{"id":15945,"date":"2021-10-31T12:57:22","date_gmt":"2021-10-31T15:57:22","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=15945"},"modified":"2021-10-27T14:00:03","modified_gmt":"2021-10-27T17:00:03","slug":"uma-outra-historia-do-neoliberalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2021\/10\/31\/uma-outra-historia-do-neoliberalismo\/","title":{"rendered":"Uma outra hist\u00f3ria do neoliberalismo"},"content":{"rendered":"<p><strong>Christian Laval, Haud Gu\u00e9guen e Pierre Sauv\u00eatre &#8211; <\/strong><em>Lan\u00e7ado no Brasil no mesmo ano em que saiu em franc\u00eas, A escolha de guerra civil: uma outra hist\u00f3ria do neoliberalismo, de Pierre Dardot, Haud Gu\u00e9guen, Christian Laval &amp; Pierre Sauv\u00eatre, oferece caminhos in\u00e9ditos e essenciais para o entendimento da conjuntura pol\u00edtica mundial e nacional. Isso porque os autores fizeram um trabalho ao qual poucos intelectuais de esquerda se dispuseram: mergulhar nas ra\u00edzes te\u00f3ricas do neoliberalismo. Estudaram profundamente a obra de Hayek e Mises, t\u00e3o celebrados pela extrema direita brasileira, al\u00e9m de resgatar epis\u00f3dios marcantes da hist\u00f3ria de governos identificados com essas ideias, entre eles Pinochet e Thatcher, bem como a forma\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Europeia e as duras medidas de ajuste empreendidas pelos partidos trabalhistas e socialistas tradicionais.<\/em><\/p>\n<p><em>O resultado \u00e9 um livro que disseca o neoliberalismo n\u00e3o como um regime de governo, mas como uma estrat\u00e9gia de defesa incondicional do mercado e de combate aos ideais de igualdade em todas as suas formas: do sindicalismo ao socialismo, passando pelo estado de bem-estar social e, inclusive, pelo liberalismo tradicional \u2014 que os neoliberais veem como um caminho inevit\u00e1vel ao totalitarismo. Para defender suas bandeiras, o neoliberalismo, ao contr\u00e1rio do que se apregoa nos discursos mainstream, precisa de um Estado forte, pois \u00e9 o poder p\u00fablico que dever\u00e1 defender o predom\u00ednio d<\/em><em>as leis de mercado<\/em><em>, custe o que custar. N\u00e3o h\u00e1 qualquer apre\u00e7o \u00e0 democracia ou \u00e0 vontade popular: o ideal \u00e9 barrar, por meio da\u00a0<\/em><em>lei\u00a0<\/em><em>ou da viol\u00eancia, qualquer m\u00ednima interfer\u00eancia nas leis da economia, vistas como sagradas e naturais pelos ide\u00f3logos neoliberais. A escolha da guerra civil demonstra que fen\u00f4menos como Trump e Bolsonaro n\u00e3o s\u00e3o formas desviantes do neoliberalismo.\u00a0<\/em><em>P<\/em><em>elo contr\u00e1rio: desempenham governos muito coerentes com sua hist\u00f3ria.\u00a0<\/em><em>\u00c9 o que expressa a entrevisata a seguir, concedida por tr\u00eas dos autores do livro \u00e0 revista francesa \u201c<a href=\"http:\/\/www.diacritik.org\/\">Diacritik<\/a>\u201d<\/em>\u00a0<em>(Tadeu Breda, editor da\u00a0Elefante\u00a0e colaborador de\u00a0Outras Palavras)<\/em><\/p>\n<p><strong>Para come\u00e7ar,\u00a0<\/strong><strong>parece\u00a0<\/strong><strong>necess\u00e1rio esclarecer o significado da express\u00e3o \u201cguerra civil\u201d.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Pierre Sauv\u00eatre<\/strong><strong>:<\/strong>\u00a0Deve ficar claro desde o in\u00edcio que n\u00e3o empregamos o termo de acordo com seus usos mais comuns. O conceito de guerra civil \u00e9 muitas vezes estruturado por duas oposi\u00e7\u00f5es: a guerra civil interna se op\u00f5e \u00e0 guerra entre Estados, \u2013 externa \u2013 porque \u00e9 o confronto armado entre cidad\u00e3os de um mesmo Estado. E a guerra civil se op\u00f5e \u00e0 pol\u00edtica porque \u00e9 uma explos\u00e3o de viol\u00eancia sem regra, enquanto a pol\u00edtica \u00e9 a suspens\u00e3o da viol\u00eancia pelo poder da lei. Hobbes via a guerra civil como uma \u201cguerra de todos contra todos\u201d, pr\u00f3pria do \u201cestado de natureza\u201d \u00e0 qual a ordem contratual do Estado colocava um freio, mas para a qual os indiv\u00edduos voltariam se algum dia o Estado viesse a se dissolver. A guerra civil e a pol\u00edtica eram, portanto, mutuamente exclusivas para ele.<\/p>\n<p>Numa outra dire\u00e7\u00e3o, nos inspiramos nos desdobramentos de Foucault em sua palestra<em>\u00a0\u201cLa soci\u00e9t\u00e9 punitive\u201d\u00a0<\/em>(A Sociedade Punitiva) para questionar essas oposi\u00e7\u00f5es no caso do neoliberalismo. Em primeiro lugar, a guerra civil interna n\u00e3o \u00e9 distinta da guerra entre Estados mas, ao contr\u00e1rio, \u00e9 sua continuidade. Prevendo os esfor\u00e7os necess\u00e1rios para acabar com a greve dos mineiros brit\u00e2nicos, a pr\u00f3pria Margaret Thatcher estabeleceu em julho de 1984 a continuidade entre esses dois tipos de guerra: \u201cTivemos que lutar contra o inimigo externo, nas Malvinas. Agora devemos tamb\u00e9m estar conscientes do inimigo interno, que \u00e9 muito mais dif\u00edcil de combater e muito mais perigoso para a liberdade.\u201d A guerra civil, ent\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 uma guerra entre indiv\u00edduos, mas entre coletivos que se constituem por sua pr\u00f3pria encena\u00e7\u00e3o. Nesse sentido, a guerra civil neoliberal, ao contr\u00e1rio do que poderia ser a\u00a0<em>stasis<\/em>\u00a0(disc\u00f3rdia) para os gregos, n\u00e3o \u00e9 a amea\u00e7a permanente de dissolu\u00e7\u00e3o do corpo social que motiva a pol\u00edtica como constru\u00e7\u00e3o consensual da\u00a0<em>P\u00f3lis<\/em>, mas \u00e9 o produto das rela\u00e7\u00f5es de poder e do exerc\u00edcio do governo. Nesse sentido, identificamos a unidade do neoliberalismo no movimento de impor uma ordem de mercado por meio de uma \u201cpol\u00edtica de guerra civil\u201d. J\u00e1 sua variedade hist\u00f3rica s\u00e3o as v\u00e1rias \u201cestrat\u00e9gias de guerra civil\u201d, associadas a inimigos em constante mudan\u00e7a (o socialismo, os sindicatos, o Estado do Bem Estar Social, os ativistas da contracultura, as mulheres, as minorias, o precariado) por meio das quais ele tentou estabelecer essa ordem em contextos hist\u00f3ricos espec\u00edficos.<\/p>\n<p><strong>Ent\u00e3o, n\u00e3o se trata de uma guerra real?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Pierre Sauv\u00eatre<\/strong>: Embora n\u00e3o concebamos a guerra civil como um confronto armado entre dois setores da popula\u00e7\u00e3o, n\u00e3o atribu\u00edmos ao termo \u201cguerra\u201d um significado metaf\u00f3rico. Este termo pretende destacar a viol\u00eancia f\u00edsica aberta que os governos neoliberais podem usar para neutralizar seus inimigos. O caso do Chile de Pinochet \u00e9 \u00f3bvio, o da repress\u00e3o aos\u00a0<em>Coletes Amarelos<\/em>\u00a0tamb\u00e9m. Em geral, esse termo tamb\u00e9m se refere \u00e0 crescente militariza\u00e7\u00e3o dos aparatos repressivos e dos m\u00e9todos de repress\u00e3o interna dos movimentos sociais. Mas essas guerras s\u00e3o inseparavelmente \u201ccivis\u201d em dois sentidos distintos. Por um lado, porque n\u00e3o mobilizam apenas meios militares, mas tamb\u00e9m meios pol\u00edticos, jur\u00eddicos ou culturais para enfraquecer os seus inimigos: pensemos nos termos jur\u00eddicos da pr\u00e1tica cada vez mais comum do\u00a0<em>lawfare<\/em>\u00a0ou em termos de valores culturais nos recentes ataques ao\u00a0<em>\u201cIslamo-esquerdismo\u201d<\/em>\u00a0e a\u00a0<em>\u201cn\u00e3o-mistura\u201d<\/em>. E, por outro lado, apoiando-se na l\u00f3gica da constitui\u00e7\u00e3o de um inimigo interno, essas estrat\u00e9gias re\u00fanem em torno de si coaliz\u00f5es sociais cujos afetos s\u00e3o mobilizados por essas guerras sem que elas mantenham qualquer interesse com os objetivos de \u201csecuritiza\u00e7\u00e3o\u201d do capitalismo neoliberal.<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea<\/strong><strong>s<\/strong><strong>\u00a0analisa<\/strong><strong>m<\/strong><strong>\u00a0com precis\u00e3o os discursos dos principais te\u00f3ricos do neoliberalismo. Cito, entre eles, Ludwig von Mises e, \u00e9 claro, Friedrich Hayek. Voc\u00ea<\/strong><strong>s<\/strong><strong>\u00a0mostra<\/strong><strong>m<\/strong><strong>,\u00a0<\/strong><strong>sobre\u00a0<\/strong><strong>este \u00faltimo, seu papel nos regimes de Pinochet e Margaret Thatcher. Na verdade, entende-<\/strong><strong>se\u00a0<\/strong><strong>que o neoliberalismo se op\u00f5e antes de tudo ao povo, e voc\u00ea fala at\u00e9 em demofobia.\u00a0<\/strong><strong>O que podemos entender com esta express\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Haud Gu\u00e9guen:<\/strong>\u00a0Certa lenda pol\u00edtica diz que o neoliberalismo \u00e9 uma doutrina que, ao se opor a toda forma de intervencionismo estatal e ao permitir a liberdade individual e o livre mercado, seria uma defesa da democracia contra as tend\u00eancias totalit\u00e1rias do Estado. Falar em \u201cdemofobia\u201d \u00e9, pelo contr\u00e1rio, recordar uma dimens\u00e3o central do neoliberalismo doutrinal e governamental, que \u00e9 a sua profunda desconfian\u00e7a do povo e de qualquer forma de democracia ilimitada. Em uma obra de 1929 intitulada \u201c<em>La mystique d\u00e9mocratique<\/em>\u201d (A M\u00edstica Democr\u00e1tica), Louis Rougier postulou uma distin\u00e7\u00e3o entre duas formas de democracia, que se tornaria fundamental para todas as correntes neoliberais. A distin\u00e7\u00e3o entre a democracia fundada no conceito de \u201csoberania popular\u201d que, para ele, s\u00f3 poderia levar ao \u201ctotalitarismo\u201d, e a democracia \u201cliberal\u201d que, com base na limita\u00e7\u00e3o dos poderes dos governos visa, ao contr\u00e1rio, impedir qualquer usurpa\u00e7\u00e3o das massas na ordem do mercado.<\/p>\n<p>De \u201cOrdoliberais\u201d como Hayek, Mises, Lippmann aos partid\u00e1rios [da Escola] do\u00a0<em>Public Choice<\/em>\u00a0(Escolha P\u00fablica), este \u00e9 um ponto fundamental de consenso para todos os te\u00f3ricos neoliberais. Isso foi evidenciado pela maneira como todas essas correntes saudaram o golpe militar de Pinochet em 1973. A ideia de que o ordenamento da livre concorr\u00eancia exigido para o funcionamento do mercado s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel sob condi\u00e7\u00e3o de neutraliza\u00e7\u00e3o radical do poder das \u201cmassas\u201d \u00e9 um grande lugar-comum do movimento conservador, que considera o povo como inculto, ganancioso e, portanto, incapaz de se governar. Quando, em\u00a0<em>D<\/em><em>ireito, Legisla\u00e7\u00e3o e Liberdade,\u00a0<\/em>Hayek explica que o verdadeiro valor da democracia \u00e9 proteger \u201ccontra o abuso de poder\u201d, sustenta que esta n\u00e3o poderia, portanto, representar \u201co mais alto valor pol\u00edtico\u201d e que \u201cuma democracia sem limites poderia ser algo pior que governos limitados, ainda que n\u00e3o democr\u00e1ticos \u201d. Assim, ele apenas expressa essa convic\u00e7\u00e3o neoliberal de que a democracia s\u00f3 tem valor relativo. A democracia liberal \u00e9 apenas uma op\u00e7\u00e3o entre outras mais abertamente autorit\u00e1rias, como a ditadura \u2013 fantasma com o qual conta para inviabilizar qualquer projeto de regula\u00e7\u00e3o da ordem de mercado por meio de sua constitucionaliza\u00e7\u00e3o<em>.<\/em><\/p>\n<p>\u00c9, no entanto, importante notar que esta oposi\u00e7\u00e3o de princ\u00edpio a qualquer forma de soberania popular foi imediatamente acompanhada por uma importante reflex\u00e3o estrat\u00e9gica sobre os meios de ganhar o apoio popular para poder, por assim dizer, voltar o povo contra si mesmo. A principal caracter\u00edstica das massas \u00e9, aos olhos dos neoliberais, a incapacidade de pensarem por si mesmas. Por isso, o esquema sugere que as elites as conduzam, de forma a neutralizar ou desativar o perigo democr\u00e1tico. Todas as reflex\u00f5es de Walter Lippmann sobre o papel dos especialistas na constru\u00e7\u00e3o da opini\u00e3o p\u00fablica a partir dos anos 1920 est\u00e3o intimamente relacionadas a essa quest\u00e3o estrat\u00e9gica, que definitivamente n\u00e3o perdeu sua atualidade.<\/p>\n<p><strong>O\u00a0<\/strong><strong>livro, portanto, se op\u00f5e a uma s\u00e9rie de lugares-comuns que dizem respeito ao neoliberalismo. Entre eles est\u00e1 o\u00a0<\/strong><strong>descompromisso em rela\u00e7\u00e3o a<\/strong><strong>o Estado. O neoliberalismo significa\u00a0<\/strong><strong>este descompromisso\u00a0<\/strong><strong>ou uma redefini\u00e7\u00e3o d<\/strong><strong>as rela\u00e7\u00f5es entre Estado e<\/strong><strong>\u00a0sociedade?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Pierre Sauv\u00eatre<\/strong>: Uma das ideias centrais que j\u00e1 estava em\u00a0<em>La nouvelle raison du monde<\/em>, e que \u00e9 refor\u00e7ada neste livro, \u00e9 que o neoliberalismo opera uma grande ruptura na rela\u00e7\u00e3o do Estado com o liberalismo e na concep\u00e7\u00e3o deste \u00faltimo, de um Estado m\u00ednimo n\u00e3o-intervencionista. As ideias de que o mundo atual seria caracterizado pelo desengajamento dos liberais, e de que Estado e seria apenas dominado pelo mercado mundial e pelo peso das multinacionais \u2013 a hip\u00f3tese do\u00a0<em>\u201cultraliberalismo\u201d<\/em>\u00a0\u2013 \u00e9 questionada por todas as posi\u00e7\u00f5es intelectuais dos neoliberais a partir da interven\u00e7\u00e3o maci\u00e7a e permanente dos Estados-Na\u00e7\u00f5es nas sociedades contempor\u00e2neas. A ascens\u00e3o do neoliberalismo nacionalista e a crise do Covid-19 refor\u00e7aram ainda mais esta tend\u00eancia.<\/p>\n<p>Em \u201c<em>La nouvelle raison du monde\u201d<\/em>\u00a0j\u00e1 especific\u00e1vamos como a concep\u00e7\u00e3o neoliberal do Estado se baseava, na sua rela\u00e7\u00e3o com a economia, em um intervencionismo especificamente neoliberal e diametralmente oposto ao intervencionismo social, redefinindo completamente a rela\u00e7\u00e3o entre a sociedade e o Estado. Enquanto o intervencionismo do Bem-Estar Social fez do Estado um meio de coordenar as demandas sociais para regular o mercado, o intervencionismo neoliberal consiste em moldar as institui\u00e7\u00f5es e a sociedade para se adaptarem ao mercado. Trata-se de um intervencionismo jur\u00eddico que procura facilitar o funcionamento do mercado com base na norma da concorr\u00eancia, um intervencionismo gerencial que transforma os servi\u00e7os p\u00fablicos no modelo de empresa e um intervencionismo societ\u00e1rio que pretende fazer de cada indiv\u00edduo um \u201cempres\u00e1rio de a si mesmo\u201d para usar a f\u00f3rmula de Foucault. Nessa vis\u00e3o, o Estado n\u00e3o \u00e9 mais um instrumento democr\u00e1tico para a sociedade, mas um soberano que molda uma sociedade de concorr\u00eancia para o mercado.<\/p>\n<p>Em \u201c<em>Le Choix de la Guerre Civile<\/em>\u201d, voltamos ao lado negativo desse intervencionismo construtivo do Estado neoliberal, a saber, a concep\u00e7\u00e3o de um \u201cEstado forte\u201d teorizado pela primeira vez por Carl Schmitt e retomado por todos os fundadores do neoliberalismo. Para que o intervencionismo neoliberal alcance a plena integra\u00e7\u00e3o da sociedade ao mercado, devem ser tomadas medidas para proteger o mercado das demandas democr\u00e1ticas por justi\u00e7a social. Este \u00e9 o papel que cabe ao Estado forte, que se v\u00ea como um Estado acima da sociedade e da democracia, de forma alguma subordinado a elas, e que deve por todos os meios impedir que as massas se apoderem do destino da economia. Ele est\u00e1, portanto, intimamente ligado \u00e0 \u201cdemofobia\u201d neoliberal e foi feito para combater a \u201cf\u00faria democr\u00e1tica\u201d, como diz R\u00f6pke. As principais tarefas que os neoliberais lhe atribuem s\u00e3o o desmantelamento do Estado de Bem-Estar Social, a recusa em ceder \u00e0s press\u00f5es dos interesses sociais, o uso da viol\u00eancia contra quem prejudica o funcionamento do mercado e o estabelecimento da ditadura quando a sobreviv\u00eancia da economia livre est\u00e1 amea\u00e7ada. O estabelecimento de uma ordem jur\u00eddica e institucional para garantir o mercado e a viol\u00eancia do Estado contra a democracia e a sociedade s\u00e3o as duas faces complementares que marcam os contornos do Estado neoliberal.<\/p>\n<p><strong>Isso significa um Estado forte, dentro do que se pode chamar de uma esp\u00e9cie de pol\u00edcia jur\u00eddica geral.\u00a0<\/strong><strong>Voc\u00ea aceitaria essa express\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Pierre Sauv\u00eatre:<\/strong>\u00a0Como acabamos de ver, o Estado forte n\u00e3o se limita a uma dimens\u00e3o jur\u00eddica, mas tamb\u00e9m se trata de uma concep\u00e7\u00e3o da manuten\u00e7\u00e3o da ordem pol\u00edtica e social e, portanto, o Estado policial sustenta o arcabou\u00e7o jur\u00eddico do neoliberalismo que coloca o direito privado em seu topo. Alexander R\u00fcstow escreveu: \u201cDesde o in\u00edcio, atribu\u00edmos ao Estado forte e independente a tarefa fundamental de policiar o mercado para garantir a liberdade econ\u00f4mica e a plena competi\u00e7\u00e3o\u201d. Portanto, se queremos falar de \u201cpol\u00edcia jur\u00eddica\u201d, seria no sentido das fun\u00e7\u00f5es policiais necess\u00e1rias \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o da ordem jur\u00eddica do mercado. No entanto, poder\u00edamos questionar se a situa\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea n\u00e3o vai al\u00e9m de uma \u201cpol\u00edcia em defesa do mercado\u201d ou de uma \u201cpol\u00edcia legal\u201d, quando, por exemplo, evocamos no cap\u00edtulo 10 do livro a forma de \u201ccontra-insurg\u00eancia\u201d que a pol\u00edtica de manuten\u00e7\u00e3o da ordem passou a ter nos \u00faltimos anos, como vemos na repress\u00e3o aos Coletes Amarelos. O que estamos testemunhando [na Fran\u00e7a], com as disposi\u00e7\u00f5es sobre a proibi\u00e7\u00e3o da ocupa\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>campi<\/em>\u00a0universit\u00e1rios do projeto de lei LPR ou da Lei de Seguran\u00e7a Global \u00e9 a forma\u00e7\u00e3o de um Direito de contra-insurg\u00eancia que aproveita as situa\u00e7\u00f5es de guerra civil, elas pr\u00f3prias acionadas pelos governos para definir qualquer disputa como ilegal no futuro. Em vez de uma \u201cpol\u00edcia jur\u00eddica\u201d, pode-se falar de uma \u201cdireito policial de mercado\u201d que est\u00e1 tomando forma.<\/p>\n<p><strong>O \u00f3dio ao povo, que mencionamos anteriormente, n\u00e3o \u00e9 mascarado pelo vocabul\u00e1rio e pelo uso da comunica\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Christian Laval:<\/strong>\u00a0O que os textos te\u00f3ricos que citamos mostram e nos quais os principais autores admitem sua demofobia, \u00e9 um medo apavorante das massas, \u00e9 o terror diante do perigo que representariam se um dia elas pensarem por si pr\u00f3prias e quiserem impor pol\u00edticas e construir institui\u00e7\u00f5es que lhes fossem mais favor\u00e1veis \u200b\u200be sobre as quais exercessem controle. Essa demofobia \u00e9 mascarada por um discurso de desqualifica\u00e7\u00e3o das massas. \u00c9 bastante \u00f3bvio que um pol\u00edtico n\u00e3o pode dizer abertamente o que os te\u00f3ricos neoliberais podem admitir em seus livros. Ele n\u00e3o pode repetir, nos mesmos termos o que Mises, Rougier ou Hayek pensam sobre as massas, de forma bastante crua inclusive, de sua incapacidade de respeitar a mais fundamental lei da vida econ\u00f4mica: liberdade de empresa, propriedade, competi\u00e7\u00e3o. Portanto, os governantes devem usar uma comunica\u00e7\u00e3o mais eufem\u00edstica, que \u00e9 a linguagem dos especialistas, tecnocratas, cientistas. A comunica\u00e7\u00e3o oficial de poderes, e sem d\u00favida foi Lippmann quem melhor a explicou, obviamente tem uma tarefa muito complexa, pois deve convencer a \u201copini\u00e3o p\u00fablica\u201d, idealizada em um regime que se pretende democr\u00e1tico, de que ela n\u00e3o deve prevalecer sobre o perito que sabe melhor do que ela o que \u00e9 bom para a sociedade. A arte pol\u00edtica do neoliberalismo consiste, portanto, em desqualificar as massas e em desacreditar tudo o que \u00e9 do interesse da maioria, mas sem poder diz\u00ea-lo aberta ou diretamente. Temos um bom exemplo disso com o uso desqualificador do termo \u201cpopulismo\u201d hoje. Na Fran\u00e7a, isso \u00e9 antigo. Um dos primeiros governos a reivindicar o neoliberalismo, na \u00e9poca de Giscard d\u2019Estaing, foi o de Raymond Barre, o \u201cprimeiro economista da Fran\u00e7a\u201d. Tratava-se de governar de acordo com as leis cient\u00edficas da economia, apenas. O que mostramos em nosso livro \u00e9 a exist\u00eancia de outro aspecto da comunica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que acompanha as estrat\u00e9gias neoliberais, que Stuart Hall havia analisado na Inglaterra como o \u201cpopulismo autorit\u00e1rio\u201d de Thatcher. Como podemos ver, trata-se de compreender a comunica\u00e7\u00e3o neoliberal como uma articula\u00e7\u00e3o entre um discurso\u00a0<em>\u201cexpertocr\u00e1tico\u201d<\/em>\u00a0e um discurso com matizes populistas, mas um populismo muito particular, de tipo tradicionalista, nacionalista, at\u00e9 mesmo comunitarista.<\/p>\n<p><strong>Mesmo que alguns te\u00f3ricos estejam comprometidos com o fascismo italiano ou com o Chile\u00a0<\/strong><strong>(de Pinochet), voc\u00ea tem o\u00a0<\/strong><strong>cuidado de n\u00e3o equiparar o fascismo ao neoliberalismo. Em particular, voc\u00ea diz que a principal diferen\u00e7a diz respeito \u00e0 estrat\u00e9gia de reten\u00e7\u00e3o do poder. Como \u00e9 isso?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Christian Laval:<\/strong>\u00a0N\u00e3o \u00e9 exatamente assim. N\u00f3s acreditamos que os governos neoliberais far\u00e3o uso de todos os meios \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o para se manter no poder, a fim de defender a ordem do mercado e at\u00e9 ampli\u00e1-la a todas as rela\u00e7\u00f5es sociais, a todas as institui\u00e7\u00f5es. Incluindo viol\u00eancia aberta, repress\u00e3o contra oponentes, e a cria\u00e7\u00e3o das leis mais liberticidas. N\u00e3o compreender\u00edamos o decl\u00ednio quase universal das liberdades no mundo se n\u00e3o entend\u00eassemos o v\u00ednculo que isso tem com a necessidade de os governos submeterem as popula\u00e7\u00f5es \u00e0 \u201cgrande lei do mundo\u201d, e isso por todos os meios. Mas trata-se daquele \u201cfascismo\u201d hist\u00f3rico do entreguerras? N\u00e3o estamos confundindo muito frequentemente \u201cm\u00e9todos fascistas\u201d, l\u00f3gica fascista, gangues fascistas, digamos mesmo um estilo fascista de manipular multid\u00f5es, como vimos em funcionamento nos Estados Unidos, no Brasil ou em qualquer outro lugar, e o fascismo hist\u00f3rico? Alguns autores que discutimos no livro falam de \u201cfascismo neoliberal\u201d ou \u201cneoliberalismo fascista\u201d. Insistimos, de nossa parte, num ponto importante: o neoliberalismo \u00e9 o portador da viol\u00eancia contra a sociedade pelo pr\u00f3prio fato de ser um projeto pol\u00edtico de transforma\u00e7\u00e3o dela que n\u00e3o sup\u00f5e o consentimento informado e l\u00facido das pessoas quanto aos objetivos e consequ\u00eancias desta transforma\u00e7\u00e3o. Mas este projeto pol\u00edtico n\u00e3o \u00e9 o do fascismo hist\u00f3rico, mesmo que possa usar m\u00e9todos \u201cautorit\u00e1rios\u201d que se assemelham a ele. A tarefa n\u00e3o \u00e9 jogar com semelhan\u00e7as e analogias, mas identificar a singularidade hist\u00f3rica do neoliberalismo como um conjunto de estrat\u00e9gias voltadas para estabelecer, proteger e expandir a ordem de mercado. Sob esse \u00e2ngulo, devemos concordar que estamos muito longe do projeto fascista de controle total da popula\u00e7\u00e3o nas organiza\u00e7\u00f5es de massa, de submiss\u00e3o de todas as institui\u00e7\u00f5es ao Partido-Estado, de conquistas territoriais do \u201cpovo superior\u201d para expandir seu espa\u00e7o vital (<em>lebensraum<\/em>) e, sobretudo, a absor\u00e7\u00e3o da economia pelo Estado total. N\u00e3o exclu\u00edmos, no entanto, que uma nova forma de fascismo possa surgir no horizonte, atrav\u00e9s da exacerba\u00e7\u00e3o das tens\u00f5es e frustra\u00e7\u00f5es geradas pela l\u00f3gica do neoliberalismo. O fim do projeto neoliberal n\u00e3o ser\u00e1 necessariamente o que se espera dele.<\/p>\n<p><strong>O \u00faltimo cap\u00edtulo do livro \u00e9, digamos, mais l\u00edrico. Mostra que podemos opor a esta guerra civil \u201cuma estrat\u00e9gia de igualdade e democracia\u201d. Ent\u00e3o, h\u00e1 outra coisa que n\u00e3o seja ang\u00fastia no mundo, hoje?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Haud Gu\u00e9guen:<\/strong>\u00a0Depois de nos esfor\u00e7armos por analisar, por assim dizer, cl\u00ednica ou cirurgicamente as v\u00e1rias estrat\u00e9gias do neoliberalismo doutrinal e governamental, pareceu-nos importante que a conclus\u00e3o do trabalho n\u00e3o se contentasse em critic\u00e1-lo, mas tamb\u00e9m em se empenhar, em uma forma mais positiva ou propositiva, em delinear as principais caracter\u00edsticas do que uma alternativa real ao neoliberalismo poderia significar hoje. Fazendo refer\u00eancia \u00e0s experi\u00eancias que, como a Comuna de Paris, se propunham opor \u201crevolu\u00e7\u00e3o\u201d \u00e0 \u201cguerra civil\u201d \u2013 e, portanto, a n\u00e3o jogar o jogo da divis\u00e3o do povo contra si mesmo \u2013 trata-se de aproveitar ao m\u00e1ximo esse exerc\u00edcio de imagina\u00e7\u00e3o que consiste em sondar as lutas e as pr\u00e1ticas contempor\u00e2neas do ponto de vista das reais possibilidades e utopias que a\u00ed se desenvolvem, permitindo vislumbrar os contornos de uma ordem social alternativa \u00e0quela do mercado. \u00c0 utopia neoliberal de uma sociedade de mercado pura, agora em vias de se tornar plenamente real, propor uma utopia alternativa que assuma a promessa de emancipa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, social e individual que o neoliberalismo se prop\u00f4s a desmobilizar na redu\u00e7\u00e3o do significante\u00a0<em>\u201cliberdade\u201d<\/em>\u00a0ao seu significado estritamente econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, conv\u00e9m reavivar o sentido pleno da liberdade entendida no sentido de autonomia ou autogoverno, que deve se opor \u00e0 estrat\u00e9gia anti-igualit\u00e1ria e antidemocr\u00e1tica que \u00e9 constitutiva do neoliberalismo. Ent\u00e3o \u00e9 isso que propusemos definir como estrat\u00e9gia de igualdade e democracia radical. Com tal express\u00e3o, por\u00e9m, n\u00e3o se trata de reabilitar de forma puramente abstrata os ideais normativos contra os quais foi constru\u00eddo o projeto neoliberal, na medida em que este \u00faltimo se baseia no que se poderia, inspirando-se em Ranci\u00e8re, chamar de \u201cpressuposto de desigualdade\u201d. Mais radicalmente, trata-se de atentar para a forma como, no plano ecol\u00f3gico, social e sanit\u00e1rio e na esfera dos movimentos feministas, todas as lutas contempor\u00e2neas nos convidam a n\u00e3o separar a exig\u00eancia de liberdade da exig\u00eancia de igualdade, tanto no n\u00edvel da participa\u00e7\u00e3o nos processos de delibera\u00e7\u00e3o e decis\u00e3o pol\u00edtica, quanto no n\u00edvel do acesso a recursos e servi\u00e7os coletivos. Se a situa\u00e7\u00e3o atual pode inegavelmente parecer terr\u00edvel em muitos aspectos, a \u00fanica maneira de n\u00e3o ficar preso na \u201cmelancolia de esquerda\u201d \u00e9 levar a s\u00e9rio o fato de que, longe de serem apenas reativas, as lutas contempor\u00e2neas s\u00e3o tamb\u00e9m espa\u00e7os onde s\u00e3o inventadas outra l\u00f3gica e outra estrat\u00e9gia que n\u00e3o a neoliberal. Uma racionalidade que, como muitos outros atores sociais e te\u00f3ricos, propomos vincular \u00e0 do Comum e que este livro convida a ver simultaneamente como uma estrat\u00e9gia anti-guerra civil.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Uma outra hist\u00f3ria do neoliberalismo &#8211; Outras Palavras. 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