{"id":16326,"date":"2022-01-11T12:27:18","date_gmt":"2022-01-11T15:27:18","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=16326"},"modified":"2022-01-07T15:31:20","modified_gmt":"2022-01-07T18:31:20","slug":"a-pulsao-de-morte-e-a-compulsao-do-capital","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2022\/01\/11\/a-pulsao-de-morte-e-a-compulsao-do-capital\/","title":{"rendered":"A puls\u00e3o de morte e a compuls\u00e3o do capital"},"content":{"rendered":"<p><strong>Eleut\u00e9rio Prado &#8211;\u00a0<\/strong>Pelo t\u00edtulo apresentado, \u00e9 evidente que o artigo trata de um tema que se encontra supostamente na intercess\u00e3o da psican\u00e1lise e da cr\u00edtica da economia pol\u00edtica. Enla\u00e7a, portanto, os ensinamentos de dois autores, Sigmund Freud e Karl Marx, que trataram respectivamente do modo de reprodu\u00e7\u00e3o caracter\u00edstico da psique do homem moderno e do sistema econ\u00f4mico capitalista. Ser\u00e1 preciso, portanto, mostrar que a ambi\u00e7\u00e3o de aproximar, sobrepor e combinar esses dois campos do conhecimento faz sentido.<\/p>\n<p>Este artigo investiga o tema de modo introdut\u00f3rio. Por isso, a exposi\u00e7\u00e3o deve come\u00e7ar por defini\u00e7\u00f5es. E ter\u00e1 seguimento por meio de um di\u00e1logo com autores cl\u00e1ssicos. Pretende mostrar que h\u00e1 uma afinidade entre a puls\u00e3o da morte e a compuls\u00e3o do capital com a ajuda de um escrito de Samo Tom\u0161i\u010d.<\/p>\n<p>O que \u00e9 puls\u00e3o da morte? Freud, em seu texto\u00a0<em>Al\u00e9m do princ\u00edpio do prazer<\/em>, afirma que, em sua experi\u00eancia pr\u00e1tica como psicanal\u00edtica, foi \u201clevado a distinguir duas esp\u00e9cies de instintos<sup>[i]<\/sup>, aqueles que pretendem conduzir a vida \u00e0 morte e os sexuais, que sempre buscam e efetuam a renova\u00e7\u00e3o da vida\u201d (Freud, 2010, p. 214). Para poder distingui-los, apresenta primeiro o g\u00eanero dessas duas esp\u00e9cies<sup>[ii]<\/sup>: \u201crestaurar um estado anterior \u00e9 realmente uma caracter\u00edstica universal dos instintos\u201d (idem, p. 236). Qual seria, ent\u00e3o, a diferen\u00e7a entre eles?<\/p>\n<p>O instinto da vida orienta as posturas e as a\u00e7\u00f5es que visam obter satisfa\u00e7\u00e3o. Ora, segundo esse autor, \u201co curso dos processos ps\u00edquicos \u00e9 regulado automaticamente pelo princ\u00edpio do prazer\u201d (idem, p. 162). E ele \u00e9 negativo: sempre que as condi\u00e7\u00f5es da vida criam uma tens\u00e3o desprazerosa, a psique busca rebaix\u00e1-la ou mesmo suprimi-la e, ao faz\u00ea-lo, gera satisfa\u00e7\u00e3o e at\u00e9 mesmo deleite. Esse princ\u00edpio, portanto, busca \u201ctornar o aparelho ps\u00edquico isento de excita\u00e7\u00e3o ou conservar o seu montante (\u2026) constante ou a menor poss\u00edvel\u201d (idem, p. 237). Diante de uma sensa\u00e7\u00e3o de medo provocada por uma doen\u00e7a, por exemplo, esse instinto leva a pessoa buscar ref\u00fagio no saber do feiticeiro, do curandeiro, do m\u00e9dico etc. para que eles consigam domin\u00e1-la.<\/p>\n<p>O instinto da morte, admite Freud, est\u00e1 subjacente aos comportamentos repetitivos, dominados por compuls\u00e3o: eis que a observa\u00e7\u00e3o cl\u00ednica o levara a supor que \u201cna vida ps\u00edquica h\u00e1 uma compuls\u00e3o \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o, que sobrepuja o princ\u00edpio do prazer\u201d (idem, p 183). Aqui, portanto, n\u00e3o se trata mais de rebaixar as tens\u00f5es eventuais, mas de reproduzir impulsos interiores, que moram no inconsciente, mediante um processo recursivo que se imp\u00f5e para o \u201csujeito\u201d. Segundo Freud, n\u00e3o s\u00f3 esse instinto contraria o instinto do prazer, mas parece mesmo \u201cmais primordial, mais elementar, mas instintual\u201d (idem, p. 184) do que o primeiro. Ora, ele se manifesta de forma cabal, por exemplo, no comportamento do indiv\u00edduo masoquista.<\/p>\n<p>\u00c9 evidente que a forma de exposi\u00e7\u00e3o de Freud cria certa perplexidade. Parece, \u00e0 primeira vista, que o ser humano \u00e9 inerentemente suicid\u00e1rio.<\/p>\n<p><strong>1.<\/strong><\/p>\n<p>Sabe-se que esse princ\u00edpio sofreu e sofre resist\u00eancias mesmo de alguns psicanalistas. Por isso \u00e9 bem necess\u00e1rio esclarec\u00ea-lo adequada e criticamente de uma forma que supere as ambiguidades do texto original. Segundo Samo Tom\u0161i\u010d, ele n\u00e3o designa \u201cum impulso irracional e misterioso rumo \u00e0 morte ou mesmo a um estado inorg\u00e2nico\u201d (Tom\u0161i\u010d, 2019, p. 201) \u2013 mesmo se isso parece sugerido pelo pr\u00f3prio escrito de Freud. \u201cA puls\u00e3o da morte responde por distanciar radicalmente a demanda inconsciente de gozo frente \u00e0s tend\u00eancias de autopreserva\u00e7\u00e3o que se encontram no sujeito e na pr\u00f3pria vida\u201d (idem, 202). Ou seja, a busca do gozo que abrolha distorcidamente do inconsciente no consciente confronta a procura do prazer que est\u00e1 orientada para a conserva\u00e7\u00e3o da vida.<\/p>\n<p>Note-se que gozo e prazer surgem aqui como puls\u00f5es opostas no que se refere \u00e0 pr\u00f3pria exist\u00eancia da pessoa enquanto tal. O segundo, como j\u00e1 se mencionou, implica na busca um rebaixamento das tens\u00f5es que acorrem \u00e0 psique na vida do sujeito em todas as inst\u00e2ncias da sociedade. Trata-se, pois, de um impulso conservativo. J\u00e1 o primeiro implica na manuten\u00e7\u00e3o e na reprodu\u00e7\u00e3o de certas tens\u00f5es internas, que moram no inconsciente do indiv\u00edduo social, na busca de uma intensifica\u00e7\u00e3o da vida. Vem a ser, pois, uma for\u00e7a perseverante que abdica do prazer para alcan\u00e7ar o gozo. Afigura-se, portanto, como um impulso consumativo da pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p>Ora, isso requer mais interpreta\u00e7\u00e3o e ela precisa ser criativa indo mesmo al\u00e9m das significa\u00e7\u00f5es postas pelo pr\u00f3prio Freud. Ora, a diferen\u00e7a entre prazer e gozo s\u00f3 fica clara quando se percebe que \u201cmorte\u201d n\u00e3o \u00e9 a\u00ed, simplesmente, o fim natural da vida ou, talvez, o que decorre do suic\u00eddio \u2013 mas vem a ser a nega\u00e7\u00e3o determinada da \u201cvida\u201d \u2013 vida tomada, pois, como continuidade do viver, como mera estase \u2013 uma situa\u00e7\u00e3o, portanto, que n\u00e3o pode durar para sempre. Desse modo, morte nesse contexto significa \u201cvida lutando por mais vida, pela produ\u00e7\u00e3o de um excedente de vida num fundo de falta de vida\u201d (idem, p. 202). Eis que n\u00e3o se pode afirmar a vida sem morrer um pouco. Passa-se, assim, da l\u00f3gica do ser id\u00eantico \u00e0 l\u00f3gica do ser em devir, que se transforma e eventualmente chega a crescer no processo de existir.<\/p>\n<p>A l\u00f3gica do prazer \u00e9, pois, a l\u00f3gica da simples conserva\u00e7\u00e3o da vida que evita todas as tens\u00f5es que possam perturb\u00e1-la; j\u00e1 a l\u00f3gica do gozo consiste em responder a um mandamento do inconsciente na busca de um viver mais intenso, de um mais-viver, que, de modo inevit\u00e1vel, envolve riscos e tem eventualmente alguma consequ\u00eancia destrutiva. \u00c9 claro que existem formas positivas de correr riscos e, assim, de bem gozar, mas tamb\u00e9m h\u00e1 formas negativas que causam sofrimento, \u00e0s vezes in\u00fatil. H\u00e1, assim, formas saud\u00e1veis que realizam o sujeito, mas tamb\u00e9m h\u00e1 formas que parecem realizar o sujeito, mas, de fato, o subordinam a um poder externo adverso. Ademais, h\u00e1 formas que se constituem inequivocamente como \u201cdoen\u00e7as\u201d sociais. Talvez essas \u00faltimas tenham ganhado um relevo excepcional para o m\u00e9dico psicanalista em virtude das pr\u00f3prias situa\u00e7\u00f5es enfrentadas pela profiss\u00e3o.<\/p>\n<p>Tem-se aqui, de qualquer modo, uma interpreta\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica que vai mais longe do que o texto original e que transforma a dualidade de opostos de Freud, princ\u00edpio do prazer (ou seja, da manuten\u00e7\u00e3o da vida) e princ\u00edpio da morte (ou seja, do excesso de vida), numa duplicidade de contr\u00e1rios que formam uma contradi\u00e7\u00e3o. Ora, essa contradi\u00e7\u00e3o retrata a condi\u00e7\u00e3o de exist\u00eancia do ser humano em geral em todos os momentos da hist\u00f3ria passada, presente e futura: ou ele se recolhe diante das adversidades ou se lan\u00e7a para enfrent\u00e1-las.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o interna entre os dois polos dessa contradi\u00e7\u00e3o consiste numa rela\u00e7\u00e3o de nega\u00e7\u00e3o: a posi\u00e7\u00e3o de um polo pressup\u00f5e a nega\u00e7\u00e3o do outro. A dial\u00e9tica, como se sabe, p\u00f5e a negatividade para apreender o movimento: a vida \u00e9 contr\u00e1ria \u00e0 morte, mas n\u00e3o existe vida sem a morte, sem essa negatividade intr\u00ednseca que reside na dualidade vida\/morte. Pode parecer estranho, mas essa interpreta\u00e7\u00e3o enriquece a concep\u00e7\u00e3o de Freud, ressignificando a rela\u00e7\u00e3o imanente entre vida e morte e contrariando o modo como se apresentam na compreens\u00e3o comum.<\/p>\n<p>Assim, por meio da interpreta\u00e7\u00e3o do texto original feita por Tom\u0161i\u010d com base em Lacan, o ensino de Freud se torna mais radical: \u201ca vida n\u00e3o \u00e9 apenas um conjunto de fun\u00e7\u00f5es vitais, as quais resistem \u00e0 morte enquanto um limite imanente da vida e exp\u00f5e assim a sua finitude; consiste, em adi\u00e7\u00e3o, numa for\u00e7a conflitual, internamente dividida, que se refere a si mesma por meio da resist\u00eancia ao seu pr\u00f3prio excesso imanente\u201d (idem, p. 204). A ren\u00fancia a esse excesso \u2013 veja-se bem \u2013 reduz a vida ao vegetativo, \u00e0 paz do cemit\u00e9rio.<\/p>\n<p>Ora, h\u00e1 aqui um ponto delicado: no superar constante da morte \u2013 como um ponto final que \u201cnunca\u201d chega \u2013 a pr\u00f3pria vida se p\u00f5e virtualmente como uma infinitude, como um insistir em continuar durando, mesmo se o viver consiste numa aproxima\u00e7\u00e3o inexor\u00e1vel do momento da morte. Por isso Tom\u0161i\u010d diz: \u201cn\u00e3o h\u00e1 vida sem negatividade e, mais crucialmente, n\u00e3o h\u00e1 vida sem essa infinidade virtual\u201d (idem, p. 205).<\/p>\n<p><strong>2.<\/strong><\/p>\n<p>Postas essas no\u00e7\u00f5es que pertencem ao campo da psican\u00e1lise, chegou a hora que enfrentar a quest\u00e3o de definir \u201ccapital\u201d, ser esquivo cuja morada \u00e9 a economia pol\u00edtica. Ora, ela encontra como se sabe em\u00a0<em>O capital<\/em>, ou seja, na cr\u00edtica da economia pol\u00edtica. Sinteticamente, Marx definiu o capital como o que passa em D \u2013 M \u2013 D\u2019, ou seja, como uma circula\u00e7\u00e3o ilimitada formada por dinheiro que compra mercadorias (meios de produ\u00e7\u00e3o e for\u00e7a de trabalho) para produzir novas mercadorias, as quais, ao serem vendidas, representam mais dinheiro. A diferen\u00e7a entre D\u2019 menos D, ele chamou de mais-valor. Desse movimento circulat\u00f3rio, como j\u00e1 fora indicado por Arist\u00f3teles, ele diz que \u00e9 insaci\u00e1vel, que consiste numa infinidade virtual. Como se sabe, explica, ent\u00e3o, a exist\u00eancia do mais-valor pela diferen\u00e7a entre o valor da mercadoria e o valor da for\u00e7a de trabalho contratada para produzir mercadorias. O mais-valor, dizendo de outro modo, decorre do mais-trabalho dedicado pelos trabalhadores a essa produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O capital \u00e9, pois, um princ\u00edpio metaf\u00edsico realmente existente \u2013 n\u00e3o est\u00e1tico, mas um processo de vir a ser sempre mais, tendente ao infinito \u2013 mesmo se isso choca a mentalidade positivista que domina na ci\u00eancia moderna. Por isso mesmo, engendra naquele que figura como seu \u201cdono\u201d, ou seja, no capitalista, um \u201cimpulso absoluto de enriquecimento, [uma] ca\u00e7a apaixonada do valor\u201d (Marx, 1983, p. 130). O capitalista aparece, ent\u00e3o, como mero suporte desse movimento: a sua meta subjetiva \u2013 diz Marx \u2013 \u00e9 a valoriza\u00e7\u00e3o do valor, algo a que ele se subordina. Menos do que um sujeito, o agente capitalista figura a\u00ed, portanto, como mera personifica\u00e7\u00e3o do capital.<\/p>\n<p>Como esse \u201cSenhor\u201d tem por dom\u00ednio todo um sistema econ\u00f4mico complexo que ele mesmo p\u00f5e em maior ou menor movimento, ele se determina como um sujeito autom\u00e1tico e n\u00e3o apenas como um mero processo de acumula\u00e7\u00e3o: \u201co valor se torna aqui sujeito de um processo em que ele, por meio de uma mudan\u00e7a constante das formas de dinheiro e mercadoria, modifica a pr\u00f3pria grandeza\u201d (idem, p. 130). O mais-valor brota aparentemente do capital. Na verdade, por meio de seu envolvimento na produ\u00e7\u00e3o, o capital torna-se mais-capital, ou seja, valor que se valoriza. O capital \u00e9, pois, o modo de exist\u00eancia de uma rela\u00e7\u00e3o social, a rela\u00e7\u00e3o de capital, enlace entre esse ser metaf\u00edsico que se eleva ao infinito e o trabalho assalariado que \u00e9 sempre finito em cada momento hist\u00f3rico.<\/p>\n<p>O capital figura, agora, como uma objetiva\u00e7\u00e3o temporal da dial\u00e9tica do processo vital que, em princ\u00edpio, governa todas as formas de sociedade, ainda que diferentemente em cada uma delas. Como tal, entretanto, vigora apenas durante um per\u00edodo hist\u00f3rico j\u00e1 que est\u00e1 tamb\u00e9m subordinando \u00e0 mesma l\u00f3gica inexor\u00e1vel da vida e morte. Enquanto vigora como capital, consiste numa objetiva\u00e7\u00e3o que se imp\u00f5e como o princ\u00edpio imanente do funcionamento de um modo de produ\u00e7\u00e3o que, por isso mesmo, \u00e9 chamado de capitalista. Trata-se, em \u00faltima an\u00e1lise, de objetiva\u00e7\u00e3o de umarela\u00e7\u00e3o social espec\u00edfica cuja l\u00f3gica consiste na captura de parte do trabalho vivo dos trabalhadores assalariados para transform\u00e1-lo em mais trabalho morto, montante que, aumentado ou diminu\u00eddo, pertence ao capitalista.<\/p>\n<p>Esse modo de produ\u00e7\u00e3o \u00e9 evidentemente assim\u00e9trico: enquanto uns prosperam capturando parte do trabalho vivo de outros e o acumulando na forma do trabalho morto, esses outros decaem, pois, para continuar vivendo, t\u00eam de entregar parte do pr\u00f3prio trabalho efetivado aos primeiros. Ou seja, conformam-se em ser explorados sem terem disso consci\u00eancia, pois se lhes afigura que recebem um \u201cjusto\u201d sal\u00e1rio em troca de seu trabalho. Para que isso se torne poss\u00edvel, como se sabe, os trabalhadores tem de vender previamente ao capitalista a sua pr\u00f3pria for\u00e7a de trabalho, transa\u00e7\u00e3o por meio da qual entregam ao capitalista \u2013 ou seu representante \u2013 a administra\u00e7\u00e3o, o governo de seu trabalho, de seu modo de trabalhar.<\/p>\n<p>Da\u00ed que os trabalhadores, uns mais e outros menos, tenham de enfrentar a escassez de bens necess\u00e1rios \u00e0 vida eo estranhamento ps\u00edquico frente ao mundo do trabalho. Ora, essa situa\u00e7\u00e3o aparece como a condi\u00e7\u00e3o de vida \u201cnormal\u201d da classe trabalhadora. Eis que eles enfrentam uma situa\u00e7\u00e3o posta por todo um sistema econ\u00f4mico que se move independentemente deles e que se afigura como se fosse algo posto como natural. Da\u00ed que o mundo da mercadoria \u2013 do sistema econ\u00f4mico do capital em \u00faltima an\u00e1lise \u2013 afigure-se como um mundo social-natural e, portanto, como um mundo fetichizado.<\/p>\n<p><strong>3.<\/strong><\/p>\n<p>Tom\u0161i\u010d sugere que o capitalismo aparece como aquele modo de produ\u00e7\u00e3o que melhor mobiliza a puls\u00e3o da morte \u2013 ou seja, na verdade, da vida que se excede por quer ser mais e mais vida. Por isso mesmo, nas condi\u00e7\u00f5es da \u00e9poca moderna, essa puls\u00e3o do indiv\u00edduo em geral est\u00e1 a servi\u00e7o da compuls\u00e3o do capital. Ora, isso explica a resil\u00eancia hist\u00f3rica do capitalismo, a dificuldade de super\u00e1-lo. Mas mostra tamb\u00e9m, segundo ele, que a express\u00e3o \u201csujeito autom\u00e1tico\u201d empregada por Marx para caracterizar o capital revela apenas a sua apar\u00eancia, uma suposta espontaneidade, j\u00e1 que o capital, na verdade, vem a ser um \u201csujeito compulsivo\u201d que usa e abusa da subsun\u00e7\u00e3o do trabalho a si mesmo. Nessa linha de racioc\u00ednio, ele apresenta ent\u00e3o o capitalismo como \u201cuma cultura da puls\u00e3o da morte por excel\u00eancia (Tom\u0161i\u010d, 2019, p. 206). Em que, por isso mesmo, falta o gozo leg\u00edtimo \u2013 ainda que n\u00e3o care\u00e7a do gozo compulsivo.<\/p>\n<p>Esse modo de mobilizar o desejo de mais-viver do ser humano, entretanto, n\u00e3o \u00e9 eticamente virtuoso, mesmo se durante toda uma \u00e9poca hist\u00f3rica foi capaz de elevar a sua capacidade de se apropriar da natureza. Ora, o ser humano se tornou, assim, um produtor de riqueza abundante sem que a pobreza fosse eliminada da face da Terra. Eis que n\u00e3o promove a vida boa para ningu\u00e9m de forma dominante \u2013 p\u00f5e apenas para uma parte menor da humanidade a possibilidade de chegar a uma boa vida burguesa. Ou seja, cria nas classes \u201caltas\u201d uma cultura do excesso \u2013 produtivismo, acumula\u00e7\u00e3o de riqueza sup\u00e9rflua, consumismo, narcisismo etc. \u2013 que apenas reflete a l\u00f3gica compulsiva da produ\u00e7\u00e3o pela produ\u00e7\u00e3o que vigora no sistema econ\u00f4mico. Assim, a vida obscena de uns \u00e9 feita \u00e0s custas da mis\u00e9ria da maioria.<\/p>\n<p>Nesse ponto, poder-se-ia chegar \u00e0 conclus\u00e3o que a no\u00e7\u00e3o de puls\u00e3o da morte criada por Freud seria apenas adequada para falar do impulso determinante da luta pela vida no capitalismo e que se manifesta intensamente, na situa\u00e7\u00e3o de an\u00e1lise, como determinadas patologias. Eis que a luta pela vida a\u00ed pode, sim, adquirir o car\u00e1ter de mortifica\u00e7\u00e3o \u2013 no limite, pode mesmo se tornar uma vida semelhante \u00e0quela que se tem num campo de concentra\u00e7\u00e3o. \u00c9 assim que essa luta aparece como vida degradada, como compuls\u00e3o para sobreviver sob a subsun\u00e7\u00e3o formal, real (material e intelectual) da atividade humana (o trabalho, principalmente) ao capital.<\/p>\n<p>Em geral, poder-se-ia, talvez, falar em puls\u00e3o da vida e puls\u00e3o do mais-viver. Pouco importa, esse modo de apresentar a interse\u00e7\u00e3o das reflex\u00f5es filos\u00f3ficas de Marx e Freud permite reler a ideia de socialismo e comunismo que o primeiro autor apresenta sinteticamente j\u00e1 no primeiro cap\u00edtulo de\u00a0<em>O capital<\/em>. Na parte final da se\u00e7\u00e3o sobre o fetichismo da mercadoria, Marx \u00e9 levado por sua pr\u00f3pria argumenta\u00e7\u00e3o a falar da nega\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica do capitalismo.<\/p>\n<p>Eis o que diz em primeiro lugar: \u201co reflexo religioso do mundo real somente pode desaparecer quando as circunst\u00e2ncias, da vida pr\u00e1tica, representarem para os homens rela\u00e7\u00f5es transparentes e racionais entre si e com a natureza\u201d (Marx, 1983, p. 76). Ora, quando Marx fala a\u00ed em transpar\u00eancia n\u00e3o pode entender que ele se refere a uma transpar\u00eancia absoluta na esfera social como bem mostrou Santos (2021, p. 175). Pois, o saber da psican\u00e1lise, assentado nas descobertas de Freud, mas tamb\u00e9m de outros estudiosos, ensina que a transpar\u00eancia total \u00e9 imposs\u00edvel tanto no \u00e2mbito da psique individual quanto no \u00e2mbito social. Marx, por\u00e9m, em \u00faltima an\u00e1lise, diz que a forma capital e, portanto, as formas mercadoria e dinheiro, implicam numa forma de aliena\u00e7\u00e3o que tem um duplo papel: por um lado, consiste em um modo de ocultar a explora\u00e7\u00e3o, por outro, torna vida nessas condi\u00e7\u00f5es mais suport\u00e1vel.<\/p>\n<p>Nesse ponto, imp\u00f5e-se uma quest\u00e3o: a no\u00e7\u00e3o de puls\u00e3o da morte encontrada em Freud seria adequada para falar da condi\u00e7\u00e3o humana num outro modo de produ\u00e7\u00e3o em que a forma capital fora j\u00e1 suprimida? O gozo n\u00e3o poderia ser a\u00ed, predominantemente, uma fonte da sublima\u00e7\u00e3o \u2013 e n\u00e3o de mortifica\u00e7\u00e3o \u2013 tal como ocorre atualmente em certas situa\u00e7\u00f5es excepcionais, por exemplo, no trabalho art\u00edstico ou intelectual?<\/p>\n<p>Aqui \u00e9 preciso ver que aquilo que se chamou de socialismo e comunismo para se referir \u00e0s novas formas de organiza\u00e7\u00e3o sociedade ap\u00f3s a eclos\u00e3o de revolu\u00e7\u00f5es vitoriosas quase n\u00e3o t\u00eam afinidade com aquilo que se encontra no texto de Marx. Note-se que elas n\u00e3o suprimiram, mas sim, ao fim e ao cabo, aprofundaram o estranhamento, a aliena\u00e7\u00e3o, a vida subsumida ao imp\u00e9rio da acumula\u00e7\u00e3o de capital, ent\u00e3o sob um poder desp\u00f3tico do partido \u201crepresentante autodeclarado\u201d da classe oper\u00e1ria. Esses regimes, por isso, estavam e est\u00e3o em contradi\u00e7\u00e3o absoluta com a ideia de p\u00f3s-capitalismo desse autor: \u201ca figura do processo social da vida, isto \u00e9, do processo da produ\u00e7\u00e3o material, apenas se desprender\u00e1 do seu m\u00edstico v\u00e9u nebuloso quando, como produto de homens livremente socializados, ela ficar sob seu controle, consciente e planejado\u201d (Marx, 1983, p. 76). E democr\u00e1tico, n\u00e3o deveria ser necess\u00e1rio acrescentar.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>Birman, Joel \u2013\u00a0<em>As puls\u00f5es e seus destinos<\/em>. Cole\u00e7\u00e3o Para ler Freud. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2020.<\/p>\n<p>Freud, Sigmund \u2013 Al\u00e9m do princ\u00edpio do prazer. In:\u00a0<em>Obras completas<\/em>, volume 14, (1917-1920). S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2010, p. 161-239.<\/p>\n<p>Marx, Karl \u2013\u00a0<em>O capital \u2013 Cr\u00edtica da economia pol\u00edtica<\/em>. Livro I. S\u00e3o Paulo: Editora Abril, 1983.<\/p>\n<p>Santos, Vinicius \u2013\u00a0<em>O indiv\u00edduo abstrato \u2013 subjetividade e estranhamento em Marx<\/em>. Jundiai (SP): Paco editorial, 2021.<\/p>\n<p>Tom\u0161i\u010d, Samo \u2013\u00a0<em>The labour of enjoyment \u2013 Towards a critique of libidinal economy.<\/em>\u00a0Berlin: August Verlag, 2019.<\/p>\n<p><strong>Notas<\/strong><\/p>\n<p>[i] Na tradu\u00e7\u00e3o que aqui se emprega, a palavra \u201ctrieb\u201d em alem\u00e3o \u00e9 traduzida por instinto, mas \u00e9 mais usual traduzi-la por puls\u00e3o.<\/p>\n<p>[ii] Note-se, tamb\u00e9m, que as concep\u00e7\u00f5es de Freud sobre as puls\u00f5es variam bastante em suas obras (Birman, 2020); aqui s\u00f3 se considera aquela referida no texto principal. Todas elas, entretanto, consideram as puls\u00f5es no registro da dualidade conflituosa.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: A puls\u00e3o de morte e a compuls\u00e3o do capital &#8211; Outras Palavras &#8211; https:\/\/outraspalavras.net\/outrasmidias\/a-pulsao-de-morte-e-a-compulsao-do-capital\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eleut\u00e9rio Prado &#8211;\u00a0Pelo t\u00edtulo apresentado, \u00e9 evidente que o artigo trata de um tema que se encontra supostamente na intercess\u00e3o da psican\u00e1lise e da cr\u00edtica da economia pol\u00edtica. 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