{"id":15758,"date":"2021-10-07T12:09:26","date_gmt":"2021-10-07T15:09:26","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=15758"},"modified":"2021-10-02T17:12:48","modified_gmt":"2021-10-02T20:12:48","slug":"introducao-a-historia-da-filosofia-uma-perspectiva-marxista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2021\/10\/07\/introducao-a-historia-da-filosofia-uma-perspectiva-marxista\/","title":{"rendered":"Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 Hist\u00f3ria da Filosofia: Uma Perspectiva Marxista"},"content":{"rendered":"<p><strong>Alan Woods<\/strong> &#8211; O mais recente t\u00edtulo da editora Wellred Books,\u00a0<a href=\"http:\/\/www.marxist.com\/hop.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><em>The History of Philosophy: A Marxist Perspective<\/em><\/a>, de autoria de Alan Woods, foi\u00a0<a href=\"https:\/\/www.marxist.com\/watch-alan-woods-on-the-history-of-philosophy.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">lan\u00e7ado no \u00faltimo dia 26<\/a>. Publicamos a seguir um trecho da introdu\u00e7\u00e3o do livro que explica a raz\u00e3o por que os marxistas revolucion\u00e1rios deveriam estudar a hist\u00f3ria da filosofia e apreciar a enorme d\u00edvida que o marxismo tem com os pensadores anteriores e, em particular, com os gigantes da filosofia que viveram na fase revolucion\u00e1ria e juvenil da \u00e9poca burguesa.<\/p>\n<p><strong>O ponto de partida<\/strong><br \/>\nComecei a trabalhar em\u00a0<em>The History of Philosophy<\/em>\u00a0h\u00e1 cerca de 27 anos, quando escrevi\u00a0<em>Reason in Revolt<\/em>, um livro que tratava da rela\u00e7\u00e3o entre a filosofia marxista e a ci\u00eancia moderna. O livro foi um grande \u00eaxito, mas acabou ficando muito mais extenso do que eu havia previsto inicialmente. Devido a quest\u00f5es de extens\u00e3o, fui relutantemente obrigado a omitir a primeira parte, que tratava da hist\u00f3ria da filosofia que levou \u00e0 grande revolu\u00e7\u00e3o de Marx, a teoria do materialismo dial\u00e9tico.<\/p>\n<p>A inten\u00e7\u00e3o era publicar\u00a0<em>The History of Philosophy<\/em>\u00a0como uma obra separada em algum momento no futuro. Mas, por distintas raz\u00f5es, essa decis\u00e3o foi adiada para dar lugar a tarefas mais urgentes. Por mais de duas d\u00e9cadas o manuscrito ficou de lado, entregue \u00e0 cr\u00edtica corrosiva dos ratos, como disse certa vez Marx referindo-se ao texto in\u00e9dito de\u00a0<em>A Ideologia Alem\u00e3<\/em>. Ele acabou sendo publicado em nosso site e foi recebido favoravelmente, mas a inten\u00e7\u00e3o original de public\u00e1-lo como um livro ficou por cumprir at\u00e9 agora.<\/p>\n<p>Devo \u00e0 press\u00e3o de v\u00e1rios camaradas com um interesse especial por filosofia o est\u00edmulo para publicar este trabalho. Ele representa uma contribui\u00e7\u00e3o para a campanha em curso da Corrente Marxista Internacional (CMI) de combater a ideologia burguesa e defender e propagar as ideias do marxismo. Essa foi uma decis\u00e3o oportuna e necess\u00e1ria. Numa \u00e9poca em que o sistema capitalista se encontra em uma crise terminal, a fal\u00eancia da ordem existente inevitavelmente encontra sua express\u00e3o em um decl\u00ednio evidente de todos os aspectos da vida intelectual.<\/p>\n<p>Isso \u00e9 particularmente evidente no campo da filosofia, onde o pensamento burgu\u00eas expressa sua decad\u00eancia da maneira mais escandalosa. A luta pelo socialismo n\u00e3o se limita \u00e0 pol\u00edtica e \u00e0 economia. Deve ser travada em todos os n\u00edveis, come\u00e7ando pelo n\u00edvel das ideias. Se a presente obra ajudar a armar os trabalhadores e os jovens nessa luta necess\u00e1ria, meu objetivo ter\u00e1 sido alcan\u00e7ado.<\/p>\n<p>Aqueles que leram o manuscrito original ver\u00e3o que, em todos os pontos essenciais, ele foi mantido. Mas revisei o texto minuciosamente com a ajuda de camaradas e acrescentei novas se\u00e7\u00f5es, principalmente no cap\u00edtulo sobre a Idade M\u00e9dia. Tamb\u00e9m acrescentei um cap\u00edtulo final que explica por que a filosofia \u2013 pelo menos no antigo sentido da palavra \u2013 chega ao fim com o marxismo.<\/p>\n<p>Deve-se tamb\u00e9m notar que o cap\u00edtulo adicional sobre filosofia indiana, que foi inclu\u00eddo como um ap\u00eandice, foi omitido da presente edi\u00e7\u00e3o, enquanto se reduziu o cap\u00edtulo sobre filosofia isl\u00e2mica, lidando principalmente com o papel que desempenhou na Idade M\u00e9dia. N\u00e3o foi por acaso nem por falta de interesse de minha parte. Muito pelo contr\u00e1rio, na verdade. Como se poder\u00e1 ver, a apresenta\u00e7\u00e3o de dois mil\u00eanios e meio de filosofia \u00e9 uma tarefa muito assustadora e, por raz\u00f5es de espa\u00e7o, fui compelido a omitir muitos aspectos importantes do assunto, que tiveram de ser despojados de tudo, exceto do essencial mais b\u00e1sico.<\/p>\n<p>A evolu\u00e7\u00e3o da filosofia oriental (que deveria abranger a filosofia chinesa \u2013 um vasto t\u00f3pico em si mesmo) procedeu em linhas bastante diferentes da filosofia no Ocidente, que atingiu seu \u00e1pice com Hegel e culminou na revolu\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica provocada por Marx e Engels. Fazer justi\u00e7a a esse tema teria exigido n\u00e3o apenas uma grande (e bastante injustificada) expans\u00e3o do presente livro, como tamb\u00e9m teria exigido um ou mais volumes adicionais. Portanto, em vez de publicar um resumo insatisfat\u00f3rio de um assunto bastante complicado, o que n\u00e3o agradaria a ningu\u00e9m, muito menos a mim, resolvi deixar esse assunto de lado, com a inten\u00e7\u00e3o de talvez voltar a ele quando a press\u00e3o de tempo e de trabalho permitir.<\/p>\n<p><strong>O que \u00e9 filosofia?<\/strong><\/p>\n<p>O marxismo come\u00e7ou como uma filosofia e o m\u00e9todo filos\u00f3fico do marxismo \u00e9 de fundamental import\u00e2ncia para a compreens\u00e3o das ideias de Marx e Engels. Mas o que \u00e9 filosofia?<\/p>\n<p>Filosofia \u00e9 uma forma de pensar diferente do tipo de pensamento a que estamos acostumados na vida cotidiana. N\u00e3o se limita \u00e0s quest\u00f5es imediatas da vida di\u00e1ria, mas tenta lidar com as grandes quest\u00f5es da vida e da morte, o universo, a natureza das ideias e da mat\u00e9ria, e o que \u00e9 bom e o que \u00e9 mau. Essas s\u00e3o quest\u00f5es que, em \u00faltima an\u00e1lise, s\u00e3o de grande import\u00e2ncia para cada um de n\u00f3s. No entanto, elas normalmente n\u00e3o ocupam um lugar central nos pensamentos da maioria das pessoas.<\/p>\n<p>Durante toda a hist\u00f3ria, pelo menos at\u00e9 o presente, as mentes da maioria dos homens e mulheres foram absorvidas principalmente pela luta di\u00e1ria pela exist\u00eancia. Elas est\u00e3o totalmente ocupados com quest\u00f5es mundanas como: terei um emprego na pr\u00f3xima semana? Terei dinheiro suficiente para chegar at\u00e9 o final do m\u00eas? Terei um teto sobre minha cabe\u00e7a, uma escola para meus filhos? E assim por diante.<\/p>\n<p>No entanto, o pensamento humano \u00e9 capaz de coisas muito maiores. A hist\u00f3ria do pensamento inclui a hist\u00f3ria da Arte, come\u00e7ando com as maravilhosas pinturas rupestres de Lascaux e Altamira; a hist\u00f3ria da ci\u00eancia, que nos permitiu conquistar a natureza e estender as m\u00e3os \u00e0s estrelas; e tamb\u00e9m a hist\u00f3ria da filosofia, com suas muitas e surpreendentes observa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A filosofia surge assim que homens e mulheres come\u00e7am a tentar explicar o mundo sem a interven\u00e7\u00e3o de agentes sobrenaturais: deuses e deusas e todo o restante da parafern\u00e1lia supersticiosa da religi\u00e3o que foi carregada desde os tempos mais primitivos. Ela marca o in\u00edcio de uma compreens\u00e3o cient\u00edfica da natureza e de n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p><strong>Uma vis\u00e3o revolucion\u00e1ria do mundo<\/strong><\/p>\n<p>O marxismo \u00e9, antes de mais nada, uma vis\u00e3o de mundo, ou uma filosofia se voc\u00ea preferir. Ele tem um vasto alcance. \u00c9 uma teoria da hist\u00f3ria e da economia, e tamb\u00e9m um guia para a a\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria. Mas de onde Marx tirou suas ideias? Elas n\u00e3o ca\u00edram das nuvens. O pr\u00f3prio Marx explicou que havia tr\u00eas fontes principais para suas ideias: havia a economia burguesa cl\u00e1ssica inglesa (Adam Smith e David Ricardo), depois os corajosos pioneiros do socialismo ut\u00f3pico: os franceses Saint-Simon e Fourier, e meu conterr\u00e2neo gal\u00eas Robert Owen.<\/p>\n<p>Mas o primeiro e mais importante elemento nos est\u00e1gios de forma\u00e7\u00e3o das ideias de Marx e Engels foi, sem d\u00favida, a filosofia cl\u00e1ssica alem\u00e3, particularmente Hegel. Esta, por sua vez, foi o produto de um longo per\u00edodo de desenvolvimento de muitas escolas diferentes de pensamento filos\u00f3fico. Veja, seria muito f\u00e1cil descartar, por exemplo, as ideias dos socialistas ut\u00f3picos (como o fez D\u00fchring). Mas certamente \u00e9 mais apropriado prestar tributo \u00e0 sua not\u00e1vel contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 hist\u00f3ria do socialismo e reconhecer o papel que suas ideias desempenharam na fase de forma\u00e7\u00e3o do marxismo.<\/p>\n<p>Recentemente, reli partes da obra de Robert Owen e posso dizer que algumas de suas ideias ainda s\u00e3o bastante revolucion\u00e1rias hoje. Isso significa que, ao homenagear Owen, defendemos o retorno \u00e0s ideias do socialismo ut\u00f3pico? Claro que n\u00e3o! Mas \u00e9 imposs\u00edvel negar que essas ideias desempenharam um papel importante no desenvolvimento do socialismo cient\u00edfico. Esse \u00e9 um fato indiscut\u00edvel.<\/p>\n<p>De vez em quando deparo-me com o preconceito um tanto infantil de quem imagina que tudo o que veio antes de Marx e Engels pode ser descartado como conservador e reacion\u00e1rio. \u00c9 bem verdade que n\u00e3o apenas Hegel, mas tamb\u00e9m Adam Smith e Ricardo foram \u201cpensadores da classe alta\u201d. Alguns tolos imaginam que s\u00f3 esse fato seria suficiente para desqualific\u00e1-los como grandes pensadores revolucion\u00e1rios. Tamb\u00e9m \u00e9 verdade que alguns deles (embora n\u00e3o todos) defendiam opini\u00f5es pol\u00edticas que tendiam ao conservadorismo ou mesmo \u00e0 rea\u00e7\u00e3o. O pr\u00f3prio Hegel era conservador em suas opini\u00f5es pol\u00edticas, embora na juventude tenha simpatizado com a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa. Mas isso n\u00e3o altera o fato de que seu m\u00e9todo dial\u00e9tico continha um elemento muito revolucion\u00e1rio \u2013 um fato que foi reconhecido pelas autoridades reacion\u00e1rias prussianas, que chegavam a suspeitar que Hegel fosse ateu e tivesse vis\u00f5es subversivas.<\/p>\n<p>Marx explicou h\u00e1 muito tempo que as ideias dominantes de cada \u00e9poca s\u00e3o as ideias da classe dominante. Aqueles homens representavam o pensamento mais avan\u00e7ado de sua \u00e9poca e Marx se baseou nessas ideias. A lei do valor, que foi descoberta por Adam Smith e desenvolvida por Ricardo, levou diretamente \u00e0 teoria da mais-valia de Marx e a dial\u00e9tica idealista de Hegel levou ao materialismo dial\u00e9tico. A ideia de que os marxistas podem ignorar as ideias do passado \u00e9 t\u00e3o est\u00fapida quanto o preconceito de alguns anarquistas radicais de que, para construir uma nova sociedade sem classes, \u00e9 necess\u00e1rio destruir tudo o que veio antes e construir tudo de novo. Essa \u00e9 a ess\u00eancia destilada do utopismo e, se a aceit\u00e1ssemos, excluir\u00edamos a possibilidade de realizar uma revolu\u00e7\u00e3o socialista na pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Uma revolu\u00e7\u00e3o socialista n\u00e3o destruiria as conquistas reais do capitalismo. Pelo contr\u00e1rio, construiria sobre elas, enchendo-as de um conte\u00fado social e de classe inteiramente diferente. As conquistas da ci\u00eancia e da tecnologia n\u00e3o serviriam mais aos interesses de uma min\u00fascula classe dominante parasit\u00e1ria, mas seriam planejadas harmoniosamente no interesse de toda a sociedade. Vamos construir a nova sociedade usando os tijolos deixados pela velha, pela simples raz\u00e3o de que n\u00e3o existem outros tijolos pr\u00e9-fabricados para essa tarefa.<\/p>\n<p>Da mesma forma que far\u00edamos uso das for\u00e7as produtivas existentes \u2013 a terra, as f\u00e1bricas, a ci\u00eancia e a tecnologia \u2013 herdadas da velha sociedade, devemos nos basear nas ideias mais avan\u00e7adas desenvolvidas no passado. O marxismo negou o idealismo de Hegel, ao mesmo tempo em que preservou tudo o que era progressista e revolucion\u00e1rio em seu m\u00e9todo dial\u00e9tico. Os fundadores do socialismo cient\u00edfico resgataram a dial\u00e9tica, que nas m\u00e3os de Hegel se apresentava sob uma apar\u00eancia distorcida e idealista, e a colocaram pela primeira vez sobre uma s\u00f3lida funda\u00e7\u00e3o materialista. Ao fazer isso, eles criaram uma arma poderosa para mudar a sociedade ao longo de linhas revolucion\u00e1rias.<\/p>\n<p><strong>Por que estudar a hist\u00f3ria da filosofia?<\/strong><\/p>\n<p>Todos os escritos de Marx e Engels s\u00e3o baseados em um m\u00e9todo filos\u00f3fico definido e n\u00e3o podem ser compreendidos sem ele, o m\u00e9todo do materialismo dial\u00e9tico. O mesmo vale para as obras de Lenin e Trotsky, os mais destacados representantes do pensamento marxista no s\u00e9culo XX. A dial\u00e9tica j\u00e1 era conhecida dos gregos antigos e mais tarde foi desenvolvida por Hegel. As ideias b\u00e1sicas do materialismo dial\u00e9tico n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o dif\u00edceis de entender. Como todas as grandes ideias, elas s\u00e3o essencialmente simples e bonitas em sua simplicidade.<\/p>\n<p>Mas muitos que se consideram marxistas se contentam em repetir algumas ideias b\u00e1sicas, sem se preocupar com o significado mais profundo do que est\u00e3o dizendo. Esses \u201cmarxistas\u201d parecem uma crian\u00e7a que aprendeu a recitar a tabuada de forma mec\u00e2nica, ou melhor, um papagaio que aprendeu a imitar a fala humana e a repetir certas frases sem ter a mais vaga compreens\u00e3o de seu significado. Para chegar a uma compreens\u00e3o completa do materialismo dial\u00e9tico, muito estudo cuidadoso ser\u00e1 necess\u00e1rio. No momento, estou trabalhando em um trabalho mais abrangente sobre a filosofia marxista que, espero, venha a ajudar a esclarecer as quest\u00f5es mais complicadas envolvidas.<\/p>\n<p>Mas h\u00e1 uma dificuldade envolvida no estudo da filosofia em geral, e da filosofia marxista em particular, e que est\u00e1 no cerne do presente trabalho. Quando Marx e Engels escreveram sobre o materialismo dial\u00e9tico, eles podiam pressupor um conhecimento b\u00e1sico da hist\u00f3ria da filosofia por parte, pelo menos, do p\u00fablico leitor instru\u00eddo da \u00e9poca. Hoje em dia \u00e9 imposs\u00edvel fazer tal suposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>\u201cHist\u00f3ria da Filosofia\u201d de Hegel<\/strong><\/p>\n<p>Comecei a ler a monumental\u00a0<em>Hist\u00f3ria da Filosofia<\/em>\u00a0em tr\u00eas volumes de Hegel quando tinha dezessete anos e ainda estava na escola. Eu li todo o primeiro volume e metade do segundo antes de ir para a universidade. Eu a achei absolutamente fascinante. Ali, diante dos meus olhos, estavam 2.5000 anos do mais profundo pensamento humano, estabelecido de uma maneira dial\u00e9tica convincentemente clara e abrangente.<\/p>\n<p>Ainda possuo v\u00e1rios cadernos escolares repletos de notas que fiz na \u00e9poca sobre a\u00a0<em>Hist\u00f3ria da Filosofia<\/em>, a\u00a0<em>Filosofia da Hist\u00f3ria<\/em>\u00a0e a\u00a0<em>Fenomenologia do Esp\u00edrito<\/em>. Eu at\u00e9 tinha um caderno no qual copiei extensas se\u00e7\u00f5es da primeira parte da Enciclop\u00e9dia de Ci\u00eancias Filos\u00f3ficas de Hegel. Eu havia procurado em v\u00e3o por uma c\u00f3pia daquela obra not\u00e1vel, mas quando finalmente consegui uma em uma biblioteca de refer\u00eancia, descobri que estava no alem\u00e3o original! Mas n\u00e3o me deixei desanimar com tal detalhe. Na \u00e9poca meu conhecimento da l\u00edngua alem\u00e3 era muito bom, ent\u00e3o comecei a ler e fazer anota\u00e7\u00f5es. Infelizmente aquele caderno em particular se perdeu no decorrer de minhas viagens.<\/p>\n<p>Esse entusiasmo por Hegel permaneceu comigo desde ent\u00e3o. O que me impressionou na\u00a0<em>Hist\u00f3ria da Filosofia<\/em>\u00a0foi a forma altamente original com que Hegel abordou o assunto. Ele \u00e9 apresentado n\u00e3o como uma s\u00e9rie de desenvolvimentos acidentais, mas como um todo org\u00e2nico \u2013 um processo que evoluiu por meio de uma s\u00e9rie de contradi\u00e7\u00f5es, em que um conjunto de ideias aparentemente nega o anterior, levando a uma espiral intermin\u00e1vel de desenvolvimento do pensamento humano.<\/p>\n<p>Claro, pode-se encontrar falhas na abordagem idealista de Hegel da hist\u00f3ria da filosofia. Mas o mais importante a se ver \u00e9 o m\u00e9todo dial\u00e9tico que caracteriza todas as suas obras. Onde outros viram apenas uma massa de ideias desconexas, acontecimentos acidentais e g\u00eanios individuais, Hegel foi o primeiro a ver um processo org\u00e2nico com uma lei e uma l\u00f3gica interna pr\u00f3prias.<\/p>\n<p>No desenvolvimento da filosofia por meio de uma s\u00e9rie de contradi\u00e7\u00f5es, Hegel viu n\u00e3o apenas um processo negativo, por meio do qual um conjunto de ideias aniquilava outro. Ele entendeu que esse processo de nega\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m implicava a preserva\u00e7\u00e3o de tudo o que era v\u00e1lido e verdadeiro nas etapas anteriores. Essa ideia de nega\u00e7\u00e3o que ao mesmo tempo preserva \u00e9 o que ele chamou de suprassun\u00e7\u00e3o, e se expressa na linguagem mais sublime em sua introdu\u00e7\u00e3o \u00e0\u00a0<em>Fenomenologia do Esp\u00edrito<\/em>:<\/p>\n<blockquote><p><em>\u201cO bot\u00e3o desaparece no desabrochar da flor, e poderia dizer-se que a flor o refuta; do mesmo modo que o fruto faz a flor parecer um falso ser-a\u00ed [forma] da planta, pondo-se como sua verdade em lugar da flor: essas formas n\u00e3o s\u00f3 se distinguem, mas tamb\u00e9m se repelem como incompat\u00edveis entre si. Por\u00e9m, ao mesmo tempo, sua natureza fluida faz delas momentos da unidade org\u00e2nica, na qual, longe de se contradizerem, todos s\u00e3o igualmente necess\u00e1rios. E \u00e9 essa igual necessidade que constitui unicamente a vida do todo.\u201d<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Engels, comentando sobre a\u00a0<em>Filosofia da Hist\u00f3ria<\/em>\u00a0de Hegel, disse que esse m\u00e9todo representou um passo colossal \u00e0 frente:<\/p>\n<blockquote><p><em>\u201cEle foi o primeiro a tentar demonstrar que existe um desenvolvimento, uma coer\u00eancia intr\u00ednseca na hist\u00f3ria, e por mais estranhas que algumas coisas em sua filosofia da hist\u00f3ria possam nos parecer agora, a grandeza da concep\u00e7\u00e3o b\u00e1sica ainda \u00e9 admir\u00e1vel hoje, comparada tanto a de seus predecessores quanto a dos que o seguiram na aventura de avan\u00e7ar observa\u00e7\u00f5es gerais sobre a hist\u00f3ria.\u201d<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Apesar de todos os seus defeitos, a grandeza da\u00a0<em>Hist\u00f3ria da Filosofia<\/em>\u00a0de Hegel \u2013 seu alcance majestoso e suas profundas observa\u00e7\u00f5es \u2013 ainda \u00e9 uma fonte de admira\u00e7\u00e3o para mim at\u00e9 hoje. Quanto aos cr\u00edticos p\u00f3s-modernos de Hegel, repetirei o que Lenin escreveu uma vez sobre Rosa Luxemburgo, citando as palavras de um antigo prov\u00e9rbio russo:\u00a0<em>\u201cAs \u00e1guias podem \u00e0s vezes voar mais baixo do que as galinhas, mas as galinhas nunca podem chegar \u00e0 altura das \u00e1guias\u201d<\/em>.<\/p>\n<p><strong>A vis\u00e3o marxista da hist\u00f3ria da filosofia<\/strong><\/p>\n<p>No presente trabalho, tentei fazer uso da descoberta de Hegel, mas de um ponto de vista consistentemente materialista. Esta n\u00e3o \u00e9 uma hist\u00f3ria da filosofia na no\u00e7\u00e3o emp\u00edrica da palavra. Tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 um comp\u00eandio de tudo o que todos disseram sobre filosofia. Quem procura encontrar nesta obra, por exemplo, um estudo detalhado sobre a\u00a0<em>Rep\u00fablica<\/em>\u00a0de Plat\u00e3o ficar\u00e1 tristemente desapontado. Devo encaminhar essa pessoa \u00e0 biblioteca p\u00fablica mais pr\u00f3xima, onde espero que possa encontrar um n\u00famero suficiente de obras eruditas para satisfazer sua curiosidade. Esta \u00e9 uma hist\u00f3ria da filosofia em sua ess\u00eancia. Ou seja, tentei seguir a linha geral de desenvolvimento do pensamento, que tem suas pr\u00f3prias leis imanentes.<\/p>\n<p>Por outro lado, temo que meu livro n\u00e3o satisfa\u00e7a os \u201cmarxistas\u201d mecanicistas que imaginam ser poss\u00edvel reduzir tudo sob o sol ao desenvolvimento das for\u00e7as produtivas e\/ou \u00e0 luta de classes. \u00c9 claro que, em \u00faltima an\u00e1lise, essas s\u00e3o as for\u00e7as motoras fundamentais da hist\u00f3ria humana e determinam o destino de pa\u00edses, estados e imp\u00e9rios. Mas tentar encontrar a explica\u00e7\u00e3o para obras de arte e m\u00fasica, por exemplo, ou para as fant\u00e1sticas reviravoltas da filosofia e da religi\u00e3o impondo uma liga\u00e7\u00e3o direta com esse substrato seria uma tola perda de tempo.<\/p>\n<p>No entanto, na medida em que os fil\u00f3sofos (como todos os outros) podem ser afetados pelo estado geral da sociedade \u2013 a ascens\u00e3o e queda das for\u00e7as produtivas e as tens\u00f5es sociais e pol\u00edticas resultantes \u2013, uma rela\u00e7\u00e3o pode ser discern\u00edvel em certas fases, embora indiretamente, como meu trabalho indicar\u00e1.<\/p>\n<p>Como Engels escreveu em uma carta ao economista alem\u00e3o Conrad Schmidt:<\/p>\n<blockquote><p><em>\u201cNo que toca aos dom\u00ednios ideol\u00f3gicos que ainda flutuam mais alto no ar (religi\u00e3o, filosofia etc.), eles t\u00eam uma componente\u00a0<\/em><em>[Bestand]\u00a0<\/em><em>pr\u00e9-hist\u00f3rica, encontrada e retomada pelo per\u00edodo hist\u00f3rico \u2014 a que n\u00f3s hoje chamar\u00edamos absurdo. Essas diversas representa\u00e7\u00f5es falsas da natureza, da constitui\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio homem, de esp\u00edritos, for\u00e7as m\u00e1gicas etc. s\u00f3 negativamente t\u00eam algo de econ\u00f4mico por fundamento; o baixo desenvolvimento econ\u00f4mico do per\u00edodo pr\u00e9-hist\u00f3rico tem como complemento, mas tamb\u00e9m, por vezes, como condi\u00e7\u00e3o e mesmo como causa as representa\u00e7\u00f5es falsas acerca da natureza.<\/em><\/p>\n<p><em>E mesmo se a necessidade econ\u00f4mica foi \u2014 e cada vez se tornou mais \u2014 a mola principal do conhecimento progressivo da natureza, seria, no entanto, pedante querer procurar causas econ\u00f4micas para todo esse absurdo de estado primitivo. A hist\u00f3ria das ci\u00eancias \u00e9 a hist\u00f3ria da gradual elimina\u00e7\u00e3o desse absurdo ou da sua substitui\u00e7\u00e3o por um novo absurdo, mas sempre menos absurdo.<\/em><\/p>\n<p><em>As pessoas que se ocupam disso pertencem, por sua vez, a esferas particulares da divis\u00e3o do trabalho e apresentam-se como trabalhando em um dom\u00ednio independente. E, na medida em que formam um grupo aut\u00f4nomo no interior da divis\u00e3o social do trabalho, as suas produ\u00e7\u00f5es (e inclusive os seus erros) t\u00eam uma influ\u00eancia retroativa sobre todo o desenvolvimento social, mesmo sobre o [desenvolvimento] econ\u00f4mico.<\/em><\/p>\n<p><em>Mas, em tudo isto, elas pr\u00f3prias est\u00e3o, por sua vez, sob a influ\u00eancia dominante do desenvolvimento econ\u00f4mico. Por exemplo, na filosofia, isto \u00e9 muito f\u00e1cil de demonstrar para o per\u00edodo burgu\u00eas.\u00a0<\/em><em>Hobbes<\/em><em>\u00a0foi o primeiro materialista moderno (no sentido do s\u00e9culo XVIII), mas [era] absolutista num tempo em que a monarquia absoluta estava, em toda a Europa, no seu apogeu e travava, na Inglaterra, uma luta com o povo.\u00a0<\/em><em>Locke<\/em><em>\u00a0era, na religi\u00e3o como na pol\u00edtica, filho do acordo de classes de 1688. Os de\u00edstas ingleses e os seus continuadores mais consequentes \u2014 os materialistas franceses \u2014 foram os aut\u00eanticos fil\u00f3sofos da burguesia \u2014 os franceses chegaram a ser os fil\u00f3sofos da revolu\u00e7\u00e3o burguesa. Na filosofia alem\u00e3 de\u00a0<\/em><em>Kant<\/em><em>\u00a0at\u00e9\u00a0<\/em><em>Hegel<\/em><em>\u00a0emerge o pequeno burgu\u00eas\u00a0<\/em><em>[Spiessburger]\u00a0<\/em><em>alem\u00e3o \u2014 ora positivamente, ora negativamente. Mas, como dom\u00ednio determinado da divis\u00e3o do trabalho, a filosofia de cada \u00e9poca tem por pressuposto um certo material intelectual que lhe foi transmitido pelos seus antecessores e de onde ela parte.<\/em><\/p>\n<p><em>E vem da\u00ed que pa\u00edses economicamente atrasados possam, na filosofia, tocar como primeiros violinos: a Fran\u00e7a no s\u00e9culo XVIII face \u00e0 Inglaterra, sobre cuja filosofia os franceses se basearam; mais tarde, a Alemanha face a ambas. Mas, na Fran\u00e7a como na Alemanha, a filosofia era, como o florescimento geral da literatura naquele tempo, tamb\u00e9m resultado de um surto econ\u00f4mico.<\/em><\/p>\n<p><em>A supremacia final do desenvolvimento econ\u00f4mico, neste dom\u00ednio tamb\u00e9m, para mim est\u00e1 estabelecida, mas tem lugar dentro das condi\u00e7\u00f5es prescritas pelo pr\u00f3prio dom\u00ednio singular: na filosofia, por exemplo, pela a\u00e7\u00e3o\u00a0<\/em><em>[Einwirkung]\u00a0<\/em><em>de influ\u00eancias\u00a0<\/em><em>[Einflusse]\u00a0<\/em><em>econ\u00f4micas (que, na maior parte dos casos, operam, por sua vez, apenas sob o seu disfarce pol\u00edtico etc.) sobre o material filos\u00f3fico dispon\u00edvel que os antecessores forneceram.<\/em><\/p>\n<p><em>A economia n\u00e3o cria aqui nada absolutamente novo (<\/em><em>a novo)<\/em><em>, mas determina a maneira<\/em>\u00a0<em>da altera\u00e7\u00e3o e da ulterior forma\u00e7\u00e3o do material de pensamento encontrado, e mesmo isto, na maioria dos casos, indiretamente, na medida em que s\u00e3o os reflexos\u00a0<\/em><em>[Reflexe]\u00a0<\/em><em>pol\u00edticos, jur\u00eddicos, morais, que exercem a a\u00e7\u00e3o\u00a0<\/em><em>[Wirkung]\u00a0<\/em><em>direta maior sobre a filosofia.<\/em><\/p>\n<p><em>O que falta a todos esses cavalheiros \u00e9 dial\u00e9tica. Eles s\u00f3 veem sempre: aqui causa, ali efeito. Nem uma vez sequer veem que isso \u00e9 uma abstra\u00e7\u00e3o vazia, que no mundo real semelhantes oposi\u00e7\u00f5es polares metaf\u00edsicas apenas existem em crises, que todo o grande curso\u00a0<\/em><em>[Verlauf]\u00a0<\/em><em>decorre, por\u00e9m, na forma da a\u00e7\u00e3o rec\u00edproca \u2014 mesmo se de for\u00e7as\u00a0<\/em><em>[Kr\u00e4fte]\u00a0<\/em><em>muito desiguais, das quais o movimento econ\u00f4mico \u00e9 de longe a mais forte, a mais origin\u00e1ria, a mais decisiva; que aqui nada \u00e9 absoluto e tudo \u00e9 relativo, isso \u00e9 coisa que eles nem sequer veem; para eles, Hegel nunca existiu.\u201d<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>O que tentei fazer aqui \u00e9 tra\u00e7ar o curso essencial e geral do processo de avan\u00e7o do conhecimento, cujo pleno desenvolvimento, em cada \u00e9poca da hist\u00f3ria, estabelece a base para que o pensamento humano avance para o est\u00e1gio seguinte.<\/p>\n<p>A tarefa dos marxistas n\u00e3o \u00e9 afirmar e simplesmente dissecar todas as escolas de pensamento que j\u00e1 existiram. Em vez disso, \u00e9 extrair da mir\u00edade de tend\u00eancias e ideias conflitantes os princ\u00edpios racionais e essenciais que impulsionaram a humanidade ao est\u00e1gio em que nos encontramos agora. Este processo contribuiu poderosamente para os enormes avan\u00e7os na ci\u00eancia e na tecnologia, que por sua vez lan\u00e7am a base para a progress\u00e3o da humanidade a um est\u00e1gio de desenvolvimento qualitativamente superior, sob o socialismo.<\/p>\n<p><strong>A atitude p\u00f3s-moderna em rela\u00e7\u00e3o ao passado: onde a ignor\u00e2ncia \u00e9 uma b\u00ean\u00e7\u00e3o e \u00e9 uma tolice ser s\u00e1bio<\/strong><\/p>\n<p>A dial\u00e9tica tem uma longa hist\u00f3ria, come\u00e7ando com os gregos, os fil\u00f3sofos pr\u00e9-socr\u00e1ticos e particularmente com Her\u00e1clito. Alcan\u00e7a sua express\u00e3o m\u00e1xima nas obras de Hegel. Mas a tend\u00eancia dominante na filosofia burguesa moderna trata toda a filosofia passada com desprezo. N\u00e3o apenas o marxismo, mas todas as grandes ideias do passado s\u00e3o levianamente descartadas, rotuladas como \u201cmetanarrativas\u201d e enviadas sem pensar duas vezes para a lata de lixo da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>No passado, quando a burguesia ainda era capaz de desempenhar um papel progressista, ela tinha uma ideologia revolucion\u00e1ria. Produziu grandes e originais pensadores: Locke e Hobbes, Rousseau, Diderot e os outros pensadores revolucion\u00e1rios do Iluminismo franc\u00eas, Kant e Hegel, Adam Smith e David Ricardo, Newton e Darwin. Mas a produ\u00e7\u00e3o intelectual da burguesia no per\u00edodo de decl\u00ednio exibe todas as evid\u00eancias de uma avan\u00e7ada decad\u00eancia senil.<\/p>\n<p>Existem per\u00edodos na hist\u00f3ria que s\u00e3o caracterizados por estados de esp\u00edrito de pessimismo, d\u00favida e desespero. Em tais per\u00edodos, tendo perdido a f\u00e9 na sociedade existente e em sua ideologia, as pessoas t\u00eam apenas duas alternativas. Uma \u00e9 desafiar a ordem existente e seguir o caminho revolucion\u00e1rio. A outra \u00e9 voltar-se para dentro de si mesmo numa tentativa f\u00fatil de ignorar as contradi\u00e7\u00f5es da sociedade buscando a salva\u00e7\u00e3o pessoal, seja na religi\u00e3o ou no subjetivismo filos\u00f3fico extremo.<\/p>\n<p>A velha sociedade est\u00e1 morrendo, mas se recusa obstinadamente a aceitar seu destino. Poderosos interesses materiais continuam a exercer um esfor\u00e7o decidido para sustent\u00e1-la, comandam recursos formid\u00e1veis \u200b\u200be exercem uma influ\u00eancia irresist\u00edvel em todos os aspectos da vida social e intelectual. Hoje a ideologia da burguesia est\u00e1 em processo de desintegra\u00e7\u00e3o, n\u00e3o apenas nos campos da economia e da pol\u00edtica, mas tamb\u00e9m no da filosofia. N\u00e3o produz nada de valioso. N\u00e3o mais exige apoio positivo, respeito ou autoridade, exala miasmas negativos como um cad\u00e1ver emite mau cheiro. Esses estados de esp\u00edrito inevitavelmente encontram sua express\u00e3o na filosofia predominante. \u00c9 imposs\u00edvel ler os produtos est\u00e9reis dos departamentos de filosofia das universidades sem um sentimento de t\u00e9dio e irrita\u00e7\u00e3o, na mesma medida. Desnecess\u00e1rio dizer que esse retrocesso geral encontra seu reflexo nas atitudes em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 hist\u00f3ria da filosofia.<\/p>\n<p>Os jovens estudantes de olhos brilhantes que entram nos departamentos de filosofia com grandes esperan\u00e7as de ilumina\u00e7\u00e3o s\u00e3o rapidamente desencantados ou ent\u00e3o arrastados para a fossa venenosa do jarg\u00e3o p\u00f3s-moderno, de onde nenhuma sa\u00edda \u00e9 poss\u00edvel. Em qualquer dos casos, eles emergir\u00e3o sem nunca aprender nada de valor com os grandes pensadores do passado. N\u00e3o contentes em encher as mentes dos jovens com o lixo p\u00f3s-modernista, os departamentos de filosofia t\u00eam a aud\u00e1cia de introduzir o mesmo lixo no estudo do passado. Evidentemente, a gangue acad\u00eamica p\u00f3s-moderna n\u00e3o gosta de ser lembrada do fato de que houve uma \u00e9poca em que os fil\u00f3sofos realmente tinham algo profundo e importante a dizer sobre o mundo real.<\/p>\n<p><strong>A distor\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria filos\u00f3fica<\/strong><\/p>\n<p>Recentemente, me assinalaram que uma nova (e muito elogiada) tradu\u00e7\u00e3o de Hegel cont\u00e9m um erro de tradu\u00e7\u00e3o grosseiro do alem\u00e3o que coloca a terminologia p\u00f3s-modernista na boca daquele grande pensador dial\u00e9tico. A prestigiosa nova tradu\u00e7\u00e3o para o ingl\u00eas da\u00a0<em>Ci\u00eancia da L\u00f3gica<\/em>\u00a0de Hegel, realizada pela Universidade de Cambridge e que est\u00e1 se tornando can\u00f4nica em universidades de todo o mundo, traduz repetidamente as palavras alem\u00e3s\u00a0<em>Denken<\/em>\u00a0e\u00a0<em>Denkend<\/em>\u00a0(que em ingl\u00eas significam claramente \u201cpensamento\u201d e \u201cpensar\u201d) como \u201cdiscurso\u201d e \u201cdiscursivo\u201d.<\/p>\n<p>Essa \u00e9 uma falsifica\u00e7\u00e3o flagrante das ideias de Hegel e uma transgress\u00e3o de todas as normas \u00e9ticas de tradu\u00e7\u00e3o. \u00c9 um ato criminoso tentar infiltrar o subjetivismo p\u00f3s-modernista em Hegel. Ao defender essa escolha, o tradutor George di Giovanni tranquilamente afirma sem qualquer prova que:<\/p>\n<blockquote><p>\u201c<em>O assunto da L\u00f3gica n\u00e3o \u00e9 a \u2018coisa-em-si\u2019 ou suas manifesta\u00e7\u00f5es fenom\u00eanicas, quer se conceba seu \u2019em-si\u2019 como um subst\u00e2ncia ou como liberdade, mas \u00e9 o pr\u00f3prio discurso<\/em>\u201d.<\/p><\/blockquote>\n<p>Isso \u00e9 nada menos que um esc\u00e2ndalo. No entanto, passou despercebido pelos \u201ccr\u00edticos\u201d, que est\u00e3o todos encantados com a nova \u201cnarrativa\u201d. \u00c9 um ato de vandalismo, mais ou menos o equivalente a pintar um bigode na face da Mona Lisa. Esse pequeno detalhe j\u00e1 deve nos colocar em guarda.<\/p>\n<p><strong>Uma falsa objetividade<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o tenho a menor d\u00favida de que os espertalh\u00f5es das universidades n\u00e3o perder\u00e3o tempo em me acusar de apresentar uma vers\u00e3o unilateral da hist\u00f3ria da filosofia. Para essa acusa\u00e7\u00e3o eu me declaro culpado. Como marxista convicto, tenho toda a inten\u00e7\u00e3o de defender um ponto de vista filos\u00f3fico particular \u2013 o do materialismo dial\u00e9tico.<\/p>\n<p>Os departamentos de filosofia da universidade n\u00e3o s\u00e3o torres de marfim de conhecimento e cultura, mas apenas trincheiras na guerra entre as classes. Essas trincheiras s\u00e3o cuidadosamente disfar\u00e7adas com uma camuflagem artisticamente constru\u00edda de falsa objetividade pseudocient\u00edfica. Mas, por tr\u00e1s dessa teia emaranhada de mentiras, sempre encontramos interesses materiais, preconceito de classe e uma defesa c\u00ednica do status quo.<\/p>\n<p>Toda a hist\u00f3ria da filosofia tem sido uma luta constante entre dois pontos de vista hostis e mutuamente excludentes: o materialismo filos\u00f3fico e o idealismo filos\u00f3fico. Ou seja, a abordagem cient\u00edfica e a tentativa de arrastar a consci\u00eancia humana de volta ao mundo do misticismo religioso. Uma vez que o campo da filosofia sempre foi dividido em uma s\u00e9rie de \u201cvers\u00f5es unilaterais\u201d, \u00e9 totalmente imposs\u00edvel evitar tomar o partido de uma ou de outra dessas vis\u00f5es de mundo. A \u00fanica diferen\u00e7a entre o presente autor e seus cr\u00edticos \u00e9 que fui honesto o suficiente para declarar meu interesse desde o in\u00edcio, enquanto meus cr\u00edticos sempre se escondem atr\u00e1s de uma \u201cobjetividade\u201d hip\u00f3crita e inteiramente esp\u00faria, que apenas serve para disfar\u00e7ar suas opini\u00f5es partid\u00e1rias e pontos de vista de classe.<\/p>\n<p>At\u00e9 hoje, a filosofia permanece uma batalha sem limites entre o materialismo e o idealismo onde os inimigos do materialismo s\u00e3o numerosos e t\u00eam muitas vantagens. Mas ser\u00e1 que o fato de se assumir um ponto de vista filos\u00f3fico e pol\u00edtico definido exclui a objetividade? Essa \u00e9 uma suposi\u00e7\u00e3o que \u00e9 desmentida pelos fatos. O grande marxista Leon Trotsky respondeu a essas obje\u00e7\u00f5es da seguinte forma:<\/p>\n<blockquote><p><em>\u201cAos olhos de um filisteu, um ponto de vista revolucion\u00e1rio \u00e9 virtualmente equivalente a uma aus\u00eancia de objetividade cient\u00edfica. N\u00f3s pensamos exatamente o contr\u00e1rio: apenas um revolucion\u00e1rio \u2013 desde que, \u00e9 claro, esteja equipado com o m\u00e9todo cient\u00edfico \u2013 \u00e9 capaz de desnudar a din\u00e2mica objetiva da revolu\u00e7\u00e3o. Apreender o pensamento em geral n\u00e3o \u00e9 algo contemplativo, mas ativo. O elemento da vontade \u00e9 indispens\u00e1vel para penetrar nos segredos da natureza e da sociedade. Assim como um cirurgi\u00e3o, de cujo bisturi depende uma vida humana, distingue com extremo cuidado os v\u00e1rios tecidos de um organismo, tamb\u00e9m um revolucion\u00e1rio, se tiver uma atitude s\u00e9ria para com sua tarefa, \u00e9 obrigado com estrita consci\u00eancia a analisar a estrutura da sociedade, suas fun\u00e7\u00f5es e reflexos\u201d.<\/em><\/p><\/blockquote>\n<p><strong>Uma palavra sobre meus cr\u00edticos<\/strong><\/p>\n<p>Desde que o marxismo emergiu como uma for\u00e7a significativa desafiando a ordem existente, o\u00a0<em>establishment<\/em>\u00a0tem estado em uma perp\u00e9tua situa\u00e7\u00e3o de guerra contra todos os aspectos da ideologia marxista, come\u00e7ando com o materialismo dial\u00e9tico. A simples men\u00e7\u00e3o do marxismo com certeza provocar\u00e1 uma rea\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica em tais c\u00edrculos. \u201cDesatualizado\u201d, \u201cn\u00e3o cient\u00edfico\u201d, \u201crefutado h\u00e1 muito tempo\u201d, \u201cmetaf\u00edsico\u201d e todo o resto da ladainha esfarrapada e cansativa dos reacion\u00e1rios.<\/p>\n<p>N\u00e3o tenho d\u00favidas de que o presente trabalho ser\u00e1 saudado por um coro de desaprova\u00e7\u00e3o semelhante. Isso n\u00e3o me incomoda nem um pouco. Tenho ouvido a mesma torrente tediosa de insultos nas \u00faltimas seis d\u00e9cadas e os argumentos dos cr\u00edticos de Marx n\u00e3o ganham mais for\u00e7a por serem repetidos com tanta frequ\u00eancia e monotonia. Eu entendo que meus oponentes fiquem ofendidos com isso. Eles tentar\u00e3o refutar meus argumentos escavando textos antigos para tentar provar que, afinal, preto \u00e9 branco e branco \u00e9 preto. Esta \u00e9 uma rea\u00e7\u00e3o bastante natural, j\u00e1 que eles pr\u00f3prios defendem um determinado ponto de vista filos\u00f3fico que \u00e9 totalmente incompat\u00edvel com o meu. Com isso me refiro ao ponto de vista do idealismo filos\u00f3fico \u2013 seja este do tipo objetivo ou subjetivo.<\/p>\n<p>Naturalmente, n\u00e3o tenho nenhuma obje\u00e7\u00e3o a isso. Eles t\u00eam todo o direito de defender quaisquer ideias m\u00edsticas e irracionais que os atraiam. Mas que n\u00e3o tentem esconder sua parcialidade por tr\u00e1s de uma fachada de falsa objetividade, nem tentem distorcer as ideias de grandes pensadores do passado para que se encaixem em sua pr\u00f3pria vis\u00e3o estreita e reacion\u00e1ria.<\/p>\n<p><strong>A filosofia como arma revolucion\u00e1ria<\/strong><\/p>\n<p>Apesar de sua aura de elevada superioridade e desprezo pela luta de classes, a filosofia oficial \u00e9 apenas mais uma arma nas m\u00e3os da classe dominante, e \u00e9 usada deliberadamente para confundir e desorientar os jovens e desvi\u00e1-los do caminho da revolu\u00e7\u00e3o. Nas palavras do velho Joseph Dietzgen, a filosofia n\u00e3o \u00e9 uma ci\u00eancia, mas uma trincheira contra o socialismo.<\/p>\n<p>Antigamente os fil\u00f3sofos eram rebeldes, hereges perigosos empenhados em subverter a ordem moral e social existente. S\u00f3crates foi for\u00e7ado a beber cicuta; Spinoza foi acusado de ate\u00edsmo, excomungado e injuriado; Giordano Bruno foi queimado na fogueira pela Inquisi\u00e7\u00e3o; os fil\u00f3sofos franceses do s\u00e9culo XVIII prepararam o caminho para a tomada da Bastilha. Entretanto, em nossa pr\u00f3pria \u00e9poca, a maioria das pessoas considera a filosofia e os fil\u00f3sofos com indiferen\u00e7a ou desprezo, o que \u00e9 muito merecido. Mas \u00e9 profundamente lament\u00e1vel que, ao se afastarem do deserto filos\u00f3fico atual, as pessoas negligenciem os grandes pensadores do passado que, ao contr\u00e1rio dos modernos pigmeus, foram gigantes do pensamento humano.<\/p>\n<p>A velha filosofia idealista manteve obstinadamente sua independ\u00eancia imagin\u00e1ria da vida social. At\u00e9 hoje, os fil\u00f3sofos da academia afirmam se distanciar do mundo sujo dos seres humanos reais, da vida social e da pol\u00edtica. Mas isso \u00e9 uma ilus\u00e3o. Na realidade, eles representam apenas um reflexo desse mesmo mundo, embora de forma mistificada. Em \u00faltima an\u00e1lise, tenham eles consci\u00eancia disso ou n\u00e3o, as ideias que defendem s\u00e3o uma defesa mal disfar\u00e7ada da sociedade existente e, no fundo, o mais s\u00f3rdido e c\u00ednico interesse pessoal.<\/p>\n<p>De minha parte, n\u00e3o tenho inten\u00e7\u00e3o de dan\u00e7ar um minueto complexo com acad\u00eamicos que s\u00e3o guiados apenas por um \u00f3dio cego ao marxismo e um desejo fervoroso de manter o status quo. Somente tirando do caminho esse lixo ideol\u00f3gico podemos preparar o terreno para a busca bem-sucedida da luta de classes. O marxismo tem o dever de fornecer uma alternativa abrangente \u00e0s ideias velhas e desacreditadas. Mas n\u00e3o temos o direito de dar as costas aos grandes pensadores do passado: os gregos, Spinoza, os materialistas franceses do Iluminismo e, sobretudo, Hegel. Esses foram pioneiros heroicos que prepararam o caminho para as brilhantes realiza\u00e7\u00f5es da filosofia marxista e podem ser corretamente considerados como uma parte importante de nossa heran\u00e7a revolucion\u00e1ria.<\/p>\n<p>Temos o dever de resgatar tudo o que foi valioso na hist\u00f3ria da filosofia ao mesmo tempo que descartamos tudo o que era falso, antiquado e in\u00fatil. Assim como a Revolu\u00e7\u00e3o de Outubro, a Comuna de Paris e a Tomada da Bastilha apontaram o caminho para a futura revolu\u00e7\u00e3o socialista que transformar\u00e1 o mundo inteiro, as grandes batalhas filos\u00f3ficas do passado lan\u00e7aram as bases para o materialismo dial\u00e9tico \u2013 a filosofia do futuro. E assim como prestamos muita aten\u00e7\u00e3o \u00e0s li\u00e7\u00f5es fornecidas pelas lutas de classes do passado, tamb\u00e9m temos o dever de estudar a grande batalha de ideias que constitui o significado essencial da hist\u00f3ria da filosofia.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 Hist\u00f3ria da Filosofia: Uma Perspectiva Marxista. Link: http:\/\/www.marxist.com\/introducao-a-historia-da-filosofia-uma-perspectiva-marxista.htm<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alan Woods &#8211; O mais recente t\u00edtulo da editora Wellred Books,\u00a0The History of Philosophy: A Marxist Perspective, de autoria de Alan Woods, foi\u00a0lan\u00e7ado no \u00faltimo dia 26. 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