{"id":16236,"date":"2021-12-23T12:47:53","date_gmt":"2021-12-23T15:47:53","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=16236"},"modified":"2021-12-18T14:50:33","modified_gmt":"2021-12-18T17:50:33","slug":"convite-a-politizar-o-mal-estar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2021\/12\/23\/convite-a-politizar-o-mal-estar\/","title":{"rendered":"Convite a politizar o mal-estar"},"content":{"rendered":"<p><strong>Joaqu\u00edn Fortanet &#8211; <\/strong>Nos debates sobre o mal-estar, prevalecem considera\u00e7\u00f5es individuais a respeito, sejam elas \u00e9ticas ou m\u00e9dicas. Diante das solu\u00e7\u00f5es individuais, \u00e9 importante considerar sua rela\u00e7\u00e3o com processos coletivos que podem permitir uma politiza\u00e7\u00e3o desse mal-estar.<\/p>\n<p>Sentimos mal-estar de mil maneiras diferentes: n\u00e3o chegamos a lugar algum, n\u00e3o temos tempo, falhamos, achamos que nunca seremos os melhores, afundamos, desabamos, nos sentimos muito vulner\u00e1veis, exaustos, doentes, inadequados, como se o contorno de nossas mentes e corpos fosse de pl\u00e1stico, mold\u00e1vel por uma realidade inapel\u00e1vel que sempre marca o ritmo acelerado do que \u00e9, do que somos e do que dever\u00edamos ser. At\u00e9 que essa dureza nos quebre e tudo se torne l\u00edquido como se tivessem instalado em n\u00f3s a necessidade imanente de continuar, de nunca parar, de n\u00e3o chegar. E, diante de tal interpela\u00e7\u00e3o, nossa resposta \u00e9 roubada, oprimida pela tarefa imposs\u00edvel. Somos incapazes de formular outra coisa sen\u00e3o o sil\u00eancio e a pris\u00e3o.<\/p>\n<p>Owen Jones, em seu\u00a0<em>Chavs: The Demonization of the Working Class<\/em>, questionou o significado e o alcance do que chamou de \u201cdemoniza\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora\u201d, ou seja, o processo pelo qual o pertencimento \u00e0 classe trabalhadora come\u00e7ou a ser desacreditado e esvaziado at\u00e9 os dias de hoje. Em certo sentido, a reflex\u00e3o de Jones tem a ver com o perigo de abandonar a no\u00e7\u00e3o de classe e a urg\u00eancia de revisit\u00e1-la em resposta \u00e0s diferen\u00e7as espec\u00edficas que a comp\u00f5em. Mas, ao mesmo tempo, seu texto cont\u00e9m outra reflex\u00e3o paralela relacionada ao processo concreto pelo qual o neoliberalismo se desenvolveu a partir da era Thatcher e estabeleceu as condi\u00e7\u00f5es para a possibilidade do desaparecimento da\u00a0<em>no\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0de classe trabalhadora. E grande parte dessas estrat\u00e9gias derivam, segundo Jones, dos trabalhos realizados sobre a autopercep\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo e de seus processos de identifica\u00e7\u00e3o subjetiva. Criou-se a ideia de que a pobreza, o desemprego, enfim, o fracasso do sonho do empreendedor se deviam a defeitos individuais. Se as pessoas eram pobres ou desempregadas, a culpa seria delas, de seu car\u00e1ter, de sua falta de aspira\u00e7\u00f5es, de sua m\u00e1 gest\u00e3o: elas mereciam.<\/p>\n<p><strong>A responsabilidade individual pelo fracasso<\/strong><\/p>\n<p>Para Jones, esse processo quebrou a harmonia entre os processos de autoidentifica\u00e7\u00e3o e os processos materiais. E, consequentemente, esvaziada a no\u00e7\u00e3o de classe oper\u00e1ria, os integrantes dessa classe, que passaram a se identificar como classe m\u00e9dia, carecem dos meios de prote\u00e7\u00e3o e de resposta pol\u00edtica que a no\u00e7\u00e3o de classe conferia. De forma mais resumida: a classe se esvazia porque \u00e9 um contrapeso \u00e0 responsabilidade individual pela pobreza. A no\u00e7\u00e3o de classe trabalhadora impedia a compreens\u00e3o de que a culpa da pobreza era meramente individual, que o desemprego se devia ao car\u00e1ter ou \u00e0 falta de gest\u00e3o dos indiv\u00edduos. O que pode ser interessante, al\u00e9m da reflex\u00e3o sobre o papel da classe no desenvolvimento neoliberal, \u00e9 que Jones aponta a perda do senso de coletividade como uma das estrat\u00e9gias que leva \u00e0 responsabilidade individual pelo fracasso e \u00e0 prolifera\u00e7\u00e3o do discurso de \u00f3dio contra essa classe, inclusive at\u00e9 mesmo entre seus membros. Ningu\u00e9m quer ser considerado individualmente respons\u00e1vel pelo pr\u00f3prio fracasso. O \u00f3dio \u00e9 a dist\u00e2ncia c\u00ednica dos perdedores.<\/p>\n<p>Mas, apesar de tudo, perdemos nossos empregos, perdemos nossa sa\u00fade, perdemos a batalha contra as doen\u00e7as, perdemos as competi\u00e7\u00f5es e as oportunidades. Sempre perdemos. Uma vez que nos tornamos seres eletivos e com novas aspira\u00e7\u00f5es, a perda torna-se, por um lado, inaceit\u00e1vel sinal do fracasso individual e, por outro, inerente \u00e0 nossa vida. Vivemos aprisionados na contradi\u00e7\u00e3o que existe entre o desejo de sermos os melhores indiv\u00edduos e as profundas e inexor\u00e1veis estruturas materiais que determinam tais posi\u00e7\u00f5es. Competitividade, meritocracia ou excel\u00eancia s\u00e3o palavras que orientam o funcionamento desse estranho cassino em que vivemos e que acaba por nos derrotar: por mais fichas que joguemos no tabuleiro, estaremos sozinhos perante a imensid\u00e3o da banca.<\/p>\n<p><strong>Mudar as mentes<\/strong><\/p>\n<p>No final dos anos 1970, Stuart Hall tra\u00e7ou com precis\u00e3o um horizonte te\u00f3rico que, em certo sentido, ainda \u00e9 o nosso. Expressando uma profunda preocupa\u00e7\u00e3o te\u00f3rica pela derrocada da esquerda inglesa contra o\u00a0<em>thatcherismo<\/em>, ele reconheceu a grande capacidade do novo neoliberalismo de determinar o pensamento popular e alcan\u00e7ar uma posi\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nica. A economia era apenas o m\u00e9todo, mas se tratava de mudar mentes, afirmava Thatcher. Duas estrat\u00e9gias principais do neoliberalismo, identificadas por Hall, se relacionam, por um lado, com a prolifera\u00e7\u00e3o do \u00f3dio a um suposto inimigo interno que se traduz na ideologia conservadora \u2013 na\u00e7\u00e3o, lei, tradi\u00e7\u00e3o \u2013 e, por outro, com a cria\u00e7\u00e3o de uma nova subjetividade baseada em um individualismo competitivo radical. Se f\u00f4ssemos definir em duas grandes ideias essa nova subjetividade que vem moldando a hegemonia cultural neoliberal, essas poderiam ser a convers\u00e3o do sujeito em empres\u00e1rio e a privatiza\u00e7\u00e3o da vida.<\/p>\n<p>A nossa vida \u00e9 nossa, \u00e9 privada, n\u00f3s usamos o tempo, fazemos as coisas funcionarem, trabalhamos a tal ponto que nada na nossa vida se torna alheio ao imp\u00e9rio do \u00fatil. Moldamos, sem estarmos muito conscientes disso, nossas a\u00e7\u00f5es, escolhas, nossos rumos, gestos e rela\u00e7\u00f5es sociais como se fossem os investimentos do empres\u00e1rio que somos. Submersos numa constante campanha de autopromo\u00e7\u00e3o, nossa rela\u00e7\u00e3o com os outros \u00e9 essencialmente competitiva, como se o reconhecimento impusesse com sucesso a nossa marca, como se agora f\u00f4ssemos apenas essa marca, que deve esconder a sua fragilidade, que deve evitar as mil formas de insucesso com um cosm\u00e9tico perfeito. Mas o profundo mal-estar que se enra\u00edza em n\u00f3s e que nos parece uma amea\u00e7a \u00e9 tamb\u00e9m o elemento mais adequado que se levanta contra essa vida, tentando interromp\u00ea-la, for\u00e7ando-nos a parar. A rebeli\u00e3o da vida contra a nossa vida.<\/p>\n<p>Em \u201c<em>Los fantasmas de mi vida\u201d<\/em>, Mark Fisher reflete sobre esse mal-estar liminar que parece ter se tornado um dos fantasmas que nos perseguem. Ele destaca o fato de o desconforto ser entendido por n\u00f3s em termos de interioridade. Uma das estrat\u00e9gias bem-sucedidas da subjetividade neoliberal \u00e9, justamente, ter-nos imposto uma compreens\u00e3o privada do mal-estar. Como se o estresse fosse apenas uma condi\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica que n\u00e3o tivesse a raiz de sua compreens\u00e3o do trabalho e nas condi\u00e7\u00f5es sociais que nos cercam. A privatiza\u00e7\u00e3o do estresse, a privatiza\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a, do mal-estar em geral s\u00e3o, para Fisher, o sinal da despolitiza\u00e7\u00e3o de nossos tempos. Os indiv\u00edduos se culpam mais do que culpam as estruturas sociais. E foram levados a acreditar que tais estruturas n\u00e3o t\u00eam fun\u00e7\u00e3o em uma vida, que tudo tornou-se apenas uma quest\u00e3o de atitude, de luta, de esfor\u00e7o, de compet\u00eancia. Portanto, o desconforto torna-se individual e deve ser tratado apenas de uma perspectiva interna: psicol\u00f3gica, farmacol\u00f3gica,\u00a0<em>mindfulness<\/em>. No limite, \u00e9 considerada responsabilidade do indiv\u00edduo, que \u00e9 apresentado como culpado, ignorando as condi\u00e7\u00f5es materiais de seu adoecimento.<\/p>\n<p><strong>Vulner\u00e1veis<\/strong><\/p>\n<p>Mas, como nos lembra Judith Butler em\u00a0<em>Repensando a vulnerabilidade e a resist\u00eancia<\/em>, a vulnerabilidade que acossa, que poder\u00edamos relacionar com este mal-estar difuso, n\u00e3o \u00e9 constitutiva do ser humano. N\u00e3o pertence \u00e0 nossa natureza nem \u00e9 uma quest\u00e3o antropol\u00f3gica de primeira ordem. A vulnerabilidade s\u00f3 aparece no quadro de uma rela\u00e7\u00e3o desigual de for\u00e7as. A vulnerabilidade, assim como o mal-estar, \u00e9 consequ\u00eancia de rela\u00e7\u00f5es de poder nas quais estamos em uma posi\u00e7\u00e3o de subordina\u00e7\u00e3o: diante da pol\u00edcia, do judici\u00e1rio, da medicina, dos professores. \u00c9, de certa forma, a marca que prefigura uma posi\u00e7\u00e3o de resist\u00eancia diante desta vida que arrastamos. O grande problema do mal-estar \u00e9 que n\u00e3o podemos entend\u00ea-lo da perspectiva coletiva da rela\u00e7\u00e3o de for\u00e7as porque, precisamente, a ruptura de seu componente coletivo \u00e9 a causa de ele se apresentar a n\u00f3s como algo individual. E, portanto, ele torna-se um abismo intranspon\u00edvel para o qual apenas solu\u00e7\u00f5es comportamentais s\u00e3o oferecidas. Por\u00e9m, por meio da an\u00e1lise material do mal-estar, pode ser poss\u00edvel encontrar outras causas, abrir caminho para sua coletiviza\u00e7\u00e3o, dar o passo para poder compartilh\u00e1-lo, entend\u00ea-lo como uma poss\u00edvel rede contra a conduta habitual.<\/p>\n<p>Coletivizar o mal-estar n\u00e3o significa apenas encontrar as condi\u00e7\u00f5es materiais de suas ra\u00edzes. Coletivizar o mal-estar sup\u00f5e entender que o fracasso nunca \u00e9 algo meramente individual, mas coletivo. Ter uma coletividade que assuma o peso de um mal-estar espec\u00edfico significa compartilhar inquieta\u00e7\u00f5es, dores, cuidados, diferen\u00e7as, solu\u00e7\u00f5es, ang\u00fastias. Coletivizar o mal-estar implicar\u00e1 politiz\u00e1-lo e, politizando-o, tamb\u00e9m criticar a autoridade de todas as verdades e rela\u00e7\u00f5es de for\u00e7a que nos forjaram, pedindo credenciais. \u00c9 interromper coletivamente alguns mecanismos que promovem esse mal-estar. E tamb\u00e9m pode desativar algumas dessas in\u00e9rcias do \u00f3dio que s\u00e3o apenas o distanciamento c\u00ednico que nossa vis\u00e3o de empreendedores tenta impor em rela\u00e7\u00e3o ao fracasso.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Convite a politizar o mal-estar &#8211; Outras Palavras &#8211; https:\/\/outraspalavras.net\/crise-civilizatoria\/convite-apolitizar-o-mal-estar\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Joaqu\u00edn Fortanet &#8211; Nos debates sobre o mal-estar, prevalecem considera\u00e7\u00f5es individuais a respeito, sejam elas \u00e9ticas ou m\u00e9dicas. Diante das solu\u00e7\u00f5es individuais, \u00e9 importante considerar sua rela\u00e7\u00e3o com processos coletivos que podem permitir uma politiza\u00e7\u00e3o desse mal-estar. 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