{"id":17341,"date":"2022-03-19T12:19:17","date_gmt":"2022-03-19T15:19:17","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=17341"},"modified":"2022-03-18T21:37:50","modified_gmt":"2022-03-19T00:37:50","slug":"historia-da-solitude-e-a-reinvencao-da-solidariedade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2022\/03\/19\/historia-da-solitude-e-a-reinvencao-da-solidariedade\/","title":{"rendered":"\u201cHist\u00f3ria da Solitude\u201d e a reinven\u00e7\u00e3o da solidariedade"},"content":{"rendered":"<p><strong>Gustavo Assano &#8211; <\/strong>Segundo o fascinante livro do historiador da vida cultural inglesa David Vincent,<em>\u00a0A History of Solitude\u00a0<\/em>(London\/UK; Polity Press, 2020), \u201csolitude\u201d n\u00e3o \u00e9 o mesmo que \u201csolid\u00e3o\u201d (<em>loneliness<\/em>). Na percep\u00e7\u00e3o do resenhista Terry Eagleton, ao resumir a oposi\u00e7\u00e3o entre os dois conceitos na obra de Vincent, pessoas solit\u00e1rias sentem car\u00eancia de companhia de outras pessoas. J\u00e1 as pessoas em solitude buscam formas de escapar da companhia de outras pessoas.<a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=127&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpoeticas%2Fhistoria-da-solitude-e-a-reinvencao-da-solidariedade%2F#_ftn1\">[1]<\/a>\u00a0Historicamente, no discurso sobre solid\u00e3o, solitude aparece como uma dupla nega\u00e7\u00e3o: \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o daqueles que n\u00e3o est\u00e3o acompanhados e n\u00e3o se sentem sozinhos. Seria uma desejada situa\u00e7\u00e3o de privacidade satisfat\u00f3ria.<\/p>\n<p>O debate p\u00fablico sobre solid\u00e3o na sociedade inglesa teve o efeito de obscurecer a fun\u00e7\u00e3o positiva da aus\u00eancia de companhia. No entanto, Vincent argumenta que o impacto da modernidade tardia sobre as rela\u00e7\u00f5es sociais est\u00e1 na fronteira entre solid\u00e3o e solitude. O primeiro estudo sobre o tema foi publicado em 1785 por Johan Georg Zimmermann, m\u00e9dico do rei da Pr\u00fassia, Frederico o Grande, sob o t\u00edtulo\u00a0<em>\u00dcber die Einsamkeit<\/em>. Foi um sucesso editorial imediato, apesar da recep\u00e7\u00e3o ambivalente da cr\u00edtica especializada glosada por Vincent. Tornou-se rapidamente um livro obrigat\u00f3rio de se ter na estante de casas de pessoas que queriam mostrar-se conscientes do processo de moderniza\u00e7\u00e3o em andamento. Ainda que a mis\u00e9ria ideol\u00f3gica alem\u00e3 freasse tend\u00eancias de aburguesamento cultural, a reflex\u00e3o de um estudo de na\u00e7\u00e3o europeia perif\u00e9rica serviu de refer\u00eancia para o centro do sistema.<\/p>\n<p>Era um tema controverso. O objetivo do autor era encontrar a harmonia, o \u00edndice de razoabilidade entre as vantagens e desvantagens da reclus\u00e3o em sociedade. Nem a vida em agrupamentos sociais ou em reclus\u00e3o completa seriam suficientes isoladamente, pois, nas palavras de Zimmermann, \u201cdevemos nos reconhecer plenamente persuadidos de que, se a condi\u00e7\u00e3o apropriada do homem n\u00e3o consiste numa rela\u00e7\u00e3o de com\u00e9rcio prom\u00edscuo e difuso com o mundo, tanto menos consegue realizar os deveres de sua posi\u00e7\u00e3o por uma ren\u00fancia selvagem e teimosa \u00e0 vida em sociedade\u201d. Zimmermann sublinha a import\u00e2ncia da rela\u00e7\u00e3o semovente entre estar recluso e estar acompanhado. Isolamento produtivo e seguro para o iluminismo alem\u00e3o rec\u00e9m-amadurecido era uma quest\u00e3o de escolha. Um indiv\u00edduo que preserva sua sanidade, defende o m\u00e9dico prussiano setecentista, deveria poder mover-se sadiamente \u201cpara dentro\u201d e \u201cpara fora\u201d da solitude.<\/p>\n<p>A tradu\u00e7\u00e3o para a l\u00edngua inglesa n\u00e3o usou o termo \u201csolid\u00e3o\u201d [\u201c<em>loneliness<\/em>\u201d] para o livro de Zimmerman. No entanto, uma \u201csolitude destrutiva\u201d, que ele debatia amplamente, correspondia ao uso moderno da palavra solid\u00e3o e o sofrimento que ela descreve. O f\u00e1rmaco passava a causar dano quando o indiv\u00edduo era for\u00e7ado \u00e0 aus\u00eancia de companhia contra sua vontade, quando, por exemplo, abra\u00e7ava algum voto mon\u00e1stico ou intensa melancolia contra os quais n\u00e3o havia escapat\u00f3ria sen\u00e3o o confinamento do isolamento involunt\u00e1rio. Torna-se ent\u00e3o imposs\u00edvel uma navega\u00e7\u00e3o segura entre solitude destrutiva e criativa. Neste sentido, a formula\u00e7\u00e3o de Vincent \u00e9 perfeita: solid\u00e3o \u00e9 a solitude que fracassa (\u201cThe most succint definition of loneliness is failed solitude\u201d).<\/p>\n<p>O livro de Vincent percorre a apari\u00e7\u00e3o da aprecia\u00e7\u00e3o da solitude em todos os est\u00e1gios da forma\u00e7\u00e3o da vida moderna da sociedade inglesa. Da aquisi\u00e7\u00e3o dos h\u00e1bitos de caminhada na oposi\u00e7\u00e3o entre campo e cidade \u00e0s tens\u00f5es entre espiritualiza\u00e7\u00e3o rom\u00e2ntica e processo de seculariza\u00e7\u00e3o capitalista; da consolida\u00e7\u00e3o da vida privada na conforma\u00e7\u00e3o da esfera p\u00fablica burguesa \u00e0 sedimenta\u00e7\u00e3o dos n\u00facleos urbanos industriais; do surgimento e processo de valoriza\u00e7\u00e3o da literatura popular ao reconhecimento da integra\u00e7\u00e3o da mulher na esfera p\u00fablica; do surgimento de espa\u00e7os concentracion\u00e1rios modernos como pris\u00f5es, conventos reformados e escolas aos estertores da era digital; o f\u00f4lego investigativo de Vincent parece n\u00e3o ter limites quando se trata de confrontar a forma\u00e7\u00e3o da Inglaterra moderna como pr\u00e9-hist\u00f3ria da solid\u00e3o contempor\u00e2nea.<\/p>\n<p>Durante a Segunda Guerra Mundial e principalmente no p\u00f3s-Guerra, a reclus\u00e3o intensa e o isolamento social eram fortemente associados \u00e0 ideia de vida independente, uma hipervaloriza\u00e7\u00e3o da vida solit\u00e1ria como signo de aquisi\u00e7\u00e3o de autorrealiza\u00e7\u00e3o, uma conquista de identidade e cultivo de uma autoimagem que se traduzia em autonomia e liberdade no alvorecer da nova classe m\u00e9dia da economia de\u00a0<em>Welfare State<\/em>. Numa pesquisa sobre o tema realizada pelo relat\u00f3rio\u00a0<em>Mass Observation<\/em>\u00a0na Inglaterra de 1943, um jovem diz, em cita\u00e7\u00e3o muito bem aproveitada por Vincent, que \u201co lar (<em>home<\/em>), para mim, \u00e9 um lugar onde eu possa me sentir um indiv\u00edduo completo. Neste momento consiste num apartamento onde eu possa comandar sozinho minha vida, e que eu preencho com minha personalidade, onde eu posso receber meus amigos, onde posso me retirar em completa solid\u00e3o fazendo o que eu quiser, comendo quando eu quiser. Em suma, um lugar em que tenha aperfei\u00e7oado a arte de estar sozinho\u201d.<\/p>\n<p>Para as mulheres em particular havia uma atra\u00e7\u00e3o em escapar das demandas sufocantes dos cuidados maternais e do trabalho dom\u00e9stico para ent\u00e3o dar alguma aten\u00e7\u00e3o para si mesmas e refletir sobre quem s\u00e3o e quem gostariam de tornar-se. Neste sentido, h\u00e1 argumentos fortes para a defesa do isolamento em \u201csolitude\u201d ser encarada n\u00e3o como uma patologia do tempo social, mas uma consequ\u00eancia do que pode ser valorizado no per\u00edodo particular e nas pessoas. No entanto, um pessimismo estat\u00edstico induziu o establishment cultural e pol\u00edtico ingl\u00eas \u00e0 percep\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria. Enquanto o livro de Vincent era editado, o governo de Teresa May nomeou Tracey Crouch como a primeira \u201cMinistra da Solid\u00e3o\u201d da hist\u00f3ria dos estados nacionais do ocidente.<\/p>\n<p>Enquanto enfrentava a cont\u00ednua crise suscitada pelo Brexit, assim a descri\u00e7\u00e3o oficial do governo brit\u00e2nico descrevia a solid\u00e3o do povo ingl\u00eas na inaugura\u00e7\u00e3o do novo minist\u00e9rio: \u201cMais de um quinto da popula\u00e7\u00e3o adulta do Reino Unido sente-se solit\u00e1ria em quase ou todo o tempo\u201d. As cifras foram obtidas de estudos comissionados pela Cruz Vermelha Brit\u00e2nica em 2016, baseados em question\u00e1rios com perguntas como \u201ccom que frequ\u00eancia voc\u00ea se sente solit\u00e1rio?\u201d. A solid\u00e3o, neste sentido, se tornava um caso de emerg\u00eancia para preserva\u00e7\u00e3o da ordem p\u00fablica, um caso de gerenciamento do sofrimento social, uma combina\u00e7\u00e3o de fatores demogr\u00e1ficos, pol\u00edticos, culturais, ideol\u00f3gicos e m\u00e9dicos que criaram uma \u201ccategoria de experi\u00eancia\u201d pass\u00edvel de governamentaliza\u00e7\u00e3o, um \u00edndice para gerir sofrimento ps\u00edquico em massa: mais de 9 milh\u00f5es de cidad\u00e3os brit\u00e2nicos (ou seja, n\u00famero maior que toda a popula\u00e7\u00e3o de Londres) poderiam ser chamados de \u201csolit\u00e1rios\u201d, segundo cifras do pr\u00f3prio governo. Surge o alarmismo de argumentos protetivos e garantistas para um estado de urg\u00eancia de uma \u201cepidemia de solid\u00e3o\u201d. Como, do ponto de vista liberal defensor de raz\u00e3o governativa, a solid\u00e3o surge como problema?<\/p>\n<p>A quest\u00e3o central \u00e9 entender quando e como \u201csolitude\u201d se torna \u201csolid\u00e3o\u201d. Segundo Vincent, justamente a partir de 1945, o mesmo momento da descoberta da valoriza\u00e7\u00e3o do isolamento como fator de constru\u00e7\u00e3o de autonomia individual para uma nova gera\u00e7\u00e3o, na mesma Inglaterra h\u00e1 uma repentina mudan\u00e7a demogr\u00e1fica na quantidade de idosos vivendo sozinhos, condi\u00e7\u00e3o que leva a formas de sofrimentos ps\u00edquicos associados \u00e0 aus\u00eancia de companhia. No entanto, \u00e9 preciso enfatizar o fato de que muito do sofrimento social associado \u00e0 solid\u00e3o est\u00e1 relacionado \u00e0s escolhas aparentemente livres das pessoas, pois o grosso desse sofrimento decorre de supostas liberdades valorizadas.<\/p>\n<p>Vincent esclarece que o sofrimento social decorrido por solid\u00e3o volunt\u00e1ria se d\u00e1 por per\u00edodos de transi\u00e7\u00e3o que acabam durando muito mais do que o esperado, o que pode ocorrer em qualquer per\u00edodo na vida de uma pessoa de qualquer idade. Uma mudan\u00e7a de col\u00e9gio durante a inf\u00e2ncia, sair de casa para trabalhar ou estudar numa universidade distante, mudar de regi\u00e3o por troca de trabalho em carreiras em transi\u00e7\u00e3o, uma maior propens\u00e3o em come\u00e7ar e terminar relacionamentos \u00edntimos e o prolongamento do per\u00edodo ap\u00f3s a cria\u00e7\u00e3o dos filhos, o que pode acarretar novas mudan\u00e7as de casa e de atividade na rotina, todos estas s\u00e3o formas de transi\u00e7\u00e3o que podem acarretar solid\u00e3o involunt\u00e1ria como consequ\u00eancia de aparentes escolhas individuais.<\/p>\n<p>Em cada um destes momentos da vida de qualquer cidad\u00e3o m\u00e9dio existe a possibilidade de per\u00edodos de isolamento individual. O sentido destes per\u00edodos depende do c\u00e1lculo de custo-benef\u00edcio que fundamenta a iniciativa da mudan\u00e7a, os ganhos contrapostos aos inevit\u00e1veis per\u00edodos de perda e incerteza e o desajuste entre quantidade e qualidade de relacionamentos consolidados em processos individuais de socializa\u00e7\u00e3o. O resultado \u00e9 solitude se as consequ\u00eancias da transforma\u00e7\u00e3o que motiva o per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o s\u00e3o vividas como desfrute. A solid\u00e3o se perpetua quando os per\u00edodos de ajuste se prolongam por muito tempo e indefinidamente. Numa sociedade em que cada vez menos os per\u00edodos de transi\u00e7\u00e3o podem ser planejados e controlados, cada vez mais os per\u00edodos de isolamento levam ao sofrimento da solid\u00e3o.<\/p>\n<p>Em outro achado extraordin\u00e1rio pontuado por Vincent, a solid\u00e3o foi identificada pela primeira vez como um problema moderno na Inglaterra durante o conflito com a pol\u00edtica expansionista de Hitler. Durante o longo e duro per\u00edodo entre a evacua\u00e7\u00e3o de Dunkirk e os desembarques na Normandia, a manuten\u00e7\u00e3o e controle da vida de popula\u00e7\u00f5es era crucial para a defesa nacional. Pela primeira vez numa democracia liberal a estrutura governamental passou a demonstrar um interesse sistem\u00e1tico por como pessoas comuns se sentiam em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s pr\u00f3prias vidas. Antes, j\u00e1 era o bastante se basicamente obedecessem a lei, mantivessem observ\u00e2ncia sobre os princ\u00edpios do cristianismo e reproduzissem sucessivas gera\u00e7\u00f5es de trabalhadores disciplinados, mas agora era de igual import\u00e2ncia a manuten\u00e7\u00e3o do \u00e2nimo, manter um \u201c<em>high morale<\/em>\u201d.<\/p>\n<p>O medo b\u00e1sico consistia em como sucessivas derrotas militares combinadas com numerosos bombardeios de centros populacionais e o racionamento de necessidades b\u00e1sicas fariam minguar a for\u00e7a de vontade em manter a resist\u00eancia por parte da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o militar. A dist\u00e2ncia entre os interesses governamentais e a vida em sociedade da classe trabalhadora se faz notar em muitos exemplos nesses prim\u00f3rdios da gest\u00e3o da solid\u00e3o em massa. Num primeiro momento, a popula\u00e7\u00e3o feminina foi colocada sob forte observa\u00e7\u00e3o, pois se imaginava que com a conscri\u00e7\u00e3o de maridos e evacua\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as, os n\u00facleos familiares dissolvidos e a solid\u00e3o gerada pela aus\u00eancia do trabalho dom\u00e9stico de boas m\u00e3es e esposas as levariam a trabalhar contra o \u201cesfor\u00e7o nacional\u201d, pois a ansiedade e a solid\u00e3o as tornaria inaptas para a nova situa\u00e7\u00e3o de urg\u00eancia. Mas foi o extremo oposto que se deu: ao inv\u00e9s de provar ser um obst\u00e1culo, a solid\u00e3o empurrou uma massa de mulheres para a vida p\u00fablica e para a luta coletiva por melhores condi\u00e7\u00f5es de vida em f\u00e1bricas e diferentes espa\u00e7os de trabalho e em servi\u00e7os volunt\u00e1rios para a guerra \u2013 um despertar contradit\u00f3rio e fascinante entre voluntarismo nacionalista e consci\u00eancia de classe e g\u00eanero.<\/p>\n<p>Durante os anos de constru\u00e7\u00e3o do estado de bem-estar social, novas formas de solid\u00e3o emergiram com a destrui\u00e7\u00e3o violenta de comunidades inteiras, centros urbanos bombardeados impondo a necessidade de extensos deslocamentos entre espa\u00e7os de trabalho e moradia de novos bairros prolet\u00e1rios \u2013 toda uma gama de novas formas de solid\u00e3o foi descoberta (Vicent usa como ilustra\u00e7\u00e3o deste processo o filme de Ken Loach feito para televis\u00e3o,\u00a0<em>Cathy Come Home<\/em>, de 1966). A ansiedade pela solid\u00e3o que espreita todo um pa\u00eds de sobreviventes de guerra torna-se uma patologia, um novo tipo de sofrimento social clinicamente reconhecido. A solid\u00e3o tornou-se um \u00edndice de fracasso de socializa\u00e7\u00e3o coletiva, portanto um fracasso social, de gest\u00e3o de vida nacional. O gerenciamento da solid\u00e3o em massa \u00e9 tamb\u00e9m um produto de economia de guerra, de estados e sociedades colapsadas. A ambi\u00e7\u00e3o iluminista da solitude sadia, a harmoniza\u00e7\u00e3o entre isolamento e socializa\u00e7\u00e3o como forma de aprimoramento espiritual foi hoje solapada pela l\u00f3gica de uma sociedade administrada, pois o tratamento de sofrimentos sociais se realiza em nome de imperativos de reprodu\u00e7\u00e3o de sistemas de domina\u00e7\u00e3o social adequados \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o da ordem neoliberal.<\/p>\n<p>Com a revolu\u00e7\u00e3o digital, cap\u00edtulo que conclui a exposi\u00e7\u00e3o do livro de Vincent, as formas de solid\u00e3o e solitude ganham nova escala e novas formas de composi\u00e7\u00e3o. \u00c9 neste est\u00e1gio que se torna poss\u00edvel criar paralelos mais intensos entre a descri\u00e7\u00e3o de Vincent e a vida em sociedade organizada em outros fusos hist\u00f3ricos, permitindo \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria e sociol\u00f3gica extrapolar os exemplos locais da cultura inglesa enumerados pelo autor erudito. Na era da uberiza\u00e7\u00e3o, que Vincent n\u00e3o trata em seu livro, na era do orgulho pelo autogerenciamento subordinado do trabalho, a ideia de vida em transi\u00e7\u00e3o se perenizou em escala global. N\u00e3o \u00e9 incomum o papo de motorista de Uber de que \u201cisso aqui \u00e9 provis\u00f3rio, s\u00f3 at\u00e9 aparecer coisa melhor\u201d. Neste exemplo espec\u00edfico, s\u00e3o horas e horas de solid\u00e3o, nutrindo contato com pessoas apenas como clientes, a conversa descontra\u00edda \u00e9 na verdade um instrumento desesperado para conseguir boas avalia\u00e7\u00f5es, a boa companhia \u00e9 mecanismo de avalia\u00e7\u00e3o de performances de trabalho. Uma submiss\u00e3o ao trabalho intensificado e ultraprecarizado motivado pela narrativa de liberdade que o isolamento promove: \u00e9 dif\u00edcil descrever o al\u00edvio de exercer um trabalho sem os ass\u00e9dios e admoesta\u00e7\u00f5es de um patr\u00e3o e sem concorrentes imediatos para sabotar o desempenho da autoexplora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ora, n\u00e3o estamos vivendo a pandemia como se fosse um enorme per\u00edodo provis\u00f3rio que nunca acaba, e que evitamos aventar a possibilidade desta ser uma mudan\u00e7a permanente para n\u00e3o enlouquecermos de vez? N\u00e3o \u00e9 esta uma colossal promotora de solid\u00e3o como sofrimento social? N\u00e3o me refiro apenas ao distanciamento de quarentena, mas algo mais grave e de maior alcance no tempo, pois n\u00e3o \u00e9 preciso apenas do isolamento f\u00edsico para se padecer de uma vida solit\u00e1ria.<\/p>\n<p>A vida que \u00e9 uma perp\u00e9tua transi\u00e7\u00e3o \u00e9 uma nova forma de governo, o salve-se-quem-puder da pandemia como estrutura disciplinar condiciona uma espera cont\u00ednua. A vida prec\u00e1ria de bico em bico, da eterna transi\u00e7\u00e3o, \u00e9 uma vida em solid\u00e3o. O problema \u00e9 que este sofrimento n\u00e3o \u00e9 reconhecido porque aprendeu-se a agir como se fosse solu\u00e7\u00e3o e n\u00e3o problema. Quem n\u00e3o sente o al\u00edvio de conquistar o bico que vai garantir o leite das crian\u00e7as amanh\u00e3 e o aluguel no fim do m\u00eas? O sofrimento e o al\u00edvio est\u00e3o perfeitamente retroalimentados. A solid\u00e3o \u00e9 apreciada, n\u00e3o lamentada, pois \u00e9 a prova de que se est\u00e1 mobilizado para sobreviver. No pr\u00f3ximo bico as coisas mudam, \u00e9 s\u00f3 segurar as pontas. A esperan\u00e7a de futura prosperidade pessoal \u00e9 a miragem que prolonga a perpetua\u00e7\u00e3o da solid\u00e3o em nosso tempo. \u00c9 preciso encontrar alguma maneira de dizer \u201cn\u00e3o precisa ser assim, n\u00e3o precisamos dessa solid\u00e3o, nada disso precisa ser assim\u201d. Mas o argumento bolsonarista, que n\u00e3o precisa de Bolsonaro no poder para se perpetuar, \u00e9 mais forte.<\/p>\n<p>Negar a solid\u00e3o da individualidade forjada pelo mundo do trabalho prec\u00e1rio como mero princ\u00edpio moral nos remete aos dilemas da nega\u00e7\u00e3o da condi\u00e7\u00e3o de indiv\u00edduo abstrato portador da mercadoria for\u00e7a de trabalho, integrado a formas de socializa\u00e7\u00e3o por interesses cegos e ego\u00edstas que camuflam estruturas sist\u00eamicas. De nada se ganhar\u00e1 ao se vilificar a forma\u00e7\u00e3o do gosto pela independ\u00eancia individual, tomar como princ\u00edpio tautol\u00f3gico a oposi\u00e7\u00e3o indiv\u00edduo=ruim\/coletivo=bom nada esclarece, nada resolve da quest\u00e3o, em verdade parece apresentar uma falsa contesta\u00e7\u00e3o. \u00c9 a li\u00e7\u00e3o apresentada por Adorno no aforismo 6 de sua\u00a0<em>Minima Moralia<\/em>, o ponto de partida b\u00e1sico que permite entender que a sujei\u00e7\u00e3o da vida ao processo produtivo capitalista \u201cimp\u00f5e de maneira humilhante a cada um algo do isolamento e da solid\u00e3o que somos tentados a considerar como o objeto de nossa superior escolha\u201d. A abdica\u00e7\u00e3o do sujeito isolado como princ\u00edpio e apar\u00eancia de vida reta, a recusa da vida individual independente imersa na ordem capitalista carrega o embri\u00e3o daquilo que nega. A capacidade cr\u00edtica da vida antiburguesa, da abdica\u00e7\u00e3o em tornar-se m\u00f4nada, surge da capacidade de distanciamento cr\u00edtico que a pr\u00f3pria vida social de sujeitos isolados p\u00f4de fermentar. O n\u00e3o engajamento surge como quest\u00e3o a partir da frieza anal\u00edtica sobre a autonomia individual e as ren\u00fancias que esculpiram a individualidade burguesa, frieza esta que se distingue muito pouco da pr\u00f3pria frieza burguesa. Da\u00ed a import\u00e2ncia da compreens\u00e3o de um isolamento individual que n\u00e3o signifique mutila\u00e7\u00e3o subjetiva simplesmente, como Vincent prop\u00f5e a pensar \u2013 e bastante distante das formula\u00e7\u00f5es de Adorno, diga-se de passagem.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 claro o que significa pensar a solitude em solo brasileiro, o pa\u00eds de escalas industriais que nunca consolidou uma sociedade salarial plena e imprime em sua l\u00f3gica construtiva o gigantismo de colapsos destrutivos, movimentos rotulados de progresso que redundam em massacres sistem\u00e1ticos e viol\u00eancia social como metodologia de ordenamento social. Pode a subjetividade do trabalhador de bicos, imerso na vira\u00e7\u00e3o, encontrar solitude, encontrar em seu isolamento a possibilidade de devanear, sonhar livremente, exercer sua liberdade de imagina\u00e7\u00e3o sobre a pr\u00f3pria vida e o mundo? Se a reinven\u00e7\u00e3o da solitude \u00e9 bloqueada pela redu\u00e7\u00e3o do engajamento subjetivo \u00e0 integra\u00e7\u00e3o de cora\u00e7\u00f5es e mentes \u00e0 l\u00f3gica de p\u00fablico alvo e empresariamento neoliberal, resta perguntar-se se a vida coletiva pode ser reinventada. Ser\u00e1 poss\u00edvel responder ao medo da solid\u00e3o com uma transforma\u00e7\u00e3o radical da vida em sociedade? Ser\u00e1 poss\u00edvel imaginar uma supera\u00e7\u00e3o do isolamento n\u00e3o pelo medo da morte que a vida em pandemia imp\u00f5e com apenas um \u201cretorno \u00e0 normalidade\u201d, mas com a constru\u00e7\u00e3o coletiva de outra forma de vida? Ser\u00e1 poss\u00edvel a revela\u00e7\u00e3o de que a ideia de solid\u00e3o encontra um conflito fundamental ao se despertar para a realidade de uma massa de solit\u00e1rios em interdepend\u00eancia sist\u00eamica? Uma imagina\u00e7\u00e3o libertada talvez nas\u00e7a da possibilidade de se estar isolado sem se sentir sozinho, de sujeitos formados que n\u00e3o caiam apenas em mutila\u00e7\u00f5es subjetivas, pois despertam para a reinven\u00e7\u00e3o da solidariedade entre mutilados, uma descoberta de nova coletividade, que n\u00e3o \u00e9 apenas apar\u00eancia de vida reta e tautologia moral, uma subvers\u00e3o das aspira\u00e7\u00f5es por harmonia do individualismo burgu\u00eas refletido pela ideia de solitude. Uma consci\u00eancia que perceba que mesmo a solitude como descrita por David Vincent em sua obra impressionante \u00e9 muito pouco, mesmo sendo muito.<\/p>\n<p><a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=127&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fpoeticas%2Fhistoria-da-solitude-e-a-reinvencao-da-solidariedade%2F#_ftnref1\">[1]<\/a>\u00a0EAGLETON, Terry. \u201cA History of Solitude by David Vincent; A Biography of Loneliness by Fay Bound Alberti \u2013 review\u201d. In:\u00a0<em>The Guardian<\/em>\u00a0(Site). 19\/03\/2020.\u00a0<a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/books\/2020\/mar\/19\/history-solitude-david-vincent-biography-loneliness-fay-bound-alberti-review\">https:\/\/www.theguardian.com\/books\/2020\/mar\/19\/history-solitude-david-vincent-biography-loneliness-fay-bound-alberti-review<\/a>. 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