{"id":1667,"date":"2016-08-28T14:00:09","date_gmt":"2016-08-28T17:00:09","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=1667"},"modified":"2016-08-28T13:48:54","modified_gmt":"2016-08-28T16:48:54","slug":"por-que-ensinar-mais-zizek-em-nossas-escolas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2016\/08\/28\/por-que-ensinar-mais-zizek-em-nossas-escolas\/","title":{"rendered":"Por que ensinar mais \u017di\u017dek em nossas escolas?"},"content":{"rendered":"<p><strong>Christian Ingo Lenz Dunker &#8211;\u00a0<\/strong>O fil\u00f3sofo esloveno critica marxistas, feministas, ecologistas e multiculturalistas, mas defende explicitamente a liberdade e a Constitui\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Uma encarna\u00e7\u00e3o demon\u00edaca do esquerdismo ideol\u00f3gico que amea\u00e7a nossas crian\u00e7as \u00e9 representada pelo fil\u00f3sofo esloveno Slavoj \u017di\u017eek. Ele cruzou a fronteira do bom senso quando o Enem de 2015 escolheu uma quest\u00e3o baseada no seu pensamento \u201cradioativo\u201d. O movimento Escola sem Partido reagiu prontamente para mostrar que casos como este t\u00eam corrompido o princ\u00edpio constitucional de liberdade e pluralidade de ideias, na reg\u00eancia das pr\u00e1ticas educativas. A prova nacional para alunos do ensino m\u00e9dio cita uma passagem do livro \u201cBem Vindo ao Deserto do Real\u201d (Boitempo, 2003), no qual o fil\u00f3sofo menciona a carta de uma menina de sete anos a seu pai, piloto de ca\u00e7a na guerra do Afeganist\u00e3o, dizendo que, embora ela o amasse, estava pronta para deix\u00e1-lo morrer pelo pa\u00eds. O presidente Bush cita a declara\u00e7\u00e3o da menina como manifesta\u00e7\u00e3o de patriotismo. \u017di\u017eek pergunta o que aconteceria se assist\u00edssemos a uma menina \u00e1rabe na televis\u00e3o dizendo essas mesmas palavras para seu pai que luta pelo Talib\u00e3? Obviamente, a pergunta passava pelo clima de divis\u00e3o social no Brasil e \u00e0 nossa crescente dificuldade de assumir o ponto de vista do outro. O exerc\u00edcio enaltece um valor cr\u00edtico muito importante que \u00e9 a capacidade de se deslocar de seu pr\u00f3prio sistema de valores, cren\u00e7as e interesses, para pensar junto com o outro. Por isso a resposta correta \u00e9 que a situa\u00e7\u00e3o proposta pelo autor explicita o desafio cultural representado pela alteridade. No entender dos que querem acabar com a doutrina\u00e7\u00e3o nas escolas, gente como \u017di\u017eek, ou gente que usa este autor na escola ou em provas nacionais quer:<\/p>\n<div id=\"main\" class=\"first clearfix\">\n<article id=\"post-193884\" class=\"post-193884 post type-post status-publish format-standard has-post-thumbnail hentry category-carteiro-do-inconsciente category-revista-brasileiros tag-christian-ingo-lenz-dunker tag-edicao-109 tag-escola-sem-partido tag-o-sujeito-incomodo tag-revista-brasileiros tag-slavoj-zizek clearfix\">\n<section class=\"entry-content clearfix\">\u201c(\u2026) demolir o mundo malvado com a marreta do pensamento cr\u00edtico e construir o mundo bom com a argamassa do politicamente correto: relativismo, multiculturalismo, igualitarismo, coletivismo, ecologismo, secularismo\u201d.A quest\u00e3o sugere que, se adotamos a alteridade como valor, deixamos de \u201cdemolir o mundo malvado\u201d. Ao pensar que o outro pode ter raz\u00f5es e motivos semelhantes aos nossos, a simplifica\u00e7\u00e3o contida na oposi\u00e7\u00e3o entre bondosos e malvados se torna mais complexa. Pensar criticamente quer dizer alcan\u00e7ar toda a complexidade que as situa\u00e7\u00f5es reais ou imagin\u00e1rias nos imp\u00f5em.O n\u00facleo ret\u00f3rico e ideol\u00f3gico da Escola sem Partido consiste em apresentar-se como n\u00e3o sendo um partido, mas apenas representante neutro da Constitui\u00e7\u00e3o. Apesar de o projeto j\u00e1 ter sido julgado inconstitucional, ele \u00e9 expressivo de certa tend\u00eancia anti-intelectual, antiuniversit\u00e1ria e anticr\u00edtica que toma conta do Pa\u00eds. Outras edi\u00e7\u00f5es disso vir\u00e3o em breve. Contra esta tend\u00eancia, nascida do casamento bastardo entre a teologia feita \u00e0s pressas e o legalismo de ocasi\u00e3o, s\u00f3 podemos recomendar o aumento imediato do ensino de \u017di\u017eek em nossas escolas.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/i0.wp.com\/brasileiros.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/zizek1.jpg\"><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-193888 alignnone\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/brasileiros.com.br\/wp-content\/uploads\/2016\/08\/zizek1.jpg?resize=300%2C435\" alt=\"zizek1\" width=\"300\" height=\"435\" \/><\/a><\/p>\n<p>Demonstra\u00e7\u00e3o. Para Escola sem Partido o ensino divide-se em dois polos: doutrinadores monotem\u00e1ticos que querem influenciar crian\u00e7as segundo seus interesses partid\u00e1rios, de um lado, e protetores da neutralidade objetiva que querem mostrar os v\u00e1rios \u00e2ngulos de um assunto, de outro. A turma do \u201cpensamento cr\u00edtico\u201d estaria bem representada pelo esloveno louco. Do outro lado nos restaria encontrar uma posi\u00e7\u00e3o que representasse a nega\u00e7\u00e3o radical, contumaz e rigorosa do \u201cmundo bom\u201d e sua \u201cargamassa\u201d que come\u00e7a pelo relativismo e termina no secularismo. Para atender \u00e0s duas exig\u00eancias, precisar\u00edamos encontrar um modelo capaz de purificar o engodo doutrin\u00e1rio (acima definida na lista de atitudes filos\u00f3ficas censur\u00e1veis) e ao mesmo tempo atender \u00e0s exig\u00eancias do pensamento cr\u00edtico.<\/p>\n<p>Para nossa surpresa \u00e9 exatamente isso que encontramos, em toda extens\u00e3o e detalhamento, no \u00faltimo livro de Slavoj \u017di\u017eek lan\u00e7ado no Brasil, Sujeito Inc\u00f4modo (Boitempo, 2016). A tradu\u00e7\u00e3o do termo ingl\u00eas ticklish por inc\u00f4modo \u00e9 uma das formas de sintetizar o livro. A rigor o termo compreende acep\u00e7\u00f5es t\u00e3o diferentes quanto: algo sens\u00edvel, uma experi\u00eancia dif\u00edcil, aquilo que desperta c\u00f3cegas, algu\u00e9m que \u00e9 excessivamente suscet\u00edvel, uma subst\u00e2ncia vol\u00e1til, uma pessoa temperamental, algo incerto, impredic\u00e1vel ou vari\u00e1vel, uma sensa\u00e7\u00e3o fantasiosa, estranha, mas tamb\u00e9m inc\u00f4moda (como a tradutora escolheu). A dificuldade de traduzir precisamente o significante ticklish se coaduna perfeitamente com o entendimento que Lacan tem do sujeito e que \u017di\u017eek quer abordar ao longo do livro. Ou seja, sujeito \u00e9 algo que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil de localizar, ef\u00eamero ou vol\u00e1til, que se desloca no tempo de forma imprevis\u00edvel, que n\u00e3o se reduz a seus predicados, que est\u00e1 associado com sensa\u00e7\u00f5es indiscern\u00edveis, que n\u00e3o \u00e9 id\u00eantico a si mesmo. Ticklish est\u00e1 entre todas estas situa\u00e7\u00f5es sem se identificar perfeitamente com nenhuma delas, da\u00ed a pertin\u00eancia ticklish do t\u00edtulo do livro: The Ticklish Subject.<\/p>\n<p>Nele encontramos de ponta a ponta a valoriza\u00e7\u00e3o cr\u00edtica da alteridade. Isso come\u00e7a pela New Age obscurantista que quer substituir o paradigma cartesiano pelo novo enfoque hol\u00edstico, ou seja, em mat\u00e9ria de cren\u00e7a nos tornamos indiferentes \u00e0 verdade, adotamos convic\u00e7\u00f5es que flutuam conforme a ocasi\u00e3o, reinterpretando antigas narrativas ao sabor da ocasi\u00e3o, predando culturalmente outras \u00e9pocas, etnias e pr\u00e1ticas, industrializando a diferen\u00e7a e vendendo-a como uma experi\u00eancia reduzida: chocolate sem gordura, caf\u00e9 sem cafe\u00edna, apaixonamento sem riscos. O fundamentalismo pode ser ent\u00e3o entendido como uma rea\u00e7\u00e3o a essa atitude c\u00ednica que nos faz aderir ao relativismo n\u00e3o como uma verdadeira aceita\u00e7\u00e3o da alteridade, mas como sua nega\u00e7\u00e3o. Resultado: \u017di\u017eek1 x 0 Relativismo.<\/p>\n<p>O segundo advers\u00e1rio de \u017di\u017eek \u00e9 Habermas e os te\u00f3ricos da comunica\u00e7\u00e3o reconciliat\u00f3ria que propugnam uma confian\u00e7a exagerada no poder da intersubjetividade discursiva. Para esta posi\u00e7\u00e3o, valores universais como a linguagem e a raz\u00e3o seriam uma refer\u00eancia comum capaz de levar a uma esp\u00e9cie de acordo entre os homens, de tal forma que com bastante tempo e condi\u00e7\u00f5es apropriadas todos poderiam ser apropriadamente representados no debate entre interesses e argumentos, culminando no universo ideal de perfeita e continuada reforma das leis e dos pactos. \u00c9 o modelo b\u00e1sico sobre o qual se apoiam nossas institui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas modernas, do partido ao princ\u00edpio da representatividade, do individualismo liberal ao contrato renovado entre representantes e representados. Contra isso, \u017di\u017eek dir\u00e1 que a forma-partido das democracias liberais parlamentares est\u00e1 se esgotando. Seus restos constituem uma esp\u00e9cie de fetichismo que nos levar\u00e1 ao imp\u00e9rio dos burocratas e n\u00e3o \u00e0 liberdade e ao pluralismo. Ora, a maior express\u00e3o deste institucionalismo aplicado \u00e0s pr\u00e1ticas de linguagem \u00e9 o que se convencionou chamar de politicamente correto, ou seja, a normatiza\u00e7\u00e3o do uso das palavras de modo a reconfigurar seus efeitos indesej\u00e1veis sem real transforma\u00e7\u00e3o da realidade social. Resultado: \u017di\u017eek 3 x 0 Politicamente Correto.<\/p>\n<p>O terceiro advers\u00e1rio de \u017di\u017eek em defesa da no\u00e7\u00e3o de sujeito s\u00e3o os te\u00f3ricos heideggerianos do ser. Eles est\u00e3o interessados em prescindir da subjetividade cartesiana moderna, colocando em seu lugar uma esp\u00e9cie de retorno \u00e0 comunidade org\u00e2nica de experi\u00eancia. Isso levaria a uma esp\u00e9cie de defesa filos\u00f3fica do niilismo e do descompromisso que acabaria por nos refugiar em pequenos grupos ou comunidades coletivistas que sobrevivem \u00e0 base de sua autossegrega\u00e7\u00e3o. Contra isso, o esloveno valoriza a no\u00e7\u00e3o de ato e de apropria\u00e7\u00e3o singular do desejo, que divide o sujeito, como condi\u00e7\u00e3o universal da raz\u00e3o. \u017di\u017eek 3 x 1 Multiculturalistas.<\/p>\n<p>A pr\u00f3xima atitude criticada por \u017di\u017eek \u00e9 o cognitivismo cient\u00edfico. Ele se empenha por demonstrar empiricamente que n\u00e3o h\u00e1 uma \u00fanica cena de si mesmo, um \u00fanico sujeito, mas um pandem\u00f4nio de for\u00e7as competitivas. Mas a psicologia cognitivista pode ser vista como uma ideologia neoliberal baseada na cren\u00e7a em um sistema de individualiza\u00e7\u00e3o m\u00e1xima dos resultados e de desresponsabiliza\u00e7\u00e3o c\u00ednica e biol\u00f3gica dos processos. Apresentando-se como pura ci\u00eancia do c\u00e9rebro, sem cren\u00e7as ou valores subjacentes, o cognitivismo operaria como uma esp\u00e9cie de religi\u00e3o disfar\u00e7ada contra a verdadeira defesa de uma \u00e9tica mundana. \u017di\u017eek 1 x 0 Secularismo.<\/p>\n<p>Em seguida os advers\u00e1rios s\u00e3o os ecologistas profundos, ou seja, aqueles que imputam o materialismo das filosofias do sujeito os fundamentos filos\u00f3ficos para a destrui\u00e7\u00e3o da natureza. Aqui se trata de refazer a hist\u00f3ria da mentalidade de domina\u00e7\u00e3o e devasta\u00e7\u00e3o da natureza mostrando como ela foi obra de um individualismo liberal, mais do que do coletivismo. \u017di\u017eek 1 x 1 Ecologismo-Regressivo.<\/p>\n<p>A pr\u00f3xima posi\u00e7\u00e3o a ser criticada, com aux\u00edlio da teoria do sujeito, extra\u00edda de Hegel e Lacan, acredite se quiser, s\u00e3o os p\u00f3s-marxistas cr\u00edticos. Para eles a liberdade ilus\u00f3ria do sujeito pensante burgu\u00eas se ancora na divis\u00e3o de classes. Para \u017di\u017eek essa \u00e9 uma concep\u00e7\u00e3o parcial de sujeito, que n\u00e3o apreende que antes disso a divis\u00e3o do sujeito depende da linguagem, do desejo e do inconsciente. Ela n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma vers\u00e3o resumida e infraestrutural da sociedade de classes. \u017di\u017eek 2 x 0 P\u00f3s-Marxismo.<\/p>\n<p>A \u00faltima contenda de \u017di\u017eek neste livro \u00e9 com as feministas, em particular Judith Butler. Aqui ele repudia a ideia de que o cogito cartesiano, supostamente assexuado, seria na verdade uma forma\u00e7\u00e3o patriarcal masculina. Para \u017di\u017eek o igualitarismo reivindicado pelas diferentes escolas feministas estaria comprometido pela base com uma esp\u00e9cie de particularismo das pol\u00edticas de identidade, que no fundo seriam formas de pol\u00edticas do gozo. Isso restringe suas pretens\u00f5es no campo do pol\u00edtico ao \u00e2mbito de uma boa estrat\u00e9gia. Da\u00ed que as variadas formas de feminismo possam ser redefinidas por sua rela\u00e7\u00e3o ao universalismo representado pelo conceito de sujeito. \u017di\u017eek 1 x 0 Igualitarismo.<\/p>\n<p>\u201cEste livro tenta reafirmar o sujeito cartesiano, cujo recha\u00e7o nutre o pacto t\u00e1cito dos partidos que se enfrentam na academia atual: mesmo que estas orienta\u00e7\u00f5es oficialmente estejam envoltas em uma luta de morte (os habermasianos contra os desconstrucionistas, os cientistas cognitivos contra os obscurantistas New Age) todos se unem em seu recha\u00e7o ao sujeito cartesiano.\u201d<\/p>\n<p>Ora, como o programa do Escola Sem Partido define-se por oposi\u00e7\u00e3o \u00e0s tend\u00eancias explicitamente nomeadas como politicamente correto, relativismo, multiculturalismo, igualitarismo, coletivismo, ecologismo, secularismo e \u017di\u017eek tamb\u00e9m se op\u00f5e a tais tend\u00eancias, ele n\u00e3o representa apenas o lado dos \u201ccr\u00edticos\u201d, mas tamb\u00e9m o lado da Escola sem Partido. Ademais ele est\u00e1 defendendo, explicitamente a liberdade e a pluralidade, como quer nossa Constitui\u00e7\u00e3o. Dito isso s\u00f3 h\u00e1 uma solu\u00e7\u00e3o para salvar as crian\u00e7as brasileiras do Partido e da Escola sem Partido: Slavoj \u017di\u017eek!<\/p>\n<p>http:\/\/brasileiros.com.br\/2016\/08\/por-que-ensinar-mais-zizek-em-nossas-escolas\/<\/p>\n<\/section>\n<\/article>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Christian Ingo Lenz Dunker &#8211;\u00a0O fil\u00f3sofo esloveno critica marxistas, feministas, ecologistas e multiculturalistas, mas defende explicitamente a liberdade e a Constitui\u00e7\u00e3o Uma encarna\u00e7\u00e3o demon\u00edaca do esquerdismo ideol\u00f3gico que amea\u00e7a nossas crian\u00e7as \u00e9 representada pelo fil\u00f3sofo esloveno Slavoj \u017di\u017eek. 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