{"id":1681,"date":"2016-09-02T12:11:46","date_gmt":"2016-09-02T15:11:46","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=1681"},"modified":"2016-09-01T23:15:25","modified_gmt":"2016-09-02T02:15:25","slug":"a-merda-e-o-ouro-dos-espertos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2016\/09\/02\/a-merda-e-o-ouro-dos-espertos\/","title":{"rendered":"A merda \u00e9 o ouro dos espertos"},"content":{"rendered":"<p><strong>ELIANE BRUM<\/strong> &#8211; Como a &#8220;Olimp\u00edada da Supera\u00e7\u00e3o&#8221; \u00e9 usada para forjar identidade, unidade e consenso no Brasil do impeachment<\/p>\n<p>A invers\u00e3o \u00e9 fascinante. A Olimp\u00edada foi idealizada, em 2009, para colocar no p\u00f3dio o Brasil grande. A apoteose do eterno pa\u00eds do futuro que finalmente chegava a um presente grandioso. Em 2016, o \u201csucesso\u201d da festa busca recolocar o Brasil n\u00e3o apenas como o pa\u00eds que \u2013 ainda \u2013 tem futuro, mas como o pa\u00eds da \u201csupera\u00e7\u00e3o\u201d. N\u00e3o se trata mais, como era em 2009, de lan\u00e7ar a Olimp\u00edada como a imagem que expressa \u201ca verdade final\u201d sobre o pa\u00eds. Em 2016, a Olimp\u00edada \u00e9 disputada, pelos v\u00e1rios atores, como a imagem capaz de tapar os buracos de um pa\u00eds. E devolver uma unidade, qualquer uma, ou um consenso, qualquer um, a um Brasil partido n\u00e3o em dois, mas em v\u00e1rios peda\u00e7os.<\/p>\n<section id=\"sumario_6|apoyos\" class=\"sumario_apoyos derecha\">\n<div class=\"sumario__interior\"><\/div>\n<\/section>\n<p>Em 2009, a quest\u00e3o era: veja como somos capazes de construir um pa\u00eds. Em 2016, a quest\u00e3o tornou-se: veja como somos capazes de fazer uma festa.<\/p>\n<p>N\u00e3o d\u00e1 para tratar essa mudan\u00e7a de paradigma, como tantos t\u00eam tratado, como se fosse a mesma coisa. O foco, aqui, s\u00e3o as interpreta\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas dessa Olimp\u00edada num momento t\u00e3o agudo do Brasil. E o papel que exercem sobre a constru\u00e7\u00e3o da realidade.<\/p>\n<p>Quando dizem orgulhosos que a Ba\u00eda da Guanabara estava maravilhosa e que o Rio continua lindo, trata-se da festa. A pergunta que trata de um pa\u00eds \u00e9: mas a Ba\u00eda da Guanabara foi despolu\u00edda? E a resposta \u00e9 n\u00e3o. A resposta \u00e9: a Ba\u00eda da Guanabara continua cheia de merda.<\/p>\n<p>Quando dizem euf\u00f3ricos que nenhum atleta pegou Zika v\u00edrus, a pergunta \u00e9: mas e a popula\u00e7\u00e3o do Rio? Est\u00e1 salva do Zika e, mais do que do Zika, da dengue? E as mulheres que tiveram e ainda ter\u00e3o crian\u00e7as com s\u00e9rios danos cerebrais, t\u00eam e ter\u00e3o acesso \u00e0 prote\u00e7\u00e3o e \u00e0 sa\u00fade? Estas s\u00e3o as perguntas que tratam do pa\u00eds \u2013 e n\u00e3o da festa.<\/p>\n<p>Quando dizem esfuziantes que o Rio nunca foi t\u00e3o seguro como nos 17 dias de Olimp\u00edada e que os mais de 80.000 policiais e soldados deveriam continuar nas ruas para defender os cidad\u00e3os \u201cde bem\u201d, a pergunta \u00e9: e nas comunidades? Morreu gente nas favelas, e n\u00e3o apenas o soldado da For\u00e7a Nacional H\u00e9lio Andrade. Em geral, ele \u00e9 considerado a \u00fanica baixa no per\u00edodo dos jogos, j\u00e1 que os demais mortos s\u00e3o aqueles que o pa\u00eds se acostumou a considerar \u201cmat\u00e1veis\u201d. Pelo menos 31 pessoas morreram e outras 51 ficaram feridas em 95 tiroteios no Rio Ol\u00edmpico, segundo a Anistia Internacional. N\u00e3o interessa para a festa? Deveria interessar para o pa\u00eds.<\/p>\n<p>Qual foi o custo financeiro dessa festa (gastos ainda \u00e0 espera de transpar\u00eancia), para um estado que decretou situa\u00e7\u00e3o de \u201ccalamidade p\u00fablica\u201d menos de dois meses antes do megaevento, para uma cidade falida e para um pa\u00eds em crise? Quem mede o sucesso ou quem diz o que \u00e9 sucesso? Ou sucesso para quem? Certamente n\u00e3o para os milhares de \u201cremovidos\u201d para a realiza\u00e7\u00e3o das obras.<\/p>\n<section id=\"sumario_1|html\" class=\"sumario_html izquierda\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<blockquote>\n<p class=\"texto_grande\">Diante do pa\u00eds sem rosto, cola-se a cara gasta de sempre<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>E, importante, sucesso aos olhos de quem? Quando algu\u00e9m exalta que a Ba\u00eda da Guanabara estava l\u00edmpida, o que se entende \u00e9 que a pessoa comemora o feito de conseguir esconder por duas semanas a merda dos olhos dos \u201cgringos\u201d, a quem interessa mostrar que seguimos bonitos por natureza. E alegres, muito alegres.<\/p>\n<p>A frase no Facebook \u00e9 cristalina: \u201cSomos um pa\u00eds de p\u00e9s-rapados, mas arrasamos numa festa\u201d. Diante do pa\u00eds sem rosto, cola-se a cara gasta de sempre, a de que somos muito bons em festa. E na festa somos cordiais, alegres e hospitaleiros. Assim, tenta-se tapar buracos que j\u00e1 n\u00e3o podem ser tapados. Conflitos que j\u00e1 n\u00e3o podem ser encobertos pela \u201cfesta da miscigena\u00e7\u00e3o\u201d. Mitos em decomposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Este \u00e9 um pa\u00eds em que as cenas de pessoas se espancando por usarem camisetas de cores diferentes se tornaram corriqueiras. Era de se prever que qualquer unidade, onde n\u00e3o h\u00e1 nenhuma, qualquer consenso, onde n\u00e3o h\u00e1 nenhum, seria agarrado por quem disputa a narrativa. \u00c9 bastante fascinante que a unidade forjada, que o brasileiro \u00fanico, \u201cO\u201d brasileiro, seja, de novo e mais uma vez, essa pessoa muito boa em festa. \u00c9 bastante fascinante que os brasileiros, que \u2013 ainda bem \u2013 j\u00e1 n\u00e3o podem dizer quem s\u00e3o ou o que s\u00e3o, possam ter o conforto de uma identidade fugaz. Ainda que essa identidade seja a de \u201carrasar na festa\u201d.<\/p>\n<section id=\"sumario_2|html\" class=\"sumario_html derecha\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<blockquote>\n<p class=\"texto_grande\">A unidade forjada \u00e9 a do velho clich\u00ea do brasileiro bom de festa<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>O mais fascinante, por\u00e9m, \u00e9 que essa narrativa tem se imposto com muito pouca cr\u00edtica. A Olimp\u00edada se deu com oprocesso de impeachment em curso. Acabaram os jogos e come\u00e7ou o julgamento da presidente Dilma Rousseff no Senado. Em vez de interpretar os sentidos, disputa-se a autoria do \u201csucesso\u201d. E, assim, em nome da agenda de ocasi\u00e3o, ou da elei\u00e7\u00e3o de 2018, ocultam-se \u2013 ou mesmo apagam-se \u2013 as contradi\u00e7\u00f5es. Apresentada \u2013 e consensuada pelos v\u00e1rios atores pol\u00edticos \u2013 como um legado de \u201csucesso\u201d, a quem pertence a Olimp\u00edada \u00e9 tudo o que passa a interessar. Em vez de disputar o pa\u00eds, disputa-se a festa. \u00c9 nesse n\u00edvel o rebaixamento do debate.<\/p>\n<p>\u00c9 tamb\u00e9m assim que se invoca, de novo e mais uma vez, o Complexo de Vira-Lata, conceito do cronista Nelson Rodrigues, grande int\u00e9rprete do futebol e do Brasil do s\u00e9culo 20. Obviamente o vira-lata \u00e9 sempre o outro. A suspeita de que a Olimp\u00edada n\u00e3o iria funcionar \u2013 ou \u201cdar certo\u201d \u2013 seria fruto da falta de autoestima dos brasileiros, que se sentiriam inferiorizados diante dos gringos. Cogita-se tamb\u00e9m a possibilidade de que o verdadeiro vira-lata seja aquele que tem como \u00fanica medida o olhar dos gringos e que necessita da sua aprova\u00e7\u00e3o para saber se tem valor. O curioso \u00e9 que, na tese da viralatiza\u00e7\u00e3o, usa-se a festa como categoria totalizante. Se em alguns casos isso pode ser s\u00f3 um problema cognitivo, em outros soa como m\u00e1 f\u00e9.<\/p>\n<p>\u00c9 a\u00ed que entra um conceito essencial para compreender o momento: \u201csupera\u00e7\u00e3o\u201d. A Olimp\u00edada de 2009 foi sonhada como o coroamento de um pa\u00eds que j\u00e1 se superou. Ou que j\u00e1 se tornou sua pr\u00f3pria promessa, com a melhoria da qualidade de vida de dezenas de milh\u00f5es e a redu\u00e7\u00e3o das desigualdades. Uma na\u00e7\u00e3o que j\u00e1 havia pavimentado seu lugar entre as grandes economias do mundo, um Brasil de \u201ccidadania plena\u201d, um \u201cpa\u00eds de primeira classe\u201d. Na Olimp\u00edada de 2016, \u00e9 a supera\u00e7\u00e3o que passa a ser a qualidade de todo um pa\u00eds. A qualidade em si, o moto-cont\u00ednuo. O looping eterno. O p\u00e9-rapado, que continua p\u00e9-rapado, mas que arrasa na festa.<\/p>\n<p>\u00c9 assim que nossos atletas tornam-se sempre \u201chist\u00f3rias de supera\u00e7\u00e3o\u201d a serem enaltecidas. Gente como Rafaela Silva e Isaquias Queiroz. Se eles superaram todas as desigualdades e assimetrias do Brasil e tornaram-se atletas capazes de ganhar medalhas no p\u00f3dio, \u00e9 um orgulho para eles. Mas \u00e9 imperativo lembrar que venceram apesar do Brasil. E esse fato deveria ser motivo de vergonha para o pa\u00eds.<\/p>\n<p>Consumido pela m\u00e1quina de fazer dinheiro que envolve m\u00eddia e megaeventos, o que \u00e9 exce\u00e7\u00e3o \u2013 vencer contra tudo e contra todos \u2013 \u00e9 convertido em qualidade totalizante. Assim, \u00e9 o Brasil inteiro que se torna o pa\u00eds \u201cda supera\u00e7\u00e3o\u201d. \u00c9 a Olimp\u00edada \u201cda supera\u00e7\u00e3o\u201d. O que deveria ser vergonha, o fato de o pa\u00eds n\u00e3o garantir a base m\u00ednima para suas crian\u00e7as e jovens desenvolverem suas potencialidades no esporte \u2013 e tamb\u00e9m na matem\u00e1tica e na literatura \u2013, \u00e9 convertido em orgulho nacional.<\/p>\n<section id=\"sumario_3|html\" class=\"sumario_html izquierda\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<blockquote>\n<p class=\"texto_grande\">A capacidade de supera\u00e7\u00e3o \u00e9 m\u00edstica fartamente distribu\u00edda onde a renda \u00e9 concentrada na m\u00e3o de poucos e dos mesmos<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>Essa falsifica\u00e7\u00e3o serve a muitas coisas. Entre elas, enriquecer muita gente e alimentar o entretenimento disfar\u00e7ado de jornalismo de algumas redes de TV. Serve ainda a algo bem perverso, com graves consequ\u00eancias na vida concreta do pa\u00eds, que \u00e9 estimular a cren\u00e7a de que basta ter vontade pessoal para conseguir vencer num pa\u00eds em que a maioria vive em terra arrasada, em escolas arrasadas, em inseguran\u00e7a alimentar, seja por desnutri\u00e7\u00e3o ou por obesidade. Assim, se voc\u00ea n\u00e3o vence, \u00e9 problema seu. O Estado \u00e9 deresponsabilizado, as distor\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas s\u00e3o apagadas. E, portanto, n\u00e3o h\u00e1 raz\u00e3o para pensar em redistribui\u00e7\u00e3o de renda ou em reforma agr\u00e1ria ou em demarca\u00e7\u00e3o de terras tradicionais. O brasileiro, esse unic\u00f3rnio, se supera. \u00c9 p\u00e9-rapado mas arrasa numa festa.<\/p>\n<p>\u00c9 o discurso de Galv\u00e3o Bueno, da Rede Globo, calculadamente lacrimoso: \u201cO esporte \u00e9 a ferramenta que faz Rafaela Silva, nascida na pobreza da Cidade de Deus, e o supercampe\u00e3o Bernardinho, filho da classe m\u00e9dia carioca, dividirem o mesmo sonho e chegarem ao mesmo lugar\u201d. Qual \u00e9 a mensagem dessa igualdade forjada em um dos pa\u00edses mais desiguais do mundo? No pa\u00eds da supera\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 preciso tocar nos privil\u00e9gios, porque tudo depende da for\u00e7a de vontade individual. A capacidade de supera\u00e7\u00e3o \u00e9 m\u00edstica fartamente distribu\u00edda onde a renda \u00e9 concentrada na m\u00e3o de poucos \u2013 e dos mesmos.<\/p>\n<p>Deveria produzir alguma interroga\u00e7\u00e3o o fato de que algu\u00e9m como Galv\u00e3o Bueno, com tudo o que \u00e9 e representa, tenha se tornado uma esp\u00e9cie de porta-voz do esp\u00edrito ol\u00edmpico. Discursos semelhantes ao dele, de exalta\u00e7\u00e3o da Olimp\u00edada, foram repetidos at\u00e9 mesmo por intelectuais que at\u00e9 ontem exibiam pensamento complexo. N\u00e3o s\u00f3 pela direita, mas tamb\u00e9m pela esquerda.<\/p>\n<section id=\"sumario_4|html\" class=\"sumario_html derecha\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<blockquote>\n<p class=\"texto_grande\">Parte da esquerda adere \u00e0 mesma falsifica\u00e7\u00e3o da m\u00eddia que no restante do tempo acusa de golpista<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>Para parte da direita, trata-se, entre outras coisas, de garantir que o pa\u00eds tem unidade para seguir ap\u00f3s o impeachment, com a agenda conservadora em curso. O Brasil \u00e9 o que sempre foi, o per\u00edodo Lula-Dilma apenas uma interrup\u00e7\u00e3o moment\u00e2nea. Para uma parcela da esquerda, o ponto \u00e9 garantir a Olimp\u00edada como um legado usurpado de Lula, caso ele chegue \u00e0s elei\u00e7\u00f5es de 2018. Em nome dos projetos de poder, sacrifica-se a complexidade e forja-se o consenso oportunista. O que n\u00e3o cabe na vers\u00e3o \u00e9 relegado a quest\u00f5es de menor import\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Mais uma vez, em nome da agenda de ocasi\u00e3o, parte da esquerda se cala diante das tantas falsifica\u00e7\u00f5es da Olimp\u00edada da Supera\u00e7\u00e3o. E reedita uma esp\u00e9cie de concilia\u00e7\u00e3o imag\u00e9tica, uma esp\u00e9cie de tr\u00e9gua ol\u00edmpica, com a mesma m\u00eddia que no restante do tempo acusam de golpista. Disputa-se a assinatura do espet\u00e1culo, o sucesso j\u00e1 foi pactuado.<\/p>\n<p>Na m\u00edstica da supera\u00e7\u00e3o, quando aqueles que deveriam se superar sofrem uma derrota, s\u00e3o punidos como se tra\u00edssem todo um pa\u00eds. \u00c9 neste momento que os conflitos aparecem, e o racismo, a homofobia e o machismo do povo alegre que arrasa numa festa explodem. Como t\u00e3o bem compreendeu Rafaela Silva, que ao ser derrotada na Olimp\u00edada de Londres, em 2012, foi chamada de \u201cmacaca\u201d nas redes sociais, em tal volume e virul\u00eancia que quase desistiu do jud\u00f4. Em 2016, ao ganhar o ouro na sua categoria, virou hero\u00edna nacional. Ningu\u00e9m d\u00favida que, se perdesse, seria de novo \u201cmacaca\u201d.<\/p>\n<p>A nadadora Joanna Maranh\u00e3o conheceu bem a \u201ccordialidade\u201d do povo brasileiro ao ficar fora da semifinal dos 200m borboleta. Joanna, que anos atr\u00e1s teve a coragem de denunciar que foi abusada por seu t\u00e9cnico quando menina, ouviu nas redes sociais que, por ter perdido, \u201cdeveria ser estuprada novamente\u201d. O Brasil \u00e9 homof\u00f3bico, machista, racista e xen\u00f3fobo, denunciou Joanna, desafiando o pa\u00eds alegre e hospitaleiro \u2013 ou \u201co povo que se comportou muito bem nesta Olimp\u00edada\u201d. Joanna e Rafaela exibiram maturidade ao n\u00e3o se deixarem engolir pela m\u00e1quina de entretenimento. Ao contr\u00e1rio, arriscaram-se a expor os conflitos quando ningu\u00e9m queria saber deles.<\/p>\n<p>O pa\u00eds n\u00e3o fracassa quando um atleta perde numa Olimp\u00edada. Brasileiras como a judoca Rafaela Silva s\u00e3o vitoriosas apenas por chegarem vivas \u00e0 idade adulta. Alcan\u00e7ar uma Olimp\u00edada, ganhando ou n\u00e3o, \u00e9 uma enormidade. O Brasil fracassa porque no mesmo per\u00edodo da Olimp\u00edada em que Rafaela subiu ao p\u00f3dio, jovens como ela foram executados a tiros bem perto dali.<\/p>\n<p>O \u201csucesso\u201d \u2013 ou a \u201csupera\u00e7\u00e3o\u201d \u2013 do Brasil ol\u00edmpico parece ser o de ter conseguido esconder dos olhos dos gringos a merda toda por duas semanas. E n\u00e3o apenas a da Ba\u00eda da Guanabara. \u00c9 verdade que um pa\u00eds pode ser medido n\u00e3o pelo seu sucesso, mas pela r\u00e9gua com que mede seu sucesso.<\/p>\n<p>A Olimp\u00edada, como conceito fechado, \u00e9 grandiosa. Os atletas se dedicam duramente para fazer desse momento um espet\u00e1culo, para criar beleza. Fizeram espet\u00e1culo mesmo na Olimp\u00edada de Berlim, em 1936, na Alemanha nazista. Uso esse exemplo radical porque ele ajuda a deixar mais claro que uma Olimp\u00edada n\u00e3o pertence apenas aos atletas nem serve apenas \u00e0 celebra\u00e7\u00e3o dos povos. Parece \u00f3bvio, mas n\u00e3o \u00e9 o que temos visto em tantas justificativas. Os usos de uma Olimp\u00edada, assim como as narrativas sobre ela, s\u00e3o pol\u00edticos, no sentido amplo (e seguidamente tamb\u00e9m no rasteiro). E a forma como cada um dela participa tamb\u00e9m \u00e9 pol\u00edtica.<\/p>\n<section id=\"sumario_5|html\" class=\"sumario_html izquierda\">\n<div class=\"sumario__interior\">\n<div class=\"sumario-texto\">\n<blockquote>\n<p class=\"texto_grande\">A reedi\u00e7\u00e3o do Complexo de Vira-Lata pode revelar a impossibilidade de criar conceitos originais num momento t\u00e3o desafiador<\/p>\n<\/blockquote>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/section>\n<p>\u00c9 neste campo que chamo a aten\u00e7\u00e3o para \u201co Brasil provou que sabe fazer uma Olimp\u00edada\u201d. H\u00e1 que se ter muito cuidado com quem coloca algo t\u00e3o complexo na perspectiva do pessimismo\/otimismo. H\u00e1 que se ter consider\u00e1vel delicadeza mesmo com o conceito do Complexo de Vira-Lata. N\u00e3o se sabe se ele foi revivido porque de fato faz eco, ou pela incapacidade de criar conceitos originais para um momento t\u00e3o desafiador do Brasil. Tendo a apostar mais nesta segunda hip\u00f3tese \u2013 e sigo defendendo que nossa crise \u00e9 tamb\u00e9m de palavra. De linguagem e de est\u00e9tica.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma diferen\u00e7a entre ser capaz de fazer uma festa, a medalha de ouro de 2016. E ser capaz de construir um pa\u00eds, a medalha de ouro de 2009. \u00c9 preciso marcar essa diferen\u00e7a para n\u00e3o perder a Olimp\u00edada do dia seguinte.<\/p>\n<p>http:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2016\/08\/29\/opinion\/1472475226_988894.html<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ELIANE BRUM &#8211; Como a &#8220;Olimp\u00edada da Supera\u00e7\u00e3o&#8221; \u00e9 usada para forjar identidade, unidade e consenso no Brasil do impeachment A invers\u00e3o \u00e9 fascinante. A Olimp\u00edada foi idealizada, em 2009, para colocar no p\u00f3dio o Brasil grande. A apoteose do eterno pa\u00eds do futuro que finalmente chegava a um presente grandioso. 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