{"id":16019,"date":"2021-11-20T12:52:29","date_gmt":"2021-11-20T15:52:29","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=16019"},"modified":"2021-11-14T14:56:03","modified_gmt":"2021-11-14T17:56:03","slug":"anatomia-da-ultradireita-versao-steve-bannon-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2021\/11\/20\/anatomia-da-ultradireita-versao-steve-bannon-2\/","title":{"rendered":"Anatomia da ultradireita, vers\u00e3o Steve Bannon"},"content":{"rendered":"<p><strong>Esteban Magnani &#8211;\u00a0<\/strong>A extrema-direita global foi ignorada, desprezada e, finalmente, temida. \u00c9 preciso compreender como funciona, o que pensa e por qu\u00ea faz tanto sucesso capitalizando o descontentamento que um neoliberalismo predador deixou como legado. Ou ser\u00e1 que \u00e9 parte do mesmo projeto?<\/p>\n<p>A miss\u00e3o de entender a nova extrema-direita n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, pois al\u00e9m de certo eixo comum, que une racismo, anti-semitismo, antifeminismo ou o uso de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.elcohetealaluna.com\/violencia-y-conspiranoia-preelectorales\/\">delirantes teorias da conspira\u00e7\u00e3o<\/a>\u00a0e de big data e intelig\u00eancia artificial, a direita adapta-se com facilidade aos medos e frustra\u00e7\u00f5es particulares dos abandonados de cada pa\u00eds. O ingrediente-surpresa dessa extrema-direita \u00e9 o uso eficiente de tecnologias para detectar medos, frustra\u00e7\u00f5es, tra\u00e7os de personalidade ou desejos, com dados obtidos de diferentes formas. Com esse insumo, infinitamente mais rico que aquele fornecido pela amostragem estat\u00edstica, \u00e9 poss\u00edvel detectar os que podem ser persuadidos com maior facilidade, e\u00a0<a href=\"http:\/\/revistaanfibia.com\/ensayo\/quien-toma-tus-decisiones\/\">afetar seu comportamento<\/a>\u00a0para favorecer determinadas a\u00e7\u00f5es. A capacidade de manipular popula\u00e7\u00f5es por meio da nova usina de dados, algoritmos e intelig\u00eancia artificial, fez sua brutal estreia p\u00fablica gra\u00e7as ao esc\u00e2ndalo da\u00a0<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=HVHKYXJq7qo\">Cambridge Analytica<\/a>, mas sua diversidade se manifesta nas fendas que proliferam nas sociedades ocidentais.<\/p>\n<p>No entanto, seria um erro acreditar que tudo se explica por meio do Facebook, Twitter ou WhatsApp. Cada vez mais analistas entendem a necessidade da escuta, de ir um pouco al\u00e9m da indigna\u00e7\u00e3o, de entender o que est\u00e1 acontecendo no mundo. O que pensa a extrema-direita?<\/p>\n<p><strong>O fio<\/strong><\/p>\n<p>\u201cVivemos num neofeudalismo. Isto n\u00e3o \u00e9 capitalismo\u201d. A quem pertence a frase? A c\u00edrculos intelectuais anarquistas, socialistas do s\u00e9culo XXI, a alguma divis\u00e3o perdida do comunismo revolucion\u00e1rio? N\u00e3o: pertence a ningu\u00e9m menos do que Steve Bannon, que foi o l\u00edder da campanha eleitoral de Donald Trump, em 2016. Bannon, preso h\u00e1 algumas semanas por ter ficado, ilegalmente, com um milh\u00e3o de d\u00f3lares, procedente da campanha de de Trump para construir o muro entre o M\u00e9xico e os EUA, \u00e9 uma figura bastante peculiar. Diretor do site de not\u00edcias de extrema-direita,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.breitbart.com\/\">Breitbart News<\/a>\u00a0(famoso pelo uso de fake news e por seus brutais ataques \u00e0queles que obstruem o caminho de seus protegidos), foi demitido da Casa Branca em agosto de 2017 por suas posi\u00e7\u00f5es extremas, principalmente, por aquelas que envolvem sua oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 globaliza\u00e7\u00e3o. Desde ent\u00e3o, vem se dedicando a assessorar boa parte dos setores mais radicalizados e racistas da Europa e Am\u00e9rica Latina. Nesta figura particular,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/fashion\/shortcuts\/2017\/sep\/11\/steve-bannon-shirts-60-minutes\">que veste duas camisas sobrepostas<\/a>, s\u00e3o catalisadas as ideias de uma direita que perdeu a vergonha de dizer o que pensa e que tem grande capacidade tecnol\u00f3gica para cultivar o discurso do \u00f3dio no f\u00e9rtil adubo neoliberal.<\/p>\n<p>Bannon \u00e9 o rosto aparente de um dos grandes investidores da direita radical, o obscuro\u00a0<a href=\"https:\/\/es.wikipedia.org\/wiki\/Robert_Mercer\">Robert Mercer<\/a>, um inform\u00e1tico que se tornou milion\u00e1rio gra\u00e7as ao\u00a0<a href=\"https:\/\/es.wikipedia.org\/wiki\/Negociaci%C3%B3n_de_alta_frecuencia\">High Frequency Trading<\/a>\u00a0\u2014 um sistema precursor de intelig\u00eancia artificial, que compra e vende a\u00e7\u00f5es na bolsa, milhares de vezes por segundo, ganhando centavos em cada uma dessas transa\u00e7\u00f5es. Esse bilion\u00e1rio \u00e9 um grande doador de ONGs de direita, e um dos investidores da Cambridge Analytica, na qual colocou Bannon como vice-presidente.<\/p>\n<p>Esta empresa, extinta ap\u00f3s o esc\u00e2ndalo das elei\u00e7\u00f5es presidenciais nos EUA, era uma filial norte-americana da\u00a0<a href=\"https:\/\/publicaciones.sadio.org.ar\/index.php\/EJS\/article\/view\/146\/129\">SCL<\/a>, companhia inglesa especializada em opera\u00e7\u00f5es psicol\u00f3gicas. Mercer \u00e9 bastante reservado, n\u00e3o d\u00e1 entrevistas nem palestras, mas, como explica a jornalista brit\u00e2nica Carol Cadwalladar no document\u00e1rio<em>\u00a0<\/em><a href=\"https:\/\/vimeo.com\/295576715\"><em>Fake America Great Again<\/em><\/a><em>,\u00a0<\/em>ao seguirmos as pegadas do seu dinheiro, compreendemos o que ele pensa. Bannon \u00e9 quem d\u00e1 as caras pelas ideias que Mercer financia.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que vale a pena parar e prestar aten\u00e7\u00e3o na trajet\u00f3ria do homem que esteve por tr\u00e1s das campanhas \u2014 de sucesso, em geral \u2014 n\u00e3o s\u00f3 de Trump, como tamb\u00e9m do\u00a0<a href=\"https:\/\/www.newyorker.com\/news\/news-desk\/new-evidence-emerges-of-steve-bannon-and-cambridge-analyticas-role-in-brexit\">Brexit<\/a>\u00a0no Reino Unido, de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.dailymail.co.uk\/news\/article-6823921\/Steve-Bannon-gives-Brazils-president-Bolsonaro-advice-lunch-day-White-House-meeting.html\">Jair Bolsonaro<\/a>\u00a0no Brasil, de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.eldiario.es\/internacional\/steve-bannon-orban-pablo-casado_1_1833407.html\">Viktor Orb\u00e1n<\/a>\u00a0na Hungria, de\u00a0<a href=\"https:\/\/www.forbes.com\/sites\/annalisagirardi\/2019\/04\/22\/matteo-salvini-is-key-for-bannons-strategy-in-the-european-elections\/#40f008f03ed3\">Matteo Salvini<\/a>\u00a0na It\u00e1lia, do partido\u00a0<a href=\"https:\/\/www.lapoliticaonline.com\/nota\/122944-la-huella-de-bannon-tras-el-historico-triunfo-de-vox-en-espana\/\">Vox<\/a>\u00a0na Espanha, e de Marine Le Pen na Fran\u00e7a (que logo em seguida,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/world\/2018\/oct\/08\/marine-le-pen-steve-bannon-has-no-part-to-play-in-saving-europe\">se recusou<\/a>\u00a0a trabalhar com ele), entre outros. Durante esses anos, fundou\u00a0<a href=\"https:\/\/www.independent.co.uk\/news\/steve-bannon-moving-europe-movement-foundation-far-right-wing-politics-george-soros-a8458641.html\"><em>O Movimento<\/em><\/a>, uma organiza\u00e7\u00e3o com o intuito de ajudar os partidos nacionalistas europeus em suas campanhas pol\u00edticas. Al\u00e9m disso, como pode ser visto no document\u00e1rio\u00a0<em>Privacidade Hackeada<\/em>\u00a0(de Karim Amer e Jehane Noujaim, 2019), colaborou com a campanha de Mauricio Macri na Argentina, e\u00a0<a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/2019\/12\/23\/us\/politics\/steve-bannon-guo-wengui.html\">trabalhou para Guo Wengui<\/a>, um exilado chin\u00eas bilion\u00e1rio que se op\u00f5e ao regime de seu pa\u00eds.<\/p>\n<p>Bannon \u00e9 um ex: ex-militar, ex-corretor da bolsa (onde ganhou v\u00e1rios milh\u00f5es de d\u00f3lares), ex-produtor de cinema e ex-alco\u00f3latra. Numa<a href=\"https:\/\/publicaciones.sadio.org.ar\/index.php\/EJS\/article\/view\/146\/129\">\u00a0longa entrevista<\/a>\u00a0que deu para o document\u00e1rio\u00a0<em>America\u2019s Great Divide<\/em>\u00a0(Michael Kirk, 2020), conta que sempre se interessou por pol\u00edtica, mas a gota d\u2019\u00e1gua se deu no resgate financeiro, o\u00a0<em>bailout<\/em>\u00a0que o presidente Barack Obama brindou ao sistema financeiro norte-americano logo ap\u00f3s a crise de 2008. \u201cNingu\u00e9m foi responsabilizado pela crise financeira\u201d, diz ele, indignado. Nenhum dos que se beneficiaram dessa crise brutal acabou na pris\u00e3o ou renunciou ao b\u00f4nus milion\u00e1rio de fim de ano. \u201cColocamos o fardo do resgate na classe trabalhadora e na classe m\u00e9dia. \u00c9 por isso que ningu\u00e9m tem nada. Os\u00a0<em>millennials<\/em>\u00a0de hoje nada mais s\u00e3o do que os servos russos do s\u00e9culo XIX. (\u2026) Eles nunca v\u00e3o ter nada. (\u2026) N\u00e3o se trata de democratas ou republicanos, \u00e9 a forma como o sistema funciona. \u00c9 sobre como o sistema se une para se proteger e seguir em frente.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 preciso ser de direita para se indignar junto com ele. \u00c9 verdade que Obama abriu uma enorme expectativa de mudan\u00e7a no que diz respeito aos governos Clinton e Bush \u2014 ambos alinhados, apesar de suas diferen\u00e7as partid\u00e1rias, com o poder de Wall Street. Ao aceitar o resgate, ele n\u00e3o quis nem ousou aproveitar a oportunidade para limitar a voracidade do poder financeiro. Com seu aval, morreu a esperan\u00e7a de mudar um sistema financeiro que produz\u00a0<a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/mundo\/noticias\/2016\/01\/160118_1_por_ciento_mas_rico_pobreza_desigualdad_economia_mr\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\" (abre em uma nova aba)\">desigualdade<\/a>, empregos in\u00fateis,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/mundo\/noticias-49613406\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\" (abre em uma nova aba)\">endividamento<\/a>\u00a0e frustra\u00e7\u00e3o na classe trabalhadora daquele pa\u00eds.<\/p>\n<p>Para Bannon, naquele panorama era necess\u00e1rio um populismo nacionalista liderado por algu\u00e9m disposto a chutar o tabuleiro, um vingador que chamasse as coisas pelo nome. Um homem como Trump. Sem esse contexto, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel entender o sucesso das brutais campanhas de desinforma\u00e7\u00e3o que foram semeadas intencionalmente, mas que se enraizaram e floresceram gra\u00e7as a uma popula\u00e7\u00e3o enraivecida, que viu o poder financeiro, os democratas e republicanos, o politicamente correto, o feminismo e os movimentos pelos direitos das minorias como uma combina\u00e7\u00e3o que os empobrece e humilha. Porque al\u00e9m de terem que se endividar para sobreviver, s\u00e3o acusados \u200b\u200bde serem machistas, xen\u00f3fobos, racistas e poluidores, o que os despe de qualquer resqu\u00edcio de dignidade \u2014 principalmente, no caso dos homens (as mulheres tamb\u00e9m votam na direita, embora<a href=\"https:\/\/time.com\/5422644\/trump-white-women-2016\/\">\u00a0Trump exagere<\/a>\u00a0nos percentuais). Seu mundo treme e n\u00e3o podem se refugiar nem mesmo na seguran\u00e7a de uma identidade, agora abalada pelas ideais progressistas.<\/p>\n<p>Para Bannon, o caminho para o populismo nacionalista deveria come\u00e7ar no controle do Partido Republicano dos EUA por meio de ferozes ataques nas redes (\u201c<a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Online_shaming\">cancel culture<\/a>\u201c, ou cultura do cancelamento, \u00e9 o nome dado a essa campanha nos Estados Unidos) a qualquer senador que iniciasse um di\u00e1logo com os democratas. Os rebeldes foram dinamitados pelas redes com muni\u00e7\u00e3o fornecida pelo\u00a0<em>Breitbart<\/em>\u00a0e outros meios, at\u00e9 serem recha\u00e7ados. Assim, pode-se ler coment\u00e1rios que dizem que \u201cs\u00f3 um traidor negocia com um nazista, um comunista, um defensor de Wall Street, um africano, um ditador\u201d e tudo o mais que poderia ser dito sobre\u00a0<a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Barack_Obama_citizenship_conspiracy_theories\">Obama<\/a>\u00a0na m\u00eddia de direita. O resultado foi a paralisia do governo democrata, que sangrou para conseguir uma reforma moderada no sistema de sa\u00fade.<\/p>\n<p>E assim surgiu Trump. O plano de Bannon concentrava-se principalmente em duas quest\u00f5es: primeiro, construir um muro como s\u00edmbolo da luta contra a imigra\u00e7\u00e3o ilegal, usada pelas empresas para diminuir ainda mais a renda j\u00e1 \u201cneofeudal\u201d dos trabalhadores. Em segundo lugar, e com o mesmo objetivo, enfrentar a China, que tira o trabalho da classe trabalhadora. Nesse sentido, Bannon disse em entrevista a Benjamin Teitelbaum: \u201cO que temos agora \u00e9 um sistema em que escravos chineses fazem produtos para os desempregados no Ocidente.\u201d<\/p>\n<p>Olhando rapidamente, n\u00e3o parece um plano excessivamente elaborado para governar o pa\u00eds mais poderoso do mundo. Mas\u2026 ser\u00e1 que realmente existe algum plano magistral para a direita global?<\/p>\n<p>No in\u00edcio deste ano, foi lan\u00e7ado o livro\u00a0<a href=\"https:\/\/www.theguardian.com\/books\/2020\/jun\/05\/war-for-eternity-benjamin-r-teitelbaum-starstruck-steve-bannon-dugin-putin-trump\">War for Eternity<\/a>, do etno-m\u00fasico Benjamin Teitelbaum, que estuda h\u00e1 anos alguns obscuros pensadores de direita (antes desse livro, ele escreveu\u00a0<em>Lions of the North<\/em>, sobre o nacionalismo na Escandin\u00e1via). Ouvindo Bannon em suas entrevistas, Teitelbaum chegou numa hip\u00f3tese: ele, assim como outros pensadores de direita, \u00e9 um tradicionalista.<\/p>\n<p>O\u00a0<a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Traditionalist_School\">tradicionalismo<\/a>\u00a0\u00e9 uma corrente filos\u00f3fica do come\u00e7o do s\u00e9culo XX, que possui fortes v\u00ednculos com o fascismo, e que estabelece que a hist\u00f3ria \u00e9 c\u00edclica, com quatro per\u00edodos que se repetem. Cada um desses per\u00edodos est\u00e1 vinculado a uma classe detentora do poder: fil\u00f3sofos, guerreiros, mercadores e escravos (sempre homens, \u00e9 claro). A fase final, a dos escravos, marca a decomposi\u00e7\u00e3o do sistema at\u00e9 o in\u00edcio de um novo ciclo. Essa corrente filos\u00f3fica tamb\u00e9m levanta a necessidade de hierarquias na sociedade e a validade de todas as religi\u00f5es para organiz\u00e1-las sob uma doutrina superior. \u00c9 uma corrente anti-iluminista que afirma que as verdades s\u00e3o alternativas: dependem de cosmologias culturais, uma liga\u00e7\u00e3o direta com os \u201c<a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Alternative_facts\">fatos alternativos<\/a>\u201d \u2014 muito em voga durante a campanha de Trump \u2014 que constituem o eixo do que se chamou de\u00a0<a href=\"https:\/\/es.wikipedia.org\/wiki\/Posverdad\">p\u00f3s-verdade<\/a>. Embora Teitelbaum reconhe\u00e7a a heterogeneidade dessa corrente, h\u00e1 uma tend\u00eancia a considerar a superioridade da ra\u00e7a ariana, cujas ra\u00edzes est\u00e3o na \u00cdndia. Todo o conjunto \u00e9 temperado com uma boa dose de esoterismo em oposi\u00e7\u00e3o ao materialismo encarnado pelo consumismo, mas tamb\u00e9m pelo comunismo.<\/p>\n<p>Bannon conhece o tradicionalismo, mas se auto define de uma forma mais humilde: \u201cSou apenas um cara de merda, que observa enquanto avan\u00e7a.\u201d Por\u00e9m, ao longo das conversas, fica claro que ele conhece essa corrente filos\u00f3fica, embora fa\u00e7a suas pr\u00f3prias interpreta\u00e7\u00f5es e prefira n\u00e3o se aprofundar nas partes mais esot\u00e9ricas. Bannon n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico poderoso com essa vis\u00e3o anti-materialista e anti-iluminista que ganhou relev\u00e2ncia nos \u00faltimos anos. Entre eles tamb\u00e9m est\u00e1\u00a0<a href=\"https:\/\/es.wikipedia.org\/wiki\/Aleksandr_Duguin\">Alexandr Dugin<\/a>, um fil\u00f3sofo russo com v\u00e1rios livros escritos, e que costuma aconselhar Vladimir Putin (\u00e0s vezes diretamente, \u00e0s vezes nas sombras). O outro personagem que tamb\u00e9m encontra Teitelbaum \u00e9 uma refer\u00eancia conhecida na pol\u00edtica brasileira atual:\u00a0<a href=\"https:\/\/nuso.org\/articulo\/conspiracion-bolsonaro-olavo-carvalho\/\">Olavo de Carvalho<\/a>. Este conselheiro de Bolsonaro usou seu canal no YouTube para apoi\u00e1-lo em sua carreira pol\u00edtica e, especialmente, para protestar contra a ideologia de g\u00eanero e o comunismo. No entanto, assim que seu protegido chegou \u00e0 presid\u00eancia, ele se recusou a ingressar em seu gabinete e se limitou a recomendar pessoas de confian\u00e7a para posi\u00e7\u00f5es-chave.<\/p>\n<p>Apesar das afinidades que encontra, Teitelbaum reconhece que, para al\u00e9m das cr\u00edticas ao sistema e de uma certa cosmologia, o fio ideol\u00f3gico que une esses personagens \u00e9 t\u00eanue. Todos os tr\u00eas concordam com a necessidade de promover nacionalismos locais para produzir uma desintegra\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses e reverter a globaliza\u00e7\u00e3o materialista e esclarecida que destr\u00f3i os valores espirituais tradicionais. Mas, rapidamente, surgem as diferen\u00e7as: Carvalho, que praticou o\u00a0<a href=\"https:\/\/es.wikipedia.org\/wiki\/Sufismo\">sufismo<\/a>\u00a0na juventude, se define como um homem \u00fanico, \u201cum fil\u00f3sofo, mas n\u00e3o um disc\u00edpulo\u201d, e discute fortemente com outro tradicionalista como Dugin sobre qual pa\u00eds representa melhor o pr\u00f3ximo est\u00e1gio: o do reino dos fil\u00f3sofos por vir (R\u00fassia ou Estados Unidos). A sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 de que a falta de um referencial te\u00f3rico coerente reduz as coincid\u00eancias a pouca coisa \u2014 e, pior, permite diferentes interpreta\u00e7\u00f5es da atualidade. Seria a China materialista? Ou ainda, como diz Carvalho, representam os Estados Unidos uma vis\u00e3o materialista do mundo, ou isso \u00e9 feito apenas por membros de sua elite exploradora? Seria a classe trabalhadora daquele pa\u00eds, simples e conservadora, o sujeito hist\u00f3rico emancipat\u00f3rio que buscam?<\/p>\n<p>Um denominador comum entre esses ide\u00f3logos de direita \u00e9 a necessidade de destruir o Estado como o conhecemos: sua burocracia, sua corrup\u00e7\u00e3o, sua simbiose com os poderes constitu\u00eddos, mas tamb\u00e9m seus sistemas de sa\u00fade, educacionais e cient\u00edficos, ag\u00eancias ambientais, e o aparato diplom\u00e1tico. \u201cA destrui\u00e7\u00e3o faz parte do ciclo\u201d, Bannon disse a Teitelbaum em uma entrevista. Na pr\u00e1tica, al\u00e9m de um punhado de ideias b\u00e1sicas comuns, as direitas adaptaram-se \u00e0s conjunturas particulares para preencher a lacuna de legitimidade deixada pelo rastro do neoliberalismo e por uma esquerda tradicional incapaz de modificar as estruturas de poder e que se dedicou a trabalhar na agenda dos direitos humanos ou do ambientalismo. Como se sabe, a pol\u00edtica odeia o v\u00e1cuo e a direita foi quem melhor soube preench\u00ea-lo.<\/p>\n<p><strong>A eclos\u00e3o da tecnopol\u00edtica<\/strong><\/p>\n<p>O contexto favorece a forma\u00e7\u00e3o de uma tempestade perfeita no Ocidente. Uma tempestade que parece ser a de l\u00edderes fortes e carism\u00e1ticos que, como diria\u00a0<a href=\"http:\/\/www.copmadrid.es\/webcopm\/recursos\/pol1.pdf\">Max Weber<\/a>, s\u00e3o capazes de mudar a in\u00e9rcia de um sistema em que os tomadores de decis\u00e3o querem apenas manter o status quo. O que os humilhados querem \u00e9 vingan\u00e7a contra aquele establishment (ou o que eles consideram como tal). Nesse contexto, em que n\u00e3o h\u00e1\u00a0<a href=\"https:\/\/cajanegraeditora.com.ar\/blog\/navegar-el-neoliberalismo-hacia-una-estetica-politica-en-tiempo-de-crisis-primera-parte\/\">mapas cognitivos<\/a>\u00a0que nos permitam entender o que est\u00e1 acontecendo, as leituras de conspira\u00e7\u00e3o simples e n\u00edtidas que confirmam quem s\u00e3o os bandidos funcionam como um salva-vidas emocional. As redes sociais, totalmente desprovidas de \u201cresponsabilidade editorial\u201d, s\u00e3o o espa\u00e7o ideal para que posi\u00e7\u00f5es extremas surjam, sejam testadas, se desenvolvam e flores\u00e7am sem bases argumentativas.<\/p>\n<p>Em sua entrevista, Bannon explica como se deu a consolida\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria de fake news que ele dirigia: \u201cFoi a se\u00e7\u00e3o de coment\u00e1rios que come\u00e7ou a construir parte do poder do\u00a0<em>Breitbart;<\/em>\u00a0al\u00e9m de sermos mais inteligentes (\u2026) t\u00ednhamos uma otimiza\u00e7\u00e3o incr\u00edvel para aparecermos nas buscas. Foi a uni\u00e3o de tecnologia e conte\u00fado. Em particular, eu tinha uma equipe inteira dedicada \u00e0 an\u00e1lise dos algoritmos do Facebook. Sem o Facebook, a Breitbart nunca teria chegado ao tamanho que chegou. As redes sociais e toda uma bateria de novas tecnologias baseadas em dados e intelig\u00eancia artificial permitem o uso da comunica\u00e7\u00e3o como um laborat\u00f3rio sem os limites do politicamente correto: os humilhados pediam sangue, e eles iriam obt\u00ea-lo. No laborat\u00f3rio digital, \u00e9 poss\u00edvel analisar em tempo real quais mensagens geram maiores paix\u00f5es e despertam mais respostas (engajamento) para us\u00e1-las como muni\u00e7\u00e3o infinita em qualquer ocasi\u00e3o.<\/p>\n<p>Os Trump e os Bolsonaro s\u00e3o os candidatos ideais para uma campanha baseada na destrui\u00e7\u00e3o dos seus opositores, sem necessidade de apelar para a verdade. Como se se tratasse de um jud\u00f4 discursivo, a for\u00e7a do oponente \u00e9 usada para irrit\u00e1-lo mais ainda, e faz\u00ea-lo reagir. Um exemplo paradigm\u00e1tico dessa desvantagem estrat\u00e9gica \u00e9 o que aconteceu com o \u201c<a href=\"https:\/\/es.wikipedia.org\/wiki\/Movimiento_Ele_N%C3%A3o\">Ele n\u00e3o<\/a>\u201d no Brasil, quando milhares de mulheres sa\u00edram \u00e0s ruas para rejeitar a candidatura presidencial de um mis\u00f3gino expl\u00edcito. O resultado dessa marcha massiva foi uma rea\u00e7\u00e3o ainda mais poderosa das redes, que atacaram as mulheres com maior visibilidade na manifesta\u00e7\u00e3o, como Daniela Mercury e Anitta. O mesmo aconteceu com aqueles que mexeram com Trump no seu caminho para a Casa Branca: n\u00e3o apenas a \u201c<a href=\"https:\/\/www.washingtonpost.com\/politics\/crooked-hillary-vs-the-corrupt-human-tornado-how-clinton-and-trump-cant-seem-to-quit-each-other\/2019\/10\/03\/a23ae8a4-e4ac-11e9-b7da-053c79b03db8_story.html\"><em>crooked<\/em><\/a><em>\u00a0<\/em>[desonesta] Hillary\u201d, mas tamb\u00e9m v\u00e1rios senadores republicanos. As respostas indignadas, provenientes de setores vistos como aliados do sistema empobrecedor, serviram para confirmar a confian\u00e7a no l\u00edder que os insultava na cara.<\/p>\n<p>Embora as linhas gerais do descontentamento social sejam percept\u00edveis por qualquer analista pol\u00edtico, ao olhar para as pessoas de perto surgem nuances particulares que exigem uma comunica\u00e7\u00e3o segmentada, como a realizada pela Cambridge Analytica ou pelos muitos\u00a0<a href=\"http:\/\/www.chequeado.com\/investigacion\/el-mundo-secreto-de-los-bots-y-los-trolls-y-como-esos-ejercitos-influyen-en-la-politica\/\">trollcenters<\/a>\u00a0ao redor do mundo, que estimulam os setores mais radicais a\u00a0<a href=\"http:\/\/revistaanfibia.com\/ensayo\/derechas-calles-infectadura\/\">irem para as ruas<\/a>\u00a0como nunca antes. \u00c9 isso que as redes sociais permitem: colocar as not\u00edcias em jogo, sejam verdadeiras ou falsas, e identificar aquelas que se instalam na sociedade para utiliz\u00e1-las como enquadramento de futuras not\u00edcias \u2014 e, assim, alimentar essa vis\u00e3o de mundo. Como colocado por Teitelbaum: \u2018O tipo de ativismo apoiado pela Cambridge Analytica foi uma forma inovadora e poderosa de algo que a extrema direita chama de metapol\u00edtica. A estrat\u00e9gia envolve fazer campanha n\u00e3o por meio da pol\u00edtica, mas por meio da cultura, das artes, do entretenimento, dos intelectuais, da religi\u00e3o e da educa\u00e7\u00e3o. \u00c9 nesses lugares que os nossos valores s\u00e3o formados, n\u00e3o numa cabine de vota\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p>Os militantes ter\u00e3o de se inserir em todos os espa\u00e7os, principalmente naqueles apol\u00edticos, e come\u00e7ar a baixar sua mensagem aos poucos, buscando criar um novo senso comum, n\u00e3o com idosos entediados falando devagar, mas de forma atraente, sedutora e com ferramentas que permitam medir a circula\u00e7\u00e3o de mensagens em tempo real, como fazem os influencers e os youtubers de direita. Como disse o falecido Andrew Breitbart, criador do site que Bannon dirigiu: \u201cA pol\u00edtica est\u00e1 \u00e0 jusante da cultura\u201d.<\/p>\n<p>Esta luta cultural est\u00e1 se transformando em algo brutal, com campos opostos que percebem a realidade desde lugares diferentes e sem pontos de contato. O grande sucesso da nova direita nos Estados Unidos consiste em construir um \u00fanico inimigo que condensa o capital financeiro, que \u00e9 globalizador, exportador de m\u00e3o de obra, voltado para os direitos humanos e dos homossexuais, feminista, ambientalista, etc. A prova de que s\u00e3o iguais, como diz Bannon, \u00e9 que \u201co presidente mais progressista da hist\u00f3ria dos Estados Unidos, o presidente Obama, salvou os ricos\u201d. Essa desconfian\u00e7a de todos \u00e9 o que permite que Trump aponte para os jornalistas e diga-lhes na cara \u201cvoc\u00ea \u00e9 a fake news\u201d sem um m\u00ednimo de pudor.<\/p>\n<p><strong>Na mesma lama<\/strong><\/p>\n<p>Em cada pa\u00eds, a direita soube se adaptar aos contextos. No Brasil, por exemplo, parte do sucesso de governos extremistas como o de Bolsonaro pode ser entendido pelas limita\u00e7\u00f5es do Partido dos Trabalhadores (PT) em produzir mudan\u00e7as estruturais, mas tamb\u00e9m pelo constante ataque da m\u00eddia estabelecida quando o PT realmente tentou produzi-los. Boa parte da sociedade, fervilhando no \u00f3dio destilado pela m\u00eddia tradicional, estava preparada para absorver as mais delirantes fake news ou teorias da conspira\u00e7\u00e3o que pudessem ser inventadas e testadas pela direita\u00a0 atrav\u00e9s do Facebook, Twitter ou, como aconteceu no Brasil,\u00a0<a href=\"https:\/\/elpais.com\/internacional\/2018\/09\/26\/actualidad\/1537997311_859341.html\">WhatsApp<\/a>. Contexto, dinheiro e tecnologia permitiram o desenvolvimento desse potencial para que Bolsonaro vencesse nas urnas.<\/p>\n<p>Essas linhas permitem tra\u00e7ar algumas respostas sobre o avan\u00e7o da direita global, mas ainda h\u00e1 muito a ser respondido. A rejei\u00e7\u00e3o de grandes setores do establishment ser\u00e1 suficiente para n\u00e3o considerar esses novos populismos de direita apenas uma nova \u201cvirada\u201d neoliberal? Estes governos, cuja estrat\u00e9gia consiste em manter as bases de apoio irritadas e em neutralizar seus advers\u00e1rios, ser\u00e3o sustent\u00e1veis? Qual o lugar da realidade material para minar seus discursos anti-cient\u00edficos e anti-iluministas, como exposto pela pandemia? At\u00e9 agora, a receita foi duplicar a energia de cada ataque, mas\u2026 ser\u00e1 que existe um limite? Ser\u00e1 que v\u00e3o sobreviver ao n\u00edvel de putrefa\u00e7\u00e3o social que eles mesmos potencializaram? E, principalmente: o que vir\u00e1 depois de seus fracassos (cada vez mais evidentes) em satisfazer as expectativas das bases eleitorais?<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Anatomia da ultradireita, vers\u00e3o Steve Bannon &#8211; Outras Palavras. 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