{"id":16378,"date":"2022-01-30T12:28:22","date_gmt":"2022-01-30T15:28:22","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=16378"},"modified":"2022-02-21T21:08:34","modified_gmt":"2022-02-22T00:08:34","slug":"assim-chegamos-a-era-do-futilitarismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2022\/01\/30\/assim-chegamos-a-era-do-futilitarismo\/","title":{"rendered":"Assim chegamos \u00e0 era do futilitarismo"},"content":{"rendered":"<p><strong>Neil Vallelly<\/strong> &#8211; Durante s\u00e9culos, economistas e fil\u00f3sofos teorizaram o valor da utilidade: como ela molda a divis\u00e3o do trabalho, como influencia a escolha do consumidor e contribui para as concep\u00e7\u00f5es de boa vida ou de bem comum. Fil\u00f3sofos utilitaristas, como Jeremy Bentham e John Stuart Mill, afirmavam que maximizar a utilidade \u2013 a capacidade de um objeto de causar prazer ou reduzir a dor \u2013 era o ingrediente m\u00e1gico da felicidade. Economistas, dos cl\u00e1ssicos aos neocl\u00e1ssicos e neoliberais, conceberam indiv\u00edduos e consumidores como \u201cmaximizadores de utilidade\u201d racionais, e Karl Marx afirmava que \u201cnada pode ser um valor sem primeiro ser um objeto de utilidade\u201d.<\/p>\n<p>Embora esses pensadores possam diferir sobre como a utilidade deve ser maximizada e quem colhe as recompensas desse processo, poucos discordam de que a maximiza\u00e7\u00e3o da utilidade \u00e9 em si uma coisa boa. Afinal, onde estaria a sociedade humana sem a utilidade?<\/p>\n<p>Mas a utilidade n\u00e3o \u00e9 algo que existe naturalmente; n\u00e3o \u00e9 um conceito neutro ou objetivo. A utilidade \u00e9 sempre um efeito das rela\u00e7\u00f5es sociais, constru\u00eddas politicamente e profundamente enredadas nas estruturas de poder de uma sociedade. A quest\u00e3o, ent\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 tanto \u201co que \u00e9 \u00fatil?\u201d Em vez disso, poderia ser: \u201ccomo algo \u00e9 definido como \u00fatil e quem pode julg\u00e1-lo como tal?\u201d<\/p>\n<p><strong>Dinheiro e\u00a0<\/strong><strong>u<\/strong><strong>tilidade<\/strong><\/p>\n<p>O utilitarismo fornece um bom exemplo da import\u00e2ncia dessa quest\u00e3o. Para os utilitaristas, a moralidade de uma a\u00e7\u00e3o repousa em seu potencial de maximizar a utilidade, muitas vezes entendida como produzir o maior prazer e o menor sofrimento, para o maior n\u00famero de pessoas. Mas, para ser maximizada, a utilidade deve primeiro ser identificada em certos materiais e pr\u00e1ticas sociais, e \u00e9 a\u00ed que a quest\u00e3o de quem pode julgar a utilidade se torna crucial. Se os capitalistas det\u00eam o poder em uma sociedade, ent\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil ver como o utilitarismo se sobrep\u00f5e aos discursos de produtividade e acumula\u00e7\u00e3o, porque processos como crescimento econ\u00f4mico, com\u00e9rcio e gera\u00e7\u00e3o de riqueza ser\u00e3o politicamente constru\u00eddos como os cursos de a\u00e7\u00e3o mais \u00fateis tanto para o indiv\u00edduo quanto para a felicidade coletiva. Mas se a utilidade fosse definida de outras maneiras, como fortes la\u00e7os sociais, bem-estar universal, formas pol\u00edticas n\u00e3o hier\u00e1rquicas e prote\u00e7\u00e3o ambiental, ent\u00e3o a maximiza\u00e7\u00e3o da utilidade teria uma cara muito diferente.<\/p>\n<p>Por esta raz\u00e3o, a utilidade nunca pode ser concebida exclusivamente como um conceito econ\u00f4mico ou filos\u00f3fico. Em vez disso, a utilidade \u00e9 sempre representativa de uma certa compreens\u00e3o da economia pol\u00edtica, das rela\u00e7\u00f5es entre as formas de produ\u00e7\u00e3o, trabalho e com\u00e9rcio e os mecanismos de governo, poder e, em \u00faltima an\u00e1lise, o capitalismo. Este fato \u00e9 mais evidente na obra de Jeremy Bentham, um fil\u00f3sofo e reformador social do final do s\u00e9culo XVIII e in\u00edcio do XIX. Bentham foi o fundador do utilitarismo moderno e s\u00f3 conseguiu encontrar uma medida confi\u00e1vel de utilidade: dinheiro. Em um ensaio intitulado \u201cA Filosofia da Ci\u00eancia Econ\u00f4mica\u201d, ele escreveu: \u201cO term\u00f4metro \u00e9 o instrumento para medir o calor, o bar\u00f4metro \u00e9 o instrumento para medir a press\u00e3o do ar, e o dinheiro \u00e9 o instrumento para medir a quantidade de dor e prazer\u201d.<\/p>\n<p>Sob tal l\u00f3gica, a sociedade mais moral \u00e9 aquela em que os indiv\u00edduos perseguem o ac\u00famulo de dinheiro, sob o ditame \u00e9tico de que isso levar\u00e1 n\u00e3o apenas \u00e0 felicidade individual, mas tamb\u00e9m a um maior bem-estar coletivo. A simbiose percebida entre a maximiza\u00e7\u00e3o da utilidade e a acumula\u00e7\u00e3o de riqueza tem sido um mantra dominante das sociedades capitalistas, onde o poder pol\u00edtico rotineiramente garante que a utilidade seja definida como dinheiro, e onde uma \u00e9tica utilitarista \u00e9 continuamente invocada como justificativa para as explora\u00e7\u00f5es e desigualdades envolvidas na acumula\u00e7\u00e3o de capital.<\/p>\n<p>A fantasia utilit\u00e1ria de um mundo de maximizadores de utilidade, perseguindo racionalmente a acumula\u00e7\u00e3o de dinheiro e contribuindo para um bem comum seguro e saud\u00e1vel, obviamente n\u00e3o se concretizou. Em vez disso, especialmente com a muta\u00e7\u00e3o neoliberal do capitalismo, surgiu uma sociedade de indiv\u00edduos atomistas, que veem a maximiza\u00e7\u00e3o da utilidade como um esfor\u00e7o competitivo, que tenta aliviar qualquer responsabilidade em rela\u00e7\u00e3o ao bem comum. A pr\u00e1tica da maximiza\u00e7\u00e3o da utilidade, longe de nos empurrar para uma sociedade mais igualit\u00e1ria, acabou nos prendendo em uma rela\u00e7\u00e3o destrutiva com o capital.<\/p>\n<p><strong>A condi\u00e7\u00e3o\u00a0<\/strong><em><strong>futilit\u00e1ria<\/strong><\/em><\/p>\n<p>O utilitarismo se transformou em \u201c<em>futilitarismo<\/em>\u201d: situa\u00e7\u00e3o em que a maximiza\u00e7\u00e3o da utilidade leva ao agravamento das condi\u00e7\u00f5es sociais e econ\u00f4micas coletivas. Endividamo-nos para obter qualifica\u00e7\u00e3o, apenas para depois descobrir que o emprego \u00e9 cada vez mais escasso, informal e prec\u00e1rio; lavamos nossos potes de geleia de pl\u00e1stico para reciclagem enquanto as empresas de combust\u00edveis f\u00f3sseis destroem nossos mares e as corpora\u00e7\u00f5es invadem as florestas tropicais em r\u00e1pido avan\u00e7o; e quando um v\u00edrus mortal paralisa o mundo, descobrimos que os esfor\u00e7os globais na maximiza\u00e7\u00e3o da utilidade n\u00e3o recompensaram a maioria da popula\u00e7\u00e3o mundial com maior seguran\u00e7a social e financeira. Na verdade, muitos de n\u00f3s maximizam a utilidade para fins que s\u00e3o in\u00fateis para o maior bem-estar da sociedade, muitas vezes apenas para garantir alguma apar\u00eancia de sobreviv\u00eancia individual. Eu chamo essa armadilha de \u201ccondi\u00e7\u00e3o futilit\u00e1ria\u201d.<\/p>\n<p>A g\u00eanese da condi\u00e7\u00e3o futilit\u00e1ria surgiu justamente no momento em que a utilidade se santificou sob o capitalismo. Sob as condi\u00e7\u00f5es do capitalismo, o princ\u00edpio da maior felicidade n\u00e3o pode ser realizado ou, pelo menos, apenas uma vers\u00e3o pervertida dele pode existir. A classe trabalhadora sempre carregou o fardo do trabalho de maximiza\u00e7\u00e3o da utilidade: de produzir as coisas que s\u00e3o \u00fateis e, em \u00faltima an\u00e1lise, o dinheiro associado \u00e0 utilidade.<\/p>\n<p>Mas precisamente por causa das rela\u00e7\u00f5es sociais exploradoras do capitalismo, \u00e9 apenas a classe capitalista que pode realmente experimentar o prazer associado \u00e0 utilidade. A ascens\u00e3o de uma grande classe m\u00e9dia em meados do s\u00e9culo 20, apoiada por uma virada social-democrata, criou a ilus\u00e3o de que o princ\u00edpio da maior felicidade poderia ser realizado sob o capitalismo, e que a grande maioria das pessoas poderia viver livre e bem, embora apenas no Norte Global.<\/p>\n<p>Mas o neoliberalismo acabou com essa ilus\u00e3o. Ao desmantelar o Estado de Bem-Estar Social e valorizar a competi\u00e7\u00e3o entre os indiv\u00edduos, o neoliberalismo separou a maximiza\u00e7\u00e3o da utilidade do bem-estar social. Ao faz\u00ea-lo, faz do\u00a0<em>futilitarismo<\/em>\u00a0a nova filosofia moral do capitalismo, ao exigir a maximiza\u00e7\u00e3o da utilidade dos indiv\u00edduos, ao mesmo tempo em que destr\u00f3i simultaneamente as estruturas e institui\u00e7\u00f5es sociais que poderiam garantir qualquer sensa\u00e7\u00e3o de bem-estar coletivo. A futilidade floresce nessas condi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>No entanto, a futilidade raramente apareceu de forma abrangente no estudo do capitalismo. Talvez porque a futilidade pare\u00e7a ser um efeito colateral da produ\u00e7\u00e3o capitalista e de suas rela\u00e7\u00f5es sociais, algo que n\u00e3o \u00e9 intr\u00ednseco \u00e0 funcionalidade do capitalismo. Defendo, ao contr\u00e1rio, que o conceito de futilidade merece mais aten\u00e7\u00e3o nos exames cr\u00edticos do capitalismo, especialmente porque a futilidade \u00e9 central para o desenvolvimento, implementa\u00e7\u00e3o e longevidade do capitalismo neoliberal no in\u00edcio do s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p>O exemplo da universidade contempor\u00e2nea pode ajudar a contextualizar o conceito de condi\u00e7\u00e3o<em>\u00a0futilit\u00e1ria<\/em>. A universidade atualmente depende de um vasto ex\u00e9rcito de professores ocasionais e substitutos, principalmente estudantes de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o ou pesquisadores em p\u00f3s-doutorado recrutados temporariamente, sem os quais a universidade entraria em colapso. No entanto, esses trabalhadores s\u00e3o rotineiramente tratados com desprezo pelas hierarquias universit\u00e1rias e explorados em contratos de curto prazo que raramente cobrem a totalidade das horas em que realmente trabalham.<\/p>\n<p>Mas, para conseguir um emprego acad\u00eamico em tempo integral \u2013 cada vez mais raro em algumas disciplinas, especialmente nas Humanidades \u2013 esses trabalhadores s\u00e3o obrigados n\u00e3o apenas a ganhar o m\u00e1ximo de experi\u00eancia docente poss\u00edvel, mas tamb\u00e9m a publicar incansavelmente suas pesquisas, e muitas vezes sem acesso a bibliotecas universit\u00e1rias. Em outras palavras, eles s\u00e3o for\u00e7ados a maximizar sua utilidade tanto quanto poss\u00edvel, com a t\u00eanue esperan\u00e7a de que isso possa levar a um emprego seguro no futuro. Para alguns muito seletos, esse trabalho em tempo integral se torna uma realidade. Mas, para a grande maioria, as tentativas de se tornarem \u00fateis os prendem em um ciclo de contratos de curto prazo que pagam muito pouco e, em \u00faltima an\u00e1lise, n\u00e3o levam a lugar algum.<\/p>\n<p>A universidade sabe que esse precariado intelectual tem pouca escolha a n\u00e3o ser maximizar a utilidade, ent\u00e3o ela passa a explorar seu trabalho pagando cada vez menos por ele, e mantendo o fluxo de estudantes e taxas. Fica claro, portanto, que a pr\u00e1tica da maximiza\u00e7\u00e3o da utilidade por parte desse precariado intelectual pode, em algumas ocasi\u00f5es, levar ao bem-estar individual na forma de uma posi\u00e7\u00e3o permanente, mas tamb\u00e9m consolida as condi\u00e7\u00f5es que tornam o bem-estar da grande maioria desse mesmo precariado imposs\u00edvel.<\/p>\n<p><strong>O neoliberalismo precisa de futilidade<\/strong><\/p>\n<p>A universidade n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico exemplo da l\u00f3gica da condi\u00e7\u00e3o futilit\u00e1ria. De fato, o capitalismo neoliberal parece funcionar melhor quando muitas de nossas a\u00e7\u00f5es se tornam f\u00fateis, n\u00e3o apenas porque somos incapazes de desafiar sua hegemonia, mas tamb\u00e9m porque em nosso desespero de maximizar a utilidade para melhorar nossas condi\u00e7\u00f5es sociais e econ\u00f4micas individuais, simultaneamente internalizamos as racionalidades de autossufici\u00eancia, responsabilidade pessoal e competi\u00e7\u00e3o que desmantelam as solidariedades sociais.<\/p>\n<p>Cada vez mais, o valor de uso n\u00e3o est\u00e1 relacionado \u00e0s nossas tentativas conscientes de maximizar a utilidade. Para muitas corpora\u00e7\u00f5es, somos mais \u00fateis em nosso tempo de lazer, quando fazemos compras on-line, postamos nas m\u00eddias sociais, percorremos as not\u00edcias em nossos telefones, usamos\u00a0<em>F<\/em><em>itbits<\/em>\u00a0ou simplesmente ligamos a Alexa enquanto vagamos pela casa. Ao faz\u00ea-lo, geramos informa\u00e7\u00f5es para uma vasta infraestrutura tecnol\u00f3gica que gera capital por meio do compartilhamento dessas informa\u00e7\u00f5es com outras corpora\u00e7\u00f5es e anunciantes.<\/p>\n<p>Isso sem falar na futilidade existencial da vida neoliberal, na qual somos confrontados por t\u00e3o vastas desigualdades e cat\u00e1strofes sociais, pol\u00edticas e ambientais que \u00e9 quase imposs\u00edvel n\u00e3o sentir que enfrentar essas quest\u00f5es \u00e9 f\u00fatil. A complexidade dessas quest\u00f5es e sua natureza amorfa e descentralizada tamb\u00e9m significam que a maioria de n\u00f3s n\u00e3o entende, por exemplo, como funciona o sistema financeiro, como os dados s\u00e3o coletados, armazenados e usados, ou sobre a microbiologia dos v\u00edrus. Portanto, n\u00e3o sabemos quem ou o que exatamente pode ser respons\u00e1vel por crises financeiras, viola\u00e7\u00f5es de privacidade ou pandemias. \u00c9 muito mais f\u00e1cil culpar os imigrantes, as elites ou mesmo o p\u00f3s-modernismo.<\/p>\n<p>O capitalismo neoliberal se alimenta de nossa futilidade e, ao mesmo tempo, como uma raz\u00e3o normativa governante \u2013 no sentido foucaultiano de \u201cconduta da conduta\u201d \u2013 o neoliberalismo nos leva a nos comportarmos como se nossos atos individuais de maximiza\u00e7\u00e3o de utilidade garantissem nosso bem-estar, e at\u00e9 mesmo \u00e0s vezes causassem mudan\u00e7as sociais substanciais. Ao sempre traduzir o social atrav\u00e9s das lentes do indiv\u00edduo, o neoliberalismo reduz as quest\u00f5es de justi\u00e7a social e transforma\u00e7\u00e3o a pouco mais do que formas de mercantiliza\u00e7\u00e3o e escolha do consumidor. A raz\u00e3o neoliberal se manifesta em uma s\u00e9rie de esfor\u00e7os sociais e pol\u00edticos f\u00fateis, do\u00a0<em>automarketing<\/em>\u00a0ao consumismo \u00e9tico, que muitas vezes se veem como alternativas radicais ao\u00a0<em>status quo<\/em>, mas que na pr\u00e1tica apenas o refor\u00e7am.<\/p>\n<p><em><strong>F<\/strong><\/em><em><strong>utilitarismo<\/strong><\/em><strong>\u00a0n\u00e3o \u00e9 niilismo<\/strong><\/p>\n<p>Um ponto muito importante \u00e9 que o\u00a0<em>futilitarismo<\/em>\u00a0n\u00e3o \u00e9 o mesmo que o niilismo. Certamente, o niilismo \u00e9 uma caracter\u00edstica proeminente do neoliberalismo. Mark Fisher chegou a descrev\u00ea-lo como \u201cnihiliberalismo\u201d. Wendy Brown tamb\u00e9m argumenta que \u201co niilismo cruza o neoliberalismo\u201d, criando uma estranha conflu\u00eancia de \u201cdestitui\u00e7\u00e3o \u00e9tica\u201d e \u201cretid\u00e3o religiosa ou melancolia conservadora para um passado fantasm\u00e1tico\u201d. Essa conflu\u00eancia de niilismo e neoliberalismo, costurada por governos de direita e esquerda nas \u00faltimas quatro d\u00e9cadas, deu origem a uma pol\u00edtica reacion\u00e1ria que se deleita em simultaneamente n\u00e3o se importar com o bem-estar dos mais destitu\u00eddos (exemplificado pela frase da camiseta de Melania Trump \u201c<em>I really don\u2019t care<\/em>\u201d, usada no encontro com crian\u00e7as imigrantes presas na fronteira EUA-M\u00e9xico), mas tamb\u00e9m exclama que o mundo est\u00e1 em crise por causa da perda dos valores conservadores tradicionais.<\/p>\n<p>Enquanto o niilismo certamente est\u00e1 presente no neoliberalismo, o conceito de\u00a0<em>futilitarismo<\/em>\u00a0abre espa\u00e7o para outra dimens\u00e3o na falta de sentido da vida neoliberal. Nessa dimens\u00e3o, a falta de sentido n\u00e3o \u00e9 algo institu\u00eddo passivamente nem ativamente abra\u00e7ado, mas algo que emerge na vida das pessoas sem seu consentimento ou mesmo conhecimento, seja em seu trabalho, educa\u00e7\u00e3o, situa\u00e7\u00e3o social, situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica ou status legal. Onde o niilismo implica assumir uma certa vis\u00e3o do mundo, o\u00a0<em>futilitarismo<\/em>\u00a0\u00e9 muito mais insidioso e internalizado. Afinal, muitos de n\u00f3s podem acreditar que estamos contribuindo para a sociedade de maneira significativa: pergunte a qualquer consultor de rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas.<\/p>\n<p>O\u00a0<em>futilitarismo<\/em>\u00a0\u00e9, ao contr\u00e1rio, uma forma de aprisionamento na busca de sentido, onde somos for\u00e7ados a repetir uma s\u00e9rie de comportamentos di\u00e1rios que nos enredam mais profundamente na pura l\u00f3gica da competi\u00e7\u00e3o e do individualismo que nega qualquer desenvolvimento de la\u00e7os comuns e bem-estar coletivo.<\/p>\n<p>Ao focar na futilidade ao inv\u00e9s do niilismo, a teoria do\u00a0<em>futilitarismo<\/em>\u00a0extrapola n\u00e3o apenas a experi\u00eancia da falta de sentido que vem com o neoliberalismo, mas a constru\u00e7\u00e3o dessa falta de sentido nas pr\u00e1ticas sociais e pol\u00edticas contempor\u00e2neas. O\u00a0<em>futilitarismo<\/em>\u00a0traz \u00e0 tona a futilidade da vida cotidiana no per\u00edodo neoliberal, com a esperan\u00e7a de gerar ideias de como combater a falta de sentido que n\u00e3o termina no niilismo. O niilismo \u00e9 um fim em si mesmo; uma maior consci\u00eancia e compreens\u00e3o da futilidade pode ser o ponto de partida de algo significativo.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade, no entanto, que muitas pessoas n\u00e3o se importam se o utilitarismo se transformou em\u00a0<em>futilitarismo<\/em>, ou se seus atos de maximiza\u00e7\u00e3o da utilidade s\u00e3o explorados pelo neoliberalismo para desmantelar la\u00e7os comuns e interesses m\u00fatuos. De fato, no Norte Global, muitas pessoas est\u00e3o relativamente seguras, especialmente se forem brancas, de meia-idade a idosas, e tiverem cidadania, uma casa, uma renda regular ou pens\u00e3o e acesso ao sistema de sa\u00fade privado. Eles podem n\u00e3o se importar que a diferen\u00e7a de renda entre o Norte e o Sul Global quase quadruplicou desde a d\u00e9cada de 1960, ou que as desigualdades econ\u00f4micas e sociais tenham aumentado muito desde a d\u00e9cada de 1980, porque todos em sua rua parecem estar indo bem. E mesmo alguns daqueles que n\u00e3o est\u00e3o seguros raramente est\u00e3o diretamente zangados com o capitalismo, mas sim com as elites urbanas, com os imigrantes ou com os fraudadores de benef\u00edcios.<\/p>\n<p><strong>Combatendo o\u00a0<\/strong><em><strong>futilitarismo<\/strong><\/em><\/p>\n<p>O que estamos testemunhando \u00e9 uma importante divis\u00e3o intergeracional entre os mais velhos e os jovens, os\u00a0<em>baby-boomers<\/em>\u00a0e os\u00a0<em>millennials.<\/em>\u00a0Os opositores, dissidentes e anticapitalistas em todo o mundo est\u00e3o emergindo cada vez mais das gera\u00e7\u00f5es mais jovens, as mesmas que nasceram no neoliberalismo e n\u00e3o conheceram nada al\u00e9m disso.<\/p>\n<p>Os\u00a0<em>millennials\u00a0<\/em>t\u00eam uma m\u00e1 reputa\u00e7\u00e3o como a gera\u00e7\u00e3o narcisista, pregui\u00e7osa, dependente de tecnologia e mimada, que n\u00e3o conheceu um dia de trabalho duro das gera\u00e7\u00f5es anteriores. O que \u00e9 deliberadamente esquecido nessas cr\u00edticas \u00e9 o fato de que esta gera\u00e7\u00e3o foi lan\u00e7ada em um mundo onde a educa\u00e7\u00e3o \u00e9 muito cara, a d\u00edvida \u00e9 inevit\u00e1vel, o trabalho \u00e9 escasso e prec\u00e1rio, os sal\u00e1rios s\u00e3o arrochados, os servi\u00e7os sociais s\u00e3o reduzidos, o planeta est\u00e1 em chamas e o futuro \u00e9 aparentemente inexistente. Para muitos deles, a experi\u00eancia vivida do neoliberalismo \u2013 ou qualquer que seja o termo que escolham usar \u2013 \u00e9 sombria. Dos EUA e Reino Unido a Hong Kong e Chile, estamos testemunhando grandes bols\u00f5es de resist\u00eancia anticapitalista liderada pelos chamados \u201c<em>millennials<\/em>\u00a0pregui\u00e7osos\u201d. Estes s\u00e3o os gritos desesperados de uma gera\u00e7\u00e3o que rejeita a futilidade da vida neoliberal.<\/p>\n<p>A futilidade mascarada de utilidade \u00e9 a ess\u00eancia da transforma\u00e7\u00e3o da vida cotidiana do neoliberalismo. A cada momento, somos encorajados como indiv\u00edduos a assumir uma maior responsabilidade pessoal, a investir em n\u00f3s mesmos com sabedoria e a extrair cada gota de utilidade de qualquer oportunidade. Ao mesmo tempo, as estruturas sociais e econ\u00f4micas que podem facilitar esses atos individuais de maximiza\u00e7\u00e3o da utilidade s\u00e3o repetidamente desmanteladas e sabotadas. Como resultado, a condi\u00e7\u00e3o\u00a0<em>futilit\u00e1ria<\/em>\u00a0tornou-se a condi\u00e7\u00e3o humana dominante no in\u00edcio do s\u00e9culo XXI, onde as buscas individuais de maximiza\u00e7\u00e3o da utilidade s\u00e3o usadas como exemplos para nos convencer de que n\u00e3o precisamos de uma infraestrutura social forte ou melhores salvaguardas econ\u00f4micas.<\/p>\n<p>O reconhecimento de nossa futilidade compartilhada, e esse \u00e9 meu argumento, pode se tornar a base de um novo sujeito pol\u00edtico coletivo \u2013 o\u00a0<em>futilitarismo<\/em> \u2013 por meio do qual podemos come\u00e7ar a recuperar a utilidade das for\u00e7as destrutivas do neoliberalismo.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Assim chegamos \u00e0 era do futilitarismo &#8211; Outras Palavras &#8211; https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/assimchegamos-a-era-do-futilitarismo\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neil Vallelly &#8211; Durante s\u00e9culos, economistas e fil\u00f3sofos teorizaram o valor da utilidade: como ela molda a divis\u00e3o do trabalho, como influencia a escolha do consumidor e contribui para as concep\u00e7\u00f5es de boa vida ou de bem comum. 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