{"id":15968,"date":"2021-11-07T11:16:29","date_gmt":"2021-11-07T14:16:29","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=15968"},"modified":"2021-11-02T11:19:07","modified_gmt":"2021-11-02T14:19:07","slug":"ideologia-de-genero-assim-surgiu-o-espantalho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2021\/11\/07\/ideologia-de-genero-assim-surgiu-o-espantalho\/","title":{"rendered":"Ideologia de g\u00eanero: assim surgiu o espantalho"},"content":{"rendered":"<p><strong>S\u00f4nia Corr\u00eaa &#8211; <\/strong>Na\u00a0<a href=\"http:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/eleicao-do-fim-do-mundo\/\">vertigem eleitoral de 2018<\/a>, a fantasmagoria da \u201cideologia de g\u00eanero\u201d desaguou no caudal central da pol\u00edtica brasileira. Em janeiro de 2019, o \u201ccombate \u00e0 ideologia de g\u00eanero\u201d foi citado como prioridade no discurso presidencial de posse. Desde ent\u00e3o, tem sido reiterado,\u00a0<em>ad nauseam<\/em>, em falas das autoridades e traduzido em diretrizes, mais ou menos expl\u00edcitas, de pol\u00edticas p\u00fablicas. Em 2020, o Supremo Tribunal Federal (STF) julgou inconstitucionais leis estaduais e municipais, aprovadas desde 2014, que pro\u00edbem g\u00eanero na educa\u00e7\u00e3o, mas isso n\u00e3o deteve a prolifera\u00e7\u00e3o de projetos de leis antig\u00eanero, seja no campo educacional, seja em outros dom\u00ednios, como o reconhecimento da identidade de g\u00eanero na inf\u00e2ncia, a participa\u00e7\u00e3o de atletas trans em competi\u00e7\u00f5es esportivas e o uso da linguagem neutra de g\u00eanero. Desde o\u00a0ano passado, as for\u00e7as engajadas nessas cruzadas negaram a gravidade da\u00a0<a href=\"https:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/tag\/coronavirus\">Covid-19<\/a>, recusaram medidas de isolamento e preven\u00e7\u00e3o e atacaram as vacinas, contribuindo, portanto, para o fracasso da resposta \u00e0 pandemia, do qual decorre a hecatombe em que o pa\u00eds est\u00e1 mergulhado no come\u00e7o de 2021.<\/p>\n<p>Essas ofensivas n\u00e3o come\u00e7aram em 2018, nem s\u00e3o exclusivamente brasileiras. Para dimension\u00e1-las ou interpret\u00e1-las corretamente \u2013 tratar de sua inven\u00e7\u00e3o, matura\u00e7\u00e3o e propaga\u00e7\u00e3o, das for\u00e7as nelas envolvidas, de seu car\u00e1ter transnacional e de seus m\u00faltiplos efeitos \u2013, precisamos examinar de perto. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel fazer isso em poucas p\u00e1ginas. Neste breve texto, o que ofere\u00e7o s\u00e3o notas m\u00ednimas sobre os ciclones que t\u00eam reconfigurado o campo de disputas muito mais antigas em torno de g\u00eanero e sexualidade no mundo e no Brasil.<\/p>\n<p><strong>Antes de 2018\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>A erup\u00e7\u00e3o de uma clara ofensiva antig\u00eanero, no Brasil, se deu por volta de 2013, quando for\u00e7as cat\u00f3licas e evang\u00e9licas, associadas ao movimento Escola sem Partido, deflagraram um ataque feroz contra g\u00eanero, sexualidade e ra\u00e7a nos debates do Plano Nacional de Educa\u00e7\u00e3o (PNE 2014-2024). Esses embates foram precedidos, em 2011, pela \u00e1cida controv\u00e9rsia sobre o chamado\u00a0<a href=\"http:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/lavagem-cerebral-choque-brasil\/\">\u201ckit gay\u201d\u00a0<\/a>e coincidiram com o rep\u00fadio \u00e0 lei do matrim\u00f4nio igualit\u00e1rio na Fran\u00e7a, uma campanha de mesmo teor na Cro\u00e1cia, uma forte diatribe contra\u00a0<a href=\"http:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/ideologia-de-genero-ou-o-genero-da-ideologia\/\">\u201cideologia de g\u00eanero\u201d\u00a0<\/a>proferida pelo ex-presidente Rafael Correa no Equador e o ataque a uma resolu\u00e7\u00e3o sobre orienta\u00e7\u00e3o sexual e identidade na Assembleia Geral da Organiza\u00e7\u00e3o dos Estados Americanos (OEA).<\/p>\n<p>Mas antes disso j\u00e1 circulava no pa\u00eds o espantalho da \u201cideologia de g\u00eanero\u201d, como definido pela antrop\u00f3loga Let\u00edcia Cesarino. Em 2003, a express\u00e3o foi usada por um deputado do Prona em discurso na C\u00e2mara Federal e, em 2007, o documento final da reuni\u00e3o do Conselho Episcopal Latino-americano (Celam),\u00a0realizada em Aparecida, recomendou o firme combate \u00e0 \u201cideologia de g\u00eanero\u201d, deflagrando uma propaga\u00e7\u00e3o mais ampla dessa categoria acusat\u00f3ria no pa\u00eds. Estudo de Carla Castro Gomes \u2013\u00a0<em>Propaga\u00e7\u00e3o de discursos sobre \u201cideologia de g\u00eanero\u201d\u00a0<\/em><em>no Brasil<\/em>, publicado em 2020 e\u00a0<a href=\"https:\/\/sxpolitics.org\/ptbr\/propagacao-de-discursos-sobre-ideologia-de-genero-no-brasil\/10046\">dispon<\/a><a href=\"https:\/\/sxpolitics.org\/ptbr\/propagacao-de-discursos-sobre-ideologia-de-genero-no-brasil\/10046\">\u00edvel no site do Sexuality Policy Watch\u00a0<\/a>\u2013 informa que, at\u00e9 2013, essa difus\u00e3o se deu, exclusivamente, via canais ultracat\u00f3licos. A partir de ent\u00e3o, ganhou escala ao ser veiculada pela m\u00eddia digital evang\u00e9lica e replicada por pastores, influencers e figuras pol\u00edticas.<\/p>\n<p><strong>A inven\u00e7\u00e3o da\u00a0\u201cideologia de g\u00eanero\u201d<\/strong><\/p>\n<p>O \u201cproblema de g\u00eanero do Vaticano\u201d, que est\u00e1 na origem dessas mobiliza\u00e7\u00f5es, eclodiu no est\u00e1gio final de prepara\u00e7\u00e3o para a IV Confer\u00eancia Mundial das Mulheres (Beijing), em mar\u00e7o de 1995. Esse epis\u00f3dio e seus desdobramentos foram analisados, em detalhe, em artigos recentes, como\u00a0<a href=\"https:\/\/www.scielo.br\/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S0104-83332018000200401\">\u201cA \u2018pol\u00edtica do g\u00eanero\u2019: um coment\u00e1rio geneal\u00f3gico\u201d<\/a>, de minha autoria (Cadernos Pagu, n. 53, 2018),\u00a0<a href=\"http:\/\/pepsic.bvsalud.org\/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S1519-549X2018000300005\">\u201c\u2018Ideologia de g\u00eanero\u2019 em movimento\u201d<\/a>, de David Paternotte e Roman Kuhar, e \u201c<a href=\"http:\/\/pepsic.bvsalud.org\/scielo.php?script=sci_arttext&amp;pid=S1519-549X2018000300004\">A inven\u00e7\u00e3o da \u2018ideologia de g\u00eanero\u2019: a emerg\u00eancia de um cen\u00e1rio pol\u00edtico-discursivo e a elabora\u00e7\u00e3o de uma ret\u00f3rica reacion\u00e1ria antig\u00eanero<\/a>\u201d, de Rog\u00e9rio Diniz Junqueira (ambos publicados na Revista de psicologia pol\u00edtica, vol. 18, n. 43, 2018).<\/p>\n<p>Sintetizando essas an\u00e1lises, o epis\u00f3dio foi uma rea\u00e7\u00e3o tardia \u00e0 ado\u00e7\u00e3o do conceito de g\u00eanero pelo documento final da Confer\u00eancia Internacional de Popula\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento do Cairo, que acontecera seis meses antes. Na confer\u00eancia de Beijing, o uso do termo n\u00e3o causou maior controv\u00e9rsia, embora tenha sido objeto de reservas por parte do Vaticano e do Paraguai. Mas, sem d\u00favida, inaugurou o que pode ser nomeado como \u201cera da ideologia antig\u00eanero\u201d. Iniciou-se a produ\u00e7\u00e3o de uma vasta literatura de rep\u00fadio ao g\u00eanero, assinada por autoras e autores n\u00e3o clericais. Ela antecipou a cr\u00edtica teol\u00f3gica do Vaticano, elaborada nos anos 2000, da qual resultaria, por sua vez, um acervo amplo de documentos vinculando os efeitos nefastos do g\u00eanero a m\u00faltiplas esferas da vida individual, social e pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Considerando a primeira dessas duas ondas, no Brasil, a editora Can\u00e7\u00e3o Nova publicou em 2008 uma vers\u00e3o reduzida de um livro ic\u00f4nico:\u00a0<em>Agenda de g<\/em><em>\u00ea<\/em><em>nero: redefinindo a igualdade<\/em>, da jornalista estadunidense Dale O\u2019Leary, que n\u00e3o usou o termo \u201cideologia de g\u00eanero\u201d, mas \u201cfeminismo do g\u00eanero\u201d. J\u00e1 no que diz respeito ao acervo teol\u00f3gico, o\u00a0<em>Lexicon: termos amb<\/em><em>\u00edguos e discutidos sobre fam\u00edlia, vida e quest\u00f5es \u00e9<\/em><em>ticas<\/em>\u00a0foi traduzido pelos frades salesianos no mesmo ano de sua publica\u00e7\u00e3o (2003) e, uma vez mais, pela CNBB, em 2007. A \u201cCarta aos bispos da Igreja cat\u00f3lica sobre a colabora\u00e7\u00e3o do homem e da mulher na Igreja e no mundo\u201d, de 2004, tamb\u00e9m teve ampla circula\u00e7\u00e3o. As elabora\u00e7\u00f5es coet\u00e2neas ou subsequentes sobre o \u201cproblema do g\u00eanero\u201d basicamente repetem e, em alguns poucos casos, alargam os conte\u00fados e argumentos desses primeiros textos.<\/p>\n<p>A tese central dessa literatura \u00e9 que a teoria feminista do g\u00eanero \u00e9 um engodo porque anuncia a igualdade entre homens e mulheres para destruir a diferen\u00e7a sexual \u201cnatural\u201d. O texto da \u201cCarta aos bispos\u201d adiciona novos elementos a essa acusa\u00e7\u00e3o, associando g\u00eanero \u00e0 \u201cpolimorfia sexual\u201d. Eric Fassin, em \u201c<a href=\"https:\/\/www.researchgate.net\/publication\/312515979_Gender_and_the_Problem_of_Universals_Catholic_Mobilizations_and_Sexual_Democracy_in_France\">Gender and the\u00a0Democratic Problem of Universals: Catholic Mobilizations and Sexual Democracy in France<\/a>\u201d, artigo publicado na revista Religion &amp; Gender (vol. 6, n. 2, 2016), observa que esse discurso se sustenta na primazia da ordem natural, evocada em termos dogm\u00e1ticos e quase darwinianos para obstaculizar transforma\u00e7\u00f5es em curso nas democracias sexuais contempor\u00e2neas. Esse apelo \u00e0 ordem natural foi levado ao extremo, em 2009, quando Bento VVI equiparou a \u201cideologia de g\u00eanero\u201d com a destrui\u00e7\u00e3o das florestas, em discurso na Assembleia Geral da ONU. Desde 2013, Francisco, que tem na defesa ambiental uma de suas prioridades, afirmou, em algumas ocasi\u00f5es, que \u201cg\u00eanero \u00e9 diab\u00f3lico\u201d.<\/p>\n<p><strong>A hidra de muitas cabe\u00e7as\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Embora gestadas em ber\u00e7o cat\u00f3lico, as forma\u00e7\u00f5es que impulsionam as cruzadas antig\u00eanero s\u00e3o como hidras de muitas cabe\u00e7as, e essa multiplicidade nos confunde. Na Am\u00e9rica Latina, est\u00e3o assentadas sobre redes mais antigas de oposi\u00e7\u00e3o ao direito ao aborto, orbitando em torno de um n\u00facleo central que \u00e9 tanto cat\u00f3lico, em geral integrista, como evang\u00e9lico fundamentalista. Envolvem uma gama muito heterog\u00eanea de atores seculares (ou aparentemente seculares): pol\u00edticos de carreira, membros de corpora\u00e7\u00f5es profissionais (sobretudo nas \u00e1reas de sa\u00fade e direito), empres\u00e1rios, institutos e ativistas neoliberais e grupos libert\u00e1rios de direita, mas tamb\u00e9m grupamentos abertamente nazistas e fascistas. Na Europa, e tamb\u00e9m na Am\u00e9rica Latina, mais recentemente, correntes feministas que se op\u00f5em \u00e0 identidade de g\u00eanero t\u00eam se tornado vis\u00edveis nessa mesma e heterodoxa ecologia.<\/p>\n<p>Como sem\u00e2ntica pol\u00edtica, a \u201cideologia de g\u00eanero\u201d evoca e mobiliza o senso comum.\u00a0A f\u00f3rmula \u00e9 como uma cesta da qual, segundo contextos e circunst\u00e2ncias, objetos s\u00e3o extra\u00eddos para serem alvejados. Aqui o casamento igualit\u00e1rio ser\u00e1 atacado, ali ser\u00e3o as leis de viol\u00eancia de g\u00eanero, acol\u00e1 os direitos das pessoas trans. G\u00eanero e sexualidade na educa\u00e7\u00e3o est\u00e3o na mira em toda parte e, por vezes, da cesta tamb\u00e9m sai o direito ao aborto. Com grande expertise comunicacional, as hidras antig\u00eanero navegam em condi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas singulares, como elei\u00e7\u00f5es, colando emo\u00e7\u00f5es e significantes flutuantes, incitando p\u00e2nicos morais, agregando p\u00fablicos. Reativam o conservadorismo inercial das sociedades, produzindo \u201ctempestades perfeitas\u201d que levam a restaura\u00e7\u00f5es autorit\u00e1rias ou \u00e0 desdemocratiza\u00e7\u00e3o, sendo o Brasil um exemplo evidente.<\/p>\n<p>As pol\u00edticas antig\u00eanero miram, portanto, v\u00e1rias coisas ao mesmo tempo: as feministas que arquitetaram o conceito de g\u00eanero, as pessoas trans e queers que contestam com seus corpos a ordem dita natural e muitos outros alvos situados na esfera biopol\u00edtica de g\u00eanero, sexualidade, reprodu\u00e7\u00e3o e parentesco. Mas tamb\u00e9m, e talvez principalmente, visam \u00e0 ordem pol\u00edtica como tal.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/revistacult.uol.com.br\/home\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/CULT_269_DOSSIE2_Foto_Divulgacao-Santuario.jpg?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"\" \/><br \/>\n<em>O \u201cproblema de g\u00eanero do Vaticano\u201d est\u00e1 na origem das mobiliza\u00e7\u00f5es antig\u00eanero<\/em><\/p>\n<p><strong>G\u00eanero e marxismo\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Desde sempre, a f\u00f3rmula \u201cideologia de g\u00eanero\u201d esteve associada ao marxismo. Essa vincula\u00e7\u00e3o, que j\u00e1 estava presente no livro de O\u2019Leary e no primeiro documento latino-americano de rep\u00fadio \u00e0 \u201cideologia de g\u00eanero\u201d, publicado por bispos peruanos em 1998, tem sua express\u00e3o mais evidente no\u00a0<em>O livro negro da nova esquerda<\/em>, de Agustin Laje e Nicol\u00e1s Marquez (2016), amplamente lido no Brasil. O argumento central desses escritos \u00e9 que g\u00eanero \u00e9 uma vers\u00e3o mascarada de marxismo. Contudo, o significado e os efeitos dessa associa\u00e7\u00e3o n\u00e3o t\u00eam sido objeto de maior aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A origem de tal vincula\u00e7\u00e3o deve, sem d\u00favida, ser buscada na larga tradi\u00e7\u00e3o antimarxista religiosa, seja cat\u00f3lico-integrista, evang\u00e9lico-fundamentalista ou simplesmente vaticana. Esse rep\u00fadio que remonta ao s\u00e9culo 19 foi reativado, nos anos 1930, no registro dos chamados fascismos clericais, e uma vez mais durante a Guerra Fria, deixando rastros profundos em muitos contextos nacionais,\u00a0inclusive no Brasil. Nesse exame geneal\u00f3gico, cabe tamb\u00e9m contabilizar o perenialismo, ou tradicionalismo, objeto do rec\u00e9m-traduzido livro de Benjamim Teitelbaum,\u00a0<em>Guerra pela eternidade: o retorno do tradicionalismo e a ascens<\/em><em>\u00e3<\/em><em>o da direita populista<\/em>\u00a0(Unicamp, 2020) \u2013 obra especialmente relevante no Brasil pois, como se sabe, o tradicionalismo \u00e9 a fonte de inspira\u00e7\u00e3o de\u00a0<a href=\"http:\/\/revistacult.uol.com.br\/home\/olavo-de-carvalho-ideologia-do-medo\/\">Olavo de Carvalho<\/a>. Essas vertentes religiosas ou transcendentais repudiam o marxismo como pensamento materialista e igualit\u00e1rio, mas tamb\u00e9m como sintoma das \u201cm\u00e1culas da modernidade\u201d. S\u00e3o discursos que, com frequ\u00eancia, vilipendiam, num s\u00f3 f\u00f4lego, as revolu\u00e7\u00f5es francesa, mexicana e russa e as rebeli\u00f5es dos anos 1960.<\/p>\n<p>Mas s\u00e3o tamb\u00e9m incont\u00e1veis, e muito antigas, as fontes seculares de repulsa combinada ao marxismo e ao feminismo. Entre elas est\u00e3o os discursos nazifascistas dos anos 1930, que associam o \u201cjudeu-marxismo\u201d com a democracia sexual, assim como posi\u00e7\u00f5es neoliberais seminais, como a expressa por Ludwig von Mises em\u00a0<em>Socialismo, an<\/em><em>\u00e1lise econ\u00f4mica e sociol\u00f3<\/em><em>gica<\/em>, de que o feminismo que busca remover os \u201climites naturais\u201d impostos ao destino humano \u00e9 \u201cum filho espiritual do socialismo\u201d.\u00a0 E, no final do s\u00e9culo 20, o marxismo foi objeto de novas leituras cr\u00edticas que arrastaram mais \u00e1gua para o mesmo moinho.<\/p>\n<p>Muitas delas foram elaboradas por autores do campo de estudos estrat\u00e9gicos nos Estados Unidos \u2013 como Pat Buchanan, Samuel Francis, Paul Gottfried, Gerald Atkinson, William Lind e Paul Weyrich \u2013, que desde os anos 1980 e com mais intensidade depois da queda dos muros, estigmatizaram Antonio Gramsci e a Escola de Frankfurt como graves amea\u00e7as ao capitalismo e ao Ocidente. No que diz respeito a rebatimentos dessas teses no contexto brasileiro, Eduardo Costa Pinto e Jo\u00e3o C\u00e9sar Rocha t\u00eam rastreado sua influ\u00eancia sobre militares bolsonaristas, e nos Estados Unidos o historiador Benjamin Cowan vem mapeando conex\u00f5es muito anteriores entre Paul Weyrich\u00a0e a direita religiosa, em particular a organiza\u00e7\u00e3o Tradi\u00e7\u00e3o, Fam\u00edlia e Propriedade (TFP). Mas h\u00e1 tamb\u00e9m vertentes europeias de direita a considerar, como o grupo de pesquisa coordenado por Alain de Benoist, que, tendo 1968 como ponto de partida, desenvolveu cr\u00edticas \u00e1cidas \u00e0 esquerda cultural ou neomarxista.\u00a0E tamb\u00e9m h\u00e1 autores italianos que conformam o chamado \u201cgramscianismo de direita\u201d, al\u00e9m de vozes espanholas, ambas correntes menos conhecidas no Brasil.<\/p>\n<p>Ainda que suas lentes de leitura n\u00e3o sejam as mesmas, essas v\u00e1rias vertentes avaliam que, apesar da ru\u00edna do socialismo real, a denominada \u201crevolu\u00e7\u00e3o gramsciana\u201d foi muito bem-sucedida, pois alterou a arquitetura normativa das democracias liberais e penetrou na pr\u00f3pria l\u00f3gica do capitalismo. A \u201cideologia de g\u00eanero\u201d, inventada pelo catolicismo neoconservador nos 1990-2000, n\u00e3o s\u00f3 faz eco a discursos dos anos 1920-1930 na Europa, como, sobretudo, foi habilmente enxertada sobre os extratos recentes de rep\u00fadio ao chamado marxismo cultural. Dessa hibridiza\u00e7\u00e3o resultou um recurso muito eficaz para nutrir as lutas \u2013 discursivas, imag\u00e9ticas, digitais e das ruas \u2013 por hegemonia pol\u00edtica, lutas em que as novas direitas est\u00e3o hoje plenamente envolvidas. A ideologia e as cruzadas antig\u00eanero \u2013 grafadas como repulsa concomitante ao materialismo e igualitarismo da modernidade \u2013 incitam, a um s\u00f3 tempo, p\u00e2nicos morais e p\u00e2nicos pol\u00edticos. \u00c9 preciso haver, portanto, an\u00e1lise, cr\u00edtica e resist\u00eancia nessas duas claves.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Ideologia de g\u00eanero: assim surgiu o espantalho &#8211; Outras Palavras. Link: https:\/\/outraspalavras.net\/direita-assanhada\/ideologia-de-genero-assim-surgiu-o-espantalho\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00f4nia Corr\u00eaa &#8211; Na\u00a0vertigem eleitoral de 2018, a fantasmagoria da \u201cideologia de g\u00eanero\u201d desaguou no caudal central da pol\u00edtica brasileira. Em janeiro de 2019, o \u201ccombate \u00e0 ideologia de g\u00eanero\u201d foi citado como prioridade no discurso presidencial de posse. 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