{"id":15936,"date":"2021-10-27T12:55:03","date_gmt":"2021-10-27T15:55:03","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=15936"},"modified":"2021-10-24T09:56:38","modified_gmt":"2021-10-24T12:56:38","slug":"facebook-a-maior-autocracia-do-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2021\/10\/27\/facebook-a-maior-autocracia-do-mundo\/","title":{"rendered":"Facebook, a maior autocracia do mundo?"},"content":{"rendered":"<p><strong>Adrienne LaFrance &#8211; <\/strong>Em 1947, Albert Einstein, escrevendo ao\u00a0<em>The Atlantic<\/em>, prop\u00f4s a cria\u00e7\u00e3o de um governo mundial \u00fanico para proteger a humanidade da amea\u00e7a da bomba at\u00f4mica. Sua ideia ut\u00f3pica obviamente n\u00e3o se consolidou, mas hoje outro vision\u00e1rio est\u00e1 construindo seu simulacro de\u00a0<em>cosmocracia<\/em>.<\/p>\n<p>Mark Zuckerberg, ao contr\u00e1rio de Einstein, n\u00e3o inventou o Facebook por um senso de dever moral ou zelo pela paz mundial. Nos \u00faltimos meses, a popula\u00e7\u00e3o do regime supranacional de Zuckerberg atingiu 2,9 bilh\u00f5es de usu\u00e1rios ativos mensais, mais humanos do que vivem nas duas na\u00e7\u00f5es mais populosas do mundo \u2013 China e \u00cdndia \u2013 juntas.<\/p>\n<p>Para Zuckerberg, fundador e CEO do Facebook, eles s\u00e3o cidad\u00e3os da\u00a0<em>Facebookl<\/em><em>\u00e2<\/em><em>nd<\/em><em>ia<\/em>. H\u00e1 muito tempo, ele come\u00e7ou a cham\u00e1-los de \u201cpessoas\u201d em vez de \u201cusu\u00e1rios\u201d, mas ainda s\u00e3o engrenagens em uma imensa matriz social, fontes abundantes de dados para satisfazer os anunciantes que despejaram US$ 54 bilh\u00f5es no Facebook apenas no primeiro semestre de 2021: uma soma que supera o produto interno bruto da maioria das na\u00e7\u00f5es da Terra.<\/p>\n<p>Comparar o valor do Facebook com o PIB de pa\u00edses \u00e9 revelador n\u00e3o apenas porque aponta para seu poder extraordin\u00e1rio, mas porque assim podemos v\u00ea-lo como realmente \u00e9. O Facebook n\u00e3o \u00e9 apenas um site, uma plataforma, um editor, uma rede social, um diret\u00f3rio online, uma empresa, um utilit\u00e1rio. Ele \u00e9 todas essas coisas. Mas o Facebook tamb\u00e9m \u00e9, efetivamente, uma pot\u00eancia estrangeira hostil.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 f\u00e1cil de perceber ao notar seu foco \u00fanico na pr\u00f3pria expans\u00e3o; sua imunidade a qualquer senso de obriga\u00e7\u00e3o c\u00edvica; seu hist\u00f3rico de facilitar o enfraquecimento das elei\u00e7\u00f5es; sua antipatia pela imprensa livre; a insensibilidade e a arrog\u00e2ncia de seus governantes; e sua indiferen\u00e7a \u00e0 resist\u00eancia da democracia estadunidense.<\/p>\n<p>Alguns dos maiores cr\u00edticos do Facebook fazem press\u00e3o pela cria\u00e7\u00e3o de uma regulamenta\u00e7\u00e3o antitruste, o desenrolar de suas aquisi\u00e7\u00f5es e qualquer coisa que possa desacelerar seu poder, que cresce como uma bola de neve. Mas se voc\u00ea pensar no Facebook como um Estado-Na\u00e7\u00e3o \u2013 uma entidade engajada em uma guerra fria com os Estados Unidos e outras democracias \u2013 ver\u00e1 que isso requer uma estrat\u00e9gia de defesa civil tanto quanto a regulamenta\u00e7\u00e3o da Comiss\u00e3o de Valores Mobili\u00e1rios [ag\u00eancia norte-americana de regulamenta\u00e7\u00e3o e controle dos mercados financeiros].<\/p>\n<p>Hillary Clinton me disse no ano passado que sempre sentiu um cheiro de autoritarismo em Zuckerberg. \u201cSinto \u00e0s vezes como se estivesse negociando com uma pot\u00eancia estrangeira\u201d, disse ela. \u201cEle \u00e9 imensamente poderoso.\u201d Um de seus primeiros mantras no Facebook, de acordo com Sheera Frenkel e Cecilia Kang em seu livro,\u00a0<em>An Ugly Truth: Inside Facebook\u2019s Battle for Domination<\/em>\u00a0[2021, sem edi\u00e7\u00e3o no Brasil], era \u201cempresa acima do pa\u00eds\u201d. Quando essa empresa tem todo o poder de um pa\u00eds, essa ideia ganha um significado mais sombrio.<\/p>\n<p>Os componentes b\u00e1sicos da nacionalidade s\u00e3o mais ou menos esses: \u00e9 preciso ter terra, moeda, filosofia de governan\u00e7a e pessoas.<\/p>\n<p>Quando voc\u00ea \u00e9 um imperialista no\u00a0<em>metaverso<\/em>, n\u00e3o precisa se preocupar tanto com a \u00e1rea f\u00edsica \u2013 embora Zuckerberg possua 1.300 acres [526 hectsares] em Kauai, uma das ilhas havaianas menos povoadas. Quanto ao restante dos itens da lista, o Facebook tem todos.<\/p>\n<p>A empresa est\u00e1 desenvolvendo seu pr\u00f3prio dinheiro, um sistema de pagamento baseado em\u00a0<em>blockchain<\/em>\u00a0conhecido como\u00a0<em>Diem<\/em>\u00a0(antes era chamado de\u00a0<em>Libra<\/em>) que os reguladores financeiros e os bancos temiam que pudesse derrubar a economia global e dizimar o d\u00f3lar.<\/p>\n<p>E durante anos Zuckerberg falou sobre seus princ\u00edpios de governan\u00e7a para o imp\u00e9rio que construiu: \u201cConectividade \u00e9 um direito humano\u201d; \u201cVotar \u00e9 ter voz\u201d; \u201cAn\u00fancios pol\u00edticos s\u00e3o uma parte importante da voz\u201d; \u201cO grande arco da hist\u00f3ria humana inclina-se para que as pessoas se re\u00fanam em n\u00fameros cada vez maiores.\u201d Ele estendeu essas ideias em um novo tipo de colonialismo \u2013 com o Facebook efetivamente anexando territ\u00f3rios onde um grande n\u00famero de pessoas ainda n\u00e3o estava online. Seu pol\u00eamico programa\u00a0<em>Free Basics<\/em>, que oferecia \u00e0s pessoas acesso gratuito \u00e0 internet \u2013 desde que o Facebook fosse seu portal \u2013 foi anunciado como uma forma de ajudar a conectar as pessoas. Mas seu verdadeiro objetivo era fazer do Facebook a experi\u00eancia de internet\u00a0<em>de facto<\/em>\u00a0em pa\u00edses de todo o mundo.<\/p>\n<p>O que o Facebook possui acima de tudo, \u00e9 claro, s\u00e3o pessoas: uma popula\u00e7\u00e3o gigantesca de indiv\u00edduos que optam por viver sob o governo de Zuckerberg. Em seus escritos sobre o nacionalismo, o cientista pol\u00edtico e historiador Benedict Anderson sugeriu que as na\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o definidas por suas fronteiras, mas pela imagina\u00e7\u00e3o. A na\u00e7\u00e3o \u00e9, em \u00faltima an\u00e1lise, imagin\u00e1ria porque seus cidad\u00e3os \u201cnunca conhecer\u00e3o a maioria de seus companheiros, os encontrar\u00e3o ou mesmo ouvir\u00e3o falar deles, mas na mente de cada um vive a imagem de sua comunh\u00e3o\u201d. As comunidades, portanto, se distinguem acima de tudo \u201cpelo estilo em que s\u00e3o imaginadas\u201d.<\/p>\n<p>Zuckerberg sempre tentou fazer os usu\u00e1rios do Facebook se imaginarem como parte de uma democracia. \u00c9 por isso que ele se inclina mais para a linguagem da governan\u00e7a do que para o decreto corporativo. Em fevereiro de 2009, o Facebook revisou seus termos de servi\u00e7o para que os usu\u00e1rios n\u00e3o pudessem excluir seus dados, mesmo que fechassem o site. A raiva contra o estado de vigil\u00e2ncia do Facebook foi r\u00e1pida e alta, e Zuckerberg relutantemente reverteu a decis\u00e3o, dizendo que tudo tinha sido um mal-entendido. Ao mesmo tempo, apresentou em uma postagem no blog o conceito de uma Declara\u00e7\u00e3o de Direitos e Responsabilidades do Facebook, convidando as pessoas a compartilharem seus coment\u00e1rios \u2013 mas apenas se elas se inscrevessem com uma conta no Facebook.<\/p>\n<p>\u201cMais de 175 milh\u00f5es de pessoas usam o Facebook\u201d, escreveu \u00e0 \u00e9poca. \u201cSe fosse um pa\u00eds, seria o sexto pa\u00eds mais populoso do mundo. Nossos termos n\u00e3o s\u00e3o apenas um documento que protege nossos direitos; \u00e9 o documento que rege como o servi\u00e7o \u00e9 usado por todos em todo o mundo.\u201d<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, a popula\u00e7\u00e3o do Facebook aumentou para 17 vezes esse tamanho. Ao longo do caminho, Zuckerberg se lan\u00e7ou repetidamente como o chefe da na\u00e7\u00e3o do Facebook. Sua obsess\u00e3o com o dom\u00ednio do mundo parece previs\u00edvel, em retrospecto \u2013 sua inquieta\u00e7\u00e3o antiga com o Imp\u00e9rio Romano e com C\u00e9sar Augusto, a vers\u00e3o digital de\u00a0<em>Risk\u00a0<\/em>que ele codificou quando adolescente, seu interesse permanente em psicologia humana e cont\u00e1gio emocional.<\/p>\n<p>Em 2017, em um manifesto sinuoso sobre sua \u201ccomunidade global\u201d, Zuckerberg escreveu: \u201cNo geral, \u00e9 importante que a governan\u00e7a de nossa comunidade se dimensione com a complexidade e as demandas de seu povo. Temos o compromisso de sempre fazer melhor, mesmo que isso implique a constru\u00e7\u00e3o de um sistema de vota\u00e7\u00e3o mundial para dar a voc\u00ea mais voz e controle\u201d. Claro, como em qualquer neg\u00f3cio, os \u00fanicos votos que importam para o Facebook s\u00e3o os de seus acionistas. Mesmo assim, o Facebook sente a necessidade de disfar\u00e7ar seu comportamento em busca de lucro com falsos pretextos sobre os mesmos valores democr\u00e1ticos que amea\u00e7a.<\/p>\n<p>Fingir terceirizar suas decis\u00f5es mais importantes para esvaziar imita\u00e7\u00f5es de corpos democr\u00e1ticos tornou-se um mecanismo \u00fatil para Zuckerberg evitar a responsabiliza\u00e7\u00e3o. Ele controla cerca de 58% das a\u00e7\u00f5es com direito a voto da empresa, mas em 2018 o Facebook anunciou a cria\u00e7\u00e3o de uma esp\u00e9cie de bra\u00e7o judici\u00e1rio, conhecido, \u00e0 moda orwelliana, como\u00a0<em>Oversight Board<\/em>. O conselho faz chamadas dif\u00edceis em quest\u00f5es espinhosas que t\u00eam a ver com modera\u00e7\u00e3o de conte\u00fado. Em maio, proferiu a decis\u00e3o de manter a suspens\u00e3o de Donald Trump pelo Facebook. O Facebook diz que os membros do conselho s\u00e3o independentes, mas \u00e9 ele que os contrata e paga.<\/p>\n<p>Agora, de acordo com o\u00a0<em>The New York Times<\/em>, o Facebook est\u00e1 considerando formar uma esp\u00e9cie de corpo legislativo, uma comiss\u00e3o que poderia tomar decis\u00f5es sobre quest\u00f5es relacionadas \u00e0s elei\u00e7\u00f5es \u2013 preconceito pol\u00edtico, propaganda pol\u00edtica, interfer\u00eancia estrangeira. Isso desviaria ainda mais o escrut\u00ednio para longe da lideran\u00e7a do Facebook.<\/p>\n<p>Todos esses arranjos d\u00e3o a impress\u00e3o de um sistema de justi\u00e7a \u201cPotemkin\u201d, que revela o que o Facebook realmente \u00e9: um estado estrangeiro, povoado por pessoas sem soberania, governado por um l\u00edder com poder absoluto.<\/p>\n<p>Os defensores do Facebook gostam de argumentar que \u00e9 ing\u00eanuo sugerir que o poder do Facebook \u00e9 prejudicial. As redes sociais s\u00e3o algo que faz parte das nossas vidas, eles insistem, e n\u00e3o v\u00e3o embora t\u00e3o cedo. Est\u00e3o certos: ningu\u00e9m deveria desejar retornar aos ecossistemas de informa\u00e7\u00e3o dos anos 1980, 1940 ou 1880. A democratiza\u00e7\u00e3o da publica\u00e7\u00e3o \u00e9 maravilhosa. Ainda acredito que a tripla revolu\u00e7\u00e3o provocada pela internet, smartphones e m\u00eddias sociais foi ben\u00e9fica para a sociedade. Mas isso s\u00f3 \u00e9 verdade se insistirmos em plataformas que atendam ao interesse p\u00fablico. N\u00e3o \u00e9 o caso do Facebook.<\/p>\n<p>O Facebook \u00e9 um instrumento de dissemina\u00e7\u00e3o de mentiras para o colapso civilizacional. Ele \u00e9 projetado para rea\u00e7\u00f5es emocionais abruptas, reduzindo a intera\u00e7\u00e3o humana ao clique de bot\u00f5es. O algoritmo guia os usu\u00e1rios inexoravelmente em dire\u00e7\u00e3o a conte\u00fados menos matizados e mais extremos, porque isso \u00e9 o que mais eficientemente provoca emo\u00e7\u00f5es. Os usu\u00e1rios s\u00e3o treinados implicitamente para buscar rea\u00e7\u00f5es ao que postam, o que perpetua o ciclo. Os executivos do Facebook t\u00eam tolerado a promo\u00e7\u00e3o em sua plataforma de propaganda pol\u00edtica, recrutamento de terroristas e genoc\u00eddio. Eles apontam para virtudes democr\u00e1ticas como a liberdade de express\u00e3o para se defender, enquanto desmontam a pr\u00f3pria democracia.<\/p>\n<p>Essas hipocrisias j\u00e1 est\u00e3o t\u00e3o estabelecidas quanto a reputa\u00e7\u00e3o de crueldade de Zuckerberg. O Facebook conduziu experimentos psicol\u00f3gicos em seus usu\u00e1rios sem o consentimento deles. Construiu um sistema secreto em camadas para isentar seus usu\u00e1rios mais famosos de certas regras de modera\u00e7\u00e3o de conte\u00fado e censurou a pesquisa interna sobre os efeitos devastadores do Instagram na sa\u00fade mental de adolescentes. Rastreou indiv\u00edduos pela web, criando perfis de sombra de pessoas que nunca se cadastraram em sua rede para armazenar seus contatos. Jura combater a desinforma\u00e7\u00e3o, ao mesmo tempo que confunde os pesquisadores que estudam esses fen\u00f4menos e dilui o alcance das not\u00edcias de qualidade em suas plataformas.<\/p>\n<p>At\u00e9 mesmo os fi\u00e9is ao Facebook admitem que \u00e9 um lugar para lixo, hip\u00e9rboles, falsidade \u2013 mas argumentam que as pessoas deveriam ser livres para controlar a ingest\u00e3o de tais toxinas. \u201cEmbora o Facebook possa n\u00e3o ser nicotina, acho que provavelmente \u00e9 como o a\u00e7\u00facar\u201d, escreveu o antigo executivo da empresa, Andrew \u201cBoz\u201d Bosworth, em um memorando de 2019. \u201cComo com todas as coisas, n\u00f3s nos beneficiamos com a modera\u00e7\u00e3o\u2026 Se eu quiser comer a\u00e7\u00facar e morrer prematuramente, essa \u00e9 uma opini\u00e3o v\u00e1lida.\u201d<\/p>\n<p>O que Bosworth deixou de dizer \u00e9 que o Facebook n\u00e3o tem apenas a capacidade de envenenar o indiv\u00edduo, mas est\u00e1 fazendo. Quando se trata de 2,9 bilh\u00f5es de pessoas, o que \u00e9 necess\u00e1rio \u00e9 modera\u00e7\u00e3o em escala, n\u00e3o a n\u00edvel pessoal. A liberdade de se autodestruir \u00e9 uma coisa. A liberdade de destruir a sociedade democr\u00e1tica \u00e9 outra bem diferente.<\/p>\n<p>O Facebook se vendeu \u00e0s massas prometendo ser um meio de liberdade de express\u00e3o, de conex\u00e3o e de comunidade. Na verdade, \u00e9 uma arma contra a internet aberta, contra a autoatualiza\u00e7\u00e3o e contra a democracia. Tudo isso para que a plataforma pudesse exibir seus dados aos anunciantes.<\/p>\n<p>A algum grau, isso \u00e9 algo que o Facebook tem em comum com sua subsidi\u00e1ria Instagram e seus rivais Google, YouTube (que \u00e9 propriedade do Google) e Amazon. Todas exibem um posicionamento \u201cnobre\u201d \u2013 seu prop\u00f3sito \u00e9, de v\u00e1rias maneiras, ajudar as pessoas a compartilharem suas vidas, fornecer respostas para as perguntas mais dif\u00edceis e satisfazer necessidades. Mas, dos gigantes, o Facebook \u00e9 o mais evidente em suas abdica\u00e7\u00f5es morais.<\/p>\n<p>O Facebook precisa que seus usu\u00e1rios continuem acreditando que sua domina\u00e7\u00e3o \u00e9 um presente, que ignorem o que est\u00e1 fazendo \u00e0 humanidade e usem seus servi\u00e7os mesmo assim. Qualquer pessoa que busque proteger a liberdade individual e a governan\u00e7a democr\u00e1tica deveria se incomodar com essa aceita\u00e7\u00e3o do\u00a0<em>status quo<\/em>.<\/p>\n<p>Os reguladores est\u00e3o de olho no Facebook por um bom motivo, mas a amea\u00e7a que a empresa representa para os norte-americanos \u00e9 muito mais do que seu monop\u00f3lio de tecnologia emergente. A ascens\u00e3o do Facebook \u00e9 parte de um movimento autocr\u00e1tico maior, que est\u00e1 corroendo a democracia em todo o mundo, \u00e0 medida que l\u00edderes autorit\u00e1rios definem um novo tom para a governan\u00e7a global. Considere como o Facebook se retrata como um contrapeso a uma superpot\u00eancia como a China. Os executivos da empresa alertaram que as tentativas de interferir no crescimento desenfreado do Facebook \u2013 por meio da regulamenta\u00e7\u00e3o da moeda que est\u00e1 desenvolvendo, por exemplo \u2013 seriam um presente para a China, que quer que sua pr\u00f3pria criptomoeda seja dominante. Em outras palavras, o Facebook est\u00e1 competindo com a China da mesma forma que uma na\u00e7\u00e3o faria.<\/p>\n<p>Talvez os estadunidenses tenham se tornado t\u00e3o c\u00ednicos que desistiram de defender sua liberdade contra a vigil\u00e2ncia, a manipula\u00e7\u00e3o e a explora\u00e7\u00e3o. Mas se a R\u00fassia ou a China estivessem realizando exatamente as mesmas a\u00e7\u00f5es para minar a democracia, os norte-americanos certamente veriam isso de forma diferente. Ver o Facebook como uma pot\u00eancia estrangeira hostil pode fazer as pessoas reconhecerem do que est\u00e3o participando e do que est\u00e3o desistindo, quando se conectam. No final das contas, n\u00e3o importa realmente o que \u00e9 o Facebook. Importa o que o Facebook est\u00e1 fazendo.<\/p>\n<p>O que poder\u00edamos fazer? Empresas \u201csocialmente respons\u00e1veis\u201d poderiam boicotar o Facebook, privando-o de receita publicit\u00e1ria da mesma forma que as san\u00e7\u00f5es comerciais privam as autocracias de divisas estrangeiras. No passado, por\u00e9m, os boicotes de grandes corpora\u00e7\u00f5es como a Coca-Cola e a CVS mal tiveram repercuss\u00e3o. Talvez os funcion\u00e1rios comuns do Facebook pudessem fazer lobby por reformas, mas nada menos que greves em massa, do tipo que tornaria a opera\u00e7\u00e3o cont\u00ednua do Facebook imposs\u00edvel, surtiria grande efeito. E isso exigiria uma coragem extraordin\u00e1ria e a\u00e7\u00e3o coletiva.<\/p>\n<p>Os usu\u00e1rios do Facebook s\u00e3o o grupo com mais poder para exigir mudan\u00e7as. O Facebook n\u00e3o seria nada sem a aten\u00e7\u00e3o deles. Os cidad\u00e3os estadunidenses e de outras democracias podem evit\u00e1-lo, bem como o Instagram, n\u00e3o apenas como uma escolha de estilo de vida, mas por uma quest\u00e3o de dever c\u00edvico.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que um n\u00famero suficiente de pessoas poderia se reunir para derrubar o imp\u00e9rio? Provavelmente n\u00e3o. Mesmo que o Facebook perdesse 1 bilh\u00e3o de usu\u00e1rios, sobrariam mais 2 bilh\u00f5es. Mas precisamos reconhecer o perigo em que corremos. Precisamos nos livrar da no\u00e7\u00e3o de que o Facebook \u00e9 uma empresa normal ou que sua hegemonia \u00e9 inevit\u00e1vel.<\/p>\n<p>Talvez um dia o mundo se re\u00fana como um s\u00f3, em paz, como sonhou Einstein, indivis\u00edvel pelas for\u00e7as que lan\u00e7aram guerras e desmoronaram civiliza\u00e7\u00f5es desde a antiguidade. Mas se isso acontecer, se pudermos nos salvar, certamente n\u00e3o ser\u00e1 por causa do Facebook. Ser\u00e1 apesar dele.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Facebook, a maior autocracia do mundo? &#8211; Outras Palavras. Link: https:\/\/outraspalavras.net\/tecnologiaemdisputa\/facebook-a-maior-autocracia-do-mundo\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Adrienne LaFrance &#8211; Em 1947, Albert Einstein, escrevendo ao\u00a0The Atlantic, prop\u00f4s a cria\u00e7\u00e3o de um governo mundial \u00fanico para proteger a humanidade da amea\u00e7a da bomba at\u00f4mica. 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