{"id":15804,"date":"2021-10-13T12:44:42","date_gmt":"2021-10-13T15:44:42","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=15804"},"modified":"2021-10-10T13:47:11","modified_gmt":"2021-10-10T16:47:11","slug":"convite-a-uma-critica-anticapitalista-mais-aguda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2021\/10\/13\/convite-a-uma-critica-anticapitalista-mais-aguda\/","title":{"rendered":"Convite a uma cr\u00edtica anticapitalista mais aguda"},"content":{"rendered":"<p><strong>J\u00e9r\u00f4me Baschet<\/strong> &#8211; Esta \u00e9 a introdu\u00e7\u00e3o de\u00a0<a href=\"https:\/\/autonomialiteraria.com.br\/loja\/teoria-politica\/adeus-ao-capitalismo-autonomia-sociedade-do-bem-viver-e-multiplicidade-dos-mundos\/\"><strong>Adeus ao capitalismo: autonomia, sociedade do bem viver e multiplicidade dos mundos<\/strong><\/a>, de J\u00e9r\u00f4me Baschet, publicado pela Autonomia Liter\u00e1ria, parceira editorial de\u00a0<em>Outras Palavras<\/em>. Quem apoia nosso jornalismo de profundidade e sem catracas tem desconto de 25% na loja da editora.<\/p>\n<p>N\u00f3s estamos incrustados na realidade. Ela cola na pele, como uma vestimenta imposs\u00edvel de arrancar. Em um mundo que se gaba da flexibilidade e da fluidez, a realidade constituiu-se paradoxalmente como uma mat\u00e9ria cada vez mais densa e pesada; mesmo sua complexidade reticular foi colocada a servi\u00e7o da onipot\u00eancia tentacular. Ela multiplica as armadilhas da coer\u00e7\u00e3o, da urg\u00eancia e da inelut\u00e1vel adapta\u00e7\u00e3o a processos globalizados sobre os quais ningu\u00e9m poderia ter controle. A fatalidade sist\u00eamica reina e os movimentos incessantes de um mundo mut\u00e1vel e l\u00edquido n\u00e3o s\u00e3o nada mais do que a plena realiza\u00e7\u00e3o dessa fatalidade.<\/p>\n<p>A ades\u00e3o \u00e0 realidade pode, claro, tomar formas diversas, nas quais t\u00eam um lugar vari\u00e1vel o imperativo de sobreviv\u00eancia, o tremeluzir de modelos de ascens\u00e3o social, as sedu\u00e7\u00f5es viciantes do consumo, os pequenos privil\u00e9gios de uma vida um pouco confort\u00e1vel, as armadilhas de uma l\u00f3gica concorrencial que nos obriga a crer que n\u00e3o haver\u00e1 lugar para todo mundo, o medo de perder o pouco que se tem e o sentimento de uma inseguran\u00e7a meticulosamente manutenida. Mesmo uma boa dose de ceticismo, ou at\u00e9 mesmo uma s\u00f3lida capacidade cr\u00edtica, n\u00e3o ferem, no mais das vezes, essa ades\u00e3o a um sistema que renunciou, talvez, a nos convencer das suas virtudes para se contentar em aparecer como a \u00fanica realidade poss\u00edvel, fora do caos absoluto, como resume a senten\u00e7a emblem\u00e1tica de Fran\u00e7ois Furet: \u201cN\u00f3s estamos condenados a viver no mundo no qual vivemos\u201d.\u00a0<em>(<\/em><em>1<\/em><em>)<\/em>\u00a0N\u00e3o h\u00e1 alternativa\u00a0<em>(<\/em><em>2<\/em><em>)<\/em>: tal \u00e9 a convic\u00e7\u00e3o que as formas de domina\u00e7\u00e3o atuais conseguiram disseminar no corpo social. Para al\u00e9m das opini\u00f5es de cada um, essa \u00e9 a norma de fato, em virtude da qual o agir est\u00e1 em conformidade com uma implac\u00e1vel l\u00f3gica de adequa\u00e7\u00e3o \u00e0 realidade socialmente constitu\u00edda.<\/p>\n<p>Entretanto, esse belo edif\u00edcio come\u00e7ou a fissurar. O apogeu disso que, nos anos 1980-1990, chamava-se pensamento \u00fanico, j\u00e1 ficou para tr\u00e1s. Um pouco de caminho foi percorrido desde o momento em que o recrudescimento do fim da hist\u00f3ria passava por uma evid\u00eancia quase incontestada. O ciclo do refluxo da cr\u00edtica social, preparado por volta de 1972-1974 e lugubremente amplificado nas d\u00e9cadas do triunfo neoliberal, conheceu seus primeiros reveses a partir de meados dos anos 1990 (notadamente o levante zapatista em 1994, as greves de dezembro de 1995 na Fran\u00e7a e as mobiliza\u00e7\u00f5es de Seattle em 1999). Iniciou-se ent\u00e3o um outro ciclo, marcado pela forte ascens\u00e3o das cr\u00edticas ao neoliberalismo e pela emerg\u00eancia de redes altermundialistas cuja aspira\u00e7\u00e3o a \u201cum outro mundo poss\u00edvel\u201d constituiu uma arma eficaz contra a suposta inelutabilidade da ordem neoliberal. Emergiram atores at\u00e9 ent\u00e3o pouco vis\u00edveis (os exclu\u00eddos, os \u201csem\u201d [alguma coisa], os migrantes, os povos ind\u00edgenas\u2026), e tamb\u00e9m novas formas de organiza\u00e7\u00e3o e maneiras diferentes de conceber as lutas (assumidas em sua pluralidade e complementaridade, sem hegemonismo e com o intuito de defender a integralidade da vida).<\/p>\n<p>Quaisquer que sejam os limites desses movimentos, os anos 2000 foram marcados por uma retomada de criatividade cr\u00edtica e por uma nova radicaliza\u00e7\u00e3o. Um ind\u00edcio entre outros, m\u00ednimo, mas revelador, \u00e9 a ressurg\u00eancia do termo \u201ccapitalismo\u201d, que o triunfo do pensamento \u00fanico havia conseguido transformar em um arca\u00edsmo inconveniente, sen\u00e3o francamente obsceno.\u00a0<em>(<\/em><em>3<\/em><em>)<\/em>\u00a0Ora, esse termo \u00e9 suscet\u00edvel de mobilizar um forte potencial cr\u00edtico, pois ele permite nomear a pr\u00f3pria realidade segundo uma l\u00f3gica distinta daquela pela qual essa mesma realidade tenta se impor a todos.\u00a0<em>(<\/em><em>4<\/em><em>)<\/em>\u00a0Seus detratores estavam em uma boa posi\u00e7\u00e3o para denunciar uma terminologia redutora, operando uma abusiva unifica\u00e7\u00e3o da realidade.<\/p>\n<p>Eles fingem ignorar que uma verdadeira an\u00e1lise das din\u00e2micas do capitalismo (uma forma de organiza\u00e7\u00e3o social e n\u00e3o somente um sistema econ\u00f4mico) deve fazer com que apare\u00e7a a sua complexidade, as suas contradi\u00e7\u00f5es e as suas muta\u00e7\u00f5es incessantes. O que n\u00e3o impede que esse termo, associado \u00e0s an\u00e1lises cr\u00edticas necess\u00e1rias, possua a tem\u00edvel efic\u00e1cia para designar as l\u00f3gicas dominantes (nem absolutas, nem \u00fanicas) que se imp\u00f5em em todos os campos de nossa realidade presente. Dando um nome\u00a0<em>comum\u00a0<\/em>ao que \u00e9 rejeitado, o termo pode constituir um terreno de reuni\u00e3o de lutas m\u00faltiplas. Al\u00e9m do mais, a no\u00e7\u00e3o \u00e9 implicitamente portadora de seu contr\u00e1rio e o anticapitalismo retornou efetivamente em v\u00e1rias regi\u00f5es do globo, em meados dos anos 2000, \u00e0 medida que uma luta atrelada \u00e0 den\u00fancia das formas neoliberais do capitalismo come\u00e7ava a mostrar seus limites. Falar de anticapitalismo suscita, por vezes, reservas, e algumas pessoas ficam constrangidas pelo car\u00e1ter negativo do termo. Mas, nesse caso, \u00e9 se apegar \u00e0 forma vis\u00edvel da express\u00e3o, que cont\u00e9m na realidade, e indissociavelmente, a afirma\u00e7\u00e3o de um projeto alternativo, o qual n\u00e3o poderia ser defendido sem rejeitar ao mesmo tempo o que o nega. A nega\u00e7\u00e3o do mundo da nega\u00e7\u00e3o \u00e9 o ponto de ancoragem concreto do impulso emancipador.<\/p>\n<p>Enquanto a partilha das experi\u00eancias e a malha das lutas se amplia, a cr\u00edtica anticapitalista tende a ganhar em acuidade. Um passo importante consiste em se situar cada vez mais resolutamente na perspectiva de uma supera\u00e7\u00e3o do capitalismo, pois d\u00e1 praticamente na mesma nos acabar de tanto denunciar seus crimes, curvando\u00ad-nos finalmente diante da sua aparente invencibilidade, ou adiando sua supera\u00e7\u00e3o hipot\u00e9tica indefinidamente a pontos t\u00e3o distantes. A cr\u00edtica, ent\u00e3o, n\u00e3o serve sen\u00e3o para tentar promover acomoda\u00e7\u00f5es no seio do pr\u00f3prio capitalismo ou, segundo a express\u00e3o consagra\u00adda, para limar os \u00e2ngulos mais agudos do neoliberalismo. \u00c9 um anticapitalismo inconsequente que qualificaremos de\u00a0<em>capitulismo\u00a0<\/em><em>(<\/em><em>5<\/em><em>)<\/em>.<\/p>\n<p>Para combater o\u00a0<em>capitulismo\u00a0<\/em>t\u00e3o largamente disseminado, n\u00e3o \u00e9 in\u00fatil intensificar a reflex\u00e3o sobre as alternativas ao capitalismo e as potencialidades que sua supera\u00e7\u00e3o abriria. Ali\u00e1s, convocar outros mundos poss\u00edveis (n\u00e3o capitalistas) acentua a relativiza\u00e7\u00e3o do estado presente das coisas e libera uma fonte de energia suscet\u00edvel de abalar sua suposta invencibilidade. Afinar a cr\u00edtica do existente e dar consist\u00eancia a universos alternativos s\u00e3o meios complementares de fazer vacilar e de enfraquecer o modo de produ\u00e7\u00e3o dominante da realidade. Por um caminho ou por outro, trata-se de trabalhar para nos descolarmos da realidade ao redor, tanto interiormente, o que est\u00e1 longe de ser simples, quanto praticamente, na medida do poss\u00edvel. Pela cr\u00edtica, a lama espessa que cola nos nossos sapatos pode voltar a ser poeira, cair por si mesma e cessar de nos paralisar\u2026<\/p>\n<p>Outros poss\u00edveis j\u00e1 come\u00e7aram a tomar forma e \u00e9 no solo dessas experi\u00eancias concretas e de sua criatividade que conv\u00e9m enraizar a reflex\u00e3o. Assim, nos apoiaremos, no cap\u00edtulo 2, na an\u00e1lise da constru\u00e7\u00e3o de uma autonomia rebelde nos territ\u00f3rios zapatistas de Chiapas que proporemos considerar, apesar de sua mod\u00e9stia aparente, como uma das mais not\u00e1veis \u201cutopias reais\u201d implementadas atualmente no mundo.\u00a0<em>(<\/em><em>6<\/em><em>)<\/em>\u00a0Sem ter de forma alguma voca\u00e7\u00e3o para se converter em modelo, essa experi\u00eancia de autogoverno, amadurecida e aprofundada ao longo de mais de uma d\u00e9cada, pode constituir uma fonte de inspira\u00e7\u00e3o para pensar uma forma pol\u00edtica n\u00e3o estatal, fundada na desespecializa\u00e7\u00e3o e na reapropria\u00e7\u00e3o coletiva da capacidade para participar das tomadas de decis\u00e3o.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 preciso, em seguida, no cap\u00edtulo 3, aventurar-se mais longe e explorar as potencialidades humanas e civilizacionais \u00e0s quais se abriria uma sociedade liberada da tirania da economia capitalista e de sua engrenagem produtivista-destrutiva: tratar-se-\u00e1 principalmente de pensar uma organiza\u00e7\u00e3o social capaz de submeter as necessidades produtivas ao princ\u00edpio do \u201cbem viver\u201d para todos e \u00e0s decis\u00f5es coletivamente assumidas que se seguem. Enfim, considerando que n\u00e3o haveria como existir uma via \u00fanica para sair do capitalismo, ser\u00e1 necess\u00e1rio, no cap\u00edtulo 4, colocar em di\u00e1logo os anticapitalistas do Norte e do Sul.\u00a0<em>(<\/em><em>7<\/em><em>)<\/em>\u00a0Com efeito, muitas cr\u00edticas conduzidas no Norte permanecem fechadas demais nas categorias ocidentais e na an\u00e1lise das realidades espec\u00edficas de um universo investido de uma posi\u00e7\u00e3o nevr\u00e1lgica, mas que, todavia, \u00e9 cada vez mais relativo na escala da popula\u00e7\u00e3o mundial. Quanto \u00e0quelas que se elaboram no Sul, elas deslizam por vezes da cr\u00edtica da domina\u00e7\u00e3o colonial-capitalista para a den\u00fancia de um Ocidente substancializado. Tais posturas bem poderiam fazer surgir novas falhas no seio das din\u00e2micas anticapitalistas. \u00c9, pois, indispens\u00e1vel criar as condi\u00e7\u00f5es de uma verdadeira interculturalidade que n\u00e3o repousaria nem sobre as sobras do ocidentocentrismo, nem sobre a (de)nega\u00e7\u00e3o do Ocidente.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso, entretanto, come\u00e7ar, no primeiro cap\u00edtulo, pela cr\u00edtica do existente. Esta pode ser encaminhada sobre diversos registros.\u00a0<em>(8)<\/em>\u00a0Assim, podemos tentar fazer aparecer as contradi\u00e7\u00f5es internas do capitalismo e mostrar os limites objetivos contra os quais ele tende a colidir. Esse tipo de cr\u00edtica se beneficiou de um novo ganho de credibilidade por conta da crise econ\u00f4mica e financeira aberta em 2008. \u00c9 evidente que a crise desvela as graves disfun\u00e7\u00f5es de um sistema que se autocompraz habitualmente de sua efic\u00e1cia. Ao mesmo tempo, a crise ecol\u00f3gica aponta limites geol\u00f3gicos e ambientais ineg\u00e1veis. Essa forma de cr\u00edtica geralmente \u00e9 creditada a uma maior objetividade, na medida em que ela se inscreve na ordem dos fatos mais do que naquela dos julgamentos de valor. Entretanto, o aparente rigor reivindicado por esse tipo de cr\u00edtica n\u00e3o deixa de ter algumas armadilhas. Ela esteve, no passado, estreitamente associada ao car\u00e1ter inelut\u00e1vel do desmoronamento do capitalismo, o qual, cada um sabe, cavava por si mesmo sua tumba e armava os bra\u00e7os de seus pr\u00f3prios coveiros\u2026 A voca\u00e7\u00e3o \u201csuicida\u201d do capitalismo, a demonstra\u00e7\u00e3o \u201ccient\u00edfica\u201d de seu fim programado, ou mesmo a inscri\u00e7\u00e3o desse fim no registro das leis da Hist\u00f3ria viriam assim validar a postura cr\u00edtica. Contudo, h\u00e1 um s\u00e9culo e meio, tais profecias, fundadas na exacerba\u00e7\u00e3o das contradi\u00e7\u00f5es internas do capitalismo, n\u00e3o cessaram de ser desmentidas, pois, ao longo das crises e das guerras que balizaram seu percurso, este conseguiu dar vida a novas configura\u00e7\u00f5es nas quais as contradi\u00e7\u00f5es das formas anteriores podiam ser ultrapassadas, ao menos em parte, sem conduzir \u00e0 supera\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio sistema capitalista. Sua tem\u00edvel plasticidade e sua espantosa capacidade para transformar em mercadorias at\u00e9 elementos que o contestam ou o colocam em dificuldade (incluindo os limiares ecol\u00f3gicos) permitem vislumbrar que lhe seja poss\u00edvel contornar os limites que fazem estrebuchar o modo de produ\u00e7\u00e3o atual. N\u00e3o h\u00e1 sombra de d\u00favidas que o custo humano e ambiental deva ser constantemente mais alto, mas isso n\u00e3o \u00e9 suficiente para recolocar em quest\u00e3o a capacidade de reprodu\u00e7\u00e3o do capitalismo\u00a0<em>apesar de tudo.\u00a0<\/em>Assim, mesmo que a cr\u00edtica do capitalismo, fundada na identifica\u00e7\u00e3o de suas contradi\u00e7\u00f5es internas, seja completamente necess\u00e1ria, ela pode tamb\u00e9m revelar-se enganosa quando afirma jogar com um efeito de seriedade e se impor pela sua aparente objetividade.\u00a0<em>(9)<\/em><\/p>\n<p>Em todo caso, essa cr\u00edtica n\u00e3o pode bastar por si mesma. Mesmo que deva tirar proveito da revela\u00e7\u00e3o das disfun\u00e7\u00f5es do sistema e das dificuldades crescentes de sua reprodu\u00e7\u00e3o, a cr\u00edtica anticapitalista do capitalismo\u00a0<em>(<\/em><em>10<\/em><em>)<\/em>\u00a0repousa tamb\u00e9m sobre um julgamento \u00e9tico. O que a funda \u00e9 a injusti\u00e7a de um sistema que reparte os recursos materiais e imateriais de maneira fortemente assim\u00e9trica, esfor\u00e7ando-se ao mesmo tempo para ocultar a desigualdade social sob o v\u00e9u da igualdade formal ou de minor\u00e1-la gra\u00e7as ao mito (um pouco desgastado) do elevador social. Mas, se a injusti\u00e7a \u00e9 sofrida antes de tudo por aqueles que ocupam as posi\u00e7\u00f5es menos favorecidas, outros desafios, cada vez mais prementes, concernem uma parte crescente da humanidade. O que aparece ent\u00e3o em primeiro plano \u00e9 o car\u00e1ter\u00a0<em>destruidor\u00a0<\/em>do capitalismo. A incerteza quanto \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de sobreviv\u00eancia da esp\u00e9cie humana,\u00a0<em>(<\/em><em>11<\/em><em>)<\/em>\u00a0devido aos graus de preda\u00e7\u00e3o e de degrada\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica atingidos, est\u00e1 em vias de se tornar um dos recursos mais potentes da cr\u00edtica anticapitalista, como ser\u00e1 sublinhado no cap\u00edtulo 5. Ela deveria poder mobilizar a seu favor o instinto de sobreviv\u00eancia da humanidade, com a condi\u00e7\u00e3o, no entanto, de ser capaz de argumentar que n\u00e3o h\u00e1 sa\u00edda para essa espiral destrutiva dentro do pr\u00f3prio capitalismo.<\/p>\n<p>Mas o capitalismo n\u00e3o destr\u00f3i somente a biosfera. J\u00e1 faz um certo tempo que F\u00e9lix Guattari identificou os tr\u00eas campos nos quais a intensifica\u00e7\u00e3o da domina\u00e7\u00e3o capitalista produz seus efeitos devastadores: destrui\u00e7\u00e3o do meio ambiente, destrui\u00e7\u00e3o dos la\u00e7os sociais (em benef\u00edcio de uma atomiza\u00e7\u00e3o individual) e destrui\u00e7\u00e3o das subjetividades (degrada\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia, recrudescimento das patologias ps\u00edquicas, sentimento de despossess\u00e3o e sensa\u00e7\u00e3o de um \u201cimenso vazio na subjetividade\u201d).\u00a0<em>(12)<\/em>\u00a0Ele nos convidou a entender as rela\u00e7\u00f5es entre tr\u00eas aspectos: devasta\u00e7\u00e3o da natureza, destrui\u00e7\u00e3o no \u00e2mbito social e colapso no \u00edntimo, no cora\u00e7\u00e3o do sentimento de si. Por conseguinte, mesmo para al\u00e9m do sobressalto poss\u00edvel de uma humanidade que se recusa a produzir as condi\u00e7\u00f5es de sua autodestrui\u00e7\u00e3o, \u00e9 o pr\u00f3prio sentido do humano que se encontra mobilizado contra a expans\u00e3o sem limite das rela\u00e7\u00f5es mercantis e seus efeitos m\u00f3rbidos, contra a sensa\u00e7\u00e3o de despossess\u00e3o que, sob m\u00faltiplas formas, se imiscui por toda parte. Da lacuna que se tornou t\u00e3o \u00f3bvia entre o que engendra a l\u00f3gica da mercadoria e as necessidades humanas elementares nasce igualmente um sentimento de\u00a0<em>absurdidade<\/em>, marca de um sistema que produz para a destrui\u00e7\u00e3o e cujas promessas de crescimento e de bem-estar tendem a um crescimento do mal-estar e na desumaniza\u00e7\u00e3o. \u00c9 mais do que prov\u00e1vel que a generaliza\u00e7\u00e3o do princ\u00edpio do\u00a0<em>valor\u00a0<\/em>(que faz do dinheiro o equivalente geral e a medida de tudo) e sua extens\u00e3o ao conjunto dos territ\u00f3rios do humano e da natureza (onde essa medida parece inconveniente, sen\u00e3o insustent\u00e1vel) estejam na base desse sentimento de absurdo.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso continuar a reproduzir uma separa\u00e7\u00e3o entre a den\u00fancia \u00e9tica do capitalismo e uma cr\u00edtica racional, exibindo os sinais de seu rigor e ostentando os ind\u00edcios de sua compet\u00eancia? N\u00e3o haveria alguma vantagem em admitir que os dois procedimentos podem se entrela\u00e7ar e fruir de sua complementaridade? A dissocia\u00e7\u00e3o entre a parte racional e a parte emocional da pessoa n\u00e3o funciona mais. No lugar de serem pensadas como exclusivas, elas deveriam se reunir e se nutrir. \u00c9 por isso que, se as an\u00e1lises propostas aqui se esfor\u00e7am para ser t\u00e3o argumentadas quanto poss\u00edvel, admitir-se-\u00e1 que elas se enra\u00edzam na recusa de um sistema de explora\u00e7\u00e3o, de opress\u00e3o, de despossess\u00e3o e de desumaniza\u00e7\u00e3o. O que d\u00e1 sentido \u00e0 cr\u00edtica, tal como a entendemos neste livro, \u00e9 antes um grito, como o \u201c<em>\u00a1Ya Basta!<\/em>\u201d dos\u00a0<em>insurrectos<\/em>\u00a0zapatistas.\u00a0<em>(13)<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o salvemos o capitalismo, salvemo-nos dele!\u00a0<em>Na Col\u00f4mbia, jovens iludidos com a promessa de um trabalho s\u00e3o conduzidos para longe de suas casas e depois abandonados no meio do nada, onde s\u00e3o abatidos como coelhos por militares que, inscrevendo essas mortes no seu ranking, garantem uma boa avalia\u00e7\u00e3o e vantagens materiais correspondentes.\u00a0<\/em><em>(<\/em><em>14<\/em><em>)<\/em><\/p>\n<p><em>Na It<\/em><em>\u00e1lia, os sindicatos obrigam os trabalhadores da ind\u00fastria automotiva a aceitarem suas demiss\u00f5es para em seguida assinarem novos contratos prevendo sal\u00e1rios inferiores e benef\u00edcios reduzidos. No Jap\u00e3o, um quarto das secundaristas se prostitui para comprar maquiagem e roupas da moda. Na Fran\u00e7a, estudantes s\u00e3o agredidos por outros que querem seus MP3 ou seus cal\u00e7ados de marca. No M\u00e9xico, mais de um ter\u00e7o das crian\u00e7as sofrem de obesidade, mas os parlamentares repudiam uma lei visando limitar a publicidade de produtos alimentares industrializados (difundidos nos principais canais em um ritmo fren\u00e9tico de programa\u00e7\u00e3o infantil). No mundo todo, camponeses, v\u00edtimas da propaga\u00e7\u00e3o de p\u00f3len transg\u00eanico que contamina suas pr\u00f3prias sementes, s\u00e3o obrigados a pagar multas aos gigantes agroalimentares ou s\u00e3o presos por usarem produtos sob patente quando queriam, na verdade, se proteger deles. Por toda parte, as companhias a\u00e9reas calculam\u00a0<\/em><em>a melhor rela<\/em><em>\u00e7\u00e3o entre as despesas de manuten\u00e7\u00e3o dos avi\u00f5es e o custo dos acidentes, sabendo que a baixa dos primeiros aumenta a probabilidade desses \u00faltimos, de modo que as vidas humanas se tornam um simples par\u00e2metro econ\u00f4mico.<\/em><\/p>\n<p><em>A amostragem das aberra\u00e7\u00f5es que proliferam na geografia do mundo atual poderia continuar quase sem fim. A cada vez, uma mesma l\u00f3gica: aquela do dinheiro, e o imperativo do lucro que supera as mais elementares exig\u00eancias de sa\u00fade, de vida e de preserva\u00e7\u00e3o dos equil\u00edbrios ecol\u00f3gicos. Mas, o mais grave \u00e9 que essas normas se difundem no corpo social indo at\u00e9 as subjetividades individuais. N\u00f3s medimos o que somos de acordo com o que temos. Sacrificamo-nos ao culto das apar\u00eancias e \u00e0 obsess\u00e3o da performance. Em toda parte, dos ex\u00e9rcitos colombianos \u00e0s universidades e aos hospitais europeus, devem reinar os mesmos crit\u00e9rios e os mesmos comportamentos que nas empresas e nos supermercados: quantifica\u00e7\u00e3o, efic\u00e1cia, rentabilidade, avalia\u00e7\u00e3o dos resultados. A l\u00f3gica mercantil aprofunda a cada dia um pouco mais a amplitude do desastre. E os exemplos mencionados h\u00e1 pouco n\u00e3o s\u00e3o nada comparados com a cat\u00e1strofe ecol\u00f3gica que o produtivismo capitalista desencadeou e que, prevalecendo a exig\u00eancia do lucro a curto prazo, ele n\u00e3o ter\u00e1 como impedir.<\/em><\/p>\n<p><em>Como a pr\u00f3pria exist\u00eancia da esp\u00e9cie humana est\u00e1 em perigo, o desafio ecol\u00f3gico obriga a reconfigurar todas as nossas an\u00e1lises. Se n\u00f3s n\u00e3o nos livrarmos do capitalismo, \u00e9 ele que nos destruir\u00e1. \u00c9, pois, urgente alargar o \u201cn\u00f3s\u201d de todos aqueles que est\u00e3o dispostos a partilhar esse \u201cn\u00e3o\u201d ao capitalismo. Clamar e assumir a recusa de uma sociedade baseada na mercadoria, que rouba nossas vidas e faz de n\u00f3s despossu\u00eddos: despossu\u00eddos de nosso trabalho, de nosso tempo, de nossa criatividade, de nossa humanidade, de nossa capacidade de partilhar, de nossa dignidade. Uma sociedade na qual mesmo aqueles que acreditam salvar a pr\u00f3pria pele podem perder tudo no jogo louco de roleta em que se multiplicam egocentrismos agressivos, solid\u00f5es depressivas e falsos desejos viciantes, aus\u00eancia de comunidade e vacuidade no fundo do ser.<\/em><\/p>\n<p><em>N<\/em><em>\u00f3s n\u00e3o estamos mais dispostos a sacrificar pela divindade Mercadoria, nem a confiar o controle de nossas exist\u00eancias aos grandes sacerdotes da Lei do dinheiro. N\u00f3s n\u00e3o estamos mais dispostos a engolir nossa c\u00f3lera, a nos submetermos ao inaceit\u00e1vel em nome de um realismo que se tornou criminoso, nem a conjugar lucidez cr\u00edtica e resigna\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica.<\/em><\/p>\n<p><em>Uma c\u00f3lera digna ruge. Ela diz n\u00e3o ao capitalismo e sim a outros mundos poss\u00edveis. Ela sabe que a luta contra o capitalismo \u00e9 a luta pela humanidade.<\/em><\/p>\n<p>______________________<\/p>\n<p>(1) Fran\u00e7ois Furet, Le Pass\u00e9 d\u2019une illusion. Essai sur l\u2019id\u00e9e communiste au XXe si\u00e8cle, Robert Lafont \u2013 Calmann-L\u00e9vy, Paris, 1995, p. 572.<\/p>\n<p>(2) A c\u00e9lebre tina (There is no alternative), de Margaret Thatcher.<\/p>\n<p>(3) Em favor da crise econ\u00f4mica de 2008, a palavra voltou at\u00e9 mesmo no discurso oficial e midi\u00e1tico, o que \u00e9 talvez uma maneira de tentar desarmar a for\u00e7a cr\u00edtica que esse termo come\u00e7ava ent\u00e3o a encontrar.<\/p>\n<p>(4) \u00c9 o termo democracia (amplamente esvaziado de seu sentido) que ordena a denomina\u00e7\u00e3o dominante da realidade. Para esta, \u201cn\u00f3s vivemos em democracias\u201d, e n\u00e3o em um sistema capitulista.<\/p>\n<p>(5) n.t.: termo que tanto em franc\u00eas quanto em portugu\u00eas prov\u00e9m do verbo \u201ccapitular\u201d (capituler), que significa rendi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>(6) Referimo-nos aqui \u00e0 express\u00e3o proposta por Erik Olin Wright, mesmo se n\u00e3o partilhamos do conjunto de suas vis\u00f5es, notadamente a maneira como ele concebe uma organiza\u00e7\u00e3o alternativa (socialista) ou ainda a possibilidade de formas ut\u00f3picas se desenvolverem no seio do capitalismo e em simbiose com ele (ver, em franc\u00eas, \u201cEn qu\u00eate d\u2019une boussole pour l\u2019\u00e9mancipation. Vers une alternative socialiste\u201d, &lt;www.contretemps.eu\/interventions\/ en-qu\u00eate-dune-boussole-\u00e9mancipation-vers-alternative-socialiste-0&gt;, e Vincent Farnea et Laurent Jeanpierre, \u00ab Des utopies possibles aux utopies r\u00e9elles. Entretien avec Erik Olin Wright \u00bb, Trac\u00e9s, \u00ab R\u00e9alit\u00e9(s) du possible dans les sciences humaines et sociales \u00bb, n. 24, 2013, p. 231-243).<\/p>\n<p>(7) Admitiremos prontamente que a oposi\u00e7\u00e3o do Norte e do Sul perdeu sua nitidez e precisa ser repensada.<\/p>\n<p>(8) Sobre os registros da cr\u00edtica e das diferentes maneiras de afrontar a constitui\u00e7\u00e3o da realidade, ver Luc Boltanski, De la critique. Pr\u00e9cis de sociologie de l\u2019\u00e9mancipation. Gallimard: Paris, 2009.<\/p>\n<p>(9) Na verdade, a distin\u00e7\u00e3o seguinte se imp\u00f5e: uma coisa \u00e9 analisar as contradi\u00e7\u00f5es internas do capitalismo a fim de comprovar a compreens\u00e3o de suas din\u00e2micas e estar mais apto a esbo\u00e7ar as condi\u00e7\u00f5es de sua eventual supera\u00e7\u00e3o; uma outra \u00e9 declinar essas contradi\u00e7\u00f5es em termos de limites absolutos, condenando o capitalismo a um fim inelut\u00e1vel (e anunciado em um prazo mais ou menos breve).<\/p>\n<p>(10) Essa aparente tautologia \u00e9 de fato necess\u00e1ria para se diferenciar do capitalismo.<\/p>\n<p>(11) Ver, por exemplo, Yves Paccalet, L\u2019Humanit\u00e9 dispara\u00eetra, bon d\u00e9barras!, Arthaud, Paris, 2006.<\/p>\n<p>(12) F\u00e9lix Guattari, Les Trois \u00c9cologies, Galil\u00e9e, Paris, 1989, onde \u2013 para retornar ao ponto evocado no par\u00e1grafo precedente \u2013 ele afirma tamb\u00e9m: \u201c\u00c9 preciso, uma vez mais, invocar a Hist\u00f3ria? Ao menos para o risco de n\u00e3o haver mais hist\u00f3ria humana sem uma radical retomada da humanidade por ela mesma\u201d (p. 71). [Em portugu\u00eas: As Tr\u00eas Ecologias, Papyrus, 1990].<\/p>\n<p>(13) Nem todos os aspectos que implicam na realiza\u00e7\u00e3o dessa sociedade poder\u00e3o ser abordados neste livro. Apesar de estritamente essenciais, as quest\u00f5es relativas \u00e0 aboli\u00e7\u00e3o das formas de domina\u00e7\u00e3o e de divis\u00e3o ilegal das tarefas entre homens e mulheres e, mais amplamente, ao status da distin\u00e7\u00e3o de g\u00eanero s\u00e3o deixadas em aberto \u00e0s reflex\u00f5es conduzidas por outros autores. Cada um e cada uma pode se referir, dentre os in\u00fameros autores e as in\u00fameras autoras, \u00e0queles ou \u00e0quelas a quem ele ou ela se sente mais pr\u00f3ximo ou pr\u00f3xima.<\/p>\n<p>(14) Como essa pr\u00e1tica, dita dos \u201cfalsos positivos\u201d, foi revelada publicamente, o presidente \u00c1lvaro Uribe foi obrigado a destituir, em 29 de outubro de 2008, tr\u00eas generais e vinte e quatro outros oficiais.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Convite a uma cr\u00edtica anticapitalista mais aguda &#8211; Outras Palavras. Link: https:\/\/outraspalavras.net\/movimentoserebeldias\/convite-auma-critica-anticapitalista-mais-aguda\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00e9r\u00f4me Baschet &#8211; Esta \u00e9 a introdu\u00e7\u00e3o de\u00a0Adeus ao capitalismo: autonomia, sociedade do bem viver e multiplicidade dos mundos, de J\u00e9r\u00f4me Baschet, publicado pela Autonomia Liter\u00e1ria, parceira editorial de\u00a0Outras Palavras. 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