{"id":16685,"date":"2022-03-07T12:21:23","date_gmt":"2022-03-07T15:21:23","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=16685"},"modified":"2022-03-01T21:23:43","modified_gmt":"2022-03-02T00:23:43","slug":"um-convite-ao-socialismo-de-plataformas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2022\/03\/07\/um-convite-ao-socialismo-de-plataformas\/","title":{"rendered":"Um convite ao socialismo de plataformas"},"content":{"rendered":"<p><strong>James Muldoon<\/strong> &#8211; Reimaginar como as plataformas digitais podem ser governadas, recuperar nosso futuro digital das m\u00e3os das Big Tech, reinventar a internet. Como procurar maneiras alternativas de organizar a propriedade e a governan\u00e7a das plataformas? \u00c9 poss\u00edvel construir um socialismo de plataforma? Estas s\u00e3o algumas perguntas do livro <a href=\"http:\/\/www.plutobooks.com\/9780745346977\/platform-socialism\">Platform Socialism<\/a>, de James Muldoon, professor de ci\u00eancia pol\u00edtica na\u00a0<a href=\"https:\/\/socialsciences.exeter.ac.uk\/politics\/staff\/muldoon\">Universidade de Exeter<\/a>\u00a0e coordenador de pesquisa digital no think tank\u00a0<a href=\"https:\/\/autonomy.work\/\">Autonomy<\/a>.<\/p>\n<div id=\"readability-page-1\" class=\"page\">\n<div id=\"single-the-content\">\n<p>Nesta entrevista ao\u00a0<em>DigiLabour<\/em>, parceiro editorial de\u00a0<em>Outras Palavras<\/em>, Muldoon fala sobre imagina\u00e7\u00e3o social, prototipagem, resist\u00eancias epist\u00eamicas, tentativas de \u201cwashing\u201d, infraestruturas, socialismo de guildas para a economia digital e plataformas c\u00edvicas.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 muito dif\u00edcil imaginar futuros radicais alternativos para quest\u00f5es como trabalho e tecnologia. Qual \u00e9 o papel da imagina\u00e7\u00e3o e do imagin\u00e1rio para construir um outro tipo de sociedade?<\/strong><\/p>\n<p>O socialismo de plataforma \u00e9 sobre reinventar a internet e reimaginar como as plataformas digitais podem ser governadas. Trata-se de encontrar maneiras alternativas de organizar a propriedade e a governan\u00e7a das plataformas, e tamb\u00e9m pensar na infraestrutura e nas organiza\u00e7\u00f5es mais amplas em jogo.<\/p>\n<p>Um dos conceitos-chave do livro \u00e9 a ideia de um imagin\u00e1rio social. Eu queria voltar a certos aspectos da tradi\u00e7\u00e3o do socialismo ut\u00f3pico para projetar novas institui\u00e7\u00f5es e pensar em novos princ\u00edpios para quebrar o determinismo tecnol\u00f3gico que a Big Tech exerce sobre nossa imagina\u00e7\u00e3o social. Muitas das propostas de reforma que receberam aten\u00e7\u00e3o geral estavam relacionadas a como poder\u00edamos consertar as grandes plataformas de v\u00e1rias maneiras por meio de pequenas mudan\u00e7as regulat\u00f3rias. Mas muito poucas das propostas estavam tentando expandir nossa imagina\u00e7\u00e3o coletiva em termos de quais estruturas de propriedade e governan\u00e7a poderiam ser poss\u00edveis.<\/p>\n<p>Eu queria me basear na hist\u00f3ria da tecnologia para encontrar maneiras de faz\u00ea-los falar com nossos pr\u00f3prios tempos de uma nova maneira. A principal motiva\u00e7\u00e3o por tr\u00e1s do livro\u00a0<em>Socialismo de Plataforma<\/em>\u00a0era encontrar uma vis\u00e3o empolgante de como poder\u00edamos fazer melhor uso da tecnologia. Eu n\u00e3o queria que fosse apenas uma cr\u00edtica \u00e0s plataformas e uma lista de todas as coisas que estavam erradas. Eu queria realmente tentar dar uma no\u00e7\u00e3o do que seria melhor, para que n\u00e3o tiv\u00e9ssemos esse tipo de atitude c\u00ednica de que as coisas sempre seriam terr\u00edveis. Eu queria tentar contribuir com esses projetos, prot\u00f3tipos e vozes que vislumbram novas maneiras de usar a tecnologia.<\/p>\n<p>Achei fascinante que todas essas vis\u00f5es transformadoras de como a tecnologia operar\u00e1 no futuro \u2013 acho que as maiores no momento s\u00e3o web3, blockchain e metaverso \u2013 todas elas est\u00e3o realmente relacionadas apenas a como o capital pode continuar agindo em grande parte do tempo, da mesma forma que antes, mas com um visual ligeiramente diferente. Eu queria pensar em como poder\u00edamos ter uma vis\u00e3o alternativa a isso.<\/p>\n<p>Se voc\u00ea olhar para projetos de esquerda mais bem-sucedidos, partidos pol\u00edticos que chegaram ao poder, reformas vision\u00e1rias ousadas que aconteceram, isso sempre foi feito com base em uma vis\u00e3o inspiradora do futuro. Acho que perdemos um pouco isso na esquerda. N\u00e3o estamos divulgando nossas pr\u00f3prias vis\u00f5es de como as coisas ser\u00e3o, estamos sempre com o p\u00e9 atr\u00e1s. Falo de utopia no sentido de um quadro institucional alternativo. N\u00e3o no sentido de construir \u201cnovas pessoas\u201d, ou definir minuto a minuto cada aspecto de uma nova organiza\u00e7\u00e3o, mas realmente apenas estabelecer uma nova maneira de pensar sobre as coisas para tentar romper com algumas das pr\u00e1ticas e princ\u00edpios das grandes empresas de tecnologia.<\/p>\n<p><strong>Qual \u00e9 o papel da prototipa\u00e7\u00e3o na constru\u00e7\u00e3o do socialismo de plataforma?<\/strong><\/p>\n<p>Juntamente com a ideia de imagina\u00e7\u00e3o e a no\u00e7\u00e3o de experimenta\u00e7\u00e3o, o conceito de prot\u00f3tipo \u00e9 realmente importante porque denota a ideia de que n\u00e3o haver\u00e1 um \u00fanico modelo alternativo completo que nos apare\u00e7a como um projeto. Por exemplo, o Projeto Cybersyn \u2013 que foi uma breve tentativa durante a d\u00e9cada de 1970 no Chile de criar uma organiza\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica da economia por meio de aparelhos de fax conectados a uma vers\u00e3o inicial da internet, que transmitiria dados das f\u00e1bricas para um controlador central no sentindo de compreender como funcionava a economia e como poderia ser colocada sob controle democr\u00e1tico. Quando voltei a essa ideia no livro, disse que o importante desse e de outros projetos \u00e9 que se inicia o processo de experimenta\u00e7\u00e3o com modelos alternativos de organiza\u00e7\u00e3o. A gente n\u00e3o acerta tudo de primeira.<\/p>\n<p>Se come\u00e7\u00e1ssemos a experimentar um Cybersyn 2.0, n\u00e3o precisar\u00edamos ter todos os detalhes meticulosamente planejados de antem\u00e3o, porque muitos problemas que poderiam ocorrer s\u00f3 seriam poss\u00edveis de serem resolvidos na pr\u00e1tica. Ent\u00e3o, acho que construir esses prot\u00f3tipos e come\u00e7ar a experiment\u00e1-los \u2013 que \u00e9 uma grande parte da cultura da tecnologia \u2013 seria a melhor maneira de desenvolv\u00ea-los.<\/p>\n<p>A prototipagem tamb\u00e9m \u00e9 importante por outro motivo. Alternativas de trabalho em pequena escala podem ser exemplos poderosos de outras maneiras pelas quais podemos organizar a economia digital. Isso pode amea\u00e7ar o poder das empresas de tecnologia porque um dos principais argumentos deles \u00e9 que seus produtos s\u00e3o a \u00fanica maneira pela qual a tecnologia pode ser organizada. A Uber alega que voc\u00ea n\u00e3o pode ter flexibilidade sem reduzir os direitos trabalhistas e isso n\u00e3o \u00e9 verdade.<\/p>\n<p>Podemos usar a tecnologia de diferentes maneiras \u2013 a tecnologia pode ser reapropriada. \u00c9 sempre parte de um sistema pol\u00edtico e cultural mais amplo, e a maneira como \u00e9 implantada \u00e9 contingente. Portanto, ter esses prot\u00f3tipos alternativos \u00e9 realmente assustador e perigoso para o Vale do Sil\u00edcio, porque nos mostra que existem outras maneiras de organizar nossas vidas digitais.<\/p>\n<p><strong>No livro, voc\u00ea argumenta sobre a necessidade de articula\u00e7\u00e3o entre uma resist\u00eancia epist\u00eamica e uma resist\u00eancia de trabalhadores. O que isso significa?<\/strong><\/p>\n<p>Para avan\u00e7ar em dire\u00e7\u00e3o a esses futuros alternativos, precisamos come\u00e7ar a encontrar novas maneiras de resistir ao poder das grandes empresas de tecnologia. No livro, falo sobre a import\u00e2ncia da resist\u00eancia epist\u00eamica. Como primeiro passo, acho que precisamos criar novas estruturas intelectuais para discutir tecnologia e encontrar termos e conceitos que n\u00e3o estejam enredados na mesma l\u00f3gica e nos mesmos princ\u00edpios do Vale do Sil\u00edcio. Acho que \u00e9 muito dif\u00edcil rompermos com isso, e que mesmo as cr\u00edticas mais proeminentes \u00e0 tecnologia geralmente v\u00eam de pessoas da ind\u00fastria, o que geralmente significa que elas ainda seguem o mesmo tipo de l\u00f3gica e usam o mesmo tipo de linguagem que o das empresas que est\u00e3o criticando.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, acho que a resist\u00eancia epist\u00eamica envolve retornar \u00e0s formas mais antigas de falar sobre tecnologia e tamb\u00e9m repensar a vis\u00e3o de mundo subjacente \u00e0 Big Tech. Uma das coisas que o Vale do Sil\u00edcio adora fazer \u00e9 reinventar coisas que j\u00e1 existem e dar um novo nome a elas. Mas \u00e0s vezes esses novos quadros de refer\u00eancia s\u00e3o apenas enganosos. Essa conversa sobre liberdade e flexibilidade na economia de plataformas, \u00e9 realmente uma maneira honesta de descrever o que est\u00e1 acontecendo? Est\u00e1 realmente claro que as pessoas s\u00e3o genuinamente empoderadas e mais livres? Acho que h\u00e1 ampla evid\u00eancia apontando para a conclus\u00e3o oposta.<\/p>\n<p>Mas, obviamente, n\u00e3o \u00e9 apenas uma quest\u00e3o de mudar a forma como pensamos sobre as coisas, precisamos construir um poder real no mundo entre grupos de trabalhadores e organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil. Isso envolve a sindicaliza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores, envolve a coordena\u00e7\u00e3o com partidos pol\u00edticos, com grupos ativistas, com desenvolvedores e trabalhadores e tamb\u00e9m com comunidades marginalizadas que muitas vezes s\u00e3o mais atingidas por alguns dos aspectos negativos de como essa tecnologia \u00e9 implantada. A resist\u00eancia \u00e9 importante tanto na forma como pensamos quanto na forma como agimos e nos organizamos.<\/p>\n<p><strong>N\u00f3s temos visto um alto risco de\u00a0<\/strong><strong><em>washing<\/em><\/strong><strong>\u00a0\u2013 inclusive\u00a0<\/strong><strong><em>fair washing<\/em><\/strong><strong>\u00a0\u2013 por parte das plataformas, que tentam cooptar discursos por meio de estrat\u00e9gias de rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e lobby. Como enfrentar essas a\u00e7\u00f5es das plataformas?<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 uma sobreposi\u00e7\u00e3o interessante entre algumas das minhas pesquisas sobre a ideia de comunidade no discurso tecnol\u00f3gico e o trabalho que voc\u00eas tem feito no projeto\u00a0<a href=\"https:\/\/fair.work\/\">Fairwork<\/a>. No livro, falo sobre a ideia de \u201ccommunity washing\u201d como uma estrat\u00e9gia de marketing e rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas que algumas das empresas de tecnologia empregam para fazer com que seus neg\u00f3cios sejam pouco mais do que organiza\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias tentando perseguir uma miss\u00e3o social. Acho que essa linguagem da comunidade \u00e9 implantada de maneira muito c\u00ednica e estrat\u00e9gica para ajudar a encobrir a natureza extrativista de seu modelo de neg\u00f3cios. Isso ajuda a promover a ideia de que, como membros da comunidade, eles est\u00e3o fazendo o melhor que podem para resolver os problemas. Tamb\u00e9m os posiciona no papel de l\u00edderes comunit\u00e1rios. Para que, se houver problemas ou problemas que as pessoas tenham, podemos ter certeza de que os \u201cl\u00edderes comunit\u00e1rios\u201d estar\u00e3o l\u00e1 para tentar resolv\u00ea-los.<\/p>\n<p>Acho que essa linguagem vem, ou \u00e9 adotada, de certos aspectos da organiza\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria. Na campanha de Obama, em 2008, voc\u00ea viu parte dessa linguagem ligada \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria se dispersar mais amplamente no mundo da mudan\u00e7a social e do impacto social. A partir da\u00ed, passa por Airbnb e algumas outras organiza\u00e7\u00f5es, e \u00e9 disseminado pelo mundo da tecnologia. E, claro, o governo Obama tinha um relacionamento muito acolhedor com muitos dos executivos de tecnologia. As empresas de tecnologia estavam contratando muitos ex-funcion\u00e1rios de Obama, ent\u00e3o h\u00e1 um grande cruzamento a\u00ed.<\/p>\n<p>Hoje, voc\u00ea v\u00ea tudo acontecendo novamente. Quando olhamos para a web3 e alguns de seus grandes defensores do capital de risco, essa linguagem de \u201cpropriedade da comunidade\u201d e comunidades que ret\u00eam valor de suas atividades, tudo est\u00e1 voltando. \u00c9 ir\u00f4nico agora que no discurso da web3, \u201ca comunidade\u201d esteja posicionada em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0s grandes plataformas como Facebook e Google. Eles agora s\u00e3o os bandidos e os novos capitalistas de risco s\u00e3o os bons que est\u00e3o do lado da comunidade. Ent\u00e3o, acho que voc\u00ea v\u00ea essa linguagem de comunidade voltando, mas apenas reconfigurada para servir ao capital de uma maneira um pouco diferente.<\/p>\n<p>\u00c9 realmente interessante para mim pensar sobre o trabalho do Fairwork, porque assim que voc\u00ea estabelecer esse tipo de sistema de pontua\u00e7\u00e3o, o risco \u00e9 que seja outra maneira de as pessoas se envolverem em um exerc\u00edcio de irem ticando as caixinhas. Mas acho que h\u00e1 obviamente maneiras de evitar isso. Eu tenho visto o trabalho do Fairwork e eles t\u00eam crit\u00e9rios muito robustos em que as empresas mais exploradoras sempre ganham pontua\u00e7\u00f5es muito baixas, e acho muito dif\u00edcil para elas contornarem isso. Mas h\u00e1 sobreposi\u00e7\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 maneira como as corpora\u00e7\u00f5es est\u00e3o sempre tentando se posicionar para apresentar ao p\u00fablico, assim como um discurso de \u00e9tica e voltado para a comunidade.<\/p>\n<p><strong>E talvez estejamos em um\u00a0<\/strong><strong><em>loop<\/em><\/strong><strong>\u00a0infinito de coopta\u00e7\u00e3o desses discursos, Web 2.0, agora Web3. Mas, em termos de alternativas, qual \u00e9 sua vis\u00e3o sobre as infraestruturas das quais dependemos, desde\u00a0<\/strong><strong><em>data centers<\/em><\/strong><strong>\u00a0at\u00e9 cabos submarinos? E quais s\u00e3o os desafios de construir outras infraestruturas, incluindo infraestruturas p\u00fablicas?<\/strong><\/p>\n<p>Quando termos como capitalismo de plataforma come\u00e7aram a ganhar popularidade, um dos erros que cometemos foi focar muito no conceito de dados. Ao falar principalmente sobre dados, muitas vezes parecia que era toda uma informa\u00e7\u00e3o imaterial flutuando no ciberespa\u00e7o. H\u00e1 um tempo atr\u00e1s, voc\u00ea costumava ouvir as pessoas falando sobre uma economia digital como algo que estava em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 economia \u201creal\u201d e que era de alguma forma menos leg\u00edtima.<\/p>\n<p>Mas acho que o que vimos nos \u00faltimos anos \u00e9 um reconhecimento muito maior de que a internet n\u00e3o est\u00e1 nas nuvens. Ela \u00e9 transferida por meio de cabos submarinos e armazenada em\u00a0<em>data centers<\/em>. Mas tamb\u00e9m estamos vendo uma virada das empresas de tecnologia para um maior investimento em infraestrutura. Um dos pontos de venda das primeiras empresas de tecnologia era que elas eram plataformas enxutas (<em>lean<\/em>) que terceirizavam tudo: \u201cn\u00e3o possu\u00edmos nenhuma casa, n\u00e3o possu\u00edmos nenhum carro, n\u00e3o empregamos nenhum trabalhador, \u00e9 tudo apenas software, e n\u00f3s podemos criar bilh\u00f5es de d\u00f3lares em valor apenas por nos estabelecermos como intermedi\u00e1rios\u201d. Mas agora o que voc\u00ea est\u00e1 vendo s\u00e3o algumas das grandes empresas investindo muito mais pesadamente em d<em>ata centers<\/em>\u00a0e v\u00e1rias formas de ativos.<\/p>\n<p>Essa infraestrutura \u00e9 absolutamente crucial se quisermos assumir o controle das maneiras pelas quais essas plataformas organizam nossas vidas. Tem que come\u00e7ar a partir de baixo. Temos que pensar em maneiras pelas quais podemos ter formas de propriedades p\u00fablicas e baseadas em bens comuns de infraestruturas digitais. Algumas das infraestruturas de que voc\u00ea precisa s\u00e3o t\u00e3o caras para gerir que voc\u00ea n\u00e3o pode t\u00ea-las e oper\u00e1-las por uma cooperativa local de trabalhadores. Precisamos pensar em como as infraestruturas p\u00fablicas podem apoiar economias baseadas em bens comuns. Poder\u00edamos ter centros municipais nos quais as cooperativas locais pudessem usar o espa\u00e7o dos escrit\u00f3rios e ter seus pr\u00f3prios servi\u00e7os digitais l\u00e1. Estes poderiam ser financiados pelo governo para desenvolver novas formas de coordena\u00e7\u00e3o entre o p\u00fablico e as cooperativas de trabalhadores e outras alternativas baseadas em bens comuns. E acho que voc\u00ea est\u00e1 absolutamente certo de que isso tem que acontecer n\u00e3o apenas no n\u00edvel do software, mas tamb\u00e9m no n\u00edvel de hardware e infraestrutura.<\/p>\n<p><strong>O que significa um socialismo de guilda para a economia digital?<\/strong><\/p>\n<p>Um dos cap\u00edtulos do livro \u00e9 chamado de socialismo de guilda para a economia digital. \u00c9 uma maneira de tentar reviver o interesse por uma tradi\u00e7\u00e3o socialista pluralista de escritores como G. D. H. Cole e pensar em como podemos usar algumas de suas ideias e propostas para repensar a economia digital hoje. Assim, o socialismo de guilda era uma tradi\u00e7\u00e3o dentro do socialismo brit\u00e2nico no in\u00edcio do s\u00e9culo XX e um de seus escritores mais famosos foi G. D. H. Cole. Os socialistas da guilda s\u00e3o cr\u00edticos de uma abordagem excessivamente centralizada de como o socialismo pode ser praticado. Cole achava que precis\u00e1vamos de formas de democracia no local de trabalho e tomada de decis\u00e3o local para criar uma sociedade mais participativa. No Reino Unido, a abordagem dominante para pensar sobre essas quest\u00f5es foi apresentada pela sociedade fabiana. Esta foi uma organiza\u00e7\u00e3o que ajudou a fundar o Partido Trabalhista Brit\u00e2nico no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, e eles foram criticados por Cole por ter uma abordagem excessivamente burocr\u00e1tica e de cima para baixo para a socializa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O que Cole realmente queria mostrar era que era poss\u00edvel reduzir o papel do Estado, e enfatizar realmente a possibilidade de associa\u00e7\u00f5es regionais e locais na organiza\u00e7\u00e3o da vida social. Ele pensou em como cooperativas de produtores locais e cooperativas de consumidores poderiam come\u00e7ar a assumir um papel de lideran\u00e7a na gest\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica. Algumas pessoas veem o socialismo das guildas como uma defesa do autogoverno dos trabalhadores na ind\u00fastria. Em grande parte. Mas, na verdade, \u00e9 um programa muito mais amplo no sentido de expandir o princ\u00edpio da democracia muito mais para a sociedade, para que voc\u00ea n\u00e3o eleja apenas seu membro do parlamento \u2013 em cada organiza\u00e7\u00e3o da qual voc\u00ea faz parte, voc\u00ea deve ter uma opini\u00e3o sobre como ela opera.<\/p>\n<p>Isso diz respeito \u00e0s organiza\u00e7\u00f5es mais importantes, como empresas, universidades, institui\u00e7\u00f5es culturais e todas essas associa\u00e7\u00f5es que desempenham um papel realmente fundamental na organiza\u00e7\u00e3o do nosso cotidiano. A vis\u00e3o socialista da guilda era de v\u00e1rias associa\u00e7\u00f5es sobrepostas que eram internamente democr\u00e1ticas, desempenhando um papel importante na organiza\u00e7\u00e3o tanto da economia quanto da sociedade em geral. \u00c9 realmente sobre como imaginar uma sociedade democr\u00e1tica muito mais participativa.<\/p>\n<p>Essa vis\u00e3o socialista de guilda \u00e9 superada por uma vis\u00e3o muito mais centralizada do Partido Trabalhista Brit\u00e2nico e da Esquerda Brit\u00e2nica de forma mais ampla. N\u00f3s realmente n\u00e3o ouvimos muito sobre isso, mas voc\u00ea v\u00ea um ressurgimento dessa forma muito mais descentralizada e federalista de pensar sobre a pol\u00edtica democr\u00e1tica. Hoje voc\u00ea v\u00ea isso com o movimento Corbyn, voc\u00ea v\u00ea isso em organiza\u00e7\u00f5es como Momentum e algumas outras partes da esquerda brit\u00e2nica hoje.<\/p>\n<p><strong>Eu achei muito interessante o modo como voc\u00ea pontua o cooperativismo de plataforma como uma alternativa, mas indo al\u00e9m disso rumo a plataformas c\u00edvicas, e a um contexto mais amplo. O que isso significa?<\/strong><\/p>\n<p>O cooperativismo de plataforma \u00e9 um programa realmente fascinante que nos leva at\u00e9 pessoas como Trebor Scholz e outros no in\u00edcio e meados da d\u00e9cada de 2010 como uma forma de recriar algumas das estruturas e ideias do movimento cooperativo de trabalhadores na economia digital. Este \u00e9 um ponto em que acho que o socialismo de guildas pode ser realmente relevante para pensar sobre a economia digital hoje, porque uma das ideias de Cole era que as cooperativas de trabalhadores por si s\u00f3 n\u00e3o s\u00e3o suficientes. Voc\u00ea precisa pensar em maneiras de dar escala a elas. E tamb\u00e9m, envolvendo n\u00e3o apenas grupos de trabalhadores, mas tamb\u00e9m diversas institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e municipais.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, acho que se voc\u00ea estivesse pensando em uma estrutura socialista de guilda hoje, voc\u00ea olharia para a fun\u00e7\u00e3o que as diferentes plataformas desempenham e, com base nisso, pensaria em qual escala seria melhor oper\u00e1-las. Para algumas plataformas, elas podem funcionar em um n\u00edvel muito local, voc\u00ea pode pensar em servi\u00e7os locais de limpeza, servi\u00e7os de entrega, coisas que funcionariam bem sem muita infraestrutura e que voc\u00ea pudesse organizar democraticamente em uma escala muito pequena.<\/p>\n<p>Mas, como discutimos, existem tantos exemplos de plataformas digitais que seria muito dif\u00edceis para uma simples plataforma cooperativa possuir e operar projetos que exigem grande investimento de capital, e tamb\u00e9m aqueles que deveriam, por raz\u00f5es democr\u00e1ticas e pol\u00edticas, ser operados por um p\u00fablico muito mais amplo. N\u00e3o queremos, por exemplo, que o Google ou o Facebook sejam administrados como uma cooperativa de plataforma porque isso s\u00f3 daria poder de decis\u00e3o a um pequeno grupo de trabalhadores dentro dessa cooperativa. Um dos pontos interessantes do socialismo de guilda \u00e9 que ele tenta encontrar maneiras de equilibrar os interesses dos trabalhadores com os interesses do p\u00fablico em geral. N\u00e3o queremos poder de decis\u00e3o pol\u00edtica ligado apenas ao seu papel como trabalhador em tempo integral, porque o que acontece com aqueles que n\u00e3o trabalham, por v\u00e1rios motivos? E aqueles que s\u00e3o volunt\u00e1rios que est\u00e3o realizando trabalhos de assist\u00eancia, que est\u00e3o fazendo v\u00e1rias formas de trabalho n\u00e3o remunerado? E \u00e9 muito perigoso atribuir tanto poder, especificamente aos locais de trabalho, sem um senso de estruturas democr\u00e1ticas mais amplas para pensar em como elas podem operar em um n\u00edvel social mais amplo.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que quando voc\u00ea olha para tr\u00e1s nas discuss\u00f5es sobre propriedade social, principalmente aquelas quando era um problema muito real e imediato, como no per\u00edodo de 1917 a 1921, voc\u00ea pode ver muitas propostas que envolvem essas estruturas federais mais amplas nas quais existem ag\u00eancias de coordena\u00e7\u00e3o entre diferentes grupos. Acho que nessa perspectiva, o que \u00e9 realmente fascinante no cooperativismo de plataforma s\u00e3o os lugares em que os defensores do cooperativismo de plataforma come\u00e7am a discutir essas parcerias e formas de articula\u00e7\u00e3o com os governos municipais e regionais. Acho muito interessante quando voc\u00ea come\u00e7a a pensar em v\u00e1rias formas de plataformas c\u00edvicas.<\/p>\n<p>Um exemplo mencionado no meu livro \u00e9 o projeto DECODE que foi executado em Barcelona e Amsterd\u00e3, por volta de 2017 a 2019. E voc\u00ea pode ver aqui que existe esse desejo de democratizar como essa tecnologia opera, n\u00e3o simplesmente permitir que outro tipo de capitalista de risco a controle, mas pensar em como v\u00e1rios grupos c\u00edvicos podem estar envolvidas na governan\u00e7a e controle da tecnologia. Acho que o cooperativismo de plataforma \u00e9 um \u00f3timo ponto de partida para muitas dessas discuss\u00f5es, e que tem princ\u00edpios e exemplos realmente maravilhosos e interessantes, mas que precisa ser incorporado a uma estrutura mais ampla.<\/p>\n<p><strong>Muito obrigado pela entrevista, James. Voc\u00ea tem considera\u00e7\u00f5es finais, talvez sobre suas pr\u00f3ximas pesquisas?<\/strong><\/p>\n<p>Vou fazer um convite para um\u00a0<em>think tank<\/em>\u00a0para o qual trabalho porque acho que fazemos um trabalho incr\u00edvel l\u00e1. Chama-se Autonomy. Eu trabalho l\u00e1, al\u00e9m de ser professor na Universidade de Exeter. Eu trabalho l\u00e1 na unidade de pesquisa digital. Publicamos alguns trabalhos sobre cooperativas de plataforma, e tamb\u00e9m publicamos outros trabalhos de pol\u00edticas para a economia digital. Estamos trabalhando em um projeto de pesquisa sobre microtrabalho no momento. Ent\u00e3o, teremos um estudo divulgado em breve. Eu acho que voc\u00eas deveriam dar uma olhada no trabalho do Autonomy, que est\u00e1 fazendo coisas realmente \u00f3timas.<\/p>\n<p><em>[<strong>Cibern\u00e9tica e revolu\u00e7\u00e3o.<\/strong>\u00a0No v\u00eddeo abaixo, um curta-metragem sobre o Projeto Synco\/Cybersyn, uma tentativa de gest\u00e3o cibern\u00e9tica da economia no governo de Allende, no Chile, interrompida pelo golpe de Estado de 1973. O sistema proporcionaria acesso di\u00e1rio aos dados de produ\u00e7\u00e3o das f\u00e1bricas e um conjunto de ferramentas computadorizadas que o governo poderia usar para prever o comportamento econ\u00f4mico futuro. Tamb\u00e9m inclu\u00eda uma sala de opera\u00e7\u00f5es futurista que facilitaria a tomada de decis\u00e3o do governo atrav\u00e9s do di\u00e1logo e da melhor compreens\u00e3o dos dados].<\/em><\/p>\n<figure><iframe loading=\"lazy\" title=\"Cybern\u00e9tique &amp; R\u00e9volution\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/3M4zCjlcxpY?feature=oembed\" width=\"500\" height=\"281\" frameborder=\"0\" allowfullscreen=\"allowfullscreen\" data-mce-fragment=\"1\"><\/iframe><\/figure>\n<\/div>\n<\/div>\n<div>Fonte da mat\u00e9ria: Um convite ao socialismo de plataformas &#8211; Outras Palavras &#8211; https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/um-convite-ao-socialismo-de-plataformas\/<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>James Muldoon &#8211; Reimaginar como as plataformas digitais podem ser governadas, recuperar nosso futuro digital das m\u00e3os das Big Tech, reinventar a internet. 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