{"id":16313,"date":"2022-01-07T12:23:27","date_gmt":"2022-01-07T15:23:27","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=16313"},"modified":"2022-01-05T08:26:59","modified_gmt":"2022-01-05T11:26:59","slug":"capitalismo-e-crise-ecologica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2022\/01\/07\/capitalismo-e-crise-ecologica\/","title":{"rendered":"Capitalismo e crise ecol\u00f3gica"},"content":{"rendered":"<p><strong>Michael L\u00f6wy<\/strong> &#8211; A civiliza\u00e7\u00e3o capitalista contempor\u00e2nea est\u00e1 em crise. A <a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/592281-acumulam-capital-destruindo-vidas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">acumula\u00e7\u00e3o ilimitada de capital<\/a>, a mercantiliza\u00e7\u00e3o de tudo, a explora\u00e7\u00e3o implac\u00e1vel do trabalho e da natureza e a cat\u00e1strofe ecol\u00f3gica da\u00ed resultante comprometem as bases de um futuro sustent\u00e1vel, pondo em perigo, assim, a pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia da esp\u00e9cie humana.<\/p>\n<blockquote><p>A acumula\u00e7\u00e3o ilimitada de capital, a mercantiliza\u00e7\u00e3o de tudo, a explora\u00e7\u00e3o implac\u00e1vel do trabalho e da natureza e a cat\u00e1strofe ecol\u00f3gica da\u00ed resultante comprometem as bases de um futuro sustent\u00e1vel, pondo em perigo, assim, a pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia da esp\u00e9cie humana &#8211; Michael L\u00f6wy<\/p><\/blockquote>\n<p>O sistema capitalista, uma m\u00e1quina de crescimento econ\u00f4mico movida por combust\u00edveis f\u00f3sseis desde a\u00a0<strong>Revolu\u00e7\u00e3o Industrial<\/strong>, \u00e9 respons\u00e1vel pelas\u00a0<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/612761-mudancas-climaticas-impactam-cada-vez-mais-nossas-vidas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><strong>mudan\u00e7as clim\u00e1ticas<\/strong><\/a>\u00a0e pela mais ampla crise ecol\u00f3gica do planeta. Sua l\u00f3gica irracional de expans\u00e3o e acumula\u00e7\u00e3o sem fim leva o planeta \u00e0 beira do abismo.<\/p>\n<p>O \u201c<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/613624-o-grande-engodo-o-capitalismo-verde\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">capitalismo verde<\/a>\u201d \u2013 a estrat\u00e9gia de redu\u00e7\u00e3o do impacto ambiental ao mesmo tempo em que mant\u00e9m as institui\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas dominantes \u2013 oferece uma solu\u00e7\u00e3o? A inverossimilhan\u00e7a de tal cen\u00e1rio de reforma pol\u00edtica \u00e9 ilustrada da maneira mais espantosa pelo fracasso de um quarto de s\u00e9culo de confer\u00eancias internacionais \u2013 as\u00a0<strong>COP<\/strong>\u00a0\u2013 em lidar com as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. As for\u00e7as pol\u00edticas comprometidas com a \u201ceconomia de mercado\u201d capitalista que criaram o problema n\u00e3o podem ser a fonte da solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A recente\u00a0<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/614481-cop26-chega-ao-fim-mas-ainda-ha-muito-a-ser-feito\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><strong>COP 26<\/strong><\/a>\u00a0(Glasgow, 2021), reunindo governos de todo o planeta, ilustra perfeitamente a impossibilidade de uma solu\u00e7\u00e3o para a crise dentro dos limites do sistema. Em vez de medidas concretas nos pr\u00f3ximos 5-10 anos \u2013 uma condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria, segundo os cientistas, para evitar um aquecimento global superior a 1,5\u00b0C \u2013, obtivemos promessas mir\u00edficas de \u201cneutralidade de carbono\u201d para 2050, ou mesmo (\u00cdndia), 2070\u2026 No lugar de compromissos precisos e quantificados de suspens\u00e3o imediata da explora\u00e7\u00e3o de novas fontes de energia f\u00f3ssil (carv\u00e3o, petr\u00f3leo), obtivemos promessas vagas de \u201credu\u00e7\u00e3o\u201d de seu consumo.<\/p>\n<p>Definitivamente, o defeito fatal do capitalismo verde reside no conflito entre a microracionalidade do mercado capitalista, com seu c\u00e1lculo m\u00edope de lucros e perdas, e a macroracionalidade da a\u00e7\u00e3o coletiva para o bem comum. A l\u00f3gica cega do mercado resiste a uma r\u00e1pida transforma\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica para se afastar da depend\u00eancia dos combust\u00edveis f\u00f3sseis: ela est\u00e1 em contradi\u00e7\u00e3o intr\u00ednseca com a racionalidade ecol\u00f3gica. N\u00e3o se trata de acusar os \u201cmaus\u201d capitalistas ecocidas, em oposi\u00e7\u00e3o aos \u201cbons\u201d capitalistas verdes; a culpa \u00e9 de um sistema ancorado numa concorr\u00eancia implac\u00e1vel e numa corrida ao lucro no curto prazo que destr\u00f3i o equil\u00edbrio da natureza.<\/p>\n<div>\n<blockquote><p>Definitivamente, o defeito fatal do capitalismo verde reside no conflito entre a microracionalidade do mercado capitalista, com seu c\u00e1lculo m\u00edope de lucros e perdas, e a macroracionalidade da a\u00e7\u00e3o coletiva para o bem comum &#8211; Michael L\u00f6wy<\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<p>Uma pol\u00edtica ecol\u00f3gica que funcione no quadro das institui\u00e7\u00f5es e regras dominantes da \u201ceconomia de mercado\u201d n\u00e3o conseguir\u00e1 enfrentar os profundos desafios ambientais com os quais somos confrontados. Os ecologistas que n\u00e3o reconhecem que o \u201cprodutivismo\u201d decorre da l\u00f3gica do lucro est\u00e3o condenados ao fracasso \u2013 ou, pior ainda, a serem absorvidos pelo sistema. Os exemplos abundam. A falta de uma posi\u00e7\u00e3o anticapitalista coerente levou a maioria dos partidos verdes europeus \u2013 especialmente na Fran\u00e7a, Alemanha, It\u00e1lia e B\u00e9lgica \u2013 a tornarem-se meros parceiros \u201cecorreformistas\u201d da gest\u00e3o neoliberal, ou social-liberal, do capitalismo pelos governos.<\/p>\n<p>Bem mais do que uma reforma ilus\u00f3ria do sistema, \u00e9 imprescind\u00edvel a emerg\u00eancia de uma civiliza\u00e7\u00e3o social e ecol\u00f3gica baseada numa\u00a0<strong>nova estrutura energ\u00e9tica<\/strong>\u00a0e num<strong>\u00a0conjunto de valores e estilos de vida p\u00f3s-consumista<\/strong>s: o\u00a0<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/186-noticias\/noticias-2017\/567535-loewy-historia-razoes-e-etica-do-ecossocialismo2\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><strong>ecossocialismo<\/strong><\/a>. A realiza\u00e7\u00e3o desta vis\u00e3o n\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel sem um planejamento e controle p\u00fablicos dos \u201cmeios de produ\u00e7\u00e3o\u201d, ou seja, das instala\u00e7\u00f5es, m\u00e1quinas e infraestruturas.<\/p>\n<p><strong>Ecossocialismo e planejamento ecol\u00f3gico<\/strong><\/p>\n<p>O n\u00facleo do\u00a0<strong>ecossocialismo<\/strong>\u00a0\u00e9 o conceito de\u00a0<strong>planejamento ecol\u00f3gico democr\u00e1tico<\/strong>, em que a pr\u00f3pria popula\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o o \u201cmercado\u201d, ou os banqueiros e industriais, ou um Politburo burocr\u00e1tico, que toma as principais decis\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 economia. No in\u00edcio da transi\u00e7\u00e3o para este novo modo de vida, com seu novo modo de produ\u00e7\u00e3o e consumo, alguns setores da economia devem ser suprimidos (por exemplo, a extra\u00e7\u00e3o de combust\u00edveis f\u00f3sseis envolvidos na crise clim\u00e1tica) ou reestruturados, enquanto novos setores s\u00e3o desenvolvidos.<\/p>\n<p>Em \u00faltima an\u00e1lise, tal vis\u00e3o \u00e9 inconcili\u00e1vel com o controle privado dos meios de produ\u00e7\u00e3o. Em particular, para que o investimento e a inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica sirvam o bem comum, a tomada de decis\u00e3o deve ser retirada dos bancos e empresas capitalistas que dominam atualmente, e colocada em dom\u00ednio p\u00fablico. Ser\u00e1 ent\u00e3o a pr\u00f3pria sociedade, e n\u00e3o uma pequena oligarquia de propriet\u00e1rios ou uma elite de tecnoburocratas, que decidir\u00e1 democraticamente que linhas de produ\u00e7\u00e3o devem ser priorizadas, e que recursos devem ser investidos na educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade ou cultura. As grandes decis\u00f5es sobre as prioridades de investimento \u2013 como o\u00a0<strong>fechamento de todas as centrais el\u00e9tricas a carv\u00e3o<\/strong>\u00a0ou a\u00a0<strong>orienta\u00e7\u00e3o dos subs\u00eddios agr\u00edcolas para a produ\u00e7\u00e3o biol\u00f3gica<\/strong>\u00a0\u2013 ser\u00e3o\u00a0<strong>tomadas por vota\u00e7\u00e3o popular direta<\/strong>. Outras decis\u00f5es menos importantes ser\u00e3o tomadas por \u00f3rg\u00e3os eleitos em n\u00edvel nacional, regional ou local.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do que alegam os apologistas do capitalismo, o\u00a0<strong>planejamento ecol\u00f3gico democr\u00e1tico<\/strong>\u00a0proporciona, no final das contas, mais liberdade, e n\u00e3o menos, por v\u00e1rias raz\u00f5es. Em primeiro lugar, oferece uma libera\u00e7\u00e3o das \u201cleis econ\u00f4micas\u201d reificadas do sistema capitalista que acorrentam os indiv\u00edduos ao que\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/images\/stories\/cadernos\/formacao\/003cadernosihuemformacao.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><strong>Max Weber<\/strong><\/a>\u00a0chamava de uma \u201cgaiola de ferro\u201d. Em segundo, o\u00a0<strong>ecossocialismo<\/strong>\u00a0sugere um\u00a0<strong>aumento substancial do tempo livre<\/strong>. O planejamento e a<strong>\u00a0redu\u00e7\u00e3o do tempo de trabalho<\/strong>\u00a0s\u00e3o as duas etapas decisivas para aquilo a que\u00a0<a href=\"https:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/edicao\/525\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><strong>Marx<\/strong>\u00a0<\/a>chamava \u201co reino da liberdade\u201d. De fato, um aumento significativo do tempo livre \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o para a participa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores na discuss\u00e3o e gest\u00e3o democr\u00e1tica da economia e da sociedade. Finalmente, o planejamento ecol\u00f3gico democr\u00e1tico representa o exerc\u00edcio por toda uma sociedade de sua liberdade de controlar as decis\u00f5es que afetam seu destino. Se o ideal democr\u00e1tico n\u00e3o confere poder de decis\u00e3o pol\u00edtica a uma pequena elite, por que o mesmo princ\u00edpio n\u00e3o se aplicaria \u00e0s decis\u00f5es econ\u00f4micas?<\/p>\n<p>Sob o capitalismo, o\u00a0<strong>valor de uso<\/strong>\u00a0\u2013 o valor de um produto ou servi\u00e7o para o bem-estar \u2013 existe apenas a servi\u00e7o do\u00a0<strong>valor de troca<\/strong>, ou valor de mercado. Assim, na sociedade capitalista, muitos produtos s\u00e3o socialmente in\u00fateis ou concebidos para se tornarem rapidamente inutiliz\u00e1veis (\u201cobsolesc\u00eancia programada\u201d): o \u00fanico crit\u00e9rio \u00e9 a maximiza\u00e7\u00e3o do lucro. Em contrapartida, numa economia ecossocialista planejada, o valor de uso seria o \u00fanico crit\u00e9rio de produ\u00e7\u00e3o de bens e servi\u00e7os, com consider\u00e1veis consequ\u00eancias econ\u00f4micas, sociais e ecol\u00f3gicas.[1]<\/p>\n<p>O planejamento se concentraria nas grandes decis\u00f5es econ\u00f4micas, e n\u00e3o em decis\u00f5es de pequena escala que pudessem afetar restaurantes locais, mercearias, pequenas lojas ou empresas artesanais. \u00c9 importante notar que tal planejamento \u00e9 compat\u00edvel com a\u00a0<strong>autogest\u00e3o dos trabalhadores<\/strong>\u00a0de suas unidades de produ\u00e7\u00e3o. A decis\u00e3o, por exemplo, de transformar uma<strong>\u00a0f\u00e1brica de produ\u00e7\u00e3o de autom\u00f3veis<\/strong>\u00a0numa\u00a0<strong>f\u00e1brica de produ\u00e7\u00e3o de \u00f4nibus<\/strong>\u00a0e de\u00a0<strong>bondes modernos<\/strong>\u00a0seria tomada pela sociedade em seu conjunto, mas a organiza\u00e7\u00e3o interna e o funcionamento da empresa seriam geridos democraticamente por seus trabalhadores. Muito j\u00e1 se discutiu sobre o car\u00e1ter \u201ccentralizado\u201d ou \u201cdescentralizado\u201d do planejamento, mas o mais importante \u00e9 o controle democr\u00e1tico em todos os n\u00edveis \u2013 local, regional, nacional, continental ou internacional. Por exemplo, os problemas ecol\u00f3gicos planet\u00e1rios, como o\u00a0<strong>aquecimento global<\/strong>, devem ser tratados em escala mundial e, por conseguinte, exigem alguma forma de planejamento democr\u00e1tico mundial. Esta tomada de decis\u00e3o democr\u00e1tica integral \u00e9 o oposto do que \u00e9 geralmente descrito, muitas vezes de forma desdenhosa, como um \u201cplanejamento central\u201d, pois as decis\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o tomadas por um \u201ccentro\u201d qualquer, mas decididas democraticamente pela popula\u00e7\u00e3o envolvida, na escala apropriada.<\/p>\n<p>Um debate democr\u00e1tico e pluralista teria lugar em todos os n\u00edveis. Atrav\u00e9s de partidos, plataformas ou outros movimentos pol\u00edticos, propostas variadas seriam submetidas ao povo, e os delegados seriam eleitos em conformidade. Contudo, a democracia representativa deve ser complementada \u2013 e corrigida \u2013 pela democracia direta, em que as pessoas escolhem \u2013 em n\u00edvel local, nacional e, mais tarde, mundial \u2013 entre as grandes op\u00e7\u00f5es sociais e ecol\u00f3gicas. Os transportes p\u00fablicos devem ser gratuitos? Os propriet\u00e1rios de autom\u00f3veis privados devem pagar impostos especiais para subsidiar os transportes p\u00fablicos? A energia solar deve ser subsidiada para competir com a energia f\u00f3ssil? A semana de trabalho deve ser reduzida para 30 horas, 25 horas ou menos, com a consequente redu\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>Que garantia existe de que as pessoas tomar\u00e3o decis\u00f5es ecologicamente corretas? Nenhuma. O\u00a0<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/591623-ecossocialismo-democracia-e-nova-sociedade\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">ecossocialismo<\/a>\u00a0aposta que as decis\u00f5es democr\u00e1ticas se tornar\u00e3o cada vez mais ponderadas e esclarecidas \u00e0 medida que a cultura muda e a influ\u00eancia do fetichismo da mercadoria \u00e9 quebrado. Uma sociedade t\u00e3o nova n\u00e3o pode ser imaginada sem que a popula\u00e7\u00e3o atinja, pela luta, a autoeduca\u00e7\u00e3o e a experi\u00eancia social, um elevado n\u00edvel de consci\u00eancia socialista e ecol\u00f3gica. Em todo caso, as alternativas \u00e0 democracia \u2013 o poder do capital financeiro ou uma ditadura ecol\u00f3gica de \u201cespecialistas\u201d \u2013 n\u00e3o s\u00e3o muito mais perigosas?<\/p>\n<div>\n<blockquote><p>O ecossocialismo aposta que as decis\u00f5es democr\u00e1ticas se tornar\u00e3o cada vez mais ponderadas e esclarecidas \u00e0 medida que a cultura muda e a influ\u00eancia do fetichismo da mercadoria \u00e9 quebrado &#8211; Michael L\u00f6wy<\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<p>A\u00a0<strong>transi\u00e7\u00e3o do progresso capitalista destrutivo<\/strong>\u00a0para o\u00a0<strong>ecossocialismo<\/strong>\u00a0\u00e9 um processo hist\u00f3rico, uma transforma\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria permanente da sociedade, da cultura e das mentalidades. A realiza\u00e7\u00e3o desta transi\u00e7\u00e3o conduz n\u00e3o s\u00f3 a um novo modo de produ\u00e7\u00e3o e a uma sociedade igualit\u00e1ria e democr\u00e1tica, mas tamb\u00e9m a um modo de vida alternativo, a uma nova civiliza\u00e7\u00e3o ecossocialista, para al\u00e9m do reino do dinheiro, para al\u00e9m dos h\u00e1bitos de consumo artificialmente produzidos pela publicidade, e para al\u00e9m da produ\u00e7\u00e3o ilimitada de mercadorias in\u00fateis e\/ou nocivas ao meio ambiente. Tal processo de transforma\u00e7\u00e3o depende do apoio ativo da grande maioria da popula\u00e7\u00e3o a um programa ecossocialista. O fator decisivo no desenvolvimento da consci\u00eancia socialista e da consci\u00eancia ecol\u00f3gica \u00e9 a experi\u00eancia coletiva de luta, de confrontos locais e parciais \u00e0 mudan\u00e7a radical da sociedade global como um todo.<\/p>\n<p><strong>A quest\u00e3o do decrescimento<\/strong><\/p>\n<p>A quest\u00e3o do decrescimento econ\u00f4mico tem dividido os socialistas e os ecologistas. O\u00a0<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/542031-o-ecosocialismo-um-projeto-promissor%20\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">ecossocialismo<\/a>, contudo, rejeita o quadro dualista do crescimento contra o decrescimento, do desenvolvimento contra o anti-desenvolvimento, porque ambas as posi\u00e7\u00f5es partilham uma concep\u00e7\u00e3o puramente quantitativa das for\u00e7as produtivas. Uma terceira posi\u00e7\u00e3o soa mais favor\u00e1vel \u00e0 tarefa a cumprir: a transforma\u00e7\u00e3o qualitativa da economia.<\/p>\n<p>Um novo paradigma de desenvolvimento implica p\u00f4r fim ao\u00a0<strong>flagrante desperd\u00edcio de recursos<\/strong>\u00a0sob o capitalismo, alimentado pela produ\u00e7\u00e3o em grande escala de produtos in\u00fateis e nocivos. A ind\u00fastria de armamento \u00e9, certamente, um exemplo dram\u00e1tico disso, por\u00e9m, de modo mais geral, o principal objetivo de muitos dos \u201cbens\u201d produzidos \u2013 com sua obsolesc\u00eancia programada \u2013 \u00e9 gerar lucros para as grandes empresas. O problema n\u00e3o \u00e9 o consumo excessivo em abstrato, mas o tipo de consumo que prevalece, baseado no desperd\u00edcio massivo e na busca ostentat\u00f3ria e compulsiva de novidades promovidas pela \u201cmoda\u201d. Uma nova sociedade orientaria a produ\u00e7\u00e3o para a satisfa\u00e7\u00e3o de necessidades aut\u00eanticas, incluindo \u00e1gua, alimenta\u00e7\u00e3o, vestu\u00e1rio, habita\u00e7\u00e3o e servi\u00e7os b\u00e1sicos tais como sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, transportes e cultura.<\/p>\n<p>\u00c9 evidente que os pa\u00edses do Sul, onde estas necessidades est\u00e3o longe de ser satisfeitas, devem perseguir um maior \u201cdesenvolvimento\u201d cl\u00e1ssico \u2013 estradas de ferro, hospitais, sistemas de esgoto e outras infraestruturas. Contudo, mais do que imitarem a forma como os pa\u00edses ricos constru\u00edram seus sistemas de produ\u00e7\u00e3o, estes pa\u00edses podem perseguir o desenvolvimento de uma forma muito mais respeitosa em rela\u00e7\u00e3o ao ambiente, especialmente pela r\u00e1pida introdu\u00e7\u00e3o de energias renov\u00e1veis. Enquanto muitos pa\u00edses pobres precisar\u00e3o aumentar sua produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola para alimentar popula\u00e7\u00f5es famintas e em pleno crescimento, a solu\u00e7\u00e3o ecossocialista consiste em promover m\u00e9todos agroecol\u00f3gicos baseados em unidades familiares, cooperativas ou fazendas coletivas em grande escala, e n\u00e3o m\u00e9todos destrutivos do agroneg\u00f3cio industrializado envolvendo aplica\u00e7\u00e3o intensiva de pesticidas, produtos qu\u00edmicos e\u00a0<strong>OGMs<\/strong>.[2]<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, a transforma\u00e7\u00e3o ecossocialista poria fim ao odioso sistema de endividamento que o Sul enfrenta hoje em dia em raz\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o de seus recursos pelos pa\u00edses industriais avan\u00e7ados, bem como por pa\u00edses em r\u00e1pido desenvolvimento como a China. Em vez disso, podemos vislumbrar um fluxo importante de assist\u00eancia t\u00e9cnica e econ\u00f4mica do Norte para o Sul, baseado num sentido profundo de solidariedade e no reconhecimento de que os problemas planet\u00e1rios exigem solu\u00e7\u00f5es planet\u00e1rias.<\/p>\n<p>Mas como distinguir as necessidades aut\u00eanticas das necessidades artificiais e contraproducentes? Em grande medida, estas \u00faltimas s\u00e3o estimuladas pela manipula\u00e7\u00e3o mental da publicidade. Nas sociedades capitalistas contempor\u00e2neas, a ind\u00fastria publicit\u00e1ria invadiu todas as esferas da vida, moldando tudo, da comida que comemos e das roupas que vestimos aos esportes, cultura, religi\u00e3o e pol\u00edtica. A publicidade promocional tornou-se omnipresente, infestando insidiosamente nossas ruas, paisagens e meios de comunica\u00e7\u00e3o tradicionais e digitais, dando forma a h\u00e1bitos de consumo ostentat\u00f3rio e compulsivo.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a pr\u00f3pria ind\u00fastria publicit\u00e1ria \u00e9 uma fonte de consider\u00e1vel desperd\u00edcio de recursos naturais e de tempo de trabalho, paga, afinal de contas, pelo consumidor, para um ramo da \u201cprodu\u00e7\u00e3o\u201d que est\u00e1 em contradi\u00e7\u00e3o direta com as necessidades socioecol\u00f3gicas reais. Embora indispens\u00e1vel \u00e0 economia de mercado capitalista, a ind\u00fastria publicit\u00e1ria n\u00e3o teria lugar numa sociedade em transi\u00e7\u00e3o para o\u00a0<strong>ecossocialismo<\/strong>; seria substitu\u00edda por associa\u00e7\u00f5es de consumidores que supervisionam e divulgam informa\u00e7\u00f5es sobre bens e servi\u00e7os. A modifica\u00e7\u00e3o de h\u00e1bitos de consumo \u00e9 um desafio educacional permanente que se inscreve num processo hist\u00f3rico de mudan\u00e7a cultural.<\/p>\n<div>\n<blockquote><p>Al\u00e9m disso, a pr\u00f3pria ind\u00fastria publicit\u00e1ria \u00e9 uma fonte de consider\u00e1vel desperd\u00edcio de recursos naturais e de tempo de trabalho, paga, afinal de contas, pelo consumidor, para um ramo da \u201cprodu\u00e7\u00e3o\u201d que est\u00e1 em contradi\u00e7\u00e3o direta com as necessidades socioecol\u00f3gicas reais &#8211; Michael L\u00f6wy<\/p><\/blockquote>\n<\/div>\n<p>Uma das premissas fundamentais do\u00a0<strong>ecossocialismo<\/strong>\u00a0\u00e9 que, numa sociedade sem o fetiche da mercadoria e sem a aliena\u00e7\u00e3o capitalista, o \u201cser\u201d precede o \u201cter\u201d. Em vez da procura sem fim por bens, as pessoas buscar\u00e3o dispor de mais tempo livre, assim como de realiza\u00e7\u00f5es pessoais atrav\u00e9s de atividades culturais, esportivas, recreativas, cient\u00edficas, er\u00f3ticas, art\u00edsticas e pol\u00edticas. Nada indica que a gan\u00e2ncia compulsiva decorre de uma \u201cnatureza humana\u201d intr\u00ednseca, como sugere a ret\u00f3rica conservadora. Pelo contr\u00e1rio, \u00e9 induzida pelo fetichismo da mercadoria inerente ao sistema capitalista, pela ideologia dominante e pela publicidade.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/534513\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><strong>Ernest Mandel<\/strong>\u00a0<\/a>resume bem este ponto cr\u00edtico: \u201cA acumula\u00e7\u00e3o cont\u00ednua de mais e mais bens [\u2026] n\u00e3o \u00e9 de modo algum uma caracter\u00edstica universal ou mesmo predominante do comportamento humano. O desenvolvimento de talentos e inclina\u00e7\u00f5es por si mesmos; a prote\u00e7\u00e3o da sa\u00fade e da vida; o cuidado das crian\u00e7as; o desenvolvimento de ricas rela\u00e7\u00f5es sociais [\u2026] tornam-se motiva\u00e7\u00f5es maiores uma vez satisfeitas as necessidades materiais b\u00e1sicas\u201d.[3]<\/p>\n<p>Certamente, mesmo uma sociedade sem classes enfrenta conflitos e contradi\u00e7\u00f5es. A transi\u00e7\u00e3o para o\u00a0<strong>ecossocialismo<\/strong>\u00a0enfrentaria tens\u00f5es entre as exig\u00eancias da prote\u00e7\u00e3o ambiental e a satisfa\u00e7\u00e3o das necessidades sociais; entre os imperativos ecol\u00f3gicos e o desenvolvimento de infraestruturas de base; entre h\u00e1bitos de consumo popular e a escassez de recursos; entre impulsos comunit\u00e1rios e cosmopolitas. As lutas entre aspira\u00e7\u00f5es concorrentes s\u00e3o inevit\u00e1veis. Por conseguinte, a avalia\u00e7\u00e3o e equil\u00edbrio desses interesses deve se tornar a tarefa de um processo de planejamento democr\u00e1tico, livre dos imperativos do capital e da busca pelo lucro, a fim de encontrar solu\u00e7\u00f5es por meio de um debate p\u00fablico transparente, plural e aberto. Tal democracia participativa em todos os n\u00edveis n\u00e3o significa que n\u00e3o haver\u00e1 erros, mas permite aos membros da coletividade social autocorrigir seus pr\u00f3prios erros.<\/p>\n<p><strong>Por que os socialistas devem ser ecologistas<\/strong><\/p>\n<p>A sobreviv\u00eancia da sociedade civilizada, e talvez de uma grande parte da vida no planeta, est\u00e1 em jogo. Uma teoria ou um movimento socialista que n\u00e3o inclui a ecologia como elemento central de seu programa e estrat\u00e9gia \u00e9 anacr\u00f4nica e ineficaz.<\/p>\n<p>As\u00a0<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/614207-a-ciencia-que-todos-precisam-saber-sobre-as-mudancas-climaticas-em-6-graficos\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><strong>mudan\u00e7as<\/strong>\u00a0<strong>clim\u00e1ticas<\/strong><\/a>\u00a0s\u00e3o a express\u00e3o mais amea\u00e7adora da\u00a0<strong>crise ecol\u00f3gica planet\u00e1ria<\/strong>, representando um desafio sem precedente hist\u00f3rico. Se permitirmos que as temperaturas mundiais aumentem mais de 1,5\u00b0C acima dos n\u00edveis pr\u00e9-industriais, os cientistas preveem consequ\u00eancias cada vez mais graves, tais como uma\u00a0<strong>eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel do mar<\/strong>\u00a0t\u00e3o importante que poderia submergir a maioria das cidades mar\u00edtimas, de Daca no Bangladesh a Amsterd\u00e3, Veneza ou Nova Iorque. A\u00a0<strong>desertifica\u00e7\u00e3o<\/strong>\u00a0em grande escala, a perturba\u00e7\u00e3o do\u00a0<strong>ciclo hidrol\u00f3gico<\/strong>\u00a0e da produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola, o aumento da frequ\u00eancia e da intensidade dos\u00a0<strong>fen\u00f4menos meteorol\u00f3gico<\/strong>s e a\u00a0<strong>extin\u00e7\u00e3o de esp\u00e9cies<\/strong>\u00a0s\u00e3o algumas das amea\u00e7as. J\u00e1 estamos em 1,1\u00b0C. A partir de qual aumento de temperatura \u2013 4,5\u00b0C ou 6\u00b0C \u2013 chegaremos a um ponto de virada para al\u00e9m do qual o planeta n\u00e3o poder\u00e1 suportar a vida civilizada, ou mesmo de tornar-se inabit\u00e1vel?<\/p>\n<p>\u00c9 particularmente inquietante constatar que os efeitos das\u00a0<strong>mudan\u00e7as<\/strong>\u00a0<strong>clim\u00e1ticas<\/strong>\u00a0acumulam-se a um ritmo muito mais r\u00e1pido do que o previsto pelos climatologistas, que, como quase todos os cientistas, tendem a ser muito prudentes. A tinta de um relat\u00f3rio do Painel Intergovernamental sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas mal secou quando o aumento do impacto clim\u00e1tico o tornou muito otimista. Enquanto o foco costumava estar no que ocorrer\u00e1 num futuro distante, a aten\u00e7\u00e3o est\u00e1 voltada cada vez mais para o que estamos enfrentando agora e nos anos vindouros.<\/p>\n<p>Alguns socialistas reconhecem a necessidade de integrar a ecologia, mas se op\u00f5em ao termo \u201c<strong>ecossocialismo<\/strong>\u201d, argumentando que o socialismo j\u00e1 inclui a ecologia, o feminismo, o antirracismo e outras frentes progressistas. Contudo, o termo\u00a0<strong>ecossocialismo<\/strong>, ao sugerir uma mudan\u00e7a decisiva nas ideias socialistas, \u00e9 portador de um significado pol\u00edtico importante. Primeiramente, reflete uma nova compreens\u00e3o do capitalismo como um sistema baseado n\u00e3o apenas na explora\u00e7\u00e3o mas tamb\u00e9m na destrui\u00e7\u00e3o \u2013 a destrui\u00e7\u00e3o massiva das condi\u00e7\u00f5es de vida no planeta. Em segundo lugar, o\u00a0<strong>ecossocialismo<\/strong>\u00a0alarga o significado da transforma\u00e7\u00e3o socialista para al\u00e9m de uma mudan\u00e7a de propriedade, para uma transforma\u00e7\u00e3o civilizacional do aparelho produtivo, dos padr\u00f5es de consumo e de todo o modo de vida. Em terceiro, o novo termo enfatiza a vis\u00e3o cr\u00edtica que tem das experi\u00eancias do s\u00e9culo XX realizadas em nome do socialismo.<\/p>\n<p>O\u00a0<strong>socialismo do s\u00e9culo XX<\/strong>, nas suas tend\u00eancias dominantes (a socialdemocracia e o comunismo de estilo sovi\u00e9tico), era, na melhor das hip\u00f3teses, desatento ao impacto humano sobre o meio ambiente e, na pior, claramente desdenhoso. Os governos adotaram o aparelho produtivo capitalista ocidental num esfor\u00e7o fren\u00e9tico de \u201cdesenvolvimento\u201d, sem perceber os consider\u00e1veis custos negativos da degrada\u00e7\u00e3o ambiental.<\/p>\n<p>A\u00a0<strong>Uni\u00e3o<\/strong>\u00a0<strong>Sovi\u00e9tica<\/strong>\u00a0\u00e9 um exemplo perfeito disso. Nos primeiros anos ap\u00f3s a\u00a0<strong>Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro<\/strong>, viu-se desenvolver uma corrente ecol\u00f3gica, e certo n\u00famero de medidas para proteger o meio ambiente foram de fato adotadas. Mas, no final dos anos\u00a0<strong>1920<\/strong>, com o processo de burocratiza\u00e7\u00e3o stalinista em curso, um produtivismo ambientalmente insens\u00edvel foi imposto na ind\u00fastria e na agricultura por m\u00e9todos totalit\u00e1rios, enquanto que os ecologistas foram marginalizados ou eliminados. O\u00a0<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/542146-desastre-nuclear-de-chernobyl-completa-29-anos\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><strong>acidente de Chernobyl<\/strong><\/a>\u00a0em 1986 \u00e9 um emblema dram\u00e1tico das consequ\u00eancias desastrosas no longo prazo.<\/p>\n<p>Mudar quem possui a propriedade sem alterar a forma como essa propriedade \u00e9 gerida \u00e9 um beco sem sa\u00edda. O socialismo deve colocar a gest\u00e3o democr\u00e1tica e a reorganiza\u00e7\u00e3o do sistema produtivo no centro da transforma\u00e7\u00e3o, assim como um firme compromisso de gest\u00e3o ecol\u00f3gica.<\/p>\n<p><strong>As lutas imediatas e concretas<\/strong><\/p>\n<p>A luta por um socialismo verde a longo prazo exige a luta por medidas concretas e urgentes a curto prazo. Sem ilus\u00f5es sobre as perspectivas de um \u201ccapitalismo limpo\u201d, o movimento por uma mudan\u00e7a profunda deve tentar reduzir os riscos para as pessoas e o planeta, ao mesmo tempo em que ganha tempo para construir apoio para uma mudan\u00e7a mais fundamental. Em particular, a batalha para for\u00e7ar os poderes constitu\u00eddos a reduzir radicalmente as emiss\u00f5es dos gases de efeito estufa continua sendo uma frente essencial, assim como os esfor\u00e7os locais para passar aos m\u00e9todos agroecol\u00f3gicos, energia solar cooperativa e gest\u00e3o comunit\u00e1ria de recursos.<\/p>\n<p>Estas lutas concretas e imediatas s\u00e3o importantes em si, pois as vit\u00f3rias parciais s\u00e3o essenciais na luta contra a deteriora\u00e7\u00e3o ambiental e o desespero diante do futuro. No longo prazo, estas campanhas podem contribuir para aumentar a consci\u00eancia ecol\u00f3gica e socialista e promover o ativismo a partir de baixo. Tanto a conscientiza\u00e7\u00e3o como a auto-organiza\u00e7\u00e3o s\u00e3o condi\u00e7\u00f5es pr\u00e9vias e fundamentos decisivos para a transforma\u00e7\u00e3o radical do sistema mundial. A amplia\u00e7\u00e3o de milhares de esfor\u00e7os locais e parciais num movimento sist\u00eamico global abre caminho para a transi\u00e7\u00e3o para uma nova sociedade e um novo modo de vida.<\/p>\n<p>O\u00a0<strong>ecossocialismo<\/strong>\u00a0considera-se parte de um movimento internacional: uma vez que as\u00a0<strong>crises ecol\u00f3gicas<\/strong>,\u00a0<strong>econ\u00f4micas<\/strong>\u00a0e\u00a0<strong>sociais<\/strong>\u00a0mundiais n\u00e3o conhecem fronteiras, a luta contra as for\u00e7as sist\u00eamicas por tr\u00e1s destas crises tamb\u00e9m deve ser globalizada. H\u00e1 muitas intersec\u00e7\u00f5es significativas entre o\u00a0<strong>ecossocialismo<\/strong>\u00a0e outros movimentos, especialmente os esfor\u00e7os para associar o\u00a0<a href=\"https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/78-noticias\/607930-o-que-o-ecofeminismo-postula\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><strong>ecofeminismo<\/strong>\u00a0<\/a>ao\u00a0<strong>ecossocialismo<\/strong>\u00a0como movimentos convergentes e complementares.[4] O movimento pela justi\u00e7a clim\u00e1tica re\u00fane o antirracismo e o ecossocialismo na luta contra a destrui\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de vida das comunidades discriminadas. Nos movimentos ind\u00edgenas, alguns l\u00edderes s\u00e3o ecossocialistas, enquanto muitos ecossocialistas consideram, por sua vez, o modo de vida ind\u00edgena, baseado na solidariedade comunit\u00e1ria e no respeito pela M\u00e3e Natureza, como uma inspira\u00e7\u00e3o para a perspectiva ecossocialista. Do mesmo modo, o ecossocialismo encontra uma voz nos movimentos camponeses, sindicais e outros.<\/p>\n<p>O poder das elites dominantes \u00e9 ineg\u00e1vel e as for\u00e7as da oposi\u00e7\u00e3o radical permanecem fracas. Mas elas se desenvolvem e representam nossa \u00fanica esperan\u00e7a de parar o curso catastr\u00f3fico do \u201ccrescimento\u201d capitalista.<\/p>\n<p>Walter Benjamin definiu as revolu\u00e7\u00f5es n\u00e3o como a locomotiva da hist\u00f3ria, ao modo de Marx, mas como a tentativa da humanidade de puxar o freio de emerg\u00eancia antes do comboio cair no abismo. Nunca antes tivemos tanta necessidade de agarrar esta alavanca e estabelecer novos caminhos em dire\u00e7\u00e3o a um destino diferente. A ideia e a pr\u00e1tica do\u00a0<strong>ecossocialismo<\/strong>\u00a0podem ajudar a inspirar este projeto hist\u00f3rico global.<\/p>\n<p><strong>Notas<\/strong><\/p>\n<p>[1] Joel Kovel,\u00a0<strong>Ennemi de la nature: La fin du capitalisme ou la fin du monde?<\/strong>\u00a0(New York, Zed Books, 2002), 215.<\/p>\n<p>[2]\u00a0<strong>Via Campesina<\/strong>, uma rede mundial de movimentos camponeses, que h\u00e1 muito tempo defende este tipo de transforma\u00e7\u00e3o agr\u00edcola. Ver: https:\/\/viacampesina.org\/en\/.<\/p>\n<p>[3] Ernest Mandel,\u00a0<strong>Power and Money: A Marxist Theory of Bureaucracy<\/strong>\u00a0(Londres, Verso, 1992), 206.<\/p>\n<p>[4] Ver:\u00a0<em>Ecofeminism as Politics de Ariel Salleh<\/em>\u00a0(New York: Zed Books, 1997), ou o recente n\u00famero de Capitalism,\u00a0<strong>Nature and Socialism<\/strong>\u00a0(29, n. 1: 2018) sobre \u201cEcofeminism against Capitalism\u201d, com ensaios de Terisa Turner, Ana Isla e outros.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Ecossocialismo. Artigo de Michael L\u00f6wy &#8211; Instituto Humanitas Unisinos &#8211; IHU &#8211; https:\/\/www.ihu.unisinos.br\/615544-ecossocialismo-artigo-de-michael-loewy<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Michael L\u00f6wy &#8211; A civiliza\u00e7\u00e3o capitalista contempor\u00e2nea est\u00e1 em crise. 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