{"id":16346,"date":"2022-01-19T12:29:58","date_gmt":"2022-01-19T15:29:58","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=16346"},"modified":"2022-01-14T10:36:36","modified_gmt":"2022-01-14T13:36:36","slug":"petrobras-fiat-e-folha-sao-investigadas-em-pesquisas-sobre-colaboracao-com-a-ditadura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2022\/01\/19\/petrobras-fiat-e-folha-sao-investigadas-em-pesquisas-sobre-colaboracao-com-a-ditadura\/","title":{"rendered":"Petrobras, Fiat e Folha s\u00e3o investigadas em pesquisas sobre colabora\u00e7\u00e3o com a ditadura"},"content":{"rendered":"<p><strong>Victor Ohana<\/strong> &#8211; Dezenas de pesquisadores de todo o Pa\u00eds v\u00e3o se debru\u00e7ar sobre empresas suspeitas de terem colaborado com a repress\u00e3o durante a\u00a0<a href=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/tag\/ditadura-militar\/\">ditadura militar<\/a>. O projeto, intitulado\u00a0<em>A responsabilidade de empresas por viola\u00e7\u00f5es de direitos durante a ditadura<\/em>, tem como objetivo detalhar, ao longo de um ano e meio de estudos, a atua\u00e7\u00e3o dessas corpora\u00e7\u00f5es nos anos do regime.<\/p>\n<p>S\u00e3o pelo menos 45 acad\u00eamicos envolvidos. Os trabalhos tiveram in\u00edcio em novembro, mesmo m\u00eas em que se completou\u00a0<a href=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/politica\/estarrecedor-diz-dilma-ao-relembrar-homenagem-de-bolsonaro-ao-torturador-brilhante-ustra\/\">10 anos da cria\u00e7\u00e3o da Comiss\u00e3o Nacional da Verdade.<\/a>\u00a0Em 2014, o colegiado publicou um relat\u00f3rio com 4,3 mil p\u00e1ginas sobre os crimes cometidos na ditadura, como pris\u00f5es arbitr\u00e1rias, torturas e execu\u00e7\u00f5es. Esses dados foram o ponto de partida da pesquisa, al\u00e9m de documentos de acervos que ainda devem ser consultados.<\/p>\n<p>O financiamento vem da indeniza\u00e7\u00e3o paga pela\u00a0<a href=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/tag\/volkswagen\/\">Volkswagen<\/a>, no \u00e2mbito de um processo movido pelo\u00a0<a href=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/tag\/ministerio-publico-federal\/\">Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal<\/a>, em conjunto com o Minist\u00e9rio P\u00fablico do Trabalho e o Minist\u00e9rio P\u00fablico de S\u00e3o Paulo, que exigiram repara\u00e7\u00f5es ap\u00f3s investiga\u00e7\u00f5es mostrarem que\u00a0<a href=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/justica\/os-crimes-cometidos-pela-volkswagen-na-ditadura-segundo-relatorio-do-mp\/\">a companhia foi c\u00famplice da repress\u00e3o no regime militar.<\/a><\/p>\n<blockquote><p>O material avaliado indica uma rela\u00e7\u00e3o direta entre o sistema de seguran\u00e7a interno dessas companhias e o sistema de informa\u00e7\u00f5es da repress\u00e3o<\/p><\/blockquote>\n<p>Ap\u00f3s um acordo que se arrastou durante anos e cheio e idas e vindas, a Volkswagen se comprometeu a pagar 36,3 milh\u00f5es de reais para indeniza\u00e7\u00f5es individuais e iniciativas ligadas a atos de repara\u00e7\u00e3o e de acesso \u00e0 mem\u00f3ria e verdade sobre a ditadura. Do montante total, 2 milh\u00f5es de reais foram destinados \u00e0 pesquisa da Unifesp.<\/p>\n<p>Outra fatia da indeniza\u00e7\u00e3o da Volkswagen, de 2,5 milh\u00f5es de reais, vai financiar a constru\u00e7\u00e3o do Laborat\u00f3rio de Identifica\u00e7\u00e3o Humana, que dar\u00e1 sequ\u00eancia \u00e0 an\u00e1lise das amostras de materiais esquel\u00e9ticos recolhidas na Vala Clandestina de Perus, onde\u00a0<a href=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/cultura\/esqueletos-a-vista-livro-reconta-a-descoberta-da-vala-de-perus\/\">mais de mil ossadas foram ocultadas pela ditadura<\/a>\u00a0nos anos 70.<\/p>\n<p>Segundo\u00a0Edson Teles, professor no curso de Filosofia da\u00a0Universidade Federal de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/tag\/sao-paulo\/\">S\u00e3o Paulo<\/a>, a Unifesp, e coordenador-geral do projeto, o material avaliado at\u00e9 agora indica uma situa\u00e7\u00e3o comum: a rela\u00e7\u00e3o direta entre o sistema de seguran\u00e7a interno dessas companhias e o sistema de informa\u00e7\u00f5es da repress\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cParte dessas empresas s\u00e3o estatais, que foram obrigadas a montar assessorias de informa\u00e7\u00e3o para ca\u00e7ar trabalhadores em situa\u00e7\u00e3o de luta sindical. As empresas privadas n\u00e3o eram obrigadas, mas os ind\u00edcios s\u00e3o fortes de que muitas delas tiveram\u201d, diz ele em entrevista a\u00a0<strong>CartaCapital.\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>A lista de dez companhias \u2014 das quais as mais famosas s\u00e3o Petrobras, Fiat e\u00a0<em>Folha de S. Paulo<\/em>\u00a0\u2014 foi divulgada pela\u00a0Unifesp em 24 de outubro. S\u00e3o elas:<\/p>\n<ul>\n<li>A petroleira Petrobras;<\/li>\n<li>A montadora italiana Fiat;<\/li>\n<li>O jornal\u00a0<em>Folha de S. Paulo;<\/em><\/li>\n<li>A produtora de cobre Paranapanema;<\/li>\n<li>A Companhia Docas de Santos, empresa que gerenciava o Porto de Santos, em S\u00e3o Paulo;<\/li>\n<li>A Companhia Sider\u00fargica Nacional, CSN;<\/li>\n<li>A Itaipu Binacional, que administra a Usina Hidrel\u00e9trica de Itaipu;<\/li>\n<li>A empresa aliment\u00edcia Josapar;<\/li>\n<li>A Companhia Brasileira de Material Ferrovi\u00e1ria, Cobrasma, extinta em 1998;<\/li>\n<li>A empresa Aracruz Celulose.<\/li>\n<\/ul>\n<p><strong>Petrobras favoreceu pris\u00f5es e torturas, diz soci\u00f3loga<\/strong><\/p>\n<p>No dia seguinte ao golpe de 64, a Petrobras j\u00e1 dispunha de uma estrutura militarizada de repress\u00e3o aos trabalhadores nas refinarias. Em 8 de abril daquele ano, uma semana depois, a\u00a0petrol\u00edfera havia formado a Comiss\u00e3o Geral de Investiga\u00e7\u00e3o, a CGI, composta por tr\u00eas generais. Em seis meses, a CGI fez um levantamento de tr\u00eas mil \u201csuspeitos\u201d entre os 36 mil funcion\u00e1rios.<\/p>\n<p>\u00c9 o que indicam as pesquisas chefiadas pela soci\u00f3loga Lucieneida Praun junto a mais quatro pesquisadores.\u00a0Segundo a pesquisadora, a Petrobras abriu 1,5 mil processos internos, indiciou 712 trabalhadores e demitiu 516, s\u00f3 no primeiro semestre de opera\u00e7\u00e3o da comiss\u00e3o.<\/p>\n<p>Outros estudos j\u00e1 mostravam que a Petrobras possu\u00eda um sistema articulado de vigil\u00e2ncia, segundo a coordenadora.\u00a0<strong>H\u00e1 relatos de uso de depend\u00eancias da empresa para a tortura de trabalhadores<\/strong>, como no caso de M\u00e1rio Lima, deputado federal e presidente do Sindicato dos Petroleiros da Bahia, que liderava os trabalhadores da hist\u00f3rica Refinaria Landulpho Alves e acabou preso logo depois do golpe, cita a professora. Praun acrescenta ainda o uso de carros da Petrobras para o transporte de trabalhadores capturados.<\/p>\n<blockquote><p>No dia seguinte ao golpe, a Petrobras j\u00e1 dispunha de uma estrutura militarizada de repress\u00e3o aos trabalhadores no interior das refinarias<\/p><\/blockquote>\n<p>Ao fim das atividades da CGI,\u00a0<strong>em outubro de 1964, a Petrobras ganhou um novo \u00f3rg\u00e3o para manter a sua estrutura de vigil\u00e2ncia<\/strong>: a Divis\u00e3o de Seguran\u00e7a e Informa\u00e7\u00f5es, conhecida como Divin. O setor executou importante papel nos anos seguintes, especialmente em 1967 e 1968, quando ocorreu uma nova leva de demiss\u00f5es. Quem chefiava a Divin era o coronel Fausto de Carvalho Monteiro, tamb\u00e9m coordenador-geral de seguran\u00e7a da Petrobras. De acordo com documentos obtidos por Praun, o coronel atuava com subordina\u00e7\u00e3o ao Conselho de Seguran\u00e7a Nacional, o CSN, e ao Servi\u00e7o Nacional de Informa\u00e7\u00f5es, o SNI, conhecidos \u00f3rg\u00e3os militares.<\/p>\n<p>At\u00e9 empresas prestadoras de servi\u00e7o e subsidi\u00e1rias repassavam informa\u00e7\u00f5es mensalmente para a Divin. Eram esp\u00e9cies de dossi\u00eas, chamados de \u201clistas sujas\u201d, que descreviam a movimenta\u00e7\u00e3o de pessoal, admiss\u00f5es e demiss\u00f5es nessas companhias. A partir do Divin, decidia-se se um trabalhador deveria ser admitido ou demitido, podendo monitorar inclusive se um funcion\u00e1rio dispensado havia sido contratado em outra empresa.<\/p>\n<p>A pesquisadora diz obter registros de a\u00e7\u00e3o desse sistema acerca do ano de 1985. Segundo ela,\u00a0<strong>com os estudos na Unifesp, ser\u00e1 poss\u00edvel investigar at\u00e9 quando essa estrutura foi mantida<\/strong>, inclusive depois do fim da ditadura.<\/p>\n<p>\u201cEssa opera\u00e7\u00e3o se desdobra em situa\u00e7\u00f5es individuais muito graves, como em pris\u00f5es, torturas e priva\u00e7\u00e3o de emprego\u201d, afirma a soci\u00f3loga. \u201cA gente n\u00e3o s\u00f3 quer discutir essas quest\u00f5es, como quer observar tamb\u00e9m se esse processo de repress\u00e3o est\u00e1 articulado a um projeto de governo com colabora\u00e7\u00e3o empresarial. Quem se beneficiou da persegui\u00e7\u00e3o aos trabalhadores?\u201d, questiona.<\/p>\n<p>A Petrobras n\u00e3o se manifestou at\u00e9 o fechamento desta reportagem.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Petrobras-1024x614.jpg?resize=640%2C384&#038;ssl=1\" srcset=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Petrobras-1024x614.jpg 1024w, https:\/\/www.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Petrobras-300x180.jpg 300w, https:\/\/www.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Petrobras-768x461.jpg 768w, https:\/\/www.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Petrobras.jpg 1200w\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"384\" data-src=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Petrobras-1024x614.jpg\" data-srcset=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Petrobras-1024x614.jpg 1024w, https:\/\/www.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Petrobras-300x180.jpg 300w, https:\/\/www.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Petrobras-768x461.jpg 768w, https:\/\/www.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Petrobras.jpg 1200w\" data-sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/> <em>Estatais como a Petrobras tinham esquema de vigil\u00e2ncia imposto pelo regime<\/em><\/p>\n<p><strong>H\u00e1 ind\u00edcios de que a Fiat espionou funcion\u00e1rios<\/strong><\/p>\n<p>Gustavo Seferian, professor da Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais, coordena os estudos sobre a Fiat. Junto a outros dois pesquisadores, Seferian investigar\u00e1 as atividades da empresa na ditadura a partir de informa\u00e7\u00f5es divulgadas pelo site\u00a0<em>The Intercept Brasil<\/em>, sobre um programa de espionagem que repassava informa\u00e7\u00f5es aos \u00f3rg\u00e3os da ditadura.<\/p>\n<p>De acordo com o\u00a0<em>Intercept<\/em>, a Fiat j\u00e1 havia espionado funcion\u00e1rios na It\u00e1lia e aplicou o m\u00e9todo no Brasil. Um coronel militar de reserva, Joffre Mario Klein, era chefe desse aparelho interno de repress\u00e3o e montou, por exemplo, um esquema de escuta e registro de conversas no \u00fanico telefone p\u00fablico instalado no p\u00e1tio da f\u00e1brica.<\/p>\n<p>A empresa, fundada na It\u00e1lia em 1899 e instalada no Brasil em 1976, chegava a infiltrar entre seus trabalhadores os agentes do Departamento de Ordem Pol\u00edtica e Social, o Dops, respons\u00e1vel por torturas e mortes desde a d\u00e9cada de 1950. Os oficiais monitoravam oper\u00e1rios dentro e fora da f\u00e1brica. Ao\u00a0<em>Intercept<\/em>, a empresa disse que n\u00e3o se manifestaria sobre o tema.<\/p>\n<p>Segundo Seferian, as novas investiga\u00e7\u00f5es pretendem levantar novas pistas, por meio de entrevistas com militantes sindicais da Fiat na cidade mineira de Betim. Os estudiosos tamb\u00e9m devem consultar reposit\u00f3rios documentais, como o acervo do centro de mem\u00f3ria da Fiat em Turim, na It\u00e1lia, os arquivos de sindicatos e os registros do Estado de Minas Gerais.<\/p>\n<p>O professor cita ainda a divulga\u00e7\u00e3o de um relat\u00f3rio em 2017 pela Comiss\u00e3o da Verdade de Minas Gerais, que apontou para o contexto das pr\u00e1ticas de repress\u00e3o contra o movimento sindical na regi\u00e3o, com informa\u00e7\u00f5es que podem subsidiar a pesquisa, como persegui\u00e7\u00f5es e assassinatos de funcion\u00e1rios da Fiat. Entre os casos relatados, est\u00e1 o do metal\u00fargico Guido Le\u00e3o Santos, morto aos 23 anos em 27 de novembro de 1979. O trabalhador participava de uma greve por volta das cinco da manh\u00e3, quando teve que fugir de soldados a cavalo e acabou atropelado por um \u00f4nibus e levado ao hospital por uma ambul\u00e2ncia da pr\u00f3pria Fiat.<\/p>\n<p>A Comiss\u00e3o Estadual, contudo, n\u00e3o provou se a Fiat foi respons\u00e1vel direta por opera\u00e7\u00f5es que resultaram em morte, nem identificou quantos trabalhadores teriam sido afetados por conduta da empresa.<\/p>\n<p>\u201cEsses elementos trazem um indicativo forte, mas nossa investiga\u00e7\u00e3o tende a trazer novos elementos\u201d, diz Seferian. \u201cSeguindo os passos de pesquisas j\u00e1 realizadas na Argentina e no Chile, que conseguiram trazer \u00e0 luz uma s\u00e9rie de elementos que aqui a gente ainda n\u00e3o p\u00f4de verificar, essa investiga\u00e7\u00e3o em escala comparada ser\u00e1 muito importante.\u201d<\/p>\n<p>Procurada por\u00a0<strong>CartaCapital<\/strong>, a Fiat declarou que \u201cn\u00e3o identificou registros hist\u00f3ricos sobre os fatos citados por\u00a0<em>The Intercept<\/em>\u201c.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/www.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Dilma-Rousseff-Comiss%C3%A3o-da-Verdade-1024x614.png?resize=640%2C384&#038;ssl=1\" srcset=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Dilma-Rousseff-Comiss%C3%A3o-da-Verdade-1024x614.png 1024w, https:\/\/www.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Dilma-Rousseff-Comiss%C3%A3o-da-Verdade-300x180.png 300w, https:\/\/www.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Dilma-Rousseff-Comiss%C3%A3o-da-Verdade-768x461.png 768w, https:\/\/www.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Dilma-Rousseff-Comiss%C3%A3o-da-Verdade.png 1200w\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"384\" data-src=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Dilma-Rousseff-Comiss\u00e3o-da-Verdade-1024x614.png\" data-srcset=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Dilma-Rousseff-Comiss\u00e3o-da-Verdade-1024x614.png 1024w, https:\/\/www.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Dilma-Rousseff-Comiss\u00e3o-da-Verdade-300x180.png 300w, https:\/\/www.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Dilma-Rousseff-Comiss\u00e3o-da-Verdade-768x461.png 768w, https:\/\/www.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Dilma-Rousseff-Comiss\u00e3o-da-Verdade.png 1200w\" data-sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/> <em>A ex-presidente Dilma Rousseff (PT) celebrou os 10 anos da Comiss\u00e3o Nacional da Verdade<\/em><\/p>\n<p><strong>Folha<\/strong><strong>\u00a0pode ter ficado ciente de uso de seus carros na ditadura<\/strong><\/p>\n<p>Registros testemunhais fortalecem os ind\u00edcios de que a\u00a0<em>Folha de S. Paulo<\/em>\u00a0teria sido c\u00famplice do aparato repressivo da ditadura, ultrapassando o simples alinhamento ideol\u00f3gico com o regime. \u00c9 o que aponta Ana Paula Goulart, professora da Escola de Comunica\u00e7\u00e3o da Universidade Federal do Rio de Janeiro e coordenadora da investiga\u00e7\u00e3o sobre o jornal paulista. Ela comanda uma equipe com mais quatro pesquisadores e algumas entidades colaboradoras.<\/p>\n<p>A peculiaridade desses estudos recai sobre o fato de que o ve\u00edculo \u00e9 o \u00fanico representante da imprensa no projeto, embora a maioria das empresas jornal\u00edsticas tenham apoiado o golpe naquele per\u00edodo, frisa a professora.<\/p>\n<p>O objetivo agora \u00e9 se aprofundar nos testemunhos j\u00e1 existentes. Os relatos predominantes d\u00e3o conta do\u00a0<a href=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/blogs\/midiatico\/cnv-chancela-versao-de-que-a-folha-emprestou-carros-para-a-ditadura-3323\/\">uso de carros da\u00a0<em>Folha<\/em>\u00a0para o transporte de v\u00edtimas da repress\u00e3o<\/a>. Entre os exemplos citados por Ana Paula Goulart, est\u00e1 o depoimento de Claudio Guerra, ex-delegado do Departamento de Ordem Pol\u00edtica e Social, o Dops, sobre a cess\u00e3o de ve\u00edculos para as opera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Segundo o\u00a0<a href=\"https:\/\/www.sjsp.org.br\/publicacoes\/relatorio-da-comissao-da-verdade-dos-jornalistas-5286\">relat\u00f3rio<\/a>\u00a0apresentado em 2017 pela Comiss\u00e3o da Verdade, Mem\u00f3ria e Justi\u00e7a do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de S\u00e3o Paulo, Guerra citou o envolvimento da\u00a0<em>Folha<\/em>\u00a0no fornecimento de carros para o regime.<\/p>\n<p>\u201cUs\u00e1vamos os carros para fazer o levantamento e colocar grampos, porque o carro da imprensa n\u00e3o chamavam aten\u00e7\u00e3o\u201d, disse Guerra, \u00e0 Comiss\u00e3o. \u201cNaquela \u00e9poca n\u00e3o tinha a facilidade de hoje (\u2026) e o carro era \u00f3timo para isso.\u201d<\/p>\n<p>Suzana Lisboa, ex-militante da Alian\u00e7a Libertadora Nacional, a ALN, tamb\u00e9m fez cita\u00e7\u00e3o \u00e0\u00a0<em>Folha<\/em>\u00a0em outro depoimento, dado em 19 de mar\u00e7o de 2014, \u00e0 Comiss\u00e3o da Verdade do Estado de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<blockquote><p>Nos anos 70, a fundi\u00e7\u00e3o de cobre Paranapanema teria contratado uma empresa paramilitar para um \u201ctrabalho de limpeza\u201d contra o povo\u00a0<em>waimiri-atroari<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Ela detalhou o caso da emboscada da Rua Jo\u00e3o Moura, no bairro do Sumarezinho, em 23 de setembro de 1971, quando os militares realizaram uma cilada para capturar opositores \u00e0 ditadura.<\/p>\n<p>Um grupo de quatro militantes havia visto um jipe do Ex\u00e9rcito aparentemente estragado, com um soldado que n\u00e3o se movia. Segundo Suzana Lisboa, os militantes resolveram atacar o jipe, para extrair armas, mas acabaram sendo cercados por agentes do regime, que sa\u00edram de um carro da\u00a0<em>Folha<\/em>.<\/p>\n<p>\u201cO\u00a0grosso dos agentes sa\u00eda de um carro ba\u00fa, ali estacionado, da\u00a0<em>Folha de S. Paulo<\/em>. Esse \u00e9 um dos momentos em que h\u00e1 participa\u00e7\u00e3o direta da empresa\u00a0<em>Folha de S<\/em><em>. Paulo<\/em>\u00a0no assassinato de militantes da ALN\u201d, afirmou Suzana Lisboa, com base em um relato da \u00fanica sobrevivente, a militante Ana Maria Nacinovic Corr\u00eaa.<\/p>\n<p>Suzana acrescentou: \u201cEssa informa\u00e7\u00e3o foi dada pela Ana Maria \u00e0 dire\u00e7\u00e3o da ALN e eu na \u00e9poca convivia aqui em S\u00e3o Paulo, vivia aqui e ouvia essa informa\u00e7\u00e3o dos dirigentes da ALN, n\u00e3o da Ana Maria. Mas n\u00e3o h\u00e1 a m\u00ednima d\u00favida de que foi de dentro do carro ba\u00fa da\u00a0<em>Folha de S. Paulo<\/em>\u00a0que os agentes sa\u00edram pra matar os tr\u00eas militantes da ALN\u201d.<\/p>\n<p>Ana Paula Goulart afirma que\u00a0<strong>outro caminho de investiga\u00e7\u00e3o ser\u00e1 verificar ind\u00edcios de persegui\u00e7\u00e3o de funcion\u00e1rios por posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas<\/strong>, praticada, por exemplo, pelo n\u00e3o cumprimento de normas trabalhistas.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m a tarefa de elucidar o per\u00edodo em que essa colabora\u00e7\u00e3o com a ditadura pode ter ocorrido. Especialmente no que diz respeito \u00e0 utiliza\u00e7\u00e3o dos carros na Opera\u00e7\u00e3o Bandeirantes, ela garante que n\u00e3o foram \u201ccasos isolados\u201d, mas sim uma pr\u00e1tica \u201csistem\u00e1tica\u201d. A pesquisadora sublinha, por\u00e9m, que a grande quest\u00e3o \u00e9 que a\u00a0<em>Folha<\/em>\u00a0alega que, se essa conduta foi verdadeira, a dire\u00e7\u00e3o do jornal n\u00e3o tinha conhecimento.<\/p>\n<p>Em publica\u00e7\u00e3o de 25 de abril de 2013, por exemplo, a\u00a0<em>Folha<\/em>\u00a0negou que tenha colaborado com a repress\u00e3o pol\u00edtica e recha\u00e7ou o relato de que o seu\u00a0<em>publisher<\/em>, Octavio Frias, teria mantido rela\u00e7\u00f5es com o delegado S\u00e9rgio Paranhos Fleury, do Dops, conforme o ex-delegado Claudio Guerra havia acusado.<\/p>\n<p>\u201cA gente quer especificar at\u00e9 onde isso era uma atua\u00e7\u00e3o direcionada da empresa. Certamente, em algum n\u00edvel da hierarquia, essa informa\u00e7\u00e3o chegava. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que, durante tanto tempo, de uma forma t\u00e3o sistem\u00e1tica, os carros da\u00a0<em>Folha<\/em>\u00a0fossem utilizados como aparato repressivo e nenhum n\u00edvel de dire\u00e7\u00e3o da empresa tivesse conhecimento\u201d, afirma a estudiosa. \u201c\u00c9 muito pouco prov\u00e1vel, mas \u00e9 uma fonte de investiga\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p><strong>Na Paranapanema, repress\u00e3o silenciosa contra os ind\u00edgenas<\/strong><\/p>\n<p>Fundada em 1961, a produtora de cobre Paranapanema se expandiu no per\u00edodo da ditadura nos ramos da constru\u00e7\u00e3o civil e da minera\u00e7\u00e3o, com concentra\u00e7\u00e3o de terras na regi\u00e3o Norte, explica Gilberto Marques, professor da Faculdade de Economia da Universidade Federal do Par\u00e1 e respons\u00e1vel pelo projeto que investiga a empresa.\u00a0A equipe de Marques conta com outros cinco professores.<\/p>\n<p>Segundo ele, a Paranapanema esteve envolvida na constru\u00e7\u00e3o da \u2013 n\u00e3o conclu\u00edda at\u00e9 hoje \u2013 Rodovia Transamaz\u00f4nica, num peda\u00e7o do estado do Amazonas. A companhia tinha interesse nesse trecho por conta da extra\u00e7\u00e3o de min\u00e9rios, sobretudo pela presen\u00e7a da cassiterita.<\/p>\n<p>Uma das \u00e1reas atingidas por esse empreendimento era habitada pelo povo\u00a0<em>waimiri-atroari<\/em>, no norte e nordeste amazonense. Segundo o professor, relatos da Comiss\u00e3o Nacional da Verdade e a Comiss\u00e3o da Verdade do Amazonas responsabilizam o Estado no assassinato de ind\u00edgenas, mas o papel da Paranapanema n\u00e3o foi devidamente apurado.<\/p>\n<p>Em meados da d\u00e9cada de 1970, segundo registra o especialista, a Paranapanema teria contratado uma empresa paramilitar chamada Sacopan para realizar um \u201ctrabalho de limpeza\u201d, que compreendia a expuls\u00e3o de parte da popula\u00e7\u00e3o dessa \u00e1rea, como o povo\u00a0<em>waimiri-atroari<\/em>. No in\u00edcio dos anos de 1981, o presidente Jo\u00e3o Batista Figueiredo teria repassado mais de 500 mil hectares de terra para mineradora.<\/p>\n<p>Marques afirma que o objetivo agora \u00e9 avan\u00e7ar no levantamento desses fatos e verificar as formas pelas quais a Paranapanema pode ter se beneficiado do esquema. Outro ponto de abordagem, segundo o professor, \u00e9 a utiliza\u00e7\u00e3o da empresa paramilitar para disciplinar os oper\u00e1rios da mineradora.<\/p>\n<p>A particularidade do estudo est\u00e1 na reconstitui\u00e7\u00e3o de ataques da ditadura a uma popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena. De um conjunto de tr\u00eas mil ind\u00edgenas\u00a0<em>waimiri-atroari<\/em>, teriam sobrado pouco mais de 300. O \u00edndice de mortes seria, portanto, bastante superior ao reconhecido pela Comiss\u00e3o Nacional da Verdade, em 2014, de 434 mortes e desaparecimentos pol\u00edticos no regime.<\/p>\n<p>\u201cDo in\u00edcio dos anos de 1970 ao in\u00edcio dos anos de 1980, esse processo foi marcado por muita agress\u00e3o a esse povo, com relatos de que eles foram bombardeados e metralhados\u201d, diz Marques, acrescentando \u00e0 lista de viola\u00e7\u00f5es a pr\u00e1tica de deslocamento for\u00e7ado e de dissemina\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as, como o sarampo, por meio da distribui\u00e7\u00e3o de roupas e utens\u00edlios infectados. \u201cA Comiss\u00e3o da Verdade n\u00e3o contabiliza o grande n\u00famero de ind\u00edgenas mortos nesse per\u00edodo pela a\u00e7\u00e3o do Estado brasileiro.\u201d<\/p>\n<p>Em 2019, o MPF reportou que, pela primeira vez, os\u00a0<em>waimiri-atroari<\/em>\u00a0falaram abertamente \u00e0 Justi\u00e7a os ataques sofridos durante a ditadura, durante uma audi\u00eancia p\u00fablica. A Procuradoria do Amazonas havia movido em 2012 uma a\u00e7\u00e3o civil p\u00fablica para cobrar repara\u00e7\u00f5es do Estado brasileiro. O processo foi suspenso em dezembro de 2020, por determina\u00e7\u00e3o judicial, e retomado em agosto deste ano. N\u00e3o h\u00e1 registro de novos despachos, decis\u00f5es, audi\u00eancias ou oitivas.<\/p>\n<p>A Paranapanema foi procurada pela reportagem, mas ainda n\u00e3o se manifestou.<\/p>\n<p>Para Marques, a conclus\u00e3o do estudo pode evitar o esquecimento da repress\u00e3o vivida por essas comunidades, desde a invas\u00e3o das terras brasileiras at\u00e9 o per\u00edodo ap\u00f3s a redemocratiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cA hist\u00f3ria que come\u00e7a com os portugueses e os espanh\u00f3is, lamentavelmente, vem se reproduzindo: passa pela ditadura empresarial-militar e de alguma forma est\u00e1 presente no que seriam governos democr\u00e1ticos\u201d, critica.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Petrobras, Fiat e Folha s\u00e3o investigadas em pesquisas sobre colabora\u00e7\u00e3o com a ditadura &#8211; CartaCapital &#8211; https:\/\/www.cartacapital.com.br\/sociedade\/petrobras-fiat-e-folha-de-s-paulo-sao-investigadas-em-pesquisas-sobre-colaboracao-com-a-ditadura\/?utm_campaign=novo_layout_newsletter_-_de_2411_ate_3011_2611_-_sexta-feira&amp;utm_medium=email&amp;utm_source=RD+Station<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Victor Ohana &#8211; Dezenas de pesquisadores de todo o Pa\u00eds v\u00e3o se debru\u00e7ar sobre empresas suspeitas de terem colaborado com a repress\u00e3o durante a\u00a0ditadura militar. 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