{"id":15978,"date":"2021-11-09T11:08:02","date_gmt":"2021-11-09T14:08:02","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=15978"},"modified":"2021-11-07T11:16:22","modified_gmt":"2021-11-07T14:16:22","slug":"dowbor-introducao-a-economia-da-brutalidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2021\/11\/09\/dowbor-introducao-a-economia-da-brutalidade\/","title":{"rendered":"Dowbor: introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 Economia da Brutalidade"},"content":{"rendered":"<p><span id=\"reader-credits\" dir=\"auto\"><strong>Ladislau Dowbor<\/strong> &#8211; <\/span><span style=\"font-family: Lato, sans-serif;\">Mohammand Mossadegh, (foto acima) primeiro-ministro do Ir\u00e3. Ao nacionalizar o petr\u00f3leo, em 1951, ele foi v\u00edtima de uma campanha de desestabiliza\u00e7\u00e3o que culminou com golpe de Estado, dois anos depois. D\u00e9cadas mais tarde, EUA e Reino Unido assumiram ter liderado sua derrubada<\/span><\/p>\n<div id=\"readability-page-1\" class=\"page\">\n<div id=\"single-the-content\">\n<p><strong>Minera\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>O caso da minera\u00e7\u00e3o deixa esses desafios [os da governan\u00e7a dos bens comuns] particularmente claros. Por defini\u00e7\u00e3o, ela explora de recursos naturais, ou seja, da natureza, e que n\u00e3o constituem propriedade no mesmo sentido em que sou propriet\u00e1rio da minha bicicleta, porque a comprei. Os nababos da Ar\u00e1bia Saudita e de outros pa\u00edses esbanjam suas fortunas, constroem elefantes brancos, com os royalties do seu petr\u00f3leo. Para ter a minha bicicleta, eu trabalhei, ganhei dinheiro e comprei. No caso do petr\u00f3leo, est\u00e3o simplesmente sentados em cima, e vendem os direitos de extra\u00e7\u00e3o. E se dizem produtores de petr\u00f3leo, como se fosse um produto, e n\u00e3o o ac\u00famulo natural que durou mais de 100 milh\u00f5es de anos. Trata-se aqui essencialmente de atividades mais extrativas do que produtivas.<\/p>\n<p>Recursos energ\u00e9ticos, como carv\u00e3o, petr\u00f3leo e g\u00e1s; minerais met\u00e1licos, como ferro, zinco ou alum\u00ednio; n\u00e3o met\u00e1licos, como fosfatos; minerais raros, como o molibd\u00eanio e outros; tudo isso constitui de certa forma o sangue da economia moderna. E n\u00e3o nos colocamos muito a quest\u00e3o de como s\u00e3o apropriados, transformados e comercializados. A dimens\u00e3o pol\u00edtica \u00e9 aqui dominante. A forma como o Brasil resistiu \u00e0 apropria\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo pelas corpora\u00e7\u00f5es multinacionais, ainda nos anos 1950, com a imensa campanha \u201cO petr\u00f3leo \u00e9 nosso\u201d, ou mesmo o enfrentamento das novas iniciativas de privatiza\u00e7\u00e3o fazem parte de uma consci\u00eancia pol\u00edtica que precisa ser refor\u00e7ada. Iniciativas semelhantes na Venezuela, na Bol\u00edvia, no Equador e em outros pa\u00edses t\u00eam a ver n\u00e3o s\u00f3 com a efici\u00eancia da extra\u00e7\u00e3o, mas, sobretudo, com quem se apropria do recurso, e com que fins. No caso brasileiro, a partir de 2019, temos n\u00e3o s\u00f3 a privatiza\u00e7\u00e3o como tamb\u00e9m a entrega a grupos internacionais. Com uma canetada, a propriedade do min\u00e9rio de ferro controlado pelo Estado atrav\u00e9s da Vale do Rio Doce, hoje Vale S.A., foi entregue a um particular, Eike Batista, que fez fortuna vendendo um min\u00e9rio que nunca precisou produzir e que claramente pertence a um pa\u00eds, e n\u00e3o a um particular.<\/p>\n<p>An\u00e1lise da negociata e das incompet\u00eancias \u00e0 parte, temos aqui de repensar a l\u00f3gica do setor: \u00e9 um recurso natural e n\u00e3o renov\u00e1vel. Constitui, nesse sentido, um bem comum, cuja apropria\u00e7\u00e3o precisa ser baseada na l\u00f3gica do interesse social e de longo prazo.\u00a0<a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=239&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fgeopoliticaeguerra%2Fdowbor-introducao-a-economia-da-brutalidade%2F#sdfootnote1sym\"><sup>1<\/sup><\/a>\u00a0O problema \u00e9 que \u00e9 dif\u00edcil pensar no longo prazo e no interesse social quando se \u00e9 uma grande corpora\u00e7\u00e3o, cujos acionistas exigem lucro a curto prazo, ainda mais quando muitos deles s\u00e3o, na realidade, grandes investidores institucionais, ou seja, bancos e fundos de investimento. Aqui tampouco adianta muito pensar em gente bem ou mal-intencionada. Um diretor de empresa que n\u00e3o maximiza os resultados no sentido estrito \u2013 lucro \u2013 ter\u00e1 vida curta na companhia. E quando esgotam os recursos em determinado pa\u00eds, as grandes corpora\u00e7\u00f5es se deslocam para outro.<\/p>\n<p>Na corpora\u00e7\u00e3o n\u00e3o mandam os t\u00e9cnicos e pesquisadores, e muito menos os respons\u00e1veis pelo departamento de responsabilidade social e ambiental, com os seus c\u00f3digos de \u00e9tica, ou ainda o departamento de\u00a0<em>compliance \u2013\u00a0<\/em>mandam os departamentos financeiro, jur\u00eddico e de marketing.<\/p>\n<p>E por tr\u00e1s deles, os grupos financeiros que fixam, atrav\u00e9s dos seus representantes no conselho de administra\u00e7\u00e3o, as metas financeiras a serem atingidas. Em ingl\u00eas fica mais claro: n\u00e3o se preocupam com os\u00a0<em>outcomes<\/em>, resultados amplos econ\u00f4micos, sociais e ambientais para todos n\u00f3s, e sim com os\u00a0<em>outputs<\/em>, ou seja, a produtividade imediata e os resultados para os acionistas.<\/p>\n<p>Na \u00e1rea da minera\u00e7\u00e3o isso \u00e9 bastante evidente. Os golpes de Estado tentados ou realizados se deram nas \u00faltimas d\u00e9cadas na L\u00edbia, no Oriente M\u00e9dio, na Venezuela, no Equador, no Sud\u00e3o e tamb\u00e9m no Brasil, todos donos de amplas reservas de petr\u00f3leo. A trag\u00e9dia do Ir\u00e3 data da ditadura instalada pelos brit\u00e2nicos e pelos americanos ainda nos anos 1950, para impedir a nacionaliza\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo, ali\u00e1s, na mesma \u00e9poca em que sa\u00edamos \u00e0s ruas na campanha d\u2019O petr\u00f3leo \u00e9 nosso.\u00a0<a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=239&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fgeopoliticaeguerra%2Fdowbor-introducao-a-economia-da-brutalidade%2F#sdfootnote2sym\"><sup>2<\/sup><\/a>\u00a0A Ar\u00e1bia Saudita, onde as mulheres s\u00e3o constrangidas nos seus direitos b\u00e1sicos, onde se cortam as m\u00e3os de um autor de furto (hoje com bisturi) e onde ainda se cortam cabe\u00e7as em p\u00fablico (de modo tradicional), \u00e9 considerada como regime amigo e, portanto, democr\u00e1tico. De pai para filho. N\u00e3o est\u00e1 sujeita a golpes.<\/p>\n<p>Aqui h\u00e1 muito pouco espa\u00e7o para mecanismos de mercado. Trata-se de gigantes corporativos mundiais, e s\u00e3o negocia\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, interven\u00e7\u00f5es armadas e sistemas de corrup\u00e7\u00e3o que definem as regras do jogo. O excelente relato de John Perkins, ex-economista-chefe de grande corpora\u00e7\u00e3o da \u00e1rea, apresenta de forma clara como se d\u00e3o as negocia\u00e7\u00f5es, como se configuram as regras do jogo. Sempre h\u00e1 refer\u00eancias ao mercado de min\u00e9rios ou de energia, porque o nome mercado faz parecer que h\u00e1 concorr\u00eancia, uma certa legitimidade por tr\u00e1s da for\u00e7a bruta\u00a0<a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=239&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fgeopoliticaeguerra%2Fdowbor-introducao-a-economia-da-brutalidade%2F#sdfootnote3sym\"><sup>3<\/sup><\/a>. Na realidade n\u00e3o h\u00e1 concorr\u00eancia no sentido econ\u00f4mico, de numerosas unidades competindo para prestar o melhor servi\u00e7o: o que h\u00e1 s\u00e3o rela\u00e7\u00f5es de poder, uso de ex\u00e9rcitos oficiais ou privados (no Iraque o sistema terceirizado de corpora\u00e7\u00f5es militares privadas, como Blackwater, \u00e9 maior do que o aparato propriamente militar). N\u00e3o h\u00e1 nenhuma lei econ\u00f4mica que explique que, no decorrer de uma d\u00e9cada, o pre\u00e7o do barril de petr\u00f3leo tenha dan\u00e7ado entre 17 e 148 d\u00f3lares, e durante um m\u00eas entre 120 e 60 d\u00f3lares. Nem a oferta, nem a demanda poderiam variar dessa maneira.<\/p>\n<p>Veremos mais adiante como funciona a parte comercial das\u00a0<em>commodities<\/em>\u00a0desse tipo, hoje na m\u00e3o basicamente de dezesseis\u00a0<em>traders<\/em>\u00a0situados em para\u00edsos fiscais\u00a0<a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=239&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fgeopoliticaeguerra%2Fdowbor-introducao-a-economia-da-brutalidade%2F#sdfootnote4sym\"><sup>4<\/sup><\/a>. O que a vis\u00e3o de conjunto do setor nos aponta \u00e9 uma guerra planet\u00e1ria crescente por recursos que est\u00e3o minguando, enquanto a demanda mundial se amplia, e os impactos indiretos, como o aquecimento global, se agravam. As futuras gera\u00e7\u00f5es, que ser\u00e3o privadas dos recursos esgotados, mas herdar\u00e3o os impactos ambientais, evidentemente n\u00e3o est\u00e3o aqui para votar. A nossa democracia ainda \u00e9 bem t\u00edmida, e o termo mercado essencialmente \u00e9 um v\u00e9u de respeitabilidade que recobre uma rapina absurda.<\/p>\n<p>O essencial da orienta\u00e7\u00e3o, no caso dos recursos minerais, \u00e9 que sendo eles uma heran\u00e7a da natureza, e n\u00e3o um \u201cproduto\u201d, devem ser controlados pelo sistema p\u00fablico, de forma que a explora\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo, por exemplo, sirva para financiar infraestruturas, educa\u00e7\u00e3o, pesquisa e outros investimentos no futuro do pa\u00eds, em vez de enriquecer acionistas que ganham sobre o que n\u00e3o precisaram produzir. Uma alternativa \u00e9 contratar empresas privadas para a extra\u00e7\u00e3o, mas assegurar forte tributa\u00e7\u00e3o, de forma que a extra\u00e7\u00e3o sirva para o setor p\u00fablico realizar investimentos b\u00e1sicos. Simplesmente privatizar equivale a descapitalizar o pa\u00eds e comprometer o seu futuro.<\/p>\n<p>Aqui tamb\u00e9m trazemos algumas sugest\u00f5es que podem ser consideradas evidentes ou simplesmente necess\u00e1rias. Talvez n\u00e3o sejam muito realistas, dadas as rela\u00e7\u00f5es de for\u00e7a atuais, mas s\u00e3o amplamente discutidas internacionalmente:<\/p>\n<div>\n<p>\u2022 Regula\u00e7\u00e3o internacional dos\u00a0<em>traders<\/em>, basicamente 16 grupos que controlam o conjunto da extra\u00e7\u00e3o, comercializa\u00e7\u00e3o e financiamento das commodities em geral;<\/p>\n<p>\u2022 Gera\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es transparentes sobre as reservas naturais: os estudos existem, inclusive com publica\u00e7\u00f5es internacionais, mas n\u00e3o s\u00e3o transformadas em informa\u00e7\u00e3o generalizada \u00e0s popula\u00e7\u00f5es;<\/p>\n<\/div>\n<p>\u2022 Retomada da batalha pela Taxa Tobin, taxa\u00e7\u00e3o modesta, mas generalizada, das transa\u00e7\u00f5es financeiras internacionais, assegurando a base de informa\u00e7\u00e3o financeira que sustenta o conjunto do sistema de apropria\u00e7\u00e3o privada de bens naturais;<\/p>\n<p>\u2022 De forma geral, o forte controle p\u00fablico \u00e9 essencial, e como se v\u00ea na Nig\u00e9ria, em Angola, hoje no Brasil e em tantos pa\u00edses, sem a defesa firme de direitos soberanos, o que predomina \u00e9 a simples rapina.<\/p>\n<p><strong>Constru\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Estamos aqui apresentando os mecanismos b\u00e1sicos que prevalecem nos diversos setores, porque n\u00e3o se pode falar de \u201cci\u00eancia econ\u00f4mica\u201d no abstrato, sem entender as engrenagens da economia real. De certa forma, para entender o conjunto, \u00e9 melhor partir de como funcionam os setores concretos de atividade, para depois gerar uma vis\u00e3o mais ampla e entender as articula\u00e7\u00f5es. Grande parte do debate econ\u00f4mico se d\u00e1 sobre generalidades demasiado amplas para serem significativas. Com muita facilidade se afirma no Brasil que as taxas de juros absurdas s\u00e3o para nos proteger da infla\u00e7\u00e3o, ou que o desemprego \u00e9 resultado de insuficiente liberdade da misteriosa entidade que chamam de \u201cos mercados\u201d. Afloram facilmente os \u00f3dios ideol\u00f3gicos, \u00e9 o f\u00edgado que fala, n\u00e3o a cabe\u00e7a. A ideologia \u00e9 frequentemente um \u00fatil substituto ao conhecimento.<\/p>\n<p>No setor da constru\u00e7\u00e3o, como em outros setores, temos pequenos produtores que constroem casas, realizam pequenas obras nas prefeituras e coisas do g\u00eanero. E temos as musculosas corpora\u00e7\u00f5es como a Odebrecht, a OAS e mais algumas que dominaram as grandes obras. Enquanto os pequenos concorrem realmente entre si, e podemos falar de mecanismos de mercado, o universo dos grandes funciona de maneira diferente, tanto aqui, com as empresas mencionadas, como nos Estados Unidos, com a Halliburton, e corpora\u00e7\u00f5es semelhantes em diversas partes do mundo. A Halliburton emprega diretamente 60 mil pessoas, tem presen\u00e7a em oitenta pa\u00edses e elegeu Dick Cheney, seu presidente, para vice-presid\u00eancia, com George Bush, nos Estados Unidos. Herdou os maiores contratos de reconstru\u00e7\u00e3o do Iraque, bem como contratos de explora\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo. Grande parte dos massacres e do caos pol\u00edtico no norte da \u00c1frica e no Oriente M\u00e9dio, al\u00e9m da Am\u00e9rica Latina, tem as suas ra\u00edzes nesta esfera onde interesses financeiros, pol\u00edticos e militares se juntam\u00a0<a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=239&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fgeopoliticaeguerra%2Fdowbor-introducao-a-economia-da-brutalidade%2F#sdfootnote5sym\"><sup>5<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Aqui \u00e9 tradicional a confus\u00e3o entre interesses p\u00fablicos e privados. O mecanismo b\u00e1sico \u00e9 simples, se tomarmos o exemplo dos sucessivos malufismos na cidade de S\u00e3o Paulo, os prefeitos e boa parte da C\u00e2mara s\u00e3o eleitos com muito dinheiro das construtoras e montadoras. Eleitos os amigos, aprovam-se as obras, basicamente de interesse das pr\u00f3prias empreiteiras, como viadutos, elevados, t\u00faneis e outras infraestruturas que, em nome de melhorar o tr\u00e2nsito, apenas paralisam progressivamente a cidade. Corredor de \u00f4nibus n\u00e3o rende para quem quer faturar com concreto, e a constru\u00e7\u00e3o de metr\u00f4 exige concorr\u00eancias internacionais, o que dificulta o sobrefaturamento. E o sobrefaturamento, que frequentemente multiplica o pre\u00e7o das obras v\u00e1rias vezes o que realmente custou, permite financiar tanto a fortuna pessoal dos pol\u00edticos e acionistas das empresas, como financiar a campanha eleitoral seguinte. \u00c9 assim t\u00e3o simples o principal mecanismo de desvio dos recursos p\u00fablicos nesse setor. Dizer que os pol\u00edticos s\u00e3o corruptos faz pouco sentido, as empresas privadas fazem parte da mesma m\u00e1quina de transforma\u00e7\u00e3o de recursos p\u00fablicos em enriquecimento privado. N\u00e3o h\u00e1 corrupto sem corruptor, ainda que seja vantajoso para as corpora\u00e7\u00f5es se queixarem dos pol\u00edticos.<\/p>\n<p>Existem, \u00e9 claro, as concorr\u00eancias p\u00fablicas, mas com a participa\u00e7\u00e3o de grandes empresas que se contam nos dedos, basta se acertarem na fila de quem obt\u00e9m qual contrato. A escolhida faz uma proposta com pre\u00e7os sobrefaturados, enquanto as outras apresentam pre\u00e7os astron\u00f4micos. A melhor ganha. Chamam isso de mercado das grandes obras.<\/p>\n<p>Naturalmente, esse tipo de prioriza\u00e7\u00e3o das obras e escolha dos executantes tem pouco a ver com mecanismos de mercado, em que a concorr\u00eancia levaria \u00e0 escolha do projeto com melhor rela\u00e7\u00e3o custo-benef\u00edcio. No Brasil se desencadeou uma campanha contra a corrup\u00e7\u00e3o, o que \u00e9 positivo, mas consistiu essencialmente na desestrutura\u00e7\u00e3o da Odebrecht, forte concorrente internacional dos gigantes americanos, em particular da Halliburton. \u00c9 importante entender que a corrup\u00e7\u00e3o se combate gerando transpar\u00eancia nos fluxos financeiros, e em particular por parte dos bancos que transferem os recursos e conhecem perfeitamente as fontes e destinos de grandes volumes financeiros.<\/p>\n<p>Prender corruptos como exemplo \u00e9 \u00fatil, mas, afora o show midi\u00e1tico e a catarse p\u00fablica, pouco muda, pois, se os mecanismos permanecem, sempre haver\u00e1 felizes sucessores. Evidentemente, desestruturar as empresas em nome do combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o, isso quando nenhum grupo internacional \u2013 todos praticam as mesmas pol\u00edticas \u2013 \u00e9 controlado, \u00e9 profundamente contraproducente para a economia. Em geral, cria-se uma imagem centrada nos pol\u00edticos, o que deforma a realidade. Quando o dinheiro passa de uma m\u00e3o para outra, h\u00e1 duas m\u00e3os em jogo. Outra consequ\u00eancia \u00e9 que as grandes corpora\u00e7\u00f5es beneficiadas s\u00e3o tamb\u00e9m grandes anunciantes, e haver\u00e1 tanto mais an\u00fancios (e apoio aos candidatos) quanto mais a m\u00eddia for subserviente. A publicidade \u00e9 a forma pela qual a m\u00eddia obt\u00e9m a sua parte do sobrefaturamento. Organiza-se a cidade para as empreiteiras, os autom\u00f3veis e os grandes especuladores imobili\u00e1rios\u00a0<a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=239&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fgeopoliticaeguerra%2Fdowbor-introducao-a-economia-da-brutalidade%2F#sdfootnote6sym\"><sup>6<\/sup><\/a>.<\/p>\n<p>Em termos pr\u00e1ticos, o transporte coletivo de massa, que \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o \u00f3bvia para qualquer metr\u00f3pole, fica estagnado, o que prejudica toda a popula\u00e7\u00e3o. O resultado \u00e9 uma cidade paralisada, com esgotos a c\u00e9u aberto que poderiam ser rios que humanizam a cidade, enquanto regi\u00f5es inteiras ficam inundadas todos os anos. Isso na cidade mais rica da Am\u00e9rica Latina, que disp\u00f5e de excelentes t\u00e9cnicos e institutos de pesquisa. N\u00e3o s\u00e3o eles que decidem as obras. O Tribunal de Contas da cidade de S\u00e3o Paulo apenas rejeitou uma presta\u00e7\u00e3o de contas, a da Luiza Erundina. A grande corrup\u00e7\u00e3o \u00e9 suficientemente forte para gerar a sua pr\u00f3pria legalidade. Em 2014, a cidade sofreu com os cortes de \u00e1gua, devidos sobretudo \u00e0 seca, mas, em particular aos 36% da \u00e1gua que se perde por falta de investimentos na distribui\u00e7\u00e3o. Viadutos s\u00e3o mais vis\u00edveis do que redes de esgoto e esta\u00e7\u00f5es de tratamento. A cidade de Paris retomou recentemente o controle da \u00e1gua no munic\u00edpio, frente aos desastres da privatiza\u00e7\u00e3o. Veremos esse ponto mais adiante, ao tratar da \u00e1rea de infraestruturas.<\/p>\n<p>Onde a ind\u00fastria da constru\u00e7\u00e3o funciona de maneira adequada, n\u00e3o \u00e9 porque se deixou agir \u201cas livres for\u00e7as do mercado\u201d, mas porque foram criadas fortes institui\u00e7\u00f5es de democracia participativa, assegurando transpar\u00eancia e controle por parte da cidadania. Em particular, as novas tecnologias permitem o rastreamento das transfer\u00eancias, bastando para tanto assegurar o livre acesso \u00e0s transa\u00e7\u00f5es. Em Londrina, um prefeito disponibilizou, em lugares p\u00fablicos da cidade, terminais dos computadores da Secretaria Municipal da Fazenda. \u00c9 o que funciona. Melhor do que tatear no escuro \u00e0 procura de corruptos, e de apresentar na m\u00eddia, para g\u00e1udio da popula\u00e7\u00e3o, o eventual incauto que se deixou capturar, \u00e9 acender a luz. Temos todos os meios inform\u00e1ticos para tanto. A mudan\u00e7a necess\u00e1ria est\u00e1 na gera\u00e7\u00e3o da transpar\u00eancia.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 magia do tipo \u201cm\u00e3o invis\u00edvel do mercado\u201d: grandes recursos exigem controle e transpar\u00eancia, processos mais democr\u00e1ticos nas pr\u00f3prias decis\u00f5es econ\u00f4micas, bem como a gera\u00e7\u00e3o de capacidade de planejamento a m\u00e9dio e longo prazos, que \u00e9 o que permite ventilar as op\u00e7\u00f5es, submet\u00ea-las a debates, e evitar os fatos consumados. O que n\u00e3o impede que, para milhares de pequenas obras realizadas por pequenas empreiteiras locais, seja melhor deixar agir as negocia\u00e7\u00f5es diretas entre contratantes. Essa dualidade entre gigantes que formam um oligop\u00f3lio, e milhares de pequenas empresas que podem perfeitamente se regular atrav\u00e9s do mercado, vamos encontr\u00e1-la nos mais diversos setores. Quando os gigantes tentam puxar para si a legitimidade da \u201ccompeti\u00e7\u00e3o\u201d e do \u201cmercado\u201d, est\u00e3o escondendo a realidade.<\/p>\n<p>\u00c9 importante ter claro que muito pior do que o sobrefaturamento e a corrup\u00e7\u00e3o que caracterizam as grandes construtoras em tantos pa\u00edses \u2013 n\u00e3o \u00e9 nosso privil\u00e9gio \u2013 \u00e9 a deforma\u00e7\u00e3o das prioridades: hoje, em S\u00e3o Paulo, temos viadutos e marginais para os autom\u00f3veis, mas o paulistano perde duas horas e quarenta minutos ao dia para ir trabalhar, um custo generalizado para a sociedade, por op\u00e7\u00f5es absurdas de transporte, tema que veremos mais adiante.<\/p>\n<p>Algumas sugest\u00f5es bastante \u00f3bvias, na linha do resgate de um m\u00ednimo de governan\u00e7a sobre as grandes corpora\u00e7\u00f5es da constru\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>\u2022 Acesso transparente aos contratos de grandes obras p\u00fablicas: as op\u00e7\u00f5es de infraestruturas tendo grande impacto para a vida da popula\u00e7\u00e3o, \u00e9 essencial que as informa\u00e7\u00f5es sejam abertas;<\/p>\n<p>\u2022 Apoio a organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil especializadas, capazes de fazer as contra-avalia\u00e7\u00f5es dos contratos: a discreta negocia\u00e7\u00e3o entre um pol\u00edtico e uma empreiteira deve passar pelo crivo de quem n\u00e3o tem interesse financeiro na negocia\u00e7\u00e3o;<\/p>\n<p>\u2022 Contrata\u00e7\u00e3o de avalia\u00e7\u00f5es por parte dos departamentos correspondentes nas universidades, ampliando a base cient\u00edfica de informa\u00e7\u00f5es: temos hoje no mundo acad\u00eamico excelentes pesquisadores, e o processo ajudaria a trazer a academia para mais perto do mundo real;<\/p>\n<p>\u2022 Retomada das pr\u00e1ticas de or\u00e7amento participativo, para assegurar a prioriza\u00e7\u00e3o adequada das obras em fun\u00e7\u00e3o das necessidades reais das comunidades: o processo foi em grande parte abandonado, n\u00e3o porque n\u00e3o funcionava, mas porque funcionava.<\/p>\n<p>\u2014<\/p>\n<p><a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=239&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fgeopoliticaeguerra%2Fdowbor-introducao-a-economia-da-brutalidade%2F#sdfootnote1anc\">1<\/a>Para as dimens\u00f5es das negociatas (e as pris\u00f5es de Eike Batista), ver os verbetes correspondentes na Wikip\u00e9dia, com o nome do empres\u00e1rio e o artigo sobre a Vale S.A. Ambos d\u00e3o uma vis\u00e3o clara da cultura do setor.<\/p>\n<p><a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=239&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fgeopoliticaeguerra%2Fdowbor-introducao-a-economia-da-brutalidade%2F#sdfootnote4anc\">4<\/a>Sobre como funciona o \u201cmercado\u201d de commodities, veja o cap\u00edtulo 7 do meu livro\u00a0<em>A era do capital improdutivo<\/em>, e o v\u00eddeo correspondente:\u00a0<a href=\"http:\/\/dowbor.org\/2018\/08\/curso-pedagogia-da-economia-com-ladislau-dowbor-instituto-paulo-freire-2018-15-aulas.html\">http:\/\/dowbor.org\/2018\/08\/curso-pedagogia-da-economia-com-ladislau-dowbor-instituto-paulo-freire-2018-15-aulas.html<\/a>\u00a0(10 minutos).<\/p>\n<p><a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=239&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fgeopoliticaeguerra%2Fdowbor-introducao-a-economia-da-brutalidade%2F#sdfootnote5anc\">5<\/a>\u00a0Sobre a Halliburton, ver: www.halliburtonwatch.org\/; a empresa, que lida com petr\u00f3leo, engenharia e constru\u00e7\u00e3o, tem forte presen\u00e7a tamb\u00e9m no Brasil. Al\u00e9m disso, utiliza for\u00e7as paramilitares da Academi (antiga Blackwater). A pesquisa sobre as ramifica\u00e7\u00f5es e o funcionamento da Academi, do jornalista Jeremy Scahill,\u00a0<em>Blackwater<\/em>, foi publicada no Brasil em 2009 pela Cia. das Letras. A empresa tem bases paramilitares em diversos pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p><a href=\"chrome-extension:\/\/ecabifbgmdmgdllomnfinbmaellmclnh\/data\/reader\/index.html?id=239&amp;url=https%3A%2F%2Foutraspalavras.net%2Fgeopoliticaeguerra%2Fdowbor-introducao-a-economia-da-brutalidade%2F#sdfootnote6anc\">6<\/a>\u00a0Para uma apresenta\u00e7\u00e3o detalhada e bem-humorada sobre como funciona a corrup\u00e7\u00e3o no Brasil, veja o pequeno livro\u00a0<em>Os estranhos caminhos do nosso dinheiro<\/em>: http:\/\/dowbor.org\/blog\/wp-content\/uploads\/2018\/05\/osestranhoscaminhosdodinheiro.pdf.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Dowbor: introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 Economia da Brutalidade &#8211; Outras Palavras. Link: https:\/\/outraspalavras.net\/geopoliticaeguerra\/dowbor-introducao-a-economia-da-brutalidade\/<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ladislau Dowbor &#8211; Mohammand Mossadegh, (foto acima) primeiro-ministro do Ir\u00e3. Ao nacionalizar o petr\u00f3leo, em 1951, ele foi v\u00edtima de uma campanha de desestabiliza\u00e7\u00e3o que culminou com golpe de Estado, dois anos depois. 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