{"id":1696,"date":"2016-09-08T12:17:03","date_gmt":"2016-09-08T15:17:03","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=1696"},"modified":"2016-09-06T20:19:03","modified_gmt":"2016-09-06T23:19:03","slug":"brasil-vai-entrar-numa-epoca-de-manifestacoes-sindicais-e-sociais-diz-sociologo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2016\/09\/08\/brasil-vai-entrar-numa-epoca-de-manifestacoes-sindicais-e-sociais-diz-sociologo\/","title":{"rendered":"Brasil vai entrar numa \u00e9poca de manifesta\u00e7\u00f5es sindicais e sociais, diz soci\u00f3logo"},"content":{"rendered":"<p><strong>Pamela Mascarenhas<\/strong> &#8211;\u00a0Professor Ricardo Antunes analisa mercado de trabalho no Brasil e no mundo<\/p>\n<div id=\"HOTWordsTxt\">\n<p>O projeto de reforma trabalhista sinalizado pelo atual governo brasileiro \u00e9 uma &#8220;imposi\u00e7\u00e3o dos interesses financeiros que comandam a economia do pa\u00eds&#8221;, aponta Ricardo Antunes, professor de Sociologia do Trabalho da Unicamp e autor de diversos livros sobre o tema, entre eles &#8220;Sentidos do Trabalho&#8221;, publicado no Brasil, na Argentina, nos Estados Unidos, na Inglaterra, Holanda, It\u00e1lia, Portugal e \u00cdndia; e &#8220;Adeus ao trabalho?&#8221;, editado no Brasil, na Argentina, Venezuela, Col\u00f4mbia, Espanha e It\u00e1lia.\u00a0&#8220;O\u00a0cen\u00e1rio que vamos ter nos pr\u00f3ximos dois trimestres \u00e9 desalentador, e vai fazer com que o movimento sindical e os movimentos sociais lutem ardorosamente.&#8221;<\/p>\n<p>A repercuss\u00e3o do trabalho de Antunes em pa\u00edses do mundo inteiro permitiu ao professor debater e analisar tend\u00eancias globais do mercado de trabalho. Em entrevista por telefone ao <b>JB <\/b>na noite de quarta-feira (31), Antunes tra\u00e7ou o caminho que o mercado de trabalho tem seguido no mundo, como os trabalhadores t\u00eam procurado se organizar para lidar com novos cen\u00e1rios e fez uma leitura da situa\u00e7\u00e3o brasileira em meio \u00e0 crise pol\u00edtica e econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>&#8220;N\u00f3s vamos entrar numa \u00e9poca de confronta\u00e7\u00e3o social, de manifesta\u00e7\u00f5es sindicais e sociais&#8221;, destacou Antunes na entrevista. &#8220;O per\u00edodo que vai de 2016 a 2018 ser\u00e1 uma sucess\u00e3o amplificada e articulada de crises sociais e crises pol\u00edticas.&#8221;<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" title=\"Foto: Antonio Scarpinetti \u2013 Ascom \u2013 Unicamp\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/m.jb.com.br\/media\/fotos\/2016\/09\/03\/627w\/periodo-que-vai-de-2016-a-2018-sera-uma-sucessao-amplificada-e-articulad.jpg?w=640\" alt=\"&quot;Per\u00edodo que vai de 2016 a 2018 ser\u00e1 uma sucess\u00e3o amplificada e articulada de crises&quot;\" \/><br \/>\n<em>&#8220;Per\u00edodo que vai de 2016 a 2018 ser\u00e1 uma sucess\u00e3o amplificada e articulada de crises&#8221;<\/em><\/p>\n<p>Na ocasi\u00e3o de sua posse, o presidente Michel Temer destacou que vai &#8220;modernizar\u00a0as leis trabalhistas, para garantir os atuais e gerar novos empregos\u201d. Para Antunes, tal moderniza\u00e7\u00e3o abre caminho para uma s\u00e9rie de mudan\u00e7as &#8220;profundamente destrutivas&#8221; para a classe trabalhadora.<\/p>\n<p>&#8220;Estamos no pior momento. Governo nenhum que destr\u00f3i direitos diz que vai destruir direitos&#8221;, ressalta Antunes.\u00a0&#8220;Se o governo dissesse &#8216;eu vou devastar&#8217;, &#8216;eu vou fazer uma verdadeira devasta\u00e7\u00e3o social&#8217; ele teria o rep\u00fadio. Ent\u00e3o, a grande alquimia, a fal\u00e1cia que \u00e9 profunda falsidade, \u00e9 dizer que eu vou criar direitos destruindo direitos.&#8221;<\/p>\n<p>Antunes acredita, contudo, que tais medidas &#8220;n\u00e3o s\u00e3o inevit\u00e1veis&#8221;: &#8220;O movimento sindical pode impedi-las, os movimentos sociais podem impedi-las&#8221;.<\/p>\n<p><b>Confira a entrevista, na \u00edntegra:\u00a0<\/b><\/p>\n<p><b>Jornal do Brasil &#8211; Na semana passada, o ent\u00e3o presidente interino defendeu a proposta de reforma trabalhista, com o argumento de que a inten\u00e7\u00e3o n\u00e3o seria retirar direitos, mas manter empregos. Ele tamb\u00e9m informou que deveria enviar a proposta de reforma trabalhista e de regulamenta\u00e7\u00e3o do processo de terceiriza\u00e7\u00e3o ao Congresso at\u00e9 o final deste ano. Hoje [quarta-feira], prometeu \u201cmodernizar as leis trabalhistas&#8221;, &#8220;para garantir os atuais e gerar novos empregos\u201d.\u00a0<\/b><\/p>\n<p><b>No ano passado, quando conversamos, o senhor refor\u00e7ou que o projeto de terceiriza\u00e7\u00e3o aprovado pela C\u00e2mara dos Deputados geraria escravos modernos, e que era imperioso derrot\u00e1-lo.\u00a0Onde estamos agora?<\/b><\/p>\n<p>Ricardo Antunes &#8211; Estamos no pior momento. Governo nenhum que destr\u00f3i direitos diz que vai destruir direitos. N\u00f3s acabamos de ver, por exemplo, na Fran\u00e7a, o governo de [Fran\u00e7ois] Hollande iniciar um processo de destrui\u00e7\u00e3o de uma parcela importante dos direitos do trabalho, dizendo que n\u00e3o\u00a0ia destruir direitos.<\/p>\n<p>A vit\u00f3ria parlamentar que consolida o &#8216;golpe&#8217;, no sentido parlamentar do termo, que hoje [na quarta-feira] se consolidou impeachmando o governo Dilma, abre caminho para uma s\u00e9rie de mudan\u00e7as que s\u00e3o profundamente destrutivas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 classe trabalhadora. Isto \u00e9 muito importante que se tenha claro.<\/p>\n<p>Primeiro ponto, o\u00a0preceito, o princ\u00edpio fundamental do governo Temer \u00e9 o princ\u00edpio do &#8220;negociado sobre o legislado&#8221;. O projeto &#8220;Ponte para o Futuro&#8221;, que na verdade \u00e9 um atalho para o abismo social, diz que vai haver negociado sobre o legislado sem a perda de direitos. S\u00f3 que \u00e9 imposs\u00edvel estabelecer o primado negociado sobre legislado que n\u00e3o seja para reduzir direitos.\u00a0A ideia do governo n\u00e3o \u00e9 estabelecer o negociado sobre o legislado para avan\u00e7ar nos direitos, \u00e9 para reduzir os sal\u00e1rios, \u00e9 para flexibilizar a jornada de trabalho, \u00e9 para intensificar o banco de horas, \u00e9 para fazer com que haja redu\u00e7\u00e3o da jornada com redu\u00e7\u00e3o do sal\u00e1rio.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, \u00e9 evidente que esse preceito do negociado sobre o legislado enfraquece o conjunto da classe trabalhadora e traz a corros\u00e3o dos direitos. Ainda nos sindicatos que t\u00eam alguma for\u00e7a, a perda ser\u00e1 menor, mas ser\u00e1 perda. N\u00e3o h\u00e1 negociado sobre legislado em condi\u00e7\u00e3o de crise que beneficie a classe trabalhadora.<\/p>\n<p>Mas voc\u00ea imagina, com o conjunto de sindicatos do pa\u00eds inteiro que tem menor for\u00e7a organizativa, \u00e9 \u00f3bvio que a ideia \u00e9 reduzir direitos que foram adquiridos desde a CLT. Nenhum governo vai dizer abertamente, ainda mais um governo conservador e sem legitimidade, porque resulta de, digamos, um rearranjo, em que o programa que ele quer implementar n\u00e3o tem o respaldo das urnas.<\/p>\n<p>O resultado disso \u00e9 que, junto com o negociado sobre o legislado,\u00a0vem a ideia de avan\u00e7ar na terceiriza\u00e7\u00e3o do trabalho.\u00a0A\u00a0terceiriza\u00e7\u00e3o\u00a0do trabalho \u00e9 tamb\u00e9m dita pelo governo como um caminho\u00a0para criar empregos, mas isso \u00e9 de uma falsidade enorme.<\/p>\n<p>Algu\u00e9m pode dizer, &#8220;mas, professor, existem hoje 12 milh\u00f5es de terceirizados no Brasil, s\u00e3o 12 milh\u00f5es de empregos&#8221;. Um n\u00famero significativo de trabalhadores hoje \u00e9 terceirizado &#8212; homens e mulheres terceirizados &#8211;, s\u00f3 que os trabalhadores terceirizados e as trabalhadoras terceirizadas trabalham em m\u00e9dia mais horas semanais do que os trabalhadores regulados pela CLT. Se eles trabalham mais horas e recebem menos, onde existem tr\u00eas ou quatro trabalhadores ou trabalhadoras celetistas, eles v\u00e3o ser substitu\u00eddos por tr\u00eas ou dois trabalhadores ou trabalhadoras terceirizados.<\/p>\n<p>Basta um pouco de aritm\u00e9tica e de matem\u00e1tica para saber que onde um n\u00famero x de trabalhadores realizava um\u00a0certo tipo de trabalho, agora esse mesmo trabalho, essa mesma atividade ser\u00e1 realizada por um n\u00famero inferior. Ou seja, a\u00a0terceiriza\u00e7\u00e3o desemprega. Ela n\u00e3o emprega. Ela empregou 12 milh\u00f5es, mas ela desempregou 15 ou 16 milh\u00f5es, em condi\u00e7\u00f5es mais adversas, porque os\u00a0sal\u00e1rios s\u00e3o significativamente menores e em condi\u00e7\u00f5es de trabalho que frequentemente burlam a legisla\u00e7\u00e3o do trabalho.<\/p>\n<p>O resultado desse desenho, dessa propositura do governo \u00e9 destruir a CLT.\u00a0E o que significa destruir a CLT? \u00c9 destruir o que a classe trabalhadora considera como sendo a sua Constitui\u00e7\u00e3o, porque desde a sua implementa\u00e7\u00e3o em 1943 que ela desenhou um conjunto de direitos sociais do trabalho.<\/p>\n<p>O IBGE publicou que n\u00f3s j\u00e1 estamos com 11,6% de desemprego, que significam 11,8 milh\u00f5es trabalhadores e trabalhadoras sem emprego. E esses dados minimizam, porque n\u00f3s sabemos que um trabalhador ou uma trabalhadora que em certo per\u00edodo n\u00e3o procura mais emprego, porque n\u00e3o encontra emprego, some das estat\u00edsticas como desempregado. E por que ele n\u00e3o procura emprego? Porque \u00e9 muito caro, trabalhoso, \u00e1rduo e dif\u00edcil\u00a0procurar emprego por dois, tr\u00eas, quatro, cinco dias. Voc\u00ea precisa de dinheiro para sair, pagar a condu\u00e7\u00e3o, alimentar-se, no final do dia voc\u00ea volta de uma jornada extenuante sem nenhuma resposta positiva. Um m\u00eas depois o trabalhador desiste, porque ele percebe que n\u00e3o h\u00e1 portas abertas. E ele some da estat\u00edstica como desempregado.\u00a0O mesmo vale para quem trabalha algumas horas por semana. Quem lava carros algumas horas por semana n\u00e3o est\u00e1 empregado. H\u00e1 uma massa enorme de desempregados e subempregados que as estat\u00edsticas n\u00e3o contemplam.<\/p>\n<p>Por isso o projeto \u00e9\u00a0nefasto, e ele \u00e9 uma imposi\u00e7\u00e3o dos interesses financeiros que comandam a economia do pa\u00eds. Isso atinge banc\u00e1rios, metal\u00fargicos, trabalhadores de\u00a0<i>call center<\/i>, jornalistas, professores, o conjunto de trabalhos acaba tendo como resultante o enfraquecimento.<\/p>\n<p>Agora, se\u00a0o governo dissesse &#8220;eu vou devastar&#8221;, &#8220;eu vou fazer uma verdadeira devasta\u00e7\u00e3o social&#8221;, ele teria o rep\u00fadio. Ent\u00e3o, a grande alquimia, a fal\u00e1cia, que \u00e9 profunda falsidade, \u00e9 dizer que eu vou criar direitos destruindo direitos. \u00c9 disto que se trata.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 nenhuma pesquisa s\u00e9ria, rigorosa, com crit\u00e9rio cient\u00edfico, realizada nas universidades, que demonstre vantagens para a terceiriza\u00e7\u00e3o. Quem defende que a terceiriza\u00e7\u00e3o \u00e9 vantajosa \u00e9 a\u00a0Febraban, s\u00e3o as federa\u00e7\u00f5es das ind\u00fastrias, etc.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 por\u00a0acaso que, algumas semanas atr\u00e1s, o presidente da Confedera\u00e7\u00e3o Nacional das Ind\u00fastrias fez o absurdo de propor que a classe trabalhadora brasileira pudesse ter uma jornada de at\u00e9 80 horas por semana, dizendo, um erro grotesco, que\u00a0assim j\u00e1 era at\u00e9 na Fran\u00e7a. Quer dizer, \u00e9 um\u00a0erro crasso, porque a Fran\u00e7a \u00e9 um pa\u00eds que, digamos assim, ainda que o governo Hollande esteja tentando\u00a0destruir parte desses direitos, os trabalhadores franceses, com a trajet\u00f3ria que t\u00eam, consolidaram direitos e, segundo, mostra at\u00e9 onde\u00a0pode chegar o sonho de setores do empresariado industrial que querem isto que eu disse na entrevista [anterior ao JB] e que \u00e9 inteiramente atual: recuperar\u00a0formas de escravid\u00e3o moderna de trabalho.\u00a0Nem na escravid\u00e3o os trabalhadores trabalhavam 80 horas por semana, para que se tenha uma ideia do absurdo.<\/p>\n<p>Depois n\u00f3s sabemos que o presidente da CNI negou a fala, mas a fala est\u00e1 gravada, foi citada pela grande imprensa, certamente a grande imprensa n\u00e3o inventou, foi um descuido\u00a0do presidente, que mostra at\u00e9 onde \u00e9 capaz de avan\u00e7ar o imagin\u00e1rio empresarial.<\/p>\n<p>Por fim, os jornais de hoje [quarta-feira] mostram tamb\u00e9m que at\u00e9 o n\u00famero de trabalhadores aut\u00f4nomos, os chamados &#8220;empreendedores&#8221;, recuou neste \u00faltimo trimestre porque o desemprego n\u00e3o s\u00f3 atingiu o emprego formal como tamb\u00e9m est\u00e3o sendo fechadas atividades pequenas, criadas por esses trabalhadores que acreditaram no chamado \u201cempreendedorismo\u201d, percebendo que \u00e9 muito mais dif\u00edcil num contexto de crise sobreviver. E a m\u00e9dia salarial tamb\u00e9m se reduziu neste \u00faltimo trimestre.<\/p>\n<p>Este \u00e9 o cen\u00e1rio, portanto, muito desfavor\u00e1vel para a classe trabalhadora.<\/p>\n<p><b>Jornal do Brasil &#8211; Como o professor analisa o argumento que diz que \u00e9 preciso reformar as rela\u00e7\u00f5es de trabalho porque a CLT \u00e9 velha e porque seria preciso reduzir os custos da produ\u00e7\u00e3o para alavancar a economia?<\/b><\/p>\n<p>Ricardo Antunes &#8211; Coloco esta fala exatamente como a fala do Consenso de Washington no in\u00edcio dos anos 1990, quando dizia &#8220;\u00e9 preciso privatizar tudo, \u00e9 preciso desregulamentar tudo para que haja crescimento e expans\u00e3o&#8221;, e n\u00f3s s\u00f3 temos destrui\u00e7\u00e3o, s\u00f3 temos maior desemprego, maior empobrecimento da popula\u00e7\u00e3o. Porque exatamente onde esse sistema se expandiu, mais ele destruiu.<\/p>\n<p>Vou dar um exemplo, que \u00e9 emblem\u00e1tico. Existe na Inglaterra, j\u00e1 h\u00e1 um certo tempo, um sistema de contratos chamado\u00a0<i>zero hour contract<\/i>, contrato de zero hora. Ele vale para trabalhadores de cuidados, o chamado\u00a0<i>care<\/i><i>\u00a0<\/i>em ingl\u00eas, enfermeiros, m\u00e9dicos, jornalistas, transportadores de passageiros, eletricistas, etc., \u00e9 uma gama de atividades. Como funciona? O trabalhador ou a trabalhadora tem contrato de zero hora, o que significa que ele n\u00e3o tem uma jornada fixa, mas tem que ficar \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o dos chamados. Se num dia ele n\u00e3o recebe nenhum chamado, ele n\u00e3o tem trabalho, no segundo dia ele n\u00e3o recebe nenhum chamado, ele tamb\u00e9m n\u00e3o tem nenhum trabalho, no terceiro, quase terminando as 72 horas que ele est\u00e1 esperando, ele recebe um chamado, e ele simplesmente vai receber por este chamado que ele fez.<\/p>\n<p>Vejamos, um m\u00e9dico vai atender uma fam\u00edlia de pacientes, tem l\u00e1 um aplicativo que vai receber por este atendimento, e ao mesmo tempo o aplicativo, ou seja, a empresa que det\u00e9m o controle do seu trabalho &#8212;\u00a0McDonald&#8217;s e tantas outras empresas usam amplamente esse sistema na Inglaterra, grandes empresas &#8211;, o que vai acontecer \u00e9 que ele vai receber pelo\u00a0hor\u00e1rio que trabalhou, s\u00f3 que ele est\u00e1 h\u00e1 72 horas dispon\u00edvel e recebe, digamos, se o seu trabalho durou uma hora, uma hora de trabalho.<\/p>\n<p>Isso, evidentemente, \u00e9 exemplo cabal da brutalidade das novas modalidades de trabalho que consideram os trabalhadores qualificados, tendo a disponibilidade total pro trabalho, s\u00f3 percebendo remunera\u00e7\u00e3o quando efetivamente trabalham. Isto se facilitou muito pelo mundo do trabalho digital, online, que faz com que trabalhadores assalariados e assalariadas das tecnologias da informa\u00e7\u00e3o, e de tantos outros setores, munidos de um celular, estejam em disponibilidade eterna para o trabalho, ainda que essa disponibilidade eterna para o trabalho tenha como resultado uma remunera\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria e\u00a0frequentemente insuficiente.<\/p>\n<p>Os empres\u00e1rios dizem &#8220;ora, mas ele aceita o trabalho zero hora se ele quiser&#8221;. \u00c9 verdade. Mas por que ele aceita? Porque n\u00e3o tem outro trabalho.\u00a0O trabalhador, quando est\u00e1 desempregado, aceita um trabalho em que receba alguma coisa, num\u00a0sentido cada vez mais degradante. E essa realidade \u00e9 impulsionada pela terceiriza\u00e7\u00e3o, ela \u00e9 impulsionada por essas regras de uma flexibiliza\u00e7\u00e3o total do mercado de trabalho.<\/p>\n<p>No Reino Unido, j\u00e1 chega \u00e0 casa de 1 milh\u00e3o de trabalhadores. O problema \u00e9 forte, e tem um debate intenso inclusive nos sindicatos porque \u00e9 uma forma de escravid\u00e3o moderna do trabalho online. Se voc\u00ea combinasse esse trabalho online com a precariza\u00e7\u00e3o dos trabalhos offline, do trabalho manual, dos trabalhos, digamos, mais bra\u00e7ais, os trabalhos de v\u00e1rios setores de servi\u00e7os que tamb\u00e9m s\u00e3o online mas muito duros como trabalho de call center, o quadro \u00e9 bastante negativo no que diz respeito ao mundo do trabalho.<\/p>\n<p>No Brasil, n\u00f3s j\u00e1 temos esse contrato [de zero hora]. H\u00e1 m\u00e9dicos fazendo isso. Se voc\u00ea liga para pedir um\u00a0eletricista para cuidar da sua casa, a companhia de seguro chama o trabalho de um contrato de zero hora. Ele presta esse trabalho, recebe por isto e fica chamando outro chamado. Se tem, tem. Se n\u00e3o tem, n\u00e3o tem.<\/p>\n<p>O Uber \u00e9 outro caso similar. Eu fui conhecer o sistema de Uber outro dia, conversando com um motorista. Ele era veterin\u00e1rio que simplesmente tinha perdido o seu trabalho na cl\u00ednica veterin\u00e1ria e, como ele tinha um carro, tinha a alternativa de utilizar-se do autom\u00f3vel para atender chamados de modo que ele pudesse n\u00e3o ficar desempregado e pagar as contas.\u00a0Esta \u00e9 uma tend\u00eancia que, se o PLC 30\/2015 [conhecido como projeto de terceiriza\u00e7\u00e3o], que est\u00e1 hoje no Senado, for aprovado e permitir o fim da separa\u00e7\u00e3o entre a atividade-meio e a atividade-fim, e a consequente permiss\u00e3o da terceiriza\u00e7\u00e3o total, n\u00f3s estamos abrindo todas as portas para uma desregulamenta\u00e7\u00e3o geral do trabalho.<\/p>\n<p><b>Jornal do Brasil &#8211; Como fica a a\u00e7\u00e3o sindical neste contexto?<\/b><\/p>\n<p>Ricardo Antunes &#8211; S\u00e3o dois elementos importantes. Primeiro, onde h\u00e1 resist\u00eancia sindical, os empres\u00e1rios n\u00e3o conseguem implementar [reformas] com esta intensidade. Por exemplo, a Fran\u00e7a, que tem tradi\u00e7\u00e3o de luta sindical, a Alemanha, que tamb\u00e9m tem sindicatos fortes, etc., consegue segurar e impedir a intensidade dessas medidas de desregulamenta\u00e7\u00e3o do trabalho.\u00a0Na Inglaterra, pelo contr\u00e1rio, onde o neoliberalismo foi devastador, muitos sindicatos foram profundamente atingidos. Nos Estados Unidos e em outros pa\u00edses, todos eles s\u00e3o neoliberais, mas alguns s\u00e3o mais devastadoramente neoliberais, como inclusive foi o caso do neoliberalismo ingl\u00eas, um verdadeiro laborat\u00f3rio do neoliberalismo na Europa, mais agressivo, com\u00a0Margaret Thatcher,\u00a0depois com\u00a0John Major.<\/p>\n<p>Onde os sindicatos s\u00e3o mais fortes, a resist\u00eancia \u00e9 maior. Agora, a defesa dessas medidas [do governo no Brasil] \u00e9 antissindical,\u00a0\u00e9 diminuir a solidariedade entre os trabalhadores, \u00e9 criar situa\u00e7\u00f5es, onde, digamos, n\u00e3o consigam preservar os la\u00e7os de solidariedade. Porque, a terceiriza\u00e7\u00e3o \u00e9 uma contrata\u00e7\u00e3o entre empresas, a contratante e a contratada, no qual a empresa contratada vai oferecer os trabalhadores que s\u00e3o solicitados pela empresa contratante. Ent\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 um vinculo empregat\u00edcio entre a empresa e os trabalhadores que trabalham nela. Isto permite toda a gama de burla, fraude de direitos e dificulta a organiza\u00e7\u00e3o sindical, na medida em que voc\u00ea tem uma tend\u00eancia \u00e0 individualiza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de trabalho.<\/p>\n<p>O PJ, a &#8220;pejotiza\u00e7\u00e3o&#8221;, \u00e9 a ideia de converter o trabalhador ou a trabalhadora como pessoa jur\u00eddica e estabelecer o contrato de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os. Quando ele adoece, por exemplo, se ele n\u00e3o tiver bom sistema privado de sa\u00fade, n\u00e3o tem sequer recursos para poder ter um atendimento de sa\u00fade. E essa pulveriza\u00e7\u00e3o, esta individualiza\u00e7\u00e3o, este exacerbar do individualismo e das rela\u00e7\u00f5es individualizadas entre empresa terceirizada e trabalhadores, tudo isso tende a enfraquecer bastante a organiza\u00e7\u00e3o sindical.<\/p>\n<p>\u00c9 vital, portanto, que os sindicatos compreendam isso. Para fazer um paralelo, do s\u00e9culo 19 para o s\u00e9culo 20, quando as empresas deixaram de ser empresas mais tradicionais, empresas de origem anteriormente manufatureira que se tornaram grandes empresas industriais, os sindicatos deixaram de ser sindicatos de artes\u00e3os, e tiveram que criar o sindicato da grande ind\u00fastria. Hoje os sindicatos est\u00e3o vivendo um desafio assemelhado ainda mais profundo.<\/p>\n<p>Em vez de grandes empresas tayloristas e fordistas do s\u00e9culo 20, que magistralmente o Chaplin caricaturou na sua obra-prima &#8220;Os tempos modernos&#8221;, hoje esta ideia de que cada um deve ter uma rela\u00e7\u00e3o de trabalho com uma empresa que contrata, sem a media\u00e7\u00e3o do coletivo, vai obrigar os sindicatos a reconfigurar, a redesenhar, as formas de organiza\u00e7\u00e3o sindical.\u00a0Isso n\u00e3o levar\u00e1, no meu entendimento, ao fim dos sindicatos, mas leva a uma necessidade imperiosa de os sindicatos se reorganizarem.<\/p>\n<p>Por exemplo, no passado, t\u00ednhamos sindicatos das telefonistas que eram fortes, no Rio tinha-se a empresa estatal de telefonia, a qual correspondia o Sindicato dos Trabalhadores Telef\u00f4nicos do Rio de Janeiro, assim valia para S\u00e3o Paulo e para outros estados sucessivamente. Com a cria\u00e7\u00e3o exponencial do trabalho online, do chamado trabalho digital das teleoperadoras &#8212; 70% do contingente \u00e9 feminino no Brasil, com esse trabalho das teleoperadoras, online, digitalizado, nasceu uma categoria, que \u00e9 a dos trabalhadores e trabalhadoras de Telemarketing. Muito diferente do antigo trabalho do sistema de telefonia p\u00fablica que existia nos v\u00e1rios estados do Brasil nos anos 1960\/1970. Isso est\u00e1 obrigando a que ou sindicatos reelaborem e compreendam essa nova forma de ser, essa nova morfologia do trabalho, ou est\u00e1 dando nascimento de novos sindicatos que j\u00e1 est\u00e3o tratando como realidade.<\/p>\n<p>Voc\u00ea sabe que muitas trabalhadoras do telemarketing est\u00e3o isoladas umas das outras, h\u00e1 muita rotatividade, muita informalidade, isso tudo \u00e9 uma via que dificulta os sindicatos. Os sindicatos s\u00e3o obrigados a repensar, a compreender essa nova morfologia do trabalho e como \u00e9 poss\u00edvel represent\u00e1-las com autenticidade, com sentido de classe, e voltado para os reais interesses das categorias que os sindicatos representam. \u00c9 por certo o desafio vital, um desafio global.<\/p>\n<p>Se voc\u00ea vai \u00e0 China, se voc\u00ea vai \u00e0 \u00cdndia, \u00e0 Inglaterra, se vamos aos Estados Unidos, \u00e0 Fran\u00e7a, It\u00e1lia &#8212; tenho viajado para todos esses pa\u00edses, tenho tido a sorte de meus livros terem sido publicados em todos esses pa\u00edses que eu me referi &#8211;, essa realidade \u00e9 global, e os sindicatos tamb\u00e9m sofrem um desafio global. E h\u00e1 experi\u00eancias, sindicatos que procuram dentro deste quadro novo se reorganizar, ainda que em uma situa\u00e7\u00e3o mais adversa.<\/p>\n<p>Mas vou dar uma pista, ainda que profundamente\u00a0heterogeneizada a classe trabalhadora, ainda que bastante fragmentada e bastante complexificada, h\u00e1 uma tend\u00eancia comum em tantas e diversas\u00a0categorias profissionais. Como \u00e9 essa tend\u00eancia comum? Relativamente homog\u00eanea, em meio a tanta heterogeneidade, como essa tend\u00eancia \u00e9 homogeneizante? \u00c9 a luta contra a precariza\u00e7\u00e3o do trabalho, que atinge os jornalistas, os trabalhadores da tecnologia de informa\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o, os trabalhadores da ind\u00fastria de software, atinge tamb\u00e9m os trabalhadores de call center, atinge trabalhadores metal\u00fargicos, atinge trabalhadores das cadeias produtivas globais.<\/p>\n<p>Hoje, as empresas-m\u00e3e, as empresas centrais, elas t\u00eam a sua marca e elas v\u00e3o terceirizando a sua produ\u00e7\u00e3o em v\u00e1rias partes do mundo.\u00a0A Apple, por exemplo, tem como grande montadora a\u00a0Foxconn, na China &#8212; a Foxconn tamb\u00e9m tem unidade no Brasil. Isto cria, inclusive, uma dificuldade, porque a\u00a0Foxconn realiza toda a montagem dos produtos da\u00a0Apple, mas n\u00e3o aparece a marca\u00a0Foxconn, aparece a marca Appple. E nem todos\u00a0sabem que a Apple \u00e9 montada pela Foxconn.<\/p>\n<p>Em 2010, na Foxconn na China, na unidade de\u00a0Shenzhen &#8212; os sal\u00e1rios eram entre 100 e 200 d\u00f3lares, dependendo do n\u00edvel de hora extra &#8211;, houve 17 tentativas de suic\u00eddio de trabalhadores dado o estressamento, a superexplora\u00e7\u00e3o do trabalho. Das 17 tentativas de suic\u00eddio, 13 delas tragicamente ocorreram. O que levou a uma grita generalizada, que inclusive acertou a Apple, porque n\u00e3o s\u00f3 se pressionava a Foxconn como a Apple que contratava a Foxconn.\u00a0Ent\u00e3o, o que a Foxconn \u00e9? Uma grande empresa transnacional de terceiriza\u00e7\u00e3o global. \u00c9 verdade que, no caso da China, h\u00e1 aus\u00eancia de sindicatos livres, isso tem desafiado a classe trabalhadora chinesa a pensar em alternativas, a pensar em outras formas de movimento, assim como a classes trabalhadora em tantas partes do mundo.<\/p>\n<p><b>Jornal do Brasil &#8211; O senhor tamb\u00e9m tinha comentado sobre o potencial de mudan\u00e7as como o projeto de terceiriza\u00e7\u00e3o de rebelar os trabalhadores e trabalhadoras.<\/b><\/p>\n<p>Ricardo Antunes &#8211; H\u00e1 exemplos de empresas de call center e telemarketing onde tem havido manifesta\u00e7\u00f5es, greves. Por exemplo, a Foxconn que eu citei esses suic\u00eddios e a intensidade da explora\u00e7\u00e3o do trabalho, isso vale para muitas outras empresas similares. Isso tem levado \u00e0s mais distintas formas de rebeli\u00e3o. No caso da Foxconn da China, o uso da internet mostrando as dificuldades das condi\u00e7\u00f5es extenuantes de trabalho e intensifica\u00e7\u00e3o da expans\u00e3o do trabalho.<\/p>\n<p>Eu coletava na semana passada o depoimento de uma trabalhadora de montagem de produtos digitalizados no Brasil. Ela dizia &#8220;olha, a gente tem a sensa\u00e7\u00e3o de que um trabalho \u00e9 separado do outro, que eu estou pondo um vidro aqui de um equipamento que eu nem sei o que que \u00e9&#8221;, mas s\u00f3 o fato de ela fazer essa pergunta j\u00e1 \u00e9 sinal de uma percep\u00e7\u00e3o de que algo n\u00e3o vai bem.<\/p>\n<p>H\u00e1 greves no setor de telemarketing no Brasil. N\u00f3s tivemos greves. H\u00e1 pesquisas novas, h\u00e1 esbo\u00e7os de organiza\u00e7\u00e3o sindical, h\u00e1 descontentamentos que v\u00e3o desde o uso da internet at\u00e9 greves, paralisa\u00e7\u00f5es, revoltas. \u00c9 por isso que n\u00f3s estamos tendo tipos diferentes de revolta, as greves ainda s\u00e3o recorrentes, a ideia de ter um sindicato que representa os trabalhadores e trabalhadoras tamb\u00e9m \u00e9 vital.<\/p>\n<p>Por que eles buscam o sindicato por mais que a campanha antissindicato seja forte? Porque o sindicato \u00e9 uma ferramenta de defesa da classe trabalhadora. Os sindicatos t\u00eam que representar, porque se n\u00e3o representarem, esses trabalhadores v\u00e3o buscar outros caminhos, outras formas de manifesta\u00e7\u00e3o de rebeldia, de luta, quer no plano sindical, quer fazendo greves, quer atrav\u00e9s de depoimentos por internet e outras, a classe trabalhadora demonstra a forma da intensidade da explora\u00e7\u00e3o a que est\u00e3o sujeitos.<\/p>\n<p><b>Jornal do Brasil &#8211; O senhor pode falar sobre a quest\u00e3o do desemprego que j\u00e1 vinha se desenhando devido ao esgotamento de um ciclo econ\u00f4mico, e o desemprego que poderia vir agora; e a precariza\u00e7\u00e3o do trabalho que j\u00e1 t\u00ednhamos antes e a precariza\u00e7\u00e3o do trabalho que pode haver agora, no Brasil?<\/b><\/p>\n<p>Ricardo Antunes &#8211;\u00a0N\u00f3s tivemos no Brasil entre 2003 e 2013 um crescimento expressivo dos empregos, na casa de mais de 20 milh\u00f5es, porque o pa\u00eds teve um ciclo de expans\u00e3o econ\u00f4mica forte. Acontece, entretanto, que, a partir de 2013, 2014, a crise econ\u00f4mica global passou a ter repercuss\u00f5es mais profundas nos chamados Brics, na China, na \u00cdndia, na R\u00fassia, no Brasil, na \u00c1frica do Sul, em v\u00e1rios outros pa\u00edses, especialmente \u00cdndia, China,\u00a0Brasil. Este\u00a0primeiro movimento, aliado a uma s\u00e9rie de equ\u00edvocos que vinham sendo praticados pela pol\u00edtica econ\u00f4mica vigente, acabaram levando a um esgotamento do ciclo, acabaram levando a um quadro onde o mito do pa\u00eds do grande crescimento, o mito do pa\u00eds da grande expans\u00e3o, o mito do pa\u00eds que ia para frente come\u00e7asse a\u00a0so\u00e7obrar.<\/p>\n<p>N\u00f3s [Brasil] come\u00e7amos a ter, ent\u00e3o, a partir de fim de 2014, in\u00edcio de 2015, uma acentua\u00e7\u00e3o das tend\u00eancias declinantes e o reaparecimento forte do desemprego. S\u00f3 para tratar deste \u00faltimo per\u00edodo, uma pol\u00edtica completamente\u00a0equivocada, o que fez o governo Dilma? Foi buscar um ajuste fiscal bastante nefasto, comandado por [Joaquim] Levy, que era o segundo homem de um grande banco no Brasil, ou seja, completamente imbu\u00eddo de um projeto neoliberal de desregulamenta\u00e7\u00e3o do trabalho e de um ajuste fiscal privatista, que diminuiu os efetivos de estado na economia.<\/p>\n<p>Esse ajuste fiscal brutal retraiu fortemente a economia,\u00a0porque foi exatamente o receitu\u00e1rio utilizado pelo sistema financeiro para preservar super\u00e1vit prim\u00e1rio, primeiro pagar juros da divida, depois tentar um novo ciclo de expans\u00e3o. Quando o governo Dilma entra na crise pol\u00edtica profunda que entrou &#8212; isso come\u00e7a em 2015, num quadro que vai se acentuando &#8212; a pol\u00edtica recessiva tamb\u00e9m \u00e9 implementada, isso fazendo com que aquela tend\u00eancia declinante fosse se expandindo, e o desemprego passa a aumentar.<\/p>\n<p>Quando Dilma sofre a abertura do processo de impeachment na C\u00e2mara dos Deputados, quer dizer, no meio de uma crise pol\u00edtica profunda, houve uma retroalimenta\u00e7\u00e3o, crise pol\u00edtica e crise econ\u00f4mica. Sobe, inicialmente em forma de interino, o governo Temer, e este governo vai come\u00e7ar a tomar uma s\u00e9rie de medidas claramente de desregulamenta\u00e7\u00e3o do trabalho, de botar o p\u00e9 no breque, e gerenciar uma pol\u00edtica de arrocho, de tal modo que voc\u00ea tivesse como consequ\u00eancia n\u00e3o mais o incentivo \u00e0 produ\u00e7\u00e3o, mas um desincentivo \u00e0 produ\u00e7\u00e3o e o consequente aumento do desemprego.<\/p>\n<p>Por isso que, desde que o Temer assumiu, h\u00e1 mais de 100 dias, o desemprego n\u00e3o para de aumentar. O seu receitu\u00e1rio \u00e9 ainda mais destrutivo do que o do primeiro ano de Dilma. \u00c9 um receitu\u00e1rio da privatiza\u00e7\u00e3o, da desregulamenta\u00e7\u00e3o e da precariza\u00e7\u00e3o do trabalho, os tr\u00eas tomados em um acelerador em ritmo alto.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, o que est\u00e1 acontecendo neste \u00faltimo per\u00edodo? O crescimento do desemprego que estamos vendo neste \u00faltimo trimestre &#8212; maio, junho e julho &#8212; \u00e9, por um lado, ainda saldo das medidas tomadas pelo ministro banqueiro Levy no primeiro ano do governo Dilma. Esse trimestre j\u00e1 traz aumento desse desemprego porque as medidas tomadas pelo tamb\u00e9m banqueiro [Henrique] Meirelles no governo Temer s\u00e3o medidas destrutivas em rela\u00e7\u00e3o ao crescimento de emprego e destrutivas em rela\u00e7\u00e3o ao trabalho.<\/p>\n<p>Qual \u00e9 o resultado? N\u00f3s chegamos hoje a n\u00edveis oficiais de quase 12 milh\u00f5es de desempregados, quando na verdade n\u00f3s temos n\u00edveis muito maiores. E no movimento da economia que n\u00f3s estamos hoje&#8230; Mesmo hoje, qual foi a medida do Banco Central? Manter os juros altos. Juros altos, remunera\u00e7\u00e3o do sistema financeiro, recursos s\u00e3o drenados para garantir o\u00a0super\u00e1vit prim\u00e1rio, e o Estado perdeu aquela impuls\u00e3o que dava para o incentivo de novos empregos.<\/p>\n<p>Por isso que qualquer an\u00e1lise s\u00e9ria reconhece que o\u00a0cen\u00e1rio que vamos ter nos pr\u00f3ximos dois trimestres, que compreendem o ano de 2016, \u00e9 desalentador, e vai fazer com que o movimento sindical e os movimentos sociais lutem ardorosamente para impedir que essas medidas sejam aplicadas. Porque isto tamb\u00e9m \u00e9 verdade, essas medidas n\u00e3o s\u00e3o inevit\u00e1veis, o movimento sindical pode impedi-las, os movimentos sociais podem impedi-las.<\/p>\n<p>O que n\u00f3s vimos hoje (quarta-feira) no Senado \u00e9 express\u00e3o disso. Criou-se um pretexto de depor um governo pelo conjunto pol\u00edtico da sua obra, por uma posi\u00e7\u00e3o que n\u00e3o ganha as elei\u00e7\u00f5es. Isso independe da avalia\u00e7\u00e3o que se fa\u00e7a do governo que cai. Eu, por exemplo, sou muito cr\u00edtico em rela\u00e7\u00e3o ao governo que caiu, muito conciliador e praticamente sem nenhuma ousadia para tentar mudan\u00e7as mais profundas. S\u00f3 que o governo que ganha, que sai desse processo de impeachment, na verdade, ele \u00e9 a pura representa\u00e7\u00e3o desses interesses dominantes. A tend\u00eancia dele \u00e9 aumentar a repress\u00e3o, como se viu em S\u00e3o Paulo [nas manifesta\u00e7\u00f5es contra o governo de Michel Temer na quarta-feira].<\/p>\n<p>N\u00f3s vamos entrar numa \u00e9poca de confronta\u00e7\u00e3o social, de manifesta\u00e7\u00f5es sindicais e sociais, o que n\u00e3o depende nem de longe de imaginar que o governo vai ter calma e tranquilidade. O per\u00edodo que vai de 2016 a 2018 ser\u00e1 uma sucess\u00e3o amplificada e articulada de crises sociais e crises pol\u00edticas, porque esse governo n\u00e3o tem legitimidade.<\/p>\n<p>O decisivo neste momento seria que um processo de novas elei\u00e7\u00f5es fosse realizado, um plebiscito popular decidiria se quer ou n\u00e3o novas elei\u00e7\u00f5es, e a partir disso n\u00f3s tentarmos sair desta crise. Um governo sem legitimidade n\u00e3o sinaliza sa\u00edda da crise porque a sa\u00edda da crise tem elementos de profundidade que n\u00e3o s\u00e3o resolvidos no discurso de Temer e seus ministros. A crise tem causas estruturais muito mais profundas.<\/p>\n<p>http:\/\/m.jb.com.br\/pais\/noticias\/2016\/09\/04\/brasil-vai-entrar-numa-epoca-de-manifestacoes-sindicais-e-sociais-diz-sociologo\/<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pamela Mascarenhas &#8211;\u00a0Professor Ricardo Antunes analisa mercado de trabalho no Brasil e no mundo O projeto de reforma trabalhista sinalizado pelo atual governo brasileiro \u00e9 uma &#8220;imposi\u00e7\u00e3o dos interesses financeiros que comandam a economia do pa\u00eds&#8221;, aponta Ricardo Antunes, professor de Sociologia do Trabalho da Unicamp e autor de diversos livros sobre o tema, entre [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1196,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[2,8],"tags":[],"class_list":["post-1696","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-politica","category-sociedade"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.7 - 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