{"id":15899,"date":"2021-10-18T10:21:34","date_gmt":"2021-10-18T13:21:34","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=15899"},"modified":"2021-10-12T10:25:44","modified_gmt":"2021-10-12T13:25:44","slug":"quatro-futuros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2021\/10\/18\/quatro-futuros\/","title":{"rendered":"Quatro Futuros"},"content":{"rendered":"<p><strong>Peter Frase<\/strong> &#8211; <em>\u201cCrise clim\u00e1tica\u201d, \u201cmudan\u00e7as ambientais\u201d, \u201crob\u00f4s inteligentes\u201d, \u201crob\u00f4s tomando nossos empregos\u201d: os poss\u00edveis impactos da crise clim\u00e1tica e de novas tecnologias de automa\u00e7\u00e3o de postos de trabalho t\u00eam sido cada vez mais discutidos. Se os avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos do que vem sendo chamado de \u201cquarta revolu\u00e7\u00e3o industrial\u201d (em especial em campos como intelig\u00eancia artificial, rob\u00f3tica avan\u00e7ada, fabrica\u00e7\u00e3o aditiva\/impress\u00e3o 3-D e etc.) forem o suficiente para possibilitar a automa\u00e7\u00e3o da maior parte das atividades que hoje s\u00e3o empregos, reduzindo a um m\u00ednimo a necessidade de trabalho humano, a produ\u00e7\u00e3o de mercadorias atrav\u00e9s de trabalho assalariado estar\u00e1 superada \u2013 e, portanto, estaremos falando do fim do capitalismo; a quest\u00e3o ent\u00e3o \u00e9 o que vir\u00e1 depois.<\/em><\/p>\n<p><em>Ser\u00e1 que a possibilidade t\u00e9cnica de toda essa automa\u00e7\u00e3o \u00e9 o bastante para garantir que ela de fato ocorrer\u00e1? Quais seriam os impactos disso sobre as vidas das pessoas? Como as quest\u00f5es ambientais e clim\u00e1ticas entram nesse quadro? E as rela\u00e7\u00f5es de propriedade e de produ\u00e7\u00e3o capitalistas e a pol\u00edtica, especialmente a luta de classes? Que tipo de cen\u00e1rios podemos esperar \u00e0 partir do fim do capitalismo?<\/em><\/p>\n<p><em>No artigo abaixo, escrito em 2011 (e cujo sucesso inspirou a expans\u00e3o dessas ideias no livro \u201c<a href=\"https:\/\/autonomialiteraria.com.br\/loja\/teoria-politica\/quatro-futuros-a-vida-apos-o-capitalismo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Quatro futuros: a vida ap\u00f3s o capitalismo<\/a>\u201c, o primeiro lan\u00e7amento da Cole\u00e7\u00e3o Jacobina em parceria com a Autonomia Liter\u00e1ria), Peter Frase tenta imaginar as possibilidades para nosso futuro ap\u00f3s o fim do capitalismo \u2013 partindo dos enormes avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos atuais e dos mais prov\u00e1veis para as pr\u00f3ximas d\u00e9cadas, assumindo a brutal redu\u00e7\u00e3o da necessidade de trabalho humano na produ\u00e7\u00e3o de mercadorias.<\/em><\/p>\n<p><em>O centro do argumento \u00e9 que se chegarmos nesse ponto, o aspecto da sociedade vai depender basicamente de dois eixos principais: das futuras condi\u00e7\u00f5es\u00a0materiais\u00a0(o impacto das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e a escassez ou abund\u00e2ncia de recursos naturais e de fontes de energia limpa para os sistemas automatizados) e\u00a0pol\u00edticas\u00a0(mais igualdade ou mais hierarquia, dependendo do sucesso ou do fracasso dos esfor\u00e7os das esquerdas em domar a desigualdade e as hierarquias da sociedade atual). Da combina\u00e7\u00e3o de possibilidades nesses dois eixos temos os quatro futuros que o autor descreve, com o apoio de imagens da fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e buscando as caracter\u00edsticas principais de cada futuro em aspectos j\u00e1 observados em nossa sociedade atual: Igualdade e\u00a0Abund\u00e2ncia (\u201cComunismo\u201d),\u00a0Igualdade e Escassez (\u201cSocialismo\u201d), Hierarquia e\u00a0Abund\u00e2ncia (\u201cRentismo\u201d), Hierarquia e Escassez (\u201cExterminismo\u201d) \u2013\u00a0basicamente, \u201cdois socialismos\u201d e \u201cduas barb\u00e1ries\u201d. Tratam-se de tipos ideais, de vers\u00f5es limites, de horizontes que provavelmente nunca acontecer\u00e3o como vers\u00f5es \u201cpuras\u201d, mas com os quais podemos refletir para imaginar o que podemos acabar construindo no caminho para cada um deles.<\/em><\/p>\n<p><em>Frase enfatiza\u00a0que escreveu o livro como resposta aos muitos textos e livros que t\u00eam surgido com uma vis\u00e3o tecnocr\u00e1tica sobre as consequ\u00eancias da automa\u00e7\u00e3o \u2013 como se ela fosse, por si s\u00f3, gerar um mundo de mais liberdade e de bem-estar para todos. A mensagem \u00e9 clara: os benef\u00edcios esperados n\u00e3o s\u00e3o autom\u00e1ticos, eles dependem de outras vari\u00e1veis, principalmente dos efeitos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e do resultado da luta pol\u00edtica no n\u00facleo do capitalismo (a famosa\u00a0luta de classes\u00a0entre os donos dos meios de produ\u00e7\u00e3o e as pessoas que precisam vender seu tempo de trabalho a eles).<\/em><\/p>\n<p><em>(Everton Louren\u00e7o)<\/em><\/p>\n<hr \/>\n<p>Em seu\u00a0<a href=\"http:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2011\/10\/11\/a-tinta-vermelha-discurso-de-slavoj-zizek-aos-manifestantes-do-movimento-occupy-wall-street\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">discurso<\/a>\u00a0para os acampados no\u00a0<em>Occupy Wall Street<\/em>\u00a0no Parque Zuccotti em 2011, Slavoj Zizek lamentou que \u201c\u00e9 f\u00e1cil imaginar o fim do mundo, mas n\u00e3o conseguimos imaginar o fim do capitalismo.\u201d \u00c9 a cita\u00e7\u00e3o de uma frase que Fredric Jameson disse alguns\u00a0<a href=\"http:\/\/libertas.ufjf.emnuvens.com.br\/libertas\/article\/download\/1868\/1317\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">anos atr\u00e1s<\/a>, quando a hegemonia do\u00a0<a href=\"https:\/\/ominhocario.wordpress.com\/2018\/09\/04\/sobre-mercados-liberalismo-economico-e-neoliberalismo-leituras-tematicas-2\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">neoliberalismo<\/a>\u00a0ainda parecia absoluta. Mesmo assim, a mera exist\u00eancia do\u00a0<em>Occupy Wall Street<\/em>\u00a0sugere que recentemente o fim do capitalismo se tornou um pouco mais f\u00e1cil de se imaginar. De in\u00edcio essa imagem tomou uma forma amea\u00e7adora e dist\u00f3pica: no pico da crise financeira, com a economia global parecendo em colapso completo, parecia que o fim do capitalismo poderia ser o in\u00edcio de um per\u00edodo de viol\u00eancia an\u00e1rquica e mis\u00e9ria. Mais recentemente, por\u00e9m, os protestos que se espalharam pelo globo, do Cairo a Madri, de Madison a Wall Street deram \u00e0 esquerda alguma raz\u00e3o para aumentar timidamente suas esperan\u00e7as de um\u00a0futuro\u00a0melhor ap\u00f3s o capitalismo.<\/p>\n<p>Uma coisa de que podemos ter certeza \u00e9 que o capitalismo vai acabar \u2013 talvez n\u00e3o t\u00e3o em breve, mas provavelmente num\u00a0futuro\u00a0n\u00e3o muito distante. A humanidade nunca conseguiu criar um sistema social eterno, no fim das contas, e o capitalismo \u00e9 uma ordem notavelmente mais prec\u00e1ria e vol\u00e1til que a maioria das que o precederam. A quest\u00e3o, ent\u00e3o, \u00e9 o que vir\u00e1 depois. Rosa Luxemburgo, reagindo ao in\u00edcio da I Guerra Mundial,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/luxemburgo\/1915\/junius\/cap01.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">citou<\/a>\u00a0uma frase de Engels: \u201cA sociedade burguesa se encontra em uma encruzilhada, ou entra em transi\u00e7\u00e3o para o socialismo ou regride para a barb\u00e1rie.\u201d Nesse esp\u00edrito, ofere\u00e7o um experimento de reflex\u00e3o, uma tentativa de divisar nossos poss\u00edveis\u00a0futuros. Estes s\u00e3o alguns dos socialismos que podemos alcan\u00e7ar se uma esquerda ressurgente tiver sucesso, ou os barbarismos aos quais podemos ser lan\u00e7ados se falharmos.<\/p>\n<p>Muito da literatura sobre economias p\u00f3s-capitalistas se preocupa com o problema de como gerenciar o trabalho na aus\u00eancia de chefes capitalistas. Por\u00e9m, come\u00e7arei assumindo que j\u00e1 teremos nos livrado desse problema, para iluminar melhor outros aspectos da quest\u00e3o. Isso pode ser feito simplesmente extrapolando a tend\u00eancia capitalista rumo a uma automa\u00e7\u00e3o sempre crescente, que torna a produ\u00e7\u00e3o sempre mais eficiente enquanto simultaneamente desafia a capacidade do sistema de criar empregos \u2013 e, assim, de sustentar a demanda para o que \u00e9 produzido. Esse tema tem ressurgido recentemente no pensamento burgu\u00eas: em Setembro de 2011, Farhad Manjoo escreveu para a revista Slate uma longa s\u00e9rie de artigos sobre \u201c<a href=\"http:\/\/www.slate.com\/articles\/technology\/robot_invasion.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><em>The Robot Invasion<\/em><\/a>\u201d (\u201cA Invas\u00e3o Rob\u00f4\u201d), e pouco depois dois economistas do MIT publicaram \u201c<em><a href=\"http:\/\/raceagainstthemachine.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Race Against The Machine<\/a><\/em>\u201d (\u201cCorrida Contra A M\u00e1quina\u201d), um livro eletr\u00f4nico em que argumentam que a automa\u00e7\u00e3o estaria rapidamente tomando muitas das \u00e1reas que at\u00e9 recentemente serviram como os maiores motores para a cria\u00e7\u00e3o de empregos na economia capitalista. De f\u00e1bricas automotivas completamente autom\u00e1ticas a computadores que podem diagnosticar condi\u00e7\u00f5es de sa\u00fade, a robotiza\u00e7\u00e3o est\u00e1 avan\u00e7ando n\u00e3o apenas sobre a manufatura, mas sobre grande parte do setor de servi\u00e7os tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Levada ao seu limite l\u00f3gico, esta din\u00e2mica nos traria ao ponto onde a economia n\u00e3o precisar\u00e1 de nenhum trabalho humano. Isso n\u00e3o traria automaticamente o fim do trabalho assalariado, como tem sido falsamente previsto in\u00fameras vezes como resposta ao desenvolvimento tecnol\u00f3gico. No entanto, isso significa que as sociedades humanas ir\u00e3o encarar cada vez mais a possibilidade de libertar as pessoas do trabalho involunt\u00e1rio. Se vamos agarrar essa oportunidade, e como faremos isso, depender\u00e1 de dois fatores principais, um material e um social. A primeira quest\u00e3o \u00e9 sobre a escassez de recursos: a habilidade de encontrar fontes de energia baratas, de extrair ou reciclar mat\u00e9rias-primas, e em geral, de depender da capacidade da Terra para prover um alto padr\u00e3o de vida material para todos. Uma sociedade que possua tanto tecnologias de substitui\u00e7\u00e3o de m\u00e3o de obra quanto recursos abundantes poderia sobrepujar a escassez de uma maneira completa que uma sociedade que possua apenas o primeiro elemento n\u00e3o poderia. A segunda quest\u00e3o \u00e9 pol\u00edtica: que tipo de sociedade seremos? Uma ordem em que todas as pessoas s\u00e3o tratadas como seres livres e iguais, com um direito igualit\u00e1rio de compartilhar da riqueza da sociedade? Ou uma ordem hier\u00e1rquica em que uma elite domina e controla as massas e seu acesso aos recursos sociais?<\/p>\n<p>Existem ent\u00e3o\u00a0quatro\u00a0combina\u00e7\u00f5es l\u00f3gicas dessas duas oposi\u00e7\u00f5es, abund\u00e2ncia de recursos vs. escassez e igualitarismo vs. hierarquia. Para colocar as coisas em termos de um marxismo um tanto vulgar, o primeiro eixo dita a base econ\u00f4mica do\u00a0futuro\u00a0p\u00f3s-capitalista, enquanto o segundo pertence \u00e0 superestrutura s\u00f3cio-pol\u00edtica. Dois desses poss\u00edveis\u00a0futuros\u00a0s\u00e3o \u201csocialismos\u201d (e apenas um deles eu chamarei por esse nome) enquanto os outros dois s\u00e3o sabores contrastantes de \u201cbarbarismos\u201d.<\/p>\n<p id=\"comunismo\"><strong>Igualitarismo e Abund\u00e2ncia: Comunismo<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 uma famosa\u00a0<a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/archive\/marx\/works\/1894-c3\/ch48.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">passagem<\/a>\u00a0no terceiro volume d\u2019O Capital, em que Marx distingue entre um \u201cReino da Necessidade\u201d e um \u201cReino da Liberdade\u201d. No reino da necessidade n\u00f3s precisamos \u201clutar com a natureza para satisfazer [nossos] desejos, para manter e reproduzir [nossa] vida\u201d, atrav\u00e9s do trabalho f\u00edsico na produ\u00e7\u00e3o. Este reino da necessidade, Marx diz, existe \u201cem todas as forma\u00e7\u00f5es sociais e sob todos os poss\u00edveis modos de produ\u00e7\u00e3o\u201d, presumivelmente incluindo o socialismo. O que distingue o socialismo, ent\u00e3o, \u00e9 que a produ\u00e7\u00e3o \u00e9 racionalmente planejada e democraticamente organizada, ao inv\u00e9s de operar sob os caprichos do capitalista ou do mercado. Para Marx, entretanto, este n\u00edvel da sociedade n\u00e3o era o objetivo real da revolu\u00e7\u00e3o, mas meramente uma pr\u00e9-condi\u00e7\u00e3o para \u201caquele desenvolvimento da energia humana que \u00e9 um fim em si mesmo, o verdadeiro reino da liberdade, que entretanto, s\u00f3 pode florir com este reino da necessidade como sua base.\u201d<\/p>\n<p>Em outros lugares, Marx sugere que um dia poderemos nos libertar at\u00e9 mesmo do reino da necessidade. Na \u201c<a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/archive\/marx\/works\/1875\/gotha\/ch01.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Cr\u00edtica do Programa de Gotha<\/a>\u201d, ele imagina que:<\/p>\n<blockquote><p><em>\u201cEm uma fase mais alta da sociedade comunista, depois que\u00a0tenham desaparecido\u00a0a subordina\u00e7\u00e3o escravizadora do indiv\u00edduo \u00e0 divis\u00e3o do trabalho, e com ela tamb\u00e9m a ant\u00edtese entre o trabalho mental e f\u00edsico; depois que o trabalho tenha se tornado n\u00e3o apenas um meio de vida mas o principal desejo da vida; depois que as for\u00e7as produtivas tenham tamb\u00e9m aumentado com um amplo e completo desenvolvimento do indiv\u00edduo, e que todos os frutos da riqueza co-operativa fluam mais abundantemente \u2013 s\u00f3 ent\u00e3o o estreito horizonte do direito burgu\u00eas poder\u00e1 ser riscado completamente e a sociedade poder\u00e1 inscrever em seus cartazes: De cada um segundo sua habilidade, a cada um segundo suas necessidades!\u201d<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Os cr\u00edticos de Marx t\u00eam frequentemente voltado esta passagem contra ele, a retratando como uma utopia irremediavelmente improv\u00e1vel. Que poss\u00edvel sociedade poderia ser t\u00e3o produtiva que os humanos poderiam se libertar inteiramente da obriga\u00e7\u00e3o de fazer algum tipo de trabalho involunt\u00e1rio e insatisfat\u00f3rio? E ainda assim a promessa da ampla difus\u00e3o da automa\u00e7\u00e3o \u00e9 exatamente que ela poderia decretar tal liberta\u00e7\u00e3o, ou pelo menos aproximar-nos dela \u2013 se, claro, encontrarmos uma maneira de lidar com as necessidades de gera\u00e7\u00e3o de energia e de obten\u00e7\u00e3o de recursos. Mas desenvolvimentos tecnol\u00f3gicos recentes t\u00eam ocorrido n\u00e3o apenas na produ\u00e7\u00e3o de mercadorias, mas tamb\u00e9m na gera\u00e7\u00e3o da energia necess\u00e1ria para operar as f\u00e1bricas autom\u00e1ticas e as impressoras 3-D do\u00a0futuro. Da\u00ed um poss\u00edvel\u00a0futuro\u00a0p\u00f3s-escassez combina tecnologias de economia de m\u00e3o de obra com uma alternativa ao atual regime de energia, que no final est\u00e1 limitado pela escassez f\u00edsica e pela destrui\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica dos combust\u00edveis f\u00f3sseis. Essas condi\u00e7\u00f5es passam longe de estarem garantidas, mas existem indicadores promissores. Os custos de produ\u00e7\u00e3o e de opera\u00e7\u00e3o de pain\u00e9is solares, por exemplo,\u00a0<a href=\"http:\/\/blogs.scientificamerican.com\/guest-blog\/2011\/03\/16\/smaller-cheaper-faster-does-moores-law-apply-to-solar-cells\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">vem caindo<\/a>\u00a0dramaticamente nas \u00faltimas d\u00e9cadas. Na trajet\u00f3ria atual eles podem se tornar mais baratos que nossas fontes de eletricidade atuais em poucos anos. Se energia barata e automa\u00e7\u00e3o forem combinadas com m\u00e9todos de fabrica\u00e7\u00e3o eficientes ou reciclagem de mat\u00e9rias-primas, ent\u00e3o n\u00f3s realmente deixamos para tr\u00e1s \u201ca Economia\u201d como um mecanismo social de gerenciamento da escassez. O que nos espera al\u00e9m desse horizonte?<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 que todo trabalho cessaria, no sentido em que todos apenas nos deitar\u00edamos em dissipa\u00e7\u00e3o e torpor. Como Marx coloca, \u201c[\u2026] quando o trabalho tiver se tornado n\u00e3o apenas um meio de vida mas o principal desejo da vida.\u201d Qualquer atividade ou projetos em que tom\u00e1ssemos parte, o far\u00edamos por que os achar\u00edamos inerentemente satisfat\u00f3rios, n\u00e3o por que precisar\u00edamos de um sal\u00e1rio ou por que dev\u00eassemos nossas horas mensais para a cooperativa. Isto n\u00e3o \u00e9 algo t\u00e3o implaus\u00edvel, considerando o grau em que decis\u00f5es sobre o trabalho j\u00e1 s\u00e3o guiadas por considera\u00e7\u00f5es n\u00e3o-materiais, entre aqueles que s\u00e3o privilegiados o bastante para ter essa op\u00e7\u00e3o: milh\u00f5es de pessoas escolhem ir para a Universidade, fazer servi\u00e7o social, ou come\u00e7ar pequenas fazendas org\u00e2nicas, mesmo quando carreiras bem mais lucrativas est\u00e3o abertas a elas.<\/p>\n<p>A derrocada do trabalho assalariado pode parecer hoje um sonho distante. Mas houve um tempo \u2013 antes do movimento trabalhista recuar em suas demandas por menos horas de trabalho, e antes da estagna\u00e7\u00e3o e revers\u00e3o da longa tend\u00eancia rumo a semanas de trabalho mais curtas \u2013 em que algumas pessoas realmente se preocupavam sobre o que far\u00edamos depois de libertos do trabalho. Em um ensaio sobre as \u201c<a href=\"http:\/\/www.geocities.ws\/luso_america\/KeynesPO.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Possibilidades Econ\u00f4micas para Nossos Netos<\/a>\u201d, John Maynard Keynes previu que dentro de poucas gera\u00e7\u00f5es, \u201cos homens se deparar\u00e3o com seu problema real e permanente \u2013 como usar sua liberdade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s preocupa\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas que o pressionam; como ocupar o tempo livre; que Ci\u00eancia ou interesses o apetecer\u00e3o, para viver de maneira s\u00e1bia, agrad\u00e1vel e boa.\u201d E em uma\u00a0<a href=\"http:\/\/zinelibrary.info\/files\/Adorno_Horkheimer_NM-read.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">discuss\u00e3o<\/a>\u00a0em 1956, Max Horkheimer come\u00e7a por casualmente comentar com Theodor Adorno que \u201choje em dia temos o suficiente em rela\u00e7\u00e3o a for\u00e7as produtivas; \u00e9 \u00f3bvio que poder\u00edamos suprir o mundo inteiro com bens e poder\u00edamos ent\u00e3o tentar abolir o trabalho como uma necessidade para os seres humanos.\u201d<\/p>\n<p>Keynes e Adorno viviam em um mundo em que a ind\u00fastria parecia poss\u00edvel apenas em uma escala muito grande, seja em f\u00e1bricas capitalistas ou em empreendimentos estatais; aquela forma de ind\u00fastria implica hierarquia, n\u00e3o importa em que forma\u00e7\u00e3o social ela esteja inserida. Contudo, recentes avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos sugerem a possibilidade de retorno a uma estrutura menos centralizada, sem reduzir drasticamente os padr\u00f5es materiais de sobreviv\u00eancia: a prolifera\u00e7\u00e3o de impressoras 3-D e \u201claborat\u00f3rios de fabrica\u00e7\u00e3o\u201d em pequena escala (tamb\u00e9m conhecidos como espa\u00e7os de \u201c<em><a href=\"https:\/\/ominhocario.wordpress.com\/2016\/06\/23\/todo-poder-para-os-espacos-de-fazedores-1\/\">makers<\/a><\/em>\u201c) est\u00e1 cada vez mais possibilitando a redu\u00e7\u00e3o da escala de pelo menos algumas manufaturas sem sacrificar completamente a produtividade. Assim, na medida em que algum trabalho humano ainda fosse necess\u00e1rio na produ\u00e7\u00e3o em nosso imaginado\u00a0futuro\u00a0comunista, ele poderia tomar a forma de pequenos coletivos ao inv\u00e9s de firmas dirigidas por capitalistas ou pelo Estado.<\/p>\n<p>Mas deixar para tr\u00e1s o trabalho assalariado economicamente significa tamb\u00e9m deix\u00e1-lo para tr\u00e1s socialmente, e isso acarreta mudan\u00e7as profundas em nossas prioridades e em nosso estilo de vida. Se queremos imaginar um mundo onde o trabalho n\u00e3o \u00e9 mais uma necessidade, ser\u00e1 mais frut\u00edfero beber da fic\u00e7\u00e3o do que da teoria social. De fato, muitas pessoas j\u00e1 est\u00e3o familiarizadas com a utopia de um comunismo p\u00f3s-escassez, por que ele foi representado em um dos trabalhos mais familiares da cultura popular: Star Trek. A economia e a sociedade daquele programa est\u00e3o baseadas em dois elementos t\u00e9cnicos. Um \u00e9 a tecnologia do \u201creplicador\u201d, que \u00e9 capaz de materializar qualquer objeto do nada, com um simples pressionar de um bot\u00e3o; o outro \u00e9 uma fonte de energia aparentemente inesgot\u00e1vel (ou pr\u00f3xima disso), descrita vagamente, que alimenta os replicadores e tudo o mais no programa.<\/p>\n<p>O aspecto comunista do universo de Star Trek \u00e9 frequentemente obscurecido por que os filmes e as s\u00e9ries de TV est\u00e3o centradas na hierarquia militar da Starfleet, que explora a gal\u00e1xia e entra em conflito com ra\u00e7as alien\u00edgenas. Mas mesmo essa parece ser uma hierarquia escolhida voluntariamente, atraindo aqueles que buscam uma vida de aventura e explora\u00e7\u00e3o; na medida em que vislumbramos a vida civil, ela parece n\u00e3o ser incomodada com hierarquia ou compuls\u00e3o. E na medida em que o programa se distancia da utopia comunista, \u00e9 por que os roteiristas introduzem amea\u00e7as externas de ra\u00e7as alien\u00edgenas hostis ou recursos escassos para produzir tens\u00e3o dram\u00e1tica.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio conjurar naves espaciais e alien\u00edgenas para imaginar as tribula\u00e7\u00f5es de um\u00a0futuro\u00a0comunista, no entanto. O romance \u201c<em>Down and Out in the Magic Kingdom<\/em>\u201d (\u201c<a href=\"https:\/\/craphound.com\/down\/Cory_Doctorow_-_Down_and_Out_in_the_Magic_Kingdom_Brazilian_Portuguese.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">O Fundo do Po\u00e7o no Reino Encantado<\/a>\u201d) de Cory Doctorow, imagina um mundo p\u00f3s-escassez que se localiza em uma extrapola\u00e7\u00e3o reconhec\u00edvel dos Estados Unidos atuais. Assim como em Star Trek, a escassez material foi superada neste mundo. Mas Doctorow entende que dentro de sociedades humanas, certos bens imateriais ser\u00e3o sempre inerentemente escassos: reputa\u00e7\u00e3o, respeito, estima entre os pares. Da\u00ed que o livro gira em torno das tentativas de v\u00e1rios personagens de acumular \u201c<em>whuffies<\/em>\u201d, que s\u00e3o um tipo de pontos virtuais que representam a boa vontade que voc\u00ea acumulou dos outros. Os\u00a0<em>whuffie<\/em>s, por sua vez, s\u00e3o usados para determinar quem ter\u00e1 autoridade em qualquer empreendimento volunt\u00e1rio coletivo \u2013 assim como, no romance, administrar a Disneyl\u00e2ndia.<\/p>\n<p>O valor do livro de Doctorow, em contraste com Star Trek, \u00e9 que ele trata um mundo p\u00f3s-escassez como tendo as suas pr\u00f3prias hierarquias e conflitos, ao inv\u00e9s de um mundo em que todos vivessem em perfeita harmonia e onde a pol\u00edtica tivesse chegado a uma paraliza\u00e7\u00e3o. A reputa\u00e7\u00e3o, assim como o capital, pode ser acumulada de uma maneira desigual e auto-perpetuante, uma vez que aqueles que j\u00e1 s\u00e3o populares ganham a habilidade de fazer coisas que atraiam para si mais aten\u00e7\u00e3o e os fa\u00e7a mais populares. Tais din\u00e2micas j\u00e1 podem ser observadas hoje, conforme blogs e outras m\u00eddias sociais passam a serem capazes de determinar quem consegue aten\u00e7\u00e3o e quem n\u00e3o consegue, de uma forma que n\u00e3o \u00e9 completamente uma fun\u00e7\u00e3o de quem tem dinheiro para gastar. Organizar a sociedade de acordo com quem tem mais \u201ccurtidas\u201d no Facebook com certeza teria certos inconvenientes, para dizer o m\u00ednimo, mesmo quando tiramos essa ideia de seu inv\u00f3lucro capitalista.<\/p>\n<p>No entanto, se n\u00e3o \u00e9 a vis\u00e3o de uma sociedade perfeita, esta vers\u00e3o do comunismo \u00e9 pelo menos um mundo em que o conflito n\u00e3o \u00e9 mais baseado na oposi\u00e7\u00e3o entre trabalhadores assalariados e capitalistas, ou na luta por recursos escassos. \u00c9 um mundo em que, no fim das contas, as coisas n\u00e3o se resumem a dinheiro. Uma sociedade comunista certamente teria hierarquias de status \u2013 como as t\u00eam todas as sociedades, assim como as t\u00eam o capitalismo. Mas no capitalismo, todas as hierarquias de status tendem a estarem alinhadas, ainda que n\u00e3o perfeitamente, com uma hierarquia de status mestra: a acumula\u00e7\u00e3o de capital e de dinheiro. O ideal de uma sociedade p\u00f3s-escassez \u00e9 que os v\u00e1rios tipos de estima sejam independentes, para que a estima em que algu\u00e9m \u00e9 mantido como um m\u00fasico seja independente daquela que algu\u00e9m atinge como ativista pol\u00edtico, e onde ningu\u00e9m possa usar um tipo de status para comprar outro. De certa forma, ent\u00e3o, n\u00e3o faz sentido nos referirmos a esta como sendo uma configura\u00e7\u00e3o \u201cigualit\u00e1ria\u201d, j\u00e1 que n\u00e3o seria um mundo sem hierarquias mas um com muitas hierarquias, nenhuma das quais seria superior \u00e0s outras.<\/p>\n<p id=\"rentismo\"><strong>Hierarquia e Abund\u00e2ncia: Rentismo<\/strong><\/p>\n<p>Dadas as premissas t\u00e9cnicas da automa\u00e7\u00e3o completa e de energia inesgot\u00e1vel, a utopia do Star Trek de um comunismo puro se torna uma possibilidade, mas dificilmente inevit\u00e1vel. A elite burguesa do presente n\u00e3o possui apenas acesso privilegiado a bens materiais escassos,no fim das contas; eles tamb\u00e9m gozam de um status exaltado e de poder social sobre as massas trabalhadoras, que n\u00e3o devem ser menosprezados como fontes de motiva\u00e7\u00e3o capitalista. Na verdade ningu\u00e9m consegue gastar um bilh\u00e3o de d\u00f3lares em si mesmo, afinal, e ainda assim existem administradores de fundos de cobertura que ganham esse tanto em um \u00fanico ano e ent\u00e3o voltam em busca de mais. Para tais pessoas, o dinheiro \u00e9 uma fonte de poder sobre os outros, um gerador de status, e uma forma de manter um placar \u2013 na realidade, n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o diferente dos\u00a0<em>whuffies<\/em>\u00a0de Doctorow, exceto que esta \u00e9 uma forma de status que depende da priva\u00e7\u00e3o material de outras pessoas. \u00c9 portanto de se esperar que mesmo que o trabalho pudesse se tornar sup\u00e9rfluo na produ\u00e7\u00e3o, as classes dominantes se esfor\u00e7ariam para preservar um sistema baseado em dinheiro, lucro, e poder de classe.<\/p>\n<p>A forma embrion\u00e1ria de poder de classe em uma economia p\u00f3s-escassez pode ser encontrada em nossos sistemas de leis de propriedade intelectual. Enquanto defensores contempor\u00e2neos da propriedade intelectual gostam de falar dela como se fosse amplamente an\u00e1loga a outros tipos de propriedade, na verdade ela \u00e9 baseada em um princ\u00edpio diferente. Como\u00a0<a href=\"http:\/\/ordemlivre.org\/posts\/propriedade-intelectual-e-mesmo-propriedade\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">observam<\/a>\u00a0os economistas Michele Boldrin e David K. Levine, os direitos de propriedade intelectual v\u00e3o al\u00e9m da concep\u00e7\u00e3o tradicional de propriedade. Eles n\u00e3o garantem apenas \u201cseu direito de controlar sua c\u00f3pia da ideia\u201d, da maneira que protegeriam seu direito de controlar seus sapatos ou sua casa; ao inv\u00e9s disso, eles d\u00e3o ao detentor dos direitos a habilidade de dizer aos outros como usar as c\u00f3pias de uma ideia que \u201cpertence\u201d a ele. Como Boldrin e Levine colocam, \u201cesse n\u00e3o \u00e9 um direito ordinariamente ou automaticamente garantido aos detentores de outros tipos de propriedades. Se eu produzo um copo de caf\u00e9, eu tenho o direito de escolher se o venderei ou n\u00e3o a voc\u00ea ou se eu mesmo vou beb\u00ea-lo, mas meu direito de propriedade n\u00e3o \u00e9 automaticamente um direito de tanto te vender um copo de caf\u00e9 quanto de te dizer como voc\u00ea deve beb\u00ea-lo.\u201d<\/p>\n<p>A muta\u00e7\u00e3o da forma de propriedade, do real para o intelectual, cataliza a transforma\u00e7\u00e3o da sociedade em algo que n\u00e3o \u00e9 reconhec\u00edvel como capitalismo, mas que ainda assim \u00e9 t\u00e3o desigual quanto. O capitalismo, em suas ra\u00edzes, n\u00e3o \u00e9 definido pela presen\u00e7a de capitalistas, mas pela exist\u00eancia de capital, o que por sua vez \u00e9 insepar\u00e1vel do processo de produ\u00e7\u00e3o de mercadorias atrav\u00e9s do trabalho assalariado \u2013 dinheiro-&gt;capital-&gt;dinheiro. Quando o trabalho assalariado desaparece, a classe dirigente pode continuar a acumular dinheiro apenas se retiver a habilidade de se apropriar de um fluxo de rendas, advindo de seu controle sobre a propriedade intelectual. Da\u00ed emerge uma sociedade rentista, ao inv\u00e9s de uma sociedade capitalista.<\/p>\n<p>Suponha, por exemplo, que toda a produ\u00e7\u00e3o seja feita por meio dos replicadores do Star Trek. Para ganhar dinheiro vendendo itens replicados, de alguma forma as pessoas teriam de serem proibidas de simplesmente fabricar o que quisessem de gra\u00e7a, e essa \u00e9 a fun\u00e7\u00e3o da propriedade intelectual. Um replicador estaria dispon\u00edvel apenas \u00e0 partir da companhia que te licenciaria o direito de us\u00e1-lo, j\u00e1 que qualquer um que quisesse te dar um replicador ou mesmo fazer um novo com seu pr\u00f3prio replicador estaria violando os termos de sua licen\u00e7a. Mais importante, toda vez que voc\u00ea fizesse algo com seu replicador, voc\u00ea precisaria pagar uma taxa de licenciamento para quem quer que seja que detivesse os direitos para aquela coisa em particular. Neste mundo, se o Capit\u00e3o Jean-Luc Picard de Star Trek quisesse replicar seu querido \u201cch\u00e1, Earl Grey, quente\u201d, ele teria de pagar \u00e0 companhia que det\u00e9m os direitos reservados para o padr\u00e3o do replicador do ch\u00e1 Earl Grey quente.<\/p>\n<p>Isso resolve o problema de como manter empresas visando lucro, pelo menos na superf\u00edcie. Qualquer um que tentasse suprir suas necessidades \u00e0 partir de um replicador sem pagar o cartel de direitos reservados se tornaria um fora-da-lei, como os compartilhadores de arquivos online de hoje em dia. Apesar de seu absurdo, esse arranjo provavelmente teria defensores entre os cr\u00edticos contempor\u00e2neos da cultura de compartilhamento pela Internet; \u201c<em>You Are Not a Gadget<\/em>\u201d de Jaron Lanier (na vers\u00e3o brasileira, \u201cGadget: Voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 um aplicativo!\u201d, Editora Saraiva), por exemplo, clama explicitamente pela imposi\u00e7\u00e3o de uma \u201cescassez artificial\u201d de conte\u00fado digital com a inten\u00e7\u00e3o de restaurar o seu valor. As consequ\u00eancias de tais argumentos j\u00e1 est\u00e3o aparentes nos processos movidos pela ind\u00fastria musical contra desafortunados baixadores de mp3, e na intensifica\u00e7\u00e3o cont\u00ednua da vigil\u00e2ncia estatal sob a guisa de combate \u00e0 pirataria. A extens\u00e3o desse regime para a micro-fabrica\u00e7\u00e3o de objetos f\u00edsicos apenas pioraria o problema. Uma vez mais, a fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica \u00e9 esclarecedora, neste caso no trabalho de Charles Stross. \u201c<a href=\"http:\/\/www.antipope.org\/charlie\/blog-static\/fiction\/accelerando\/accelerando-intro.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Accelerando<\/a>\u201d nos mostra um\u00a0futuro\u00a0em que aqueles que infringem direitos reservados s\u00e3o perseguidos por assassinos de aluguel, enquanto \u201c<em>Halting State<\/em>\u201d [16] descreve indiv\u00edduos furtivos conhecidos como \u201c<em>fabbers<\/em>\u201d (um diminutivo ou g\u00edria para \u201cfabricantes\u201d) que se esgueiram por becos onde operam suas impressoras 3-D, sempre um passo al\u00e9m da lei.<\/p>\n<p>No entanto, uma economia baseada em escassez artificial n\u00e3o \u00e9 apenas irracional, \u00e9 tamb\u00e9m desfuncional. Se todos estiverem constantemente sendo for\u00e7ados a pagar por taxas de licenciamento, ent\u00e3o eles precisar\u00e3o de alguma maneira de ganhar dinheiro e isso gera um novo problema. O dilema fundamental do rentismo \u00e9 o problema da demanda efetiva: como garantir que as pessoas sejam capazes de ganhar dinheiro suficiente para poderem pagar as taxas de licenciamento das quais o lucro privado dependeria? \u00c9 claro, isso n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o diferente do problema que confrontou o capitalismo Industrial \u2013 sobre como gerar consumidores com poder de compra o bastante para consumir os produtos industrializados e a demanda necess\u00e1ria para as f\u00e1bricas continuarem produzindo \u2013 mas se torna mais severo quando o trabalho humano \u00e9 cada vez mais espremido para fora do sistema, e os seres humanos se tornam sup\u00e9rfluos como elementos de produ\u00e7\u00e3o, mesmo se ainda permanecerem necess\u00e1rios como consumidores. Ent\u00e3o, que tipo de empregos ainda existiriam nessa economia?<\/p>\n<p>Algumas pessoas ainda seriam necess\u00e1rias para inventar novas coisas a serem replicadas, ent\u00e3o restaria um lugar para uma pequena \u201cclasse criativa\u201d de designers e artistas. E conforme suas cria\u00e7\u00f5es se acumulassem, o n\u00famero de coisas que poderiam ser replicadas rapidamente ultrapassaria vastamente o tempo e dinheiro dispon\u00edveis para aproveit\u00e1-las. A maior amea\u00e7a para os lucros de qualquer companhia n\u00e3o seriam o custo do trabalho ou de mat\u00e9rias-primas \u2013 ambos m\u00ednimos ou inexistentes \u2013 mas ao inv\u00e9s disso a perspectiva de que as licen\u00e7as que elas possu\u00edssem pudessem perder popularidade para as licen\u00e7as dos competidores. Marketing e propaganda, ent\u00e3o, continuariam a empregar n\u00fameros significativos de trabalhadores. Ao lado do pessoal de marketing, existiria tamb\u00e9m um ex\u00e9rcito de advogados, conforme os lit\u00edgios atuais sobre patentes e infra\u00e7\u00f5es de direitos reservados crescessem para englobar todas as atividades econ\u00f4micas. E finalmente, como em qualquer sociedade hier\u00e1rquica, seria necess\u00e1rio um aparato de repress\u00e3o para garantir que os pobres e oprimidos n\u00e3o tomassem de volta sua parte dos ricos e poderosos. Impor leis draconianas de propriedade intelectual precisar\u00e1 de grandes batalh\u00f5es do que Samuel Bowles e Arjun Jayadev chamam de \u201c<a href=\"https:\/\/scholarworks.umass.edu\/cgi\/viewcontent.cgi?referer=&amp;httpsredir=1&amp;article=1068&amp;context=econ_workingpaper\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">m\u00e3o-de-obra de guarda<\/a>\u201d: \u201cos esfor\u00e7os do pessoal de monitoramento, guardas e militares (\u2026) dirigidos n\u00e3o para a produ\u00e7\u00e3o, mas para fazer cumprir as reivindica\u00e7\u00f5es decorrentes de trocas e a busca ou a preven\u00e7\u00e3o de transfer\u00eancias unilaterais de propriedade.\u201d<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante, manter o pleno emprego em uma economia rentista seria um desafio constante. N\u00e3o parece que as\u00a0quatro\u00a0\u00e1reas que acabamos de descrever poderiam substituir completamente todos os empregos perdidos para a automa\u00e7\u00e3o. E mais, estes empregos s\u00e3o eles mesmos pass\u00edveis de inova\u00e7\u00f5es em redu\u00e7\u00e3o de trabalho. O marketing pode ser realizado por meio de minera\u00e7\u00e3o de dados e algoritmos; grande parte dos neg\u00f3cios de rotina de advocacia pode ser substitu\u00edda por\u00a0<em>software<\/em>; o trabalho de guarda pode ser executado por drones de seguran\u00e7a ao inv\u00e9s de uma pol\u00edcia humana. Mesmo parte do trabalho de inven\u00e7\u00e3o de produtos poderia um dia ser dado a computadores que possuam alguma intelig\u00eancia artificial criativa rudimentar.<\/p>\n<p>E se a automa\u00e7\u00e3o falhar, a elite rentista pode colonizar o nosso \u00f3cio para extrair trabalho gratuito. O Facebook j\u00e1 invoca seus usu\u00e1rios a criar conte\u00fado gratuitamente, e a onda recente de \u201c<em>gamefica\u00e7\u00e3o<\/em>\u201d sugere que as corpora\u00e7\u00f5es est\u00e3o muito interessadas em encontrar maneiras de transformar o trabalho de seus empregados em atividades que as pessoas achar\u00e3o apraz\u00edveis, e que portanto far\u00e3o gratuitamente em seu pr\u00f3prio tempo livre. O cientista da computa\u00e7\u00e3o Luis von Ahn, por exemplo, tem se especializado no desenvolvimento de \u201cjogos com um prop\u00f3sito\u201d, aplica\u00e7\u00f5es que se apresentam ao usu\u00e1rio final como divers\u00f5es agrad\u00e1veis enquanto tamb\u00e9m realizam uma tarefa computacional \u00fatil. Um dos jogos de von Ahn solicitava que usu\u00e1rios identificassem objetos em fotos, e os dados ent\u00e3o alimentavam de volta um banco de dados que seria usado para pesquisar imagens. Esta linha de pesquisa evoca o mundo do romance\u00a0<em>Ender\u2019s Game<\/em>\u00a0(\u201cO Jogo do Exterminador\u201d, Editora Devir), de Orson Scott, onde crian\u00e7as lutam uma guerra interestelar remota atrav\u00e9s do que elas pensam serem video-games.<\/p>\n<p>Tudo isso significa que a sociedade rentista provavelmente estaria sujeita a uma tend\u00eancia persistente de desemprego, que a classe dirigente teria de encontrar algum jeito de enfrentar para manter o sistema unido e funcionando. Isto implica em realizar uma vis\u00e3o que o finado Andr\u00e9 Gorz tinha de uma sociedade p\u00f3s-industrial: \u201ca distribui\u00e7\u00e3o dos meios de pagamento precisam corresponder ao volume de riqueza socialmente produzida e n\u00e3o ao volume de trabalho executado.\u201d (\u201cMis\u00e9rias do Presente, Riqueza do Poss\u00edvel\u201d, Editora Annablume, 2004) Isso pode envolver taxa\u00e7\u00e3o de lucros das empresas lucr\u00e1veis e redistribui\u00e7\u00e3o de dinheiro de volta para os consumidores \u2013 possivelmente como uma renda garantida sem nenhuma exig\u00eancia, e possivelmente em troca da execu\u00e7\u00e3o de algum tipo de trabalho sem sentido, apenas para manter as pessoas ocupadas. Mas mesmo se a redistribui\u00e7\u00e3o fosse desej\u00e1vel do ponto de vista da classe como um todo, surgiria um problema de a\u00e7\u00e3o coletiva: qualquer companhia ou pessoa rica poderia se sentir tentada a avan\u00e7ar sobre os rendimentos dos outros, e, portanto, a resistir aos esfor\u00e7os de imposi\u00e7\u00e3o de impostos redistributivos. O governo poderia tamb\u00e9m simplesmente imprimir dinheiro para dar \u00e0 classe trabalhadora, mas a infla\u00e7\u00e3o resultante seria uma forma indireta de redistribui\u00e7\u00e3o e, assim, tamb\u00e9m enfrentaria resist\u00eancia. Finalmente, existe a op\u00e7\u00e3o de financiar o consumo atrav\u00e9s do endividamento dos consumidores \u2013 mas, em um pa\u00eds como os EUA, leitores em seus vinte-e-poucos, trinta-e-poucos anos presumivelmente n\u00e3o precisam ser lembrados das limita\u00e7\u00f5es inerentes \u00e0 essa solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Dados todos esse problemas, algu\u00e9m pode perguntar por que a classe rentista se daria ao trabalho de tentar extrair lucro das pessoas, j\u00e1 que eles poderiam replicar qualquer coisa que quisessem. O que impediria que essa sociedade se dissolvesse no cen\u00e1rio comunista da sess\u00e3o anterior? Poderia ser que ningu\u00e9m tivesse licen\u00e7as o suficiente para prover todas as suas necessidades, ent\u00e3o todos precisariam de algum rendimento para pagar seus pr\u00f3prios custos de licenciamento. Voc\u00ea pode possuir o padr\u00e3o de r\u00e9plica para uma ma\u00e7\u00e3, mas apenas ser capaz de fazer ma\u00e7\u00e3s n\u00e3o \u00e9 o bastante para sobreviver. Nesta leitura, a classe rentista seria t\u00e3o somente aqueles que possu\u00edssem licen\u00e7as o bastante para cobrir todas as suas taxas de licenciamento.<\/p>\n<p>Ou talvez, como observado no in\u00edcio, a classe dominante defendesse sua posi\u00e7\u00e3o de privil\u00e9gio para garantir poder sobre os outros \u00e0queles no topo da sociedade dividida em classes. Isto sugere outra solu\u00e7\u00e3o para o problema de desemprego do rentismo: contratar pessoas para executar servi\u00e7os pessoais poderia se tornar uma marca de status, mesmo se a automa\u00e7\u00e3o tornasse isso desnecess\u00e1rio, estritamente falando. A t\u00e3o proclamada ascens\u00e3o da economia de servi\u00e7os evoluiria para uma vers\u00e3o futurista da Inglaterra do s\u00e9culo XIX ou partes da \u00cdndia atual, onde a elite pode se dar o luxo de contratar um grande n\u00famero de servi\u00e7ais.<\/p>\n<p>Mas esta sociedade pode persistir apenas enquanto a maioria da popula\u00e7\u00e3o aceitar a legitimidade de sua hierarquia de domina\u00e7\u00e3o. Talvez o poder da ideologia seja forte o bastante para induzir as pessoas a aceitarem o estado de coisas descrito aqui; ou talvez o povo comece a se perguntar por que a riqueza do conhecimento e da cultura estaria sendo mantida cercada por leis restritivas quando, para usar um slogan popular recentemente, \u201coutro mundo \u00e9 poss\u00edvel\u201d, para al\u00e9m do regime de escassez artificial.<\/p>\n<p>N\u00f3s j\u00e1 vimos que a combina\u00e7\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o automatizada e recursos abundantes nos daria ou a utopia pura do comunismo ou a distopia absurda do rentismo; mas e se a energia e os recursos permanecessem escassos? Neste caso, chegar\u00edamos em um mundo caracterizado simultaneamente pela abund\u00e2ncia e pela escassez, em que a liberta\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 produ\u00e7\u00e3o se daria lado a lado com uma intensifica\u00e7\u00e3o do planejamento e administra\u00e7\u00e3o dos insumos para essa produ\u00e7\u00e3o. A necessidade de controlar o trabalho ainda desapareceria, mas a necessidade de gerenciar a escassez permaneceria.<\/p>\n<p>A escassez nas entradas f\u00edsicas para a produ\u00e7\u00e3o precisa ser compreendida como englobando bem mais do que mercadorias particulares como petr\u00f3leo ou min\u00e9rio de ferro \u2013 os efeitos malignos do capitalismo sobre o meio-ambiente amea\u00e7am gerar danos irrevers\u00edveis sobre os climas e ecossistemas dos quais depende grande parte da nossa economia atual. As mudan\u00e7as clim\u00e1ticas j\u00e1 come\u00e7aram a causar estragos no sistema global de alimenta\u00e7\u00e3o, e gera\u00e7\u00f5es futuras poder\u00e3o olhar para a variedade de g\u00eaneros aliment\u00edcios dispon\u00edvel hoje em dia como uma Era de Ouro insustent\u00e1vel. (Gera\u00e7\u00f5es anteriores de escritores de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica \u00e0s vezes imaginavam que um dia consumir\u00edamos toda a nossa nutri\u00e7\u00e3o na forma de p\u00edlulas ins\u00edpidas; talvez ainda venhamos a fazer isso por necessidade.) E sob as proje\u00e7\u00f5es mais severas, muitas \u00e1reas que hoje s\u00e3o densamente povoadas podem se tornar inabit\u00e1veis, impondo sobre os nossos descendentes custos severos em realoca\u00e7\u00f5es e reconstru\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>No nosso terceiro\u00a0futuro, ent\u00e3o, ningu\u00e9m precisaria trabalhar e ainda assim as pessoas n\u00e3o seriam livres para consumir tanto quanto quisessem. Algum tipo de governo seria necess\u00e1rio, e o comunismo puro estaria exclu\u00eddo como uma possibilidade; o que ter\u00edamos, ao inv\u00e9s disso, seria uma vers\u00e3o de socialismo, e alguma forma de\u00a0<a href=\"https:\/\/ominhocario.wordpress.com\/2017\/01\/12\/socialismo-mercado-planejamento-e-democracia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">planejamento econ\u00f4mico<\/a>. Contrastando com os planos do s\u00e9culo XX, por\u00e9m, os do\u00a0futuro\u00a0de recursos restritos estar\u00e3o mais preocupados em gerenciar o consumo, ao inv\u00e9s da produ\u00e7\u00e3o \u2013 que se daria, n\u00f3s ainda assumimos, atrav\u00e9s do replicador; a tarefa seria administrar os insumos que o alimentariam.<\/p>\n<p>Isso pode parecer menos que promissor, afinal, o consumo foi precisamente a \u00e1rea em que o\u00a0<a href=\"https:\/\/ominhocario.wordpress.com\/2017\/05\/08\/economia-e-planejamento-sovieticos-e-as-licoes-na-queda\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">planejamento no estilo sovi\u00e9tico<\/a>\u00a0se revelou mais deficiente. Uma sociedade capaz de se armar para a guerra com os nazistas, mas que depois \u00e9 objeto de car\u00eancias sem fim e filas para o p\u00e3o, n\u00e3o parece um padr\u00e3o muito inspirador. No entanto, a verdadeira li\u00e7\u00e3o da URSS e de seus imitadores \u00e9 que o tempo da planifica\u00e7\u00e3o ainda n\u00e3o havia chegado \u2013 e quando ele finalmente come\u00e7ou a chegar, a esclerose burocr\u00e1tica e as defici\u00eancias pol\u00edticas do sistema sovi\u00e9tico se provaram incapazes de acomod\u00e1-lo. Nos anos 50 e 60, economistas sovi\u00e9ticos tentaram heroicamente reconstruir sua economia em uma forma mais funcional \u2013 uma das principais figuras neste esfor\u00e7o foi o vencedor do pr\u00eamio Nobel Leonid Kantorovich, cuja hist\u00f3ria est\u00e1 contada de forma ficcional no livro de Francis Spufford, \u201c<em><a href=\"http:\/\/redplenty.com\/Red_Plenty\/Front_page.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Red Plenty<\/a><\/em>\u201d (algo como \u201cabund\u00e2ncia vermelha\u201d). O esfor\u00e7o encalhou n\u00e3o por que o planejamento fosse imposs\u00edvel em princ\u00edpio, mas por que era tecnicamente e politicamente imposs\u00edvel na URSS de seu tempo.\u00a0<em>Tecnicamente<\/em>, por que suficiente poder computacional ainda n\u00e3o estava dispon\u00edvel, e\u00a0<em>politicamente<\/em>\u00a0por que a elite burocr\u00e1tica sovi\u00e9tica n\u00e3o intencionava apartar-se dos poderes e privil\u00e9gios que lhes eram garantidos sob o sistema existente.<\/p>\n<p>Mas os esfor\u00e7os de Kantorovich, e de te\u00f3ricos contempor\u00e2neos do planejamento como\u00a0<a href=\"https:\/\/ominhocario.wordpress.com\/2019\/04\/19\/de-volta-ao-debate-sobre-o-calculo-socialista-calculo-complexidade-e-planejamento\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Paul Cockshott e Allin Cottrell<\/a>, sugerem que alguma forma de\u00a0<a href=\"https:\/\/ominhocario.wordpress.com\/2019\/05\/09\/de-volta-ao-debate-sobre-o-planejamento-socialista-ii-precos-informacao-comunicacao-e-eficiencia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">planejamento eficiente<\/a>\u00a0e democr\u00e1tico \u00e9 poss\u00edvel. E isso ser\u00e1 necess\u00e1rio em um mundo de recursos escassos: embora a produ\u00e7\u00e3o privada capitalista tenha sido muito bem sucedida em incentivar a inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica de economia de m\u00e3o de obra, ela tem se provado terr\u00edvel na conserva\u00e7\u00e3o do meio-ambiente ou na racionaliza\u00e7\u00e3o de recursos escassos. Mesmo em um mundo p\u00f3s-capitalista, p\u00f3s-trabalho, algum tipo de coordena\u00e7\u00e3o seria necess\u00e1ria para garantir que os indiv\u00edduos n\u00e3o tratem a Terra de uma maneira que seja, no somat\u00f3rio, insustent\u00e1vel. Seria preciso,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ifch.unicamp.br\/criticamarxista\/arquivos_biblioteca\/artigo164Artigo3.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">como disse<\/a>\u00a0Michael L\u00f6wy, de algum tipo de \u201cplanejamento democr\u00e1tico global\u201d baseado no debate democr\u00e1tico e pluralista ao inv\u00e9s de dirigido por burocratas.<\/p>\n<p>Um distin\u00e7\u00e3o precisa ser feita, por\u00e9m, entre planejamento democr\u00e1tico e uma economia completamente sem-mercado. Uma economia socialista poderia empregar o planejamento racional enquanto ainda comportasse trocas de algum tipo no mercado, juntamente com dinheiro e pre\u00e7os. Essa, de fato, foi uma das sacadas de Kantorovich; ao inv\u00e9s de se livrar dos sinais de pre\u00e7o, ele queria tornar os pre\u00e7os em mecanismos para transformar metas de produ\u00e7\u00e3o planejada em realidades econ\u00f4micas. Tentativas atuais de colocar um pre\u00e7o em emiss\u00f5es de carbono atrav\u00e9s de esquemas \u201c<em><a href=\"http:\/\/www.brasil-economia-governo.org.br\/2012\/08\/13\/o-que-e-o-mercado-de-carbono-e-como-ele-opera-no-brasil\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">cap-and-trade<\/a><\/em>\u201d apontam nessa dire\u00e7\u00e3o: enquanto elas usam o mercado como um mecanismo coordenado, elas s\u00e3o tamb\u00e9m uma forma de planejamento, j\u00e1 que o passo chave \u00e9 a decis\u00e3o, fora do mercado, sobre qual n\u00edvel de emiss\u00f5es de carbono \u00e9 aceit\u00e1vel. Essa abordagem poderia parecer bem diferente do que as atuais, se generalizada e implementada sem rela\u00e7\u00f5es capitalistas de propriedade e desigualdades de riqueza.<\/p>\n<p>Suponha que todos recebessem um sal\u00e1rio, n\u00e3o como um retorno pelo trabalho, mas como um Direito Humano. Este sal\u00e1rio n\u00e3o compraria o produto do trabalho de outras pessoas, mas, ao inv\u00e9s disso, o direito de usar uma certa quantidade de energia e de recursos quando algu\u00e9m fosse utilizar os replicadores. Mercados poderiam se desenvolver na medida em que as pessoas escolhessem trocar um tipo de autoriza\u00e7\u00e3o de consumo por outra, mas isso seria o que o sociol\u00f3go Erik Olin Wright chama de \u201ccapitalismo consentido entre adultos\u201d, ao inv\u00e9s da participa\u00e7\u00e3o involunt\u00e1ria no trabalho assalariado motivada pela amea\u00e7a da fome.<\/p>\n<p>Dada a necessidade de determinar e de acompanhar os n\u00edveis est\u00e1veis de consumo \u2013 e deste modo, determinar pre\u00e7os \u2013 o Estado n\u00e3o poderia desaparecer, como sob o cen\u00e1rio comunista. E onde h\u00e1 escassez, com certeza haver\u00e1 conflitos pol\u00edticos, mesmo se j\u00e1 n\u00e3o fossem conflitos de classe. Conflitos entre localidades, entre gera\u00e7\u00f5es, entre aqueles que estariam mais preocupados com a sa\u00fade do meio-ambiente \u00e0 longo-prazo e aqueles que prefeririam um maior consumo material no curto prazo \u2013 nenhum deles seria f\u00e1cil de se resolver. Por\u00e9m, ter\u00edamos pelo menos sa\u00eddo do outro lado do capitalismo como uma sociedade democr\u00e1tica, e mais ou menos em unidade.<\/p>\n<p id=\"exterminismo\"><strong>Hierarquia e Escassez: Exterminismo<\/strong><\/p>\n<p>Mas se n\u00e3o chegarmos nesse ponto como iguais, e os limites ambientais continuarem pressionando contra n\u00f3s, chegar\u00edamos ao quarto e mais perturbador dos nossos\u00a0quatro\u00a0poss\u00edveis\u00a0futuros. De certo modo, ele lembra o comunismo que discutimos no in\u00edcio \u2013 mas seria um comunismo para poucos.<\/p>\n<p>A verdade paradoxal sobre aquela elite global que aprendemos a chamar de \u201cO Um Porcento\u201d \u00e9 que, embora eles sejam definidos pelo seu controle de uma enorme extens\u00e3o da riqueza monet\u00e1ria mundial, eles s\u00e3o ao mesmo tempo o fragmento da humanidade cujas vidas di\u00e1rias s\u00e3o menos dominadas pelo dinheiro. Como\u00a0<a href=\"http:\/\/www.antipope.org\/charlie\/blog-static\/2011\/10\/a-cultural-experiment.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">escreveu<\/a>\u00a0Charles Stross, os muito ricos habitam uma exist\u00eancia em que a maioria dos bens materiais s\u00e3o, na pr\u00e1tica, gratuitos \u2013 ou seja, sua riqueza \u00e9 t\u00e3o grande em rela\u00e7\u00e3o ao pre\u00e7o da comida, habita\u00e7\u00e3o, viagens, e outras amenidades, que eles raramente precisam considerar o pre\u00e7o de qualquer coisa. O que eles quiserem, podem ter.<\/p>\n<p>Isso significa que para os muito ricos, o mundo j\u00e1 \u00e9 algo como o comunismo descrito anteriormente. A diferen\u00e7a, \u00e9 claro, \u00e9 que sua condi\u00e7\u00f5es p\u00f3s-escassez \u00e9 possibilitada n\u00e3o apenas por m\u00e1quinas mas pelo trabalho da classe trabalhadora global. Contudo, uma vis\u00e3o otimista dos desenvolvimentos\u00a0futuros\u00a0\u2013 o\u00a0futuro\u00a0que descrevi como comunismo \u2013 \u00e9 que em algum momento n\u00f3s chegar\u00edamos em um estado em que todos ser\u00edamos, em certo sentido, como o Um Porcento. Como na famosa\u00a0<a href=\"http:\/\/www.npr.org\/templates\/story\/story.php?storyId=1067220\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">cita\u00e7\u00e3o<\/a>\u00a0de William Gibson, \u201co\u00a0futuro\u00a0j\u00e1 est\u00e1 aqui, s\u00f3 que distribu\u00eddo de maneira desigual.\u201d<\/p>\n<p>Mas e se os recursos e a energia forem simplesmente escassos demais para permitir que todos gozem do padr\u00e3o de vida material dos ricos atuais? E se chegarmos a um\u00a0futuro\u00a0que j\u00e1 n\u00e3o precisasse do trabalho das massas prolet\u00e1rias na produ\u00e7\u00e3o, mas que fosse incapaz de prover a todos com um padr\u00e3o arbitrariamente alto de consumo? Se chegarmos em tal mundo como uma sociedade igualit\u00e1ria, ent\u00e3o a resposta seria o regime socialista de conserva\u00e7\u00e3o compartilhada descrito na sess\u00e3o anterior. Se, no entanto, ao inv\u00e9s, n\u00f3s permanecermos como uma sociedade polarizada entre uma elite privilegiada e uma massa oprimida, ent\u00e3o a trajet\u00f3ria mais plaus\u00edvel levaria a algo muito mais obscuro; eu a chamarei pelo termo que E. P. Thompson usou para descrever uma distopia diferente, durante o pico da Guerra Fria: \u201cExterminismo\u201d.<\/p>\n<p>O grande perigo imposto pela automa\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o, no contexto de um mundo de hierarquia e de recursos escassos, \u00e9 que, do ponto de vista das elites dominantes, ela torna sup\u00e9rflua a grande massa do povo. Isso est\u00e1 em contraste com o capitalismo, onde o antagonismo entre capital e trabalho \u00e9 caracterizado por uma luta de interesses e por uma rela\u00e7\u00e3o de depend\u00eancia m\u00fatua: os trabalhadores dependem dos capitalistas j\u00e1 que eles mesmos n\u00e3o controlam os meios de produ\u00e7\u00e3o, enquanto os capitalistas precisam de trabalhadores para operar suas f\u00e1bricas e lojas. Como na letra de \u201c<em><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=pCnEAH5wCzo\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Solidarity Forever<\/a><\/em>\u201d (\u201cSolidariedade para Sempre\u201d): \u201cEles tomaram incont\u00e1veis milh\u00f5es que n\u00e3o labutaram para receber\/Mas sem nossos c\u00e9rebros e m\u00fasculos, nem uma simples engrenagem pode virar.\u201d Com a ascens\u00e3o dos rob\u00f4s, o segundo verso deixa de ser verdade.<\/p>\n<p>A exist\u00eancia de uma ral\u00e9 empobrecida e economicamente sup\u00e9rflua imp\u00f5em um grande perigo para a classe dominante, que naturalmente temer\u00e1 uma iminente expropria\u00e7\u00e3o; confrontada com esta amea\u00e7a, alguns cursos de a\u00e7\u00e3o se apresentar\u00e3o diante dela. As massas podem ser compradas por algum grau de redistribui\u00e7\u00e3o de recursos, enquanto os ricos compartilharem sua riqueza na forma de programas de bem-estar social, pelo menos se as restri\u00e7\u00f5es de recursos n\u00e3o forem muito apertadas. Mas al\u00e9m de potencialmente reintroduzir escassez na vida dos ricos, esta solu\u00e7\u00e3o \u00e9 pass\u00edvel de conduzir para uma onda sempre crescente de demandas por parte das massas, fazendo assim assomar novamente o espectro da expropria\u00e7\u00e3o. Isso foi essencialmente o que aconteceu no pico da onda do Estado de Bem-Estar Social, quando os chefes come\u00e7aram a temer que tanto os lucros quanto o controle sobre o ambiente de trabalho estivessem escorrendo de suas m\u00e3os.<\/p>\n<p>Se comprar a multid\u00e3o enfurecida n\u00e3o for uma estrat\u00e9gia sustent\u00e1vel, outra op\u00e7\u00e3o seria simplesmente fugir e se esconder dela. Essa \u00e9 a trajet\u00f3ria do que o soci\u00f3logo Bryan Turner chama de \u201c<a href=\"http:\/\/est.sagepub.com\/content\/10\/2\/287.abstract\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">sociedade de enclave<\/a>\u201d, uma ordem em que \u201cgovernos e outras ag\u00eancias buscam regular espa\u00e7os e, onde for necess\u00e1rio, imobilizar fluxos de pessoas, bens e servi\u00e7os\u201d por meio de \u201cmuros, barreiras burocr\u00e1ticas, exclus\u00f5es legais e registros.\u201d Comunidades muradas, ilhas privadas, guetos, pris\u00f5es, paranoia terrorista, quarentenas biol\u00f3gicas; juntos, estes se somam em um gulag global invertido, onde os ricos viveriam em pequenas ilhas de riqueza espalhadas por um oceano de mis\u00e9ria. Em \u201c<a href=\"http:\/\/www.christianparenti.com\/tropic-of-chaos\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><em>Tropic of Chaos<\/em><\/a>\u201d (\u201cTr\u00f3pico do Caos\u201d), Christian Parenti defende a tese de que j\u00e1 estamos construindo essa nova ordem, conforme as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas acarretam o que ele chama de \u201cconverg\u00eancia catastr\u00f3fica\u201d de destrui\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica, desigualdade econ\u00f4mica, e fal\u00eancia de Estados. O legado do colonialismo e do neoliberalismo \u00e9 que os pa\u00edses ricos, junto das elites dos pa\u00edses pobres, t\u00eam facilitado uma desintegra\u00e7\u00e3o em viol\u00eancia an\u00e1rquica, com v\u00e1rias tribos ou fac\u00e7\u00f5es pol\u00edticas se enfrentando pelos frutos decrescentes de ecossistemas danificados. Diante dessa realidade sombria, muitos dos ricos \u2013 o que, em termos globais, tamb\u00e9m inclui muitos trabalhadores nos pa\u00edses ricos \u2013 se resignam a se embarricar em suas fortalezas, protegidos por drones e empreiteiros militares privados. A m\u00e3o de obra de guarda, que encontramos na sociedade rentista, reaparece aqui em uma forma ainda mais mal\u00e9vola, com alguns poucos sortudos empregados como executores e protetores para os ricos.<\/p>\n<p>Mas este tamb\u00e9m seria um equil\u00edbrio insustent\u00e1vel, pela mesma raz\u00e3o b\u00e1sica que comprar as massas o seria: Enquanto existirem as hordas mantidas na mis\u00e9ria, existe o risco de que um dia possa se tornar imposs\u00edvel mant\u00ea-las distantes. Uma vez que o trabalho em massa tenha sido transformado em sup\u00e9rfluo, uma solu\u00e7\u00e3o final espreita: uma guerra genocida dos ricos contra os pobres. Muitos t\u00eam chamado \u201cO Pre\u00e7o do Amanh\u00e3\u201d, estrelado por Justin Timberlake, de um \u201cfilme marxista\u201d \u2013 mas ele \u00e9 mais precisamente uma par\u00e1bola do caminho para o exterminismo. No filme, uma pequena classe dominante literalmente vive para sempre em seus enclaves murados atrav\u00e9s de tecnologia gen\u00e9tica, enquanto todos os outros s\u00e3o programados para morrer aos 25 anos, a menos que possam implorar, emprestar ou roubar mais tempo. A \u00fanica coisa poupando os trabalhadores \u00e9 que os ricos ainda precisam de seu trabalho em algum n\u00edvel; quando essa necessidade expirar, presumivelmente tamb\u00e9m expirar\u00e1 a classe trabalhadora em si.<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jacobin.com.br\/2021\/10\/quatro-futuros\/loja.editoraruadosabao.com.br\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/jacobin.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/algoritmos-da-opressao.jpg?w=640&#038;ssl=1\" data-src=\"https:\/\/jacobin.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/algoritmos-da-opressao.jpg\" \/><\/a><\/p>\n<p>Da\u00ed o termo \u201cexterminismo\u201d como uma descri\u00e7\u00e3o para esse tipo de sociedade. Tal destino genocida pode parecer um barbarismo remoto, digno de vil\u00f5es de hist\u00f3rias em quadrinhos; talvez seja irracional pensar que um mundo cicatrizado pelos holocaustos do s\u00e9culo XX poderia novamente afundar em tamanha deprava\u00e7\u00e3o. No entanto, em um pa\u00eds como os Estados Unidos uma s\u00e9rie de presidentes vem casualmente ordenando a execu\u00e7\u00e3o de inocentes no estrangeiro, e o assassinato de cidad\u00e3os estadunidenses sem nem mesmo a pretens\u00e3o do devido processo, sob amplos aplausos liberais.<\/p>\n<h2>Misturando os cen\u00e1rios<\/h2>\n<p>Estas\u00a0quatro\u00a0vis\u00f5es s\u00e3o tipos abstratos ideais, ess\u00eancias plat\u00f4nicas de sociedades. Elas deixam de fora muitos dos detalhes complexos, e ignoram a realidade onde escassez-abund\u00e2ncia e igualdade-hierarquia n\u00e3o s\u00e3o simples dicotomias mas escalas com muitas possibilidades de grada\u00e7\u00e3o entre esses extremos. Minha inspira\u00e7\u00e3o, no entanto, ao pincelar estes retratos simplificados, foi o modelo de uma sociedade puramente capitalista que Marx perseguiu em O Capital: um ideal que nunca pode ser perfeitamente refletido nas montagens complexas da Hist\u00f3ria Econ\u00f4mica real, mas que ilumina elementos \u00fanicos e fundacionais de uma ordem social espec\u00edfica. Os socialismos e os barbarismos descritos aqui deveriam ser pensados como caminhos pelos quais a humanidade pode seguir, mesmo se forem destinos que nunca atingiremos. Com algum conhecimento do que nos espera no final de cada estrada, talvez sejamos mais capazes de evitar tomar a dire\u00e7\u00e3o errada.<\/p>\n<p>No artigo abaixo, escrito em 2011 (e cujo sucesso inspirou a expans\u00e3o dessas ideias no livro \u201c<a href=\"https:\/\/autonomialiteraria.com.br\/loja\/teoria-politica\/quatro-futuros-a-vida-apos-o-capitalismo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Quatro futuros: a vida ap\u00f3s o capitalismo<\/a>\u201c, o primeiro lan\u00e7amento da cole\u00e7\u00e3o jacobina em parceria com a Autonomia Liter\u00e1ria), Peter Frase tenta imaginar as possibilidades para nosso futuro em comum ap\u00f3s o fim do capitalismo \u2013 partindo dos enormes avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos atuais e dos mais prov\u00e1veis para as pr\u00f3ximas d\u00e9cadas, assumindo a brutal redu\u00e7\u00e3o da necessidade de trabalho humano na produ\u00e7\u00e3o de mercadorias. O centro do argumento \u00e9 que se chegarmos nesse ponto, o aspecto da sociedade vai depender basicamente de dois eixos principais: das futuras condi\u00e7\u00f5es\u00a0<em>materiais<\/em>\u00a0(o impacto das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e a escassez ou abund\u00e2ncia de recursos naturais e de fontes de energia limpa para os sistemas automatizados) e\u00a0<em>pol\u00edticas<\/em>\u00a0(mais igualdade ou mais hierarquia, dependendo do sucesso ou do fracasso dos esfor\u00e7os das esquerdas em domar a desigualdade e as hierarquias da sociedade atual). Da combina\u00e7\u00e3o de possibilidades nesses dois eixos temos os quatro futuros que o autor descreve, com o apoio de imagens da fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e buscando as caracter\u00edsticas principais de cada futuro em aspectos j\u00e1 observados em nossa sociedade atual: Igualdade e\u00a0Abund\u00e2ncia (\u201cComunismo\u201d),\u00a0Igualdade e Escassez (\u201cSocialismo\u201d), Hierarquia e\u00a0Abund\u00e2ncia (\u201cRentismo\u201d), Hierarquia e Escassez (\u201cExterminismo\u201d) \u2013\u00a0basicamente, \u201cdois socialismos\u201d e \u201cduas barb\u00e1ries\u201d. Tratam-se de tipos ideais, de vers\u00f5es limites, de horizontes que provavelmente nunca acontecer\u00e3o como vers\u00f5es \u201cpuras\u201d, mas com os quais podemos refletir para imaginar o que podemos acabar construindo no caminho para cada um deles.<\/p>\n<p>Frase enfatiza\u00a0que escreveu o livro como resposta aos muitos textos e livros que t\u00eam surgido com uma vis\u00e3o tecnocr\u00e1tica sobre as consequ\u00eancias da automa\u00e7\u00e3o \u2013 como se ela fosse, por si s\u00f3, gerar um mundo de mais liberdade e de bem-estar para todos. A mensagem \u00e9 clara: os benef\u00edcios esperados n\u00e3o s\u00e3o autom\u00e1ticos, eles dependem de outras vari\u00e1veis, principalmente dos efeitos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e do resultado da luta pol\u00edtica no n\u00facleo do capitalismo (a famosa\u00a0<em>luta de classes<\/em> entre os donos dos meios de produ\u00e7\u00e3o e as pessoas que precisam vender seu tempo de trabalho a eles).<\/p>\n<p>Em seu\u00a0<a href=\"http:\/\/blogdaboitempo.com.br\/2011\/10\/11\/a-tinta-vermelha-discurso-de-slavoj-zizek-aos-manifestantes-do-movimento-occupy-wall-street\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">discurso<\/a>\u00a0para os acampados no\u00a0<em>Occupy Wall Street<\/em>\u00a0no Parque Zuccotti em 2011, Slavoj Zizek lamentou que \u201c\u00e9 f\u00e1cil imaginar o fim do mundo, mas n\u00e3o conseguimos imaginar o fim do capitalismo.\u201d \u00c9 a cita\u00e7\u00e3o de uma frase que Fredric Jameson disse alguns\u00a0<a href=\"http:\/\/libertas.ufjf.emnuvens.com.br\/libertas\/article\/download\/1868\/1317\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">anos atr\u00e1s<\/a>, quando a hegemonia do\u00a0<a href=\"https:\/\/ominhocario.wordpress.com\/2018\/09\/04\/sobre-mercados-liberalismo-economico-e-neoliberalismo-leituras-tematicas-2\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">neoliberalismo<\/a>\u00a0ainda parecia absoluta. Mesmo assim, a mera exist\u00eancia do\u00a0<em>Occupy Wall Street<\/em>\u00a0sugere que recentemente o fim do capitalismo se tornou um pouco mais f\u00e1cil de se imaginar. De in\u00edcio essa imagem tomou uma forma amea\u00e7adora e dist\u00f3pica: no pico da crise financeira, com a economia global parecendo em colapso completo, parecia que o fim do capitalismo poderia ser o in\u00edcio de um per\u00edodo de viol\u00eancia an\u00e1rquica e mis\u00e9ria. Mais recentemente, por\u00e9m, os protestos que se espalharam pelo globo, do Cairo a Madri, de Madison a Wall Street deram \u00e0 esquerda alguma raz\u00e3o para aumentar timidamente suas esperan\u00e7as de um\u00a0futuro\u00a0melhor ap\u00f3s o capitalismo.<\/p>\n<p>Uma coisa de que podemos ter certeza \u00e9 que o capitalismo vai acabar \u2013 talvez n\u00e3o t\u00e3o em breve, mas provavelmente num\u00a0futuro\u00a0n\u00e3o muito distante. A humanidade nunca conseguiu criar um sistema social eterno, no fim das contas, e o capitalismo \u00e9 uma ordem notavelmente mais prec\u00e1ria e vol\u00e1til que a maioria das que o precederam. A quest\u00e3o, ent\u00e3o, \u00e9 o que vir\u00e1 depois. Rosa Luxemburgo, reagindo ao in\u00edcio da I Guerra Mundial,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/luxemburgo\/1915\/junius\/cap01.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">citou<\/a>\u00a0uma frase de Engels: \u201cA sociedade burguesa se encontra em uma encruzilhada, ou entra em transi\u00e7\u00e3o para o socialismo ou regride para a barb\u00e1rie.\u201d Nesse esp\u00edrito, ofere\u00e7o um experimento de reflex\u00e3o, uma tentativa de divisar nossos poss\u00edveis\u00a0futuros. Estes s\u00e3o alguns dos socialismos que podemos alcan\u00e7ar se uma esquerda ressurgente tiver sucesso, ou os barbarismos aos quais podemos ser lan\u00e7ados se falharmos.<\/p>\n<p>Muito da literatura sobre economias p\u00f3s-capitalistas se preocupa com o problema de como gerenciar o trabalho na aus\u00eancia de chefes capitalistas. Por\u00e9m, come\u00e7arei assumindo que j\u00e1 teremos nos livrado desse problema, para iluminar melhor outros aspectos da quest\u00e3o. Isso pode ser feito simplesmente extrapolando a tend\u00eancia capitalista rumo a uma automa\u00e7\u00e3o sempre crescente, que torna a produ\u00e7\u00e3o sempre mais eficiente enquanto simultaneamente desafia a capacidade do sistema de criar empregos \u2013 e, assim, de sustentar a demanda para o que \u00e9 produzido. Esse tema tem ressurgido recentemente no pensamento burgu\u00eas: em Setembro de 2011, Farhad Manjoo escreveu para a revista Slate uma longa s\u00e9rie de artigos sobre \u201c<a href=\"http:\/\/www.slate.com\/articles\/technology\/robot_invasion.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><em>The Robot Invasion<\/em><\/a>\u201d (\u201cA Invas\u00e3o Rob\u00f4\u201d), e pouco depois dois economistas do MIT publicaram \u201c<em><a href=\"http:\/\/raceagainstthemachine.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Race Against The Machine<\/a><\/em>\u201d (\u201cCorrida Contra A M\u00e1quina\u201d), um livro eletr\u00f4nico em que argumentam que a automa\u00e7\u00e3o estaria rapidamente tomando muitas das \u00e1reas que at\u00e9 recentemente serviram como os maiores motores para a cria\u00e7\u00e3o de empregos na economia capitalista. De f\u00e1bricas automotivas completamente autom\u00e1ticas a computadores que podem diagnosticar condi\u00e7\u00f5es de sa\u00fade, a robotiza\u00e7\u00e3o est\u00e1 avan\u00e7ando n\u00e3o apenas sobre a manufatura, mas sobre grande parte do setor de servi\u00e7os tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Levada ao seu limite l\u00f3gico, esta din\u00e2mica nos traria ao ponto onde a economia n\u00e3o precisar\u00e1 de nenhum trabalho humano. Isso n\u00e3o traria automaticamente o fim do trabalho assalariado, como tem sido falsamente previsto in\u00fameras vezes como resposta ao desenvolvimento tecnol\u00f3gico. No entanto, isso significa que as sociedades humanas ir\u00e3o encarar cada vez mais a possibilidade de libertar as pessoas do trabalho involunt\u00e1rio. Se vamos agarrar essa oportunidade, e como faremos isso, depender\u00e1 de dois fatores principais, um material e um social. A primeira quest\u00e3o \u00e9 sobre a escassez de recursos: a habilidade de encontrar fontes de energia baratas, de extrair ou reciclar mat\u00e9rias-primas, e em geral, de depender da capacidade da Terra para prover um alto padr\u00e3o de vida material para todos. Uma sociedade que possua tanto tecnologias de substitui\u00e7\u00e3o de m\u00e3o de obra quanto recursos abundantes poderia sobrepujar a escassez de uma maneira completa que uma sociedade que possua apenas o primeiro elemento n\u00e3o poderia. A segunda quest\u00e3o \u00e9 pol\u00edtica: que tipo de sociedade seremos? Uma ordem em que todas as pessoas s\u00e3o tratadas como seres livres e iguais, com um direito igualit\u00e1rio de compartilhar da riqueza da sociedade? Ou uma ordem hier\u00e1rquica em que uma elite domina e controla as massas e seu acesso aos recursos sociais?<\/p>\n<p>Existem ent\u00e3o\u00a0quatro\u00a0combina\u00e7\u00f5es l\u00f3gicas dessas duas oposi\u00e7\u00f5es, abund\u00e2ncia de recursos vs. escassez e igualitarismo vs. hierarquia. Para colocar as coisas em termos de um marxismo um tanto vulgar, o primeiro eixo dita a base econ\u00f4mica do\u00a0futuro\u00a0p\u00f3s-capitalista, enquanto o segundo pertence \u00e0 superestrutura s\u00f3cio-pol\u00edtica. Dois desses poss\u00edveis\u00a0futuros\u00a0s\u00e3o \u201csocialismos\u201d (e apenas um deles eu chamarei por esse nome) enquanto os outros dois s\u00e3o sabores contrastantes de \u201cbarbarismos\u201d.<\/p>\n<p id=\"comunismo\"><strong>Igualitarismo e Abund\u00e2ncia: Comunismo<\/strong><\/p>\n<p>H\u00e1 uma famosa\u00a0<a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/archive\/marx\/works\/1894-c3\/ch48.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">passagem<\/a>\u00a0no terceiro volume d\u2019O Capital, em que Marx distingue entre um \u201cReino da Necessidade\u201d e um \u201cReino da Liberdade\u201d. No reino da necessidade n\u00f3s precisamos \u201clutar com a natureza para satisfazer [nossos] desejos, para manter e reproduzir [nossa] vida\u201d, atrav\u00e9s do trabalho f\u00edsico na produ\u00e7\u00e3o. Este reino da necessidade, Marx diz, existe \u201cem todas as forma\u00e7\u00f5es sociais e sob todos os poss\u00edveis modos de produ\u00e7\u00e3o\u201d, presumivelmente incluindo o socialismo. O que distingue o socialismo, ent\u00e3o, \u00e9 que a produ\u00e7\u00e3o \u00e9 racionalmente planejada e democraticamente organizada, ao inv\u00e9s de operar sob os caprichos do capitalista ou do mercado. Para Marx, entretanto, este n\u00edvel da sociedade n\u00e3o era o objetivo real da revolu\u00e7\u00e3o, mas meramente uma pr\u00e9-condi\u00e7\u00e3o para \u201caquele desenvolvimento da energia humana que \u00e9 um fim em si mesmo, o verdadeiro reino da liberdade, que entretanto, s\u00f3 pode florir com este reino da necessidade como sua base.\u201d<\/p>\n<p>Em outros lugares, Marx sugere que um dia poderemos nos libertar at\u00e9 mesmo do reino da necessidade. Na \u201c<a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/archive\/marx\/works\/1875\/gotha\/ch01.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Cr\u00edtica do Programa de Gotha<\/a>\u201d, ele imagina que:<\/p>\n<blockquote><p><em>\u201cEm uma fase mais alta da sociedade comunista, depois que\u00a0tenham desaparecido\u00a0a subordina\u00e7\u00e3o escravizadora do indiv\u00edduo \u00e0 divis\u00e3o do trabalho, e com ela tamb\u00e9m a ant\u00edtese entre o trabalho mental e f\u00edsico; depois que o trabalho tenha se tornado n\u00e3o apenas um meio de vida mas o principal desejo da vida; depois que as for\u00e7as produtivas tenham tamb\u00e9m aumentado com um amplo e completo desenvolvimento do indiv\u00edduo, e que todos os frutos da riqueza co-operativa fluam mais abundantemente \u2013 s\u00f3 ent\u00e3o o estreito horizonte do direito burgu\u00eas poder\u00e1 ser riscado completamente e a sociedade poder\u00e1 inscrever em seus cartazes: De cada um segundo sua habilidade, a cada um segundo suas necessidades!\u201d<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Os cr\u00edticos de Marx t\u00eam frequentemente voltado esta passagem contra ele, a retratando como uma utopia irremediavelmente improv\u00e1vel. Que poss\u00edvel sociedade poderia ser t\u00e3o produtiva que os humanos poderiam se libertar inteiramente da obriga\u00e7\u00e3o de fazer algum tipo de trabalho involunt\u00e1rio e insatisfat\u00f3rio? E ainda assim a promessa da ampla difus\u00e3o da automa\u00e7\u00e3o \u00e9 exatamente que ela poderia decretar tal liberta\u00e7\u00e3o, ou pelo menos aproximar-nos dela \u2013 se, claro, encontrarmos uma maneira de lidar com as necessidades de gera\u00e7\u00e3o de energia e de obten\u00e7\u00e3o de recursos. Mas desenvolvimentos tecnol\u00f3gicos recentes t\u00eam ocorrido n\u00e3o apenas na produ\u00e7\u00e3o de mercadorias, mas tamb\u00e9m na gera\u00e7\u00e3o da energia necess\u00e1ria para operar as f\u00e1bricas autom\u00e1ticas e as impressoras 3-D do\u00a0futuro. Da\u00ed um poss\u00edvel\u00a0futuro\u00a0p\u00f3s-escassez combina tecnologias de economia de m\u00e3o de obra com uma alternativa ao atual regime de energia, que no final est\u00e1 limitado pela escassez f\u00edsica e pela destrui\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica dos combust\u00edveis f\u00f3sseis. Essas condi\u00e7\u00f5es passam longe de estarem garantidas, mas existem indicadores promissores. Os custos de produ\u00e7\u00e3o e de opera\u00e7\u00e3o de pain\u00e9is solares, por exemplo,\u00a0<a href=\"http:\/\/blogs.scientificamerican.com\/guest-blog\/2011\/03\/16\/smaller-cheaper-faster-does-moores-law-apply-to-solar-cells\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">vem caindo<\/a>\u00a0dramaticamente nas \u00faltimas d\u00e9cadas. Na trajet\u00f3ria atual eles podem se tornar mais baratos que nossas fontes de eletricidade atuais em poucos anos. Se energia barata e automa\u00e7\u00e3o forem combinadas com m\u00e9todos de fabrica\u00e7\u00e3o eficientes ou reciclagem de mat\u00e9rias-primas, ent\u00e3o n\u00f3s realmente deixamos para tr\u00e1s \u201ca Economia\u201d como um mecanismo social de gerenciamento da escassez. O que nos espera al\u00e9m desse horizonte?<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 que todo trabalho cessaria, no sentido em que todos apenas nos deitar\u00edamos em dissipa\u00e7\u00e3o e torpor. Como Marx coloca, \u201c[\u2026] quando o trabalho tiver se tornado n\u00e3o apenas um meio de vida mas o principal desejo da vida.\u201d Qualquer atividade ou projetos em que tom\u00e1ssemos parte, o far\u00edamos por que os achar\u00edamos inerentemente satisfat\u00f3rios, n\u00e3o por que precisar\u00edamos de um sal\u00e1rio ou por que dev\u00eassemos nossas horas mensais para a cooperativa. Isto n\u00e3o \u00e9 algo t\u00e3o implaus\u00edvel, considerando o grau em que decis\u00f5es sobre o trabalho j\u00e1 s\u00e3o guiadas por considera\u00e7\u00f5es n\u00e3o-materiais, entre aqueles que s\u00e3o privilegiados o bastante para ter essa op\u00e7\u00e3o: milh\u00f5es de pessoas escolhem ir para a Universidade, fazer servi\u00e7o social, ou come\u00e7ar pequenas fazendas org\u00e2nicas, mesmo quando carreiras bem mais lucrativas est\u00e3o abertas a elas.<\/p>\n<p>A derrocada do trabalho assalariado pode parecer hoje um sonho distante. Mas houve um tempo \u2013 antes do movimento trabalhista recuar em suas demandas por menos horas de trabalho, e antes da estagna\u00e7\u00e3o e revers\u00e3o da longa tend\u00eancia rumo a semanas de trabalho mais curtas \u2013 em que algumas pessoas realmente se preocupavam sobre o que far\u00edamos depois de libertos do trabalho. Em um ensaio sobre as \u201c<a href=\"http:\/\/www.geocities.ws\/luso_america\/KeynesPO.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Possibilidades Econ\u00f4micas para Nossos Netos<\/a>\u201d, John Maynard Keynes previu que dentro de poucas gera\u00e7\u00f5es, \u201cos homens se deparar\u00e3o com seu problema real e permanente \u2013 como usar sua liberdade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s preocupa\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas que o pressionam; como ocupar o tempo livre; que Ci\u00eancia ou interesses o apetecer\u00e3o, para viver de maneira s\u00e1bia, agrad\u00e1vel e boa.\u201d E em uma\u00a0<a href=\"http:\/\/zinelibrary.info\/files\/Adorno_Horkheimer_NM-read.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">discuss\u00e3o<\/a>\u00a0em 1956, Max Horkheimer come\u00e7a por casualmente comentar com Theodor Adorno que \u201choje em dia temos o suficiente em rela\u00e7\u00e3o a for\u00e7as produtivas; \u00e9 \u00f3bvio que poder\u00edamos suprir o mundo inteiro com bens e poder\u00edamos ent\u00e3o tentar abolir o trabalho como uma necessidade para os seres humanos.\u201d<\/p>\n<p>Keynes e Adorno viviam em um mundo em que a ind\u00fastria parecia poss\u00edvel apenas em uma escala muito grande, seja em f\u00e1bricas capitalistas ou em empreendimentos estatais; aquela forma de ind\u00fastria implica hierarquia, n\u00e3o importa em que forma\u00e7\u00e3o social ela esteja inserida. Contudo, recentes avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos sugerem a possibilidade de retorno a uma estrutura menos centralizada, sem reduzir drasticamente os padr\u00f5es materiais de sobreviv\u00eancia: a prolifera\u00e7\u00e3o de impressoras 3-D e \u201claborat\u00f3rios de fabrica\u00e7\u00e3o\u201d em pequena escala (tamb\u00e9m conhecidos como espa\u00e7os de \u201c<em><a href=\"https:\/\/ominhocario.wordpress.com\/2016\/06\/23\/todo-poder-para-os-espacos-de-fazedores-1\/\">makers<\/a><\/em>\u201c) est\u00e1 cada vez mais possibilitando a redu\u00e7\u00e3o da escala de pelo menos algumas manufaturas sem sacrificar completamente a produtividade. Assim, na medida em que algum trabalho humano ainda fosse necess\u00e1rio na produ\u00e7\u00e3o em nosso imaginado\u00a0futuro\u00a0comunista, ele poderia tomar a forma de pequenos coletivos ao inv\u00e9s de firmas dirigidas por capitalistas ou pelo Estado.<\/p>\n<p>Mas deixar para tr\u00e1s o trabalho assalariado economicamente significa tamb\u00e9m deix\u00e1-lo para tr\u00e1s socialmente, e isso acarreta mudan\u00e7as profundas em nossas prioridades e em nosso estilo de vida. Se queremos imaginar um mundo onde o trabalho n\u00e3o \u00e9 mais uma necessidade, ser\u00e1 mais frut\u00edfero beber da fic\u00e7\u00e3o do que da teoria social. De fato, muitas pessoas j\u00e1 est\u00e3o familiarizadas com a utopia de um comunismo p\u00f3s-escassez, por que ele foi representado em um dos trabalhos mais familiares da cultura popular: Star Trek. A economia e a sociedade daquele programa est\u00e3o baseadas em dois elementos t\u00e9cnicos. Um \u00e9 a tecnologia do \u201creplicador\u201d, que \u00e9 capaz de materializar qualquer objeto do nada, com um simples pressionar de um bot\u00e3o; o outro \u00e9 uma fonte de energia aparentemente inesgot\u00e1vel (ou pr\u00f3xima disso), descrita vagamente, que alimenta os replicadores e tudo o mais no programa.<\/p>\n<p>O aspecto comunista do universo de Star Trek \u00e9 frequentemente obscurecido por que os filmes e as s\u00e9ries de TV est\u00e3o centradas na hierarquia militar da Starfleet, que explora a gal\u00e1xia e entra em conflito com ra\u00e7as alien\u00edgenas. Mas mesmo essa parece ser uma hierarquia escolhida voluntariamente, atraindo aqueles que buscam uma vida de aventura e explora\u00e7\u00e3o; na medida em que vislumbramos a vida civil, ela parece n\u00e3o ser incomodada com hierarquia ou compuls\u00e3o. E na medida em que o programa se distancia da utopia comunista, \u00e9 por que os roteiristas introduzem amea\u00e7as externas de ra\u00e7as alien\u00edgenas hostis ou recursos escassos para produzir tens\u00e3o dram\u00e1tica.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio conjurar naves espaciais e alien\u00edgenas para imaginar as tribula\u00e7\u00f5es de um\u00a0futuro\u00a0comunista, no entanto. O romance \u201c<em>Down and Out in the Magic Kingdom<\/em>\u201d (\u201c<a href=\"https:\/\/craphound.com\/down\/Cory_Doctorow_-_Down_and_Out_in_the_Magic_Kingdom_Brazilian_Portuguese.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">O Fundo do Po\u00e7o no Reino Encantado<\/a>\u201d) de Cory Doctorow, imagina um mundo p\u00f3s-escassez que se localiza em uma extrapola\u00e7\u00e3o reconhec\u00edvel dos Estados Unidos atuais. Assim como em Star Trek, a escassez material foi superada neste mundo. Mas Doctorow entende que dentro de sociedades humanas, certos bens imateriais ser\u00e3o sempre inerentemente escassos: reputa\u00e7\u00e3o, respeito, estima entre os pares. Da\u00ed que o livro gira em torno das tentativas de v\u00e1rios personagens de acumular \u201c<em>whuffies<\/em>\u201d, que s\u00e3o um tipo de pontos virtuais que representam a boa vontade que voc\u00ea acumulou dos outros. Os\u00a0<em>whuffie<\/em>s, por sua vez, s\u00e3o usados para determinar quem ter\u00e1 autoridade em qualquer empreendimento volunt\u00e1rio coletivo \u2013 assim como, no romance, administrar a Disneyl\u00e2ndia.<\/p>\n<p>O valor do livro de Doctorow, em contraste com Star Trek, \u00e9 que ele trata um mundo p\u00f3s-escassez como tendo as suas pr\u00f3prias hierarquias e conflitos, ao inv\u00e9s de um mundo em que todos vivessem em perfeita harmonia e onde a pol\u00edtica tivesse chegado a uma paraliza\u00e7\u00e3o. A reputa\u00e7\u00e3o, assim como o capital, pode ser acumulada de uma maneira desigual e auto-perpetuante, uma vez que aqueles que j\u00e1 s\u00e3o populares ganham a habilidade de fazer coisas que atraiam para si mais aten\u00e7\u00e3o e os fa\u00e7a mais populares. Tais din\u00e2micas j\u00e1 podem ser observadas hoje, conforme blogs e outras m\u00eddias sociais passam a serem capazes de determinar quem consegue aten\u00e7\u00e3o e quem n\u00e3o consegue, de uma forma que n\u00e3o \u00e9 completamente uma fun\u00e7\u00e3o de quem tem dinheiro para gastar. Organizar a sociedade de acordo com quem tem mais \u201ccurtidas\u201d no Facebook com certeza teria certos inconvenientes, para dizer o m\u00ednimo, mesmo quando tiramos essa ideia de seu inv\u00f3lucro capitalista.<\/p>\n<p>No entanto, se n\u00e3o \u00e9 a vis\u00e3o de uma sociedade perfeita, esta vers\u00e3o do comunismo \u00e9 pelo menos um mundo em que o conflito n\u00e3o \u00e9 mais baseado na oposi\u00e7\u00e3o entre trabalhadores assalariados e capitalistas, ou na luta por recursos escassos. \u00c9 um mundo em que, no fim das contas, as coisas n\u00e3o se resumem a dinheiro. Uma sociedade comunista certamente teria hierarquias de status \u2013 como as t\u00eam todas as sociedades, assim como as t\u00eam o capitalismo. Mas no capitalismo, todas as hierarquias de status tendem a estarem alinhadas, ainda que n\u00e3o perfeitamente, com uma hierarquia de status mestra: a acumula\u00e7\u00e3o de capital e de dinheiro. O ideal de uma sociedade p\u00f3s-escassez \u00e9 que os v\u00e1rios tipos de estima sejam independentes, para que a estima em que algu\u00e9m \u00e9 mantido como um m\u00fasico seja independente daquela que algu\u00e9m atinge como ativista pol\u00edtico, e onde ningu\u00e9m possa usar um tipo de status para comprar outro. De certa forma, ent\u00e3o, n\u00e3o faz sentido nos referirmos a esta como sendo uma configura\u00e7\u00e3o \u201cigualit\u00e1ria\u201d, j\u00e1 que n\u00e3o seria um mundo sem hierarquias mas um com muitas hierarquias, nenhuma das quais seria superior \u00e0s outras.<\/p>\n<p id=\"rentismo\"><strong>Hierarquia e Abund\u00e2ncia: Rentismo<\/strong><\/p>\n<p>Dadas as premissas t\u00e9cnicas da automa\u00e7\u00e3o completa e de energia inesgot\u00e1vel, a utopia do Star Trek de um comunismo puro se torna uma possibilidade, mas dificilmente inevit\u00e1vel. A elite burguesa do presente n\u00e3o possui apenas acesso privilegiado a bens materiais escassos,no fim das contas; eles tamb\u00e9m gozam de um status exaltado e de poder social sobre as massas trabalhadoras, que n\u00e3o devem ser menosprezados como fontes de motiva\u00e7\u00e3o capitalista. Na verdade ningu\u00e9m consegue gastar um bilh\u00e3o de d\u00f3lares em si mesmo, afinal, e ainda assim existem administradores de fundos de cobertura que ganham esse tanto em um \u00fanico ano e ent\u00e3o voltam em busca de mais. Para tais pessoas, o dinheiro \u00e9 uma fonte de poder sobre os outros, um gerador de status, e uma forma de manter um placar \u2013 na realidade, n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o diferente dos\u00a0<em>whuffies<\/em>\u00a0de Doctorow, exceto que esta \u00e9 uma forma de status que depende da priva\u00e7\u00e3o material de outras pessoas. \u00c9 portanto de se esperar que mesmo que o trabalho pudesse se tornar sup\u00e9rfluo na produ\u00e7\u00e3o, as classes dominantes se esfor\u00e7ariam para preservar um sistema baseado em dinheiro, lucro, e poder de classe.<\/p>\n<p>A forma embrion\u00e1ria de poder de classe em uma economia p\u00f3s-escassez pode ser encontrada em nossos sistemas de leis de propriedade intelectual. Enquanto defensores contempor\u00e2neos da propriedade intelectual gostam de falar dela como se fosse amplamente an\u00e1loga a outros tipos de propriedade, na verdade ela \u00e9 baseada em um princ\u00edpio diferente. Como\u00a0<a href=\"http:\/\/ordemlivre.org\/posts\/propriedade-intelectual-e-mesmo-propriedade\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">observam<\/a>\u00a0os economistas Michele Boldrin e David K. Levine, os direitos de propriedade intelectual v\u00e3o al\u00e9m da concep\u00e7\u00e3o tradicional de propriedade. Eles n\u00e3o garantem apenas \u201cseu direito de controlar sua c\u00f3pia da ideia\u201d, da maneira que protegeriam seu direito de controlar seus sapatos ou sua casa; ao inv\u00e9s disso, eles d\u00e3o ao detentor dos direitos a habilidade de dizer aos outros como usar as c\u00f3pias de uma ideia que \u201cpertence\u201d a ele. Como Boldrin e Levine colocam, \u201cesse n\u00e3o \u00e9 um direito ordinariamente ou automaticamente garantido aos detentores de outros tipos de propriedades. Se eu produzo um copo de caf\u00e9, eu tenho o direito de escolher se o venderei ou n\u00e3o a voc\u00ea ou se eu mesmo vou beb\u00ea-lo, mas meu direito de propriedade n\u00e3o \u00e9 automaticamente um direito de tanto te vender um copo de caf\u00e9 quanto de te dizer como voc\u00ea deve beb\u00ea-lo.\u201d<\/p>\n<p>A muta\u00e7\u00e3o da forma de propriedade, do real para o intelectual, cataliza a transforma\u00e7\u00e3o da sociedade em algo que n\u00e3o \u00e9 reconhec\u00edvel como capitalismo, mas que ainda assim \u00e9 t\u00e3o desigual quanto. O capitalismo, em suas ra\u00edzes, n\u00e3o \u00e9 definido pela presen\u00e7a de capitalistas, mas pela exist\u00eancia de capital, o que por sua vez \u00e9 insepar\u00e1vel do processo de produ\u00e7\u00e3o de mercadorias atrav\u00e9s do trabalho assalariado \u2013 dinheiro-&gt;capital-&gt;dinheiro. Quando o trabalho assalariado desaparece, a classe dirigente pode continuar a acumular dinheiro apenas se retiver a habilidade de se apropriar de um fluxo de rendas, advindo de seu controle sobre a propriedade intelectual. Da\u00ed emerge uma sociedade rentista, ao inv\u00e9s de uma sociedade capitalista.<\/p>\n<p>Suponha, por exemplo, que toda a produ\u00e7\u00e3o seja feita por meio dos replicadores do Star Trek. Para ganhar dinheiro vendendo itens replicados, de alguma forma as pessoas teriam de serem proibidas de simplesmente fabricar o que quisessem de gra\u00e7a, e essa \u00e9 a fun\u00e7\u00e3o da propriedade intelectual. Um replicador estaria dispon\u00edvel apenas \u00e0 partir da companhia que te licenciaria o direito de us\u00e1-lo, j\u00e1 que qualquer um que quisesse te dar um replicador ou mesmo fazer um novo com seu pr\u00f3prio replicador estaria violando os termos de sua licen\u00e7a. Mais importante, toda vez que voc\u00ea fizesse algo com seu replicador, voc\u00ea precisaria pagar uma taxa de licenciamento para quem quer que seja que detivesse os direitos para aquela coisa em particular. Neste mundo, se o Capit\u00e3o Jean-Luc Picard de Star Trek quisesse replicar seu querido \u201cch\u00e1, Earl Grey, quente\u201d, ele teria de pagar \u00e0 companhia que det\u00e9m os direitos reservados para o padr\u00e3o do replicador do ch\u00e1 Earl Grey quente.<\/p>\n<p>Isso resolve o problema de como manter empresas visando lucro, pelo menos na superf\u00edcie. Qualquer um que tentasse suprir suas necessidades \u00e0 partir de um replicador sem pagar o cartel de direitos reservados se tornaria um fora-da-lei, como os compartilhadores de arquivos online de hoje em dia. Apesar de seu absurdo, esse arranjo provavelmente teria defensores entre os cr\u00edticos contempor\u00e2neos da cultura de compartilhamento pela Internet; \u201c<em>You Are Not a Gadget<\/em>\u201d de Jaron Lanier (na vers\u00e3o brasileira, \u201cGadget: Voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 um aplicativo!\u201d, Editora Saraiva), por exemplo, clama explicitamente pela imposi\u00e7\u00e3o de uma \u201cescassez artificial\u201d de conte\u00fado digital com a inten\u00e7\u00e3o de restaurar o seu valor. As consequ\u00eancias de tais argumentos j\u00e1 est\u00e3o aparentes nos processos movidos pela ind\u00fastria musical contra desafortunados baixadores de mp3, e na intensifica\u00e7\u00e3o cont\u00ednua da vigil\u00e2ncia estatal sob a guisa de combate \u00e0 pirataria. A extens\u00e3o desse regime para a micro-fabrica\u00e7\u00e3o de objetos f\u00edsicos apenas pioraria o problema. Uma vez mais, a fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica \u00e9 esclarecedora, neste caso no trabalho de Charles Stross. \u201c<a href=\"http:\/\/www.antipope.org\/charlie\/blog-static\/fiction\/accelerando\/accelerando-intro.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Accelerando<\/a>\u201d nos mostra um\u00a0futuro\u00a0em que aqueles que infringem direitos reservados s\u00e3o perseguidos por assassinos de aluguel, enquanto \u201c<em>Halting State<\/em>\u201d [16] descreve indiv\u00edduos furtivos conhecidos como \u201c<em>fabbers<\/em>\u201d (um diminutivo ou g\u00edria para \u201cfabricantes\u201d) que se esgueiram por becos onde operam suas impressoras 3-D, sempre um passo al\u00e9m da lei.<\/p>\n<p>No entanto, uma economia baseada em escassez artificial n\u00e3o \u00e9 apenas irracional, \u00e9 tamb\u00e9m desfuncional. Se todos estiverem constantemente sendo for\u00e7ados a pagar por taxas de licenciamento, ent\u00e3o eles precisar\u00e3o de alguma maneira de ganhar dinheiro e isso gera um novo problema. O dilema fundamental do rentismo \u00e9 o problema da demanda efetiva: como garantir que as pessoas sejam capazes de ganhar dinheiro suficiente para poderem pagar as taxas de licenciamento das quais o lucro privado dependeria? \u00c9 claro, isso n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o diferente do problema que confrontou o capitalismo Industrial \u2013 sobre como gerar consumidores com poder de compra o bastante para consumir os produtos industrializados e a demanda necess\u00e1ria para as f\u00e1bricas continuarem produzindo \u2013 mas se torna mais severo quando o trabalho humano \u00e9 cada vez mais espremido para fora do sistema, e os seres humanos se tornam sup\u00e9rfluos como elementos de produ\u00e7\u00e3o, mesmo se ainda permanecerem necess\u00e1rios como consumidores. Ent\u00e3o, que tipo de empregos ainda existiriam nessa economia?<\/p>\n<p>Algumas pessoas ainda seriam necess\u00e1rias para inventar novas coisas a serem replicadas, ent\u00e3o restaria um lugar para uma pequena \u201cclasse criativa\u201d de designers e artistas. E conforme suas cria\u00e7\u00f5es se acumulassem, o n\u00famero de coisas que poderiam ser replicadas rapidamente ultrapassaria vastamente o tempo e dinheiro dispon\u00edveis para aproveit\u00e1-las. A maior amea\u00e7a para os lucros de qualquer companhia n\u00e3o seriam o custo do trabalho ou de mat\u00e9rias-primas \u2013 ambos m\u00ednimos ou inexistentes \u2013 mas ao inv\u00e9s disso a perspectiva de que as licen\u00e7as que elas possu\u00edssem pudessem perder popularidade para as licen\u00e7as dos competidores. Marketing e propaganda, ent\u00e3o, continuariam a empregar n\u00fameros significativos de trabalhadores. Ao lado do pessoal de marketing, existiria tamb\u00e9m um ex\u00e9rcito de advogados, conforme os lit\u00edgios atuais sobre patentes e infra\u00e7\u00f5es de direitos reservados crescessem para englobar todas as atividades econ\u00f4micas. E finalmente, como em qualquer sociedade hier\u00e1rquica, seria necess\u00e1rio um aparato de repress\u00e3o para garantir que os pobres e oprimidos n\u00e3o tomassem de volta sua parte dos ricos e poderosos. Impor leis draconianas de propriedade intelectual precisar\u00e1 de grandes batalh\u00f5es do que Samuel Bowles e Arjun Jayadev chamam de \u201c<a href=\"https:\/\/scholarworks.umass.edu\/cgi\/viewcontent.cgi?referer=&amp;httpsredir=1&amp;article=1068&amp;context=econ_workingpaper\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">m\u00e3o-de-obra de guarda<\/a>\u201d: \u201cos esfor\u00e7os do pessoal de monitoramento, guardas e militares (\u2026) dirigidos n\u00e3o para a produ\u00e7\u00e3o, mas para fazer cumprir as reivindica\u00e7\u00f5es decorrentes de trocas e a busca ou a preven\u00e7\u00e3o de transfer\u00eancias unilaterais de propriedade.\u201d<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante, manter o pleno emprego em uma economia rentista seria um desafio constante. N\u00e3o parece que as\u00a0quatro\u00a0\u00e1reas que acabamos de descrever poderiam substituir completamente todos os empregos perdidos para a automa\u00e7\u00e3o. E mais, estes empregos s\u00e3o eles mesmos pass\u00edveis de inova\u00e7\u00f5es em redu\u00e7\u00e3o de trabalho. O marketing pode ser realizado por meio de minera\u00e7\u00e3o de dados e algoritmos; grande parte dos neg\u00f3cios de rotina de advocacia pode ser substitu\u00edda por\u00a0<em>software<\/em>; o trabalho de guarda pode ser executado por drones de seguran\u00e7a ao inv\u00e9s de uma pol\u00edcia humana. Mesmo parte do trabalho de inven\u00e7\u00e3o de produtos poderia um dia ser dado a computadores que possuam alguma intelig\u00eancia artificial criativa rudimentar.<\/p>\n<p>E se a automa\u00e7\u00e3o falhar, a elite rentista pode colonizar o nosso \u00f3cio para extrair trabalho gratuito. O Facebook j\u00e1 invoca seus usu\u00e1rios a criar conte\u00fado gratuitamente, e a onda recente de \u201c<em>gamefica\u00e7\u00e3o<\/em>\u201d sugere que as corpora\u00e7\u00f5es est\u00e3o muito interessadas em encontrar maneiras de transformar o trabalho de seus empregados em atividades que as pessoas achar\u00e3o apraz\u00edveis, e que portanto far\u00e3o gratuitamente em seu pr\u00f3prio tempo livre. O cientista da computa\u00e7\u00e3o Luis von Ahn, por exemplo, tem se especializado no desenvolvimento de \u201cjogos com um prop\u00f3sito\u201d, aplica\u00e7\u00f5es que se apresentam ao usu\u00e1rio final como divers\u00f5es agrad\u00e1veis enquanto tamb\u00e9m realizam uma tarefa computacional \u00fatil. Um dos jogos de von Ahn solicitava que usu\u00e1rios identificassem objetos em fotos, e os dados ent\u00e3o alimentavam de volta um banco de dados que seria usado para pesquisar imagens. Esta linha de pesquisa evoca o mundo do romance\u00a0<em>Ender\u2019s Game<\/em>\u00a0(\u201cO Jogo do Exterminador\u201d, Editora Devir), de Orson Scott, onde crian\u00e7as lutam uma guerra interestelar remota atrav\u00e9s do que elas pensam serem video-games.<\/p>\n<p>Tudo isso significa que a sociedade rentista provavelmente estaria sujeita a uma tend\u00eancia persistente de desemprego, que a classe dirigente teria de encontrar algum jeito de enfrentar para manter o sistema unido e funcionando. Isto implica em realizar uma vis\u00e3o que o finado Andr\u00e9 Gorz tinha de uma sociedade p\u00f3s-industrial: \u201ca distribui\u00e7\u00e3o dos meios de pagamento precisam corresponder ao volume de riqueza socialmente produzida e n\u00e3o ao volume de trabalho executado.\u201d (\u201cMis\u00e9rias do Presente, Riqueza do Poss\u00edvel\u201d, Editora Annablume, 2004) Isso pode envolver taxa\u00e7\u00e3o de lucros das empresas lucr\u00e1veis e redistribui\u00e7\u00e3o de dinheiro de volta para os consumidores \u2013 possivelmente como uma renda garantida sem nenhuma exig\u00eancia, e possivelmente em troca da execu\u00e7\u00e3o de algum tipo de trabalho sem sentido, apenas para manter as pessoas ocupadas. Mas mesmo se a redistribui\u00e7\u00e3o fosse desej\u00e1vel do ponto de vista da classe como um todo, surgiria um problema de a\u00e7\u00e3o coletiva: qualquer companhia ou pessoa rica poderia se sentir tentada a avan\u00e7ar sobre os rendimentos dos outros, e, portanto, a resistir aos esfor\u00e7os de imposi\u00e7\u00e3o de impostos redistributivos. O governo poderia tamb\u00e9m simplesmente imprimir dinheiro para dar \u00e0 classe trabalhadora, mas a infla\u00e7\u00e3o resultante seria uma forma indireta de redistribui\u00e7\u00e3o e, assim, tamb\u00e9m enfrentaria resist\u00eancia. Finalmente, existe a op\u00e7\u00e3o de financiar o consumo atrav\u00e9s do endividamento dos consumidores \u2013 mas, em um pa\u00eds como os EUA, leitores em seus vinte-e-poucos, trinta-e-poucos anos presumivelmente n\u00e3o precisam ser lembrados das limita\u00e7\u00f5es inerentes \u00e0 essa solu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Dados todos esse problemas, algu\u00e9m pode perguntar por que a classe rentista se daria ao trabalho de tentar extrair lucro das pessoas, j\u00e1 que eles poderiam replicar qualquer coisa que quisessem. O que impediria que essa sociedade se dissolvesse no cen\u00e1rio comunista da sess\u00e3o anterior? Poderia ser que ningu\u00e9m tivesse licen\u00e7as o suficiente para prover todas as suas necessidades, ent\u00e3o todos precisariam de algum rendimento para pagar seus pr\u00f3prios custos de licenciamento. Voc\u00ea pode possuir o padr\u00e3o de r\u00e9plica para uma ma\u00e7\u00e3, mas apenas ser capaz de fazer ma\u00e7\u00e3s n\u00e3o \u00e9 o bastante para sobreviver. Nesta leitura, a classe rentista seria t\u00e3o somente aqueles que possu\u00edssem licen\u00e7as o bastante para cobrir todas as suas taxas de licenciamento.<\/p>\n<p>Ou talvez, como observado no in\u00edcio, a classe dominante defendesse sua posi\u00e7\u00e3o de privil\u00e9gio para garantir poder sobre os outros \u00e0queles no topo da sociedade dividida em classes. Isto sugere outra solu\u00e7\u00e3o para o problema de desemprego do rentismo: contratar pessoas para executar servi\u00e7os pessoais poderia se tornar uma marca de status, mesmo se a automa\u00e7\u00e3o tornasse isso desnecess\u00e1rio, estritamente falando. A t\u00e3o proclamada ascens\u00e3o da economia de servi\u00e7os evoluiria para uma vers\u00e3o futurista da Inglaterra do s\u00e9culo XIX ou partes da \u00cdndia atual, onde a elite pode se dar o luxo de contratar um grande n\u00famero de servi\u00e7ais.<\/p>\n<p>Mas esta sociedade pode persistir apenas enquanto a maioria da popula\u00e7\u00e3o aceitar a legitimidade de sua hierarquia de domina\u00e7\u00e3o. Talvez o poder da ideologia seja forte o bastante para induzir as pessoas a aceitarem o estado de coisas descrito aqui; ou talvez o povo comece a se perguntar por que a riqueza do conhecimento e da cultura estaria sendo mantida cercada por leis restritivas quando, para usar um slogan popular recentemente, \u201coutro mundo \u00e9 poss\u00edvel\u201d, para al\u00e9m do regime de escassez artificial.<\/p>\n<p>N\u00f3s j\u00e1 vimos que a combina\u00e7\u00e3o de produ\u00e7\u00e3o automatizada e recursos abundantes nos daria ou a utopia pura do comunismo ou a distopia absurda do rentismo; mas e se a energia e os recursos permanecessem escassos? Neste caso, chegar\u00edamos em um mundo caracterizado simultaneamente pela abund\u00e2ncia e pela escassez, em que a liberta\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 produ\u00e7\u00e3o se daria lado a lado com uma intensifica\u00e7\u00e3o do planejamento e administra\u00e7\u00e3o dos insumos para essa produ\u00e7\u00e3o. A necessidade de controlar o trabalho ainda desapareceria, mas a necessidade de gerenciar a escassez permaneceria.<\/p>\n<p>A escassez nas entradas f\u00edsicas para a produ\u00e7\u00e3o precisa ser compreendida como englobando bem mais do que mercadorias particulares como petr\u00f3leo ou min\u00e9rio de ferro \u2013 os efeitos malignos do capitalismo sobre o meio-ambiente amea\u00e7am gerar danos irrevers\u00edveis sobre os climas e ecossistemas dos quais depende grande parte da nossa economia atual. As mudan\u00e7as clim\u00e1ticas j\u00e1 come\u00e7aram a causar estragos no sistema global de alimenta\u00e7\u00e3o, e gera\u00e7\u00f5es futuras poder\u00e3o olhar para a variedade de g\u00eaneros aliment\u00edcios dispon\u00edvel hoje em dia como uma Era de Ouro insustent\u00e1vel. (Gera\u00e7\u00f5es anteriores de escritores de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica \u00e0s vezes imaginavam que um dia consumir\u00edamos toda a nossa nutri\u00e7\u00e3o na forma de p\u00edlulas ins\u00edpidas; talvez ainda venhamos a fazer isso por necessidade.) E sob as proje\u00e7\u00f5es mais severas, muitas \u00e1reas que hoje s\u00e3o densamente povoadas podem se tornar inabit\u00e1veis, impondo sobre os nossos descendentes custos severos em realoca\u00e7\u00f5es e reconstru\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>No nosso terceiro\u00a0futuro, ent\u00e3o, ningu\u00e9m precisaria trabalhar e ainda assim as pessoas n\u00e3o seriam livres para consumir tanto quanto quisessem. Algum tipo de governo seria necess\u00e1rio, e o comunismo puro estaria exclu\u00eddo como uma possibilidade; o que ter\u00edamos, ao inv\u00e9s disso, seria uma vers\u00e3o de socialismo, e alguma forma de\u00a0<a href=\"https:\/\/ominhocario.wordpress.com\/2017\/01\/12\/socialismo-mercado-planejamento-e-democracia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">planejamento econ\u00f4mico<\/a>. Contrastando com os planos do s\u00e9culo XX, por\u00e9m, os do\u00a0futuro\u00a0de recursos restritos estar\u00e3o mais preocupados em gerenciar o consumo, ao inv\u00e9s da produ\u00e7\u00e3o \u2013 que se daria, n\u00f3s ainda assumimos, atrav\u00e9s do replicador; a tarefa seria administrar os insumos que o alimentariam.<\/p>\n<p>Isso pode parecer menos que promissor, afinal, o consumo foi precisamente a \u00e1rea em que o\u00a0<a href=\"https:\/\/ominhocario.wordpress.com\/2017\/05\/08\/economia-e-planejamento-sovieticos-e-as-licoes-na-queda\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">planejamento no estilo sovi\u00e9tico<\/a>\u00a0se revelou mais deficiente. Uma sociedade capaz de se armar para a guerra com os nazistas, mas que depois \u00e9 objeto de car\u00eancias sem fim e filas para o p\u00e3o, n\u00e3o parece um padr\u00e3o muito inspirador. No entanto, a verdadeira li\u00e7\u00e3o da URSS e de seus imitadores \u00e9 que o tempo da planifica\u00e7\u00e3o ainda n\u00e3o havia chegado \u2013 e quando ele finalmente come\u00e7ou a chegar, a esclerose burocr\u00e1tica e as defici\u00eancias pol\u00edticas do sistema sovi\u00e9tico se provaram incapazes de acomod\u00e1-lo. Nos anos 50 e 60, economistas sovi\u00e9ticos tentaram heroicamente reconstruir sua economia em uma forma mais funcional \u2013 uma das principais figuras neste esfor\u00e7o foi o vencedor do pr\u00eamio Nobel Leonid Kantorovich, cuja hist\u00f3ria est\u00e1 contada de forma ficcional no livro de Francis Spufford, \u201c<em><a href=\"http:\/\/redplenty.com\/Red_Plenty\/Front_page.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Red Plenty<\/a><\/em>\u201d (algo como \u201cabund\u00e2ncia vermelha\u201d). O esfor\u00e7o encalhou n\u00e3o por que o planejamento fosse imposs\u00edvel em princ\u00edpio, mas por que era tecnicamente e politicamente imposs\u00edvel na URSS de seu tempo.\u00a0<em>Tecnicamente<\/em>, por que suficiente poder computacional ainda n\u00e3o estava dispon\u00edvel, e\u00a0<em>politicamente<\/em>\u00a0por que a elite burocr\u00e1tica sovi\u00e9tica n\u00e3o intencionava apartar-se dos poderes e privil\u00e9gios que lhes eram garantidos sob o sistema existente.<\/p>\n<p>Mas os esfor\u00e7os de Kantorovich, e de te\u00f3ricos contempor\u00e2neos do planejamento como\u00a0<a href=\"https:\/\/ominhocario.wordpress.com\/2019\/04\/19\/de-volta-ao-debate-sobre-o-calculo-socialista-calculo-complexidade-e-planejamento\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Paul Cockshott e Allin Cottrell<\/a>, sugerem que alguma forma de\u00a0<a href=\"https:\/\/ominhocario.wordpress.com\/2019\/05\/09\/de-volta-ao-debate-sobre-o-planejamento-socialista-ii-precos-informacao-comunicacao-e-eficiencia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">planejamento eficiente<\/a>\u00a0e democr\u00e1tico \u00e9 poss\u00edvel. E isso ser\u00e1 necess\u00e1rio em um mundo de recursos escassos: embora a produ\u00e7\u00e3o privada capitalista tenha sido muito bem sucedida em incentivar a inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica de economia de m\u00e3o de obra, ela tem se provado terr\u00edvel na conserva\u00e7\u00e3o do meio-ambiente ou na racionaliza\u00e7\u00e3o de recursos escassos. Mesmo em um mundo p\u00f3s-capitalista, p\u00f3s-trabalho, algum tipo de coordena\u00e7\u00e3o seria necess\u00e1ria para garantir que os indiv\u00edduos n\u00e3o tratem a Terra de uma maneira que seja, no somat\u00f3rio, insustent\u00e1vel. Seria preciso,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ifch.unicamp.br\/criticamarxista\/arquivos_biblioteca\/artigo164Artigo3.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">como disse<\/a>\u00a0Michael L\u00f6wy, de algum tipo de \u201cplanejamento democr\u00e1tico global\u201d baseado no debate democr\u00e1tico e pluralista ao inv\u00e9s de dirigido por burocratas.<\/p>\n<p>Um distin\u00e7\u00e3o precisa ser feita, por\u00e9m, entre planejamento democr\u00e1tico e uma economia completamente sem-mercado. Uma economia socialista poderia empregar o planejamento racional enquanto ainda comportasse trocas de algum tipo no mercado, juntamente com dinheiro e pre\u00e7os. Essa, de fato, foi uma das sacadas de Kantorovich; ao inv\u00e9s de se livrar dos sinais de pre\u00e7o, ele queria tornar os pre\u00e7os em mecanismos para transformar metas de produ\u00e7\u00e3o planejada em realidades econ\u00f4micas. Tentativas atuais de colocar um pre\u00e7o em emiss\u00f5es de carbono atrav\u00e9s de esquemas \u201c<em><a href=\"http:\/\/www.brasil-economia-governo.org.br\/2012\/08\/13\/o-que-e-o-mercado-de-carbono-e-como-ele-opera-no-brasil\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">cap-and-trade<\/a><\/em>\u201d apontam nessa dire\u00e7\u00e3o: enquanto elas usam o mercado como um mecanismo coordenado, elas s\u00e3o tamb\u00e9m uma forma de planejamento, j\u00e1 que o passo chave \u00e9 a decis\u00e3o, fora do mercado, sobre qual n\u00edvel de emiss\u00f5es de carbono \u00e9 aceit\u00e1vel. Essa abordagem poderia parecer bem diferente do que as atuais, se generalizada e implementada sem rela\u00e7\u00f5es capitalistas de propriedade e desigualdades de riqueza.<\/p>\n<p>Suponha que todos recebessem um sal\u00e1rio, n\u00e3o como um retorno pelo trabalho, mas como um Direito Humano. Este sal\u00e1rio n\u00e3o compraria o produto do trabalho de outras pessoas, mas, ao inv\u00e9s disso, o direito de usar uma certa quantidade de energia e de recursos quando algu\u00e9m fosse utilizar os replicadores. Mercados poderiam se desenvolver na medida em que as pessoas escolhessem trocar um tipo de autoriza\u00e7\u00e3o de consumo por outra, mas isso seria o que o sociol\u00f3go Erik Olin Wright chama de \u201ccapitalismo consentido entre adultos\u201d, ao inv\u00e9s da participa\u00e7\u00e3o involunt\u00e1ria no trabalho assalariado motivada pela amea\u00e7a da fome.<\/p>\n<p>Dada a necessidade de determinar e de acompanhar os n\u00edveis est\u00e1veis de consumo \u2013 e deste modo, determinar pre\u00e7os \u2013 o Estado n\u00e3o poderia desaparecer, como sob o cen\u00e1rio comunista. E onde h\u00e1 escassez, com certeza haver\u00e1 conflitos pol\u00edticos, mesmo se j\u00e1 n\u00e3o fossem conflitos de classe. Conflitos entre localidades, entre gera\u00e7\u00f5es, entre aqueles que estariam mais preocupados com a sa\u00fade do meio-ambiente \u00e0 longo-prazo e aqueles que prefeririam um maior consumo material no curto prazo \u2013 nenhum deles seria f\u00e1cil de se resolver. Por\u00e9m, ter\u00edamos pelo menos sa\u00eddo do outro lado do capitalismo como uma sociedade democr\u00e1tica, e mais ou menos em unidade.<\/p>\n<p id=\"exterminismo\"><strong>Hierarquia e Escassez: Exterminismo<\/strong><\/p>\n<p>Mas se n\u00e3o chegarmos nesse ponto como iguais, e os limites ambientais continuarem pressionando contra n\u00f3s, chegar\u00edamos ao quarto e mais perturbador dos nossos\u00a0quatro\u00a0poss\u00edveis\u00a0futuros. De certo modo, ele lembra o comunismo que discutimos no in\u00edcio \u2013 mas seria um comunismo para poucos.<\/p>\n<p>A verdade paradoxal sobre aquela elite global que aprendemos a chamar de \u201cO Um Porcento\u201d \u00e9 que, embora eles sejam definidos pelo seu controle de uma enorme extens\u00e3o da riqueza monet\u00e1ria mundial, eles s\u00e3o ao mesmo tempo o fragmento da humanidade cujas vidas di\u00e1rias s\u00e3o menos dominadas pelo dinheiro. Como\u00a0<a href=\"http:\/\/www.antipope.org\/charlie\/blog-static\/2011\/10\/a-cultural-experiment.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">escreveu<\/a>\u00a0Charles Stross, os muito ricos habitam uma exist\u00eancia em que a maioria dos bens materiais s\u00e3o, na pr\u00e1tica, gratuitos \u2013 ou seja, sua riqueza \u00e9 t\u00e3o grande em rela\u00e7\u00e3o ao pre\u00e7o da comida, habita\u00e7\u00e3o, viagens, e outras amenidades, que eles raramente precisam considerar o pre\u00e7o de qualquer coisa. O que eles quiserem, podem ter.<\/p>\n<p>Isso significa que para os muito ricos, o mundo j\u00e1 \u00e9 algo como o comunismo descrito anteriormente. A diferen\u00e7a, \u00e9 claro, \u00e9 que sua condi\u00e7\u00f5es p\u00f3s-escassez \u00e9 possibilitada n\u00e3o apenas por m\u00e1quinas mas pelo trabalho da classe trabalhadora global. Contudo, uma vis\u00e3o otimista dos desenvolvimentos\u00a0futuros\u00a0\u2013 o\u00a0futuro\u00a0que descrevi como comunismo \u2013 \u00e9 que em algum momento n\u00f3s chegar\u00edamos em um estado em que todos ser\u00edamos, em certo sentido, como o Um Porcento. Como na famosa\u00a0<a href=\"http:\/\/www.npr.org\/templates\/story\/story.php?storyId=1067220\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">cita\u00e7\u00e3o<\/a>\u00a0de William Gibson, \u201co\u00a0futuro\u00a0j\u00e1 est\u00e1 aqui, s\u00f3 que distribu\u00eddo de maneira desigual.\u201d<\/p>\n<p>Mas e se os recursos e a energia forem simplesmente escassos demais para permitir que todos gozem do padr\u00e3o de vida material dos ricos atuais? E se chegarmos a um\u00a0futuro\u00a0que j\u00e1 n\u00e3o precisasse do trabalho das massas prolet\u00e1rias na produ\u00e7\u00e3o, mas que fosse incapaz de prover a todos com um padr\u00e3o arbitrariamente alto de consumo? Se chegarmos em tal mundo como uma sociedade igualit\u00e1ria, ent\u00e3o a resposta seria o regime socialista de conserva\u00e7\u00e3o compartilhada descrito na sess\u00e3o anterior. Se, no entanto, ao inv\u00e9s, n\u00f3s permanecermos como uma sociedade polarizada entre uma elite privilegiada e uma massa oprimida, ent\u00e3o a trajet\u00f3ria mais plaus\u00edvel levaria a algo muito mais obscuro; eu a chamarei pelo termo que E. P. Thompson usou para descrever uma distopia diferente, durante o pico da Guerra Fria: \u201cExterminismo\u201d.<\/p>\n<p>O grande perigo imposto pela automa\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o, no contexto de um mundo de hierarquia e de recursos escassos, \u00e9 que, do ponto de vista das elites dominantes, ela torna sup\u00e9rflua a grande massa do povo. Isso est\u00e1 em contraste com o capitalismo, onde o antagonismo entre capital e trabalho \u00e9 caracterizado por uma luta de interesses e por uma rela\u00e7\u00e3o de depend\u00eancia m\u00fatua: os trabalhadores dependem dos capitalistas j\u00e1 que eles mesmos n\u00e3o controlam os meios de produ\u00e7\u00e3o, enquanto os capitalistas precisam de trabalhadores para operar suas f\u00e1bricas e lojas. Como na letra de \u201c<em><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=pCnEAH5wCzo\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Solidarity Forever<\/a><\/em>\u201d (\u201cSolidariedade para Sempre\u201d): \u201cEles tomaram incont\u00e1veis milh\u00f5es que n\u00e3o labutaram para receber\/Mas sem nossos c\u00e9rebros e m\u00fasculos, nem uma simples engrenagem pode virar.\u201d Com a ascens\u00e3o dos rob\u00f4s, o segundo verso deixa de ser verdade.<\/p>\n<p>A exist\u00eancia de uma ral\u00e9 empobrecida e economicamente sup\u00e9rflua imp\u00f5em um grande perigo para a classe dominante, que naturalmente temer\u00e1 uma iminente expropria\u00e7\u00e3o; confrontada com esta amea\u00e7a, alguns cursos de a\u00e7\u00e3o se apresentar\u00e3o diante dela. As massas podem ser compradas por algum grau de redistribui\u00e7\u00e3o de recursos, enquanto os ricos compartilharem sua riqueza na forma de programas de bem-estar social, pelo menos se as restri\u00e7\u00f5es de recursos n\u00e3o forem muito apertadas. Mas al\u00e9m de potencialmente reintroduzir escassez na vida dos ricos, esta solu\u00e7\u00e3o \u00e9 pass\u00edvel de conduzir para uma onda sempre crescente de demandas por parte das massas, fazendo assim assomar novamente o espectro da expropria\u00e7\u00e3o. Isso foi essencialmente o que aconteceu no pico da onda do Estado de Bem-Estar Social, quando os chefes come\u00e7aram a temer que tanto os lucros quanto o controle sobre o ambiente de trabalho estivessem escorrendo de suas m\u00e3os.<\/p>\n<p>Se comprar a multid\u00e3o enfurecida n\u00e3o for uma estrat\u00e9gia sustent\u00e1vel, outra op\u00e7\u00e3o seria simplesmente fugir e se esconder dela. Essa \u00e9 a trajet\u00f3ria do que o soci\u00f3logo Bryan Turner chama de \u201c<a href=\"http:\/\/est.sagepub.com\/content\/10\/2\/287.abstract\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">sociedade de enclave<\/a>\u201d, uma ordem em que \u201cgovernos e outras ag\u00eancias buscam regular espa\u00e7os e, onde for necess\u00e1rio, imobilizar fluxos de pessoas, bens e servi\u00e7os\u201d por meio de \u201cmuros, barreiras burocr\u00e1ticas, exclus\u00f5es legais e registros.\u201d Comunidades muradas, ilhas privadas, guetos, pris\u00f5es, paranoia terrorista, quarentenas biol\u00f3gicas; juntos, estes se somam em um gulag global invertido, onde os ricos viveriam em pequenas ilhas de riqueza espalhadas por um oceano de mis\u00e9ria. Em \u201c<a href=\"http:\/\/www.christianparenti.com\/tropic-of-chaos\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><em>Tropic of Chaos<\/em><\/a>\u201d (\u201cTr\u00f3pico do Caos\u201d), Christian Parenti defende a tese de que j\u00e1 estamos construindo essa nova ordem, conforme as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas acarretam o que ele chama de \u201cconverg\u00eancia catastr\u00f3fica\u201d de destrui\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica, desigualdade econ\u00f4mica, e fal\u00eancia de Estados. O legado do colonialismo e do neoliberalismo \u00e9 que os pa\u00edses ricos, junto das elites dos pa\u00edses pobres, t\u00eam facilitado uma desintegra\u00e7\u00e3o em viol\u00eancia an\u00e1rquica, com v\u00e1rias tribos ou fac\u00e7\u00f5es pol\u00edticas se enfrentando pelos frutos decrescentes de ecossistemas danificados. Diante dessa realidade sombria, muitos dos ricos \u2013 o que, em termos globais, tamb\u00e9m inclui muitos trabalhadores nos pa\u00edses ricos \u2013 se resignam a se embarricar em suas fortalezas, protegidos por drones e empreiteiros militares privados. A m\u00e3o de obra de guarda, que encontramos na sociedade rentista, reaparece aqui em uma forma ainda mais mal\u00e9vola, com alguns poucos sortudos empregados como executores e protetores para os ricos.<\/p>\n<p>Mas este tamb\u00e9m seria um equil\u00edbrio insustent\u00e1vel, pela mesma raz\u00e3o b\u00e1sica que comprar as massas o seria: Enquanto existirem as hordas mantidas na mis\u00e9ria, existe o risco de que um dia possa se tornar imposs\u00edvel mant\u00ea-las distantes. Uma vez que o trabalho em massa tenha sido transformado em sup\u00e9rfluo, uma solu\u00e7\u00e3o final espreita: uma guerra genocida dos ricos contra os pobres. Muitos t\u00eam chamado \u201cO Pre\u00e7o do Amanh\u00e3\u201d, estrelado por Justin Timberlake, de um \u201cfilme marxista\u201d \u2013 mas ele \u00e9 mais precisamente uma par\u00e1bola do caminho para o exterminismo. No filme, uma pequena classe dominante literalmente vive para sempre em seus enclaves murados atrav\u00e9s de tecnologia gen\u00e9tica, enquanto todos os outros s\u00e3o programados para morrer aos 25 anos, a menos que possam implorar, emprestar ou roubar mais tempo. A \u00fanica coisa poupando os trabalhadores \u00e9 que os ricos ainda precisam de seu trabalho em algum n\u00edvel; quando essa necessidade expirar, presumivelmente tamb\u00e9m expirar\u00e1 a classe trabalhadora em si.<\/p>\n<p>Da\u00ed o termo \u201cexterminismo\u201d como uma descri\u00e7\u00e3o para esse tipo de sociedade. Tal destino genocida pode parecer um barbarismo remoto, digno de vil\u00f5es de hist\u00f3rias em quadrinhos; talvez seja irracional pensar que um mundo cicatrizado pelos holocaustos do s\u00e9culo XX poderia novamente afundar em tamanha deprava\u00e7\u00e3o. No entanto, em um pa\u00eds como os Estados Unidos uma s\u00e9rie de presidentes vem casualmente ordenando a execu\u00e7\u00e3o de inocentes no estrangeiro, e o assassinato de cidad\u00e3os estadunidenses sem nem mesmo a pretens\u00e3o do devido processo, sob amplos aplausos liberais.<\/p>\n<p>Estas\u00a0quatro\u00a0vis\u00f5es s\u00e3o tipos abstratos ideais, ess\u00eancias plat\u00f4nicas de sociedades. Elas deixam de fora muitos dos detalhes complexos, e ignoram a realidade onde escassez-abund\u00e2ncia e igualdade-hierarquia n\u00e3o s\u00e3o simples dicotomias mas escalas com muitas possibilidades de grada\u00e7\u00e3o entre esses extremos. Minha inspira\u00e7\u00e3o, no entanto, ao pincelar estes retratos simplificados, foi o modelo de uma sociedade puramente capitalista que Marx perseguiu em O Capital: um ideal que nunca pode ser perfeitamente refletido nas montagens complexas da Hist\u00f3ria Econ\u00f4mica real, mas que ilumina elementos \u00fanicos e fundacionais de uma ordem social espec\u00edfica. Os socialismos e os barbarismos descritos aqui deveriam ser pensados como caminhos pelos quais a humanidade pode seguir, mesmo se forem destinos que nunca atingiremos. Com algum conhecimento do que nos espera no final de cada estrada, talvez sejamos mais capazes de evitar tomar a dire\u00e7\u00e3o errada.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Quatro Futuros \u2013 Jacobin Brasil. 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