u00edtico, n\u00e3o h\u00e1 nenhuma garantia de que o novo capitalismo protecionista seja melhor do que seu antecessor.<\/p>\n<p><strong>Prote\u00e7\u00e3o Econ\u00f4mica e Controle Pol\u00edtico<\/strong><\/p>\n<p>Enquanto a direita populista percebeu rapidamente a crise do consenso neoliberal e desenvolveu uma nova abordagem ideol\u00f3gica \u2013 abandonando sua cr\u00edtica ao protecionismo e aos gastos p\u00fablicos, ao tempo em que atacava furiosamente o liberalismo social \u2013 partidos e candidatos socialistas muitas vezes se viram na defensiva. \u00c0s, vezes at\u00e9 aliando-se aos neoliberais centristas, em defesa de uma ordem global em colapso. Para responder aos dilemas sociais atuais, estes pol\u00edticos e partidos devem, em vez disso, articular uma vis\u00e3o positiva do que a prote\u00e7\u00e3o significa para eles. Muitos ainda veem o retorno das posturas protecionistas como uma tend\u00eancia passageira ou meramente uma continua\u00e7\u00e3o do neoliberalismo por outros meios. E embora a esquerda possa criticar o mercado, certamente n\u00e3o est\u00e1 totalmente convencida sobre os poss\u00edveis benef\u00edcios do crescente intervencionismo estatal \u2013 uma suspeita justificada pela mem\u00f3ria do totalitarismo e por evid\u00eancias mais recentes da cumplicidade do Estado na produ\u00e7\u00e3o da desigualdade social. Mas a estrat\u00e9gia progressiva nas condi\u00e7\u00f5es atuais n\u00e3o pode evitar a quest\u00e3o de como o Estado pode ser usado para oferecer prote\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e seguran\u00e7a contra riscos e restabelecer formas de controle pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Alguns acreditam, otimistas, que as promessas progressistas (se ainda n\u00e3o foram realizadas) de Joe Biden, o governo de Olaf Scholz na Alemanha e a dos partidos socialdemocratas nos pa\u00edses n\u00f3rdicos apontam para um renascimento do Estado de Bem-Estar Social. De fato, algum grau de ajuste de pol\u00edticas, em resposta \u00e0 crescente desigualdade, ocorreu \u2013 o que deve ser bem recebido pela esquerda, j\u00e1 que \u00e9 em parte resultado de sua press\u00e3o. No entanto, tamb\u00e9m devemos estar cientes dos principais desafios que at\u00e9 mesmo uma agenda socialdemocrata moderada enfrenta. A oposi\u00e7\u00e3o dos senadores Joe Manchin e Kyrsten Sinema ao projeto de lei\u00a0<em>Build Back Better\u00a0<\/em>de Joe Biden, em compara\u00e7\u00e3o com a aprova\u00e7\u00e3o relativamente f\u00e1cil do projeto de infraestrutura, \u00e9 instrutiva. O verdadeiro fulcro da disc\u00f3rdia das corpora\u00e7\u00f5es n\u00e3o \u00e9 o renascimento das pol\u00edticas keynesianas de est\u00edmulo e investimento p\u00fablico, mas medidas redistributivas destinadas a corrigir a crescente desigualdade.<\/p>\n<p>As elites corporativas e seus representantes pol\u00edticos podem ter alguns escr\u00fapulos quanto \u00e0 interven\u00e7\u00e3o do Estado na esfera do investimento, que consideram seu dom\u00ednio. Mas no momento elas acreditam que isso pode ser ben\u00e9fico para os neg\u00f3cios. Elas t\u00eam problemas reais com a cria\u00e7\u00e3o de novos direitos sociais regulados pelo Estado, incluindo licen\u00e7a maternidade ou aumento do sal\u00e1rio m\u00ednimo, o que, segundo Manchin, espalharia uma \u201cmentalidade de direitos\u201d \u2013 um eco do antigo medo de os trabalhadores se tornarem \u201cindisciplinados\u201d. Ainda mais desagrad\u00e1vel para elas \u00e9 qualquer conversa sobre nova tributa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O fracasso em aprovar os componentes socialmente mais ambiciosos da agenda de Biden mostra que a voz das empresas continua a ser mais forte do que a dos trabalhadores. Construir de novo pol\u00edticas melhores pode muito bem ser popular entre o eleitorado, mas, nos Estados Unidos a pequena maioria democrata no Senado d\u00e1 aos interesses empresariais e seus representantes uma vantagem contra as demandas para lidar com a desigualdade. A resist\u00eancia da classe capitalista \u00e0 redistribui\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m pode ser vista em como ela est\u00e1 cada vez mais do lado da direita populista, porque n\u00e3o se sente mais adequadamente protegida por um centro neoliberal decadente \u2013 uma tend\u00eancia que lembra assustadoramente a forma como os empres\u00e1rios apoiaram os movimentos fascistas em as d\u00e9cadas de 1920 e 1930 para proteger seus interesses contra a press\u00e3o dos trabalhadores.<\/p>\n<p>A margem de manobra para pol\u00edticas que satisfa\u00e7am as demandas de alguns trabalhadores enquanto mant\u00eam os empres\u00e1rios relativamente felizes \u00e9 muito menor do que na era socialdemocrata do p\u00f3s-guerra. A redistribui\u00e7\u00e3o em tempos de baixo crescimento \u00e9 em grande parte um jogo de soma zero; requer atacar a riqueza concentrada dos super-ricos e das corpora\u00e7\u00f5es, muitas vezes escondidas em para\u00edsos fiscais. \u00c9 por isso que mesmo concess\u00f5es limitadas, como garantir direitos que os trabalhadores europeus h\u00e1 muito consideram garantidos, e a reforma tribut\u00e1ria,, enfrentam uma oposi\u00e7\u00e3o t\u00e3o grande. Dada a solidez do bloco empresarial, alterar a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as exigiria um projeto ambicioso de transforma\u00e7\u00e3o social, e n\u00e3o apenas reivindica\u00e7\u00f5es pontuais. Requereria um n\u00edvel de organiza\u00e7\u00e3o e mobiliza\u00e7\u00e3o popular muito maior do que o atualmente articulado por sindicatos e organiza\u00e7\u00f5es progressistas.<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos nos contentar em consertar um sistema capitalista injusto, apenas compensando os efeitos nefastos das for\u00e7as do mercado em vez de enfrent\u00e1-los pela raiz. A bandeira da democracia econ\u00f4mica, uma promessa n\u00e3o cumprida da era socialdemocrata, agora tem que ser levantada mais uma vez. Grandes monop\u00f3lios capitalistas precisam ser desfeitos e, quando necess\u00e1rio, nacionalizados, como no setor de energia, onde o controle p\u00fablico \u00e9 necess\u00e1rio para implementar pol\u00edticas clim\u00e1ticas s\u00e9rias. No entanto, a verdadeira democracia econ\u00f4mica n\u00e3o \u00e9 garantida apenas pela propriedade p\u00fablica. Ela precisa ser exigida de todas as empresas, por meio de maior densidade sindical, participa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores na governan\u00e7a e, sempre que poss\u00edvel, propriedade cooperativa. Esta \u00e9 uma prioridade. Mas somente recuperando o controle econ\u00f4mico os trabalhadores poder\u00e3o reunir poder pol\u00edtico necess\u00e1rio para alcan\u00e7ar maior prote\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>Em vez de lamentar os obst\u00e1culos previs\u00edveis que tem \u00e0 frente, a esquerda deve se concentrar no desenvolvimento de uma agenda social protetora que possa reconquistar os trabalhadores marginalizados, e ao mesmo tempo atender \u00e0s necessidades de todos os setores da sociedade que enfrentam o empobrecimento e a precariedade. As oportunidades que a p\u00f3s-globaliza\u00e7\u00e3o oferece para a esquerda n\u00e3o devem ser negligenciadas. Um sistema capitalista cuja capacidade de usar t\u00e1ticas \u201cescapistas\u201d (como\u00a0<em>offshoring\u00a0<\/em>e terceiriza\u00e7\u00e3o) est\u00e1 limitado por um maior protecionismo e se torna um alvo mais f\u00e1cil para a press\u00e3o dos trabalhadores. Al\u00e9m disso, a atual escassez de m\u00e3o de obra nos Estados Unidos e na Europa pode aumentar a influ\u00eancia dos sindicatos. E sob um quadro econ\u00f4mico mais intervencionista, onde o papel diretivo do Estado na economia e seu patroc\u00ednio \u00e0s corpora\u00e7\u00f5es se tornar\u00e1 cada vez mais dif\u00edcil de esconder, as decis\u00f5es econ\u00f4micas se tornar\u00e3o mais politizadas, abrindo espa\u00e7os para contesta\u00e7\u00e3o e desenvolvimento de propostas alternativas .<\/p>\n<p>Polanyi argumentou que proteger a sociedade contra o capitalismo exigia a reinser\u00e7\u00e3o da atividade econ\u00f4mica nas institui\u00e7\u00f5es sociais e pol\u00edticas, tornando-a objeto de delibera\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica em vez de algo decidido apenas pelas for\u00e7as do mercado. Mas se o capitalismo n\u00e3o for controlado por meios democr\u00e1ticos, a direita populista se tornar\u00e1 mais atraente entre os trabalhadores descontentes, e solu\u00e7\u00f5es autorit\u00e1rias se tornar\u00e3o mais prov\u00e1veis. Nossos dilemas no in\u00edcio da d\u00e9cada de 2020 s\u00e3o semelhantes aos que Polanyi estudou h\u00e1 um s\u00e9culo \u2013 e as apostas pol\u00edticas s\u00e3o igualmente altas.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Depois do neoliberalismo &#8211; Outras Palavras &#8211; https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/depois-do-neoliberalismo\/<\/p>\n<\/div>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Paolo Gerbaudo &#8211; Em\u00a0A Grande Transforma\u00e7\u00e3o, publicado em 1944, quando a Segunda Guerra Mundial ainda acontecia, o historiador econ\u00f4mico austro-h\u00fangaro Karl Polanyi analisou como os Estados responderam \u00e0 implos\u00e3o do sistema econ\u00f4mico internacional da\u00a0Belle \u00c9poque. 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