{"id":16665,"date":"2022-03-06T12:34:31","date_gmt":"2022-03-06T15:34:31","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=16665"},"modified":"2022-03-01T21:21:19","modified_gmt":"2022-03-02T00:21:19","slug":"dez-teses-para-reinventar-as-esquerdas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2022\/03\/06\/dez-teses-para-reinventar-as-esquerdas\/","title":{"rendered":"Dez teses para reinventar as esquerdas"},"content":{"rendered":"<p><strong>Boaventura de Sousa Santos<\/strong> &#8211; <span style=\"font-family: Lato, sans-serif;\">As elei\u00e7\u00f5es gerais do dia 30 de janeiro em Portugal tiveram resultados surpreendentes. O Partido Socialista (PS) ganhou as elei\u00e7\u00f5es com maioria absoluta. Portugal ser\u00e1, a partir de agora, o \u00fanico pa\u00eds europeu com um governo de maioria absoluta de um s\u00f3 partido de esquerda. Os dois partidos \u00e0 esquerda do PS tiveram os piores resultados de sempre. O Partido Comunista (PCP), que tinha doze deputados no parlamento, passa a ter metade; e o Bloco de Esquerda (BE), que tinha dezanove deputados, passa a ter cinco. O BE passa de terceira for\u00e7a pol\u00edtica para quinta e o PCP, de quarta para sexta. As posi\u00e7\u00f5es destes partidos passaram a ser ocupadas por for\u00e7as de ultradireita, uma de inspira\u00e7\u00e3o fascista (Chega), agora terceira for\u00e7a pol\u00edtica, da fam\u00edlia da extrema-direita europeia e mundial; e outra de recorte hiper-neoliberal, darwinismo social puro e duro, ou seja, a sobreviv\u00eancia do mais forte (Iniciativa Liberal), agora quarta for\u00e7a pol\u00edtica. Os resultados eleitorais mostram que a esquerda \u00e0 esquerda do PS perdeu a oportunidade hist\u00f3rica que granjeou depois de 2015 ao construir uma solu\u00e7\u00e3o de governo de esquerda que ficou conhecida por\u00a0<\/span><em style=\"font-family: Lato, sans-serif;\">geringon\u00e7a\u00a0<\/em><span style=\"font-family: Lato, sans-serif;\">(PS, BE, PCP), uma solu\u00e7\u00e3o que travou a austeridade imposta pela solu\u00e7\u00e3o neoliberal da crise financeira de 2008 e lan\u00e7ou o pa\u00eds numa recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e social modesta mas consistente. Esta solu\u00e7\u00e3o come\u00e7ou a precarizar-se em 2020 e colapsou em finais de 2021 com a rejei\u00e7\u00e3o do or\u00e7amento apresentado pelo governo. Foi isso que levou \u00e0s elei\u00e7\u00f5es antecipadas de 30 de janeiro. A vit\u00f3ria esmagadora do PS depois de seis anos de governo e dois anos de pandemia \u00e9 memor\u00e1vel e merece reflex\u00e3o. Neste texto, proponho-me refletir sobre o outro fato importante destas elei\u00e7\u00f5es: a queda abrupta dos dois partidos de esquerda \u00e0 esquerda do PS. N\u00e3o pretendo aqui analisar a queda em si mesma; pretendo antes mostrar o abismo que nela se manifesta entre a esquerda que o BE e o PCP representam e a esquerda que, em meu entender, tem condi\u00e7\u00f5es para prosperar nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas. A diferen\u00e7a entre o que existe e o que proponho \u00e9 tal que estamos perante a necessidade de reinventar as esquerdas. Por agora n\u00e3o me refiro ao conte\u00fado program\u00e1tico. Refiro-me sobretudo \u00e0s formas de organiza\u00e7\u00e3o. Apresento a minha proposta em dez teses.<\/span><\/p>\n<p><strong>1.\u00a0<em>N\u00e3o h\u00e1 cidad\u00e3os despolitizados; h\u00e1 cidad\u00e3os inseguros que n\u00e3o se sentem mobilizados pelas formas dominantes de politiza\u00e7\u00e3o, sejam elas partidos ou movimentos da sociedade civil organizada.<\/em><\/strong><\/p>\n<p>A esmagadora maioria dos cidad\u00e3os n\u00e3o est\u00e1 filiada em partidos, n\u00e3o participa em movimentos sociais nem sai \u00e0 rua para se manifestar, mas uma boa parte dela sente-se exclu\u00edda, abandonada e sem esperan\u00e7a que a democracia realize as suas expectativas. A pandemia veio agravar a inseguran\u00e7a existencial. As for\u00e7as de extrema-direita foram as primeiras a identificar a\u00ed a sua oportunidade para prosperarem. S\u00e3o ex\u00edmios empreendedores do medo e da raiva.Depois de s\u00e9culos de colonialismo (racismo, xenofobia, roubo de terra e de recursos naturais) e de h\u00e9tero-patriarcado (sexismo, viol\u00eancia de g\u00eanero, feminic\u00eddio, homofobia, transfobia) e de mais de 40 anos de capitalismo neoliberal (concentra\u00e7\u00e3o escandalosa da riqueza, sobre-explora\u00e7\u00e3o do trabalho, eros\u00e3o dos direitos sociais e econ\u00f4micos e destrui\u00e7\u00e3o da natureza), as revoltas ou explos\u00f5es sociais, quando ocorrem, tendem a colher de surpresa os partidos e as organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil (associa\u00e7\u00f5es e movimentos sociais). S\u00e3o muitas vezes movimentos espont\u00e2neos, presen\u00e7as coletivas nas pra\u00e7as p\u00fablicas.<strong>2.\u00a0<em>N\u00e3o h\u00e1 democracia sem partidos, mas h\u00e1 partidos sem democracia<\/em>.<\/strong><\/p>\n<p>Uma das antinomias da democracia liberal representativa reside em ela assentar cada vez mais nos partidos como forma exclusiva de ag\u00eancia pol\u00edtica, ao mesmo tempo que os partidos s\u00e3o internamente cada vez menos democr\u00e1ticos. Os partidos vivem e reproduzem-se no interior de institui\u00e7\u00f5es que tendem a isolar-se da turbul\u00eancia e da complexidade das din\u00e2micas sociais. O deficit democr\u00e1tico dos partidos traduz-se na incapacidade para captar em tempo e interpretar corretamente os anseios, as inseguran\u00e7as, as aspira\u00e7\u00f5es de cidad\u00e3os e cidad\u00e3s cada vez mais armadilhados na ideologia dominante da autonomia e da liberdade, sem terem condi\u00e7\u00f5es materiais para serem efetivamente aut\u00f4nomos ou se sentirem efetivamente livres. Sem ningu\u00e9m os escravizar, sentem-se condenados a autoescravizar-se. Enquanto empreendedores, colaboradores, trabalhadores aut\u00f4nomos, sentem-se na situa\u00e7\u00e3o paradoxal de terem direito a n\u00e3o ter direitos. Esta disson\u00e2ncia \u00e9 particularmente acentuada entre os jovens e as classes sociais socialmente empobrecidas e vulner\u00e1veis, aquelas para cuja defesa se criaram os partidos de esquerda. Por exemplo, as ideologias dominantes nos partidos de esquerda tendem a ver nos jovens apenas trabalhadores prec\u00e1rios. Eles s\u00e3o isso, mas s\u00e3o muito mais do que isso, s\u00e3o cidad\u00e3os e cidad\u00e3s preocupados com a sua sexualidade, com o racismo, com as dificuldades de relacionamento num mundo pand\u00eamico e de comunica\u00e7\u00e3o virtual, com a perda de amizades intensas, com a exig\u00eancia de altas qualifica\u00e7\u00f5es acad\u00eamicas destinadas ao desemprego ou ao emprego-lixo, com o medo que a crise ecol\u00f3gica lhes roube mais facilmente o futuro que o capitalismo. A dist\u00e2ncia entre todas estas viv\u00eancias e car\u00eancias e os c\u00f3digos de formula\u00e7\u00e3o e de gest\u00e3o pol\u00edtica dos partidos \u00e9 cada vez mais preocupante.<strong>3.\u00a0<em>Os partidos do futuro ser\u00e3o partidos-movimento.<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Se \u00e9 verdade que os partidos tradicionais esgotaram o seu tempo hist\u00f3rico, isso \u00e9 particularmente verdade no caso dos partidos de esquerda. A solu\u00e7\u00e3o reside em transformar os partidos em entidades mais intensamente democr\u00e1ticas. Os partidos do futuro t\u00eam de combinar a democracia representativa com a democracia participativa no modo como se organizam, como definem os seus programas, como escolhem os seus l\u00edderes, como tomam decis\u00f5es pol\u00edticas importantes, como prestam contas e afirmam a transpar\u00eancia. A participa\u00e7\u00e3o cidad\u00e3 nos partidos n\u00e3o se pode esgotar no exerc\u00edcio do direito de voto de quatro em quatro anos. Deve exercer-se no decurso do mandato dos eleitos, e n\u00e3o apenas quando o mandato termina. Esta participa\u00e7\u00e3o n\u00e3o se pode reduzir a receber informa\u00e7\u00f5es regulares. Devem plasmar-se na constitui\u00e7\u00e3o de c\u00edrculos de cidadania militante e simpatizante, organizados por local de resid\u00eancia ou por tipo de ocupa\u00e7\u00e3o, com capacidade deliberativa e n\u00e3o apenas consultiva. Esta vigil\u00e2ncia e cocria\u00e7\u00e3o pol\u00edtica \u00e9 particularmente decisiva no caso dos partidos de esquerda por duas raz\u00f5es principais. As classes e os grupos sociais que as esquerdas se prop\u00f5em representar e cujos interesses dizem defender vivem em condi\u00e7\u00f5es sociais e universos culturais diferentes dos das lideran\u00e7as pol\u00edticas e t\u00eam menos tempo e menos proximidade social para se manifestarem ou para se fazerem entender. A pol\u00edtica de proximidade \u00e9 a chave da pol\u00edtica do futuro. Essa proximidade n\u00e3o pode ser mero artefacto virtual da sociedade de informa\u00e7\u00e3o porque os corpos vivos t\u00eam densidades e emo\u00e7\u00f5es que fogem \u00e0 l\u00f3gica bin\u00e1ria da comunica\u00e7\u00e3o virtual. Al\u00e9m do mais, a comunica\u00e7\u00e3o virtual n\u00e3o entende os sil\u00eancios e as aus\u00eancias, embora uns e outras sejam fundamentais para entender o sofrimento dos que mais sofrem e as injusti\u00e7as a que est\u00e3o sujeitos os mais injusti\u00e7ados.A segunda raz\u00e3o prende-se com a tradi\u00e7\u00e3o do marxismo-leninismo que por vezes ao centralismo democr\u00e1tico nos partidos vindos da tradi\u00e7\u00e3o comunista. Esta tradi\u00e7\u00e3o teve o seu m\u00e9rito no seu tempo, mas est\u00e1 hoje ultrapassada pelas condi\u00e7\u00f5es de vida e comunica\u00e7\u00e3o contempor\u00e2neas. Mant\u00ea-la nos dias de hoje, ainda que de forma matizada, significa por vezes cair na tenta\u00e7\u00e3o do esp\u00edrito de seita (sectarismo), na busca de unanimidades atrav\u00e9s do policiamento antidemocr\u00e1tico de opini\u00f5es divergentes para que n\u00e3o vinguem e, finalmente, na oscila\u00e7\u00e3o brusca entre unanimidade e silenciamento, suspens\u00e3o de direitos, demoniza\u00e7\u00e3o na pra\u00e7a p\u00fablica. Este tipo de gest\u00e3o das diferen\u00e7as \u00e9 cada vez mais incompat\u00edvel com a vis\u00e3o que os cidad\u00e3os t\u00eam da conviv\u00eancia e da delibera\u00e7\u00e3o democr\u00e1ticas.<strong>4.\u00a0<em>Os partidos-movimento de esquerda n\u00e3o precisam de ser inventados a partir do zero; devem conhecer e valorizar as suas origens.<\/em><\/strong><\/p>\n<p>As esquerdas nasceram na conviv\u00eancia com as classes e grupos sociais exclu\u00eddos. Ajudaram a minorar a exclus\u00e3o e o silenciamento, n\u00e3o apenas dando voz \u00e0s suas reivindica\u00e7\u00f5es, mas tamb\u00e9m promovendo a sua autoestima, atrav\u00e9s da educa\u00e7\u00e3o e da cultura populares, dos grupos teatrais, das atividades de conv\u00edvio e de lazer. As esquerdas t\u00eam de voltar \u00e0s suas origens, ao conv\u00edvio de proximidade com os grupos sociais exclu\u00eddos, discriminados, empobrecidos. Paradoxalmente, estes grupos s\u00e3o os que sofrem mais com a ideologia dominante e os que mais facilmente se sentem seduzidos por ela, expostos como est\u00e3o \u00e0 ind\u00fastria do entretenimento massivo e \u00e0s redes sociais reconfortantes. As esquerdas partid\u00e1rias deixaram de viver onde vivem os seus eleitores, deixaram de conviver e de conversar com eles, exceto quando os visitam para lhes pedir o voto. Quem hoje convive e conversa com os grupos sociais mais exclu\u00eddos s\u00e3o muitas vezes as igrejas evang\u00e9licas neopentecostais, quando n\u00e3o \u00e9 o crime organizado. O ativismo militante de esquerda parece limitar-se a participar em reuni\u00f5es do partido para fazer (quase sempre\u00a0<em>ouvir quem faz<\/em>) uma an\u00e1lise da conjuntura. Os partidos de esquerda, tal como existem hoje, n\u00e3o s\u00e3o capazes de falar com as vozes silenciadas e exclu\u00eddas em termos que estas entendam. Para mudar isso, as esquerdas devem reinventar-se.<strong>5.\u00a0<em>N\u00e3o h\u00e1 democracia, h\u00e1 democratiza\u00e7\u00e3o.<\/em><\/strong><\/p>\n<p>A responsabilidade das esquerdas reside em que elas servem hoje a democracia mais genuinamente que quaisquer outras. A democracia liberal representativa sempre teve o medo das maiorias sociais. Basta lembrar que a democracia representativa esteve na sua origem limitada aos propriet\u00e1rios, uma pequena minoria de cidad\u00e3os. Mas nos \u00faltimos 60 anos passou por per\u00edodos em que, com maior verosimilhan\u00e7a, foi o regime dos governos das maiorias para benef\u00edcios das maiorias. Hoje em dia, a democracia liberal est\u00e1 cada vez mais capturada por poderosos interesses econ\u00f4micos. \u00c0 medida que isso ocorre e \u00e9 mais conhecido, vai germinando a ideia de que a democracia est\u00e1 a ser desfigurada e \u00e9 hoje muitas vezes um regime de governos de minorias para benef\u00edcio das minorias. Em muitos pa\u00edses, as for\u00e7as pol\u00edticas de direita dependem cada vez mais de interesses econ\u00f4micos poderosos. Para os poder servir, n\u00e3o podem servir a democracia; apenas se servem dela. As for\u00e7as pol\u00edticas de esquerda est\u00e3o, por esta raz\u00e3o, em melhor posi\u00e7\u00e3o para servir a democracia e a defender dos antidemocratas. Mas, para isso, t\u00eam de romper com a l\u00f3gica de organiza\u00e7\u00e3o interna t\u00edpica dos partidos de direita.As esquerdas s\u00e3o as mais bem posicionadas para entender que a democracia n\u00e3o se pode limitar ao espa\u00e7o-tempo da cidadania. As sociedades politicamente democr\u00e1ticas s\u00e3o frequentemente sociedades em que as maiorias n\u00e3o t\u00eam condi\u00e7\u00f5es de viver democraticamente por estarem expostas a quotidianos de autoritarismo que tenho designado como fascismo social. A luta democr\u00e1tica tem de existir tamb\u00e9m no espa\u00e7o da fam\u00edlia, da comunidade, da produ\u00e7\u00e3o, das rela\u00e7\u00f5es sociais, das rela\u00e7\u00f5es com a natureza e das rela\u00e7\u00f5es internacionais. Cada espa\u00e7o-tempo convoca um tipo espec\u00edfico de democracia. Nisto consiste a democracia de alta intensidade. Comparada com ela, a democracia liberal representativa \u00e9 uma democracia de baixa intensidade.<strong>6.\u00a0<em>Os partidos-movimento devem lutar contra o fundamentalismo da exclusividade da representa\u00e7\u00e3o.<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Os partidos convencionais sofrem de um fundamentalismo antissociedade civil organizada (associa\u00e7\u00f5es e movimentos sociais). Consideram que t\u00eam o monop\u00f3lio da representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e que esse monop\u00f3lio \u00e9 leg\u00edtimo, precisamente porque as organiza\u00e7\u00f5es sociais n\u00e3o s\u00e3o quantitativamente representativas. Por isso, os \u00fanicos meios de se articular com elas s\u00e3o a coopta\u00e7\u00e3o ou a infiltra\u00e7\u00e3o. \u00c9 assim que os partidos s\u00f3 reconhecem \u201cos seus movimentos\u201d, as \u201csuas associa\u00e7\u00f5es\u201d, sejam elas sindicatos ou ordens profissionais. Este fundamentalismo da exclusividade da representa\u00e7\u00e3o e o que dele decorre levam a deslegitimar as organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil, a sujeit\u00e1-las a l\u00f3gicas partid\u00e1rias com preju\u00edzo para os interesses reais dos seus associados.A luta contra o fundamentalismo tem ainda uma outra dimens\u00e3o. Os partidos privilegiam a a\u00e7\u00e3o institucional, a mobiliza\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es, tais como, o parlamento, os tribunais, a administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica. Pelo contr\u00e1rio, as organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil e sobretudo os movimentos sociais, embora utilizem tamb\u00e9m a a\u00e7\u00e3o institucional, recorrem muitas vezes \u00e0 a\u00e7\u00e3o direta, aos protestos e manifesta\u00e7\u00f5es nas ruas e nas pra\u00e7as, aos\u00a0<em>sit-ins<\/em>, \u00e0 divulga\u00e7\u00e3o de agendas por via da arte (o<em>\u00a0artivismo<\/em>). O fundamentalismo da exclusividade da representa\u00e7\u00e3o tende a desvalorizar estas importantes formas de mobiliza\u00e7\u00e3o social e a fomentar a tenta\u00e7\u00e3o de as instrumentalizar. Os partidos tendem a homogeneizar as suas bases sociais (\u00e9-se socialista, comunista, conservador, democrata crist\u00e3o). Pelo contr\u00e1rio, as organiza\u00e7\u00f5es e movimentos sociais concentram-se em lealdades tem\u00e1ticas mais espec\u00edficas: a habita\u00e7\u00e3o, a imigra\u00e7\u00e3o, a viol\u00eancia policial, o racismo e o sexismo, a diversidade cultural, a diferen\u00e7a sexual, a ecologia, o territ\u00f3rio, o regionalismo, a economia popular, etc. Trabalham com linguagens e conceitos distintos dos que s\u00e3o usados pelos partidos. Essa diversidade enriquece a conviv\u00eancia democr\u00e1tica.As organiza\u00e7\u00f5es e movimentos sociais sabem que as formas de opress\u00e3o tanto v\u00eam do Estado como das rela\u00e7\u00f5es sociais (\u00e0s vezes familiares) e econ\u00f4micas. Os sindicatos, por exemplo, t\u00eam uma experi\u00eancia not\u00e1vel de luta contra atores privados: os patr\u00f5es e as empresas. \u00c9 por esta raz\u00e3o que o neoliberalismo lhes tem feito um ataque cerrado. A sociedade civil organizada em associa\u00e7\u00f5es, movimentos sociais e sindicatos est\u00e1 hoje marcada por uma experi\u00eancia muito negativa: os partidos de esquerda descumprem frequentemente as suas promessas eleitorais quando chegam ao poder. Esse descumprimento leva a prazo \u00e0 deslegitima\u00e7\u00e3o dos partidos. Se a legitima\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica n\u00e3o for recuperada pelos partidos-movimento democr\u00e1ticos, os partidos antidemocr\u00e1ticos e de voca\u00e7\u00e3o fascizante encontram a\u00ed um terreno f\u00e9rtil para prosperarem. Apresentam-se, em geral, como o antissistema, a nova\/velha extrema-direita.<strong>7.\u00a0<em>A revolu\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o eletr\u00f4nica e as redes sociais n\u00e3o constituem, em si, um instrumento incondicionalmente favor\u00e1vel ao desenvolvimento da democracia participativa.<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Pelo contr\u00e1rio, podem contribuir para manipular a tal ponto a opini\u00e3o p\u00fablica que o processo democr\u00e1tico pode ser fatalmente desfigurado (o mundo das\u00a0<em>fake news<\/em>\u00a0e do discurso do \u00f3dio). O exerc\u00edcio da democracia participativa necessita hoje, mais do que nunca, de reuni\u00f5es presenciais e discuss\u00f5es face a face. A tradi\u00e7\u00e3o das c\u00e9lulas partid\u00e1rias, dos c\u00edrculos de cidad\u00e3os, dos c\u00edrculos de cultura, das comunidades eclesiais de base tem de ser reinventada. N\u00e3o h\u00e1 democracia participativa sem intera\u00e7\u00e3o de proximidade. A pandemia tornou mais dif\u00edcil a pol\u00edtica de proximidade, mas ela deve ser retomada logo que poss\u00edvel.<strong>8.<em>\u00a0Os partidos-movimento de esquerda est\u00e3o abertos a juntar for\u00e7as com outros partidos de esquerda com base no princ\u00edpio das pluralidades despolarizadas e das teorias da transi\u00e7\u00e3o.<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Tradicionalmente, as for\u00e7as pol\u00edticas de esquerda foram v\u00edtimas de faccionalismo e de oportunismo. Em ambos os casos, esses desvios deveram-se \u00e0 dist\u00e2ncia que criaram com as suas bases sociais. No caso das for\u00e7as de tradi\u00e7\u00e3o comunista e anarquista, o faccionalismo foi o desvio mais frequente, decorrente quase sempre da ansiedade identit\u00e1ria e do purismo ideol\u00f3gico. Fracionaram-se com frequ\u00eancia e transformaram os companheiros de ontem nos inimigos de hoje. No caso das for\u00e7as de tradi\u00e7\u00e3o socialista, o desvio mais frequente foi o do oportunismo, o ecletismo ideol\u00f3gico que tornou mais f\u00e1cil coligar-se com for\u00e7as de direita do que com outras for\u00e7as de esquerda. Tanto o faccionalismo como o oportunismo contribuem para desarmar as for\u00e7as de esquerda e frustrar as suas bases sociais. Isto \u00e9 particularmente preocupante num contexto epocal de crescimento de for\u00e7as de extrema-direita, apostadas em usar a democracia para chegar ao poder, mas prontas para a descartar \u00e0 medida que isso for poss\u00edvel.Contra esta dupla tradi\u00e7\u00e3o devem contrapor-se dois princ\u00edpios. O primeiro \u00e9 o princ\u00edpio das pluralidades despolarizadas. Consiste em distinguir entre o que separa e o que une as organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e promover as articula\u00e7\u00f5es entre estas com base no que as une, sem perder a identidade do que as separa. O que as separa apenas fica em suspenso por raz\u00f5es pragm\u00e1ticas. As diferen\u00e7as s\u00f3 se despolarizam quando as concess\u00f5es s\u00e3o rec\u00edprocas, quando os processos e resultados da negocia\u00e7\u00e3o s\u00e3o transparentes e as bases sociais das organiza\u00e7\u00f5es participantes os consideram ben\u00e9ficos depois de devida e adequadamente consultadas. Esta \u00e9 a primeira chave para acordos entre os partidos de esquerda.A segunda chave consiste na considera\u00e7\u00e3o dos tempos e dos ritmos das pol\u00edticas defendidas. O socialismo n\u00e3o pode ficar na gaveta para sempre, mas tamb\u00e9m n\u00e3o pode atingir-se amanh\u00e3. H\u00e1 que pensar em per\u00edodos de transi\u00e7\u00e3o, nos quais as reformas devem ser medidas pela capacidade de consolidar avan\u00e7os sem abrir as portas para retrocessos abruptos. O neoliberalismo tornou t\u00e3o evidente e grave a transfer\u00eancia de riqueza dos pobres e das classes m\u00e9dias para os ricos e para as velhas e novas elites que as for\u00e7as de direita tradicionais vivem hoje mais das oportunidades que as esquerdas lhes d\u00e3o pelos erros que cometem do que por m\u00e9rito pr\u00f3prio.<strong>9<em>. A cultura e a educa\u00e7\u00e3o populares s\u00e3o uma das chaves para sustentar a democracia e travar o avan\u00e7o dos autoritarismos.<\/em><\/strong><\/p>\n<p>Os meios de luta mais eficazes contra o velho\/novo fascismo, o autoritarismo e obscurantismo s\u00e3o a cultura e a educa\u00e7\u00e3o. A cultura \u00e9 a pr\u00e1tica da diversidade e da imagina\u00e7\u00e3o democr\u00e1ticas por excel\u00eancia. A educa\u00e7\u00e3o \u00e9 essencial para promover a difus\u00e3o da conviv\u00eancia democr\u00e1tica e do interconhecimento entre diferen\u00e7as pol\u00edticas, sociais e culturais. As novas formas de educa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica popular incluem rodas de conversa, c\u00edrculos de cidadania, universidades populares, teatro do oprimido, poesia slam, cultura hip-hop, com vista a criar ecologias de saberes que potenciem a participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica em que se deve plasmar a democracia participativa do futuro: or\u00e7amentos participativos, consultas populares, conselhos sociais ou de gest\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas, sobretudo nas \u00e1reas da sa\u00fade e da educa\u00e7\u00e3o.A hist\u00f3ria do pa\u00eds, de tudo o que h\u00e1 nela de luminoso e de tenebroso, \u00e9 uma dimens\u00e3o essencial da cultura e da educa\u00e7\u00e3o. O passado foi um passado de lutas onde houve vencedores e houve vencidos. Por raz\u00f5es \u00f3bvias, as classes dominantes preferem a hist\u00f3ria dos vencedores contada pelos vencedores (seus antecessores). As for\u00e7as pol\u00edticas de esquerda devem, ao contr\u00e1rio, promover a divulga\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria dos vencidos contada pelos vencidos (os antecessores dos grupos sociais que se prop\u00f5em defender). Hist\u00f3rias plurais s\u00e3o as mais eficazes para lutar contra a falsa conting\u00eancia do presente e o car\u00e1cter instant\u00e2neo e sem ra\u00edzes da contemporaneidade monol\u00edtica. Uma sociedade que n\u00e3o conhece o seu passado est\u00e1 condenada a ter s\u00f3 o futuro dos outros.<strong>10.\u00a0<em>Vivemos um per\u00edodo de lutas defensivas.<\/em><\/strong><\/p>\n<p>A ideologia de que n\u00e3o h\u00e1 alternativa ao capitalismo \u2013 o qual \u00e9, de facto, uma tr\u00edade: capitalismo, colonialismo (racismo) e h\u00e9tero-patriarcado (sexismo) \u2013 acabou por ser interiorizada por muito do pensamento de esquerda. O neoliberalismo conseguiu combinar o fim supostamente tranquilo da hist\u00f3ria com a ideia da crise permanente (por exemplo, a crise financeira, a crise ecol\u00f3gica e, mais recentemente, a crise sanit\u00e1ria). Por esta raz\u00e3o, vivemos hoje sob o dom\u00ednio do curto prazo. \u00c9 preciso atender \u00e0s suas exig\u00eancias porque quem est\u00e1 com fome ou \u00e9 v\u00edtima de viol\u00eancia policial ou de g\u00e9nero n\u00e3o pode esperar pelo socialismo para comer ou ser libertada.Mas n\u00e3o se pode perder de vista o debate civilizat\u00f3rio que p\u00f5e a quest\u00e3o das lutas de m\u00e9dio prazo. A pandemia, ao mesmo tempo que tornou o curto prazo em urg\u00eancia m\u00e1xima, criou a oportunidade para pensar que h\u00e1 alternativas de vida e que, se n\u00e3o queremos entrar num per\u00edodo de pandemia intermitente, temos de atender aos avisos que a natureza nos est\u00e1 a dar. Se n\u00e3o alterarmos os nossos modos de produzir, de consumir e de viver, caminharemos para um inferno pand\u00eamico.Num momento em que os fascistas est\u00e3o cada vez mais perto do poder, quando n\u00e3o est\u00e3o j\u00e1 no poder, uma das lutas mais importantes \u00e9 a luta pela democracia. A democracia liberal representativa \u00e9 de baixa intensidade porque aceita ser uma ilha relativamente democr\u00e1tica num arquip\u00e9lago de despotismos sociais, econ\u00f4micos e culturais. Por isso, n\u00e3o se sabe defender eficazmente das for\u00e7as antidemocr\u00e1ticas. A democracia liberal representativa \u00e9 um essencial ponto de partida, mas n\u00e3o pode ser o ponto de chegada. O ponto de chegada \u00e9 uma profunda articula\u00e7\u00e3o entre a democracia liberal, representativa, e a democracia participativa, deliberativa. Neste momento de lutas defensivas, \u00e9 particularmente importante defender a democracia liberal, representativa, para neutralizar os fascistas e para, a partir dela, radicalizar a democratiza\u00e7\u00e3o da sociedade e da pol\u00edtica. As for\u00e7as pol\u00edticas de esquerda devem ter isto particularmente presente porque sabem que ser\u00e3o elas os primeiros alvos e as primeira v\u00edtimas da viol\u00eancia fascista.<\/p>\n<div><\/div>\n<div>Fonte da mat\u00e9ria: Dez teses para reinventar as esquerdas &#8211; Outras Palavras &#8211; https:\/\/outraspalavras.net\/pos-capitalismo\/boaventura-dezteses-para-reinventar-as-esquerdas\/<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Boaventura de Sousa Santos &#8211; As elei\u00e7\u00f5es gerais do dia 30 de janeiro em Portugal tiveram resultados surpreendentes. O Partido Socialista (PS) ganhou as elei\u00e7\u00f5es com maioria absoluta. Portugal ser\u00e1, a partir de agora, o \u00fanico pa\u00eds europeu com um governo de maioria absoluta de um s\u00f3 partido de esquerda. 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