{"id":16483,"date":"2022-02-07T12:14:27","date_gmt":"2022-02-07T15:14:27","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=16483"},"modified":"2022-02-01T20:16:45","modified_gmt":"2022-02-01T23:16:45","slug":"a-ucrania-os-falcoes-e-os-pombos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2022\/02\/07\/a-ucrania-os-falcoes-e-os-pombos\/","title":{"rendered":"A Ucr\u00e2nia, os falc\u00f5es e os pombos"},"content":{"rendered":"<p><strong>FLAVIO AGUIAR &#8211;\u00a0<\/strong>Um balan\u00e7o do loda\u00e7al ucraniano e mundial, onde a paz est\u00e1 por um fio<\/p>\n<p>Para entender o que est\u00e1 acontecendo hoje na Ucr\u00e2nia, \u00e9 necess\u00e1rio tomar um recuo no tempo, coisa de sessenta anos ou mais, para dizer o m\u00ednimo. Pe\u00e7o perd\u00e3o \u00e0s leitoras e aos leitores se algumas observa\u00e7\u00f5es estar\u00e3o presas \u00e0 minha biografia pessoal. Isto se deve mais a minha percep\u00e7\u00e3o dos fatos do que \u00e0 natureza dos mesmos. Enfim, eu, como o homem de Ortega y Gasset, sou apenas eu e minha circunst\u00e2ncia\u2026<\/p>\n<p>Quando cheguei aos Estados Unidos pela primeira vez, em1964, com uma bolsa de estudos do\u00a0<em>American Field Service<\/em>\u00a0para terminar a\u00a0<em>High School<\/em>\u00a0em Burlington, Vermont, e meio fugido da ent\u00e3o jovem, mas decr\u00e9pita ditadura brasileira, encontrei a pol\u00edtica externa norte-americana dividida.<\/p>\n<p>De um lado, havia os\u00a0<em>Hawks<\/em>, \u201cFalc\u00f5es\u201d, abertamente militaristas, que pregavam o armamento total contra o perigo comunista. Do outro, os\u00a0<em>Doves<\/em>, \u201cPombos\u201d, que pretendiam se valer da diplomacia e de pol\u00edticas de alian\u00e7as contra\u2026 o mesmo perigo comunista. Hoje isto se chama\u00a0<em>softpower<\/em>, embora o conceito geral seja mais abrangente.<\/p>\n<p>A fonte de ambas as correntes \u2013 naquela \u00e9poca, uma centrada no Pent\u00e1gono, e outras em alguns setores do Departamento de Estado, era a mesma (a CIA atuava nas duas frentes). Ou seja, as reflex\u00f5es do diplomata norte-americano George Frost Kennan, que fora embaixador em Moscou. Para Kennan a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica era irremediavelmente expansionista, e o centro da pol\u00edtica externa dos Estados Unidos deveria ser a de \u201cconten\u00e7\u00e3o\u201d (palavra-chave) da URSS. A diverg\u00eancia entre os Falc\u00f5es e os Pombos jazia no m\u00e9todo.<\/p>\n<p>Exemplifiquemos, de modo sint\u00e9tico, atrav\u00e9s de duas atitudes complementares. Em 1961 a obstina\u00e7\u00e3o do comandante militar norte-americano em Berlim, desafiando os sovi\u00e9ticos no posto de controle de Check-Point Charlie, quase levou a um embate direto entre ambas as pot\u00eancias. Dezenas de tanques de cada lado estiveram frente a frente e prontos para entrar em a\u00e7\u00e3o, confronto s\u00f3 evitado gra\u00e7as a um telefonema direto entre John Kennedy e Nikita Kruschev. Eram os Falc\u00f5es em a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Bem, de certo modo, o Plano Marshall, que seduziu e cooptou a Europa Ocidental, transformando-a num basti\u00e3o econ\u00f4mico e pol\u00edtico anti-sovi\u00e9tico, foi inspirado na doutrina desenhada por Kennan. Eram os Pombos em a\u00e7\u00e3o. O objetivo era o mesmo: conter a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Diga-se de passagem, que Kennan, ao longo do tempo, tornou-se um \u201cPombo\u201d, adepto do\u00a0<em>softpower<\/em>\u00a0na nomenclatura atual. Posicionou-se contra, inclusive, a interven\u00e7\u00e3o norte-americana no Vietn\u00e3.<\/p>\n<p>A Organiza\u00e7\u00e3o do Tratado do Atl\u00e2ntico Norte (OTAN) criada em 1949, foi adequada \u00e0 l\u00f3gica militarista, tendo o mesmo objetivo desde seu come\u00e7o, ou seja, o cerco da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Como alian\u00e7a militar, n\u00e3o surpreende que pendesse para o lado dos Falc\u00f5es.<\/p>\n<p>Estes eram os expoentes do que o presidente Dwight Eisenhower, um republicano conservador, denunciou como \u201co complexo industrial-militar\u201d que governava a pol\u00edtica norte-americana, inclusive a externa, em seu discurso de despedida, em 17 de janeiro de 1961, ao passar o cargo ao democrata John Kennedy.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o as balizas da pol\u00edtica externa norte-americana n\u00e3o mudaram muito. Ganharam um componente novo a partir da hegemonia neoliberal consagrada por Ronald Reagan, com ajuda de Margaret Thatcher no Reino Unido e a cruzada anti-comunista de seu valioso aliado, o Papa Jo\u00e3o Paulo II. Recomendo a leitura da biografia de Jo\u00e3o Paulo II, escrita por Carl \u201cWatergate\u201d Bernstein e Marco Politi,\u00a0<em>His Holiness: John Paul II and the History of Our Time<\/em>, que comprova a articula\u00e7\u00e3o Reagan-Tatcher-Jo\u00e3o Paulo II para derrubar o comunismo e colocar o Vaticano dentre as fileiras do conservadorismo internacional, \u201ccorrigindo\u201d a linha adotada por Jo\u00e3o XXIII e Paulo VI, abortada depois do velado assassinato de Jo\u00e3o Paulo I, em 1978. O termo \u201cassassinato\u201d \u00e9 meu, n\u00e3o do livro de Bernstein\/Politi. Mas estou convencido disto.<\/p>\n<p>Este componente foi o papel progressivamente decisivo das ag\u00eancias de intelig\u00eancia e dos servi\u00e7os secretos, em parte terceirizados para empresas e\u00a0<em>think-tanks<\/em>\u00a0privados, na formula\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas externas de v\u00e1rios pa\u00edses, entre eles os Estados Unidos, conforme as den\u00fancias de Edward Snowden. Esta tend\u00eancia viralizou nos Estados Unidos a partir dos atentados contra as torres g\u00eameas em Nova Iorque, em 2001. Ela entronizou os Falc\u00f5es \u2013 agora informados tamb\u00e9m pelas t\u00e9cnicas de guerra h\u00edbrida \u2013 como os formuladores da pol\u00edtica mundial dos EUA.<\/p>\n<p>Digamos assim: Obama, Trump e Biden podem decidir sobre a cor das cortinas da sala e as ta\u00e7as para servir o vinho; mas a cozinha e o card\u00e1pio est\u00e3o nas m\u00e3os do novo conglomerado industrial-militar-servi\u00e7o secreto e suas ag\u00eancias p\u00fablicas ou privadas, com lideran\u00e7a muito aut\u00f4noma deste \u00faltimo parceiro, que estabelece limites e alian\u00e7as, bem como diretivas para o Departamento de Estado, a Casa Branca e o Pent\u00e1gono, tendo uma linha direta com a OTAN. Esta se comporta como um Estado aut\u00f4nomo dentro da Europa. E estendeu seu raio de a\u00e7\u00e3o para o Norte da \u00c1frica.<\/p>\n<p>Da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica de ontem e da R\u00fassia de hoje entendo muito pouco. Mas posso reconhecer o que se segue. Muito mais do que a burocracia geri\u00e1trica do Partido Comunista, a espinha dorsal do mundo sovi\u00e9tico era o Ex\u00e9rcito Vermelho, cujo prest\u00edgio e poder interno se desfizeram na sua malfadada aventura no Afeganist\u00e3o. Carente de inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, a economia sovi\u00e9tica foi afundando, tamb\u00e9m naufragada em meio \u00e0 completa falta de democracia.<\/p>\n<p>Da debacle de 1989\/1991, ao inv\u00e9s do\u00a0<em>homo sovieticus<\/em>\u00a0\u2013 solid\u00e1rio, comunista, generoso, militante \u2013 o que emergiu foi uma casta de burocratas ex-comunistas \u00e1vidos de privatizar tudo o que tinham pela frente, colhendo seu d\u00edzimo, uma Igreja Ortodoxa das mais reacion\u00e1rias, e um bando de oligarcas e mafiosos dominados pelo que o seu tardio esp\u00edrito burgu\u00eas captava de pior no capitalismo triunfante: a rapina, amealhando fortunas e comprando tudo pelo mundo afora, de carr\u00f5es importados a caixas de u\u00edsque, de clubes de futebol brit\u00e2nicos a bordeis em Hamburgo, na Alemanha.<\/p>\n<p>Foi perante este quadro catastr\u00f3fico que se ergueu, das sombras e cinzas do antigo czarismo filtrado pelo aparato sovi\u00e9tico, o carisma de Vladimir Putin, que, com aux\u00edlio de seu passado e o conhecimento acumulado como ex-chefe da KGB, a mistura sovi\u00e9tica de CIA e FBI, conseguiu cooptar a ortodoxia religiosa, controlar e\/ou neutralizar os oligarcas, isolar politicamente as m\u00e1fias e garantir um m\u00ednimo de, digamos,\u00a0<em>pax romana<\/em>\u00a0para as classes m\u00e9dias e trabalhadoras apavoradas e em queda livre.<\/p>\n<p>Assentado sobre o segundo arsenal nuclear do planeta, era natural que quisesse restabelecer o antigo dom\u00ednio imperial do mundo ex-czarista, ex-sovi\u00e9tico, embalado por um nacionalismo russo que nunca se extinguiu. Vem tendo algum sucesso nisto, recompondo a presen\u00e7a geopol\u00edtica da R\u00fassia, depois do desastre que foi o governo decadente de Gorbachev e o borracho (em todos os sentidos) de Boris Yeltsin. Teve a ajuda da desastrada pol\u00edtica norte-americana na S\u00edria e das catastr\u00f3ficas interven\u00e7\u00f5es dos Estados Unidos no Iraque e da OTAN na L\u00edbia. Os bombardeios anteriores da OTAN na regi\u00e3o dos B\u00e1lc\u00e3s ajudaram o estabelecimento de governos aliados na regi\u00e3o, mas n\u00e3o promoveram o prest\u00edgio popular da organiza\u00e7\u00e3o nos pa\u00edses atingidos, apesar das atrocidades cometidas durante a guerra civil que se seguiu \u00e0 dissolu\u00e7\u00e3o da Iugosl\u00e1via.<\/p>\n<p>Passemos \u00e0 Ucr\u00e2nia, palco do atual conflito que periga confluir para uma cat\u00e1strofe militar de grandes propor\u00e7\u00f5es, envolvendo, no limite, as duas maiores pot\u00eancias nucleares do planeta. Uma r\u00e1pida conferida no mapa europeu nos mostra a enorme extens\u00e3o de sua fronteira terrestre com a R\u00fassia \u2013 quase 1.600 km (um pouco menos do que a dist\u00e2ncia entre S\u00e3o Paulo e Cuiab\u00e1, por estrada), aliada a sua proximidade da capital russa, Moscou, 493 km pela auto-estrada M3 (algo como S\u00e3o Paulo \u2013 Rio de Janeiro, pela Rodovia Dutra).<\/p>\n<p>A Ucr\u00e2nia era parte da URSS. Durante a Segunda Guerra, uma dram\u00e1tica divis\u00e3o op\u00f4s os que favoreciam a ocupa\u00e7\u00e3o nazista e os que participavam da resist\u00eancia sovi\u00e9tica. Essa divis\u00e3o deixou cicatrizes indel\u00e9veis no pa\u00eds, inclusive regionais, pois aqueles se concentravam mais a oeste, e estes a leste, mais perto da fronteira russa. Os nazistas ucranianos fizeram de tudo, martirizando judeus, poloneses, sovi\u00e9ticos, junto com os alem\u00e3es.<\/p>\n<p>Em 1986 a Ucr\u00e2nia foi palco do pior acidente nuclear da hist\u00f3ria, o de Chernobyl, no norte do pa\u00eds, o que tamb\u00e9m deixou sequelas. As rela\u00e7\u00f5es com o conjunto da URSS nunca foram tranquilas, nem mesmo depois que em 1954 Nikita Kruschev transferiu a pen\u00ednsula da Crimeia para a Ucr\u00e2nia, num gesto de boa vontade, mas cujas raz\u00f5es ningu\u00e9m entendeu muito bem at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>Depois da dissolu\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, a Ucr\u00e2nia manteve la\u00e7os pr\u00f3ximos com a R\u00fassia, mas se aproximou tamb\u00e9m da Europa Ocidental e buscou os financiamentos do capitalismo triunfante. Essa situa\u00e7\u00e3o de equil\u00edbrio, apesar de alguns solavancos e descontentamentos, como a \u201cRevolu\u00e7\u00e3o Laranja\u201d de 2004\/2005, durou at\u00e9 2013\/2014, quando uma subleva\u00e7\u00e3o armada, com a cobertura midi\u00e1tica de ser uma revolta popular, conseguiu depor o presidente Viktor Yanukovitch, considerado pr\u00f3-russo, que se recusara a assinar um tratado de livre-com\u00e9rcio com a Uni\u00e3o Europeia.<\/p>\n<p>A vanguarda do levante foi ocupada por grupos de extrema-direita, alguns com vis\u00edvel treinamento militar, e os manifestantes foram aclamados no Ocidente como os \u201cHer\u00f3is da Pra\u00e7a Maidan\u201d, onde ocorreram muitos dos choques entre policiais e manifestantes\/milicianos. Muitos destes \u201cher\u00f3is da democracia\u201d tinham claras filia\u00e7\u00f5es neonazis, onde nem faltava o secular antissemitismo.<\/p>\n<p>Ficou claro que os Estados Unidos davam apoio aos revoltosos, embora a extens\u00e3o e profundidade do envolvimento pr\u00e9vio permane\u00e7a nebulosa. Tamb\u00e9m ficou claro que esta revolta estava no radar ou nas telas da OTAN, que j\u00e1 mantinha uma pol\u00edtica de expans\u00e3o para o Leste, contrariando o acordo feito com Gorbachev e Yeltsin \u00e0 beira e logo depois do fim da URSS. A OTAN foi \u201ctomando\u201d pa\u00edses como a Rom\u00eania, Hungria, Pol\u00f4nia, Litu\u00e2nia, Let\u00f4nia, Est\u00f4nia e outros ex-membros do Pacto de Vars\u00f3via com a finada URSS. Esta expans\u00e3o da OTAN foi brecada pela R\u00fassia quando ela se aproximou da Ge\u00f3rgia e depois da Ucr\u00e2nia. Hoje a OTAN treina o Ex\u00e9rcito ucraniano, que recebe armas do Reino Unidos, dos Estados Unidos, de outros pa\u00edses-membros da OTAN, al\u00e9m de apoio log\u00edstico da CIA.<\/p>\n<p>Quando o governo de Yanukovich caiu, e este se refugiou na R\u00fassia, esta tomou duas atitudes-chave. Primeira: reanexou a pen\u00ednsula da Crimeia, considerada estrat\u00e9gica para a sua seguran\u00e7a, por estar \u00e0s margens do Mar Negro e do estreito que liga este ao Mar de Azov, que tamb\u00e9m banha suas margens, assim como as da Ucr\u00e2nia e da R\u00fassia. Nesta regi\u00e3o est\u00e3o os \u00fanicos portos russos que permanecem abertos o ano inteiro, sendo vital para seu acesso naval ao Mar Negro e da\u00ed ao Mediterr\u00e2neo. Tem sido \u00e1rea de atrito moderado com for\u00e7as do antigo Ocidente, com navios brit\u00e2nicos e norte-americanos bordejando-a, al\u00e9m de haver uma presen\u00e7a a\u00e9rea significativa.<\/p>\n<p>Segunda: a R\u00fassia apoiou um movimento separatista na regi\u00e3o de Donbas, que, na Ucr\u00e2nia, \u00e9 vizinha da R\u00fassia. H\u00e1 ali uma forte presen\u00e7a (como na Crimeia) de uma popula\u00e7\u00e3o de origem russa, e a pr\u00f3pria l\u00edngua russa \u00e9 de uso comum. A regi\u00e3o \u00e9 rica em carv\u00e3o e siderurgia e tradicionalmente foi e \u00e9 palco de um forte movimento de trabalhadores do setor. Foi duramente ocupada pelos nazistas durante a Segunda Guerra, em 1941 e 42, pois Hitler considerava suas reservas de carv\u00e3o estrat\u00e9gicas para a expans\u00e3o alem\u00e3, at\u00e9 sua libera\u00e7\u00e3o pelo Ex\u00e9rcito Vermelho em 1943.<\/p>\n<p>Sua rela\u00e7\u00e3o com o governo de Kiev sempre foi algo tensa, com reivindica\u00e7\u00f5es, nunca atendidas, de maior autonomia. A tens\u00e3o se acentuou depois da independ\u00eancia da Ucr\u00e2nia, quando uma crise econ\u00f4mica devastou a regi\u00e3o. Com a queda de Yanukovych, rebeldes concentrados em centros urbanos de porte como Donetsk e Luhansk proclamaram-se independentes em rela\u00e7\u00e3o a Kiev. No momento h\u00e1 uma linha de confronta\u00e7\u00e3o entre os separatistas e as for\u00e7as do governo ucraniano, onde a escaramu\u00e7as s\u00e3o constantes desde 2014, tendo deixado um saldo consider\u00e1vel de v\u00edtimas fatais.<\/p>\n<p>Por sua vez, os \u201cher\u00f3is da democracia\u201d e \u201cda pra\u00e7a Maidan\u201d, uma vez instalados no poder, promoveram um grande expurgo, em todos os n\u00edveis, dos simpatizantes do governo Yanukovych. Foram al\u00e9m: passaram a reprimir o uso da l\u00edngua russa, o que s\u00f3 intensificou a rea\u00e7\u00e3o dos separatistas de Donbas e consolidou o apoio da maioria da popula\u00e7\u00e3o da Crimeia \u00e0 reanexa\u00e7\u00e3o por parte da R\u00fassia.<\/p>\n<p>H\u00e1 ainda uma outra personagem neste tabuleiro: a Uni\u00e3o Europeia. \u00c9 verdade que nesta altura \u00e9 uma personagem coadjuvante. Mas que, como est\u00e1 no palco das opera\u00e7\u00f5es em terra \u2013 sejam elas pol\u00edticas ou militares \u2013 pode ter um papel relevante no arranjo para as decis\u00f5es. O principal ator da Uni\u00e3o Europeia, a Alemanha, depende umbilicalmente das importa\u00e7\u00f5es do g\u00e1s russo, mais ou menos 50% de sua fonte energ\u00e9tica. O percentual \u00e9 menor, mas igualmente relevante, em rela\u00e7\u00e3o a outros pa\u00edses europeus. A transfer\u00eancia do conflito, hoje ainda restrito \u00e0s mesas diplom\u00e1ticas, embora azedas, para a \u00e1rea militar, provocaria um desastre na economia europeia.<\/p>\n<p>Por isto, tanto o chanceler alem\u00e3o, Olaf Scholz, quanto o presidente franc\u00eas, Emanuel Macron, v\u00eam se empenhando na busca de uma solu\u00e7\u00e3o negociada que evite a alternativa militar. O Reino Unido est\u00e1 enviando armas para a Ucr\u00e2nia, mas a Alemanha se negou a faz\u00ea-lo. Apesar das juras de unidade, \u00e9 evidente que h\u00e1 um desacordo de m\u00e9todos entre os parceiros anglo-sax\u00f5es, Estados Unidos e Reino Unido, de um lado, e a Fran\u00e7a e a Alemanha, do outro. Esta linha de tens\u00e3o se agravou com epis\u00f3dio em volta da constru\u00e7\u00e3o de submarinos na Austr\u00e1lia, em que Estados Unidos e Reino Unido \u201catravessaram\u201d um contrato pr\u00e9-existente entre Paris e Camberra, provocando seu cancelamento.<\/p>\n<p>No momento, os contendores maiores, R\u00fassia e Estados Unidos, com a OTAN ao lado, procuram explorar as fragilidades do advers\u00e1rio. A R\u00fassia atravessa dificuldades econ\u00f4micas. A interrup\u00e7\u00e3o da exporta\u00e7\u00e3o de seu g\u00e1s para a Europa teria um impacto muito negativo nela. Os EUA e a OTAN apostam em que a economia russa n\u00e3o resistiria ao esfor\u00e7o de uma guerra prolongada. De quebra, os EUA v\u00eam no horizonte a possibilidade de que o confronto militar provoque o bloqueio do segundo gasoduto russo para a Alemanha, o Nordstream 2, constru\u00eddo no Mar B\u00e1ltico, ao lado do Nordstream 1, o que abriria as portas e os portos alem\u00e3es e outros para importa\u00e7\u00f5es do g\u00e1s norte-americano, obtido atrav\u00e9s do processo chamado de\u00a0<em>fracking<\/em>, mais caro e de transporte mais complicado.<\/p>\n<p>Estrategicamente, isto significaria uma depend\u00eancia menor da Uni\u00e3o Europeia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 R\u00fassia, e maior em rela\u00e7\u00e3o aos Estados Unidos. O Nordstream 2 est\u00e1 pronto, mas ainda n\u00e3o em uso, e \u00e9 motivo de controv\u00e9rsia dentro do pr\u00f3prio governo alem\u00e3o, com os social-democratas do lado favor\u00e1vel a ele, e os Verdes do lado contr\u00e1rio. No meio fica o parceiro mais agudamente neoliberal, o FDP.<\/p>\n<p>A R\u00fassia aposta na divis\u00e3o dos advers\u00e1rios. Biden est\u00e1 numa posi\u00e7\u00e3o fragilizada nos Estados Unidos, acossado pelos advers\u00e1rios Republicanos que querem derrubar a maioria Democrata no Congresso nas elei\u00e7\u00f5es parlamentares de novembro deste ano. O mesmo acontece com o primeiro-ministro brit\u00e2nico Boris Johnson, acuado pelo chamado\u00a0<em>partygate<\/em>, as investiga\u00e7\u00f5es sobre festinhas e festonas organizadas no p\u00e1tio de sua resid\u00eancia oficial, Downing Street, n<sup>o<\/sup>. 10, durante a pandemia.<\/p>\n<p>A Europa inteira est\u00e1 pressionada por uma infla\u00e7\u00e3o in\u00e9dita h\u00e1 d\u00e9cadas, passando dos 5% anuais, ou mais alta ainda, dependendo do pa\u00eds e do setor analisado, cujo vetor de ponta \u00e9 o custo da energia, em subida mete\u00f3rica. A substitui\u00e7\u00e3o das importa\u00e7\u00f5es do g\u00e1s russo seria longa e demorada, mas o efeito de sua suspens\u00e3o sobre o inverno seria imediato: noites mais frias, mais longas, pre\u00e7os mais altos, al\u00e9m de uma economia entrando em espiral descendente: um desastre. Al\u00e9m disto, as san\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas contra a R\u00fassia, como sua expuls\u00e3o do sistema SWIFT de macro-transa\u00e7\u00f5es banc\u00e1rias, como pregam alguns dos Falc\u00f5es norte-americanos, seria tamb\u00e9m catastr\u00f3fica para empresas europeias e tamb\u00e9m dos EUA. Quanto a Moscou, este sempre poderia se refugiar sob as asas crescentes de Pequim.<\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil fazer um balan\u00e7o deste loda\u00e7al ucraniano e mundial. N\u00e3o consigo fugir da ideia de que, apesar de toda sua agressividade, uma aventura militar interessa menos \u00e0 R\u00fassia do que aos Falc\u00f5es norte-americanos, que permanecem ditando as cartas da pol\u00edtica externa dos Estados Unidos. Estes, atrav\u00e9s da OTAN, parecem mais interessados em provocar duas situa\u00e7\u00f5es poss\u00edveis: (a) a R\u00fassia promove a invas\u00e3o do territ\u00f3rio ucraniano, mesmo que limitada; (b) a R\u00fassia n\u00e3o promove a invas\u00e3o, e os cr\u00e9ditos pol\u00edticos v\u00e3o para a \u201cposi\u00e7\u00e3o firme\u201d dos Estados Unidos e de seus aliados, com aqueles ganhando pontos para prosseguir em sua pol\u00edtica de coopta\u00e7\u00e3o dos ex-membros do Pacto de Vars\u00f3via e de ex-rep\u00fablicas sovi\u00e9ticas, como aconteceu recentemente no Cazaquist\u00e3o, pa\u00eds de grandes reservas minerais e estrat\u00e9gico tanto para a R\u00fassia como para a China. A tentativa fracassou, gra\u00e7as, em parte, \u00e0 pronta interven\u00e7\u00e3o russa, atrav\u00e9s do novo acordo militar com algumas das ex-rep\u00fablicas sovi\u00e9ticas, mas a hip\u00f3tese n\u00e3o desapareceu.<\/p>\n<p>Em resumo, a paz est\u00e1 por um fio. E a maior parte da m\u00eddia ocidental segue batendo na tecla de que a \u00fanica agressora \u00e9 a R\u00fassia, fechando os olhos, as p\u00e1ginas e as telas para a a\u00e7\u00e3o agressiva da OTAN. N\u00e3o quero dizer, com isto, que a R\u00fassia seja angelical: nesta fritura a fogo brando, no caso do confronto diplom\u00e1tico, ou alto, no caso da a\u00e7\u00e3o diretamente militar, n\u00e3o h\u00e1 mocinhos nem bandidos, somente interesses em jogo.<\/p>\n<p>PS \u2013 O camarada Vladimir Putin convidou o atual usurpador do Pal\u00e1cio do Planalto para uma visita oficial \u00e0 R\u00fassia, que este deve realizar em fevereiro, apesar do risco de conflito iminente. Para al\u00e9m de uma poss\u00edvel identifica\u00e7\u00e3o de estilo entre o neoczar de Moscou e o projeto de ditador de Bras\u00edlia, o motivo do convite permanece envolto em especula\u00e7\u00f5es as mais variadas. Li uma interpreta\u00e7\u00e3o alvissareira de que isto era uma demonstra\u00e7\u00e3o do \u201ccar\u00e1ter de estadista\u201d de Putin, que n\u00e3o se recusaria a conversar com ningu\u00e9m. N\u00e3o duvido do car\u00e1ter de \u201cestadista\u201d de Putin, que combina o estilo de um s\u00f3brio jogador de p\u00f4quer com o de um lutador de karat\u00ea um tanto exibicionista. Mas tenho minhas ressalvas.<\/p>\n<p>N\u00e3o posso deixar de lado o fato de que no passado recente o principal advers\u00e1rio do usurpador, o ex-presidente Lula, foi festivamente recebido pela social-democracia europeia e pelo atual principal l\u00edder da Uni\u00e3o, Emmanuel Macron, com direito a tapete vermelho, guarda republicana e outros ademanes reservados a chefes de estado. Lula e o PT sempre foram mais ligados aos social-democratas da Europa do que aos comunistas, hoje ex-comunistas de Moscou. Macron tem uma clara a justific\u00e1vel antipatia em rela\u00e7\u00e3o ao usurpador de Bras\u00edlia. Por sua vez, Putin sempre aposta no enfraquecimento da Uni\u00e3o Europeia. Na Europa as principais conex\u00f5es de Putin tendem para a direita ou extrema-direita, que n\u00e3o escondem sua ojeriza pela atual Uni\u00e3o Europeia.<\/p>\n<p>O melhor para a nossa hoje desprestigiada diplomacia seria garantir que tudo ficasse quieto, sem grandes alardes, o que pode ser muito dif\u00edcil, dado o car\u00e1ter de boia de salva\u00e7\u00e3o que o convite de Putin tem para o usurpador, hoje um n\u00e1ufrago isolado na geopol\u00edtica planet\u00e1ria, a n\u00e3o ser por seus v\u00ednculos com o que nela existe de mais reacion\u00e1rio e s\u00f3rdido.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: A Ucr\u00e2nia, os falc\u00f5es e os pombos &#8211; A TERRA \u00c9 REDONDA &#8211; https:\/\/aterraeredonda.com.br\/a-ucrania-os-falcoes-e-os-pombos\/?utm_source=rss&amp;utm_medium=rss&amp;utm_campaign=a-ucrania-os-falcoes-e-os-pombos&amp;utm_term=2022-01-31<\/p>\n<\/article>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>FLAVIO AGUIAR &#8211;\u00a0Um balan\u00e7o do loda\u00e7al ucraniano e mundial, onde a paz est\u00e1 por um fio Para entender o que est\u00e1 acontecendo hoje na Ucr\u00e2nia, \u00e9 necess\u00e1rio tomar um recuo no tempo, coisa de sessenta anos ou mais, para dizer o m\u00ednimo. 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