{"id":1630,"date":"2016-08-21T12:15:59","date_gmt":"2016-08-21T15:15:59","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=1630"},"modified":"2016-08-20T21:17:06","modified_gmt":"2016-08-21T00:17:06","slug":"previdencia-mexer-com-ela-trara-danos-sociais-dramaticos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2016\/08\/21\/previdencia-mexer-com-ela-trara-danos-sociais-dramaticos\/","title":{"rendered":"Previd\u00eancia: mexer com ela trar\u00e1 danos sociais dram\u00e1ticos"},"content":{"rendered":"<p><strong>Maur\u00edcio Thuswohl<\/strong> &#8211; Para a economista Laura Tavares Soares, aumento da idade m\u00ednima para aposentadoria n\u00e3o ser\u00e1 apenas injusto para quem contribui desde adolescente. Trar\u00e1 consequ\u00eancias sociais dram\u00e1ticas<\/p>\n<p>Laura: nossa prote\u00e7\u00e3o previdenci\u00e1ria representa maior grau de formaliza\u00e7\u00e3o do emprego e, naturalmente, da cidadania<\/p>\n<p>Laura Tavares Soares faz parte de um grupo de economistas que enviou, em abril, uma carta ao Supremo Tribunal Federal pedindo empenho contra a tentativa de golpe no Brasil. Al\u00e9m de condenar a ruptura com a democracia traduzida no afastamento da presidenta Dilma Rousseff, ela lamenta que o governo interino de Michel Temer, qualificado como &#8220;usurpador&#8221; e &#8220;ileg\u00edtimo&#8221;, esteja tentando impor &#8220;pol\u00edticas regressivas&#8221; no que diz respeito \u00e0s conquistas dos trabalhadores e da popula\u00e7\u00e3o de baixa renda.<\/p>\n<p>Especialista em estudos sobre Previd\u00eancia Social e desigualdade social, professora aposentada da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e professora investigadora da Faculdade Latino-Americana de Ci\u00eancias Sociais (Flacso), Laura afirma que uma eventual desvincula\u00e7\u00e3o dos benef\u00edcios da Previd\u00eancia, sobretudo as aposentadorias, do sal\u00e1rio m\u00ednimo, \u00e9 &#8220;criminosa&#8221;. E lembra que a aposentadoria inserida na pol\u00edtica de valoriza\u00e7\u00e3o do m\u00ednimo sustenta a maioria das fam\u00edlias em mais de 60% dos pequenos munic\u00edpios.<\/p>\n<p>Como pesquisadora e intelectual, Laura deu importante contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 elabora\u00e7\u00e3o da Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, quando atuou na equipe de formuladores dos artigos relativos \u00e0 Seguridade Social. Ela condena a proposta de aumento da idade m\u00ednima de aposentadoria para 65 anos, ou mais, e diz que &#8220;muitos brasileiros e brasileiras morrer\u00e3o antes&#8221;.<\/p>\n<p>A economista ressalta que os trabalhadores de menor renda entram mais cedo no mercado e diz que ignorar a diferen\u00e7a de expectativa de vida entre as classes sociais significa agravar as desigualdades, inclusive no que diz respeito a condi\u00e7\u00f5es de sa\u00fade e de educa\u00e7\u00e3o. Nas ideias defendidas pelo governo interino, perdem, e muito, os mais pobres.<\/p>\n<p>N\u00e3o me venham com argumento demogr\u00e1fico. Se nosso jovens estiverem empregados, dar\u00e3o conta de manter a solidariedade entre gera\u00e7\u00f5es, o regime de reparti\u00e7\u00e3o, por um bom tempo<\/p>\n<p><strong>A economia voltou a rezar pela cartilha do neolibera\u00adlismo como nos tempos de FHC?<\/strong><\/p>\n<p>Ah, com certeza. \u00c9 assustador que, em t\u00e3o pouco tempo, o governo provis\u00f3rio e usurpador de Temer esteja implementando e propondo pol\u00edticas regressivas sob todos os pontos de \u00advista. Sob o econ\u00f4mico, aprofundar\u00e1 mais ainda uma crise que assume contornos mundiais, uma crise \u00e0 qual o Brasil n\u00e3o est\u00e1 imune. No entanto, a crise n\u00e3o vem sozinha. Ela \u00e9 amplificada e agravada, em boa medida, por pol\u00edticas que denomin\u00e1vamos de ajuste neoliberal. Sobretudo na ado\u00e7\u00e3o de medidas que paralisam os investimentos produtivos, deixam de criar empregos e, o que \u00e9 pior, criam um desemprego que, no ritmo que vai, chegar\u00e1 aos patamares cr\u00edticos que tivemos nos anos 90.<\/p>\n<p>Se lembrarmos que chegamos a uma situa\u00e7\u00e3o denominada de &#8220;pleno emprego&#8221; (<em>em 2014<\/em>), trata-se de um brutal retrocesso. Eu estudo a s\u00e9rie hist\u00f3rica da Previd\u00eancia desde os anos 70, e pela primeira vez a propor\u00e7\u00e3o de contribuintes, ou seja, de empregados formais, supera o patamar de 60%, quando historicamente chegava, no m\u00e1ximo, a 40%. Os dados mostram como o crescimento da ocupa\u00e7\u00e3o em todos os per\u00edodos supera o aumento da popula\u00e7\u00e3o economicamente ativa. Essa diferen\u00e7a corresponde exatamente \u00e0 diminui\u00e7\u00e3o do desemprego. Por sua vez, o n\u00famero de pessoas filiadas e contribuindo para a Previd\u00eancia superou em muito, em todos os per\u00edodos, o crescimento dos postos de trabalho. Essa maior prote\u00e7\u00e3o previdenci\u00e1ria representa um maior grau de formaliza\u00e7\u00e3o do emprego e, naturalmente, da cidadania.<\/p>\n<p><strong>O atual cen\u00e1rio representa amea\u00e7a a essas conquistas obtidas na \u00faltima d\u00e9cada?<\/strong><\/p>\n<p>O neoliberalismo \u00e9 muito mais que um conjunto de medidas econ\u00f4micas. \u00c9 uma ideologia que continua forte e traz propostas que modificaram e est\u00e3o modificando o modo como as pol\u00edticas sociais s\u00e3o implementadas. Passa por uma vis\u00e3o de que o Estado deve apenas atender aos &#8220;mais pobres&#8221;. Na \u00e1rea social, \u00e9 claro. Porque na \u00e1rea econ\u00f4mica, o Estado sempre atendeu aos interesses do capital hegem\u00f4nico \u2013 hoje o capital financeiro \u2013 e das classes dominantes remanescentes que det\u00eam ainda o poder sobre a propriedade da terra, os grandes latifundi\u00e1rios. As classes dominantes n\u00e3o t\u00eam nenhum pudor em disputar e desfrutar do Estado. Bem como a classe m\u00e9dia brasileira, que possui uma renda e um estilo de vida superior \u00e0s demais classes m\u00e9dias latino-americanas. Ela desfruta da isen\u00e7\u00e3o do Imposto de Renda nos gastos, n\u00e3o apenas com educa\u00e7\u00e3o privada e com sa\u00fade privada, e promove uma enorme ren\u00fancia tribut\u00e1ria ao descontar integralmente os planos de sa\u00fade e os fundos de previd\u00eancia privados. Para estes, n\u00e3o h\u00e1 nenhum problema que o Estado d\u00ea uma m\u00e3ozinha na chamada reserva de mercado para o setor privado em duas \u00e1reas sens\u00edveis e historicamente subfinanciadas, como a sa\u00fade e a educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Eu fiz Economia no doutorado exatamente para me contrapor aos economistas. Outro dia, preparando aula, descobri que a economista inglesa Joan Robinson disse que estudou Economia para n\u00e3o ser enganada por nenhum economista. Estou em boa companhia! Sempre defendi a pol\u00edtica social como indutora de um novo padr\u00e3o de desenvolvimento, ainda que capitalista, menos excludente mas, sobretudo, mais igualit\u00e1rio e garantidor de direitos de cidadania, palavras que andam meio esquecidas desde a Constitui\u00e7\u00e3o de 1988.<\/p>\n<p><strong>Que impacto haveria sobre os trabalhadores a reforma da Previd\u00eancia pretendida pelo \u00adgoverno interino?<\/strong><\/p>\n<p>Vou me referir a duas medidas que considero as que causariam impactos sociais inimagin\u00e1veis. A primeira \u00e9 a criminosa desvincula\u00e7\u00e3o do sal\u00e1rio m\u00ednimo dos benef\u00edcios da Previd\u00eancia Social, especialmente as aposentadorias. Ali\u00e1s, a Previd\u00eancia Social hoje em dia deveria ser chamada de Previd\u00eancia Fazend\u00e1ria. Nem nos piores casos de neoliberalismo que estudei na Am\u00e9rica Latina, nunca vi a Previd\u00eancia ir para o Minist\u00e9rio da Fazenda t\u00e3o explicitamente. Hoje, a aposentadoria no valor de um sal\u00e1rio m\u00ednimo, acompanhada de uma valoriza\u00e7\u00e3o sem precedentes, acima da infla\u00e7\u00e3o, sustenta a maioria das fam\u00edlias residentes em mais de 60% dos pequenos munic\u00edpios, e alguns m\u00e9dios. Se n\u00e3o acreditarem nos dados oficiais dos governos eleitos Lula e Dilma, consultem os dados do Dieese ou da Anfip (<em>associa\u00e7\u00e3o de auditores da Previd\u00eancia<\/em>). At\u00e9 na Pnad (<em>Pesquisa Nacional por Amostra de Domic\u00edlios<\/em>) do IBGE se pode verificar o aumento da import\u00e2ncia da Previd\u00eancia, em muitos casos logo abaixo da renda do trabalho, quando ele existe. Na \u00e1rea rural, ent\u00e3o, considero uma verdadeira revolu\u00e7\u00e3o social que um casal que se aposenta pelo trabalho, ou seja, que tem o direito de receber uma aposentadoria digna, receba hoje R$ 1.736. Isso, para a \u00e1rea rural, \u00e9 uma renda consider\u00e1vel, muitas vezes maior que o pr\u00f3prio trabalho rural. Detalhe: as mulheres passaram a receber igual aos homens desde a redemocratiza\u00e7\u00e3o, conquista que foi fruto de uma longa luta. Para mim, \u00e9 a mais redistributiva pol\u00edtica social universal que temos, \u00fanica na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>Uma auxiliar de enfermagem que comece a trabalhar aos 20 anos, aos 65 est\u00e1 um baga\u00e7o ou j\u00e1 n\u00e3o existe mais. Desculpem o realismo<\/p>\n<p><strong>\u00c9 uma quest\u00e3o antiga&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Aqui vale fazer uma pausa e afirmar, com veem\u00eancia, que a Previd\u00eancia rural n\u00e3o \u00e9 assistencial e sim vinculada ao trabalho! Essa \u00e9 uma briga antiga dos trabalhadores rurais e nossa, quando enfrent\u00e1vamos os parlamentares em 1998 e em 2003 nos debates sobre a reforma da Previd\u00eancia. Sem nenhum dem\u00e9rito \u00e0 palavra assistencial, pelo contr\u00e1rio. O BPC (<em>Benef\u00edcio de Presta\u00e7\u00e3o Continuada<\/em>), este sim um benef\u00edcio assistencial destinado aos idosos urbanos e a pessoas com defici\u00eancia de baixa renda, j\u00e1 que a Previd\u00eancia urbana ainda n\u00e3o \u00e9 universal, possui uma enorme relev\u00e2ncia social. Destaco isso porque a Previd\u00eancia rural foi e continua sendo alvo dos defensores da reforma da Previd\u00eancia neoliberal, que quer retirar a popula\u00e7\u00e3o rural do sistema da seguridade. Com isso se perde, no m\u00ednimo, a vincula\u00e7\u00e3o dos atuais benef\u00edcios rurais com o sal\u00e1rio m\u00ednimo, por exemplo, caindo a patamares \u00ednfimos, como era no per\u00edodo da ditadura. Em outubro de 2014, somente o INSS pagava por m\u00eas mais de 32 milh\u00f5es de benef\u00edcios, transferindo renda e movimentando a economia nos munic\u00edpios. A maior parte dos benef\u00edcios (71,2%) foi paga \u00e0 clientela urbana. Portanto, 28,8% foi pago aos trabalhadores rurais. S\u00e3o milh\u00f5es de rurais recebendo um sal\u00e1rio m\u00ednimo na sua velhice ou invalidez.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 verdade que a Previd\u00eancia Social gasta mais com os ricos do que com os pobres? Existe algum retorno social com o montante que se gasta hoje com Previd\u00eancia?<\/strong><\/p>\n<p>Fiz em 2012 uma apresenta\u00e7\u00e3o exatamente com o objetivo de demonstrar o retorno social da despesa da Previd\u00eancia Social com benef\u00edcios. E aqui entra a ideia da Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 de que a Previd\u00eancia, tal como a sa\u00fade e a assist\u00eancia social, pertence \u00e0 seguridade social. A maioria das pessoas n\u00e3o sabe nem o que \u00e9 isso. Sempre recomendo para meus alunos, como tarefa de cidadania, a leitura, pelo menos, do cap\u00edtulo da Seguridade Social na Constitui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por outro lado, a grande maioria dos benef\u00edcios pagos hoje \u00e9 de um sal\u00e1rio m\u00ednimo. Eu n\u00e3o sei ao certo o dado agora, mas \u00e9 cerca de 80%. O \u00faltimo dado que calculei e que tenho dispon\u00edvel aqui \u00e9 que as despesas com benef\u00edcios, desde 2006, ultrapassam a metade do valor arrecadado pelo governo em impostos e contribui\u00e7\u00f5es sociais e econ\u00f4micas, quando deduzidas as transfer\u00eancias constitucionais a estados, Distrito Federal e munic\u00edpios, restitui\u00e7\u00f5es e incentivos fiscais. Em 2013 essa propor\u00e7\u00e3o chegou a 54,3%. Isso significa que pouco mais da metade da parcela dos impostos e contribui\u00e7\u00f5es que fica no or\u00e7amento federal retornou para os segmentos sociais mais necessitados. Al\u00e9m do grande significado social, essas transfer\u00eancias t\u00eam um papel econ\u00f4mico importante, pois atingem um quantitativo importante de fam\u00edlias, distribu\u00eddas regionalmente e com uma grande capilaridade.<\/p>\n<p>Da mesma forma, os Benef\u00edcios de Presta\u00e7\u00e3o Continuada, da Loas (<em>Lei Org\u00e2nica da Assist\u00eancia Social<\/em>), custam o equivalente a 0,6% do PIB, e cada R$ 1 pago gera R$ 1,19 no PIB. Cada R$ 1 pago de seguro-desemprego, cujos gastos alcan\u00e7am tamb\u00e9m 0,6% do PIB, rende R$ 1,09 no PIB. O conjunto dos benef\u00edcios da Seguridade Social tem a capacidade de diminuir a desigualdade e a pobreza, com grande poder multiplicador na economia. Um estudo do Ipea (<em>Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada<\/em>) divulgado em 2013 reafirma que, al\u00e9m da Previd\u00eancia, as despesas com o Bolsa Fam\u00edlia representam apenas 0,4% do PIB (<em>Produto Interno Bruto<\/em>), mas cada real gasto com o programa adiciona R$ 1,78 no PIB.<\/p>\n<p><strong>As despesas com pol\u00edticas sociais ent\u00e3o, retornam na forma de dinamiza\u00e7\u00e3o da economia&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Na economia, o impacto multiplicador tem outra vantagem. Ao elevar a produ\u00e7\u00e3o e a circula\u00e7\u00e3o de bens e servi\u00e7os, obviamente cresce a arrecada\u00e7\u00e3o. Portanto, parcela consider\u00e1vel dos recursos p\u00fablicos aplicados retorna. Quem faz contas da Previd\u00eancia de modo meramente atuarial olha apenas receitas e despesas, ignorando, al\u00e9m da cidadania e o direito \u00e0 previd\u00eancia, as demais contas de arrecada\u00e7\u00e3o envolvidas.<\/p>\n<p>A diversifica\u00e7\u00e3o de fontes de financiamento da seguridade social \u00e9 um princ\u00edpio pioneiro institu\u00eddo na Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 que revolucionou o financiamento dessas tr\u00eas \u00e1reas: Previd\u00eancia, Sa\u00fade e Assist\u00eancia Social. Por esse princ\u00edpio, todas essas \u00e1reas deveriam ser financiadas pelo or\u00e7amento da seguridade social. Infelizmente, a partir do desmonte dos anos 90, as fontes setoriais ficaram separadas, o que, a meu ver, rep\u00f5e eternamente o debate do subfinanciamento da Sa\u00fade e da Assist\u00eancia Social. A sacada genial introduzida na Constitui\u00e7\u00e3o, e batalhada por muitos t\u00e9cnicos que j\u00e1 trabalhavam na Previd\u00eancia na \u00e9poca do ministro Waldir Pires (1985-1986) e pelos movimentos sociais, \u00e9 que as contribui\u00e7\u00f5es n\u00e3o deveriam apenas incidir sobre o trabalho. Com a crise do mundo do trabalho, nenhum pa\u00eds do mundo sustenta seu sistema de prote\u00e7\u00e3o social com folha de sal\u00e1rios! Dessa forma, criamos duas\u00ad contribui\u00e7\u00f5es, que incidissem sobre o capital, que s\u00e3o as atuais CSLL (<em>Contribui\u00e7\u00e3o Social sobre o Lucro L\u00edquido<\/em>) e Cofins (<em>Contribui\u00e7\u00e3o para o Financiamento da Seguridade Social<\/em>). Essas contribui\u00e7\u00f5es sempre cresceram acima do PIB e da arrecada\u00e7\u00e3o federal. Como est\u00e1 na moda dizer hoje, s\u00e3o absolutamente sustent\u00e1veis. O resultado da seguridade social em 2013, ou seja, o seu super\u00e1vit, foi de R$ 76,241 bilh\u00f5es. Com todas as desvincula\u00e7\u00f5es e as isen\u00e7\u00f5es fiscais \u00e0s empresas, que diminu\u00edram a receita da Previd\u00eancia, o super\u00e1vit ainda foi de R$ 12,626 bilh\u00f5es.<\/p>\n<p>N\u00e3o existe isonomia na vida cotidiana das mulheres. S\u00f3 conhe\u00e7o homem que participa do trabalho dom\u00e9stico jovem, ilustrado, de classe m\u00e9dia e progressista. E olhe l\u00e1!<\/p>\n<p><strong>O aumento da idade m\u00ednima para a aposentadoria \u00e9 um <\/strong>&#8220;<strong>mal necess\u00e1rio<\/strong>&#8220;<strong> para garantir a estabilidade do sistema de Previd\u00eancia?<\/strong><\/p>\n<p>O problema \u00e9 que as desigualdades no Brasil ainda s\u00e3o enormes, e elas t\u00eam influ\u00eancia direta sobre a expectativa de vida. Calcular uma m\u00e9dia em um \u00ad\u00adpa\u00eds \u00adcomo o Brasil \u00e9 uma medida de alto risco que, no caso da Previd\u00eancia, trar\u00e1 consequ\u00eancias sociais dram\u00e1ticas. Aprendi, desde o meu curso de sanitarista da Escola Nacional de Sa\u00fade P\u00fablica, que expectativa de vida depende das condi\u00e7\u00f5es de vida e, junto com elas, das condi\u00e7\u00f5es de sa\u00fade. Isso vai mais al\u00e9m da renda. Depende fundamentalmente do acesso aos servi\u00e7os de sa\u00fade, \u00e0 habita\u00e7\u00e3o digna, ao saneamento, \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de trabalho, entre outras coisas. Se a idade m\u00ednima aumentar de forma linear, muitos brasileiros e brasileiras morrer\u00e3o antes de receber sua aposentadoria.<\/p>\n<p>At\u00e9 as pedras sabem que os de mais baixa renda t\u00eam que entrar mais cedo no mercado de trabalho. E v\u00e3o ter que esperar a idade m\u00ednima muito mais tempo do que aqueles que ingressam mais tarde, como os jovens que t\u00eam acesso ao estudo m\u00e9dio e universit\u00e1rio sem precisar trabalhar e que depois ainda podem fazer mestrado, doutorado, cursinho para concurso etc., custeado pelos pais ou pela fam\u00edlia. Quase sempre o grupo de baixa renda que tem que trabalhar desde cedo ingressa em trabalhos de pior qualidade, mais prec\u00e1rios, com evidentes preju\u00edzos para a sua sa\u00fade. E aqui tamb\u00e9m reside uma diferen\u00e7a perversa: ainda hoje, as mulheres possuem piores condi\u00e7\u00f5es de trabalho e remunera\u00e7\u00e3o. \u00c9 uma diferen\u00e7a de g\u00eanero que persiste no nosso mercado de trabalho, especialmente no mercado privado.<\/p>\n<p>Mas diferen\u00e7as tamb\u00e9m existem no setor p\u00fablico. Quando o presidente interino e ileg\u00edtimo disse que todos os servidores p\u00fablicos iriam se aposentar com 70 anos, eu, com apenas 62, quase tive um infarto. Trata-se de um total desconhecimento do que \u00e9 o setor p\u00fablico neste pa\u00eds e sua tamb\u00e9m enorme heterogeneidade. N\u00e3o \u00e9 a mesma coisa trabalhar em estatais ou no Poder Judici\u00e1rio, com sal\u00e1rios muit\u00edssimo acima da m\u00e9dia dos servidores p\u00fablicos, al\u00e9m de muitos privil\u00e9gios, do que trabalhar no Executivo, onde, a princ\u00edpio, somos meros assalariados nos tr\u00eas n\u00edveis de governo. Isso acontece especialmente nas \u00e1reas de sa\u00fade, onde pelo menos dois ter\u00e7os s\u00e3o mulheres que trabalham na enfermagem ou em \u00e1reas extremamente exaustivas, e educa\u00e7\u00e3o, onde a maioria \u00e9 de professoras prim\u00e1rias ou secund\u00e1rias. E essas s\u00e3o as \u00e1reas majorit\u00e1rias em m\u00e3o de obra no setor p\u00fablico. Uma auxiliar de enfermagem que comece a trabalhar aos 20 anos aos 65 est\u00e1 um baga\u00e7o ou j\u00e1 n\u00e3o existe mais. Desculpem o realismo.<\/p>\n<p><strong>A mulher pobre \u00e9 quem mais perde com essa proposta de aumento da idade m\u00ednima?<\/strong><\/p>\n<p>Essa mesma &#8220;isonomia&#8221; entre homens e mulheres proposta para a idade m\u00ednima na Previd\u00eancia, como j\u00e1 disse, n\u00e3o existe no mercado de trabalho. De novo, a mulher vive mais tempo na m\u00e9dia. Mas a mulher de baixa renda sofre, al\u00e9m da discrimina\u00e7\u00e3o de g\u00eanero, a racial. A maioria dos postos prec\u00e1rios de trabalho ainda \u00e9 preenchida por mulheres. Por essas e outras \u00e9 que afirmo que as mulheres trabalhadoras rurais conseguiram o que muitas que trabalham no meio urbano n\u00e3o conseguiram: uma Previd\u00eancia universal pelo simples fato de ter trabalhado. Tampouco existe isonomia na vida cotidiana das mulheres, especialmente nas de baixa renda, que n\u00e3o podem pagar dom\u00e9sticas ou diaristas. S\u00f3 conhe\u00e7o homem que participa do trabalho dom\u00e9stico jovem, ilustrado, de classe m\u00e9dia e progressista. E olhe l\u00e1! A inclus\u00e3o do trabalho dom\u00e9stico na amplia\u00e7\u00e3o da Previd\u00eancia na chamada &#8220;inclus\u00e3o previdenci\u00e1ria&#8221; nunca foi compreendida pelos homens tecnocratas e pol\u00edticos com quem t\u00ednhamos que conversar no Minist\u00e9rio da Previd\u00eancia e no Congresso.<\/p>\n<p>E ainda falta um componente, que j\u00e1 se encontra muito mais avan\u00e7ado nos pa\u00edses que de fato disp\u00f5em de um Estado de bem-estar social, que \u00e9 a quest\u00e3o do cuidado. E a\u00ed, o cuidado com os filhos e com os idosos sobra para as mulheres mesmo. Melhorou a pol\u00edtica de creches? Sim. Mas falta muito. E com os idosos, quem n\u00e3o tem dinheiro para cuidadoras \u2013 tamb\u00e9m mulheres \u2013 e assim mesmo quem &#8220;cuida&#8221; das cuidadoras s\u00e3o as mulheres, mesmo de classe m\u00e9dia.<\/p>\n<p>E n\u00e3o me venham com o argumento demogr\u00e1fico, pelo menos n\u00e3o no Brasil, onde ainda temos um b\u00f4nus de jovens que, se estivessem todos, ou a maioria, empregados, dariam perfeitamente conta de manter a solidariedade intergeracional, o regime de reparti\u00e7\u00e3o, por um bom tempo. E, como j\u00e1 vimos, no caso brasileiro ainda temos muitos recursos que, se n\u00e3o fossem &#8220;desviados&#8221; para os super\u00e1vits fiscais, daria conta de sustentar todos os idosos deste pa\u00eds, me arrisco a dizer, de modo universal. Onde todos, como no campo, tivessem pelo menos a garantia de um sal\u00e1rio m\u00ednimo.<\/p>\n<p>http:\/\/www.redebrasilatual.com.br\/revistas\/120\/muitos-morrerao-antes-3817.html<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maur\u00edcio Thuswohl &#8211; Para a economista Laura Tavares Soares, aumento da idade m\u00ednima para aposentadoria n\u00e3o ser\u00e1 apenas injusto para quem contribui desde adolescente. 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