{"id":16661,"date":"2022-03-03T12:29:21","date_gmt":"2022-03-03T15:29:21","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=16661"},"modified":"2022-02-27T19:30:50","modified_gmt":"2022-02-27T22:30:50","slug":"marxismo-e-psicanalise-o-mito-do-egoismo-inato","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2022\/03\/03\/marxismo-e-psicanalise-o-mito-do-egoismo-inato\/","title":{"rendered":"Marxismo e psican\u00e1lise: o mito do ego\u00edsmo inato"},"content":{"rendered":"<p><strong>Eleut\u00e9rio F. S. Prado &#8211; <\/strong>Este estudo parte de duas li\u00e7\u00f5es que se aprendem no \u201cintelecto geral\u201d da sociedade contempor\u00e2nea. A primeira vem de Vladimir Safatle e vai orientar a reda\u00e7\u00e3o do escrito que se segue; diz o seguinte: \u201cnenhuma perspectiva sociol\u00f3gica pode abrir m\u00e3o de uma an\u00e1lise das disposi\u00e7\u00f5es subjetivas\u201d (2008, p. 16) dos indiv\u00edduos que habitam a sociedade. Ou seja, tem de compreender como os \u201csujeitos\u201d investem a libido na conforma\u00e7\u00e3o de seus comportamentos, na manuten\u00e7\u00e3o de seus v\u00ednculos sociais com outros \u201csujeitos\u201d, na aceita\u00e7\u00e3o ou rejei\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es etc. Ao faz\u00ea-lo, formulam representa\u00e7\u00f5es imagin\u00e1rias, aderem a c\u00f3digos simb\u00f3licos e adquirem expectativas de satisfa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Se assim for, interessa aqui perguntar que compreens\u00e3o das puls\u00f5es humanas est\u00e1 implicitamente admitida na obra madura de Karl Marx, ou seja, em\u00a0<em>O capital<\/em>?<\/p>\n<p>Para responder essa pergunta, estuda-se aqui uma segunda li\u00e7\u00e3o e esta \u00faltima vem de Adrian Johnston, um fil\u00f3sofo norte-americano da corrente de pensamento conhecida como lacano-marxista. Segundo ela, \u201co materialismo hist\u00f3rico e a cr\u00edtica da economia pol\u00edtica cont\u00eam uma teoria da puls\u00e3o antropol\u00f3gica e filos\u00f3fica\u201d (2017, p. 286). Mais do que isso, esse autor sustenta mesmo que essa teoria antecipa at\u00e9 certo ponto a metapsicologia de Sigmund Freud.<\/p>\n<p>Como encontrar nos textos de Marx, com o risco do anacronismo, as evid\u00eancias dessa hip\u00f3tese um tanto audaciosa? Eis que \u00e9 preciso ler logo um trecho da introdu\u00e7\u00e3o dos\u00a0<em>Grundrisse<\/em>:<\/p>\n<blockquote><p>A produ\u00e7\u00e3o (\u2026) produz n\u00e3o somente um objeto para o sujeito, mas tamb\u00e9m um sujeito para o objeto. Logo, a produ\u00e7\u00e3o produz o consumo, na medida em que 1) cria o material para o consumo; 2) determina o modo de consumo; 3) gera como necessidade no consumidor os produtos por ela pr\u00f3pria postos primeiramente como objetos. Produz, assim, o objeto de consumo, o modo do consumo e o\u00a0<em>impulso<\/em>\u00a0do consumo. Da mesma forma, o consumo produz a\u00a0<em>disposi\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0do produtor, na medida em que o solicita como necessidade que determina a finalidade.<\/p>\n<p><cite>(Marx, 2011, 47-48)<\/cite><\/p><\/blockquote>\n<p>Nesse trecho \u00e9 bem evidente que Marx liga a intera\u00e7\u00e3o social na produ\u00e7\u00e3o e na circula\u00e7\u00e3o mercantil \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de disposi\u00e7\u00f5es ps\u00edquicas na cabe\u00e7a dos agentes econ\u00f4micos. Emprega, mesmo antes de que esse saber nascesse, os termos \u201cdisposi\u00e7\u00e3o\u201d e \u201cimpulso\u201d que pertencem ao l\u00e9xico atual da psican\u00e1lise. Mostra, assim, que o comportamento do indiv\u00edduo social \u00e9 governado por puls\u00f5es que se originam na natureza org\u00e2nica do ser humano, mas que se manifestam necessariamente por meio da media\u00e7\u00e3o da linguagem, fundamento da sociabilidade humana. Indica claramente que produ\u00e7\u00e3o e consumo est\u00e3o numa rela\u00e7\u00e3o de complementariedade que se d\u00e1 de modo interativo, mostrando assim que n\u00e3o podem ser tomados meramente como atributos redut\u00edveis aos indiv\u00edduos enquanto tais.<\/p>\n<p>Nesse sentido, Johnston assegura que \u201cpara ambos, Marx e Freud, a puls\u00e3o [que orienta o comportamento econ\u00f4mico] \u00e9 produzida de modo mediado, ao inv\u00e9s de ser dada de imediato. Mais precisamente, as puls\u00f5es em geral, tanto para o materialismo hist\u00f3rico quanto para a psican\u00e1lise, s\u00e3o produzidas por media\u00e7\u00f5es sociais \u2013 econ\u00f4micas, familiares ou de qualquer outra natureza \u2013 nas dimens\u00f5es estruturais e fenom\u00eanicas\u201d (2017, p. 279-280). \u00c9 patente, pois, que, para eles, o sujeito e o objeto das puls\u00f5es produzem-se um ao outro. Condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas espec\u00edficas, ademais, determinam que \u201cexternalidades objetivas sejam introjetadas e metabolizadas como internalidades subjetivas\u201d (idem, p. 280).<\/p>\n<p>Mas Marx vai bem al\u00e9m disso na carateriza\u00e7\u00e3o das puls\u00f5es que governam os agentes econ\u00f4micos. Como se sabe, mostrou, primeiro, que a puls\u00e3o subjetiva do produtor de mercadorias aparece replicada na puls\u00e3o subjetiva do consumidor de valores de uso e que ambas est\u00e3o determinadas estruturalmente pela puls\u00e3o objetiva do capital. Para se autovalorizar, o capital requer continuamente que a produ\u00e7\u00e3o de mercadorias gere n\u00e3o apenas novas mercadorias, mas principalmente mais-valor. Como a puls\u00e3o do capital \u00e9 insaci\u00e1vel, esse tra\u00e7o vai aparecer tamb\u00e9m no car\u00e1ter do produtor e do consumidor enla\u00e7ados imediatamente por meio dos mercados, mas em \u00faltima an\u00e1lise pelas rela\u00e7\u00f5es sociais do capitalismo.<\/p>\n<p>E isso fica claro num trecho do\u00a0<em>Cap\u00edtulo do Capital<\/em>\u00a0dos\u00a0<em>Grundrisse<\/em>, em que Marx fala da l\u00f3gica compulsiva da expans\u00e3o do capital. Eis que o sujeito autom\u00e1tico do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista se move por um processo de recurs\u00e3o pr\u00f3prio que tende a se expandir interminavelmente:<\/p>\n<blockquote><p>(\u2026) a produ\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>valor excedente relativo<\/em>,\u00a0<em>i.e.<\/em>, a produ\u00e7\u00e3o de valor excedente fundada no aumento e no desenvolvimento de for\u00e7as produtivas, requer a produ\u00e7\u00e3o de novo consumo; requer que o c\u00edrculo de consumo no interior da circula\u00e7\u00e3o se amplie tanto quanto antes se ampliou o c\u00edrculo produtivo. Primeiro, amplia\u00e7\u00e3o quantitativa do consumo existente; segundo, cria\u00e7\u00e3o de novas necessidades pela propaga\u00e7\u00e3o das existentes em um c\u00edrculo mais amplo;\u00a0<em>terceiro<\/em>, produ\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>novas\u00a0<\/em>necessidades e descoberta e cria\u00e7\u00e3o de novos valores de uso.<\/p>\n<p>(\u2026) Da\u00ed a explora\u00e7\u00e3o de toda a natureza para descobrir novas propriedades \u00fateis das coisas (\u2026) A explora\u00e7\u00e3o completa da Terra, para descobrir tanto novos objetos \u00fateis quanto novas propriedades utiliz\u00e1veis dos antigos; bem como suas novas propriedades como mat\u00e9rias-primas etc.; da\u00ed o m\u00e1ximo desenvolvimento das ci\u00eancias naturais; similarmente, a descoberta, cria\u00e7\u00e3o e satisfa\u00e7\u00e3o de novas necessidades surgidas da pr\u00f3pria sociedade; o cultivo de todas as qualidades do ser humano social e sua produ\u00e7\u00e3o como um ser, o mais rico poss\u00edvel em necessidades, porque rico em qualidades e rela\u00e7\u00f5es \u2013 a sua produ\u00e7\u00e3o como um produto social universal o mais total poss\u00edvel (porque, para um desfrute diversificado, tem de ser capaz do desfrute e, portanto, deve possuir um elevado grau de cultura) \u2013 tudo isso \u00e9 igualmente uma condi\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o baseada no capital .<\/p>\n<p><cite>(Marx, 2011, p. 287)<\/cite><\/p><\/blockquote>\n<p>Como se v\u00ea, o trecho exp\u00f5e um achado central da cr\u00edtica da economia pol\u00edtica, qual seja ele, a sede inesgot\u00e1vel de mais-valor da rela\u00e7\u00e3o de capital, a qual s\u00f3 pode se materializar se houver uma expans\u00e3o da apropria\u00e7\u00e3o da natureza e da subsun\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio ser humano. Assim, mostra em especial que o desenvolvimento do capital s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel porque as necessidades humanas s\u00e3o extremamente flex\u00edveis. Elas podem ser comprimidas ao m\u00ednimo para possibilitar a explora\u00e7\u00e3o do trabalhador, mas podem tamb\u00e9m ser alargadas indefinidamente para expandir a demanda efetiva por meio do consumo crescente da burguesia como um todo. Eis como Johnston apresenta isso:<\/p>\n<blockquote><p>Na cr\u00edtica de Marx \u00e0 economia pol\u00edtica, essa elasticidade das necessidades pode e se move em duas dire\u00e7\u00f5es opostas. Por um lado, a flexibilidade dos requisitos dos seres humanos \u00e9 tal que eles podem suportar e at\u00e9 serem pressionados a tolerar priva\u00e7\u00f5es nas quais o relativo se aproxima do absoluto, ou seja, da mis\u00e9ria absoluta. (\u2026) Por outro lado, essa mesma flexibilidade permite o est\u00edmulo e o crescimento de impulsos e anseios multiplicados em que as \u201cnecessidades\u201d s\u00e3o amplamente ampliadas e\/ou intensamente aprofundadas como ocorre no capitalismo tardio consumista (\u2026).<\/p>\n<p><cite>(Johnston, 2017, p. 282)<\/cite><\/p><\/blockquote>\n<p>O trecho mostra ainda que tais n\u00edveis de consumo \u2013 provindos de necessidades criadas pelo est\u00f4mago ou pela fantasia, como diz Marx nas primeiras linhas de\u00a0<em>O capital<\/em>\u00a0\u2013 s\u00e3o engendrados pela pr\u00f3pria reprodu\u00e7\u00e3o ampliada da economia capitalista no curso de sua turbulenta hist\u00f3ria. Sobre esse ponto, Johnston enfatiza que a expans\u00e3o quantitativa do capital s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel devido \u00e0 possibilidade de expans\u00e3o qualitativa do consumo. Em suas palavras: \u201cA atividade fren\u00e9tica, autoestimuladora do capitalismo que devora a Terra \u00e9 dinamizada pelo mais-valor contido no valor de troca\u201d (2017, p. 281) que, por isso mesmo, define-se especificamente por ser quantitativo. A expans\u00e3o do sistema, em consequ\u00eancia, n\u00e3o pode advir da prolifera\u00e7\u00e3o dos valores de uso, j\u00e1 que estes s\u00e3o qualitativamente distintos entre si. Mas, em contrapartida esses \u00faltimos t\u00eam de proliferar indefinidamente, de forma subordinada, conforme ocorre a acumula\u00e7\u00e3o de capital.<\/p>\n<p>H\u00e1, entretanto, uma condi\u00e7\u00e3o impl\u00edcita em tudo isso e Johnston faz quest\u00e3o de ressalt\u00e1-la. Para que pudesse existir um sistema econ\u00f4mico autoexpansivo na \u00e9poca moderna, era preciso que o ser humano enquanto tal fosse j\u00e1 dotado desde sempre, antes que ela emergisse e se desenvolvesse do s\u00e9culo XVI em diante, de uma economia libidinal male\u00e1vel e ajust\u00e1vel historicamente.<\/p>\n<p>Para ser ainda mais exato, a estrutura pulsional pl\u00e1stica, como teorizada na antropologia metapsicol\u00f3gica, filos\u00f3fica e psicanal\u00edtica, \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para que a economia libidinal peculiar do capitalismo, conforme afirma o pr\u00f3prio materialismo hist\u00f3rico, passasse a existir. Torna-se condi\u00e7\u00e3o suficiente quando a produ\u00e7\u00e3o capitalista, estimulada pela busca da mais-valia, passa a explorar essa plasticidade [dos consumidores] para seus ganhos (Johnston, 2017, p. 283).<\/p>\n<p>Para tentar completar esse quadro, \u00e9 preciso lembrar que as concep\u00e7\u00f5es de Marx sobre o capitalismo requerem \u2013 e isto fica geralmente impl\u00edcito \u2013 uma no\u00e7\u00e3o de inconsciente. Mesmo se ele n\u00e3o empregou essa conceitua\u00e7\u00e3o, ela est\u00e1 impl\u00edcita sem d\u00favida no texto de\u00a0<em>O capital\u00a0<\/em>e nas obras preparat\u00f3rias que o antecederam. A duplicidade consciente\/inconsciente, que marcar\u00e1 de modo indel\u00e9vel a obra de Freud, est\u00e1 presente j\u00e1 na compreens\u00e3o do valor simbolicamente impl\u00edcito no valor de troca.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s explicar em sua obra magna que a forma valor est\u00e1 subjacente \u00e0 forma pre\u00e7o das mercadorias, Marx diz dos agentes econ\u00f4micos, os quais operam nos mercados com base no conhecimento dos pre\u00e7os, que \u201celes n\u00e3o o sabem, mas o fazem\u201d. Ora, isso s\u00f3 poss\u00edvel se se admite que h\u00e1 um inconsciente social criado pela sociabilidade mercantil generalizada. Mas \u00e9 preciso admitir tamb\u00e9m que os pr\u00f3prios valores, ainda que velados, encontram-se j\u00e1 tamb\u00e9m no inconsciente ps\u00edquico dos agentes econ\u00f4micos. E isso se revela justamente no fetichismo das mercadorias, pois ele consiste numa ilus\u00e3o real que \u00e9 produzida na intera\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea dos agentes com as mercadorias. E essa ilus\u00e3o, por sua vez, consiste justamente em atribuir valor ao pr\u00f3prio valor de uso, quando o valor \u00e9 forma de uma rela\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p>E essa duplicidade consciente\/inconsciente tamb\u00e9m aparece na compreens\u00e3o do homem econ\u00f4mico. Para a economia pol\u00edtica cl\u00e1ssica, o homem econ\u00f4mico \u00e9 transparente, racional e governa a si mesmo com grande dilig\u00eancia; dado o seu n\u00edvel de conhecimento sobre o mercado e sobre si mesmo, ele, enquanto produtor, maximiza o lucro e, enquanto consumidor, maximiza a pr\u00f3pria satisfa\u00e7\u00e3o. Stuart Mill, por exemplo, considerando que se tratava de uma abstra\u00e7\u00e3o metodol\u00f3gica, disse que o homem econ\u00f4mico \u201c\u00e9 um ser que \u00e9 determinado, pela necessidade de sua natureza, a preferir uma por\u00e7\u00e3o maior de riqueza ao inv\u00e9s de uma menor em todos os casos\u201d (1974, p.301).<\/p>\n<p>Donde vem essa compreens\u00e3o do ser humano enquanto atuante na economia capitalista? Vem da pr\u00f3pria pr\u00e1tica utilit\u00e1ria em que os agentes econ\u00f4micos se empenham cotidianamente, buscando produzir, vender e comprar mercadorias. Ora, essa compreens\u00e3o parece ser bem razo\u00e1vel para os prop\u00f3sitos da cientificidade que Marx denominou de vulgar. Ela produz um saber econ\u00f4mico que se origina da pr\u00f3pria consci\u00eancia emp\u00edrica e da auto-observa\u00e7\u00e3o de tais agentes enquanto te\u00f3ricos que querem apreender apenas os fen\u00f4menos econ\u00f4micos.<\/p>\n<p>Marx criticou essa abstra\u00e7\u00e3o que funda grande parte da economia pol\u00edtica pelo termo derris\u00f3rio de robinsonada. Eis que leva a pensar o ser humano como um indiv\u00edduo centrado em si mesmo, independente da sociedade e que toma decis\u00f5es soberanamente. Ora, essa constru\u00e7\u00e3o te\u00f3rica s\u00f3 tem sentido e certa validade num entendimento superficial da economia capitalista. Eis que \u00e9 ela pr\u00f3pria, enquanto sistema autopropelido, exige de fato que o indiv\u00edduo seja ego\u00edsta como primeira op\u00e7\u00e3o. Mas ele s\u00f3 pode existir porque a sua economia pulsional se adaptou pouco a pouco ao modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista. O \u201csujeito\u201d que opera nos mercados e que, assim, se afigura como agente econ\u00f4mico \u00e9 criatura forjada pela normatividade inerente \u00e0 pr\u00f3pria rela\u00e7\u00e3o de capital, o verdadeiro sujeito criador do capitalismo.<\/p>\n<p>Esses indiv\u00edduos que sentem como tais n\u00e3o o sabem, mas eles n\u00e3o s\u00e3o mais do que \u201cpersonagens econ\u00f4micos\u201d ou mesmo \u201cpersonifica\u00e7\u00f5es das rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas\u201d, tal como Marx os caracterizou em\u00a0<em>O capital\u00a0<\/em>(1983, p. 80). Se se comportam como homens econ\u00f4micos na sociedade moderna \u00e9 porque a normatividade do capital passou a habitar, sem que disso tivessem percep\u00e7\u00e3o, as suas mentes, passando a governar seus comportamentos. Essa intrus\u00e3o do social na psique individual s\u00f3 fica patente por meio do conceito freudiano de superego. Marx n\u00e3o o conhecia como tal, mas nem por isso deixou de admiti-lo implicitamente ao anotar que os indiv\u00edduos s\u00e3o suportes das rela\u00e7\u00f5es sociais inerentes ao capitalismo. Pois, como suportes \u2013 repetindo uma frase famosa de Freud \u2013, eles n\u00e3o governam na pr\u00f3pria casa.<\/p>\n<p>Mas qual \u00e9 a import\u00e2ncia de toda essa argumenta\u00e7\u00e3o? Ela derruba a obje\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica (liberal) e contempor\u00e2nea (neoliberal) ao socialismo. Pois, essa cr\u00edtica de direita afirma que o ser humano, por sua pr\u00f3pria natureza, \u00e9 egocentrado; ele busca o seu autointeresse, exceto, talvez, no \u00e2mbito familiar e de pessoas muito pr\u00f3ximas. E que, por ser assim \u2013 metaforicamente, um lobo \u2013 ele est\u00e1 em conformidade com as institui\u00e7\u00f5es do capitalismo \u2013 um sistema que tem as propriedades da auto-organiza\u00e7\u00e3o e do crescimento sustent\u00e1vel. Eis que esse sistema privilegia e estimula \u2013 dizem os liberais \u2013 um comportamento privatista intencional que vem a ser o \u00fanico meio de produzir de modo eficiente, ainda que n\u00e3o intencionalmente, a prosperidade e o bem p\u00fablico.<\/p>\n<p>Se as crises, a pobreza generalizada, o colapso ambiental etc. desmentem cabalmente o argumento da m\u00e3o invis\u00edvel, a economia pulsional de Marx e Freud desmentem a fantasia do homem econ\u00f4mico racional. \u00c0 medida que a cr\u00edtica da economia pol\u00edtica compreende o humano como um ser pl\u00e1stico que se adapta ao que ele pr\u00f3prio cria socialmente, fica derrogada a pretens\u00e3o do liberalismo de naturalizar o indiv\u00edduo social. Formado socialmente pelo pr\u00f3prio sistema econ\u00f4mico, o capitalista \u00e9, sim, necessariamente insaci\u00e1vel; por\u00e9m, o consumidor s\u00f3 \u00e9 insaci\u00e1vel quando sua consci\u00eancia pr\u00e1tica est\u00e1 governada por um superego capitalista que, ali\u00e1s, a propaganda e o marketing n\u00e3o deixam nunca de alimentar.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/p>\n<p>Johnston, Adrian. From closed need to infinite greed: Marx\u2019s drive theory.\u00a0<em>Continental Thought &amp; Theory<\/em>, vol. 1 (4), 2017, p. 270-346.<\/p>\n<p>Marx, Karl.\u00a0<em>Grundrisse<\/em>. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2011.<\/p>\n<p><em>Marx, Karl. O capital \u2013 Cr\u00edtica da Economia Pol\u00edtica<\/em>. Livro I, tomo I. S\u00e3o Paulo: Abril Cultural, 1983.<\/p>\n<p>Safatle, Vladimir P. Para uma cr\u00edtica da economia libidinal.\u00a0<em>Revista IDE<\/em>, n\u00ba 46, 2008, p. 16-26.<\/p>\n<p>Stuart Mill, John. Da defini\u00e7\u00e3o de economia pol\u00edtica e do m\u00e9todo de investiga\u00e7\u00e3o pr\u00f3prio a ela.\u00a0<em>Cole\u00e7\u00e3o Os Pensadores: Bentham e Mill<\/em>. S\u00e3o Paulo: Editora Abril, 1974.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Marxismo e psican\u00e1lise: o mito do ego\u00edsmo inato &#8211; Outras Palavras &#8211; https:\/\/outraspalavras.net\/alemdamercadoria\/marxismo-e-psicanalise-o-mito-do-egoismo-inato\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eleut\u00e9rio F. S. Prado &#8211; Este estudo parte de duas li\u00e7\u00f5es que se aprendem no \u201cintelecto geral\u201d da sociedade contempor\u00e2nea. 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