{"id":1603,"date":"2016-08-18T12:04:56","date_gmt":"2016-08-18T15:04:56","guid":{"rendered":"http:\/\/controversia.com.br\/?p=1603"},"modified":"2016-08-17T17:19:45","modified_gmt":"2016-08-17T20:19:45","slug":"suicidio-o-grande-tabu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2016\/08\/18\/suicidio-o-grande-tabu\/","title":{"rendered":"Suic\u00eddio, o grande tabu"},"content":{"rendered":"<p><strong>XOS\u00c9 HERMIDA<\/strong> &#8211; N\u00e3o provoca discuss\u00f5es na televis\u00e3o, mas o suic\u00eddio tira a vida de uma pessoa a cada 40 segundos.\u00a0Suas fam\u00edlias carregaram por s\u00e9culos um estigma que as obrigava a se esconderem<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2016\/07\/12\/eps\/1468357386_190283_1468445670_noticia_normal.jpg?resize=640%2C356\" srcset=\"http:\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2016\/07\/12\/eps\/1468357386_190283_1468445670_noticia_normal_recorte1.jpg 1960w, http:\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2016\/07\/12\/eps\/1468357386_190283_1468445670_noticia_normal_recorte2.jpg 720w, http:\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2016\/07\/12\/eps\/1468357386_190283_1468445670_noticia_normal.jpg 980w\" alt=\"Objetos pessoais do quarto de Ariadna, uma garota de 18 anos que se suicidou em Madri\" width=\"640\" height=\"356\" \/><\/p>\n<p><em>Objetos pessoais do quarto de Ariadna, uma garota de 18 anos que se suicidou em Madri<\/em><\/p>\n<p>A melhor maneira que Francisco S\u00e1nchez encontrou para explicar o que se passa com ele \u00e9 dizer que sente \u201ccansa\u00e7o da alma\u201d. Os antigos chamavam isso de melancolia, a \u201cb\u00edlis negra\u201d. Um buraco tenebroso onde nada faz sentido e n\u00e3o h\u00e1 futuro, s\u00f3 um presente de sofrimento insuport\u00e1vel. Francisco S\u00e1nchez \u2013Paco para todos\u2013, um t\u00e9cnico em eletr\u00f4nica de 50 anos, come\u00e7ou a se precipitar para o abismo no dia em que passeava pelas ruas de Huelva (no sul de Espanha), sua cidade, e de repente se sentiu como se estivesse em um lugar estranho. Logo veio a queda livre, com duas tentativas de suic\u00eddio. A segunda ele planejou com anteced\u00eancia. Deixou uma nota para os pais dizendo-lhes que ficassem tranquilos porque j\u00e1 n\u00e3o teriam mais de cuidar dele. \u201cAgora estou melhor, mas tenho o esp\u00edrito cansado. N\u00e3o posso descartar outra tentativa\u201d, confessa.<\/p>\n<p>Para que permane\u00e7a sob vigil\u00e2ncia, Paco, solteiro, foi viver com os pais. Eles guardam \u00e0 chave as caixas de rem\u00e9dios \u2013toma uma d\u00fazia de comprimidos por dia\u2013 com os quais combate o transtorno ansioso-depressivo com o qual foi diagnosticado. Mas \u00e9 dif\u00edcil saber e explicar o que se passa: \u201cPor qu\u00ea? Por qu\u00ea?&#8230; Essa \u00e9 a pergunta que est\u00e1 sempre a\u00ed\u201d. Sua amiga Celes, que sofreu com o suic\u00eddio de um filho, at\u00e9 faz piadas com ele.<\/p>\n<p>\u2013Mas, vamos ver, Paco, voc\u00ea quer morrer ou n\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2013Se morrer \u00e9 n\u00e3o ter esperan\u00e7a na vida&#8230; Vou com uma m\u00e1scara colocada.<\/p>\n<p>A cada duas horas e meia uma pessoa tira a pr\u00f3pria vida na Espanha. A estat\u00edstica \u00e9 t\u00e3o brutal que transforma o suic\u00eddio na primeira causa de morte n\u00e3o natural, com o dobro de v\u00edtimas dos acidentes de tr\u00e2nsito. Milhares de trag\u00e9dias das quais n\u00e3o se fala porque a morte volunt\u00e1ria \u00e9 um tabu que resistiu desde o come\u00e7o da civiliza\u00e7\u00e3o. S\u00e9culos atr\u00e1s, os corpos dos suicidas eram enterrados sob montes de pedras. Agora s\u00e3o empurrados para tr\u00e1s de um muro de sil\u00eancio.<\/p>\n<p>As estat\u00edsticas oficiais do pa\u00eds nem sequer est\u00e3o atualizadas. As \u00faltimas s\u00e3o de 2014 e situam o problema em 3.910 mortos, o maior n\u00famero registrado at\u00e9 ent\u00e3o. Os especialistas calculam que os dados estejam subestimados em pelo menos 20% por v\u00e1rias raz\u00f5es, como o desejo de algumas fam\u00edlias de ocultar o fato. \u201cAs cifras do Instituto Nacional de Estat\u00edstica tamb\u00e9m n\u00e3o s\u00e3o muito rigorosas\u201d, afirma Javier Jim\u00e9nez, um psic\u00f3logo que preside a Associa\u00e7\u00e3o para a Pesquisa, Preven\u00e7\u00e3o e Interven\u00e7\u00e3o do Suic\u00eddio (AIPIS). \u201cEm outros anos comprovamos que havia 500 mortos registrados nos institutos anat\u00f4mico-forenses que n\u00e3o eram compilados na estat\u00edstica total. Al\u00e9m do mais, sabe-se que parte dos acidentes de tr\u00e2nsito s\u00e3o suic\u00eddios, tamb\u00e9m os que se precipitam no vazio por causas n\u00e3o determinadas ou os que morrem por ingest\u00e3o de medicamentos.\u201d<\/p>\n<p>Paco se sentia muitas vezes \u201ccomo um leproso\u201d. Algumas pessoas n\u00e3o falam com ele e mudam de cal\u00e7ada ao v\u00ea-lo. Como seus antigos colegas de trabalho, o lugar onde sua alma foi consumida. \u201cEntrei na empresa aos 15 anos e dediquei a ela toda a minha vida, da manh\u00e3 \u00e0 noite. N\u00e3o fiz outra coisa\u201d, relata, lutando contra o tremor na voz. \u201cAli foi sendo gerado um ambiente t\u00f3xico, at\u00e9 violento, por parte dos chefes. Um dia descobri que queriam me mandar embora para contratar dois rapazes mais baratos e entrei em colapso. Deram-me baixa por depress\u00e3o, mas me mandaram a uma inspe\u00e7\u00e3o e me diziam que eu n\u00e3o tinha nada.\u201d Paco vive agora abatido pela sensa\u00e7\u00e3o de ter desperdi\u00e7ado a vida inteira. E todas as noites, em sonhos, regressa interminavelmente a seu posto de trabalho.<\/p>\n<blockquote><p>\nOs familiares dos suicidas se denominam sobreviventes. \u201c\u00c9 porque n\u00f3s j\u00e1 n\u00e3o vivemos, s\u00f3 sobrevivemos\u201d, explicam<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>H\u00e1 consenso entre os especialistas em atribuir a maioria dos suic\u00eddios a transtornos psicol\u00f3gicos. \u201cMuitos estavam latentes e foram desencadeados por algum acontecimento, como uma ruptura de uma rela\u00e7\u00e3o ou dificuldades econ\u00f4micas\u201d, explica Jim\u00e9nez. A crise coincidiu com um crescimento das mortes volunt\u00e1rias, que aumentaram em 450 entre 2008 e 2014, mas as causas, segundo os estudiosos, s\u00e3o mais profundas.<\/p>\n<p>Para lutar contra sua sombra obscura, Paco S\u00e1nchez se uniu a outros sobreviventes. Assim decidiram chamar-se, embora nenhum dos novos companheiros de Paco tenha posto sua vida em risco. O que lhes aconteceu \u00e9 que algu\u00e9m muito pr\u00f3ximo deles se matou. \u201cE desde ent\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o vivemos, s\u00f3 sobrevivemos\u201d, explicam. Conheceram-se em terapias de grupo para o luto, nas quais foram buscar algu\u00e9m que os entendesse de verdade, que tamb\u00e9m se tivesse precipitado a esse abismo de dor, incredulidade e sentimento de culpa por n\u00e3o ter podido evitar. Algu\u00e9m que, como eles, ao ouvir um telefone ou um elevador, ao ver os contornos de uma figura familiar na rua, tivesse por um instante a sensa\u00e7\u00e3o de que o ser perdido havia regressado. Algu\u00e9m que tivesse vivido a peregrina\u00e7\u00e3o em busca de ajuda psicol\u00f3gica e tivesse se deparado com a falta de especialistas para tratar de pessoas na sua situa\u00e7\u00e3o. Algu\u00e9m disposto, apesar de tudo, a sair do po\u00e7o, a n\u00e3o se esconder, a romper o tabu, a gritar \u00e0 sociedade que sofreram muito, mas n\u00e3o t\u00eam nada do que se envergonhar.<\/p>\n<p>Tem sido como uma sa\u00edda do arm\u00e1rio. A primeira associa\u00e7\u00e3o de sobreviventes,<a href=\"https:\/\/www.despresdelsuicidi.org\/\" target=\"_blank\">Despr\u00e9s del Su\u00efcidi<\/a>, foi fundada em 2013 por Cecilia Borr\u00e1s, uma psic\u00f3loga de Barcelona, depois de perder o filho Miquel, de 19 anos. Em Madri j\u00e1 existia desde 2009 a AIPIS, criada por Javier Jim\u00e9nez para atividades de preven\u00e7\u00e3o, suprindo a car\u00eancia de programas oficiais. Passaram \u2013e passam\u2013 horas falando por telefone com desconhecidos que lhes telefonam desesperados, sem saber a que outro local recorrer. Seu apostolado come\u00e7a a dar frutos. Sob sua inspira\u00e7\u00e3o, os sobreviventes de Huelva criaram a plataforma <a href=\"http:\/\/atuladohuelvaspain.blogspot.com.es\/\" target=\"_blank\">A tu Lado<\/a>. E j\u00e1 h\u00e1 outros grupos sendo criados para romper o sil\u00eancio nas Can\u00e1rias, Pa\u00eds Basco e Gal\u00edcia. Defendem que uma parte dos suic\u00eddios poder\u00e1 ser evitada. Que para isso \u00e9 essencial que n\u00e3o se oculte o problema e que sejam aplicados os planos de preven\u00e7\u00e3o elaborados pelas autoridades da sa\u00fade, e que mal s\u00e3o cumpridos.<\/p>\n<blockquote><p>\n\u201cPedimos a todos que nos falem com naturalidade e n\u00e3o evitem nenhuma palavra. \u00c0s vezes rimos lembrando de coisas de Jes\u00fas\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Os testemunhos dos sobreviventes falam de morte, mas tamb\u00e9m de vida. Da coragem para enfrentar o indiz\u00edvel e assumir que a melhor maneira de manter a lembran\u00e7a daquele que se foi \u00e9 seguir em frente. Nem todos reagiram da mesma forma. Alguns desmontaram imediatamente o quarto do ausente, enquanto outros o conservam com todos os detalhes, como um altar. Alguns gostam de repassar velhas grava\u00e7\u00f5es daqueles que n\u00e3o voltar\u00e3o mais, enquanto outros n\u00e3o suportam nem sequer ouvir as suas vozes. A uni-los, por\u00e9m, est\u00e1 a determina\u00e7\u00e3o de tentar fazer com que ningu\u00e9m mais caia nesse inferno que, para eles, tornou-se cotidiano. Eis os seus testemunhos, em primeira pessoa.<\/p>\n<p><strong>O compromisso<\/strong><\/p>\n<p><em>Jos\u00e9 Carlos Soto Madrigal, 56 anos, editor. Olga Ramos, 51 anos, t\u00e9cnica em inform\u00e1tica. Sua \u00fanica filha, Ariadna, 18 anos, se suicidou em 24 de janeiro de 2015 em Madri.<\/em><\/p>\n<p>\u201cO pior \u00e9 a tortura do \u2018e se&#8230;\u2019: \u2018E se eu lhe tivesse dito isso, e se eu tivesse agido de outra maneira&#8230;\u2019 Toda a vida dos meses anteriores passa pela sua cabe\u00e7a, voc\u00ea esquadrinha cada detalhe, conversa, olhar, qualquer sinal&#8230; E n\u00e3o entende nada, d\u00e1 vontade de morrer.<\/p>\n<p>Nos primeiros meses, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9ramos mais pessoas. \u00c0s vezes, com\u00edamos alguma coisa somente porque aparecia algu\u00e9m que nos trazia comida. Ela n\u00e3o nos deixou ver absolutamente nada, escondeu tudo. Tent\u00e1vamos fazer com que falasse, mas, ao final, fic\u00e1vamos falando sozinhos. Um dia, Carlos lhe perguntou: \u2018Filha, voc\u00ea n\u00e3o pensou em se suicidar, certo?\u2019 E ela respondeu: \u2018Papai, o que voc\u00ea tem na cabe\u00e7a?\u201d. Ariadna era uma menina muito madura para a sua idade. Lia, pintava, tocava viol\u00e3o, gostava de cinema e de teatro&#8230; Tinha amigos, era muito querida na escola, embora nem sempre encontrasse pessoas que compartilhassem as suas inquieta\u00e7\u00f5es culturais. E era muito sens\u00edvel, ficava irritada quando nos ouvia falar mal de algu\u00e9m. Tivera uma adolesc\u00eancia muito tranquila. Gostava de estudar, queria fazer Direito ou Rela\u00e7\u00f5es Internacionais. Matriculou-se em um curso de italiano porque estava apaixonada pela Toscana e pensava em ir morar l\u00e1. At\u00e9 que, da noite para o dia, em novembro de 2013, os temas de umas provas foram alterados e ela se sentiu bloqueada. Nunca a pressionamos em rela\u00e7\u00e3o aos estudos; diz\u00edamos, at\u00e9, que ela estudava demais. Mas ela nos disse que tinha tido uma baixa muito grande.<\/p>\n<p>N\u00f3s a levamos para um psic\u00f3logo, que aconselhou que deixasse o col\u00e9gio. Ao mesmo tempo, ele tentava nos acalmar dizendo que ela era uma menina madura demais. Ela parecia se esfor\u00e7ar para que nos sent\u00edssemos melhor, vestia roupas mais alegres, ouvia m\u00fasica relaxante&#8230; No entanto, n\u00e3o conseguia dormir. N\u00f3s a levamos a um m\u00e9dico, que receitou Orfidal e Prozac. Nos \u00faltimos dias, parecia que estava melhor. Mas j\u00e1 tinha planejado tudo, sabendo inclusive qual era o dia de folga do porteiro do pr\u00e9dio.<\/p>\n<blockquote><p>\n\u201cEu chamo o quarto de Daniel de museu. Continua tal como o deixou, at\u00e9 mesmo com os sapatos sujos, \u00e9 que preciso que continue com seu cheiro\u201d<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Na manh\u00e3 daquele s\u00e1bado, Olga lhe disse: \u201cAcorde, que voc\u00ea \u00e9 o que eu mais amo no mundo, e preciso que voc\u00ea seja como antes\u2019. \u00cdamos visitar uns amigos de quem ela gostava muito, mas ela disse preferia ficar em casa. Embora nos tr\u00eas meses anteriores Carlos tivesse estado quase todos os dias ao seu lado, n\u00e3o era a primeira vez que ela ficaria sozinha. Deixou-nos uma carta em que dizia que nos amava muito, que n\u00e3o aguentava nos ver sofrer e que a perdo\u00e1ssemos. E transcreveu um par\u00e1grafo de Boris Pasternak [o escritor russo fez uma tentativa de suic\u00eddio] para explicar como se sentia.<\/p>\n<p>Procuramos n\u00e3o record\u00e1-la tal como estava nesses \u00faltimos momentos. Fizemos terapia, o que nos ajudou muito. E, mais do que tudo, conhecemos a AIPIS. Integramos a associa\u00e7\u00e3o e damos palestras para pais. J\u00e1 ajudamos a identificar tr\u00eas potenciais casos. Para n\u00f3s, o mais importante, agora, \u00e9 que ningu\u00e9m mais passe por isso\u201d.<\/p>\n<p><strong>O<\/strong> <strong>luto<\/strong><\/p>\n<p><em>Celes Toscano, 50 anos, cozinheira, vi\u00fava. Preside a associa\u00e7\u00e3o A Tu Lado, de Huelva. Daniel, um de seus filhos, se suicidou, com 21 anos, em 8 de novembro de 2013<\/em><\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2016\/07\/12\/eps\/1468357386_190283_1468447088_sumario_normal.jpg?resize=640%2C356\" srcset=\" http:\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2016\/07\/12\/eps\/1468357386_190283_1468447088_sumario_normal_recorte1.jpg 1960w, http:\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2016\/07\/12\/eps\/1468357386_190283_1468447088_sumario_normal_recorte2.jpg 720w , http:\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2016\/07\/12\/eps\/1468357386_190283_1468447088_sumario_normal.jpg 980w\" alt=\"Jes\u00fas, morto aos 18 anos, gostava de passear pelo estu\u00e1rio de Huelva\" width=\"640\" height=\"356\" \/><\/p>\n<p><em>Jes\u00fas, morto aos 18 anos, gostava de passear pelo estu\u00e1rio de Huelva<\/em><\/p>\n<p>\u201cVoc\u00ea teria de ver a nossa apar\u00eancia quando nos encontramos na terapia do luto: como est\u00e1vamos penteados, os cabelos brancos sem tingir, descuidados e vestidos com moletons e casaco esportivo. Ainda no ano passado comprei uma cal\u00e7a vermelha com um blus\u00e3o, provei-os duas ou tr\u00eas vezes e tive de tir\u00e1-los, n\u00e3o podia. Tampouco pude usar perfume nem pintar as unhas. \u00c9 um direito que voc\u00ea nega a si mesma. A gente continua vivendo, mas tem tanta dor por dentro que, \u00e0s vezes, quando estou sozinha, digo para desabafar: \u201cBom, agora que tenho meia horinha vou chorar um pouco\u201d.<\/p>\n<p>As pessoas se portaram muito bem, embora no in\u00edcio ningu\u00e9m quisesse vir aqui em casa. Eu achava que tinha me acontecido a coisa mais estranha do mundo, algo que n\u00e3o acontece com ningu\u00e9m. A dor \u00e9 t\u00e3o grande que acaba sendo f\u00edsica, sai pelos seus poros. Os meses que passei enfurnada! At\u00e9 que me armei de coragem e decidi ir ao grupo de terapia. As amigas mais pr\u00f3ximas n\u00e3o concordam que eu participe da associa\u00e7\u00e3o, dizem que n\u00e3o devo ficar matutando. Mas isto est\u00e1 me ajudando tanto! Se h\u00e1 que chorar, choramos; se for para rir, rimos. Eu via que meu filho tinha um problema, mas nunca pensei que fosse chegar aonde chegou. Tinha transtornos do sono, podia passar dois dias sem pregar o olho e depois 24 horas dormindo. E logicamente tamb\u00e9m tinha transtornos na alimenta\u00e7\u00e3o, estava um pouquinho nervoso, estranho, n\u00e3o se podia falar com ele. Eu o levei ao m\u00e9dico de fam\u00edlia e disse: &#8216;D\u00ea-lhe uns comprimidos ou alguma coisa&#8217;. Mas ele se saiu bem nos exames e o m\u00e9dico nos disse que n\u00e3o era necess\u00e1rio.<\/p>\n<p>Daniel tentou entrar duas vezes no Ex\u00e9rcito e n\u00e3o conseguiu. Mas nos estudos era regular, havia acabado de se matricular em mec\u00e2nica. Teve uma namoradinha que o deixou e ele ficou um pouco travado e deprimido. Mas j\u00e1 estava com outra, uma garota alta, bonitinha, de cabelos louros, com quem estava muito orgulhoso. Estavam juntos havia tr\u00eas meses quando um dia a mo\u00e7a o enganou e foi embora com outro. Daniel se aproximou para falar com ela no col\u00e9gio. Tamb\u00e9m telefonou para o rapaz. E depois se suicidou. O legista nos disse que tinha sido um curto-circuito cerebral. Uma das coisas que mais me machucam \u00e9 que me digam que ele decidiu. Como ele ia decidir? Foi o sofrimento que n\u00e3o o deixou decidir.<\/p>\n<p>O irm\u00e3o dele, um ano e meio mais velho, ficou muito mal. O quarto de Daniel \u2013 eu chamo de museu \u2013 continua como ele o deixou, at\u00e9 com os sapatos sujos. Preciso que continue tendo o cheiro dele\u201d.<\/p>\n<p><strong>Continuar vivendo<\/strong><\/p>\n<p><em>Mar\u00eda, 59 anos. Seu filho, de 30, cometeu suic\u00eddio em 2013<\/em><\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2016\/07\/12\/eps\/1468357386_190283_1468447595_sumario_normal.jpg?resize=640%2C426\" srcset=\" http:\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2016\/07\/12\/eps\/1468357386_190283_1468447595_sumario_normal_recorte1.jpg 1960w, http:\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2016\/07\/12\/eps\/1468357386_190283_1468447595_sumario_normal_recorte2.jpg 720w , http:\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2016\/07\/12\/eps\/1468357386_190283_1468447595_sumario_normal.jpg 980w\" alt=\"Mar\u00eda, de 59 anos, em uma praia do sul, um dos lugares favoritos de seu filho, que se suicidou em 2013 aos 30 anos ap\u00f3s sofrer problemas econ\u00f4micos\" width=\"640\" height=\"426\" \/><\/p>\n<p><em>Mar\u00eda, de 59 anos, em uma praia do sul, um dos lugares favoritos de seu filho, que se suicidou em 2013 aos 30 anos ap\u00f3s sofrer problemas econ\u00f4micos\u00a0<\/em><\/p>\n<p>\u201cA \u00faltima coisa que disse ao meu filho, naquela mesma manh\u00e3, era que estava orgulhosa dele. Tinha resolvido seus problemas financeiros e era um pai maravilhoso para suas duas meninas. Tinha me ligado para que eu ficasse com a menor. Estava radiante na escola agr\u00edcola fazendo p\u00e3o com a menina. Por isso, quando me contaram, fiquei em estado de choque. Parecia um sonho, que tinha ficado louca de repente. No necrot\u00e9rio pensei que aquilo n\u00e3o estava acontecendo comigo. Nem conseguia chorar. Eu me pergunto quanta dor e sofrimento tinha meu filho para que nem suas duas filhas tenham conseguido prend\u00ea-lo \u00e0 vida. Acho que influenciou a crise econ\u00f4mica, entre outras coisas.<\/p>\n<p>Agora acho que meu filho pressentia que ia morrer jovem, porque viveu como morreu: r\u00e1pido. Era quase uma crian\u00e7a e j\u00e1 sa\u00eda com duas ou tr\u00eas meninas. Com 22 anos teve uma filha. Era muito impetuoso. E muito alegre, embora \u00e0s vezes, de repente, ficava triste. Praticava muito esporte, tinha um cora\u00e7\u00e3o de ouro e um car\u00e1ter muito empreendedor, muito lutador. Ganhou muito dinheiro como operador de guindaste durante o <em>boom<\/em> da constru\u00e7\u00e3o. Investiu em um apartamento e um carro. E teve outra filha. At\u00e9 que veio a crise, se separou, o sal\u00e1rio caiu pela metade porque teve que come\u00e7ar a trabalhar como gar\u00e7om e as despesas continuaram iguais. Algumas vezes tivemos que ajud\u00e1-lo. Deixou o apartamento para alug\u00e1-lo para sua irm\u00e3 e assim poder continuar a pagar a hipoteca. Contava que n\u00e3o dormia bem e parecia mais magro. Mas tinha planos para o futuro com uma nova mulher e outro emprego, embora n\u00e3o fosse na sua profiss\u00e3o. Parecia que, finalmente, se recuperava. Como podia pensar que meu filho ia fazer algo assim?<\/p>\n<p>Naquele dia, um cliente do bar onde trabalhava o acusou de roubar o celular. \u2018Para qu\u00ea, se tenho tr\u00eas celulares?\u2019, ele disse. Mas o cliente o amea\u00e7ou: \u2018Tenho um cargo importante e voc\u00ea vai para a rua\u2019. Nunca quis descobrir quem era esse homem, mas depois ficamos sabendo que o celular estava com ele. Caiu tudo sobre meu filho, deve ter pensado que ficaria sem emprego. Disse a uma colega: \u2018N\u00e3o aguento isso. Como me sinto mal!\u2019. Ao terminar, pegou a bicicleta&#8230; e se suicidou.<\/p>\n<p>Algum tempo depois, \u00e0s vezes eu ainda pensava que ele tinha ido para a Fran\u00e7a ou para a Alemanha. Uma vez segui um rapaz pelo mercado pois de longe se parecia com ele. Lentamente voltei \u00e0 realidade. Ia ao mar sozinha para poder gritar. Nadava at\u00e9 no inverno. Eu me concentrei na arte, na fam\u00edlia e nos amigos. E agora estou aqui para dizer \u00e0s pessoas que, apesar de tudo, \u00e9 poss\u00edvel continuar vivendo\u201d.<\/p>\n<p><strong>A culpa<\/strong><\/p>\n<p><em>Maria de la Cinta Rullo Sorribes, 57 anos, aposentada por invalidez, casada e m\u00e3e de um filho. Sua outra filha, Marina, tirou a pr\u00f3pria vida em 20 de janeiro de 2008 em Tortosa (Tarragona)<\/em><\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2016\/07\/12\/eps\/1468357386_190283_1468448212_sumario_normal.jpg?resize=360%2C542\" srcset=\" http:\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2016\/07\/12\/eps\/1468357386_190283_1468448212_sumario_normal_recorte1.jpg 720w, http:\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2016\/07\/12\/eps\/1468357386_190283_1468447178_sumario_normal_recorte2.jpg 720w , http:\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2016\/07\/12\/eps\/1468357386_190283_1468448212_sumario_normal.jpg 360w\" alt=\"Mar\u00eda de la Cinta Rullo sempre se lembra de sua filha Marina, que se matou com 24 anos, ao ver esta escultura em Huelva\" width=\"360\" height=\"542\" \/><\/p>\n<p><em>Mar\u00eda de la Cinta Rullo sempre se lembra de sua filha Marina, que se matou com 24 anos, ao ver esta escultura em Huelva\u00a0<\/em><\/p>\n<p>\u201cSupostamente eu tamb\u00e9m tentei me matar uma vez, embora n\u00e3o esteja t\u00e3o segura. Tinha 33 anos e dois filhos. Talvez s\u00f3 quisesse esquecer a vida de merda que tinha e um marido que minava minha autoestima. E tomei comprimidos. A psic\u00f3loga me disse: \u2018Voc\u00ea n\u00e3o tem nada. S\u00f3 precisa deixar seu marido\u2019. Demorei oito anos para conseguir, porque ele queria ficar com as crian\u00e7as. Depois me apaixonei por uma garota e sa\u00ed do arm\u00e1rio pela porta da frente em uma pequena cidade como Tortosa.<\/p>\n<p>Passei mais oito anos vendo a Marina sofrer por um transtorno de personalidade <em>borderline<\/em>. Ap\u00f3s uma de suas mais de 50 tentativas de suic\u00eddio, escrevi um poema: \u2018D\u00f3i depois de amanh\u00e3 \/d\u00f3i no presente \/ d\u00f3i a dor \/ d\u00f3i at\u00e9 a dor que n\u00e3o sinto\u2019.<\/p>\n<p>Sempre foi competitiva at\u00e9 com ela mesma. Come\u00e7ou com transtornos alimentares aos 16 anos. Pedimos ajuda em um hospital de Barcelona, mas conseguimos uma consulta para seis meses depois. Naquela \u00e9poca, conheceu um canalha que a levou \u00e0s drogas. Sua primeira tentativa foi uma overdose de hero\u00edna. Naquele dia tive um pressentimento, fui para casa e a encontrei ca\u00edda com a borracha no bra\u00e7o. Eu estava com os efeitos da quimioterapia por um c\u00e2ncer de mama. Tentou deixar as drogas, come\u00e7ou a ir aos psic\u00f3logos&#8230; Era uma montanha-russa. Nos momentos baixos, s\u00f3 via um buraco negro. Ap\u00f3s cada tentativa, ficava isolada por uma semana e, quando o tratamento fazia efeito&#8230; para casa. Uma vez engoliu um alfinete de seguran\u00e7a aberto e demoraram cinco horas para tir\u00e1-lo. Um m\u00e9dico chegou a me falar: \u2018Voc\u00ea precisa se acostumar com a ideia de que ela vai acabar conseguindo\u2019. Foi como um tapa. Tinham jogado a toalha, mas eu n\u00e3o podia imaginar que um dia n\u00e3o iria chegar a tempo.<\/p>\n<p>Quando tudo aconteceu, j\u00e1 havia deixado a droga. Eu trabalhava \u00e0 noite em um centro de alarmes. Na parte da tarde rimos juntas assistindo a <em>Sex and the City<\/em> e ela me deu um beijo quando sa\u00ed para trabalhar. \u00c0 meia-noite me ligou uma vizinha com quem tinha ficado, alarmada porque ela n\u00e3o respondia. Fui imediatamente para casa e encontrei o celular, a identidade, a bolsa&#8230; tudo colocado sobre a cama. Liguei para a pol\u00edcia. \u00c0s 21h me avisaram: \u2018Se jogou na frente do trem das 19h\u2019.<\/p>\n<p>Pedi licen\u00e7a do trabalho, mas, ao prolong\u00e1-la por ansiedade, fizeram da minha vida algo imposs\u00edvel. Vivia na frente das vias do trem, cada um que passava&#8230; eu morria um pouco. A psic\u00f3loga n\u00e3o me deu outra solu\u00e7\u00e3o, a n\u00e3o ser mudar de casa. Mas eu n\u00e3o ganhava o suficiente! As fofocas me destru\u00edam, os olhares acusadores, as acusa\u00e7\u00f5es diretas. Tanto que uma pessoa me disse:<\/p>\n<p>\u2018Isso \u00e9 fruto da vida que levou\u2019. E a culpa me atormentava. Outros me diziam que tudo acaba sendo esquecido. Mas eu n\u00e3o queria esquec\u00ea-la! Quando n\u00e3o estava em crise, era a menina mais doce, carinhosa, trabalhadora e simp\u00e1tica do mundo.<\/p>\n<p>Um dia em que eu estava mal, meu filho Marcel me disse: \u2018M\u00e3e, n\u00e3o chore mais. A Marina est\u00e1 onde queria\u2019. Eu me aferrei a isso e decidi que minha filha estaria dentro de meu cora\u00e7\u00e3o, que viveria atrav\u00e9s do que eu vivesse. E que por isso n\u00e3o podia levar uma vida de merda. \u00c0s vezes ainda me esque\u00e7o disso, mas continuo aqui, tentando viver por mim e por ela\u201d.<\/p>\n<p><strong>O curto-circuito<\/strong><\/p>\n<p><em>M\u00f3nica Rossi Palomar, 48 anos, funcion\u00e1ria do servi\u00e7o social e vereadora da Esquerda Unida em Huelva. Manuel Eugenio Garc\u00eda Serrano, 49 anos, s\u00f3cio de uma empresa de economia social de com\u00e9rcio. Um de seus dois filhos, Jes\u00fas, de 18 anos, se matou em 15 de junho de 2013<\/em><\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2016\/07\/12\/eps\/1468357386_190283_1468446876_sumario_normal.jpg?resize=360%2C542\" srcset=\" http:\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2016\/07\/12\/eps\/1468357386_190283_1468446876_sumario_normal_recorte1.jpg 720w , http:\/\/ep01.epimg.net\/brasil\/imagenes\/2016\/07\/12\/eps\/1468357386_190283_1468446876_sumario_normal.jpg 360w\" alt=\"M\u00f3nica e Manuel, pais de Jes\u00fas, que se matou com 18 anos\" width=\"360\" height=\"542\" \/><\/p>\n<p><em>M\u00f3nica e Manuel, pais de Jes\u00fas, que se matou com 18 anos\u00a0<\/em><\/p>\n<p>\u201cNessa mesma manh\u00e3, ele passou um tempo tocando viol\u00e3o. E cinco minutos antes veio da casa da vizinha com um peixe. Na semana seguinte iria acampar com os escoteiros. No dia anterior falou com seu pai sobre projetos, estava tirando a carteira de motorista, tinha uma namorada&#8230; Tudo foi de um dia para o outro. Talvez n\u00f3s n\u00e3o tenhamos visto os sinais, mas absolutamente ningu\u00e9m os viu: amigos, fam\u00edlia, vizinhos&#8230; Pode ser que sejam garotos especiais, que vivem e sentem de forma diferente. Jes\u00fas s\u00f3 viveu 18 anos, mas teve uma vida muito intensa e plena.<\/p>\n<p>Era muito extrovertido e prestativo, se oferecia para tudo. E tamb\u00e9m muito impulsivo. Sempre com um sorriso, estudava Direito, participava da romaria da Virgem do Roc\u00edo de Huelva, sa\u00eda em prociss\u00f5es na Semana Santa, gostava de touradas, de flamenco&#8230; apesar de tamb\u00e9m gostar do campo, se empenhou em estudar Direito. Estava tudo bem at\u00e9 assistir ao julgamento de um caso de viol\u00eancia de g\u00eanero. Voltou nos dizendo: \u2018Eu n\u00e3o poderia defender um homem assim\u2019. E largou o curso para se matricular na faculdade de gest\u00e3o agr\u00edcola.<\/p>\n<p>O legista nos disse que foi um curto-circuito cerebral. Estava em casa com seu irm\u00e3o Sergio, seis anos mais velho. Eram duas horas da tarde, entrou no banheiro e se matou. Deixou uma nota que dizia somente: \u2018Sinto muito\u2019. Um vizinho ouviu os gritos de Sergio, que correu para a rua de shorts e descal\u00e7o. A M\u00f3nica e foi informada por uma m\u00e9dica do 061 (n\u00famero do servi\u00e7o de emerg\u00eancia da Espanha) e no come\u00e7o at\u00e9 achou que se tratava de uma brincadeira, de t\u00e3o inconceb\u00edvel que lhe parecia. Porque \u00e9 algo em que nem sequer pensamos. Para esclarecer o que aconteceu, a pol\u00edcia levou n\u00f3s tr\u00eas \u00e0 delegacia e nos deixou l\u00e1 at\u00e9 uma hora da madrugada. Eles nos trataram bem, dentro das circunst\u00e2ncias. Sergio sofreu ali um ataque de ansiedade.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cO pior \u00e9 a tortura do \u2018e se\u2019: \u2018E se eu tivesse falado isso. E se tivesse agido dessa forma\u201d, contam Carlos e Olga que perderam sua \u00fanica filha<\/p><\/blockquote>\n<p>Na semana seguinte, fomos n\u00f3s tr\u00eas a um psic\u00f3logo que arrumamos. A m\u00e9dica da fam\u00edlia nos via toda semana e nos enviou ao departamento de Sa\u00fade Mental, mas demoraram tr\u00eas meses para nos atender. A experi\u00eancia n\u00e3o foi boa. Quando Eugenio comentou o ocorrido com a psiquiatra, ela ficou t\u00e3o nervosa que ele quase precisou consol\u00e1-la. Ela disse que Eugenio precisaria se medicar durante toda sua vida. Mas, olhe, j\u00e1 n\u00e3o toma mais nada. O psic\u00f3logo, Juan, foi um apoio fundamental, mas nos faltava algo: falar com pessoas que soubessem pelo que est\u00e1vamos passando. Por isso entramos no grupo de luto da Associa\u00e7\u00e3o de Escuta San Camilo, onde nos encontramos com tr\u00eas m\u00e3es na mesma situa\u00e7\u00e3o e nos ajudou muito. Tivemos problemas no casamento e brig\u00e1vamos frequentemente, mas superamos. Somos religiosos e a f\u00e9 nos ajuda. E nossa rede de apoio tem sido a fam\u00edlia, os amigos e os colegas da Irmandade Obreira de A\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica. Eugenio j\u00e1 havia sofrido uma depress\u00e3o e sabia o que fazer para n\u00e3o cair novamente. M\u00f3nica trabalha com pessoas com defici\u00eancia e isso foi um est\u00edmulo, porque quando voltou ao trabalho a trataram com muito amor e respeito.<\/p>\n<p>Pedimos a todo mundo que falem conosco com naturalidade, que n\u00e3o evitem nenhuma palavra. Sergio demonstrou uma for\u00e7a surpreendente. \u00c0s vezes at\u00e9 rimos bastante lembrando coisas de Jes\u00fas. Mas nos primeiros meses acordava todas as noites gritando: sonhava que corria pelo corredor e nunca chegava ao banheiro. N\u00e3o quer\u00edamos deixar a casa, porque fomos muito felizes nela, de modo que decidimos mudar todo o banheiro. Sergio sempre escreve algo no Facebook nos anivers\u00e1rios do suic\u00eddio de Jes\u00fas. No \u00faltimo colocou: \u2018Tr\u00eas anos e ainda n\u00e3o aprendi a pensar em voc\u00ea, a lembrar de voc\u00ea sem que um n\u00f3 aperte at\u00e9 a minha alma. Sua aus\u00eancia ao meu lado \u00e9 uma n\u00e9voa de inc\u00f3gnitas que somente meu desejo de saber que voc\u00ea toma conta da gente onde quer que esteja alivia\u201d.<\/p>\n<p>http:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2016\/07\/12\/eps\/1468357386_190283.html?id_externo_rsoc=FB_CM<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>XOS\u00c9 HERMIDA &#8211; N\u00e3o provoca discuss\u00f5es na televis\u00e3o, mas o suic\u00eddio tira a vida de uma pessoa a cada 40 segundos.\u00a0Suas fam\u00edlias carregaram por s\u00e9culos um estigma que as obrigava a se esconderem Objetos pessoais do quarto de Ariadna, uma garota de 18 anos que se suicidou em Madri A melhor maneira que Francisco S\u00e1nchez [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":107,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7,8],"tags":[],"class_list":["post-1603","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-saude","category-sociedade"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.7 - 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