{"id":16048,"date":"2021-11-30T12:38:45","date_gmt":"2021-11-30T15:38:45","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=16048"},"modified":"2021-11-23T19:40:56","modified_gmt":"2021-11-23T22:40:56","slug":"o-atraso-nacional-e-a-ascensao-do-sistema-jagunco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2021\/11\/30\/o-atraso-nacional-e-a-ascensao-do-sistema-jagunco\/","title":{"rendered":"O atraso nacional e a ascens\u00e3o do sistema jagun\u00e7o"},"content":{"rendered":"<p><strong>Nathan Caixeta<\/strong> &#8211; Em homenagem ao esfor\u00e7o docente de Marcio Pochmann<\/p>\n<p><strong>Introdu\u00e7\u00e3o: um quadro geral sobre a estrutura social Brasileira e suas mudan\u00e7as recentes<\/strong><\/p>\n<p>Durante aula proferida no curso de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Desenvolvimento Econ\u00f4mico do Instituto de Economia da Unicamp, o professor doutor Marcio Pochmann denuncia a exist\u00eancia do \u201csistema jagun\u00e7o\u201d, a uni\u00e3o entre o fanatismo religioso e o banditismo social, soldados pela precariza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de trabalho, a descartabilidade social marcadamente racista, machista, transf\u00f3bica e xenof\u00f3bica, e o retrocesso do papel do Estado enquanto agente operador da \u201csoldagem social\u201d pelas vias da normatividade, da assist\u00eancia social b\u00e1sica e do aporte gerador de crescimento econ\u00f4mico e do emprego.<\/p>\n<p>Ao assistir \u00e0 aula, percebi-me at\u00f4nito, pois o conceito anunciado me obrigou a rever todo arqu\u00e9tipo hist\u00f3rico-te\u00f3rico que at\u00e9 ent\u00e3o acumulei para denominar o processo chamado \u201cmoderniza\u00e7\u00e3o conservadora\u201d, pelo qual se modernizou a estrutura econ\u00f4mica, aprofundando relativamente as desigualdades sociais. Esse ensaio n\u00e3o prop\u00f5e abranger a totalidade das transforma\u00e7\u00f5es ocorridas na rela\u00e7\u00e3o Estado-mercado-sociedade, recortadas pelos meios de reprodu\u00e7\u00e3o do atraso social. O que se pretende \u00e9 explorar de maneira desapaixonada dos contornos da tese do sistema jagun\u00e7o descrito por Pochmann, h\u00e1 quem me desculpo antecipadamente por poss\u00edveis equ\u00edvocos interpretativos.<\/p>\n<p>Revisitando a literatura cl\u00e1ssica sobre a cis\u00e3o entre o sonho na aurora do Brasil moderno, digamos, a partir de 1950, e o pa\u00eds que marchou for\u00e7osamente para a desilus\u00e3o p\u00f3s-anos 1980, verifica-se um fen\u00f4meno que se esgueirou pela muta\u00e7\u00e3o da estrutura social brasileira nos \u00faltimos 40 anos: a consolida\u00e7\u00e3o de um poder paralelo, semelhante e distinto ao poder do Estado democr\u00e1tico que reproduz sob nova roupagem a antiga figura do Jagun\u00e7o, protetor fiel dos mandonismos locais desde os tempos do Brasil-Col\u00f4nia.<\/p>\n<p>Em\u00a0<em>O Capitalismo Tardio e Sociabilidade Moderna<\/em>, Fernando Novais e Cardoso de Mello demarcam o ponto de muta\u00e7\u00e3o entre o Brasil que ascendia econ\u00f4mica, social e culturalmente, para aquele cuja ruptura pol\u00edtica do golpe de 1964 subverteu o sentido da moderniza\u00e7\u00e3o, reproduzindo os elementos que dilu\u00edram os valores da liberdade e da igualdade em favor dos valores mercantis do individualismo e da concorr\u00eancia, fabricando uma nova forma de a\u00e7oitamento pelo jagun\u00e7o: se antes as chibatadas de couro de boi do\u00edam nos lombos de quem desafiasse o \u201ccoron\u00e9\u201d, sob o rito ditatorial a chibata foi substitu\u00edda pela caneta, vers\u00e3o oculta dos instrumentos de repress\u00e3o pol\u00edtica, policial e econ\u00f4mica contra os refugiados, dos quilombos, dos recantos pobres dos sert\u00f5es para as favelas, forma\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fico-social t\u00e3o antiga quanto a Velha Rep\u00fablica.<\/p>\n<p>As demarca\u00e7\u00f5es entre os morros cariocas e Copacabana, entre Parais\u00f3polis e os Jardins paulistanos, acompanharam o ritmo da concentra\u00e7\u00e3o da riqueza financeira e fundi\u00e1ria, assim como, a acelera\u00e7\u00e3o da precariza\u00e7\u00e3o do trabalho e a sedimenta\u00e7\u00e3o da \u201cvira\u00e7\u00e3o\u201d, como sa\u00edda para aqueles cujo descarte dos meios formais de trabalho \u00e9 dado desde a \u201clargada\u201d, visto que as condi\u00e7\u00f5es de escolariza\u00e7\u00e3o, especializa\u00e7\u00e3o profissional e a fluidez com que as reformas liberalizantes destru\u00edram o dinamismo do mercado de trabalho brasileiro, formaram o conjunto de barreira historicamente intranspon\u00edveis entre a periferia e o centro das rela\u00e7\u00f5es sociais demarcadas pela deten\u00e7\u00e3o da propriedade e do dinheiro, onde realizam-se efetivamente os nexos da cidadania.<\/p>\n<p>A Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, como demonstra Paulo Arantes em\u00a0<em>O Novo Tempo do Mundo<\/em>, imprimiu o timbre no papel em branco que a democracia, teoricamente, deveria rechear com os termos da alforria do indiv\u00edduo miser\u00e1vel e an\u00f4nimo, elevando-o para o\u00a0<em>status\u00a0<\/em>de cidad\u00e3o. Contudo, a democracia ganhou, mas n\u00e3o levou, pois, a cidadania oferecida aos habitantes da periferia permanece demarcada pela clivagem da concorr\u00eancia, esfera protetora do verniz democr\u00e1tico que esconde os tons plutocr\u00e1ticos do poder no Brasil.<\/p>\n<p>Nem mesmo a adapta\u00e7\u00e3o da tese de Wolfgang Streeck em\u00a0<em>Tempo Comprado<\/em>\u00a0para a vasta terra do Pindorama \u00e9 suficiente para aportar as ra\u00edzes da dist\u00e2ncia do Estado em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 popula\u00e7\u00e3o perif\u00e9rica. No Brasil, as demandas sociais identit\u00e1rias s\u00e3o press\u00f5es coadjuvantes sobre a estrutura democr\u00e1tica: o que, verdadeiramente, pressiona as barrigas, sem cutucar os poros do poder, \u00e9 o fen\u00f4meno da fome, contemplado com marginalidade nos per\u00edodos em que a pol\u00edtica social sobra como migalhas do banquete oferecido aos propriet\u00e1rios da riqueza. Mas, se para toda regra existe exce\u00e7\u00e3o, nos idos da marginaliza\u00e7\u00e3o das popula\u00e7\u00f5es \u201cfaveladas\u201d, a exce\u00e7\u00e3o fixou-se como regra, pois cada passo adiante na dire\u00e7\u00e3o da integra\u00e7\u00e3o social dos pobres, as canetas tripartites dos poderes republicanos expurgavam o feixe de luz pelo qual os oprimidos enxergavam a esperan\u00e7a, pois os pingos de sangue que sobram da execu\u00e7\u00e3o, cria\u00e7\u00e3o e observ\u00e2ncia das leis no Brasil escolhe seu tinteiro, como o\u00a0<em>Farialimer\u00a0<\/em>seleciona a folha do pr\u00f3prio tabaco: a fome do pobre alimenta o banquete do rico.<\/p>\n<p>Completa o quadro, a interpreta\u00e7\u00e3o de Raimundo Faoro sobre a estrutura\u00e7\u00e3o do poder no Brasil em que aparecem contrapostos o estamento endinheirado ornado pela burocracia do Estado contra o povo sobressalente. Por um lado, o Estado funciona como regulador dos conflitos sociais, por outro, transfere renda dos mais pobres para os mais ricos, utilizando-se da viol\u00eancia como m\u00e9todo de \u201ctriagem\u201d que separam a popula\u00e7\u00e3o perif\u00e9rica segundo as clivagens: do \u201cbom cidad\u00e3o\u201d trabalhador, do \u201cparasita\u201d que suga o Estado, do \u201cpeixe pequeno\u201d, hora, ou outra, eliminado pelo sorteio das balas perdidas, e do \u201cbom bandido\u201d, preso ou morto.<\/p>\n<p>A tese central que amarra o quadro geral ensaiado nos par\u00e1grafos seguintes encaminhar\u00e1 a seguinte l\u00f3gica argumentativa: a decad\u00eancia crescente dos meios de integra\u00e7\u00e3o e mobilidade sociais transmutou a forma de opera\u00e7\u00e3o do velho \u201csistema jagun\u00e7o\u201d, pela articula\u00e7\u00e3o e mobiliza\u00e7\u00e3o do poder paraestatal a partir das formas evolu\u00eddas e contempor\u00e2neas de reprodu\u00e7\u00e3o do atraso social que conjuga a mis\u00e9ria, a viol\u00eancia seletiva e a precariza\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de inser\u00e7\u00e3o no mercado de trabalho, parcialmente cobertas pela presen\u00e7a social do Estado. Desde logo, n\u00e3o se trata de contrapor o Estado constitu\u00eddo democraticamente sob o gerenciamento tripartite da ordem c\u00edvica e legal, e aquele nascido das m\u00faltiplas formas de poder paraestatais, como a mil\u00edcia, a \u201cgrande-empresa do crime\u201d e os la\u00e7os comunais cristalizados na religiosidade centrada na teologia da prosperidade, como vaz\u00e3o moral da \u00e9tica da concorr\u00eancia, eliminando qualquer meio de transcend\u00eancia. O sistema estatal constitu\u00eddo sob as obstes da lei e da ordem atua manejando as tens\u00f5es materiais e sociais que decorrem da desintegra\u00e7\u00e3o dos meios de mobilidade social, enquanto o sistema paraestatal ocupa as lacunas deixadas pelo papel social do Estado, formando, como aponta Gabriel Feltran em\u00a0<em>O Valor dos Pobres<\/em>, um espa\u00e7o de sociabilidade distinta, consolidando uma intersec\u00e7\u00e3o entre os conjuntos de a\u00e7\u00e3o normativas e sociais do Estado democr\u00e1tico e societais do poder paraestatal.<\/p>\n<p><strong>O \u201csistema jagun\u00e7o\u201d: coment\u00e1rios ao desenvolvimento te\u00f3rico e did\u00e1tico de Marcio Pochmann<\/strong><\/p>\n<p>Marcio Pochmann \u00e9 autor de uma interpreta\u00e7\u00e3o fundamental sobre as transforma\u00e7\u00f5es da estrutura social a partir da desintegra\u00e7\u00e3o dos mecanismos igualit\u00e1rios promovido pela franca ascens\u00e3o dos pobres \u00e0 chamada \u201cnova classe-m\u00e9dia\u201d. N\u00e3o menos relevantes s\u00e3o as contribui\u00e7\u00f5es de Antunes, Gimenez e Quadros que se encarregaram de jogar \u00e1gua no chopp da miragem estat\u00edstica observada entre 2003 e 2011. Contudo, o eixo norteador do sistema jagun\u00e7o, penso ser a transmuta\u00e7\u00e3o da moderniza\u00e7\u00e3o-conservadora, reprisando as formas historicamente verticais de poder sob a roupagem da concorr\u00eancia, mar divisor entre duas realidades: aquela governada pelo Estado Democr\u00e1tico promotor da concorr\u00eancia como forma de individualiza\u00e7\u00e3o do m\u00e9rito, e aquela nascida dos espa\u00e7os cujo acesso do Estado Social se faz de forma nula, ou diminuta, exigindo a emula\u00e7\u00e3o das estruturas de poder sob mecanismos paraestatais de reprodu\u00e7\u00e3o da esfera moral, punitiva, monet\u00e1ria e comunit\u00e1ria, completando as lacunas deixadas pela aus\u00eancia, ou interfer\u00eancia do Estado violento na realiza\u00e7\u00e3o da clivagem social.<\/p>\n<p>O sistema jagun\u00e7o une, portanto, quatro esferas reprodutivas: 1) a sobreposi\u00e7\u00e3o da moral protestante como forma de soldagem social entre a f\u00e9 e as rela\u00e7\u00f5es sociais comunais; 2) a vira\u00e7\u00e3o como express\u00e3o da fluidez ocupacional dos mais vulner\u00e1veis; 3) a grande-empresa do crime como articula\u00e7\u00e3o paralela entre a reprodu\u00e7\u00e3o do capital e o poder paraestatal de estabelecimento da lei e da ordem pela via da viol\u00eancia social; 4) O interst\u00edcio entre o Estado, o sistema carcer\u00e1rio e a assist\u00eancia social, entes de estabelecimento do sistema m\u00e9trico que define a escala social dos desvalidos. A jun\u00e7\u00e3o desses elementos transforma o conceito tradicional de moderniza\u00e7\u00e3o conservadora, centrado no mecanismo reciproco entre a expans\u00e3o do poder estatal e do dom\u00ednio do capital denunciado pela eleva\u00e7\u00e3o das dist\u00e2ncia entre as oportunidades de integra\u00e7\u00e3o social entre os super-ricos a flutuante posi\u00e7\u00e3o da classe m\u00e9dia e aqueles em situa\u00e7\u00e3o de pobreza.<\/p>\n<p>Tal transforma\u00e7\u00e3o n\u00e3o torna mais conversadores os instrumentos do subdesenvolvimento perif\u00e9rico, mas realiza-se ao transformar a moderniza\u00e7\u00e3o conservadora em retrocesso do papel social do Estado que conjuntamente ao poder expansivo do capital acabam por racionalizar as intera\u00e7\u00f5es com as popula\u00e7\u00f5es perif\u00e9ricas, abrandando-as pelos programas focalizados de transfer\u00eancia de renda e enervando-as pela viol\u00eancia expressa nos \u00edndices de encarceramento em massa e de mortes das popula\u00e7\u00f5es perif\u00e9ricas, pela bala perdida, ou direcionada para aqueles n\u00e3o enquadrados na triagem social do \u201cbom sujeito\u201d. Desse modo, o Estado opera como jagun\u00e7o, enquanto agente direto de representa\u00e7\u00e3o dos interesses pessoais e financeiros das elites. Conforme observado na figura 1, verificam-se movimentos que quando reunidos descrevem sinteticamente a opera\u00e7\u00e3o do sistema jagun\u00e7o (p\u00e1gina 5):<\/p>\n<p><strong>Figura 1: Esquema S\u00edntese das intera\u00e7\u00f5es entre os polos de conflito do \u201cSistema Jagun\u00e7o\u201d<\/strong><\/p>\n<figure><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/opara.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/outraspalavras\/uploads\/2021\/10\/27162335\/Captura-de-Tela-21.png?resize=640%2C295&#038;ssl=1\" sizes=\"auto, (max-width: 904px) 100vw, 904px\" srcset=\"https:\/\/opara.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/outraspalavras\/uploads\/2021\/10\/27162335\/Captura-de-Tela-21.png 904w, https:\/\/opara.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/outraspalavras\/uploads\/2021\/10\/27162335\/Captura-de-Tela-21-300x138.png 300w, https:\/\/opara.nyc3.cdn.digitaloceanspaces.com\/outraspalavras\/uploads\/2021\/10\/27162335\/Captura-de-Tela-21-768x354.png 768w\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"295\" \/><\/figure>\n<p>Em resumo:<\/p>\n<p>\u2013 Cada \u00e1rea representa a atua\u00e7\u00e3o social, geogr\u00e1fica e econ\u00f4mica dos grupos representados pelo Estado (em amarelo), pelo Capital (em vermelho), pela Periferia (em Azul) e pela popula\u00e7\u00e3o submetida ao descarte social (em preto);<\/p>\n<p>\u2013 O tamanho das setas que representam o grau a conex\u00e3o entre os grupos simboliza a sobredetermina\u00e7\u00e3o ou intera\u00e7\u00e3o sist\u00eamica entre eles;<\/p>\n<p>\u2013 A forma das retas tracejadas significa, do menor ao maior, grau de interdepend\u00eancia das rela\u00e7\u00f5es entre os grupos, evidenciados pela intera\u00e7\u00e3o entre a media\u00e7\u00e3o das cores ao longo das retas tracejadas.<\/p>\n<p>A partir do esquema-s\u00edntese apresentado na figura 1, \u00e9 poss\u00edvel tecer o conjunto de argumentos que dialogam e desenvolvem o conceito do sistema jagun\u00e7o:<\/p>\n<ul>\n<li>O conjunto de a\u00e7\u00f5es normativas coercitivas e econ\u00f4micas do Estado aprofundadas pelo regime neoliberal e cujo cl\u00edmax \u00e9 atingido no cen\u00e1rio atual ocupa-se, em primeira inst\u00e2ncia, em garantir a solidez dos estoques de riqueza privados, despendendo quase metade do resultado fiscal para as cambalhotas do endividamento p\u00fablico no pa\u00eds dos rentistas;<\/li>\n<li>Quando sobradas as migalhas do or\u00e7amento p\u00fablico, as pol\u00edticas de assist\u00eancia b\u00e1sica servem para amenizar os conflitos trazidos pelo desemprego e pela insufici\u00eancia material, prova disso, segundo Pochmann \u00e9 que em 1980, apenas 3% da popula\u00e7\u00e3o recebia recursos na forma de transfer\u00eancia de renda, saltando para 40% em 2020. Para al\u00e9m disso, os movimentos de \u201cpacifica\u00e7\u00e3o\u201d das regi\u00f5es perif\u00e9ricas refor\u00e7aram a rela\u00e7\u00e3o entre a grande-empresa do crime e as mil\u00edcias, transferindo no \u00e2mbito da periferia a divis\u00e3o do monop\u00f3lio da viol\u00eancia pelo Estado com o poder paralelo na mistura entre as tr\u00eas cores: a normatividade seletiva da viol\u00eancia do Estado, a r\u00edgida moral estabelecida pela presen\u00e7a paraestatal nas periferias e a demarquia hayekiana que entremeia a ditadura do c\u00f3digo do crime e a normatividade democr\u00e1tica das leis e direitos constitucionais;<\/li>\n<li>Aqueles n\u00e3o absorvidos na triagem entre o poder constitu\u00eddo s\u00e3o encarcerados aos montes como forma de confinamento da desigualdade aos ditames nada prudentes da magistratura, capaz de afian\u00e7ar um rica\u00e7o assassino e condenar uma m\u00e3e que surrupiou um pote de manteiga para alimentar seu filho, dando-lhe o mesmo destino dos mais de 700 mil presos sem acesso ao devido processo legal e a um julgamento formal;<\/li>\n<li>A reprodu\u00e7\u00e3o da mis\u00e9ria, da vira\u00e7\u00e3o e dos ex\u00edguos, sen\u00e3o inexistentes caminhos de ascens\u00e3o social engordam as fileiras da popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria, enquanto formam a multid\u00e3o de indiv\u00edduos reservados \u00e0 convoca\u00e7\u00e3o do capital para sua reprodu\u00e7\u00e3o como mercadoria-trabalho, sob condi\u00e7\u00f5es legais e estruturalmente cada vez mais prec\u00e1rias;<\/li>\n<li>Por fim, os descartados sociais, habitantes do cotidiano perif\u00e9rico e carcer\u00e1rio guardam t\u00e3o somente rela\u00e7\u00f5es sociais precarizadas com a reprodu\u00e7\u00e3o da riqueza, timbradas pela insufici\u00eancia material e referendadas pela autonomiza\u00e7\u00e3o do capital em rela\u00e7\u00e3o ao trabalho.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Conclui-se encadeando o argumento aqui exposto que o sistema jagun\u00e7o, ao transformar a moderniza\u00e7\u00e3o conservadora, estimulou o surgimento de novos nexos de conex\u00e3o social que demarcam a exist\u00eancia de um outro tipo de sociabilidade, emulando os caminhos de encontro entre o indiv\u00edduo descart\u00e1vel, o jagun\u00e7o que ocupa-se do descarte e a superestrutura pol\u00edtico-econ\u00f4mica que fazem do Brasil de hoje mera litografia opaca e distorcida do Brasil de 130 anos atr\u00e1s, conforme argumenta Pochmann.<\/p>\n<p>A figura do jagun\u00e7o era protetora dos interesses pol\u00edtico-econ\u00f4micos das elites, munidos por ferramentas de opress\u00e3o que formavam um sistema de leis e repress\u00e3o pr\u00f3prias ao regionalismo do velho Brasil, a reprodu\u00e7\u00e3o sist\u00eamica da figura do jagun\u00e7o moderno como mecanismo de transmuta\u00e7\u00e3o social, estabelece a liga\u00e7\u00e3o entre a democracia progressivamente enfraquecida, a comunh\u00e3o entre a grande-empresa do crise e a for\u00e7a moral da teologia da prosperidade, segundo a qual o eterno \u00e9 uma premia\u00e7\u00e3o para quem chega ao fim do t\u00fanel, depois de despender seu sacrif\u00edcio monet\u00e1rio, abandonando quanto mais as liga\u00e7\u00f5es espirituais e transformando-as em cifr\u00f5es de cura, prosperidade, fama e influ\u00eancia pol\u00edtica na reuni\u00e3o de interesses que solidificam o conservadorismo moral, pol\u00edtico e econ\u00f4mico: a bala, a b\u00edblia e o boi.<\/p>\n<p>O Brasil n\u00e3o andou para frente, sucedendo o retrocesso, mas retrocedeu ao passo em que modernizaram-se as formas de opress\u00e3o social, sobrando do avan\u00e7o econ\u00f4mico as marcas da pintura fresca da democracia, fazendo valer o concreto e real espa\u00e7o do \u201cpoder\u201d: a lei do dinheiro e o dinheiro da lei, o primeiro reflexo do jagun\u00e7o moderno, o segundo reflexo do jagun\u00e7o do s\u00e9culo XIX.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: O atraso nacional e a ascens\u00e3o do sistema jagun\u00e7o &#8211; Outras Palavras. 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