{"id":16493,"date":"2022-02-10T12:12:37","date_gmt":"2022-02-10T15:12:37","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=16493"},"modified":"2022-02-06T17:16:14","modified_gmt":"2022-02-06T20:16:14","slug":"netflix-sacode-e-ameaca-o-cinema","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2022\/02\/10\/netflix-sacode-e-ameaca-o-cinema\/","title":{"rendered":"Netflix sacode (e amea\u00e7a) o cinema"},"content":{"rendered":"<p><strong>Biagio Quattrocchi<\/strong>\u00a0e\u00a0<strong>Pietro Bianchi &#8211; <\/strong>\u201cOs filmes n\u00e3o me interessam\u201d, disse a personagem interpretada por Lindsay Lohan em\u00a0<em>The Canyons,\u00a0<\/em>de Paul Schrader, um filme que n\u00e3o por acaso se iniciava com uma sequ\u00eancia de cinemas abandonados, vazios e em ru\u00ednas. As imagens \u2013 Schrader implicitamente argumentava nesse filme \u2013 hoje n\u00e3o mais vivem em cinemas, mas em smartphones, em redes sociais, no variado mundo da reprodu\u00e7\u00e3o visual digital. E basta perguntar a um jovem de 20 anos de idade, hoje, qual \u00e9 sua experi\u00eancia de cinema para ver que esta \u00e9 agora a realidade universal: para a maioria das pessoas, o cinema \u00e9 uma experi\u00eancia ocasional, duas ou tr\u00eas vezes ao ano no m\u00e1ximo, talvez para ver o novo filme da Marvel ou a continua\u00e7\u00e3o (ou\u00a0<em>spin-off<\/em>) de\u00a0<em>Star Wars<\/em>. A experi\u00eancia de assistir a imagens em movimento \u00e9 hoje feita sobretudo individualmente ou em um espa\u00e7o privado, atrav\u00e9s de um dos muitos servi\u00e7os de\u00a0<em>streaming<\/em>\u00a0de v\u00eddeo sob demanda, como YouTube ou Netflix.<\/p>\n<p><strong>Uma transforma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica<\/strong><\/p>\n<p>\u00c0 primeira vista, pode parecer uma mudan\u00e7a quase natural, devido a transforma\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas abstratas e inevit\u00e1veis, como as conex\u00f5es de Internet de banda larga e a dissemina\u00e7\u00e3o de smartphones. Mas h\u00e1 uma hist\u00f3ria pol\u00edtica por tr\u00e1s dela \u2013 como sempre acontece nas transforma\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas \u2013 que se acelerou nos \u00faltimos anos quando uma das muitas empresas ponto-com do Vale do Sil\u00edcio conseguiu conquistar parcelas de mercado cada vez maiores e acabou reestruturando completamente toda a cadeia de distribui\u00e7\u00e3o audiovisual.<\/p>\n<p>Na verdade, nem tudo come\u00e7ou com a Netflix. A premissa necess\u00e1ria era a transforma\u00e7\u00e3o do mercado de filmes da imagem anal\u00f3gica suportada pelo filme 35mm para a imagem digital. As transforma\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas nem sempre acontecem de forma independente e s\u00e3o ent\u00e3o exploradas para fins capitalistas: mais frequentemente s\u00e3o concebidas e projetadas diretamente para resolver certos problemas de acumula\u00e7\u00e3o capitalista.<\/p>\n<p>O problema dos est\u00fadios de Hollywood nos anos 90 era que a rede de distribui\u00e7\u00e3o de filmes em pel\u00edcula pelos cinemas (especialmente nos Estados Unidos) tinha se tornado muito cara: isto porque a vida dos filmes estava ficando cada vez mais curta e havia a necessidade de mudar a oferta de maneira cada vez mais r\u00e1pida e eficiente. Filmes dos quais eram feitas 3 a 4 mil c\u00f3pias em sua maioria tornavam-se in\u00fateis ap\u00f3s um m\u00eas nos cinemas. Na verdade, a maior parte dos lucros agora dependia quase exclusivamente das primeiras exibi\u00e7\u00f5es de fim de semana.<\/p>\n<p><strong>A reestrutura\u00e7\u00e3o do ciclo de distribui\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Foi necess\u00e1rio passar das grandes e pesadas \u201cpizzas\u201d de bobinas de 35mm, caras para transportar e descartar, para arquivos digitais simples (<em>Digital Cinema Package<\/em>), para serem projetadas de forma muito mais \u00e1gil por equipamentos de imagens digitais. Para transformar todas as multissalas nos Estados Unidos (e mais tarde no mundo) em teatros de proje\u00e7\u00e3o digital \u2013 passando os custos para os exibidores, \u00e9 claro \u2013 algo tinha que ser inventado: foi assim que os filmes 3D foram lan\u00e7ados (na verdade uma tentativa de rejuvenescer uma tecnologia antiga j\u00e1 utilizada nos anos 50 e 80).\u00a0<em>Avatar\u00a0<\/em>de James Cameron foi exatamente isso: um cavalo de Troia \u2013 como David Bordwell o chamou \u2013 para reestruturar o ciclo de distribui\u00e7\u00e3o fazendo com que os expositores se adaptassem ao que a partir de ent\u00e3o se tornou um novo padr\u00e3o de imagem.<\/p>\n<p>Uma vez estabelecida a imagem digital como padr\u00e3o, era apenas quest\u00e3o de tempo at\u00e9 que os filmes fossem levados dos cinemas para as casas, e passassem da audi\u00eancia coletiva para a individual. A economia de custos deveria incluir um segmento enorme de pessoas que n\u00e3o iriam mais ao cinema. De fato, a Netflix nasceu em 1997 como uma empresa de aluguel de DVDs por correspond\u00eancia (uma tecnologia que lembraremos no futuro como um per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o para o\u00a0<em>streaming on-line<\/em>). No livro autobiogr\u00e1fico e hagiogr\u00e1fico que conta a hist\u00f3ria do fundador da Netflix, a lenda diz \u2013 na verdade, todas as lendas do Vale do Sil\u00edcio n\u00e3o passam de uma reitera\u00e7\u00e3o da mesma hist\u00f3ria \u2013 que, partindo de uma garagem e munidos apenas de uma grande ideia, Reed Hastings e Marc Randolph conseguiram em muito pouco tempo mudar o mundo e libertar os telespectadores da ditadura da grade de programa\u00e7\u00e3o e da publicidade. Em 23 de maio de 2002, a Netflix j\u00e1 era muito mais que uma ideia: estava listada na Nasdaq como uma empresa de\u00a0<em>e-commerce<\/em>, com a\u00e7\u00f5es valendo pouco mais de um d\u00f3lar e uma capitaliza\u00e7\u00e3o de US%content%nbsp;300 milh\u00f5es. Menos de 20 anos depois, sua capitaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 de US%content%nbsp;215 bilh\u00f5es e tem 190 milh\u00f5es de usu\u00e1rios pagantes em todo o mundo (excluindo a China) com um valor m\u00e9dio de a\u00e7\u00f5es de cerca de US%content%nbsp;500. Mas o que aconteceu nesse meio tempo para permitir um sucesso t\u00e3o retumbante?<\/p>\n<p>Certamente, o momento da inaugura\u00e7\u00e3o do servi\u00e7o de streaming online em 2007 \u2013 no mesmo ano em que o iPhone foi lan\u00e7ado \u2013 \u00e9 mais do que uma sorte. E a ideia de transmitir uma s\u00e9rie \u201cpremium TV\u201d em 2013, com\u00a0<em>House of Cards<\/em>, em uma plataforma que na \u00e9poca custava menos da metade do valor cobrado pela HBO ou Showtime, superou os concorrentes.<\/p>\n<p>A Netflix tamb\u00e9m teve um impacto cultural revolucion\u00e1rio, pois foi a primeira a lan\u00e7ar uma s\u00e9rie de TV inteira, sem esperar que epis\u00f3dios fossem transmitidos semana a semana, inventando o que mais tarde seria chamado de\u00a0<em>binge-watching<\/em>\u00a0\u2013 ou \u201cmaratonar s\u00e9ries\u201d. No entanto, nada disso explica plenamente seu sucesso.<\/p>\n<p><strong>Crescimento, endividamento e pandemia<\/strong><\/p>\n<p>Como\u00a0<a href=\"https:\/\/variety.com\/2020\/digital\/news\/netflix-raise-1-billion-debt-offering-1234587050\/\">informou<\/a>\u00a0a\u00a0<em>Variety<\/em>, no final de mar\u00e7o de 2020 a Netflix tinha uma d\u00edvida de quase US%content%nbsp;15 bilh\u00f5es, US$ 2,2 bilh\u00f5es dos quais haviam acabado de ser levantados no outono anterior. Mas o que \u00e9 impressionante \u00e9 o desproporcional or\u00e7amento de investimento que assegura um crescimento cada vez maior: em 2016, a Netflix gastava US%content%nbsp;5 bilh\u00f5es por ano em suas produ\u00e7\u00f5es. Em 2018, o valor j\u00e1 estava em US%content%nbsp;12 bi; em 2019, US%content%nbsp;15; em 2020, US%content%nbsp;17: apesar das receitas de mais de US%content%nbsp;20 bilh\u00f5es, mas com um lucro l\u00edquido que nunca ultrapassou 2 bilh\u00f5es nos \u00faltimos anos, a Netflix parece ser uma empresa com crescimento irrefre\u00e1vel, mas cada vez mais dependente de uma d\u00edvida paquid\u00e9rmica. Muitos come\u00e7aram a questionar se o crescimento deste gigante com p\u00e9s de barro \u00e9 realmente sustent\u00e1vel.<\/p>\n<p>Em 2019, Aswath Damodaran, professor de finan\u00e7as da Stern School of Business da Universidade de Nova York,\u00a0<a href=\"https:\/\/ig.ft.com\/netflix-future\/\">argumentou<\/a>\u00a0no\u00a0<em>Financial Times<\/em>\u00a0que a Netflix \u201ch\u00e1 uma d\u00e9cada, vem investindo cada vez mais dinheiro em novas produ\u00e7\u00f5es para atrair usu\u00e1rios e aumentar a capitaliza\u00e7\u00e3o do mercado\u201d. E at\u00e9 agora tem funcionado. A pergunta \u00e9: como voc\u00ea sai desta\u00a0<em>esteira rolante<\/em>? Em algum momento, gastar 75% de cada d\u00f3lar em conte\u00fado n\u00e3o ser\u00e1 sustent\u00e1vel. O pr\u00f3ximo ano ser\u00e1 o grande desafio\u201d.<\/p>\n<p>No ano seguinte, por\u00e9m, houve um acontecimento que ningu\u00e9m poderia imaginar: a pandemia de covid-19. Metade do mundo foi for\u00e7ada a passar muito mais tempo em casa do que o habitual: a Netflix teve ent\u00e3o um boom de assinaturas que pareceria inconceb\u00edvel mesmo em suas previs\u00f5es mais otimistas, ganhando mais de 15 milh\u00f5es de novos assinantes nos primeiros tr\u00eas meses do ano, em sua maioria oriundos da Europa e da \u00c1sia.<\/p>\n<p>Entretanto, h\u00e1 algumas perguntas a serem feitas sobre este modelo de crescimento. A Netflix, como outras plataformas globais, tem a caracter\u00edstica de exasperar alguns dos tra\u00e7os fundamentais da empresa financeiramente organizada, como a conhecemos na fase ascendente do\u00a0<em>capitalismo gestor de dinheiro<\/em>, desde a General Motors no setor industrial, at\u00e9 a General Electric no setor dos eletrodom\u00e9sticos, passando pelas multinacionais de log\u00edstica. O modelo de neg\u00f3cios da Netflix pode ser aproximado em algumas etapas.<\/p>\n<p>A plataforma de entretenimento compartilha com as empresas manufatureiras mais tradicionais o fato de que seu enorme crescimento foi possibilitado, antes de tudo, pelo acesso sem precedentes ao cr\u00e9dito. O alto endividamento, como j\u00e1 vimos, \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o pr\u00e9via necess\u00e1ria para iniciar suas pr\u00f3prias produ\u00e7\u00f5es e renovar continuamente sua oferta.<\/p>\n<p><strong>Big Data e algoritmos<\/strong><\/p>\n<p>A coleta de grandes quantidades de dados dos usu\u00e1rios, combinada com o uso de algoritmos de aprendizagem de m\u00e1quinas, permite a an\u00e1lise das prefer\u00eancias e o isolamento de mais de 2 mil \u201c<em>clusters<\/em>\u00a0de gostos\u201d, de modo que a oferta possa visar nichos de mercado bastante precisos. A an\u00e1lise de grandes dados tem obviamente a principal fun\u00e7\u00e3o de direcionar produ\u00e7\u00f5es de conte\u00fado, adaptando-se\u00a0<em>a<\/em>\u00a0<em>tempo\u00a0<\/em>\u00e0s demandas do mercado. Uma vez que um produto esteja pronto para entrega, um departamento dentro da empresa trabalhar\u00e1 o modo como o novo conte\u00fado deve chegar aos assinantes, seja aperfei\u00e7oando o algoritmo que seleciona os 40 a 50 t\u00edtulos que aparecem na tela inicial da Netflix, ou estabelecendo v\u00e1rias campanhas de lan\u00e7amento com trailers diferenciados de acordo com os grupos de p\u00fablico-alvo. No lado da receita, o circuito n\u00e3o se fecha com as assinaturas.<\/p>\n<p>Isto porque, apesar do aumento dos usu\u00e1rios, o\u00a0<em>fluxo de caixa\u00a0<\/em>\u00e9 estruturalmente negativo (exceto o fluxo de caixa trimestral deste \u00faltimo ano, ap\u00f3s mais de seis anos), e entre ganhos e perdas as receitas das vendas quase nunca excedem os custos de produ\u00e7\u00e3o. O que fecha o circuito econ\u00f4mico-financeiro s\u00e3o antes os enormes ganhos de capital registrados em Wall Street, que tamponam o desequil\u00edbrio \u201creal\u201d, protegendo a empresa da tend\u00eancia cr\u00f4nica \u00e0 insolv\u00eancia e fazendo dos lucros uma grandeza (quase) indistingu\u00edvel da renda.<\/p>\n<p>O pano de fundo da fortuna da Netflix \u00e9 a virada expansiva da pol\u00edtica monet\u00e1ria dos principais bancos centrais ap\u00f3s a crise financeira de 2007. Tem in\u00edcio a longa fase do\u00a0<em>capitalismo liderado pelo Banco Central<\/em><em>.\u00a0<\/em>Uma enorme quantidade de dinheiro chega aos mercados financeiros, os rendimentos dos t\u00edtulos do governo come\u00e7am a cair, os operadores financeiros procuram freneticamente por rendimentos mais altos, aumentando suas compras de a\u00e7\u00f5es da Big Tech.<\/p>\n<p>Em meio ao choque econ\u00f4mico da primeira onda da pandemia, a partir do final de mar\u00e7o, o valor do\u00a0<em>S&amp;P 500\u00a0<\/em>explodiu, impulsionado por empresas de tecnologia que agora respondem por 20% do valor do \u00edndice, depois que o FED anunciou um programa de compra de a\u00e7\u00f5es\u00a0<em>corporativas<\/em>, alimentando o que a\u00a0<em>Economist<\/em>\u00a0chamou de\u00a0<em>\u201c<\/em><em>lacuna<\/em><em>perigosa<\/em><em>\u201d<\/em>, ou a lacuna entre Wall Street e Main Street [<em>ou seja, entre o mercado financeiro e todo o conjunto de empresas que n\u00e3o est\u00e1 listada em bolsas<\/em>].<\/p>\n<p>Desde que passou a ser cotado em bolsa em 2002, o pre\u00e7o das a\u00e7\u00f5es da empresa aumentou 500 vezes, colocando-a entre as\u00a0<em>dez mais\u00a0<\/em>entre as empresas que abriram capitais nos \u00faltimos dezoito anos. N\u00e3o faltam observadores que recentemente tenham colocado a hip\u00f3tese de uma nova bolha de ponto-com da \u00e9poca do\u00a0<em>capitalismo de plataforma.\u00a0<\/em>Outros, por outro lado, a partir de 9 de novembro, ap\u00f3s o an\u00fancio da vacina pela Pfizer, t\u00eam apostado em uma poss\u00edvel rota\u00e7\u00e3o dos mercados, com uma reorienta\u00e7\u00e3o dos fluxos financeiros para outros setores, esperando uma relativa redu\u00e7\u00e3o progressiva da chamada\u00a0<em>economia<\/em><em>\u00a0<\/em><em>\u201cfique em casa\u201d<\/em>.<\/p>\n<p><strong>Netflix e os trabalhadores<\/strong><\/p>\n<p>Seja como for, isso certamente n\u00e3o muda o cerne da quest\u00e3o. A Netflix tinha cerca de 8.600 funcion\u00e1rios diretos em 2019 (quase o dobro do n\u00famero registrado em 2016), cada um gerando uma receita anual m\u00e9dia de US$ 2,6 milh\u00f5es (nove vezes mais que os funcion\u00e1rios da Disney). O sal\u00e1rio hor\u00e1rio b\u00e1sico dos funcion\u00e1rios (assistente administrativo, editor, engenheiro de \u00e1udio, t\u00e9cnico, analista de pesquisa, etc.) gira em torno de US$ 30, aos quais s\u00e3o acrescentados b\u00f4nus de acordo com os resultados alcan\u00e7ados (com valores n\u00e3o insignificantes, especialmente para os profissionais mais graduados). A empresa californiana est\u00e1 \u00e0 frente de uma cadeia global de subcontratados muito articulada (as \u00faltimas estimativas falam de mais de 2.200 subcontratados de primeiro n\u00edvel) e geograficamente dispersa (na It\u00e1lia, por exemplo, al\u00e9m das produ\u00e7\u00f5es que s\u00e3o feitas diretamente no pa\u00eds, v\u00e1rios subcontratados trabalham entre Roma e Mil\u00e3o para as p\u00f3s-produ\u00e7\u00f5es de s\u00e9ries feitas em outros lugares ou s\u00e3o subcontratados de segundo n\u00edvel de empresas de p\u00f3s-produ\u00e7\u00e3o em outros pa\u00edses europeus aos quais a Netflix confia a dublagem, legendagem, mixagem, etc.).<\/p>\n<p>Desnecess\u00e1rio dizer que a press\u00e3o sobre os sal\u00e1rios \u00e9 ainda mais intensa nos n\u00edveis mais baixos da cadeia. Basta dizer que os animadores e outros trabalhadores t\u00e9cnicos envolvidos na s\u00e9rie\u00a0<em>Bojack Horseman\u00a0<\/em>tiveram que se organizar sindicalmente a fim de chegar a um melhor acordo com a empresa Los Gatos. Estes dados confirmam a taxa de explora\u00e7\u00e3o anormal nos Tech Giants, consequ\u00eancia da mobiliza\u00e7\u00e3o de uma enorme quantidade de trabalho (potencial) devolvido gratuitamente pelos usu\u00e1rios em tempo real.<\/p>\n<p><strong>A outra face do capitalismo de plataformas<\/strong><\/p>\n<p>O outro lado de como o surgimento do capitalismo de plataforma reduz ainda mais os \u201cefeitos de percola\u00e7\u00e3o\u201d das finan\u00e7as para a economia real.<\/p>\n<p>Netflix, como os outros gigantes da internet, \u00e9 um \u201cecossistema coordenado\u201d que maximiza as rela\u00e7\u00f5es de mercado entre usu\u00e1rios, fornecedores e investidores financeiros em benef\u00edcio da propriedade, mas \u00e9 tamb\u00e9m uma \u201cm\u00e1quina econ\u00f4mico-financeira\u201d intrinsecamente\u00a0<em>propensa \u00e0 crise,\u00a0<\/em>como vimos, que precisa obter cada vez mais novos assinantes para se desenvolver (vencer a concorr\u00eancia com outros atores, como Apple, Amazon, Disney, etc.), enquanto alimenta essa tend\u00eancia interna \u00e0 \u201cconcentra\u00e7\u00e3o\u201d monopolista que caracteriza essa nova forma de inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica.<\/p>\n<p>As consequ\u00eancias deste fen\u00f4meno t\u00eam sido e ser\u00e3o devastadoras para todo o setor audiovisual. Hoje, tornou-se normal gastar US$ 9,90 por m\u00eas para assistir dezenas de filmes e s\u00e9ries de TV em v\u00e1rios aparelhos para uma fam\u00edlia inteira. \u00c9 evidente que um modelo de neg\u00f3cios como o das TVs a cabo Premium do passado, como HBO e Showtime (que na verdade se apressaram em abrir servi\u00e7os de\u00a0<em>streaming on-demand<\/em>\u00a0a pre\u00e7os de ocasi\u00e3o), \u00e9 totalmente insustent\u00e1vel. Assim como \u00e9 insustent\u00e1vel que uma sala de cinema possa pensar em competir com um servi\u00e7o que agora \u00e9 capaz de atrair diretores vencedores de Oscar (<em>Roma<\/em>\u00a0de Alfonso Cuar\u00f3n) ou grandes autores (Scorsese), assim como s\u00e9ries de TV de sucesso de bilheteria como\u00a0<em>Stranger Things\u00a0<\/em>ou fen\u00f4menos desprez\u00edveis com alto potencial viral em redes sociais como\u00a0<em>Tiger King<\/em>.<\/p>\n<p>A Netflix, como foi o caso de outras plataformas como a Amazon, deve ser analisada n\u00e3o apenas por sua organiza\u00e7\u00e3o empresarial interna ou por suas estrat\u00e9gias de crescimento e investimento, mas como um dispositivo de reestrutura\u00e7\u00e3o de todo um setor, no caso o do audiovisual.<\/p>\n<p>Assim como a Amazon conseguiu evitar distribuir dividendos a seus acionistas durante anos para ter capital suficiente para implementar estrat\u00e9gias de crescimento e aquisi\u00e7\u00e3o cada vez mais agressivas (como no caso da Amazon Prime, um dos grandes \u201csaltos de escala\u201d na hist\u00f3ria da empresa), a Netflix foi capaz de transformar os h\u00e1bitos de centenas de milh\u00f5es de pessoas e revolucionar para sempre sua maneira de consumir conte\u00fado audiovisual. O enorme capital financeiro mobilizado por esta empresa foi capaz \u2013 como aconteceu com frequ\u00eancia na hist\u00f3ria do capitalismo \u2013 de reestruturar completamente um setor econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>Neste sentido, a Netflix tamb\u00e9m conseguiu se tornar um dos principais atores no que \u00e9 uma das batalhas econ\u00f4micas mais centrais dos \u00faltimos anos: a da economia da aten\u00e7\u00e3o (e que est\u00e1 sendo travada de forma cada vez mais agressiva tanto no mercado de capitais quanto nas estrat\u00e9gias corporativas de Facebook, Google, Apple, etc.). Quase 200 milh\u00f5es de pessoas passam horas de sua semana consumindo conte\u00fado audiovisual no site da Netflix. Curiosamente, a Netflix nunca concordou em revelar n\u00fameros de audi\u00eancia para seus produtos: um fen\u00f4meno bizarro, dado que d\u00e9cadas de pesquisa em estudos audiovisuais sempre consideraram o n\u00famero de espectadores que um filme conseguia atrair como um fato emp\u00edrico fundamental.<\/p>\n<p>Hoje, n\u00e3o sabemos mais quantos espectadores teve\u00a0<em>O<\/em>\u00a0<em>Irland\u00eas\u00a0<\/em>ou\u00a0<em>Mank<\/em>. Muitos t\u00eam se perguntado o que Netflix estava tentando esconder e por que n\u00e3o quis abrir ao p\u00fablico essas cifras. Com o devido respeito aos departamentos universit\u00e1rios de estudos cinematogr\u00e1ficos, talvez a resposta seja muito mais simples do que parece.<\/p>\n<p>A Netflix n\u00e3o \u00e9 uma empresa de conte\u00fado audiovisual \u2013 e de fato n\u00e3o \u00e9 coincid\u00eancia que esteja cotada em bolsa na Nasdaq. A Netflix \u00e9 uma empresa que usa filmes e s\u00e9ries de TV como isca: a verdadeira aposta s\u00e3o os comportamentos, h\u00e1bitos e gostos dos quase 200 milh\u00f5es de pessoas que passam horas de seu dia interagindo com o site.<\/p>\n<p>Em resumo, o verdadeiro objeto \u00e9 o uso econ\u00f4mico-financeiro dos dados: a verdadeira mat\u00e9ria-prima que o capitalismo de plataforma utiliza para reestruturar o capital da esfera de circula\u00e7\u00e3o e tornar a realiza\u00e7\u00e3o do valor cada vez mais fluida e sem atritos. N\u00e3o devemos cometer o erro de olhar para o dedo (filmes) e n\u00e3o para a lua (estrat\u00e9gias de acumula\u00e7\u00e3o capitalista). Netflix \u00e9 apenas uma das muitas m\u00e1scaras por tr\u00e1s das quais o capitalismo contempor\u00e2neo como um todo est\u00e1 sendo transformado. Infelizmente, n\u00e3o apenas no cinema.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Netflix sacode (e amea\u00e7a) o cinema &#8211; Outras Palavras &#8211; https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/netflix-sacode-e-ameaca-o-cinema\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Biagio Quattrocchi\u00a0e\u00a0Pietro Bianchi &#8211; \u201cOs filmes n\u00e3o me interessam\u201d, disse a personagem interpretada por Lindsay Lohan em\u00a0The Canyons,\u00a0de Paul Schrader, um filme que n\u00e3o por acaso se iniciava com uma sequ\u00eancia de cinemas abandonados, vazios e em ru\u00ednas. 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