{"id":15896,"date":"2021-10-17T10:12:44","date_gmt":"2021-10-17T13:12:44","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=15896"},"modified":"2021-10-12T10:20:43","modified_gmt":"2021-10-12T13:20:43","slug":"so-um-radical-ecossocialismo-democratico-pode-mudar-o-horizonte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2021\/10\/17\/so-um-radical-ecossocialismo-democratico-pode-mudar-o-horizonte\/","title":{"rendered":"S\u00f3 um radical ecossocialismo democr\u00e1tico pode mudar o horizonte"},"content":{"rendered":"<p><strong>Mart\u00edn Mosquera<\/strong> &#8211; Ao longo das \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas, a te\u00f3rica pol\u00edtica Nancy Fraser tem fornecido \u00e0 esquerda algumas de suas ideias mais convincentes.<\/p>\n<p>Por vezes, essas ideias s\u00e3o inquestionavelmente pol\u00edticas, como quando Fraser convoca o feminismo a cortar os la\u00e7os com a elite econ\u00f4mica e abra\u00e7ar pol\u00edticas da classe trabalhadora que possam atacar as ra\u00edzes da opress\u00e3o. Outras vezes, s\u00e3o poderosamente te\u00f3ricas, como quando Fraser analisa a intera\u00e7\u00e3o entre o capitalismo e as \u201ccondi\u00e7\u00f5es de fundo\u201d das quais o capitalismo depende e que n\u00e3o \u00e9 capaz de subordinar completamente.<\/p>\n<p>Em seus trabalhos mais recentes, encontramos uma Fraser que avan\u00e7a uma s\u00edntese entre pr\u00e1tica e teoria, interessada em evitar os desastres em curso do que ela chama, em seu pr\u00f3ximo livro, de \u201ccapitalismo canibal\u201d: a possibilidade de que o capitalismo, ao invadir todas as esferas da vida, possa destruir suas \u2014 e, mais importante, as nossas pr\u00f3prias \u2014 condi\u00e7\u00f5es de sobreviv\u00eancia.<\/p>\n<p>Em uma entrevista recente ao editor da\u00a0<em><a href=\"https:\/\/jacobinlat.com\/\">Jacobin Am\u00e9rica Latina<\/a><\/em>, Martin Mosquera, Fraser explica que o seu interesse reside em promover um raio-X do capitalismo moderno e suas crises a fim de fornecer aos ativistas uma esp\u00e9cie de mapa para a agir politicamente, como parte de um coletivo ainda maior.<\/p>\n<p>A esquerda, afirma Fraser, est\u00e1 come\u00e7ando a recuperar um senso de poder unificado depois de d\u00e9cadas obcecada com sua fragmenta\u00e7\u00e3o em subunidades menores e voltadas para si mesmas. Contudo, ainda h\u00e1 muito trabalho pela frente. Para construir poder coletivo, precisamos compreender melhor como todas as partes da moderna sociedade capitalista se conectam. N\u00f3s precisamos, Fraser insiste, abra\u00e7ar um movimento de estilo populista no qual as diferentes queixas de cada um possam se expressar, mas permane\u00e7am unificadas em uma agenda socialista que nos d\u00ea uma vis\u00e3o comum sobre a dire\u00e7\u00e3o que estamos tomando.<\/p>\n<p>Em sua entrevista com Mosquera, Fraser fala sobre os futuros cen\u00e1rios que espreitam o horizonte caso n\u00e3o tomemos a\u00e7\u00f5es decisivas para minar o poder do capital e sobre os desafios de se construir uma frente comum para lutas pol\u00edticas.<\/p>\n<hr \/>\n<div>\n<p>MM<\/p>\n<p><strong>Em seu trabalho mais recente, voc\u00ea desenvolveu o que chama de \u201cuma concep\u00e7\u00e3o expandida de capitalismo\u201d. Por que os conceitos de capitalismo existentes precisam ser expandidos? \u00c9 por que est\u00e3o focados no capitalismo como um sistema econ\u00f4mico?\u00a0<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p>NF<\/p>\n<p>Sim, exatamente. Desenvolvi uma concep\u00e7\u00e3o expandida de capitalismo para fugir das vers\u00f5es base-superestrutura do marxismo, que enxergam os sistemas econ\u00f4micos como o real alicerce da sociedade, enquanto tratam todo o resto como mera \u201csuperestrurura\u201d. Nesse modelo, a causalidade flui apenas em uma dire\u00e7\u00e3o, da base econ\u00f4mica \u00e0 superestrutura pol\u00edtico-legal. E isso \u00e9 profundamente inadequado. Minha alternativa foca em repensar a rela\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica entre o subsistema econ\u00f4mico da sociedade capitalista e o plano de fundo de suas necess\u00e1rias condi\u00e7\u00f5es que a tornam poss\u00edvel \u2014 processos, atividades e rela\u00e7\u00f5es que s\u00e3o absolutamente essenciais para a economia capitalista, como a reprodu\u00e7\u00e3o social, natureza n\u00e3o-humana e bens comuns.<\/p>\n<\/div>\n<p>Isso complica a cl\u00e1ssica figura da base-superestrutura. Dizer que algo \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o de fundo necess\u00e1ria significa que o sistema econ\u00f4mico capitalista n\u00e3o pode funcionar sem ela: a capacidade do capitalismo de comprar for\u00e7a de trabalho e coloc\u00e1-la em funcionamento, de acessar mat\u00e9rias-primas e energia, de produzir commodities e vend\u00ea-las com lucro, de acumular capital, nada disso acontece a n\u00e3o ser que essas condi\u00e7\u00f5es \u201cn\u00e3o-econ\u00f4micas\u201d estejam em seus lugares. Portanto, essas condi\u00e7\u00f5es de fundo possuem seu pr\u00f3prio peso causal. Eles n\u00e3o s\u00e3o \u201cepifen\u00f4menos\u201d.<\/p>\n<p>Tome o exemplo da reprodu\u00e7\u00e3o social: as atividades, geralmente desempenhadas por mulheres fora da economia oficial, que sustentam os seres humanos que constituem o \u201ctrabalho\u201d. Ent\u00e3o, por exemplo, o parto, o cuidado, a socializa\u00e7\u00e3o e a educa\u00e7\u00e3o de novas gera\u00e7\u00f5es; mas tamb\u00e9m a restaura\u00e7\u00e3o dos trabalhadores adultos, que t\u00eam de estar alimentados, limpos, vestidos e repousados para voltar ao trabalho no dia seguinte \u2014 tudo isso \u00e9 necess\u00e1rio para o funcionamento da economia capitalista. Esse argumento foi desenvolvido por feministas que estavam elaborando a teoria da reprodu\u00e7\u00e3o social, que \u00e9 uma variante do feminismo marxista. Ela indica que se a reprodu\u00e7\u00e3o social sair dos eixos, haver\u00e1 s\u00e9rios problemas para a produ\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica. E isso significa que a acumula\u00e7\u00e3o de capital \u00e9 restringida por rela\u00e7\u00f5es de parentesco, taxas de natalidade e de mortalidade, etc. Portanto, complicamos um quadro de causalidade unidirecional.<\/p>\n<p>Um caso paralelo pode ser estabelecido a respeito das condi\u00e7\u00f5es naturais ou ecol\u00f3gicas subjacentes. A produ\u00e7\u00e3o e a acumula\u00e7\u00e3o capitalistas pressup\u00f5em a disponibilidade das coisas materiais das quais a produ\u00e7\u00e3o depende \u2013\u2013 mat\u00e9ria-prima, fontes de energia, esta\u00e7\u00f5es para despejo e tratamento de dejetos. E caso essas condi\u00e7\u00f5es sejam comprometidas, isso tamb\u00e9m pode obstruir os trabalhos. Temos um interessante exemplo nesse momento com a Covid-19, que \u00e9, em certo n\u00edvel, uma desfun\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica. O v\u00edrus emergiu como amea\u00e7a para os seres humanos por um transbordamento zoon\u00f3tico, uma transfer\u00eancia dos morcegos para n\u00f3s por meio de esp\u00e9cies intermedi\u00e1rias, possivelmente pangolins, provavelmente resultado de uma migra\u00e7\u00e3o induzida de esp\u00e9cies por causa do clima \u2014 ou do \u201cdesenvolvimento\u201d.<\/p>\n<p>O resultado tem sido uma enorme contra\u00e7\u00e3o do sistema econ\u00f4mico como um todo. A Covid-19 \u00e9 um \u00f3timo exemplo de causalidade que se d\u00e1 por outros meios.<\/p>\n<div>\n<p>MM<\/p>\n<p><strong>Conforme voc\u00ea destacou, o capitalismo n\u00e3o \u00e9 um sistema econ\u00f4mico completamente aut\u00f4nomo, no sentido de que ele parte e depende de condi\u00e7\u00f5es de fundo que s\u00e3o, de alguma forma, externas a ele. Por\u00e9m, ainda que todas essas esferas sejam relativamente independentes umas das outras, o sistema econ\u00f4mico ainda consegue agir e transformar essas outras esferas. Esta n\u00e3o seria uma das peculiaridades do capitalismo, que ele possua a capacidade de moldar \u00e1reas fora dele, tal como a natureza?\u00a0<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p>NF<\/p>\n<p>Definitivamente, existe algo especial sobre a economia capitalista que a dota de um imenso dinamismo causal: o imperativo de acumular capital e de expandir \u201cvalor\u201d sem limites. Da forma que a conhecemos, uma economia capitalista n\u00e3o admite que voc\u00ea fa\u00e7a algum dinheiro e relaxe para curtir a vida em sua mans\u00e3o, gastando tudo. Em vez disso, h\u00e1 o imperativo de reinvestimento, voltado para gerar ainda maiores quantidades de valor excedente, lucros crescentes e mais capital. \u00c9 uma for\u00e7a poderosa, que inclina os detentores de capital a for\u00e7ar os limites, a tentar torcer as condi\u00e7\u00f5es n\u00e3o-econ\u00f4micas \u00e0s suas vontades. Entretanto, a capacidade deles de fazer isso n\u00e3o \u00e9 absoluta. Est\u00e1 sujeita a resist\u00eancias, inclusive da natureza, que procede em seu pr\u00f3prio ritmo, em sua pr\u00f3pria programa\u00e7\u00e3o. A temporalidade da reprodu\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica n\u00e3o est\u00e1, no fim das contas, dentro do controle capitalista. Dessa forma, \u00e9 sensato falar de esferas \u201crelativamente aut\u00f4nomas\u201d que s\u00e3o postuladas como \u201cn\u00e3o-econ\u00f4micas\u201d.<\/p>\n<\/div>\n<p>Todavia, o impulso expansionista do capital \u00e9 uma compuls\u00e3o cega, brutal e est\u00e1 entranhado no sistema. \u00c9 muito mais poderoso do que a vontade de seres humanos individuais que possuem o seu pr\u00f3prio capital e s\u00e3o incentivados a expandir seu valor \u2014 como se estivessem realizando \u201csuas vontades\u201d. Esse impulso \u00e9 t\u00e3o poderoso que tem sido bem sucedido em rearranjar suas pr\u00f3prias condi\u00e7\u00f5es de fundo (fam\u00edlia, natureza, formas de Estado e da\u00ed por diante), n\u00e3o obstante dentro de alguns limites, como disse antes. O que estou tentando sugerir \u00e9 que os marxistas est\u00e3o totalmente certos em insistir no poder e na for\u00e7a modeladora da din\u00e2mica de acumula\u00e7\u00e3o. Mas \u00e9 um erro traduzir essa ideia em um quadro de causalidade do tipo base-superestrutura. H\u00e1 muitos reveses, pois essas condi\u00e7\u00f5es de fundo tem suas pr\u00f3prias gram\u00e1ticas e temporalidades de reprodu\u00e7\u00e3o e porque elas abrigam valores \u201cn\u00e3o-econ\u00f4micos\u201d aos quais as pessoas d\u00e3o import\u00e2ncia e que influenciam suas a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<div>\n<p>MM<\/p>\n<p><strong>Voc\u00ea mencionou que a crise da Covid-19 \u00e9 um exemplo dram\u00e1tico de como essas externalidades interagem com o capitalismo de maneiras complicadas, levando ao tipo de crises capitalistas que voc\u00ea tem descrito como \u201cmultidimensionais\u201d. Em outra ocasi\u00e3o, voc\u00ea tamb\u00e9m sugeriu que, pelo menos desde 2008, o atual est\u00e1gio do capitalismo neoliberal financeirizado atravessa uma crise \u2014 talvez terminal \u2014 que pode eventualmente significar uma mudan\u00e7a hist\u00f3rica rumo a uma forma de acumula\u00e7\u00e3o capitalista diferente. Como voc\u00ea avalia a atual crise?<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p>NF<\/p>\n<p>Eu quero sublinhar v\u00e1rios pontos que j\u00e1 est\u00e3o impl\u00edcitos na forma que voc\u00ea colocou a quest\u00e3o. Um deles \u00e9 que devemos distinguir entre crises setoriais e crises generalizadas. Uma crise setorial significa que existe uma \u00e1rea significativa em dado regime de acumula\u00e7\u00e3o capitalista ou uma fase do desenvolvimento capitalista que \u00e9 notoriamente disfuncional, ao passo que outras parecem mais ou menos bem. Geralmente, tendemos a pensar sobre crises econ\u00f4micas como crises setoriais exatamente dessa forma. Historiadores poderiam indicar v\u00e1rios exemplos de tais crises setoriais que pertencem a apenas um reino da sociedade. Mas isso \u00e9 diferente de uma crise generalizada na ordem social como um todo. O conceito de crise generalizada sugere uma converg\u00eancia ou sobredetermina\u00e7\u00e3o de diversos e importantes impasses e disfun\u00e7\u00f5es. N\u00e3o apenas um setor, mas todos ou praticamente todos os principais setores da sociedade est\u00e3o em crise e agravam a situa\u00e7\u00e3o um dos outros. Esse foi o caso dos anos 1930, por exemplo.<\/p>\n<\/div>\n<p>Suspeito que estamos atravessando uma crise geral desse modelo agora. Certamente, temos visto severas formas de crises econ\u00f4micas, como a dissolu\u00e7\u00e3o financeira de 2007-8. E embora possa parecer que nossos governantes encontraram solu\u00e7\u00f5es, aquela crise ainda n\u00e3o foi realmente resolvida. A financeiriza\u00e7\u00e3o pervasiva segue sendo uma bomba rel\u00f3gio. Por\u00e9m, segundo mostra relat\u00f3rio do Painel Intergovernamental sobre a Mudan\u00e7a Clim\u00e1tica (IPCC), nossos infort\u00fanios convergiram com outra crise muito grave, ainda mais catastr\u00f3fica: o aquecimento global. Essa crise ecol\u00f3gica vem sendo fermentada h\u00e1 muito tempo e agora se torna palp\u00e1vel. Mais e mais segmentos da popula\u00e7\u00e3o global, incluindo segmentos que tinham se mantido relativamente a salvo dos seus piores efeitos, est\u00e3o despertando para o problema.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m, como disse antes, uma crise na reprodu\u00e7\u00e3o social, que coloca uma press\u00e3o ou acaba esgotando nossas capacidades de cria\u00e7\u00e3o, cuidado e sustento de seres humanos: assist\u00eancia \u00e0s crian\u00e7as e aos idosos, cuidados voltados para a sa\u00fade e para a educa\u00e7\u00e3o. Na medida em que o Estado desinveste no or\u00e7amento p\u00fablico e os rebaixados n\u00edveis salariais nos for\u00e7am a devotar mais horas ao trabalho pago, o sistema devora o tempo e a energia necess\u00e1rios para o trabalho relacionado ao cuidado. Portanto, esse setor est\u00e1 em crise tamb\u00e9m, especialmente em condi\u00e7\u00f5es pand\u00eamicas. Algu\u00e9m poderia dizer que a Covid-19 exacerbou agudamente as crises pr\u00e9-existentes na reprodu\u00e7\u00e3o social. Mas tamb\u00e9m poderia ser dito de forma igualmente acertada que as crises pr\u00e9-existentes na reprodu\u00e7\u00e3o social (incluindo o desinvestimento p\u00fablico em infraestrutura de sa\u00fade e em servi\u00e7os sociais) exacerbaram agudamente os efeitos da Covid-19.<\/p>\n<p>Finalmente, tamb\u00e9m enfrentamos uma grande crise pol\u00edtica. Ela \u00e9, em certo n\u00edvel, uma crise de governan\u00e7a, pois mesmo Estados poderosos como os Estados Unidos n\u00e3o possuem a capacidade de resolver os problemas que o sistema produz. Eles est\u00e3o esgotados, paralisados por congest\u00e3o e desarmados por megacorpora\u00e7\u00f5es, as quais s\u00e3o respons\u00e1veis por capturar virtualmente todas as ag\u00eancias regulat\u00f3rias e arquitetar enormes isen\u00e7\u00f5es fiscais para si mesmas e para os mais ricos. Destitu\u00eddos de renda h\u00e1 d\u00e9cadas, os Estados permitiram que suas infraestruturas desmoronassem e drenassem seus estoques de bens p\u00fablicos essenciais, tais como equipamentos de prote\u00e7\u00e3o individual (EPI). Eles s\u00e3o, por defini\u00e7\u00e3o, impotentes para lidar com quest\u00f5es como crise clim\u00e1tica, algo que n\u00e3o est\u00e1 abarcado dentro de nenhuma fronteira jur\u00eddica. O resultado \u00e9 uma aguda crise de governan\u00e7a no n\u00edvel estrutural. Mas h\u00e1 tamb\u00e9m uma crise pol\u00edtica em outro n\u00edvel, uma crise de hegemonia no sentido gramsciano: a vasta deser\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica segundo par\u00e2metros usuais, a partir de partidos pol\u00edticos e elites que se contaminaram por associa\u00e7\u00f5es com o neoliberalismo, e a apari\u00e7\u00e3o de outrora impens\u00e1veis populismos \u2014 alguns potencialmente emancipat\u00f3rios, outros decididamente n\u00e3o.<\/p>\n<p>A consequ\u00eancia \u00e9 que agora n\u00f3s encaramos um emaranhado de m\u00faltiplas crises: econ\u00f4mica, da reprodu\u00e7\u00e3o social, ecol\u00f3gica e uma crise pol\u00edtica de duas faces. Me parece que isso se soma \u00e0 crise geral da sociedade capitalista. Seus efeitos borbulham por todo lugar, aqui e ali, como um c\u00e2ncer em met\u00e1stase. Todos os esfor\u00e7os para remediar um surto leva a outros, afligindo novos setores, regi\u00f5es, popula\u00e7\u00f5es, at\u00e9 que todo o corpo social esteja em farrapos. A experi\u00eancia da crise generalizada vem se tornando palp\u00e1vel para muitas pessoas, embora isso n\u00e3o signifique que elas ir\u00e3o se insurgir ou que teremos um cl\u00edmax revolucion\u00e1rio a qualquer momento. As crises capitalistas podem se prolongar por d\u00e9cadas, infelizmente. Algu\u00e9m poderia afirmar que toda a primeira metade do s\u00e9culo XX at\u00e9 a derrota do fascismo no fim da Segunda Guerra foi apenas uma longa e turbulenta crise do capitalismo liberal-colonial. Portanto, pode ser que tenhamos muito trabalho duro pela frente.<\/p>\n<div>\n<p>MM<\/p>\n<p><strong>A Covid parece ter realmente limitado nossas capacidades de previs\u00e3o. Apesar disso, parece importante exercitarmos o pensamento sobre diferentes cen\u00e1rios futuros baseados em tend\u00eancias do presente \u2014 ao menos para elaborar guias para nossas a\u00e7\u00f5es tendo em vista cen\u00e1rios mais emancipat\u00f3rios e evitar os mais catastr\u00f3ficos.<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/jacobin.com.br\/2021\/10\/so-um-radical-ecossocialismo-democratico-pode-mudar-o-horizonte\/loja.editoraruadosabao.com.br\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/jacobin.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/algoritmos-da-opressao.jpg?w=640&#038;ssl=1\" data-src=\"https:\/\/jacobin.com.br\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/algoritmos-da-opressao.jpg\" \/><\/a><\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p>NF<\/p>\n<p>Concordo. Fico feliz em pensar em cen\u00e1rios poss\u00edveis, alertando que n\u00e3o estou fazendo nenhuma previs\u00e3o. Come\u00e7aria considerando se a atual crise \u00e9 \u201cdesenvolvimentista\u201d ou \u201cepocal\u201d. \u00c9 uma distin\u00e7\u00e3o que devemos \u00e0 Escola de Binghamton. Uma crise epocal \u00e9 uma crise do capitalismo como tal; a resolu\u00e7\u00e3o requer a supera\u00e7\u00e3o desse sistema, sua substitui\u00e7\u00e3o por alguma nova forma de sociedade p\u00f3s-capitalista. Por contraste, uma crise desenvolvimentista \u00e9 espec\u00edfica a um dado \u201cregime de acumula\u00e7\u00e3o\u201d ou fase no interior da hist\u00f3ria do capitalismo e pode ser resolvida, ao menos temporariamente, por sua substitui\u00e7\u00e3o por um novo regime \u2014 diferente, mas ainda assim capitalista. Nesse caso, as divis\u00f5es constitutivas do sistema entre produ\u00e7\u00e3o de mercadoria e reprodu\u00e7\u00e3o social, \u201co econ\u00f4mico\u201d e \u201co pol\u00edtico\u201d, sociedade humana e natureza n\u00e3o-humana, explora\u00e7\u00e3o e expropria\u00e7\u00e3o n\u00e3o seriam eliminadas, mas \u201capenas\u201d redesenhadas.<\/p>\n<\/div>\n<p>Tais divis\u00f5es existem de uma forma ou de outra em toda fase do capitalismo, mas s\u00e3o espa\u00e7os de contradi\u00e7\u00e3o. Cada uma delas abriga uma tend\u00eancia \u00e0 crise (econ\u00f4mica, ecol\u00f3gica, social ou pol\u00edtica) que est\u00e1 fadada a causar problemas mais cedo ou mais tarde. Um dado regime pode amaciar ou amansar essas contradi\u00e7\u00f5es por um tempo, mas n\u00e3o para sempre. Eventualmente, elas eclodem \u00e0 vista de todos e o regime entra em crise expl\u00edcita, desencadeando uma busca fren\u00e9tica por solu\u00e7\u00f5es \u2014 e intensa lutas sobre os contornos dessas solu\u00e7\u00f5es. Entretanto, aqueles que est\u00e3o implicados nessas lutas n\u00e3o tem como saber se o resultado ser\u00e1 um novo regime dentro do capitalismo ou uma alternativa p\u00f3s-capitalista. Isso s\u00f3 fica claro a posteriori, com o benef\u00edcio da retrospectiva.<\/p>\n<p>At\u00e9 o momento, toda crise generalizada na hist\u00f3ria do capitalismo provou ser \u201cmeramente\u201d desenvolvimentista. A crise geral da fase mercantil levou ao regime liberal-colonial do s\u00e9culo XIX, cuja crise levou, por sua vez, ao regime da administra\u00e7\u00e3o estatal da metade do s\u00e9culo XX, o qual abriu caminho para o capitalismo financeirizado da era atual. Em cada caso, o novo regime desativou temporariamente a crise desenvolvimentista do seu predecessor antes de, eventualmente, sucumbir \u00e0 sua pr\u00f3pria crise. Contudo, muitos atores sociais acreditaram que a crise que estavam experimentando era epocal e chegaria ao fim com a aboli\u00e7\u00e3o do capitalismo. No entanto, eles subestimaram a inventividade do sistema, a sua capacidade de auto transforma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Devemos ter essa hist\u00f3ria em mente conforme tentamos entender nossa pr\u00f3pria situa\u00e7\u00e3o. \u00c9 poss\u00edvel que alguns aspectos da nossa atual crise possam ser desenvolvimentistas, espec\u00edficos ao regime financeirizado. Mas n\u00e3o todos. O componente ecol\u00f3gico \u00e9 o que me faz pensar que podemos estar enfrentando algo diferente, uma crise epocal genu\u00edna, cuja resolu\u00e7\u00e3o requer a supera\u00e7\u00e3o do capitalismo de uma vez por todas.<\/p>\n<p>Se assim o for, ent\u00e3o existem diversos cen\u00e1rios poss\u00edveis. Entre eles est\u00e3o alguns desej\u00e1veis, como o ecossocialismo democr\u00e1tico global. \u00c9 dif\u00edcil dizer, \u00e9 claro, a apar\u00eancia que ele ter\u00e1, mas vamos assumir que ele desmantelaria a \u201clei do valor\u201d, aboliria a explora\u00e7\u00e3o e a expropria\u00e7\u00e3o e reinventaria as rela\u00e7\u00f5es entre a sociedade humana e a natureza n\u00e3o-humana, entre a produ\u00e7\u00e3o de bens e o trabalho de cuidado, entre \u201co pol\u00edtico\u201d e \u201co econ\u00f4mico\u201d, planejamento democr\u00e1tico e mercados. Esse seria o lado \u201cbom\u201d do nosso espectro de possibilidades. No outro extremo, temos resultados n\u00e3o-capitalistas verdadeiramente terr\u00edveis: uma enorme regress\u00e3o social sob a conduta de brutamontes belicosos ou um regime autorit\u00e1rio global. H\u00e1, \u00e9 \u00f3bvio, uma terceira possibilidade, segundo a qual a crise n\u00e3o \u00e9 resolvida de fato, mas simplesmente continua sua orgia de auto-canibalismo da sociadade at\u00e9 que reste muito pouco de algo que reconhecemos como humano.<\/p>\n<p>Como afirmei, n\u00e3o estou fazendo nenhuma previs\u00e3o aqui. Mas eu diria que se essas forem as nossas op\u00e7\u00f5es atuais, dever\u00edamos come\u00e7ar a lutar com todas as for\u00e7as pelo primeiro cen\u00e1rio. E isso significa trabalhar na constru\u00e7\u00e3o de um novo bloco contra-hegem\u00f4nico que possa unificar todas as potenciais for\u00e7as emancipat\u00f3rias por tr\u00e1s de um projeto de transforma\u00e7\u00e3o eco-social. Em um artigo recente para a\u00a0<em>New Left Review<\/em>, tentei esbo\u00e7ar essa estrat\u00e9gia e explicar o pensamento por tr\u00e1s dela. Minha ideia \u00e9 que tal projeto \u00e9 melhor concebido como anticapitalista e transambiental: anticapitalista porque o capitalismo \u00e9 embutido de uma tend\u00eancia estrutural \u00e0 crises ecol\u00f3gicas e esse \u00e9 o principal motor s\u00f3cio hist\u00f3rico da mudan\u00e7a clim\u00e1tica, transambiental porque as contradi\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas do sistema s\u00e3o intrinsecamente enredadas com outras contradi\u00e7\u00f5es (econ\u00f4mica, pol\u00edtica, social) e n\u00e3o podem ser resolvidas abstraindo-as. O desfecho \u00e9 que os ativistas verdes devem se unir por causas comuns com aqueles que lutam por direitos trabalhistas, moradia e seguran\u00e7a alimentar; por uma reavalia\u00e7\u00e3o do trabalho de cuidado e investimento p\u00fablico em reprodu\u00e7\u00e3o social; contra a expuls\u00e3o e exclus\u00e3o de imigrantes; contra despejo de im\u00f3vel e terra, contra o autoritarismo e a opress\u00e3o imperial-racial.<\/p>\n<p>O que torna tal coaliz\u00e3o transambiental poss\u00edvel, em princ\u00edpio, \u00e9 o \u201cconveniente\u201d fato de que todos esses males sociais encontram suas ra\u00edzes em um mesmo sistema social \u2014 o capitalismo. Esse sistema poderia, ou melhor, deveria ser tratado como o inimigo comum dos v\u00e1rios parceiros da coaliz\u00e3o e com um foco convergente de seus v\u00e1rios ativismos. Se adotassem uma postura anticapitalista, as correntes ecopol\u00edticas atualmente divididas poderiam unir for\u00e7as umas com as outras \u2014 e com os movimentos sociais \u201cn\u00e3o ambientais\u201d. Estou pensando em movimentos pelo decrescimento, justi\u00e7a ambiental e pelo Green New Deal, que encontram-se desarm\u00f4nicos hoje em dia. Da forma que os vejo, cada um dos tr\u00eas possui percep\u00e7\u00f5es genu\u00ednas e pontos cegos que os fragilizam. Aposto que os\u00a0<em>insights<\/em>\u00a0poderiam ser amplificados e os pontos cegos corrigidos se essas correntes fossem rearranjadas em um bloco contra-hegem\u00f4nico de car\u00e1ter transambiental e anticapitalista. Nesse caso, seus programas espec\u00edficos, como o Green New Deal, pareceriam menos como fins em si mesmos e mais como \u201cestrat\u00e9gias socialistas de transi\u00e7\u00e3o\u201d (para usar a velha formula\u00e7\u00e3o trotskista) em vista de uma transforma\u00e7\u00e3o mais radical, que podemos chamar de \u201cecossocialismo democr\u00e1tico\u201d.<\/p>\n<p>De qualquer forma, \u00e9 imposs\u00edvel dizer exatamente o que e quando vai acontecer, porque isso depende, obviamente, do que as pessoas fazem. O que eu mesmo estou fazendo nestes dias s\u00e3o tentativas de esclarecer a din\u00e2mica da crise atual em suas v\u00e1rias dimens\u00f5es. Meu objetivo \u00e9 tra\u00e7ar um mapa da totalidade social na qual ativistas em potencial podem localizar suas v\u00e1rias preocupa\u00e7\u00f5es, que de outra forma tendem a permanecer parciais e desconectadas. Dessa forma, espero transmitir uma ideia de onde e como essas v\u00e1rias preocupa\u00e7\u00f5es se encaixam no quadro geral; bem como mapear a situa\u00e7\u00e3o entre as for\u00e7as sociais em conflito. Meu objetivo maior \u00e9 pr\u00e1tico: esclarecer como essas for\u00e7as e essas preocupa\u00e7\u00f5es podem ser mobilizadas de maneira mais eficaz em nome de uma resolu\u00e7\u00e3o emancipat\u00f3ria da crise.<\/p>\n<div>\n<p>MM<\/p>\n<p><strong>O que voc\u00ea descreve parece um pouco com uma estrat\u00e9gia populista: a ideia de que a sociedade \u00e9 composta de interesses e preocupa\u00e7\u00f5es inerentemente parciais, onde o desafio consiste em fazer com que essa diversidade de interesses sedimentem-se em um agente pol\u00edtico coerente. Voc\u00ea tamb\u00e9m falou em favor do populismo de esquerda no passado, mas os eventos recentes parecem sugerir que, enquanto movimento, possuem viabilidade pol\u00edtica limitada. Enquanto isso, o populismo de direita parece ter um melhor desempenho hist\u00f3rico.<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p>NF<\/p>\n<p>Comecei a pensar seriamente sobre populismo logo ap\u00f3s o Ocupe Wall Street. Eu fiquei muito impactada com a ret\u00f3rica dos 99% e dos 1%, que \u00e9 quintessencialmente populista. Mesmo n\u00e3o possuindo a precis\u00e3o e o rigor anal\u00edtico de uma an\u00e1lise de classe, \u00e9 imediatamente compreens\u00edvel e poderosamente efetivo. Foi maravilhoso como essa linguagem foi rapidamente absorvida nos Estados Unidos. Isso se deu, em parte, porque foi bastante amplificada por Bernie Sanders, que falava sobre um \u201csistema manipulado\u201d em favor da \u201cclasse dos bilion\u00e1rios\u201d. Essa palavra, \u201cmanipulado\u201d, provou-se incrivelmente poderosa, algo que n\u00e3o escapou a Donald Trump, que um tempo depois se apropriou dela e deu um sentido diferente.<\/p>\n<\/div>\n<p>Em todo caso, a irrup\u00e7\u00e3o dessa linguagem populista no universo pol\u00edtico dos Estados Unidos foi dram\u00e1tica. Foi n\u00e3o apenas o pren\u00fancio de uma grande cis\u00e3o na hegemonia neoliberal, mas tamb\u00e9m rompeu com a ret\u00f3rica particularizante que prevalecia em alguns c\u00edrculos de \u201cesquerda\u201d, que se encontravam at\u00e9 ent\u00e3o engajados em compartimentar categorias pol\u00edticas (tais como \u201cmulheres\u201d) em partes ainda menores, em unidades mais distintas. Falar no confronto dos \u201c99%\u201d contra os \u201c1%\u201d foi em uma dire\u00e7\u00e3o oposta, rumo \u00e0 coletividade mais ampla. Isso me fez perceber um crescente interesse, nos Estados Unidos, na constru\u00e7\u00e3o de uma vasta coaliz\u00e3o de esquerda. Pareceu expressar uma fome que as pessoas sentiam, talvez sem nem mesmo perceber, por uma an\u00e1lise centrada em conex\u00f5es, que pudesse ajudar a superar a fragmenta\u00e7\u00e3o da esquerda e construir uma frente unificada \u2014 vejo tudo isso como sinais positivos.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, a aproria\u00e7\u00e3o de Trump da ret\u00f3rica populista tornou imperativo distinguir um populismo de esquerda e um populismo de direita. Cada um deles oferece um mapa de hierarquias sociais, quem est\u00e1 acima e quem est\u00e1 abaixo, quem est\u00e1 com o p\u00e9 na cabe\u00e7a de quem. Contudo, os dois mapas diferem agudamente. O populismo de esquerda \u00e9 bin\u00e1rio, divide a sociedade em dois grupos: uma pequena elite olig\u00e1rquica que acumula enormes riquezas \u00e0s custas da grande maioria \u2014 decorre disso o seu projeto de mobiliza\u00e7\u00e3o dos \u201c99%\u201d contra os \u201c1%\u201d. Em contraposi\u00e7\u00e3o, o mapa do populismo de direita \u00e9 tripartite, divide a sociedade em tr\u00eas grupos. No topo est\u00e1 a elite \u201csanguessuga\u201d, na base, miser\u00e1veis dependentes e ao meio, acossada por ambos, est\u00e1 o virtuoso \u201ccidad\u00e3o de bem\u201d. Desse modo, o populismo de direita tem como alvo os 1%, mas tamb\u00e9m imigrantes, pessoas n\u00e3o-brancas, sexualidades minorit\u00e1rias, etc. Tanto a representa\u00e7\u00e3o da sociedade quanto o projeto pol\u00edtico s\u00e3o muito diferentes.<\/p>\n<p>Uma segunda diferen\u00e7a \u00e9 que o populismo de direita define seus inimigos em termos particularistas e substantivos. No linguajar de alguns apoiadores de Trump, por exemplo, aqueles que est\u00e3o no topo s\u00e3o \u201ca cabala judaica-ped\u00f3fila internacional\u201d, enquanto aqueles que est\u00e3o na base s\u00e3o \u201cmexicanos estupradores\u201d ou \u201cfolgados\u201d, ambos os extremos caracterizados concretamente, em termos culturais. Em contraste, o populismo de esquerda define o inimigo funcionalmente, em termos do papel que desempenha no sistema social \u2014 da\u00ed o uso de \u201cWall Street\u201d ou \u201cclasse biblion\u00e1ria\u201d. \u00c9 verdade, evidentemente, que termos funcionais podem deslizar para termos identit\u00e1rios, como quando \u201cWall Street\u201d muda para \u201cbanqueiros judeus\u201d. Portanto, n\u00e3o existe um muro absoluto entre os dois populismos e deve haver muito cuidado por aqueles da esquerda para deter qualquer deslize iminente. Todavia, essa diferen\u00e7a entre eles, como a anterior, \u00e9 pol\u00edtica e moralmente relevante. N\u00e3o esque\u00e7amos: a sociologia \u201cfuncional\u201d bin\u00e1ria do populismo de esquerda est\u00e1 t\u00e3o longe da verdade quanto o identitarismo tripartite da direita. A esfera financeira realmente expropria a imensa maioria no capitalismo contempor\u00e2neo, ao passo que \u201ca subclasse\u201d n\u00e3o acossa de fato o \u201ccidad\u00e3o de bem\u201d.<\/p>\n<p>A pr\u00f3xima quest\u00e3o \u00e9 se o populismo de esquerda, assim definido, pode servir como uma forma\u00e7\u00e3o de transi\u00e7\u00e3o que conquiste vit\u00f3rias, aumente o alcance delas, acentue suas cr\u00edticas sociais e se torne mais radical. Tamb\u00e9m \u00e9 o caso saber se ele pode educar as pessoas no decorrer da luta, elucidando pontos a respeito do sistema contra o qual se est\u00e1 lutando, explicando exatamente de que forma esse sistema \u00e9 manipulado. N\u00e3o tenho tanta certeza se haver\u00e1 sucesso na gera\u00e7\u00e3o de\u00a0<em>insights<\/em>\u00a0genu\u00ednos relativos ao real modo de funcionamento do \u201csistema\u201d e o que realmente precisa ser feito para transform\u00e1-lo. Suspeito que ser\u00e1 preciso alguma ajuda dos marxistas nesses \u00faltimos pontos. Mas vamos ver o que acontece.<\/p>\n<p>Agora, tendo dito isso, eu concordo completamente com voc\u00ea que o hist\u00f3rico do populismo de esquerda em compara\u00e7\u00e3o ao seu rival \u00e0 direita n\u00e3o \u00e9 impressionante. Certamente, o populismo de direita tem sido mais bem sucedido em conquistar e em manter o apoio de um grande n\u00famero de pessoas. Contudo, parte do problema \u00e9 o papel vergonhoso que ele desempenha em v\u00e1rios pa\u00edses por partidos e l\u00edderes supostamente social-democratas e socialistas em instalar ou consolidar o neoliberalismo: Bill e Hillary Clinton nos Estados Unidos, Tony Blair na Inglaterra, Gerhard Schr\u00f6der na Alemanha. Ambos os populismos se desenvolveram em resposta a esse fiasco, mas a variante de esquerda tem se revirado para diferenciar a si mesma desses \u201cneoliberais progressistas\u201d que nos legaram a financeiriza\u00e7\u00e3o, ainda que eles tenham tentado capturar a base da classe trabalhadora que desertou daqueles partidos.<\/p>\n<p>Em todo caso, eu n\u00e3o vejo nenhuma outra estrat\u00e9gia dispon\u00edvel. \u00c9 crucial para a esquerda cortejar as fra\u00e7\u00f5es da classe trabalhadora que hoje apoiam o populismo de direita. E essa \u00e9 uma opera\u00e7\u00e3o muito delicada. Por um lado, n\u00e3o devemos ceder um mil\u00edmetro aos racistas de carteirinha que pertencem a esse grupo. Por outro lado, n\u00e3o devemos assumir que estes constituem a esmagadora maioria da classe trabalhadora que vota em Trump ou Jair Bolsonaro. Se fizermos isso, o jogo acabou. Devemos come\u00e7ar, ao inv\u00e9s disso, assumindo que uma consider\u00e1vel parte desses eleitores pode ser conquistada pela esquerda, atrav\u00e9s do populismo de esquerda. E sabemos que, de fato, alguns deles votaram, n\u00e3o faz muito tempo, em figuras como Lula e Barack Obama, s\u00f3 depois mudando de posi\u00e7\u00e3o, quando suas esperan\u00e7as foram desapontadas. O que o populismo de esquerda pode e deve fazer \u00e9 validar suas m\u00e1goas leg\u00edtimas, ao mesmo tempo em que disponibiliza diferentes interpreta\u00e7\u00f5es para o que est\u00e1 por tr\u00e1s delas, explicando quem exatamente manipula o qu\u00ea, porqu\u00ea o foco em uma subclasse menosprezada \u00e9 um beco sem sa\u00edda e porqu\u00ea eles nunca ser\u00e3o fortes o suficiente para derrotar o real culpado (o capitalismo e o setor financeiro global) se apoiarem partidos que dividem a classe trabalhadora. Em outras palavras, nossa melhor esperan\u00e7a nesse momento \u00e9 que o populismo de esquerda possa, em seu tempo, desenvolver-se e tornar-se algum novo tipo de movimento socialista.<\/p>\n<div>\n<p>MM<\/p>\n<p><strong>Como a luta de classes se encaixa na evolu\u00e7\u00e3o do populismo de esquerda at\u00e9 um movimento socialista? Alguns poderiam argumentar que o populismo enfatiza a unifica\u00e7\u00e3o de m\u00faltiplos antagonismos num \u201cpovo\u201d simb\u00f3lico que n\u00e3o \u00e9 totalmente compat\u00edvel com a pol\u00edtica socialista \u2014 ou ao menos com a vers\u00e3o da pol\u00edtica socialista que entende o poder da classe trabalhadora como \u201cestrutural\u201d, ou seja, come\u00e7ando no ponto da produ\u00e7\u00e3o, onde trabalhadores podem potencialmente usar o poder que eles t\u00eam como produtores para gerar ganhos pol\u00edticos materiais.<br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p><strong>Parece que o seu pensamento sobre o que voc\u00ea chama de lutas de fronteira cont\u00e9m pistas. Pode-se ter a impress\u00e3o de que a luta de classes toma a apar\u00eancia das lutas de fronteira no contexto da sua concep\u00e7\u00e3o expandida de capitalismo. Parece justo?<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p>NF<\/p>\n<p>Ao menos dentro do marxismo tradicional e do socialismo\u00a0<em>mainstream\u00a0<\/em>e dos movimentos de trabalhadores, h\u00e1 uma tend\u00eancia hist\u00f3rica de pensar a luta de classes num sentido estreito, ou seja, como lutas no momento da produ\u00e7\u00e3o pela taxa e distribui\u00e7\u00e3o de mais-valia extra\u00edda dos trabalhadores assalariados nas f\u00e1bricas. E a\u00ed, claro, \u00e9 esperado que essas lutas se expandam para al\u00e9m das portas da f\u00e1brica, desenvolvam uma dimens\u00e3o pol\u00edtica, e adotem outras causas. Mas eu ainda acho que, de maneira geral, essa imagem da luta de classes, como essencialmente preocupada com o trabalho assalariado em contextos industriais, continua sendo uma imagem muito poderosa.<\/p>\n<\/div>\n<p>Essa imagem da luta de classes levou muita gente a argumentar contra o que Chantal Mouffe e Ernesto Laclau chamaram \u201cessencialismo de classe\u201d. Nesses debates, defendia-se que a luta de classes n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico tipo de luta nas sociedades capitalistas, e que ela n\u00e3o tem o monop\u00f3lio sobre o que constitui uma vis\u00e3o justa da sociedade. Os que denunciaram o essencialismo de classe dizem que socialistas e marxistas n\u00e3o t\u00eam o monop\u00f3lio da nomea\u00e7\u00e3o de todas as formas de opress\u00e3o e injusti\u00e7a. E, de fato, sociedades capitalistas foram historicamente espa\u00e7os nos quais\u00a0tremendas lutas por causa de trabalho n\u00e3o-livre e dependente e v\u00e1rias outras formas de opress\u00e3o ou domina\u00e7\u00e3o que n\u00e3o se enquadram nos par\u00e2metros convencionais de lutas de classe. Em outras palavras, uma posi\u00e7\u00e3o diz: \u201cA luta de classes tem um significado muito espec\u00edfico e, portanto, precisamos validar lutas que n\u00e3o s\u00e3o de classes, que possuem um outro sentido.\u201d<\/p>\n<p>Por\u00e9m, em outra perspectiva, algu\u00e9m poderia dizer que o problema est\u00e1 na estreita defini\u00e7\u00e3o de luta de classes. Se considerarmos novamente a primeira parte da nossa conversa, \u00e9 a concep\u00e7\u00e3o expandida de capitalismo que discutimos que nos permite ver os conflitos de classe sob uma luz diferente. Da mesma forma que o capitalismo n\u00e3o \u00e9 apenas uma economia, classe n\u00e3o \u00e9 apenas a luta na esfera da produ\u00e7\u00e3o. Se voc\u00ea entende o capitalismo como algo que engloba todas essas condi\u00e7\u00f5es de fundo, que s\u00e3o necess\u00e1rias para os lugares extremamente especializados onde o valor excedente \u00e9 acumulado, extra\u00eddo dos sal\u00e1rios do trabalho explorado, voc\u00ea tamb\u00e9m consegue compreender que a reprodu\u00e7\u00e3o social \u00e9 um componente igualmente essencial do sistema, bem como a forma que suas partes se encaixam. Se o mesmo \u00e9 v\u00e1lido sobre a natureza, os bens p\u00fablicos, as capacidades regulat\u00f3rias e as formas legais que n\u00f3s pensamos como pol\u00edticas, ent\u00e3o pode ser perfeitamente verdade que as lutas que envolvem essas coisas tamb\u00e9m s\u00e3o anticapitalistas ou pelo menos lutas a respeito dos componentes essenciais do sistema capitalista. Colocadas sob o \u00e2ngulo correto \u2014 o que n\u00e3o acontece \u2014 elas tamb\u00e9m podem ser entendidas como lutas de classes.<\/p>\n<p>Lutas pela reprodu\u00e7\u00e3o social s\u00e3o historicamente, de fato, parte da luta de classes. \u00c9 o que est\u00e1 por tr\u00e1s de poderosas demandas do movimento trabalhista por um sal\u00e1rio familiar. Essa demanda foi tanto uma luta, literalmente falando, pelas condi\u00e7\u00f5es de emprego, quanto uma luta pelas condi\u00e7\u00f5es de reprodu\u00e7\u00e3o social e da vida dom\u00e9stica. No fim das contas, n\u00e3o foi uma das melhores solu\u00e7\u00f5es para as mulheres ou para aquelas parcelas da classe trabalhadora que nunca foram consideradas eleg\u00edveis para um sal\u00e1rio familiar. Mas, como voc\u00ea pode ver, dependendo de como falamos sobre conflito de classe, as coisas podem se tornar complicadas rapidamente.<\/p>\n<p>De certa forma, a melhor solu\u00e7\u00e3o \u00e9 redefinir classe e luta de classes de um modo abrangente. Por\u00e9m, ao mesmo tempo, precisamos ser cuidadosos ao distinguir o que significa dizer que existe um senso diferente de luta de classes. Expresso isso com uma preocupa\u00e7\u00e3o particular em mente: encontrar melhores formas de promover os tipos de alian\u00e7as amplas que precisamos para tomarmos os\u00a0gigantescos poderes que precisam ser confrontados e desmontados.<\/p>\n<p>Dizer que estes conflitos aparentemente diversos s\u00e3o todos lutas de classes parece, \u00e0 primeira vista, abrir possibilidades: estamos nessa juntos e todos temos o mesmo inimigo. Mas, se n\u00f3s tomarmos esse caminho e adotarmos uma vis\u00e3o expandida do capitalismo \u2014 e, portanto, uma vis\u00e3o expandida da luta de classes e da luta anticapitalista \u2014, ent\u00e3o recai sobre n\u00f3s o \u00f4nus de nos mantermos muito atentos \u00e0s maneiras pelas quais tais lutas n\u00e3o se harmonizam imediatamente. \u00c9 uma tarefa de natureza pol\u00edtica e \u00e9 um trabalho duro. Isso nos leva de volta \u00e0 ideia do populismo de esquerda: voc\u00ea tem que criar um mapa mostrando como essas lutas se encaixam e como certas maneiras de constru\u00ed-las tendem a criar desnecess\u00e1rios jogos de soma zero, algo que poderia ser evitado se adot\u00e1ssemos diferentes abordagens.<\/p>\n<p>Ao explicar lutas de fronteiras, \u00e0s vezes introduzo a perspectiva de Karl Polanyi. Sem usar o termo, Polanyi estava realmente focado em lutas de fronteiras entre o que ele chamou de mercado autorregulado \u2014 a economia, podemos dizer assim \u2014 e a sociedade. O que \u00e9 intrigante e f\u00e9rtil a respeito dessa abordagem \u00e9 a ideia de que a luta n\u00e3o \u00e9 apenas sobre como o valor excedente vai ser distribu\u00eddo. \u00c9 sobre o que vai determinar a gram\u00e1tica da vida. Sobre se, em dada comunidade, o capital vai ter ou n\u00e3o a autoridade de fazer o que quiser.<\/p>\n<p>Isso faz emergir quest\u00f5es sobre quem na sociedade realmente tem o poder de moldar a gram\u00e1tica da vida. Em sociedades capitalistas, essas s\u00e3o as quest\u00f5es que s\u00e3o sub-repticiamente removidas da agenda pol\u00edtica e s\u00e3o legadas, \u00e0s nossas costas, para o capital e para aqueles que est\u00e3o encarregados com a acumula\u00e7\u00e3o de capital.<\/p>\n<p>Falar a respeito de lutas de fronteiras significa tentar ir al\u00e9m de quest\u00f5es de distribui\u00e7\u00e3o e chegar a quest\u00f5es de como a gram\u00e1tica da vida social \u00e9 organizada. As lutas de fronteiras afirmam que h\u00e1 uma quest\u00e3o real e fundamental sobre onde n\u00f3s tra\u00e7amos uma linha entre sociedade e natureza, trabalho pago e outras atividades envolvidas no atendimento de rela\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias e de parentesco e assim por diante. Essas quest\u00f5es se resumem a: quais s\u00e3o as fronteiras leg\u00edtimas dentro das quais os mercados podem operar? Quais s\u00e3o as coisas leg\u00edtimas que podem ser compradas e vendidas? Eu penso que a raz\u00e3o de falar sobre lutas de fronteira envolve afirmar que essas coisas sempre foram contestadas em sociedades capitalistas. N\u00e3o \u00e9 que elas consistam em uma alternativa \u00e0 luta de classe, \u00e9 que as lutas de classe \u00e0s vezes tomam a forma de lutas de fronteiras e as lutas de fronteiras \u2014 quando as coisas v\u00e3o bem \u2014 \u00e0s vezes tomam a forma de lutas de classe.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: S\u00f3 um radical ecossocialismo democr\u00e1tico pode mudar o horizonte \u2013 Jacobin Brasil. Link: https:\/\/jacobin.com.br\/2021\/10\/so-um-radical-ecossocialismo-democratico-pode-mudar-o-horizonte\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mart\u00edn Mosquera &#8211; Ao longo das \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas, a te\u00f3rica pol\u00edtica Nancy Fraser tem fornecido \u00e0 esquerda algumas de suas ideias mais convincentes. 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