{"id":1624,"date":"2016-08-20T15:23:50","date_gmt":"2016-08-20T18:23:50","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=1624"},"modified":"2016-08-19T19:26:26","modified_gmt":"2016-08-19T22:26:26","slug":"pokemon-e-o-sequestro-do-desejo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2016\/08\/20\/pokemon-e-o-sequestro-do-desejo\/","title":{"rendered":"Pok\u00e9mon e o sequestro do desejo"},"content":{"rendered":"<p><strong>Alfie<\/strong> <strong>Bown &#8211;\u00a0<\/strong>Novo jogo escancara: na vida urbana mediada pelo celular, as corpora\u00e7\u00f5es definem o que nos falta \u2014 e nos vendem a reconfortante ilus\u00e3o de que decidimos<\/p>\n<p>Este artigo tem um t\u00edtulo <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Clickbait\">clickbaity<\/a> mas aponta uma quest\u00e3o simples e preocupante. Em 2010, o Google lan\u00e7ou aquilo que \u00e9 hoje uma subsidi\u00e1ria muito importante, a <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Niantic,_Inc.\" target=\"_blank\">Niantic<\/a> Inc. A mega-empresa lan\u00e7a muitas filiais por ano e adquire outras, n\u00e3o h\u00e1 nada de especial nisso. A quest\u00e3o \u00e9: o caso da Niantic mostra que h\u00e1 mais do que desejo de poder econ\u00f4mico nesta expans\u00e3o.<\/p>\n<p>Seis anos depois de nascer, a Niantic chega \u00e0s manchetes com o lan\u00e7amento de seu maior jogo, o <em>Pok\u00e9mon Go.<\/em> O p\u00fablico finalmente volta os olhos \u00e0 empresa. Gente \u00e0 esquerda <a href=\"https:\/\/www.jacobinmag.com\/2016\/07\/pokemon-go-pokestops-game-situationist-play-children\/\">prop\u00f5e<\/a>at\u00e9 mesmo boicot\u00e1-la. Na verdade, h\u00e1 v\u00e1rios anos a Niantic vem trabalhando na psicologia e organiza\u00e7\u00e3o social dos celulares. Uma an\u00e1lise dos dois maiores lan\u00e7amentos da empresa, <em>Ingress<\/em> e <em>Pok\u00e9mon Go<\/em>, revela algumas verdades importantes sobre o mundo em que estamos vivendo, o controle que as corpora\u00e7\u00f5es exercem e o poder dos nossos celulares para organizar nossos desejos.<\/p>\n<p>A Niantic desenvolveu seu primeiro grande jogo, o <em>Ingress<\/em>, em 2011. O jogo, um dos mais importantes dos \u00faltimos anos, \u00e9 uma ferramenta ideol\u00f3gica chave para o Google \u2013 e ao contr\u00e1rio do<em>Pok\u00e9mon Go,<\/em> \u00e9 pouco divulgado. O <em>Ingress<\/em> tem sete milh\u00f5es ou mais de jogadores e as tatuagens Ingress mostram a que ponto as pessoas se autodefinem pelo aplicativo. Alguns jogadores at\u00e9 descrevem o <em>Ingress<\/em> como um \u201cestilo de vida\u201d ao inv\u00e9s de um \u201cjogo\u201d. O leitor pode ser perdoado por pensar: \u201cEu n\u00e3o jogo, ent\u00e3o por que isso se aplicaria a mim?\u201d Mas o entretenimento criado pelo Google via Niantic alinha-se com o projeto mais amplo de regular nossos movimentos e experi\u00eancias do mundo f\u00edsico. Isso se aplica a voc\u00ea, a n\u00e3o ser que n\u00e3o use o Google ou qualquer de seus aplicativos, muitos dos quais j\u00e1 v\u00eam em nossos celulares.<\/p>\n<p>O <em>Ingress<\/em> reflete a tend\u00eancia de desenvolvimento de aplicativos para celulares (que inclui Google Maps e o Uber, entre outros bem conhecidos) projetados para regular e influenciar nossa experi\u00eancia de cidade, transformando o smartphone num novo tipo de inconsciente: uma for\u00e7a ideol\u00f3gica que guia nossos movimentos enquanto nos mantemos apenas semiconscientes do que nos move e da raz\u00e3o por que somos movidos nessa dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Inicialmente, considerei que a import\u00e2ncia dos jogos para smartphones devia-se a uma esp\u00e9cie de \u201cdistra\u00e7\u00e3o\u201d \u2013 argumento que usei em meu <a href=\"http:\/\/www.zero-books.net\/books\/enjoying-it\">livro<\/a> e num <a href=\"http:\/\/thenewinquiry.com\/essays\/seconds-of-pleasure\/\">artigo<\/a> relacionado que escrevi para o <em>The New Inquiry<\/em>. Mais tarde, quando jogava<em>Ingress<\/em> pela primeira vez, percebi que havia muito mais do que isso. O <em>Ingress<\/em>, ao contr\u00e1rio de simplesmente nos distrair da cidade ao redor, na verdade nos <a href=\"http:\/\/existentialgamer.com\/ingress-trains-us-to-become-googles-perfect-citizens\">treina<\/a> para ser cidad\u00e3os perfeitos do Google. No <em>Ingress<\/em>, o jogador move-se ao redor do ambiente real capturando \u201cportais\u201d representados por marcos, monumentos e obras de arte p\u00fablicos, assim como outras caracter\u00edsticas da cidade. \u00c9 necess\u00e1rio que o jogador esteja dentro da \u00e1rea f\u00edsica do \u201cportal\u201d para captur\u00e1-lo. Por isso, o jogo est\u00e1 sempre rastreando o jogador via GPS. Significativamente, n\u00e3o monitora apenas aonde vamos, mas nos dirige para onde deseja que a gente v\u00e1.<\/p>\n<p>Como tal, \u00e9 um complemento ao Google Maps, que tamb\u00e9m est\u00e1 desenvolvendo a capacidade n\u00e3o apenas de rastrear, mas de dirigir nossos movimentos. Claro, h\u00e1 muito tempo os algoritmos do Google determinam que restaurante visitamos, que caf\u00e9s conhecemos e que caminhos percorremos para chegar a esses destinos. Agora, por\u00e9m, o Google est\u00e1 desenvolvendo uma <a href=\"http:\/\/time.com\/4178860\/google-maps-new-feature\/\">tecnologia<\/a> nova que de fato prev\u00ea aonde voc\u00ea deseja ir com base no tempo, na sua localiza\u00e7\u00e3o pelo GPS e no seu hist\u00f3rico de movimenta\u00e7\u00e3o habitual arquivado num sistema de registros infinitamente poderoso. Isso, como o<em>Ingress<\/em>, mostra um novo padr\u00e3o emergente, no qual o smartphone dita nossos passos pela cidade e nos encoraja, sem que a gente se d\u00ea conta, a desenvolver padr\u00f5es de movimento repetitivos e habituais. Ainda mais importante: tais aplicativos antecipam nossos pr\u00f3prios desejos, oferendo-nos nem tanto\u00a0 o que queremos, mas determinando o que desejamos.<\/p>\n<p>Aqui \u00e9 \u00fatil novamente a conex\u00e3o com o conceito de inconsciente. Embora alguns autores tenham enxergado o inconsciente como um p\u00e2ntano de desejos n\u00e3o regulados, os seguidores da psican\u00e1lise de Freud e mais tarde de Lacan t\u00eam tido interesse em mostrar precisamente qu\u00e3o estruturado por for\u00e7as externas \u00e9 o inconsciente. Nossos smartphones fingem estar quase a ponto de preencher todos os nossos desejos, oferecendo-nos entretenimento sem fim (jogos), transporte f\u00e1cil (Uber), acesso instant\u00e2neo a comida e bebida (OpenRice, JustEat) e at\u00e9 mesmo sexo e amor quase instant\u00e2neos (Tinder, Grindr). Contudo, mais assustador do que o fato de poder conseguir tudo o que voc\u00ea deseja via smartphone \u00e9 a possibilidade de que o seu pr\u00f3prio desejo seja mobilizado por ele.<\/p>\n<p>\u00c9 precisamente nessa atmosfera que entra o <em>Pok\u00e9mon Go<\/em>, lan\u00e7ado h\u00e1 apenas alguns dias, e desde j\u00e1 o lan\u00e7amento de smartphone mais significativo de 2016. O <a href=\"https:\/\/www.bloomsburycollections.com\/book\/social-casual-and-mobile-games-the-changing-gaming-landscape\/ch10-riding-in-cars-with-strangers-a-cross-cultural-comparison-of-privacy-and-safety-in\">jogo<\/a> \u00e9, claro, constru\u00eddo por ningu\u00e9m menos que o Niantic Labs. Uma s\u00e9rie de eventos hist\u00e9ricos j\u00e1 surgiu a partir do campo minado \u00e9tico que \u00e9 o <em>Pok\u00e9mon Go<\/em>. No caso do <em>Ingress<\/em>, foram feitos estudos acad\u00eamicos sobre o fato de que o jogo mandou crian\u00e7as pequenas a parques urbanos sem ilumina\u00e7\u00e3o \u00e0s 3 da manh\u00e3. Com <em>Pok\u00e9mon Go<\/em>, a pol\u00edcia australiana teve de <a href=\"http:\/\/time.com\/4178860\/google-maps-new-feature\/\">enfrentar<\/a> uma penca de treinadores de Pok\u00e9mon que tentavam entrar numa delegacia de pol\u00edcia para capturar um deles l\u00e1 dentro \u2014 e algumas pessoas <a href=\"http:\/\/www.theverge.com\/2016\/7\/8\/12132746\/pokemon-go-teen-discovers-dead-body-wyoming\">encontraram<\/a> um cad\u00e1ver ao inv\u00e9s de um Pok\u00e9mon. J\u00e1 foi sugerido que o <em>Pok\u00e9mon Go<\/em> vai <a href=\"http:\/\/existentialgamer.com\/pokemon-go-will-kill-someone-only-matter-time\">acabar<\/a>matando algu\u00e9m \u2013 e desde que esse artigo foi publicado algu\u00e9m trombou com um carro de pol\u00edcia e outra pessoa foi atropelada enquanto ca\u00e7ava os personagens. Mas, como no caso do <em>Ingress<\/em>, n\u00e3o \u00e9 a apari\u00e7\u00e3o ocasional de uma hist\u00f3ria maluca que deveria nos preocupar, mas os efeitos psicol\u00f3gicos e tecnol\u00f3gicos da experi\u00eancia de cada usu\u00e1rio.<\/p>\n<p>A premissa do <em>Pok\u00e9mon Go<\/em> \u00e9 simplesmente que voc\u00ea usa seu GPS para encontrar Pok\u00e9mons no ambiente real, e ent\u00e3o usa sua c\u00e2mera para torn\u00e1-los vis\u00edveis, de modo que o mundo \u00e9 \u201cenriquecido\u201d pelo ato de olhar, por meio da tela, para o que est\u00e1 atr\u00e1s dela, como na imagem abaixo:<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio Pok\u00e9mon \u00e9 um fen\u00f4meno incr\u00edvel que merece um estudo do tamanho de um livro. Talvez porque agora podemos dizer que o Pok\u00e9mon \u00e9 o exemplo perfeito do que Jacques Lacan chamou de \u201cobjet a\u201d, aquele objeto de desejo fetichizado, ador\u00e1vel mas ilus\u00f3rio, que iria nos fazer felizes de verdade se pud\u00e9ssemos colocar as m\u00e3os nele. N\u00f3s nunca colocamos, porque h\u00e1 sempre \u00e0 m\u00e3o uma vers\u00e3o mais nova, mais atraente e mais dif\u00edcil de capturar!<\/p>\n<p>As vis\u00f5es dist\u00f3picas sobre para onde a tecnologia e os videogames apontam parecem ter algo de completamente errado. Os retratos do futuro dist\u00f3pico do videogame sempre tenderam a uma ideia de futuro em que cada indiv\u00edduo est\u00e1 isolado, sentado sozinho e quieto num quarto pequeno, conectado a um computador, somente atrav\u00e9s do qual sua vida pode ser vivida. Ou seja, a import\u00e2ncia do ambiente f\u00edsico \u00e9 reduzida em favor do mundo eletr\u00f4nico imagin\u00e1rio. Ao contr\u00e1rio dessas previs\u00f5es do futuro, vivemos hoje numa distopia em que o Google e suas subsidi\u00e1rias nos movem pela cidade em dire\u00e7\u00f5es de sua escolha, loucamente e quase sem cessar, em busca de objetos de desejo, sejam eles um amante no Tindr, uma tigela de <a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Ramen\">ramen<\/a> japon\u00eas aut\u00eantico ou aquele ilus\u00f3rio Clefairy ou Picachu.<\/p>\n<p>Nos anos 1990, os pais poderiam pedir a seus filhos que \u201cbrincassem na rua\u201d para escapar \u00e0s limita\u00e7\u00f5es do videogame; mas agora, s\u00e3o os jogos que nos fazem sair pilhados pela cidade, capturando portais, colecionando Pok\u00e9mons e frequentando encontros. Mesmo sem considerar o total acesso que o Google tem a suas contas via <em>Pok\u00e9mon Go<\/em>, isso nos revela algo de fato perigoso. Aponta para a crescente realidade de que n\u00e3o h\u00e1 realmente como escapar do Google. Enquanto fazemos aquilo que pensamos desejar, acreditando que usamos smartphones apenas para nos ajudar a alcancan\u00e7\u00e1-lo, na verdade o Google tem um poder ainda maior, verdadeiramente revolucion\u00e1rio: a capacidade de criar e organizar o pr\u00f3prio desejo.<\/p>\n<p>Esse poder verdadeiramente revolucion\u00e1rio \u00e9 o mais importante, quando se trata de <em>Pok\u00e9mon Go<\/em> e <em>Ingress<\/em>. Dizer que esses jogos s\u00e3o revolucion\u00e1rios n\u00e3o \u00e9 dizer que est\u00e3o fazendo algum bem, nem que s\u00e3o \u201cradicais\u201d, e certamente n\u00e3o \u00e9 dizer que s\u00e3o de esquerda \u2013 ao contr\u00e1rio, a revolu\u00e7\u00e3o no desejo parece ser corporativa, hegem\u00f4nica e centralizada. Contudo, se \u00e9 que a esquerda pode ter alguma esperan\u00e7a, ela n\u00e3o pode resistir ao <em>Pok\u00e9mon Go<\/em>, como a j\u00e1 famosa sugest\u00e3o da <em>Jacobin<\/em>, mas entender e talvez at\u00e9 abra\u00e7ar o poder do celular para reorganizar o desejo e buscar novos caminhos.<\/p>\n<blockquote class=\"wp-embedded-content\" data-secret=\"LYrfIJeIFV\"><p><a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/sem-categoria\/pokemon-realidade-aumentada-e-o-sequestro-do-desejo\/\">Pok\u00e9mon e o sequestro do desejo<\/a><\/p><\/blockquote>\n<p><iframe loading=\"lazy\" class=\"wp-embedded-content\" sandbox=\"allow-scripts\" security=\"restricted\" style=\"position: absolute; clip: rect(1px, 1px, 1px, 1px);\" title=\"&#8220;Pok\u00e9mon e o sequestro do desejo&#8221; &#8212; Outras Palavras\" src=\"https:\/\/outraspalavras.net\/sem-categoria\/pokemon-realidade-aumentada-e-o-sequestro-do-desejo\/embed\/#?secret=RjtuK8fjua#?secret=LYrfIJeIFV\" data-secret=\"LYrfIJeIFV\" width=\"600\" height=\"338\" frameborder=\"0\" marginwidth=\"0\" marginheight=\"0\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alfie Bown &#8211;\u00a0Novo jogo escancara: na vida urbana mediada pelo celular, as corpora\u00e7\u00f5es definem o que nos falta \u2014 e nos vendem a reconfortante ilus\u00e3o de que decidimos Este artigo tem um t\u00edtulo clickbaity mas aponta uma quest\u00e3o simples e preocupante. 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