{"id":16007,"date":"2021-11-18T12:31:57","date_gmt":"2021-11-18T15:31:57","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=16007"},"modified":"2021-11-14T14:37:10","modified_gmt":"2021-11-14T17:37:10","slug":"em-busca-do-verdadeiro-foucault","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2021\/11\/18\/em-busca-do-verdadeiro-foucault\/","title":{"rendered":"Em busca do verdadeiro Foucault"},"content":{"rendered":"<p><strong>Michael C. Behrent<\/strong> &#8211;\u00a0De repente, todo mundo parece ter muito a dizer sobre Michel Foucault. E boa parte do que se diz n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o favor\u00e1vel a ele. Depois de ter desfrutado de uma longa d\u00e9cada como ponto de refer\u00eancia para todos os fins, nas ci\u00eancias humanas e sociais, o fil\u00f3sofo franc\u00eas est\u00e1 sendo reavaliado tanto pela direita como pela esquerda.<\/p>\n<p>A direita, \u00e9 claro, h\u00e1 muito culpa-o por abrir caminho para uma s\u00e9rie de \u201cpatologias\u201d de esquerda. Alguns conservadores chegaram a fazer de Foucault um bode expiat\u00f3rio para males que v\u00e3o do niilismo pregui\u00e7oso ao totalitarismo ativo. Mas um respeito novo \u2013 e estranho \u2013 diante de Foucault est\u00e1 surgindo entre alguns setores da direita. Os conservadores t\u00eam flertado com a no\u00e7\u00e3o de que a hostilidade do fil\u00f3sofo \u00e0 pol\u00edtica confessional pode fazer dele um escudo \u00fatil contra os \u201cguerreiros da justi\u00e7a social\u201d. Essa presun\u00e7\u00e3o foi refor\u00e7ada durante a pandemia da covid, quando a cr\u00edtica de Foucault \u00e0 \u201cbiopol\u00edtica\u201d \u2013 seu termo para o significado pol\u00edtico assumido pelas quest\u00f5es m\u00e9dicas e de sa\u00fade p\u00fablica nos tempos modernos \u2013 forneceu uma arma \u00fatil para atacar a fidelidade da esquerda aos conhecimentos cient\u00edficos.<\/p>\n<p>Assim como cresceu \u00e0 direita, Foucault caiu \u00e0 esquerda. H\u00e1 uma d\u00e9cada, a aten\u00e7\u00e3o desta concentrou-se em saber se as discuss\u00f5es de Foucault sobre o neoliberalismo nos anos 70 sugeriam que os seus compromissos filos\u00f3ficos se harmonizavam com a ideologia emergente do mercado livre: hostil ao Estado, oposto ao poder disciplinar e tolerante a comportamentos anteriormente considerados imorais. (Admito que contribu\u00ed para este debate.) Recentemente, o locus da cr\u00edtica esquerdista, tal como a sua contraparte conservadora, deslocou-se para a pol\u00edtica cultural. Assim, os te\u00f3ricos sociais Mitchell Dean e Daniel Zamora sustentam que a politiza\u00e7\u00e3o da individualidade, por Foucault inspirou as artimanhas confessionais da \u201ccultura da autoconsci\u00eancia\u201d [orig. \u201cwoke culture\u201d, que procura superar os males da sociedade fazendo da reforma do pr\u00f3prio eu o projeto final. Ao mesmo tempo, a posi\u00e7\u00e3o de Foucault sofreu um golpe ap\u00f3s recentes alega\u00e7\u00f5es de que ele pagou a rapazes menores de idade por sexo, quando vivia na Tun\u00edsia, nos anos 1960. Essas recolocaram em foco pontos de suas obras em que \u2013 como alguns outros radicais de sua \u00e9poca \u2013 ele questionou a necessidade de uma idade legal de consentimento.<\/p>\n<p>O que acontecendo? Por que Foucault parece agora ser nosso contempor\u00e2neo, quase quarenta anos ap\u00f3s a sua morte? Por que alguns esquerdistas est\u00e3o se voltando contra ele? E por que alguns conservadores passaram a adot\u00e1-lo?<\/p>\n<p>Primeiro, o debate atual sobre as implica\u00e7\u00f5es pol\u00edticas do pensamento de Foucault \u00e9 sintom\u00e1tico da nossa pol\u00edtica desencontrada, em que a direita considera-se contra-culturais. Em segundo lugar, nosso discurso p\u00fablico de alta explosividade baseia-se cada vez mais em ideias que antes estavam confinadas \u00e0 academia ou a c\u00edrculos intelectuais rarefeitos. Isto \u00e9 certamente verdade para conceitos progressistas \u2014 privil\u00e9gio branco, teoria do g\u00eanero, teoria critica da ra\u00e7a \u2013 mas tamb\u00e9m se confirma \u00e0 direita, como se v\u00ea na crescente familiaridade dos jovens conservadores com os c\u00e2nones do pensamento nacionalista e at\u00e9 fascista. \u00c0 medida que a cultura acad\u00eamica infiltra-se no debate pol\u00edtico, n\u00e3o \u00e9 surpresa que um pensador da estatura de Foucault seja colocado na roda.<\/p>\n<p>Terceiro, e mais importante, o in\u00edcio do s\u00e9culo XXI tornou-se foucaultiano. Considere os t\u00f3picos que Foucault ajudou projetar como objetos de reflex\u00e3o filos\u00f3fica: doen\u00e7a mental, sa\u00fade p\u00fablica, identidade de g\u00eanero e transg\u00eanero, normaliza\u00e7\u00e3o e anormalidade, vigil\u00e2ncia, individualidade. Antes confinadas \u00e0s margens do pensamento pol\u00edtico, estas quest\u00f5es tornaram-se grandes preocupa\u00e7\u00f5es com importantes desafios na vida quotidiana, no mundo ocidental e al\u00e9m dele.<\/p>\n<p>O problema \u00e9 que se tornou demasiado f\u00e1cil confundir os\u00a0<em>tema<\/em>\u00a0foucaultianos com o\u00a0<em>pensamento\u00a0<\/em>de Foucault. Nas pr\u00f3prias discuss\u00f5es que o invocam, as profundezas das suas filosofias s\u00e3o muitas vezes ignoradas. Em consequ\u00eancia, Foucault parece ao mesmo tempo ultra-contempor\u00e2neo e \u2013 para usar um termo apreciado por seu fil\u00f3sofo preferido, Friedrich Nietzsche \u2013 curiosamente \u201canacr\u00f4nico\u201d, no sentido de desatualizado ou inoportuno.<\/p>\n<p>A reputa\u00e7\u00e3o de Foucault \u00e9 revestida com grossas camadas de interpreta\u00e7\u00e3o pol\u00eamica e apropria\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria. H\u00e1 um s\u00e9culo, as teorias de Marx encontravam-se numa situa\u00e7\u00e3o semelhante, uma vez que sua interpreta\u00e7\u00e3o tornou-se ponto de disc\u00f3rdia no crescente movimento socialista. Na esteira da revolu\u00e7\u00e3o bolchevique, o fil\u00f3sofo h\u00fangaro Georg Luk\u00e1cs sentiu-se compelido a perguntar: \u201cO que \u00e9 o marxismo ortodoxo? Por estranho que pare\u00e7a, uma pergunta semelhante \u00e9 atual, para Foucault. O que \u00e9 o foucaultianismo ortodoxo? O que Foucault realmente ensinou?<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>Foucault era um pensador multiforme, cujos interesses mudavam frequentemente ao longo dos seus trinta anos de carreira. Embora ele tivesse muitas opini\u00f5es, n\u00e3o devemos esquecer que era, em ess\u00eancia, um fil\u00f3sofo \u2013 n\u00e3o um historiador (apesar do car\u00e1ter hist\u00f3rico de seu pensamento), ide\u00f3logo ou comentarista pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Arist\u00f3teles come\u00e7ou a sua\u00a0<em>Metaf\u00edsica\u00a0<\/em>com uma afirma\u00e7\u00e3o: \u201cTodos os homens por natureza desejam saber.\u201d Antes de mais nada, Foucault procurou explorar esta afirma\u00e7\u00e3o \u2013 n\u00e3o como uma verdade evidente, mas como uma ideia a ser tornada estranha e surpreendente. A investiga\u00e7\u00e3o de Foucault n\u00e3o \u00e9 o problema tradicional da epistemologia (\u201cO que \u00e9 o conhecimento?\u201d), mas uma quest\u00e3o cultural: \u201cPorque \u00e9 que valorizamos o conhecimento?\u201d Em seu ensaio \u201cSobre a verdade e a mentira no sentido extramoral\u201d, Nietzsche escreveu: \u201cEm algum canto remoto do universo, espalhado e resplandecente em in\u00fameros sistemas solares, houve uma vez uma estrela sobre a qual animais inteligentes inventaram o conhecimento. Esse foi o minuto mais alto e mais amea\u00e7ador da \u2018hist\u00f3ria do mundo\u2019 \u2013 por\u00e9m, s\u00f3 um minuto\u201d. Estas palavras capturam o esp\u00edrito \u2014 se n\u00e3o o tom \u2013 da busca de Foucault. Por que tantas atividades humanas s\u00e3o tocadas pela nossa sede de conhecimento? O que significaria viver sem ser assombrado pela vontade de saber?<\/p>\n<p>A origem do questionamento de Foucault est\u00e1 no seu envolvimento inicial com o que \u00e9 conhecido como idealismo alem\u00e3o. A partir de Immanuel Kant no final do s\u00e9culo XVIII, os pensadores desta tradi\u00e7\u00e3o enfatizaram que a consci\u00eancia molda o mundo. Se podemos ver uma paisagem, Kant sustentou, \u00e9 porque a nossa consci\u00eancia est\u00e1 ligada a uma concep\u00e7\u00e3o de espa\u00e7o e tempo, e tamb\u00e9m de categorias l\u00f3gicas, como unidade e pluralidade. Idealistas posteriores, e em especial Hegel, debru\u00e7aram-se sobre a rela\u00e7\u00e3o entre o \u201csujeito\u201d (ou seja, a consci\u00eancia) e os \u201cobjetos\u201d (a realidade externa). Enquanto alguns idealistas de outras escolas filos\u00f3ficas faziam extravagantes reivindica\u00e7\u00f5es de subjetividade, reduzindo a realidade objetiva a figuras da imagina\u00e7\u00e3o do \u201ceu\u201d, a preocupa\u00e7\u00e3o principal dos idealistas alem\u00e3es era compreender o que torna os objetos compreens\u00edveis para a consci\u00eancia \u2013 como podemos conhecer o nosso mundo.<\/p>\n<p>O idealismo alem\u00e3o forneceu a Foucault o seu vocabul\u00e1rio filos\u00f3fico central. A sua originalidade reside na transposi\u00e7\u00e3o do quadro do idealismo alem\u00e3o para as preocupa\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas e culturais. Em\u00a0<em>Loucura e Civiliza\u00e7\u00e3o<\/em>, Foucault mostrou que a doen\u00e7a mental surgiu como um objeto apenas com o desenvolvimento de uma forma de subjetividade enraizada na ci\u00eancia emp\u00edrica. Em\u00a0<em>O Nascimento da Cl\u00ednica<\/em>, ele examinou o tipo de sujeito necess\u00e1rio para que a medicina moderna surgisse especificamente \u2013 um sujeito que fosse capaz de entender a doen\u00e7a como imanente em corpos mortais. Segundo Foucault, tanto o sujeito como os objetos \u2013 a consci\u00eancia e a realidade externa \u2013 s\u00e3o moldados pela hist\u00f3ria. Embora ele tenha sido muitas vezes confundido com um relativista, nunca afirmou que a verdade varia entre uma perspectiva e outra. Seu ponto era que o que conta como verdade muda ao longo do tempo, embora, a qualquer momento, a verdade possa assumir um car\u00e1ter fixo e inatac\u00e1vel. Na sua maneira idiossincr\u00e1tica, Foucault foi o \u00faltimo idealista alem\u00e3o.<\/p>\n<p>Foucault tamb\u00e9m adotou uma narrativa hist\u00f3rica distinta, na qual o advento do que ele chamou de \u201chumanismo\u201d (ou, em termos mais t\u00e9cnicos, antropologia filos\u00f3fica) foi o ponto de viragem decisivo da hist\u00f3ria moderna \u2013 e um ponto de viragem profundamente problem\u00e1tico. Uma leitura algo precipitada de Foucault leva muitos a concluir que, por meio desta narrativa, ele denunciou as falsas alega\u00e7\u00f5es de universalidade feitas em nome da humanidade (por exemplo, a forma como a \u201chumanidade\u201d incorpora suposi\u00e7\u00f5es etnoc\u00eantricas ou de g\u00eanero), ou sugeriu que o humanismo era um discurso falsamente emancipador, que incorporava astutamente formas perniciosas de poder. Talvez Foucault concordasse com essas afirma\u00e7\u00f5es, mas elas n\u00e3o foram as raz\u00f5es do seu anti-humanismo filos\u00f3fico. Em seus livros dos anos 1960, as hist\u00f3rias de Foucault come\u00e7am sempre com paradigmas enraizados numa cosmovis\u00e3o essencialmente religiosa (na Idade M\u00e9dia, digamos, ou na Renascen\u00e7a) e culminam com uma perspectiva cient\u00edfica moderna, na qual o conhecimento se confina aos limites da compreens\u00e3o humana. Ao contr\u00e1rio da vis\u00e3o de que Foucault \u00e9 um pensador de \u201cdescontinuidades\u201d (que Foucault, como que cobrindo seus rastros, encorajou), estas narrativas s\u00e3o muitas vezes patentemente teleol\u00f3gicas. Na verdade, elas seguem o esquema hist\u00f3rico popularizado por Augusto Comte, o ap\u00f3stolo do positivismo do s\u00e9culo XIX: come\u00e7amos com o conhecimento teol\u00f3gico (a realidade como cria\u00e7\u00e3o de Deus), passamos \u00e0 metaf\u00edsica (na qual a realidade est\u00e1 amarrada a um mundo intang\u00edvel de entidades racionais), e finalmente chegamos ao conhecimento positivo ou cient\u00edfico (a realidade como fatos apreendidos pela mente humana). Para este retrato, Foucault aproveitou os\u00a0<em>insights<\/em>\u00a0de Martin Heidegger, especificamente sua afirma\u00e7\u00e3o de que o conhecimento cient\u00edfico est\u00e1 condicionado a uma concep\u00e7\u00e3o do ser humano como \u201csujeito\u201d cujas capacidades de compreens\u00e3o s\u00e3o essencialmente finitas. Uma criatura limitada (e n\u00e3o um criador infinito) s\u00f3 pode compreender o mundo como um sujeito \u2013 ou seja, como uma consci\u00eancia com horizontes necessariamente circunscritos.<\/p>\n<p>O que intrigou Foucault foi que essa aparente humildade epistemol\u00f3gica sustentou uma enorme expans\u00e3o da autoridade cultural do conhecimento: nunca o conhecimento foi t\u00e3o importante como quando os seres humanos lamentaram seus limites intelectuais inerentes. E assim, experi\u00eancias anteriormente vistas como al\u00e9m do reino do conhecimento tornaram-se objetos de compreens\u00e3o cient\u00edfica \u2013 fen\u00f4menos tocados pela finitude humana, em vez de atributos de um universo transcendente. A loucura tornou-se doen\u00e7a mental, a morte impulsionou a expans\u00e3o do conhecimento m\u00e9dico, a linguagem foi vista como uma teia naveg\u00e1vel apenas para a criatura que a tinha produzido. O projeto fat\u00eddico de ancorar o conhecimento na finitude humana estendeu, paradoxalmente, aquele momento \u201cmais amea\u00e7ador\u201d da hist\u00f3ria do mundo bem al\u00e9m do minuto que lhe cabia.<\/p>\n<p>Foucault queria romper a adi\u00e7\u00e3o de sua cultura ao conhecimento. Este objetivo aparece mais claramente na sua hist\u00f3ria da sexualidade. Embora ele acreditasse que a sexualidade \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o social, sua percep\u00e7\u00e3o mais fundamental era que a sexualidade moderna tinha feito um \u201cpacto faustiano\u201d com a verdade. O que mais gostamos no sexo \u00e9 entend\u00ea-lo \u2013 falar sobre o desejo, analis\u00e1-lo, dissec\u00e1-lo, explor\u00e1-lo. A afirma\u00e7\u00e3o de Foucault de que o Ocidente abra\u00e7ou uma \u201cci\u00eancia sexual\u201d enquanto o Oriente cultivou uma \u201carte er\u00f3tica\u201d indica \u2013 apesar, e talvez por causa do seu orientalismo crasso \u2013 a sua mais profundo interesse sobre o que seria experimentar sexo sem v\u00ea-lo como uma pista para algum segredo elusivo sobre n\u00f3s mesmos. Esta \u00e9 a base de sua afirma\u00e7\u00e3o program\u00e1tica de que devemos nos reaquacionar com \u201ccorpos e prazeres\u201d. O sexo, especulou Foucault, poderia tornar-se um reino de experi\u00eancia emancipado da vontade de saber.<\/p>\n<p>Os seus pronunciamentos sobre pol\u00edtica foram feitos na mesma linha. Ele \u00e9 comumente associado a uma vis\u00e3o sombria sobre sociedade moderna, na qual o poder, longe de estar confinado ao Estado e \u00e0 economia, \u00e9 disseminado atrav\u00e9s de uma rede de institui\u00e7\u00f5es disciplinares \u2013 escolas, hospitais, servi\u00e7os sociais, asilos e pris\u00f5es, entre outras. Muitos est\u00e3o familiarizados com a afirma\u00e7\u00e3o de Foucault, segundo a qual a autoridade exercida por tais entidades deriva de suas reivindica\u00e7\u00f5es de conhecimento especializado, que ele chamou sucintamente de \u201cpoder-conhecimento\u201d. Mas, para Foucault, este argumento era apenas uma parte de um quadro mais amplo. Ele insistiu incansavelmente que, mesmo que o poder seja uma for\u00e7a penetrante em nossas vidas coletivas, ele sempre se manifesta em lutas concretas. Ele queria que v\u00edssemos pr\u00e1ticas como a arregimenta\u00e7\u00e3o militar dos corpos ou a rela\u00e7\u00e3o entre terapeutas e pacientes como algo semelhante a jogos de combate corpo-a-corpo, mais do que exerc\u00edcios de controle orwelliano do pensamento. O poder \u00e9 sempre um esfor\u00e7o para controlar a conduta de algu\u00e9m: encontrar o ponto certo, identificar vulnerabilidades, criar incentivos para a submiss\u00e3o.<\/p>\n<p>Foucault n\u00e3o era um neoliberal, mas achava que o neoliberalismo levantava quest\u00f5es importantes. Especificamente, ele se perguntava sobre a capacidade do Estado de Bem-estar Social de tomar decis\u00f5es totalmente racionais relacionadas aos cuidados de sa\u00fade sobre milh\u00f5es de pessoas. Em uma entrevista em 1983, ele refletiu: \u201cTome o exemplo da di\u00e1lise: quantas pessoas doentes s\u00e3o colocadas em di\u00e1lise, quantas outras s\u00e3o privadas de acesso? Imagine o que aconteceria se algu\u00e9m expusesse os fundamentos dessas escolhas, resultando em uma esp\u00e9cie de desigualdade de tratamento. Regras escandalosas seriam trazidas \u00e0 luz\u201d! O argumento de Foucault n\u00e3o \u00e9 que a ci\u00eancia n\u00e3o \u00e9 verdadeira nem que \u00e9 falsa (ou meramente \u201cconstru\u00edda\u201d), mas que as invoca\u00e7\u00f5es da ci\u00eancia raramente resolver\u00e3o disputas pol\u00edticas \u2013 porque mesmo quest\u00f5es t\u00e3o aparentemente fundamentadas na ci\u00eancia como a sa\u00fade p\u00fablica est\u00e3o de fato repletas de pressupostos e interesses n\u00e3o cient\u00edficos.<\/p>\n<p>Assim, enquanto para Foucault o poder e o conhecimento estavam sempre entrela\u00e7ados, ele tamb\u00e9m sustentou que se deve desintelectualizar o poder. Esta \u00e9 uma das muitas raz\u00f5es pelas quais era c\u00e9tico em rela\u00e7\u00e3o ao marxismo. Em vez de desafiar a pretens\u00e3o do marxismo de\u00a0<em>ser\u00a0<\/em>uma ci\u00eancia, Foucault argumentou que o problema do marxismo era\u00a0<em>querer\u00a0<\/em>ser uma ci\u00eancia. Seu argumento n\u00e3o era que o conhecimento n\u00e3o tem lugar nas lutas pol\u00edticas, mas que a pol\u00edtica diz respeito sempre, irredutivelmente, ao poder \u2013 e reconhecer francamente esse fato \u00e9 prefer\u00edvel a acreditar que o conhecimento de alguma forma nos limpa da mancha do poder.<\/p>\n<p>Esta vis\u00e3o \u00e9 muitas vezes vista como c\u00ednica, mas surpreende-me que n\u00e3o seja mais frequentemente vista como excessivamente otimista: para Foucault, o corol\u00e1rio necess\u00e1rio \u00e0 afirma\u00e7\u00e3o de que todas as rela\u00e7\u00f5es est\u00e3o saturadas de poder \u00e9 que todas elas s\u00e3o, em princ\u00edpio, tamb\u00e9m transform\u00e1veis. Como Hegel mostrou, n\u00e3o existem rela\u00e7\u00f5es senhor-escravo em que os senhores, simplesmente dominando seus escravos, n\u00e3o ponham em risco sua autoridade. Al\u00e9m disso, as conclus\u00f5es de Foucault sobre o poder articulam-se com seus\u00a0<em>insights<\/em>\u00a0sobre o sexo: assim como os corpos e os prazeres devem evitar ser usados para infinitas an\u00e1lises da sexualidade, devemos, na pol\u00edtica, buscar lutas abertas pelo poder como uma alternativa ao conhecimento do poder.<\/p>\n<p>Se alguma vez algu\u00e9m tivesse perguntado sem rodeios Foucault se ele era relativista, ele poderia ter respondido: \u201cSe ao menos fosse poss\u00edvel superar a vontade de verdade\u2026\u201d. Ele nos convida a ver a verdade n\u00e3o como um tecido da realidade, mas como um artefato cultural, algo que os humanos constroem. Isto n\u00e3o significa que a verdade n\u00e3o exista: a ci\u00eancia revela as leis do universo f\u00edsico; a estat\u00edstica identifica as regularidades em grande n\u00famero; a arte pode apresentar uma imagem do mundo ou expressar emo\u00e7\u00f5es interiores. Na verdade, o inc\u00f4modo de Foucault com a verdade \u00e9 precisamente o\u00a0<em>fato<\/em>\u00a0de ela existir \u2013 e existir t\u00e3o intensamente. Embora se possa ler as\u00a0<em>Confiss\u00f5es da Carne de\u00a0<\/em>Foucault recentemente publicadas como pr\u00e1ticas confessionais condenat\u00f3rias, ele tamb\u00e9m mostra que a confiss\u00e3o se difundiu entre os primeiros ascetas crist\u00e3os porque era\u00a0<em>excitante<\/em>. A verdade n\u00e3o nos \u00e9 imposta apenas pelas rela\u00e7\u00f5es de poder; n\u00f3s nos excitamos com ela.<\/p>\n<p>Um amigo de Foucault, Paul Veyne, observou certa vez que, enquanto Heidegger estava preocupado com a base ontol\u00f3gica da verdade, e Ludwig Wittgenstein com o significado da verdade, a pergunta de Foucault era por que a verdade \u00e9 t\u00e3o falsa. Sem d\u00favida isso se refere ao reconhecimento de Foucault de que a verdade est\u00e1 contaminada pelo poder e que seus crit\u00e9rios mudam com o tempo. Mas o que est\u00e1 em jogo nesta afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 maior. Foucault exige que questionemos o\u00a0<em>valor\u00a0<\/em>que atribu\u00edmos \u00e0 verdade \u2013 se a verdade nos permite levar as vidas que desejamos viver.<\/p>\n<p>* * *<\/p>\n<p>O que nos traz de volta ao presente. Em muitos aspectos, somos todos foucaultianos agora \u2013 nas formas com pensamos o g\u00eanero, a normaliza\u00e7\u00e3o, a psiquiatria, o confinamento, a vigil\u00e2ncia. Mas raramente a pol\u00edtica pareceu t\u00e3o intoxicada pela verdade como hoje, em ambos os lados do espectro. Por mais ofensiva que sejam para as sensibilidades de esquerda, teorias conspirat\u00f3rias de direita como QAnon participam todas de uma pol\u00edtica de verdade. Isso n\u00e3o significa que suas reivindica\u00e7\u00f5es sejam plaus\u00edveis, mas sim que suas aspira\u00e7\u00f5es \u00e0 efic\u00e1cia s\u00e3o pressupostas em ser \u201ccertas\u201d. Em um sentido mais acad\u00eamico, Jordan Peterson tamb\u00e9m coloca a verdade no centro do debate pol\u00edtico quando acusa os lutadores por justi\u00e7a social \u2013 inspirados pelo que ele absurdamente chama de \u201cp\u00f3s-modernismo\u201d foucaultiano \u2013 de desrespeitarem a justi\u00e7a bruta das hierarquias naturais identificadas pela ci\u00eancia evolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p>Esta vontade de verdade n\u00e3o se limita, de forma alguma, \u00e0 direita. Se n\u00f3s, \u00e0 esquerda, aspiramos a uma compreens\u00e3o mais ampla da sa\u00fade mental, se valorizamos as identidades transg\u00eanero e se promovemos institui\u00e7\u00f5es que abra\u00e7am a heterogeneidade, \u00e9 geralmente porque elas nos parecem\u00a0<em>verdadeiras<\/em>, como justificadas pelo\u00a0<em>que sabemos<\/em>. Mesmo as met\u00e1foras de fundo do termo \u201cconsciente\u201d [orig. \u201cwoke\u201d] est\u00e3o impregnadas de no\u00e7\u00f5es de verdade \u2013 uma pitada de cristianismo renascido, misturado com um reconhecimento iluminista do mundo tal como ele \u00e9. \u201cAcreditar na ci\u00eancia\u201d, o mantra da esquerda da pandemia, tamb\u00e9m baseia-se na vis\u00e3o de que a verdade deve ser capaz de resolver as principais discord\u00e2ncias pol\u00edticas definitivamente. \u00c9 impressionante que a esquerda contempor\u00e2nea recorra a quase todas as formas de verdade \u2013 crist\u00e3, iluminada, cient\u00edfica \u2013 sobre as quais Foucault lan\u00e7ou o seu olhar cr\u00edtico.<\/p>\n<p>Na medida em que se pode at\u00e9 especular sobre tais coisas, por\u00e9m, imagino que Foucault teria apoiado iniciativas como o\u00a0<a href=\"https:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/The_1619_Project\">Projeto 1619<\/a>\u00a0[que busca reconhecer, nos EUA, a centralidade e a consequ\u00eancias persistentes da escravid\u00e3o negra] e as teria visto como concorrendo com suas genealogias de poder, para n\u00e3o dizer de sua pol\u00edtica de liberta\u00e7\u00e3o. Ele estava, como \u00e9 comumente reconhecido, agudamente consciente sobre como as narrativas hist\u00f3ricas frequentemente excluem indiv\u00edduos particulares, e ele reconheceu o poder de narrar a hist\u00f3ria do ponto de vista de grupos marginalizados.<\/p>\n<p>Mas o projeto mais profundo de Foucault, de nos desmamar da nossa adi\u00e7\u00e3o \u00e0 verdade, \u00e9 t\u00e3o estranho ao nosso presente quanto ao seu pr\u00f3prio tempo. \u201cFalar a verdade ao poder\u201d, uma ideia que parece mais relevante do que nunca, parece ter uma vibra\u00e7\u00e3o agradavelmente foucaultiana. Na verdade, a li\u00e7\u00e3o de Foucault \u00e9 mais precisamente (ainda que de certa forma tautol\u00f3gica), expressa como \u201ccombater o poder com o poder\u201d. Como os organizadores sociais percebem, o conhecimento s\u00f3 os leva at\u00e9 certo ponto: a tarefa de organiza\u00e7\u00e3o \u00e9 confrontar o poder onde ele se manifesta, como o local de trabalho ou as regulamenta\u00e7\u00f5es habitacionais, e limitar seus efeitos atrav\u00e9s da multiplica\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica da for\u00e7a coletiva. Como o cripto-foucaultiano Saul Alinsky observou certa vez: \u201cNingu\u00e9m pode negociar sem o poder de obrigar \u00e0 negocia\u00e7\u00e3o\u201d. Se a pol\u00edtica \u00e9 fundamentalmente sobre o poder, que vantagem obtemos ao afirmarmos que tamb\u00e9m\u00a0<em>temos raz\u00e3o<\/em>?<\/p>\n<p>Essas perguntas s\u00e3o t\u00e3o dif\u00edceis de fazer hoje como em qualquer momento. E assim, enquanto continuamos a discutir sobre um Foucault semi-ficcionado, o fil\u00f3sofo genu\u00edno continua mais inoportuno do que nunca.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Em busca do verdadeiro Foucault &#8211; Outras Palavras. 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