{"id":16538,"date":"2022-02-22T12:14:12","date_gmt":"2022-02-22T15:14:12","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=16538"},"modified":"2022-02-19T14:17:04","modified_gmt":"2022-02-19T17:17:04","slug":"para-construir-outra-industria-nacional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2022\/02\/22\/para-construir-outra-industria-nacional\/","title":{"rendered":"Para construir outra ind\u00fastria nacional"},"content":{"rendered":"<p><strong>Renato Dagnino<\/strong> &#8211; Introdu\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>A insist\u00eancia com que a proposta de reindustrializa\u00e7\u00e3o vem sendo aludida por lideran\u00e7as de esquerda a quem cabe formular estrat\u00e9gias econ\u00f4mico-produtivas para o pr\u00f3ximo governo parece denotar que ela poder\u00e1 ser, \u00e0 semelhan\u00e7a do que foi a industrializa\u00e7\u00e3o via substitui\u00e7\u00e3o de importa\u00e7\u00f5es na segunda metade do s\u00e9culo passado, o eixo fulcral das suas pol\u00edticas p\u00fablicas.<\/p>\n<p>Como se sabe, a proposta visa a reverter uma tend\u00eancia de desindustrializa\u00e7\u00e3o agravada nos \u00faltimos anos em fun\u00e7\u00e3o de condicionantes internos e externos bem conhecidos e retomar um processo centrado no investimento privado para promover, via a amplia\u00e7\u00e3o do emprego e do sal\u00e1rio que praticamente s\u00f3 ele pode possibilitar, a melhoria das condi\u00e7\u00f5es de vida da classe trabalhadora. A esse respeito, vale aclarar que os pronunciamentos dessas lideran\u00e7as mencionam o termo emprego seguido do termo renda, embora, como se sabe, a contrapartida do emprego seja o sal\u00e1rio e n\u00e3o a renda; termo desde h\u00e1 muito utilizado para designar o rendimento auferido pela participa\u00e7\u00e3o em cooperativas, etc. e n\u00e3o aquele em empresas. O que n\u00e3o deve surpreender uma vez que seu interlocutor \u2013 a classe trabalhadora brasileira compelida no seu imagin\u00e1rio a conquistar um emprego formal \u2013 deseja obter com a venda de sua for\u00e7a de trabalho o sal\u00e1rio e demais benef\u00edcios regulados pelas leis que em qualquer pa\u00eds capitalista a classe propriet\u00e1ria se submete.<\/p>\n<p>Embora seja evidente que reindustrializar n\u00e3o signifique simplesmente recompor o que foi perdido, inviabilizado ou destru\u00eddo, n\u00e3o tem sido aclarado como ocorreria a reindustrializa\u00e7\u00e3o de que se fala. Al\u00e9m da declara\u00e7\u00e3o de que ela contaria com uma sinaliza\u00e7\u00e3o por parte do Estado no sentido de privilegiar \u00e1reas e setores \u201cestrat\u00e9gicos\u201d, \u00e9 muito pouco o que vem sendo escrito a respeito de como se daria essa prioriza\u00e7\u00e3o. Permanece por ser precisado quais os mecanismos de indu\u00e7\u00e3o (subs\u00eddios, cr\u00e9dito, aloca\u00e7\u00e3o de poder de compra do Estado, etc.) seriam proporcionados aos distintos arranjos (empresas privadas, estatais e estrangeiras, empreendimentos solid\u00e1rios, etc.) que comp\u00f5em nosso tecido econ\u00f4mico-produtivo, como ele se articularia com as institui\u00e7\u00f5es de ensino e pesquisa, etc.<\/p>\n<p>Menos ainda se tem escrito a respeito de quais seriam as alternativas suplementares que poderiam ser implementadas, claro que n\u00e3o de modo excludente, uma vez que ningu\u00e9m de esquerda menospreza o fato de que seguiremos no capitalismo, para melhor atender aos interesses e valores da classe trabalhadora.<\/p>\n<p>O objetivo deste texto \u00e9 apresentar uma proposta que vem sendo elaborada no \u00e2mbito de movimentos de esquerda denominada\u00a0<strong>reconvers\u00e3o industriosa<\/strong>. Orientada a viabilizar a produ\u00e7\u00e3o e o consumo de bens e servi\u00e7os de natureza industrial por redes de Economia Solid\u00e1ria(ES), ela retoma de modo\u00a0<em>aggiornato<\/em>\u00a0uma disjuntiva recorrente no campo da esquerda que deve ser considerada visando a identificar as \u00e1reas, territ\u00f3rios, atividades, etc., em que ela pode ser produtivamente combinada com a proposta da reindustrializa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Embora as ideias-for\u00e7a que orientam a reconvers\u00e3o industriosa j\u00e1 estivessem presentes nas an\u00e1lises cl\u00e1ssicas de pesquisadores de esquerda sobre as experi\u00eancias de autogest\u00e3o e controle oper\u00e1rio, que remontam \u00e0s da Comuna de Paris e \u00e0s do cooperativismo de Rochdale, e na contribui\u00e7\u00e3o latino-americana sobre a Economia Social, Popular e Solid\u00e1ria, sua concep\u00e7\u00e3o como uma maneira de organizar a produ\u00e7\u00e3o e o consumo de bens e servi\u00e7os mediante arranjos econ\u00f4mico-produtivos e institucionais espec\u00edficos, \u00e9 bastante recente.<\/p>\n<p>Para dar uma ideia da dificuldade da empreitada que este texto busca realizar e, portanto da sua incipi\u00eancia, provisoriedade e precariedade vis-\u00e0-vis aquele que seu objeto de an\u00e1lise pretende suplementar \u2013 a reindustrializa\u00e7\u00e3o -, \u00e9 interessante referi-lo ao processo de industrializa\u00e7\u00e3o via substitui\u00e7\u00e3o de importa\u00e7\u00f5es acima citado que, guardadas as \u00f3bvias ressalvas, pode servir de refer\u00eancia comparativa.<\/p>\n<p>Resumindo muito, pode-se dizer que esse processo teve por diretriz de pol\u00edtica p\u00fablica a produ\u00e7\u00e3o e comercializa\u00e7\u00e3o privada ou estatal de bens e servi\u00e7os que integravam, notadamente, a cesta de consumo imitativo da classe propriet\u00e1ria e que era importada dos pa\u00edses centrais onde j\u00e1 existia uma infraestrutura f\u00edsica e institucional e atores p\u00fablicos e privados envolvidos, inclusive, com o conhecimento tecnocient\u00edfico necess\u00e1rio para tanto; e cujas corpora\u00e7\u00f5es estavam dispostas a implement\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Igualmente sintetizando, pode-se dizer que a reconvers\u00e3o industriosa visa a organizar a produ\u00e7\u00e3o e comercializa\u00e7\u00e3o de bens e servi\u00e7os que satisfazem necessidades coletivas \u2013 em especial aquelas da classe trabalhadora \u2013 muitos dos quais s\u00e3o ou j\u00e1 foram produzidos internamente mediante o concurso de uma infraestrutura e de atores p\u00fablicos e privados envolvidos, inclusive, com o conhecimento tecnocient\u00edfico necess\u00e1rio para tanto, de alguma forma viabilizados por um Estado capitalista perif\u00e9rico solid\u00e1rio aos valores e interesses da classe propriet\u00e1ria, e que, na sua maioria precisam ser readequados de modo a fomentar a atividade de empreendimentos solid\u00e1rios baseados na propriedade coletiva dos meios de produ\u00e7\u00e3o e na autogest\u00e3o.<\/p>\n<p>Sendo mais espec\u00edfico e pontual, vale exemplificar: a proposta da reindustrializa\u00e7\u00e3o poder\u00e1 contar com uma infraestrutura, um acervo de t\u00e9cnicas de produ\u00e7\u00e3o, pr\u00e1ticas organizacionais e experi\u00eancias de pol\u00edticas p\u00fablicas (situado no \u00e2mbito internacional e nacional), e um complexo e sist\u00eamico arranjo institucional que vai desde organiza\u00e7\u00f5es como o BNDES, os bancos p\u00fablicos, os bancos estaduais de desenvolvimento, at\u00e9 a institui\u00e7\u00f5es como as universidades p\u00fablicas e as orientadas por miss\u00e3o, etc.<\/p>\n<p>Tudo isso serve para corroborar o acima mencionado sobre a estado incipiente da proposta da reconvers\u00e3o industriosa. E \u00e9 porque h\u00e1 muito o que avan\u00e7ar no plano anal\u00edtico conceitual e reflexivo e no plano metodol\u00f3gico-operacional e pr\u00e1tico para aperfei\u00e7o\u00e1-la que esperamos contar com a participa\u00e7\u00e3o de todos que se sentirem motivados a participar desta empreitada.<\/p>\n<p>Encerrando esta introdu\u00e7\u00e3o, cabe explicar o formato um tanto tortuoso, mas que nos pareceu apropriado, por abusar de compara\u00e7\u00f5es e contrastes que v\u00e3o aos poucos delineando o esbo\u00e7o que logramos conceber para apresentar a reconvers\u00e3o industriosa. Iniciamos pela considera\u00e7\u00e3o de duas experi\u00eancias que integram o legado da esquerda acerca de formas alternativas ou n\u00e3o capitalistas de organiza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o e consumo de bens e servi\u00e7os. A primeira, mais conhecida \u2013 do socialismo sovi\u00e9tico -, em que foram implementadas op\u00e7\u00f5es que se mostraram n\u00e3o inteiramente coerentes com os valores e interesses que defendemos. E a segunda \u2013 da revolu\u00e7\u00e3o industriosa \u2013 cujas caracter\u00edsticas s\u00e3o t\u00e3o importantes a ponto de que qualificativo pelo qual \u00e9 conhecida integrar o nome que demos \u00e0 proposta.<\/p>\n<p>Em seguida, mudando de assunto, mas para mostrar como os problemas da atual conjuntura podem ser adequadamente enfrentados mediante a proposta da reconvers\u00e3o industriosa, s\u00e3o apresentados elementos que, aos serem retomados, evidenciam sua ader\u00eancia program\u00e1tica a um futuro governo de esquerda.<\/p>\n<p>Avan\u00e7ando no sentido de operar por contraste, como \u00e9 usual quando se exp\u00f5em propostas contra-hegem\u00f4nicas, a se\u00e7\u00e3o seguinte \u2013 \u201cA reconvers\u00e3o industriosa e seu arranjo econ\u00f4mico-produtivo\u201d \u2013 apresenta as caracter\u00edsticas distintivas dos empreendimentos solid\u00e1rios. Al\u00e9m de discorrer sobre seus atributos, esta se\u00e7\u00e3o busca abrir passo para o enfrentamento de um desafio a ser levado a cabo futuramente que v\u00e1 elucidando os arranjos institucionais e os fundamentos de pol\u00edtica p\u00fablica que, semelhantemente aos que existem para implementar a reindustrializa\u00e7\u00e3o, possam viabilizar a reconvers\u00e3o industriosa.<\/p>\n<p>A \u00faltima se\u00e7\u00e3o \u2013 \u201cA pol\u00edtica cognitiva da reconvers\u00e3o industriosa e a Tecnoci\u00eancia Solid\u00e1ria\u201d \u2013 apresenta o resultado de um primeiro exerc\u00edcio nesse sentido referido a um campo em que \u00e9 ainda pequeno o ac\u00famulo de elabora\u00e7\u00e3o da esquerda mas que j\u00e1 vem sendo tratado em artigos de opini\u00e3o na m\u00eddia de esquerda.<\/p>\n<p><strong>Duas experi\u00eancias a considerar<\/strong><\/p>\n<p>Ainda que correndo risco de fazer analogias aqui pouco fundamentadas, mas provocando quem deseje a consultar a literatura a respeito, \u00e9 poss\u00edvel conhecer as formas como os socialistas enfrentaram situa\u00e7\u00f5es como a que o pr\u00f3ximo governo ter\u00e1 que lidar no \u00e2mbito econ\u00f4mico-produtivo.<\/p>\n<p>A primeira, mais conhecida e por isto aqui apenas mencionada, \u00e9 aquela que ocorreu h\u00e1 100 anos quando do in\u00edcio da experi\u00eancia de constru\u00e7\u00e3o do socialismo na URSS. Tamb\u00e9m ali se apresentou a disjuntiva sobre como impulsar um processo de reindustrializa\u00e7\u00e3o. Enfrentaram-se ali propostas de coordena\u00e7\u00e3o econ\u00f4mico-produtiva defendidas por distintas posi\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas, envolvendo diferentes formas de propriedade dos meios de produ\u00e7\u00e3o, escala e distribui\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o no territ\u00f3rio, organiza\u00e7\u00e3o do processo de trabalho, forma\u00e7\u00e3o dos trabalhadores, participa\u00e7\u00e3o nas decis\u00f5es, etc. Como se sabe, e isto \u00e9 particularmente significativo para avaliar a atual conjuntura, \u00e9 hoje majorit\u00e1ria entre os estudiosos marxistas a interpreta\u00e7\u00e3o de que as op\u00e7\u00f5es de reindustrializa\u00e7\u00e3o efetivamente implementadas foram causas expressivas da degeneresc\u00eancia burocr\u00e1ticas que levou ao colapso do \u201csocialismo real\u201d.<\/p>\n<p>A segunda experi\u00eancia, cujo in\u00edcio remonta ao Jap\u00e3o no s\u00e9culo XVII, \u00e9 a da Revolu\u00e7\u00e3o Industriosa da qual se toma a designa\u00e7\u00e3o para fazer refer\u00eancia \u00e0 proposta aqui apresentada. Ali, o fim da servid\u00e3o do campesinato, o fortalecimento da agricultura familiar, o aumento populacional e a escassez de terras agricult\u00e1veis levaram os governantes a adotar um estilo de desenvolvimento que mobilizava recursos humanos em vez dos n\u00e3o humanos, como viria a ocorrer no ocidente quando da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial. Como se sabe, esta separou o trabalhador dos meios de produ\u00e7\u00e3o, substituindo o trabalho vivo pelo trabalho morto, induzindo a um estilo intensivo em capital e energia. A Revolu\u00e7\u00e3o Industriosa, ao contr\u00e1rio, engendrara a eleva\u00e7\u00e3o da qualifica\u00e7\u00e3o do campesinato, o aumento dos n\u00edveis de sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o formal e o fortalecimento de uma estrutura institucional \u2013 s\u00f3lida mas baseada no mercado \u2013 centrada no c\u00edrculo familiar e na comunidade e que facultava elevada autonomia gerencial dos empreendimentos comunais agr\u00edcolas e industriais.<\/p>\n<p>As diferen\u00e7as entre esses dois estilos levaram a que a Revolu\u00e7\u00e3o Industriosa, caracterizada pela decis\u00e3o de privilegiar o mercado interno, a eleva\u00e7\u00e3o da produtividade agr\u00edcola para abastecer a popula\u00e7\u00e3o e proporcionar o surgimento de atividades manufatureiras intensivas em m\u00e3o de obra, e apenas como efeito secund\u00e1rio orientar o excedente de produ\u00e7\u00e3o para a exporta\u00e7\u00e3o, ficasse conhecida como o caminho \u201cnatural\u201d. Contrastando com ele, o caminho \u201cantinatural\u201d, baseado na eleva\u00e7\u00e3o da produtividade do trabalho (incluindo as inova\u00e7\u00f5es no \u00e2mbito organizacional) regulada pelo mercado e t\u00edpico dos pa\u00edses historicamente dependentes do com\u00e9rcio exterior, seria o caracter\u00edstico da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial. Enquanto o primeiro teria levado ao \u201cmilagre da distribui\u00e7\u00e3o\u201d que beneficiou a maioria da popula\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses situados no oriente, o segundo teria produzido o \u201cmilagre da produ\u00e7\u00e3o\u201d que concentrou seus frutos num pequeno grupo de pa\u00edses do ocidente.<\/p>\n<p>A Revolu\u00e7\u00e3o Industriosa \u00e9 uma refer\u00eancia obrigat\u00f3ria para entender a transi\u00e7\u00e3o para o socialismo na China que vai ocorrer j\u00e1 na segunda metade do s\u00e9culo passado, quando a disjuntiva que estamos tratando se apresentou em diversos momentos e foi encaminhada de modo at\u00e9 conflitante ao longo de sua trajet\u00f3ria.<\/p>\n<p>Mas ela \u00e9 tamb\u00e9m essencial para uma an\u00e1lise comparada sobre como se deu o desenvolvimento econ\u00f4mico capitalista. Dela vale a pena resgatar a ideia de que n\u00e3o apenas no Jap\u00e3o, mas tamb\u00e9m na Europa Ocidental, haveria ocorrido alguns epis\u00f3dios \u201cindustriosos\u201d que teriam desembocado na Revolu\u00e7\u00e3o Industrial. O fato de que neles, formas de produ\u00e7\u00e3o descentralizadas e intensivas em m\u00e3o de obra (como o\u00a0<em>putting-out system<\/em>), em que o aumento da produtividade teria ocorrido devido a uma inova\u00e7\u00e3o meramente organizacional e n\u00e3o \u201ctecnol\u00f3gica\u201d propriamente dita, \u00e9 importante para refletir sobre o tema que estamos tratando. Ele estaria indicando que em contextos nacionais de oferta abundante de m\u00e3o de obra, a op\u00e7\u00e3o pela introdu\u00e7\u00e3o da inova\u00e7\u00e3o \u201ctecnol\u00f3gica\u201d t\u00edpica do capitalismo moderno talvez n\u00e3o seja uma boa op\u00e7\u00e3o para promover o desenvolvimento quando cotejada com alternativas de organiza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o e do consumo alinhadas com a reconvers\u00e3o industriosa. \u00c9 claro que para que elas sejam implement\u00e1veis \u00e9 necess\u00e1rio uma regula\u00e7\u00e3o estatal do processo de inova\u00e7\u00e3o hoje discricionariamente controlado pelo capital que tem como um de seus objetivos centrais a reprodu\u00e7\u00e3o de um \u201cex\u00e9rcito industrial de reserva\u201d que mantenha deprimido o pre\u00e7o da for\u00e7a de trabalho do qual depende sua acumula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A s\u00edntese dessa interessante experi\u00eancia nos mostra como atrav\u00e9s dela, uma combina\u00e7\u00e3o adequada de pol\u00edtica cognitiva com pol\u00edtica produtiva, que envolveu fam\u00edlias rurais e urbanas, corpora\u00e7\u00f5es de artes\u00e3os, comerciantes, governo etc., permitiu seu ingresso na disruptiva Revolu\u00e7\u00e3o Industrial com um trauma social bem menor do que aquele que ocorreu na Europa. Apenas a t\u00edtulo aned\u00f3tico vale lembrar, por um lado, que entre os imigrantes que por aqui aportaram (expulsos pela fome na Europa) no final do s\u00e9culo XIX n\u00e3o havia japoneses. E, por outro, a pujan\u00e7a econ\u00f4mica e coes\u00e3o social com que eles chegaram ao s\u00e9culo XX.<\/p>\n<p>Aclarado que o \u201cindustriosa\u201d da proposta de reconvers\u00e3o industriosa remete \u00e0 ideia de evitar os equ\u00edvocos da experi\u00eancia sovi\u00e9tica, de buscar inspira\u00e7\u00e3o no \u201ccaminho natural\u201d da experi\u00eancia asi\u00e1tica e de adotar uma trajet\u00f3ria at\u00e9 certo ponto inversa \u00e0 da industrializa\u00e7\u00e3o via substitui\u00e7\u00e3o de importa\u00e7\u00f5es conforme comentado na introdu\u00e7\u00e3o, cabe explicar porque falamos em \u201creconvers\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>A express\u00e3o \u201creconvers\u00e3o do complexo industrial militar\u201d, no sentido de promover a orienta\u00e7\u00e3o das suas empresas para produ\u00e7\u00e3o de bens e servi\u00e7os de uso civil, foi extensivamente usada logo ap\u00f3s o t\u00e9rmino da Guerra Fria pela comunidade dos pesquisadores dos Estudos sobre a Paz. Seu sentido se opunha ao termo de \u201cmobiliza\u00e7\u00e3o industrial\u201d usado no meio militar para designar as atividades orientadas \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de equipamento militar numa situa\u00e7\u00e3o de conflito convertendo plantas industriais que at\u00e9 ent\u00e3o produziam para atender a demanda civil. O prefixo \u201cre\u201d era usado para destacar que o que se pretendia era um processo inverso ao que tinha gerado, ao longo da hist\u00f3ria mas principalmente durante a Guerra Fria, a introdu\u00e7\u00e3o, no \u00e2mbito da produ\u00e7\u00e3o de bens e servi\u00e7os, de m\u00e9todos militarizados de projetamento, de pesquisa e desenvolvimento e de manufatura que se evidenciaram prejudiciais para o desenvolvimento dos pa\u00edses produtores de armamentos (<em>military burden<\/em>).<\/p>\n<p>No caso em pauta n\u00e3o se trata de orientar linhas de produ\u00e7\u00e3o ou plantas industriais existentes para atender \u00e0 demanda por bens e servi\u00e7os distintos daqueles que s\u00e3o hoje produzidos. Trata-se, neste caso, de complementar o tecido econ\u00f4mico-produtivo viabilizando a implanta\u00e7\u00e3o de arranjos capazes de produzir bens e servi\u00e7os necess\u00e1rios para atender ao consumo das fam\u00edlias, ao consumo produtivo das redes de ES e a compra p\u00fablica.<\/p>\n<p><strong>Uma an\u00e1lise de conjuntura<\/strong><\/p>\n<p>Voltando ao momento presente, para introduzir a proposta da reconvers\u00e3o industriosa, vamos iniciar por uma an\u00e1lise de conjuntura.<\/p>\n<p>Nela destacam-se, no plano mundial, vetores disruptivos de natureza ambiental, energ\u00e9tica, cultural, de intensa concentra\u00e7\u00e3o de renda e riqueza, adoecimento f\u00edsico e ps\u00edquico sist\u00eamico, derivados do acirramento das contradi\u00e7\u00f5es do capitalismo contempor\u00e2neo que geram uma crescentemente massiva press\u00e3o para a modifica\u00e7\u00e3o no perfil de consumo de bens e servi\u00e7os. Em cadeia, h\u00e1 uma press\u00e3o pela mudan\u00e7a do perfil de sua produ\u00e7\u00e3o, dado que, contrariando a ing\u00eanua expectativa de muitos, n\u00e3o est\u00e1 ao alcance da empresa, atuando segundo a l\u00f3gica capitalista privada que lhe \u00e9 inerente, mudar a forma como produz. Se o fizer, internalizando externalidades ambiental, econ\u00f4mica e socialmente predat\u00f3rias, ser\u00e1 exclu\u00edda do mercado.<\/p>\n<p>Ganha for\u00e7a, tamb\u00e9m em cadeia, a consci\u00eancia de que arranjos econ\u00f4mico-produtivos alternativos, como aqueles que prop\u00f5em, entre outros movimentos, a Economia do Comum, a Economia de Francisco e, no Brasil, a ES (Ecosol), s\u00e3o indispens\u00e1veis para enfrentar os desafios globais.<\/p>\n<p>Dela deriva outra press\u00e3o portadora de futuro associada \u00e0 percep\u00e7\u00e3o de que esses arranjos precisam de uma plataforma cognitiva de lan\u00e7amento distinta da tecnoci\u00eancia usada ou gerada pela empresa, a Tecnoci\u00eancia Capitalista. A qual, como se sabe, abarca tanto as ci\u00eancias (as exatas, tamb\u00e9m conhecidas com \u201cduras\u201d ou \u201cdesumanas\u201d e as humanas, tamb\u00e9m conhecidas como \u201cmoles\u201d ou \u201cinexatas\u201d), as tecnologias (de ponta ou rombudas, altas ou baixas) e uma infinidade de outros conhecimentos (que v\u00e3o desde os populares ou emp\u00edricos, at\u00e9 os dos povos origin\u00e1rios e dos escravizados e os religiosos).<\/p>\n<p>Essa compreens\u00e3o vem originando, nos pa\u00edses do Norte, algumas \u201csolu\u00e7\u00f5es de compromisso\u201d, como as de Inova\u00e7\u00e3o Social, Frugal, \u201cgrassroot\u201d e Respons\u00e1vel. Do Sul, na Am\u00e9rica Latina, surgiu a da Tecnologia Social. No \u00e2mbito da esquerda brasileira, ganha for\u00e7a um conceito mais radical que denota um questionamento das ra\u00edzes da neutralidade e do determinismo do conhecimento tecnocient\u00edfico, o de Tecnoci\u00eancia Solid\u00e1ria.<\/p>\n<p>No plano, nacional, preocupa o alto grau de subutiliza\u00e7\u00e3o da nossa for\u00e7a de trabalho \u2013 a nossa popula\u00e7\u00e3o em idade ativa (PIA) \u2013 de quase 180 milh\u00f5es de pessoas. Especialmente, o fato de que, somente 30 delas possuem um emprego formal. E, adicionalmente, o de que mais de 80 milh\u00f5es que integram nossa classe trabalhadora nunca tiveram um emprego e, a julgar pelas tend\u00eancias, nunca o ter\u00e3o. O que significa que provavelmente ser\u00e3o mantidos na \u201ceconomia infernal\u201d. Essas pessoas tender\u00e3o a permanecer n\u00e3o formalmente exploradas pela empresa uma vez que a ela n\u00e3o interessam como fonte de mais-valia relativa (e, nem mesmo, absoluta, que \u00e9 a que efetivamente proporciona aqui o seu lucro) dada a \u201cinempregabilidade\u201d que seu alto grau de analfabetismo funcional condiciona.<\/p>\n<p>Numa dimens\u00e3o mais espec\u00edfica, preocupa o fato de que somente cerca de 1\/5 dos 30 milh\u00f5es que trabalham com carteira assinada est\u00e3o na ind\u00fastria manufatureira. O que indica que ainda que o processo de reindustrializa\u00e7\u00e3o (que partir\u00e1 de um patamar de emprego formal muito baixo e ser\u00e1 acompanhado de intensa renova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica poupadora de m\u00e3o de obra) venha a ser bem-sucedido, \u00e9 pouco prov\u00e1vel que ele venha a gerar ocupa\u00e7\u00e3o num ritmo que amenize a atual situa\u00e7\u00e3o de mis\u00e9ria da maioria da popula\u00e7\u00e3o, e mais, que satisfa\u00e7a a expectativa d@s trabalhador@s que apoiar\u00e3o a coaliz\u00e3o de esquerda nas pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es e que ter\u00e3o que lhe garantir governabilidade.<\/p>\n<p>Outro aspecto a considerar \u00e9 o momentum que adquiriu o fechamento de empresas que se agravou com a pandemia: de acordo com o PNAD, cerca de 600 mil empresas fecharam as portas entre 2019 e 2021. Parece pouco prov\u00e1vel que esse momentum possa tamb\u00e9m ser revertido a tempo de fazer com que o efeito l\u00edquido de aumento do emprego anunciado pela reindustrializa\u00e7\u00e3o seja alcan\u00e7ado.<\/p>\n<p>Derivado desse \u00faltimo aspecto, cabe assinalar outro que deve igualmente ser levado em conta para a avaliar o custo de oportunidade da reconvers\u00e3o industriosa. N\u00e3o h\u00e1 informa\u00e7\u00e3o acerca de processos de ocupa\u00e7\u00e3o ou recupera\u00e7\u00e3o daquelas 600 mil empresas pelos seus trabalhadores; \u00e9 bem prov\u00e1vel que dado o contexto pol\u00edtico existente eles n\u00e3o tenham ocorrido.<\/p>\n<p>A informa\u00e7\u00e3o mais recente, de 2013, indica que existiam no Brasil, um pouco mais de 60 empresas recuperadas, enquanto que na Argentina este n\u00famero era superior a 200. O fen\u00f4meno das empresas recuperadas, por v\u00e1rias raz\u00f5es, foi aqui menos not\u00e1vel do que em pa\u00edses vizinhos como a Argentina e no Uruguai onde ocorreram no passado intensos processos falimentares em situa\u00e7\u00f5es de que combinavam a fal\u00eancia das empresas com pen\u00faria econ\u00f4mica e intensa mobiliza\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora. Os que, \u00e9 importante destacar, suscitaram leis que l\u00e1 introduziram a possibilidade de recupera\u00e7\u00e3o de empresas pelos seus trabalhadores, tal como vem sendo tamb\u00e9m cogitado em pa\u00edses como a It\u00e1lia e a Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>Prospectando o futuro, merecem an\u00e1lise situa\u00e7\u00f5es como a que se seguiu \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o dos Cravos, em Portugal, em meados dos anos setenta, ou a que antecedeu o golpe de setembro de 1973, no Chile, quando empresas que seus donos pretendiam fechar, em muitos casos para provocar o desabastecimento, foram tomadas e mantidas em funcionamento pelos seus trabalhadores. Um cen\u00e1rio hipot\u00e9tico em que se mant\u00e9m a condi\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica que tem provocado o fechamento de empresas, ocorre uma press\u00e3o dos trabalhadores e do movimento popular no sentido indicado, e existe um governo disposto a atend\u00ea-la, n\u00e3o pode ser descartado. Pelo contr\u00e1rio, \u00e9 necess\u00e1rio que o pr\u00f3ximo governo se prepare para encaminhar solu\u00e7\u00f5es para um cen\u00e1rio como esse mediante uma institucionalidade como a que prop\u00f5e a reconvers\u00e3o industriosa.<\/p>\n<p><strong>A reconvers\u00e3o industriosa e seu arranjo econ\u00f4mico-produtivo<\/strong><\/p>\n<p>Tomados em conjunto, os problemas existentes nos planos global e nacional apontam a necessidade de que a esquerda concentre sua preocupa\u00e7\u00e3o na forma como se d\u00e1 a gera\u00e7\u00e3o do excedente econ\u00f4mico (\u00f3rbita da produ\u00e7\u00e3o), e n\u00e3o apenas, como tem sido at\u00e9 agora a t\u00f4nica da sua a\u00e7\u00e3o, na maneira menos concentrada como ele pode ser distribu\u00eddo (\u00f3rbita da circula\u00e7\u00e3o).<\/p>\n<p>Tudo indica que combater a exclus\u00e3o como ocorreu no passado, envolvendo o subs\u00eddio \u00e0s empresas em estrat\u00e9gias de emprego e sal\u00e1rio (e de distribui\u00e7\u00e3o de renda para os pobres mediante pol\u00edticas compensat\u00f3rias) que promovendo a inclus\u00e3o produtiva, possam alterar\u00a0<em>ex-post<\/em>\u00a0a forma extremamente desigual como o excedente \u00e9 distribu\u00eddo, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 suficiente.<\/p>\n<p>\u00c9 urgente sua suplementa\u00e7\u00e3o com propostas como a da reconvers\u00e3o industriosa. Ela sup\u00f5e estrat\u00e9gias de trabalho e renda (e n\u00e3o apenas de emprego e sal\u00e1rio) e de gera\u00e7\u00e3o de renda pelos pobres que, promovendo sua organiza\u00e7\u00e3o e apoio em empreendimentos solid\u00e1rios baseados na propriedade coletiva e na autogest\u00e3o, far\u00e3o com que o excedente gerado possa ser\u00a0<em>ex-ante\u00a0<\/em>distribu\u00eddo.<\/p>\n<p>Para explicar as caracter\u00edsticas da reconvers\u00e3o industriosa adotou-se como foco a caracteriza\u00e7\u00e3o do arranjo econ\u00f4mico produtivo no qual ela se fundamenta de modo a, indicando o seu modo de funcionamento, provocar uma reflex\u00e3o acerca da forma como ela dever\u00e1 ser apoiada mediante arranjos institucionais e pol\u00edticas p\u00fablicas adequadas.<\/p>\n<p>S\u00e3o a seguir apontadas algumas das vantagens comparativas de natureza econ\u00f4mica, cultural e social dos empreendimentos solid\u00e1rios. Ao faz\u00ea-lo, busca-se mostrar como a reconvers\u00e3o industriosa, baseada na produ\u00e7\u00e3o de bens e servi\u00e7os de natureza industrial em redes de ES, pode resultar num maior retorno social, na dire\u00e7\u00e3o do Bem Viver, vis-\u00e0-vis a proposta da reindustrializa\u00e7\u00e3o. E, tamb\u00e9m, visualizar as oportunidades que ela, que apenas por um renitente eufemismo presente no imagin\u00e1rio de economistas, administradores e engenheiros t\u00eam sua produ\u00e7\u00e3o limitada \u00e0 empresa, pode abrir \u201cpara al\u00e9m do capital\u201d.<\/p>\n<p>No que respeita \u00e0 promo\u00e7\u00e3o de justi\u00e7a social e equidade econ\u00f4mica, cabe mencionar, no \u00e2mbito micro dos arranjos produtivos que comp\u00f5em as redes de ES, a alavancagem advinda da propriedade coletiva dos meios de produ\u00e7\u00e3o. Entre outros aspectos, cabe citar a distribui\u00e7\u00e3o do excedente econ\u00f4mico neles gerado entre os que dele participam. Ao evitar que a parte correspondente ao lucro do empres\u00e1rio, que frequentemente sequer retorna \u00e0 produ\u00e7\u00e3o como investimento e \u00e9 orientado ao circuito financeiro, ao entesouramento, ou ao consumo sup\u00e9rfluo, tende a ter um efeito econ\u00f4mico multiplicador superior.<\/p>\n<p>No \u00e2mbito cultural, ou da cultura entendida no seu sentido mais amplo de promotor do Bem Viver e do privilegiamento da produ\u00e7\u00e3o e reprodu\u00e7\u00e3o da vida frente ao que se tem denominado din\u00e2mica econ\u00f4mica, a proposta da ES, em fun\u00e7\u00e3o de dois dos princ\u00edpios \u2013 a autogest\u00e3o e a solidariedade \u2013 possui grande potencial para promover a conscientiza\u00e7\u00e3o, mobiliza\u00e7\u00e3o, participa\u00e7\u00e3o e empoderamento dos movimentos populares relativamente bem implantados e dos coletivos contra-hegem\u00f4nicos emergentes agrupados em torno de \u201cpautas identit\u00e1rias\u201d. O fato destes terem em comum um elemento aglutinador ainda n\u00e3o suficientemente ponderado \u2013 o de que a maioria de seus integrantes n\u00e3o tem e provavelmente nunca ter\u00e1 um emprego e de que a atividade que realizam \u00e9 sistematicamente desvalorizada (como \u00e9 o caso do que ocorre com o trabalho das mulheres) \u2013 torna especialmente importante e oportuno promover seu engajamento na ES.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m aqui \u00e9 importante assinalar a influ\u00eancia rec\u00edproca que possui o movimento feminista com a ES. Para qualquer um que observe a segunda fica evidente (e f\u00e1cil de explicar) a forte presen\u00e7a do primeiro, que se expressa pela francamente majorit\u00e1ria participa\u00e7\u00e3o das mulheres e pela incorpora\u00e7\u00e3o, al\u00e9m das pautas que lhe dizem respeito, pela sua orienta\u00e7\u00e3o, mais do que ideol\u00f3gica, civilizat\u00f3ria e humanista. Reciprocamente, \u00e9 leg\u00edtimo esperar que, em fun\u00e7\u00e3o das caracter\u00edsticas da ES, sua expans\u00e3o ir\u00e1 outorgar ao movimento feminista e \u00e0s trabalhadoras um ambiente adequado para materializar suas justas reivindica\u00e7\u00f5es no que respeita \u00e0 remunera\u00e7\u00e3o, elimina\u00e7\u00e3o de preconceitos, etc.<\/p>\n<p>No \u00e2mbito macro da arrecada\u00e7\u00e3o do recurso p\u00fablico \u00e9 poss\u00edvel inferir que, em fun\u00e7\u00e3o da transpar\u00eancia e da participa\u00e7\u00e3o dos envolvidos com os empreendimentos solid\u00e1rios, desvios de conduta empresarial quase que estruturais na nossa forma\u00e7\u00e3o econ\u00f4mico-social, como a sonega\u00e7\u00e3o, que \u00e9 estimada em mais de 10% do PIB, e a corrup\u00e7\u00e3o que n\u00e3o deve ser menor do que 5%, possam ser, pelo menos, amenizados. Ainda neste \u00e2mbito, o subs\u00eddio estatal concedido \u00e0s empresas para que desempenhem a fun\u00e7\u00e3o social que delas espera o establishment capitalista, sem o qual nenhuma delas sobreviveria, caso orientado a empreendimentos solid\u00e1rios impediria o seu vazamento na dire\u00e7\u00e3o de prop\u00f3sitos n\u00e3o coerentes com esta fun\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No que respeita \u00e0 aloca\u00e7\u00e3o de poder de compra do Estado, estimado em at\u00e9 18% do PIB, e que salvo exce\u00e7\u00f5es como o PAA e o PNAE s\u00e3o capturados pelas empresas, uma simples regra de tr\u00eas \u00e9 \u00fatil para avaliar o enorme impacto potencial da reconvers\u00e3o industriosa. Dado que com 0,5 % do PIB foi poss\u00edvel tirar 30 milh\u00f5es de pessoas da mis\u00e9ria, se consegu\u00edssemos reorientar a compra p\u00fablica alocando 5% do PIB para a ES, tirar\u00edamos 300 milh\u00f5es da mis\u00e9ria; mas n\u00f3s somos apenas 210 milh\u00f5es!<\/p>\n<p>No \u00e2mbito energ\u00e9tico, a distinta configura\u00e7\u00e3o produtiva, escala e distribui\u00e7\u00e3o territorial que por constru\u00e7\u00e3o possuem as redes de consumo e produ\u00e7\u00e3o da ES, teria tamb\u00e9m um impacto consider\u00e1vel. Elas tendem a ser energeticamente menos intensivas e, tamb\u00e9m, mais suscet\u00edveis \u00e0 substitui\u00e7\u00e3o de combust\u00edveis f\u00f3sseis por fontes n\u00e3o convencionais de energia.<\/p>\n<p>No \u00e2mbito ecol\u00f3gico, caracter\u00edsticas associadas \u00e0 propriedade coletiva e \u00e0 autogest\u00e3o e \u00e0 natureza das escolhas relacionadas aos bens e servi\u00e7os a serem produzidos, que resultam dos princ\u00edpios, valores e interesses da ES, tendem a propiciar diminui\u00e7\u00e3o do desperd\u00edcio, economia de recursos, ado\u00e7\u00e3o da economia circular, reciclagem e descarte racional de res\u00edduos, etc. Deve ser considerado o fato de que as atividades que podem ser realizadas adotando as formas de produ\u00e7\u00e3o t\u00edpicas da ES n\u00e3o foram ainda, dada sua incipi\u00eancia, implantadas. Elas poder\u00e3o s\u00ea-lo levando em conta outros interesses e valores que n\u00e3o os privados. O maior poder de regula\u00e7\u00e3o estatal permitir\u00e1, entre outras coisas, a preven\u00e7\u00e3o de riscos e danos. O que configura mais uma vantagem em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 empresa e \u00e0 expans\u00e3o de pr\u00e1ticas ambiental, energ\u00e9tica e culturalmente inadequadas e indesej\u00e1veis.<\/p>\n<h3>A pol\u00edtica cognitiva da reconvers\u00e3o industriosa e a Tecnoci\u00eancia Solid\u00e1ria<\/h3>\n<p>At\u00e9 aqui, combinando nossa percep\u00e7\u00e3o acerca de aspectos da conjuntura presentes no \u00e2mbito global e nacional e seguindo o fio dos conceitos de ES e reconvers\u00e3o industriosa, destacamos as vantagens potenciais dos empreendimentos solid\u00e1rios em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s empresas, decorrentes das caracter\u00edsticas que por constru\u00e7\u00e3o (e, portanto em larga medida, idealizadas) possuem; mas que podem ser observadas em muitas experi\u00eancias concretas. Considerando implica\u00e7\u00f5es de natureza econ\u00f4mica, ambiental, energ\u00e9tica, cultural, social, de retorno da aloca\u00e7\u00e3o de recurso p\u00fablico, participa\u00e7\u00e3o e empoderamento de movimentos populares, das mulheres e de popula\u00e7\u00f5es que apresentam alto grau de vulnerabilidade vamos agora mostra como essas vantagens poder\u00e3o ser consideravelmente ampliadas em fun\u00e7\u00e3o da tend\u00eancia que emerge daquela terceira mudan\u00e7a global, do padr\u00e3o de gera\u00e7\u00e3o de conhecimento tecnocient\u00edfico, que deve adotar como \u201csul\u201d o conceito de Tecnoci\u00eancia Solid\u00e1ria.<\/p>\n<p>Para materializar esse potencial de cria\u00e7\u00e3o de renda e riqueza distribu\u00edda que nosso vasto contingente subutilizado de trabalhador@s pode gerar \u00e9 preciso gasto p\u00fablico, tanto para a imediata organiza\u00e7\u00e3o de redes de produ\u00e7\u00e3o e consumo de empreendimentos solid\u00e1rios, quanto para o fomento, mediante uma pol\u00edtica cognitiva adequada, de sua sustentabilidade baseada em conhecimento tecnocient\u00edfico.<\/p>\n<p>A implanta\u00e7\u00e3o da reconvers\u00e3o industriosa tender\u00e1, pelo \u201clado da demanda\u201d cognitiva, a aumentar a press\u00e3o global pela mudan\u00e7a do padr\u00e3o de gera\u00e7\u00e3o de conhecimento tecnocient\u00edfico. Pelo \u201clado da oferta\u201d, processos de reprojetamento e adequa\u00e7\u00e3o sociot\u00e9cnica da tecnoci\u00eancia capitalista (que sob nenhuma hip\u00f3tese deve ser considerada como algo a se \u201cjogar fora\u201d!) em que os integrantes dos empreendimentos solid\u00e1rios dever\u00e3o se tornar atores crescentemente importantes, ocorrer\u00e1 a sua expans\u00e3o. E, em consequ\u00eancia, o aumento de sua capacidade de competir com as empresas, de alargar e adensar o espa\u00e7o que suas redes de produ\u00e7\u00e3o e consumo, de cr\u00e9dito solid\u00e1rio e moeda social ocupam no tecido econ\u00f4mico dominado pelo capital.<\/p>\n<p>Essa rela\u00e7\u00e3o de causalidade rec\u00edproca e retroalimentada, \u00e0 medida que receba um impulso inicial mediante pol\u00edticas p\u00fablicas orientadas a criar uma din\u00e2mica autossustentada, dever\u00e1 propiciar a emerg\u00eancia de um padr\u00e3o tecnocient\u00edfico especificamente projetado para materializar o potencial dos empreendimentos solid\u00e1rios<\/p>\n<p>A maneira como a proposta da reconvers\u00e3o industriosa dever\u00e1 abordar a constitui\u00e7\u00e3o desse novo padr\u00e3o tecnocient\u00edfico, contraposto \u00e0 din\u00e2mica tecnocient\u00edfica global ditada pelas transnacionais (respons\u00e1veis por mais da metade do total mundial aplicado \u00e0 pesquisa, e respons\u00e1vel pela coloca\u00e7\u00e3o a seu servi\u00e7o do 30% do recurso restante que \u00e9 aplicado no \u00e2mbito p\u00fablico), tem a ver com uma h\u00e1 muito necess\u00e1ria reorienta\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica cognitiva (que enfeixa a pol\u00edtica de CTI e de Educa\u00e7\u00e3o) ao projeto pol\u00edtico da esquerda. Reorienta\u00e7\u00e3o cuja discuss\u00e3o pela esquerda se torna ainda mais urgente frente a sua adequa\u00e7\u00e3o em curso, promovida por integrantes da comunidade cient\u00edfica, \u00e0s pol\u00edticas-fim emanadas do projeto pol\u00edtico da coaliz\u00e3o de extrema direita que ocupa o poder Executivo federal. E que, por consider\u00e1-lo desnecess\u00e1rio, visa, principalmente, \u00e0 supress\u00e3o do sistema de pesquisa e de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o instalado nas universidades p\u00fablicas.<\/p>\n<p>A considera\u00e7\u00e3o das caracter\u00edsticas de uma pol\u00edtica cognitiva que venha a atender \u00e0s demandas tecnocient\u00edficas da estrat\u00e9gia do trabalho e renda demanda uma reflex\u00e3o sobre o que ocorreu quando, convivendo na agenda governamental com a de emprego e sal\u00e1rio, foram criados arranjos institucionais para conferir-lhe a necess\u00e1ria viabilidade.<\/p>\n<p>A escassa compreens\u00e3o dos fazedores de pol\u00edtica sobre a ES e o fato de que a estrat\u00e9gia do emprego e sal\u00e1rio estava \u201cdando certo\u201d levou a que os arranjos que foram criados, inclusive os que poderiam alterar o rumo da pol\u00edtica cognitiva, fossem abandonados. Ela continuou se preparando para atender uma hipot\u00e9tica demanda empresarial por conhecimento que a elite cient\u00edfica, negando as evid\u00eancias, segue alegando existir.<\/p>\n<p>\u00c0 semelhan\u00e7a do que ocorreu em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ES, cuja n\u00e3o implementa\u00e7\u00e3o obrigou a classe trabalhadora a vender a pre\u00e7o arrochado pelo golpe sua for\u00e7a de trabalho, e n\u00e3o as outras mercadorias que a ES teria possibilitado, fragilizou-se a capacidade d@s trabalhador@s do conhecimento para resistir ao atual ass\u00e9dio da extrema direita \u00e0 pol\u00edtica cognitiva.<\/p>\n<p>Uma pol\u00edtica cognitiva que vise apenas \u00e0 capacita\u00e7\u00e3o das empresas, como tem ocorrido at\u00e9 agora, n\u00e3o ser\u00e1 condizente com os variados desafios que estamos j\u00e1 atrasados a enfrentar. A mudan\u00e7a que se espera depende, no m\u00ednimo, da diversifica\u00e7\u00e3o de estrat\u00e9gias de desenvolvimento, com foco em pol\u00edticas de trabalho e renda (n\u00e3o apenas de emprego e sal\u00e1rio que dependem da boa vontade das empresas) amparadas por um conjunto sist\u00eamico de novos arranjos institucionais.<\/p>\n<p>Ao longo desse processo as agendas de ensino, pesquisa e extens\u00e3o em nossas institui\u00e7\u00f5es de ensino e pesquisa tender\u00e3o a ser em parte direcionadas para o atendimento de demandas tecnocient\u00edficas da reconvers\u00e3o industriosa. Uma oportunidade para isso ser\u00e1 o processo de curriculariza\u00e7\u00e3o da extens\u00e3o universit\u00e1ria, atualmente em curso. Neste territ\u00f3rio menos sujeito \u00e0 l\u00f3gica do mercado, poder\u00e1 se produzir uma tecnoci\u00eancia com racionalidade socialmente orientada.<\/p>\n<p>Essa mudan\u00e7a ir\u00e1 rapidamente maximizar aquela superioridade dos empreendimentos solid\u00e1rios antes referida uma vez que, ao contr\u00e1rio do que costuma ocorrer com as empresas, que n\u00e3o t\u00eam sua gest\u00e3o submetida a uma racionalidade socialmente orientada, neles n\u00e3o existe uma in\u00e9rcia t\u00e9cnico-produtiva ou um efeito de\u00a0<em>lock in<\/em>\u00a0derivado de decis\u00f5es e escolhas tecnocient\u00edficas anteriores informadas pela \u201cl\u00f3gica do mercado\u201d. Pelo contr\u00e1rio, ser\u00e1 neles que poder-se-\u00e3o implementar com maior flexibilidade e rapidez, mediante a adequa\u00e7\u00e3o sociot\u00e9cnica, resultados da din\u00e2mica tecnocient\u00edfica global. Entre eles a miniaturiza\u00e7\u00e3o, modularidade, etc., que permitem variadas escalas de produ\u00e7\u00e3o adequadas ao tamanho \u00f3timo ditado por considera\u00e7\u00f5es sociot\u00e9cnicas e n\u00e3o pelo objetivo de extra\u00e7\u00e3o de mais-valia, o desempacotamento de processos de produ\u00e7\u00e3o engenheirados pela tecnoci\u00eancia capitalista, o repotenciamento de equipamentos considerados obsoletos, o empacotamento de formas de produ\u00e7\u00e3o coerentes com o princ\u00edpio da autogest\u00e3o, etc.<\/p>\n<p>Essa mudan\u00e7a nas agendas de pesquisa, ensino, extens\u00e3o, que depende da sedu\u00e7\u00e3o de nossa elite cient\u00edfica, que tender\u00e1 a permanecer hegem\u00f4nica na elabora\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica cognitiva na periferia do capitalismo, ter\u00e1 um efeito crescentemente pervasivo e difuso. \u00c0 medida que profissionais formados e capacitados como pesquisadores passarem a fazer parte de um contingente engajado com a adequa\u00e7\u00e3o sociot\u00e9cnica da tecnoci\u00eancia capitalista no \u00e2mbito de empreendimentos solid\u00e1rios em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 expans\u00e3o da Tecnoci\u00eancia Solid\u00e1ria, a reconvers\u00e3o industriosa se tornar\u00e1 cada vez mais vi\u00e1vel.<\/p>\n<p>Sem que se tenha aprofundado o assunto, fica clara a import\u00e2ncia do papel do Estado para a consecu\u00e7\u00e3o da mudan\u00e7a no estilo de desenvolvimento que a reconvers\u00e3o industriosa espera promover. Ao contr\u00e1rio do que aconteceu h\u00e1 duas d\u00e9cadas, quando a estrat\u00e9gia de emprego e sal\u00e1rio foi adotada como eixo das pol\u00edticas p\u00fablicas sem grandes mudan\u00e7as institucionais, o apoio \u00e0 estrat\u00e9gia de trabalho e renda, que prop\u00f5e a reconvers\u00e3o industriosa, demanda a cria\u00e7\u00e3o de um conjunto sist\u00eamico de novos arranjos institucionais a ser adequadamente detalhado. Esse detalhamento, entretanto, assim como as \u201cbrechas\u201d que a proposta hegem\u00f4nica da reindustrializa\u00e7\u00e3o deixar para ela dispon\u00edveis, s\u00f3 poder\u00e1 ser realizado quando esta estiver mais claramente definida.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Para construir outra ind\u00fastria nacional &#8211; Outras Palavras &#8211; https:\/\/outraspalavras.net\/descolonizacoes\/para-construir-outra-industria-nacional\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Renato Dagnino &#8211; Introdu\u00e7\u00e3o A insist\u00eancia com que a proposta de reindustrializa\u00e7\u00e3o vem sendo aludida por lideran\u00e7as de esquerda a quem cabe formular estrat\u00e9gias econ\u00f4mico-produtivas para o pr\u00f3ximo governo parece denotar que ela poder\u00e1 ser, \u00e0 semelhan\u00e7a do que foi a industrializa\u00e7\u00e3o via substitui\u00e7\u00e3o de importa\u00e7\u00f5es na segunda metade do s\u00e9culo passado, o eixo fulcral [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2430,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[5],"tags":[83],"class_list":["post-16538","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-economia","tag-reformas"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.7 - 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