{"id":16711,"date":"2022-03-11T12:05:59","date_gmt":"2022-03-11T15:05:59","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=16711"},"modified":"2022-03-20T11:19:51","modified_gmt":"2022-03-20T14:19:51","slug":"o-leitmotiv-da-guerra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2022\/03\/11\/o-leitmotiv-da-guerra\/","title":{"rendered":"O Leitmotiv da Guerra"},"content":{"rendered":"<p><strong>Jos\u00e9 Martins<\/strong> &#8211;\u00a0Dias atr\u00e1s, Joe Biden e Vladimir Putin faziam na televis\u00e3o dois pronunciamentos quase simult\u00e2neos sobre a situa\u00e7\u00e3o do atual conflito nas fronteiras de R\u00fassia com Ucr\u00e2nia.<\/p>\n<p>Biden afirmava que \u201cna verdade, nossos analistas indicam que as tropas russas ainda est\u00e3o em uma posi\u00e7\u00e3o amea\u00e7adora e o fato \u00e9 que, neste exato momento, a invas\u00e3o permanece claramente poss\u00edvel\u2026 se a R\u00fassia atacar a Ucr\u00e2nia vai ser uma guerra por escolha pr\u00f3pria, uma guerra sem motivo ou raz\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, Putin esclarecia: \u201ccomo a R\u00fassia agir\u00e1 a partir de agora? \u2026 de acordo com o plano \u2026 e como o plano ser\u00e1 feito? \u2026 de acordo com a situa\u00e7\u00e3o real\u2026 quem pode dizer como a situa\u00e7\u00e3o real se desenvolver\u00e1? \u2026 ningu\u00e9m, at\u00e9 agora\u201d.<\/p>\n<p>Coment\u00e1rio da apresentadora da Globo News sobre os dois pronunciamentos: \u201c\u00e9 incr\u00edvel, n\u00e9?\u2026 o Putin \u00e9 um enigma\u2026 ele tem uma cara de quem est\u00e1 falando ali uma coisa com deboche\u2026 impressionante!\u201d<\/p>\n<p>O que ningu\u00e9m nunca deve ter dito \u00e0 pobre criatura temente a Deus \u00e9 que Biden foi criado no interior da Pensilv\u00e2nia e o livro mais profundo que ele leu na vida, da mesma forma que a maioria dos cidad\u00e3os estadunidenses, foi \u201cAs Aventuras de Tom Sawyer\u201d, de Mark Twain.<\/p>\n<p>Putin, por seu lado, foi nascido e criado em S\u00e3o Petersburgo. E j\u00e1 em seu curso colegial leu Lev Tolst\u00f3i, de \u201cAnna Karenina\u201d, al\u00e9m, \u00e9 claro, do seu popular \u201cGuerra e Paz\u201d \u2013 e Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski de \u201cOs Irm\u00e3os Karamazov\u201d, \u201cMem\u00f3rias do Subterr\u00e2neo\u201d e outras monumentais obras da intelig\u00eancia humana.<\/p>\n<p>Em pronunciamento recente ele cita trecho de Dostoi\u00e9vski para ilustrar determinada situa\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica. Na era do Instagram e Tik Tok isso ainda existe, acreditem. Mas Putin n\u00e3o \u00e9 um caso isolado. Ocorre com a maioria dos cidad\u00e3os da R\u00fassia. E na Ucr\u00e2nia \u00e9 a mesma coisa, onde dois ter\u00e7os da popula\u00e7\u00e3o s\u00e3o de origem da \u201cGrande R\u00fassia\u201d.<\/p>\n<p>Mas ser\u00e1 que essa gigantesca diferen\u00e7a qualitativa entre dois povos na forma\u00e7\u00e3o espiritual \u00e9 uma coisa importante quando eles parecem prontos para um entrar em guerra de vida ou morte contra o outro? N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a quantidade de divis\u00f5es, soldados bem treinados e modernos armamentos que importa na hora do vamos ver? Talvez. Mas h\u00e1 na academia, para quem ainda se interessa pelo que ela diz atualmente, controv\u00e9rsias a respeito.<\/p>\n<p>De todo modo, para o que realmente interessa neste momento, quando a ordem geopol\u00edtica do per\u00edodo p\u00f3s-guerra (1945) parece colapsar, o mais importante \u00e9 saber o seguinte, como pergunta inteligentemente o presidente da R\u00fassia: como a situa\u00e7\u00e3o real se desenvolver\u00e1? At\u00e9 agora ningu\u00e9m sabe, ele responde, tamb\u00e9m de forma inteligente.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 verdade tamb\u00e9m, e Putin sabe disso, que uma coisa muito importante para tra\u00e7ar poss\u00edveis cen\u00e1rios de nova guerra mundial (ou continuidade da funesta Pax americana do p\u00f3s-guerra) \u00e9 o pr\u00f3prio\u00a0<em>leitmotiv<\/em>\u00a0da guerra europeia que pode explodir nos pr\u00f3ximos dias nas fronteiras e territ\u00f3rios de R\u00fassia e Ucr\u00e2nia.<\/p>\n<p>N\u00e3o existe santo nesta pendenga ucraniana. S\u00e3o todos bandidos. S\u00e3o todos capitalistas. Tanto os leitores dos g\u00eanios quanto os dos an\u00f5es da literatura mundial. Mas o fato \u00e9 que, ao contr\u00e1rio de Putin, o admirador das\u00a0<em>Aventuras de Tom Sawyer<\/em>\u00a0mostra toda sua in\u00e9pcia quando afirma em sucessivos pronunciamentos que se a R\u00fassia atacar a Ucr\u00e2nia vai ser uma guerra por escolha pr\u00f3pria, uma guerra sem motivo ou raz\u00e3o.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do que afirma o belicoso estadunidense, nunca existiu nos \u00faltimos setenta e cinco anos uma guerra com tantos motivos ou raz\u00f5es materiais para acontecer como esta que se anuncia acidentalmente nas fronteiras da Ucr\u00e2nia com a R\u00fassia.<\/p>\n<p>Portanto, o primeiro cuidado para acompanhar e antever os desdobramentos da atual situa\u00e7\u00e3o de guerra na Ucr\u00e2nia \u00e9 observar que seu\u00a0<em>leitmotiv<\/em>, quer dizer, seu fio condutor, \u00e9 o mesmo de uma poss\u00edvel guerra mundial um pouco mais a frente.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que nas guerras mundiais \u2013 aquelas que envolvem ao mesmo tempo todas as pot\u00eancias econ\u00f4micas e militares do planeta \u2013 ningu\u00e9m pode dispor de um vitorioso plano de a\u00e7\u00e3o no ch\u00e3o duro da batalha se n\u00e3o houver clareza do\u00a0<em>leitmotiv<\/em>\u00a0que determina a forma, a intensidade e, finalmente, a dura\u00e7\u00e3o de qualquer guerra.<\/p>\n<p>Parece que Putin tem esta clareza. N\u00e3o poderia ser diferente para quem tem ao lado Sergei Lavrov, o grande estrategista da pol\u00edtica externa de Moscou. \u00a0\u00c9 claro que Biden e muita gente importante do Departamento de Estado e do Pent\u00e1gono tamb\u00e9m t\u00eam a clareza da situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas a R\u00fassia \u2013 desde, pelo menos, de Pedro, o Grande, e da rainha Catarina, a Grande \u2013 sempre foram mais craques nesta ci\u00eancia da guerra que esses caipiras do<em>\u00a0corn belt<\/em>. E no terreno duro da batalha nunca perderam quase nenhuma grande guerra. Os prussianos, alem\u00e3es e franceses que o digam. Na 2\u00aa Grande Guerra, o \u201cex\u00e9rcito vermelho\u201d foi o primeiro a atingir e tomar Berlim.<\/p>\n<p>Parafraseando Mirabeau, \u201coutros Estados possuem um ex\u00e9rcito, a R\u00fassia \u00e9 um ex\u00e9rcito que possui um Estado\u201d. N\u00e3o por acaso, e ao contr\u00e1rio da Pr\u00fassia, a quem Mirabeau se refere, o Estado russo conseguiu manter at\u00e9 agora um inacredit\u00e1vel territ\u00f3rio nacional que se estende de Kaliningrado a Vladvostok.<\/p>\n<p>Quer dizer, a R\u00fassia det\u00eam um espa\u00e7o geogr\u00e1fico que se estende das proximidades com a Alemanha, na embocadura do Mar B\u00e1ltico, at\u00e9 diretamente com as fronteiras de China, Coreia do Norte e Jap\u00e3o, no Mar do Jap\u00e3o. A Pr\u00fassia, ou Alemanha, por seu lado, n\u00e3o passa atualmente de uma prov\u00edncia geopol\u00edtica obediente a todas as vontades do imperialismo estadunidense.<\/p>\n<p>Mas o\u00a0<em>leitmotiv<\/em>\u00a0de uma determinada guerra n\u00e3o se limita a raz\u00f5es territoriais ou geogr\u00e1ficas. Tampouco se pode imaginar a eclos\u00e3o de \u201cuma guerra por escolha pr\u00f3pria, uma guerra sem motivo ou raz\u00e3o\u201d, como sugere vagamente em seus pronunciamentos das \u00faltimas semanas o tr\u00eamulo e abatido presidente da maior pot\u00eancia econ\u00f4mica e militar do planeta.<\/p>\n<p>O que mais debilita o presidente dos EUA \u2013 recentemente eleito e j\u00e1 t\u00e3o odiado internamente como fora seu antecessor Donald Trump \u2013 \u00e9 exatamente o fator gen\u00e9tico elementar do\u00a0<em>leitmotiv<\/em>\u00a0de uma guerra total entre pot\u00eancias: a eclos\u00e3o de uma crise econ\u00f4mica geral (financeira e industrial) na totalidade do mercado mundial.<\/p>\n<p>Esta vari\u00e1vel de peso na cenariza\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica n\u00e3o tinha ainda se destacado como a mais importante no longo per\u00edodo do p\u00f3s-guerra. Agora ela pode acontecer ainda neste ano. Pode. J\u00e1 \u00e9 o cen\u00e1rio que mais aproxima como o mais prov\u00e1vel.<\/p>\n<p>Este foi o tema tratado no\u00a0<a href=\"https:\/\/criticadaeconomia.com\/2022\/02\/turning-point\/\">\u00faltimo boletim da Cr\u00edtica da Economia<\/a>\u00a0tratando de uma irredut\u00edvel pletora de capital que cobre a crosta terrestre. Uma pletora pode-se acrescentar, agora focando na atual situa\u00e7\u00e3o ucraniana, que cobre de maneira mais intensa o continente europeu e as suas antigas pot\u00eancias militares \u2013 principalmente a trinca Alemanha, Fran\u00e7a e Inglaterra.<\/p>\n<p>N\u00e3o ser\u00e1 a guerra na Ucr\u00e2nia que causar\u00e1 grandes problemas econ\u00f4micos, seja para a Europa, seja para o restante do mercado mundial, como afirmam as an\u00e1lises superficiais dos economistas e comentaristas da m\u00eddia mundial. Ela mesma, e a forma que vai tomar, j\u00e1 \u00e9 um resultado destes problemas econ\u00f4micos. Trata-se de problemas muito maiores que os mercados do g\u00e1s, petr\u00f3leo, alimentos, mat\u00e9rias primas, etc. que, ali\u00e1s, j\u00e1 est\u00e3o mais do que presentes na atual situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica global.<\/p>\n<p>O buraco \u00e9 mais embaixo. O mais importante \u00e9 o gatilho de uma grande corre\u00e7\u00e3o e queima de capitais nas grandes pra\u00e7as financeiras do mercado mundial que pode ser disparado no exato momento em que o Federal Reserve Bank (Fed, banco central dos EUA) iniciar a eleva\u00e7\u00e3o da sua taxa b\u00e1sica de juros \u2013 que atualmente, se encontra pr\u00f3xima de zero, frente a uma insistente infla\u00e7\u00e3o de 7.5% nos \u00faltimos doze meses.<\/p>\n<p>N\u00e3o d\u00e1 para o governo estadunidense e o Fed evitar esta arriscada manobra. A eleva\u00e7\u00e3o dos juros \u2013 simultaneamente a uma redu\u00e7\u00e3o radical dos est\u00edmulos fiscais e monet\u00e1rios nas grandes pot\u00eancias europeias e Jap\u00e3o \u2013 deve ocorrer nas pr\u00f3ximas semanas, in\u00edcio de mar\u00e7o.<\/p>\n<p>No cen\u00e1rio econ\u00f4mico mundial mais prov\u00e1vel nos pr\u00f3ximos trimestres tra\u00e7ado pela Cr\u00edtica da Economia destaca-se que a economia reguladora do mercado mundial e detentora da moeda padr\u00e3o de reserva internacional (d\u00f3lar) j\u00e1 se encontra no limiar de um\u00a0<strong>estado estacion\u00e1rio<\/strong>. Por favor, n\u00e3o confundam com estagna\u00e7\u00e3o e muito menos depress\u00e3o.<\/p>\n<p>Esta \u201cs\u00edndrome japonesa\u201d de defla\u00e7\u00e3o nos lucros e na taxa de acumula\u00e7\u00e3o, que j\u00e1 dura mais de trinta anos, agora atinge simultaneamente os EUA e Europa. O fogo da acumula\u00e7\u00e3o se extingue lentamente no cora\u00e7\u00e3o do sistema capitalista.<\/p>\n<p>Na an\u00e1lise de um quadro geopol\u00edtico o que mais importa destacar nas caracter\u00edsticas de um\u00a0<strong>estado estacion\u00e1rio<\/strong>\u00a0\u00e9 a tend\u00eancia inescap\u00e1vel das grandes pot\u00eancias aumentarem rapidamente a produ\u00e7\u00e3o de seu complexo militar-industrial para lutar contra o desemprego tanto do capital quanto do trabalho dentro de seus pa\u00edses.<\/p>\n<p>A produ\u00e7\u00e3o de meios de consumo individual (departamento 2 da produ\u00e7\u00e3o) \u00e9 deslocada para a produ\u00e7\u00e3o de meios de destrui\u00e7\u00e3o (departamento 4 da produ\u00e7\u00e3o). Menos manteiga e mais canh\u00e3o. Muito mais. Esta \u00e9 a forma econ\u00f4mica mais eficiente dos capitalistas manterem o aparelho produtivo de capital funcionando em ponto morto \u2013 garantindo pelo menos a reprodu\u00e7\u00e3o simples \u2013 e de lutar contra as inevit\u00e1veis rebeli\u00f5es de desempregados e famintos trabalhadores produtivos no interior das na\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Portanto, esta liga\u00e7\u00e3o direta da economia com a produ\u00e7\u00e3o de armamentos e com a guerra pressionar\u00e1 diretamente a ordem geopol\u00edtica prevalecente nos \u00faltimos setenta anos. J\u00e1 est\u00e1 acontecendo. Trata-se ent\u00e3o de aumentar a produ\u00e7\u00e3o no departamento 4 (meios de destrui\u00e7\u00e3o), como teorizado pela economista Rosa de Luxemburgo, conquistar novos mercados externos, vender estas mercadorias para quem estiver disposto a \u201cconsumi-las\u201d nas inevit\u00e1veis guerras.<\/p>\n<p>Vejam, por exemplo, a decis\u00e3o do governo dos EUA, em setembro de 2021, de ser ele o fornecedor de grande quantidade de submarinos nucleares para a Austr\u00e1lia. Biden anunciou uma nova alian\u00e7a com Austr\u00e1lia e Reino Unido para fortalecer as capacidades navais na regi\u00e3o do Indo-Pac\u00edfico diante da crescente influ\u00eancia da China, com uma nova frota australiana de submarinos de propuls\u00e3o nuclear.<\/p>\n<p>Acontece que o governo australiano j\u00e1 tinha contrato de inten\u00e7\u00e3o firmado com a ind\u00fastria armamentista francesa para fornecimento de grande quantidade de submarinos convencionais. Por imposi\u00e7\u00e3o de Washington, a venal burguesia australiana rompeu unilateralmente o contrato com os capitalistas franceses e girou a chave para os vendedores estadunidenses.<\/p>\n<p>O esperto vendedor Joe Biden declarou que os esfor\u00e7os para permitir que a Austr\u00e1lia construa submarinos de propuls\u00e3o nuclear v\u00e3o garantir que tenham \u201cas capacidades mais modernas de que precisamos para manobrar e nos defender de amea\u00e7as em r\u00e1pida evolu\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Os submarinos n\u00e3o estar\u00e3o dotados de armas nucleares, e sim propulsionados por reatores nucleares, enfatizou Biden. Poderia ter acrescentado que com bombas nucleares \u00e9 um pouco mais caro. Mais tarde, o primeiro-ministro australiano Scott Morrison anunciou que a Austr\u00e1lia tamb\u00e9m vai adquirir dos EUA m\u00edsseis de cruzeiro Tomahawk americanos de longo alcance. \u201cVamos atualizar nossas capacidades de ataque de longo alcance, incluindo m\u00edsseis de cruzeiro Tomahawk para serem instalados nos destroieres da classe Hobart da Marinha Real Australiana\u201d, informou Morrison.<\/p>\n<p>Emmanuel Macron, um pequeno banqueiro que se tornou presidente da Fran\u00e7a, protestou veementemente e at\u00e9 amea\u00e7ou romper rela\u00e7\u00f5es com os EUA se a negociata dos EUA n\u00e3o fosse desfeita. Parece que chegou a chamar o embaixador da Fran\u00e7a nos EUA, como retalia\u00e7\u00e3o diplom\u00e1tica.<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00f3 a negociata imperialista de Washington n\u00e3o foi desfeita, como, depois de ligar para Biden,\u00a0<em>le petit con<\/em>\u00a0[o fdp] enfiou o rabo debaixo das pernas e correu para junto de mam\u00e3e \u00c2ngela Merkel para, juntos, derramarem l\u00e1grimas amargas pela triste submiss\u00e3o de Fran\u00e7a e Alemanha \u00e0 OTAN, a organiza\u00e7\u00e3o militar com que os EUA imp\u00f5e sobre a Europa e adjac\u00eancias seu tac\u00e3o de domina\u00e7\u00e3o imperialista.<\/p>\n<p>Acreditavam na lealdade do amigo e aliado Joe Biden? N\u00e3o devem ter chegado a tanto. Mas pelo menos n\u00e3o levaram a s\u00e9rio o fato que, parafraseando meus amigos mexicanos, do mesmo modo que na pol\u00edtica interna das na\u00e7\u00f5es, tamb\u00e9m na geopol\u00edtica todos os amigos s\u00e3o falsos e todos os inimigos s\u00e3o reais.<\/p>\n<p>O chap\u00e9u dado por Biden em Macron no caso dos submarinos australianos confirma na pr\u00e1tica as rela\u00e7\u00f5es de domina\u00e7\u00e3o da OTAN sobre a Europa que emergiu dos escombros da 2\u00aa Grande Guerra.<\/p>\n<p>Fato importante: na realpolitik do mundo da Guerra Fria e, mesmo depois de suas transforma\u00e7\u00f5es ocorridas com a derrocada econ\u00f4mica da R\u00fassia e pacto de Vars\u00f3via, os EUA continuam a impor \u00e0s velhas pot\u00eancias militares da Uni\u00e3o Europeia que aceitem a ideia que os EUA podem at\u00e9 ser, ocasionalmente, o amigo falso, mas a R\u00fassia ser\u00e1 sempre seu inimigo real.<\/p>\n<p>Em nome da defesa e da prote\u00e7\u00e3o militar contra a \u201camea\u00e7a da R\u00fassia\u201d, os EUA exigem a \u201cuni\u00e3o dos aliados\u201d em torno de seu comando e controle militar. S\u00f3 n\u00e3o justificam por que a R\u00fassia \u00e9 o mal e os \u201caliados\u201d s\u00e3o todos do bem.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, na \u00e9poca da Guerra Fria a R\u00fassia poderia ser do mal porque era \u201ccomunista\u201d, seja l\u00e1 o que eles queriam dizer com isso. Por\u00e9m, agora nem \u201ccomunista\u201d \u00e9 mais. E continua sendo o imp\u00e9rio do mal. A grande amea\u00e7a.<\/p>\n<p>Mas, de repente, a realidade come\u00e7a a ficar mais movedi\u00e7a do que imaginavam os partid\u00e1rios da ordem natural das coisas.\u00a0 A fragmenta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da Uni\u00e3o Europeia, que j\u00e1 havia se acelerado recentemente com o golpe pol\u00edtico do Brexit, da sa\u00edda da Inglaterra do bloco europeu, agora est\u00e1 na imin\u00eancia, como observado acima, de receber um definitivo e fulminante golpe econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>Na perspectiva de um estado econ\u00f4mico estacion\u00e1rio mundial que se anuncia, a Uni\u00e3o Europeia dever\u00e1 necessariamente se defender por conta pr\u00f3pria e esperar menos ou nada dos EUA. A n\u00e3o ser mais porrada imperialista, como agora com essa guerra na Ucr\u00e2nia. A uni\u00e3o pol\u00edtica da NATO (leia-se ex\u00e9rcito de ocupa\u00e7\u00e3o dos EUA na Europa) j\u00e1 se encontra em processo de r\u00e1pida corros\u00e3o material e fragmenta\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>Nestas novas condi\u00e7\u00f5es, que apenas se anuncia no horizonte, a perspectiva de uma iminente crise econ\u00f4mica geral e este desmantelamento da unidade geopol\u00edtica da Uni\u00e3o Europeia \u00e0 sombra da OTAN torna o eixo Berlim\/Paris o elo fraco da Europa.<\/p>\n<p>Neste inusitado novo eixo geopol\u00edtico europeu, a velha e secular \u201cquest\u00e3o alem\u00e3\u201d ressurge de um sono profundo nos \u00faltimos setenta e cinco anos como uma reformatada \u201cquest\u00e3o europeia\u201d. Nela, as rebeli\u00f5es revolucionarias do proletariado internacional subir\u00e3o para a superf\u00edcie. No cora\u00e7\u00e3o da Europa as lutas do proletariado mais tradicional e combativo do mundo ganhar\u00e3o mais for\u00e7a.\u00a0 Exigindo a revolu\u00e7\u00e3o como \u00fanica solu\u00e7\u00e3o da mis\u00e9ria e morte causadas pelo regime da propriedade privada, do Estado e do mercado.<\/p>\n<p>Quais ser\u00e3o, ent\u00e3o, os desdobramentos desta nova e necess\u00e1ria realpolitik da Fran\u00e7a e, principalmente, da Alemanha, se confrontando com o mundo p\u00f3s-guerra fria inaugurado nos anos 1990 na esteira da desagrega\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e econ\u00f4mica da R\u00fassia? Da reformata\u00e7\u00e3o do mundo atual de desagrega\u00e7\u00e3o e ocupa\u00e7\u00e3o pela OTAN da \u00e1rea de influ\u00eancia da R\u00fassia nas rep\u00fablicas do leste europeu que eram abrigadas sob o guarda chuva do pacto de Vars\u00f3via?<\/p>\n<p>A reemerg\u00eancia da \u201cquest\u00e3o alem\u00e3\u201d como nova e ampliada \u201cquest\u00e3o europeia\u201d \u00e9 a verdadeira quest\u00e3o geopol\u00edtica que os antigos aliados da \u00e9poca da guerra fria EUA e R\u00fassia ter\u00e3o que responder. E agir.<\/p>\n<p>J\u00e1 est\u00e3o agindo. Como? Da \u00fanica forma poss\u00edvel: procurado se antecipar estrategicamente a um cen\u00e1rio europeu altamente conflituoso entre as superpot\u00eancias imersas em crise geral e rebeli\u00f5es sociais; se antecipando a um cen\u00e1rio que j\u00e1 apresenta todas as suas principais vari\u00e1veis com bastante clareza e irreversibilidade.<\/p>\n<p>Os conflitos criados atualmente pelos EUA e R\u00fassia nas fronteiras da Ucr\u00e2nia j\u00e1 \u00e9 o in\u00edcio da sua resposta para esta \u201cquest\u00e3o europeia\u201d e para a nova guerra mundial. Este \u00e9 o\u00a0<em>leitmotiv\u00a0<\/em>da guerra.<\/p>\n<p>Um\u00a0<em>leitmotiv\u00a0<\/em>absolutamente reacion\u00e1rio e ingl\u00f3rio. Que se apresenta com novas roupagens, mas com refor\u00e7o de conte\u00fado ao bem sucedido mundo da Guerra Fria, em que EUA e R\u00fassia viviam bem felizes amea\u00e7ando a Europa e o mundo com a bomba, produzindo e vendendo armamentos com limitada concorr\u00eancia das antigas potencias japonesas e europeias, lan\u00e7ando Sputniks e astronautas para o espa\u00e7o sideral, globalizando pandemias de agroneg\u00f3cio, agrot\u00f3xicos, empresas, bancos e capitais, imundas cadeias produtivas globais, fome, o trabalho como enfermidades fatais em trabalhadores produtivos, massacres de revolu\u00e7\u00f5es populares e prolet\u00e1rias pelo mundo afora, etc.<\/p>\n<p>A aparente guerra dos Estados Unidos contra a R\u00fassia na Ucr\u00e2nia nada mais \u00e9 do que parte de a\u00e7\u00f5es coordenadas de realpolitik dos velhos parceiros da Guerra Fria para refor\u00e7ar o que Washington repete em todos seus comunicados sobre a guerra: \u201cseguran\u00e7a europeia\u201d e \u201cunidade dos aliados\u201d em torno da OTAN. Este \u00e9, em dois slogans, o plano imperialista para a regula\u00e7\u00e3o e controle do capital sobre a Europa.<\/p>\n<p>Finalmente, a estrat\u00e9gica \u201cguerra R\u00fassia x Ucr\u00e2nia\u201d \u00e9 altamente conveniente para os dois grandes parceiros da saudosa Guerra Fria. Tanto para os EUA quanto para a R\u00fassia. Para o primeiro, porque aumenta o enquadramento econ\u00f4mico e militar imperialista sobre sua \u00e1rea de influ\u00eancia na Europa Ocidental. Exporta sua crise interna para o continente europeu.<\/p>\n<p>Para a R\u00fassia \u2013 uma p\u00e1ria econ\u00f4mica mas pot\u00eancia militar \u2013 a guerra na Ucr\u00e2nia \u00e9 o primeiro passo na perspectiva de uma retomada da sua \u00e1rea de influ\u00eancia (Pacto de Vars\u00f3via) desgarrada com o fim da Guerra Fria.<\/p>\n<p>\u00c9 isso que tanto Biden, quanto Putin t\u00eam na cabe\u00e7a quando escrevem seus discursos e comunicados sobre a \u201cguerra na Ucr\u00e2nia\u201d. \u00c9 o leitmotiv da guerra.<\/p>\n<p>Esta a\u00e7\u00e3o de realpolitik de Washington e Moscou ser\u00e1 bem sucedida? \u00c9 quase certo que n\u00e3o. De todo modo, na esteira de qualquer resultado da atual pendenga da R\u00fassia e EUA nas fronteiras da Ucr\u00e2nia, tanto um quanto o outro (e a Inglaterra, como coadjuvante) estar\u00e3o planejando novas guerras capazes de refor\u00e7ar a domina\u00e7\u00e3o militar sobre suas \u00e1reas de influ\u00eancia na Europa e alhures. S\u00f3 assim imaginam prorrogar um pouco mais a governabilidade da luta de classes no interior de seus pr\u00b4prios pa\u00edses e salvar suas cabe\u00e7as.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, as velhas pot\u00eancias \u2013 mais uma vez derrotadas pela s\u00f3rdida realpolitik dos falsos amigos e inimigos reais que se fundem em um mesmo corpo de domina\u00e7\u00e3o imperialista \u2013 estar\u00e3o necessariamente agindo com novas armas geopol\u00edticas e armas reais para se libertar da \u201cuni\u00e3o dos aliados\u201d.<\/p>\n<p>Enfim, o que identifica a a\u00e7\u00e3o e o verdadeiro objetivo de capitalistas vencedores e vencidos na nova grande guerra que se anuncia timidamente nas fronteiras da Ucr\u00e2nia? O mesmo plano de classe das diversas burguesias nacionais de enfrentar e escapar da ira nas ruas e avenidas dos seus diferentes pa\u00edses da multid\u00e3o de produtivos e revolucion\u00e1rios internacionais impulsionados espiritualmente pela arma da cr\u00edtica e agindo praticamente com a cr\u00edtica das armas, no caminho da revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: O Leitmotiv da Guerra &#8211; Cr\u00edtica da Economia &#8211; https:\/\/criticadaeconomia.com\/2022\/02\/o-leitmotiv-da-guerra\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Martins &#8211;\u00a0Dias atr\u00e1s, Joe Biden e Vladimir Putin faziam na televis\u00e3o dois pronunciamentos quase simult\u00e2neos sobre a situa\u00e7\u00e3o do atual conflito nas fronteiras de R\u00fassia com Ucr\u00e2nia. 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