{"id":15947,"date":"2021-11-01T12:00:31","date_gmt":"2021-11-01T15:00:31","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=15947"},"modified":"2021-10-27T14:02:29","modified_gmt":"2021-10-27T17:02:29","slug":"a-musica-e-em-boa-medida-parte-do-que-nos-torna-humanos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2021\/11\/01\/a-musica-e-em-boa-medida-parte-do-que-nos-torna-humanos\/","title":{"rendered":"\u2018A m\u00fasica \u00e9, em boa medida, parte do que nos torna humanos\u2019"},"content":{"rendered":"<p><strong>Amauri Arrais<\/strong> &#8211; Das cantorias nas varandas ao retorno dos shows em eventos-teste, passando pelo boom das lives, a impress\u00e3o \u00e9 de que a m\u00fasica nunca foi t\u00e3o importante quanto agora, uma ferramenta indispens\u00e1vel para atravessar a pandemia. Nada muito novo para quem se dedica h\u00e1 anos a estudar os efeitos dos acordes no c\u00e9rebro.<\/p>\n<p>\u201cHoje temos cada vez mais evid\u00eancias, embora ainda haja um percurso de pesquisa a ser percorrido, de que determinadas m\u00fasicas, especialmente aquelas que a gente gosta, que nos emocionam, t\u00eam a capacidade de alterar sistemas neuroqu\u00edmicos espec\u00edficos\u201d, diz a pesquisadora Patr\u00edcia Vanzella, que coordena o projeto Neuroci\u00eancia e M\u00fasica na UFABC (Universidade Federal do ABC).<\/p>\n<p>Estes sistemas, afirma a pesquisadora, est\u00e3o associados \u00e0s experi\u00eancias de recompensa, motiva\u00e7\u00e3o e prazer, \u00e0s respostas imunol\u00f3gicas e at\u00e9 mesmo \u00e0 percep\u00e7\u00e3o de afilia\u00e7\u00e3o social. \u201cA m\u00fasica forneceu um meio extremamente eficaz de reconex\u00e3o social, permitindo que os nossos c\u00e9rebros se sentissem conectados mesmo sem uma intera\u00e7\u00e3o face a face.\u201d<\/p>\n<p>Mas ainda que muitos desses benef\u00edcios da experi\u00eancia musical sejam conhecidos, a pandemia trouxe novas perguntas. Vanzella cita, por exemplo, se fazer m\u00fasica online, circunst\u00e2ncia a que muitos compositores e int\u00e9rpretes tiveram que se adaptar no per\u00edodo, produz os mesmos efeitos que reunir-se ao vivo do ponto de vista do funcionamento cerebral.<\/p>\n<p>Junto com o grupo que coordena desde 2015, a pesquisadora investigou durante a pandemia\u00a0<a href=\"https:\/\/www.frontiersin.org\/articles\/10.3389\/fpsyg.2021.633499\/full\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">mudan\u00e7as nos comportamentos musicais de crian\u00e7as e cuidadores em distanciamento social<\/a>. O estudo foi publicado numa edi\u00e7\u00e3o especial da revista cient\u00edfica Frontiers sobre o papel da m\u00fasica na crise da covid-19.<\/p>\n<p>Pianista desde os 6 anos, com passagem como solista por algumas das principais orquestras do pa\u00eds, Patr\u00edcia Vanzella tamb\u00e9m coordena as \u201cConversas Neuromusicais\u201d, s\u00e9rie de di\u00e1logos com acad\u00eamicos de v\u00e1rias partes do mundo sobre temas como os efeitos da experi\u00eancia musical na capacidade de reconhecer emo\u00e7\u00f5es. Na entrevista a\u00a0<strong>Gama<\/strong>, a professora fala ainda sobre os aprendizados que podemos levar da nossa rela\u00e7\u00e3o com as can\u00e7\u00f5es neste per\u00edodo e por que a m\u00fasica \u00e9, em boa medida, parte do que nos torna humanos.<\/p>\n<div>\n<p>Em vez de buscar um ansiol\u00edtico, vamos tentar ouvir uma m\u00fasica que a gente gosta antes?<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p>G |No in\u00edcio da pandemia vimos muito o uso da m\u00fasica como terapia para as pessoas internadas. Se espalharam os v\u00eddeos de profissionais da sa\u00fade tocando ou cantando para os pacientes. Houve uma redescoberta desse papel da m\u00fasica?<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p>Patr\u00edcia Vanzella |<\/p>\n<p>H\u00e1 registros de que a m\u00fasica tem sido usada desde tempos imemoriais para regular o humor, o estado de \u00e2nimo e promover a sensa\u00e7\u00e3o de bem-estar. E tamb\u00e9m de que a m\u00fasica tem sido eficientemente usada como alternativa n\u00e3o-farmacol\u00f3gica no tratamento de certas condi\u00e7\u00f5es ou dist\u00farbios neurol\u00f3gicos. Tem at\u00e9 um prov\u00e9rbio popular, que parece ter suas origens nos fil\u00f3sofos gregos, que diz: \u201cLa musique adoucit les m\u0153urs\u201d, que em uma tradu\u00e7\u00e3o livre seria \u201ca m\u00fasica suaviza os costumes\u201d ou \u201csuaviza a mente\u201d. Qual seria o processo pelo qual a m\u00fasica \u00e9 capaz de fazer isso? Hoje a gente tem cada vez mais evid\u00eancias de que determinadas m\u00fasicas, especialmente as de que gostamos e que nos emocionam, t\u00eam a capacidade de alterar sistemas neuroqu\u00edmicos espec\u00edficos associados \u00e0s experi\u00eancias de recompensa, motiva\u00e7\u00e3o e prazer, estimulando n\u00edveis de dopamina e de opi\u00f3ides; a sistemas de regula\u00e7\u00e3o de n\u00edveis de excitabilidade e estresse, modulando n\u00edveis de cortisol e outros horm\u00f4nios; a sistemas associados nas respostas imunol\u00f3gicas, alterando n\u00edveis de serotonina, endorfina; e a sistemas tamb\u00e9m associados a percep\u00e7\u00e3o de afilia\u00e7\u00e3o social, modulando n\u00edveis de ocitocina. Do ponto de vista fisiol\u00f3gico, esses efeitos podem ser observados por meio de altera\u00e7\u00f5es nos batimentos card\u00edacos, na taxa de respira\u00e7\u00e3o, na condut\u00e2ncia galv\u00e2nica da pele (medida que reflete a intensidade emocional pela transpira\u00e7\u00e3o), temperatura corporal, press\u00e3o arterial e at\u00e9 no di\u00e2metro pupilar. Com t\u00e9cnicas de neuroimagem mais recentes, \u00e9 poss\u00edvel ver o recrutamento de \u00e1reas encef\u00e1licas envolvidas no processamento de emo\u00e7\u00f5es e no chamado sistema de recompensa, que \u00e9 ativado em qualquer tipo de experi\u00eancia prazerosa. Muitos pacientes e muitos profissionais da \u00e1rea da sa\u00fade podem se beneficiar da escuta musical em um momento t\u00e3o delicado como esse. Ao mesmo tempo, teria que ser uma escuta customizada, da prefer\u00eancia de cada um e no momento que cada um desejasse ouv\u00ed-las. A m\u00fasica que te faz relaxar pode ser uma que me incomoda profundamente.<\/p>\n<\/div>\n<figure><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/gamarevista.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/s-musica-entrevista-extra-1.gif?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"\" \/><\/figure>\n<div>\n<p>G |Tamb\u00e9m num primeiro momento da pandemia, vimos em v\u00e1rios lugares do mundo pessoas cantando nas varandas, tocando instrumentos durante o isolamento. A m\u00fasica tem esse car\u00e1ter de pertencimento?<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p>Patr\u00edcia Vanzella |<\/p>\n<p>Sim, a m\u00fasica \u00e9 uma atividade essencialmente coletiva. O uso que a gente faz hoje dela, individualizado, \u00e9 muito recente na hist\u00f3ria evolutiva dos seres humanos. A m\u00fasica \u00e9 uma atividade que serve como fundamento para v\u00e1rias manifesta\u00e7\u00f5es sociais. A gente v\u00ea exemplos disso nos hinos religiosos, cantigas de ninar, cantigas de roda, hinos patri\u00f3ticos, cantos de guerra, tudo isso \u00e9 feito em conjunto, n\u00e3o individualmente. E esse papel social da m\u00fasica se explica pelo fato de ela ser capaz de evocar emo\u00e7\u00f5es, de modular o humor e possibilitar a sincroniza\u00e7\u00e3o de movimentos e de estados de \u00e2nimo. Isso acaba levando \u00e0 coes\u00e3o social e a um sentido de identidade, de pertencimento. Veja que as atividades musicais durante a pandemia rapidamente se adaptaram \u00e0s medidas de distanciamento social. As pessoas come\u00e7aram a cantar nas sacadas, assistir a shows ao vivo em redes sociais ou mesmo cantar em grupos online. Eu mesma gravei um v\u00eddeo de uma obra para dois pianos e orquestra com cada m\u00fasico em sua pr\u00f3pria casa e a sensa\u00e7\u00e3o que me deu de fazer isso foi muito boa. A m\u00fasica forneceu um meio extremamente eficaz de reconex\u00e3o social, permitindo que os nossos c\u00e9rebros se sentissem conectados mesmo sem uma intera\u00e7\u00e3o face a face. Fazer m\u00fasica em conjunto, ainda que \u00e0 dist\u00e2ncia, \u00e9 uma forma eficiente de driblar os efeitos nefastos do isolamento social sobre a sa\u00fade mental. E pode ser uma forma de estimular a solidariedade e de atender \u00e0s necessidades sociais b\u00e1sicas.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p>A m\u00fasica \u00e9 capaz de evocar emo\u00e7\u00f5es, de modular o humor e com isso possibilitar a sincroniza\u00e7\u00e3o de estados de \u00e2nimo. Isso leva a um sentido de pertencimento<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p>G |Ao mesmo tempo, o que vimos depois de um tempo foi uma certa fadiga das lives e apresenta\u00e7\u00f5es remotas. Muita gente sente falta da experi\u00eancia musical presencial. Os efeitos na nossa mente s\u00e3o diferentes?<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p>PV |<\/p>\n<p>A gente n\u00e3o tem ainda estudos que possam responder essa pergunta cientificamente. \u00c9 uma coisa at\u00e9 que fez a gente pensar: ser\u00e1 que fazer m\u00fasica em conjunto online, do ponto de vista neurobiol\u00f3gico, \u00e9 a mesma coisa do que fazer m\u00fasica ao vivo? O peri\u00f3dico cient\u00edfico Frontiers publicou durante a pandemia uma edi\u00e7\u00e3o especial dedicada \u00e0s pesquisas sobre o papel da m\u00fasica nesse per\u00edodo da pandemia, chamada\u00a0<a href=\"https:\/\/www.frontiersin.org\/research-topics\/14089\/social-convergence-in-times-of-spatial-distancing-the-role-of-music-during-the-covid-19-pandemic#articles\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u201cConverg\u00eancia Social em termos de Distanciamento Espacial: O papel da m\u00fasica durante a pandemia da covid-19\u201d<\/a>. N\u00f3s tamb\u00e9m publicamos um estudo no qual exploramos\u00a0<a href=\"https:\/\/www.frontiersin.org\/articles\/10.3389\/fpsyg.2021.633499\/full\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">mudan\u00e7as nos comportamentos musicais de crian\u00e7as e cuidadores em distanciamento social na pandemia<\/a>. Mas de fato est\u00e1 todo mundo meio saturado de olhar para as telas. Com a necessidade de distanciamento, a m\u00fasica acabou se adaptando a essa nova circunst\u00e2ncia, mas nada substitui a experi\u00eancia de estarmos juntos. O ser humano \u00e9 um animal social.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p>G |Acredita que podemos tirar algum aprendizado dessa experi\u00eancia toda? H\u00e1 uma valoriza\u00e7\u00e3o maior da experi\u00eancia musical para al\u00e9m da pandemia?<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p>PV |<\/p>\n<p>Acho que resgatamos um pouco desse papel que a m\u00fasica pode ter no bem estar, no nosso dia a dia. \u00c9 algo que faz\u00edamos sem perceber. Antes da pandemia, a gente usava a m\u00fasica para ter essa conex\u00e3o \u2013 as pessoas se juntavam para tocar, para ouvir m\u00fasica. Tenho um aluno de inicia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica que fez um levantamento com estudantes universit\u00e1rios sobre o papel da m\u00fasica durante a pandemia, e foi fundamental para a manuten\u00e7\u00e3o de um certo bem estar emocional. O que era muito comum pra eles, que era se reunir, se tornou imposs\u00edvel. Ent\u00e3o a m\u00fasica acabou entrando, de certa forma, para apaziguar um pouco a necessidade. Houve um aumento do consumo de m\u00fasica durante a pandemia, isso \u00e9 algo que levantamos no nosso trabalho sobre cuidadores e crian\u00e7as. Houve um aumento nas atividades musicais dentro de casa com as crian\u00e7as. Ent\u00e3o, se tem alguma coisa que a gente pode levar, \u00e9 que podemos recorrer \u00e0 m\u00fasica como forma de ajudar a relaxar, a se sentir bem, em momentos como esses. Em vez de buscar um ansiol\u00edtico, vamos tentar ouvir uma m\u00fasica que a gente gosta antes?<\/p>\n<\/div>\n<figure><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/gamarevista.uol.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/s-musica-entrevista-extra-2.gif?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"\" \/><\/figure>\n<p>Carlos Alvarez via Getty Images<\/p>\n<div>\n<p>G |O que est\u00e1 envolvido na habilidade de tocar um instrumento? Por que tem gente que se esfor\u00e7a tanto e n\u00e3o consegue e para outras pessoas parece t\u00e3o natural?<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p>PV |<\/p>\n<p>Todo mundo pode tocar um instrumento, mas todos n\u00f3s temos mais facilidade em alguma coisa do que em outra. Eu posso ter mais facilidade para tocar piano e voc\u00ea, para jogar xadrez. \u00c9 natural que as pessoas apresentem habilidades distintas. Mas os seres humanos s\u00e3o seres musicais. S\u00e3o rar\u00edssimos os casos de pessoas que apresentam algum tipo de comprometimento no processamento musical que as impe\u00e7am de entender a m\u00fasica, distinguir duas melodias, ou que sejam incapazes de cantar e dan\u00e7ar. A gente nasce com habilidades b\u00e1sicas para se engajar em atividades musicais. Estudos mostram, por exemplo, que beb\u00eas rec\u00e9m-nascidos j\u00e1 s\u00e3o capazes de perceber regularidades nos pulsos r\u00edtmicos, reagem emocionalmente a m\u00fasica, s\u00e3o incrivelmente sens\u00edveis ao contorno de melodias, tanto na m\u00fasica quanto na fala. A mera exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 m\u00fasica da cultura em que estamos imersos molda a forma como a gente vai gerar expectativas e fazer sentido da nossa escuta musical ao longo da vida. S\u00f3 que para desenvolver as habilidades para tocar um instrumento com flu\u00eancia ou escrever uma sinfonia, por exemplo, \u00e9 de fato necess\u00e1rio muito trabalho e muita dedica\u00e7\u00e3o. E a\u00ed entram quest\u00f5es das prefer\u00eancias, das habilidades naturais e da motiva\u00e7\u00e3o. \u00c9 normal que alguns se dediquem a isso e que de fato se tornem grandes m\u00fasicos e grandes instrumentistas e outros, por mais que gostem de m\u00fasica, acabem indo por outros caminhos.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p>Os humanos s\u00e3o seres musicais. Beb\u00eas s\u00e3o capazes de perceber regularidades nos pulsos r\u00edtmicos, reagem emocionalmente \u00e0 m\u00fasica<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p>G |O que a ci\u00eancia j\u00e1 sabe das vantagem da pr\u00e1tica musical em outras \u00e1reas n\u00e3o musicais?<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p>PV |<\/p>\n<p>Que o envolvimento musical \u00e9 capaz de produzir altera\u00e7\u00f5es no nosso sistema nervoso, tanto do ponto de vista estrutural quanto funcional. A gente fala em neuroplasticidade, uma caracter\u00edstica organizacional que \u00e9 fundamental para o sistema nervoso e que permite que ele se modifique em resposta a mudan\u00e7as na estimula\u00e7\u00e3o ambiental. Esses processos neuropl\u00e1sticos s\u00e3o observados ao longo da vida \u2014 por isso que \u00e9 poss\u00edvel come\u00e7ar a estudar um instrumento mais tarde. A escuta musical tamb\u00e9m induz mudan\u00e7as neuropl\u00e1sticas, mas s\u00e3o de curto prazo e o processo de treinamento e de aquisi\u00e7\u00e3o de expertise musical, por outro lado, pode induzir altera\u00e7\u00f5es neuropl\u00e1sticas que s\u00e3o permanentes. O treinamento musical promove altera\u00e7\u00f5es em \u00e1reas auditivas, \u00e1reas de integra\u00e7\u00e3o multimodal, no corpo caloso \u2014 esse feixe de fibras que conecta os dois hemisf\u00e9rios do c\u00e9rebro \u2013, em \u00e1reas frontais envolvidas na linguagem, na mem\u00f3ria operacional, em estruturas subcorticais e at\u00e9 no tronco encef\u00e1lico. S\u00f3 que essas diferen\u00e7as anat\u00f4micas e funcionais, que a gente observa quando a gente compara os indiv\u00edduos com e sem treinamento musical, t\u00eam que ser interpretadas com muito cuidado, porque elas podem resultar tanto da plasticidade induzida pelos anos de treinamento, especialmente se ocorreu durante a inf\u00e2ncia, como de diferen\u00e7as anat\u00f4micas pr\u00e9-existentes, que poderiam predispor certas pessoas a se dedicarem \u00e0 pr\u00e1tica musical.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p>G |Ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 certo fazer uma rela\u00e7\u00e3o direta entre a pr\u00e1tica musical e habilidades cognitivas em outras \u00e1reas?<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p>PV |<\/p>\n<p>Como o treinamento musical envolve todo esse nosso aparato neurobiol\u00f3gico, a gente de fato pode pensar se n\u00e3o ajuda em outras \u00e1reas. \u00c9 uma pergunta inevit\u00e1vel. De fato o treinamento musical traz alguns benef\u00edcios, mas os estudos t\u00eam que ser interpretados com cautela. Associa\u00e7\u00f5es n\u00e3o significam causa. Precisa haver estudos longitudinais. Pode ser que as pessoas j\u00e1 tenham de in\u00edcio mais motiva\u00e7\u00e3o, mais facilidade nessas \u00e1reas cognitivas que est\u00e3o sendo avaliadas. Muito tem se tentado justificar o ensino musical nas escolas com o argumento de que pode beneficiar habilidades cognitivas relacionadas a outras disciplinas. O ensino musical pode trazer benef\u00edcios em si mesmo por ser uma atividade complexa e desafiadora, que envolve m\u00faltiplos processos cognitivos, afetivos. Pode ampliar as possibilidades de express\u00e3o e promover o desenvolvimento humano de uma forma mais ampla, al\u00e9m de proporcionar a oportunidade de expans\u00e3o do universo de experi\u00eancias est\u00e9ticas, por exemplo.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p>G |Vez por outra nos deparamos com alguma declara\u00e7\u00e3o de cantor ou compositor famoso dizendo que a m\u00fasica atual \u00e9 muito ruim, que j\u00e1 n\u00e3o se faz m\u00fasica de qualidade. Por que h\u00e1 essa rejei\u00e7\u00e3o ao que \u00e9 novo?<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p>PV |<\/p>\n<p>\u00c9 muito comum a gente encontrar essa categoriza\u00e7\u00e3o. Eu, pelo menos, n\u00e3o gosto de separar as coisas dessa forma. Gosto de pensar que h\u00e1 m\u00fasica boa e m\u00fasica ruim mas, mesmo assim, quando fa\u00e7o essa separa\u00e7\u00e3o tenho que ter crit\u00e9rios. E, nesse caso, entra muito da prefer\u00eancia de cada um. Lembrando o que eu falei antes, se voc\u00ea come\u00e7a a compartimentar dessa forma, acaba se distanciando da ideia de que a m\u00fasica \u00e9 algo que nos torna humanos. Todo mundo tem direito a fazer m\u00fasica porque todo mundo \u00e9 musical. Cada um se expressa como pode e faz o que quer. A gente n\u00e3o tem direito de julgar se uma m\u00fasica \u00e9 melhor do que a outra de forma impositiva. O que eu julgo bom ou ruim \u00e9 um term\u00f4metro meu, com crit\u00e9rios que fazem sentido para mim. Acho muito discriminat\u00f3rio colocar esses r\u00f3tulos.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: M\u00fasica e neuroci\u00eancia com especialista da UFABC \u2014 Gama Revista. Link: https:\/\/gamarevista.uol.com.br\/semana\/que-ce-ta-ouvindo\/musica-e-neurociencia\/?utm_source=NexoNL&amp;utm_medium=Email&amp;utm_campaign=OQEL<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Amauri Arrais &#8211; Das cantorias nas varandas ao retorno dos shows em eventos-teste, passando pelo boom das lives, a impress\u00e3o \u00e9 de que a m\u00fasica nunca foi t\u00e3o importante quanto agora, uma ferramenta indispens\u00e1vel para atravessar a pandemia. Nada muito novo para quem se dedica h\u00e1 anos a estudar os efeitos dos acordes no c\u00e9rebro. 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