{"id":15747,"date":"2021-10-03T12:54:59","date_gmt":"2021-10-03T15:54:59","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=15747"},"modified":"2021-10-02T16:59:01","modified_gmt":"2021-10-02T19:59:01","slug":"o-que-e-o-capitalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2021\/10\/03\/o-que-e-o-capitalismo\/","title":{"rendered":"O que \u00e9 o capitalismo?"},"content":{"rendered":"<p><strong>NANCY FRASER &#8211;\u00a0<\/strong>Tudo o que constitui numa pressuposi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para a economia capitalista precisa figurar diretamente em nossa defini\u00e7\u00e3o do que \u00e9 o capitalismo<\/p>\n<p><strong>Reformismo<\/strong><\/p>\n<p>O protagonista do livro\u00a0<em>Capitalismo em debate \u2013 uma conversa em teoria cr\u00edtica<\/em>\u00a0(Boitempo, 2020) que escrevi em co-autoria com Rahel Jaeggi \u00e9 o capitalismo. Nosso objetivo l\u00e1 \u00e9 reviver a teoriza\u00e7\u00e3o social de \u201cgrande escala\u201d ou englobante. Na verdade, esse n\u00e3o \u00e9 um interesse novo para mim. Minha vis\u00e3o de mundo foi formada na Nova Esquerda, muito tempo atr\u00e1s; quando entrei na academia, trouxe comigo a firme convic\u00e7\u00e3o de que o capitalismo era a categoria principal ou o conceito de enquadramento para toda teoriza\u00e7\u00e3o social s\u00e9ria.<\/p>\n<p>Mas, \u00e0 medida que as d\u00e9cadas passavam e o etos da Nova Esquerda se desvanecia, comecei a perceber que nem todos compartilhavam dessa suposi\u00e7\u00e3o. Em vez disso, a posi\u00e7\u00e3o padr\u00e3o, pelo menos nos Estados Unidos, era (e ainda \u00e9) liberalismo de um tipo ou de outro, seja igualit\u00e1rio de esquerda ou individualista libert\u00e1rio. Quando essa compreens\u00e3o ocorreu, vi que minha experi\u00eancia formativa na Nova Esquerda havia sido uma aberra\u00e7\u00e3o, assim como os anos 1930 o foram para uma gera\u00e7\u00e3o anterior de radicais norte-americanos.<\/p>\n<p>Foram per\u00edodos em que a fraqueza estrutural de todo o sistema social se tornou amplamente aparente, levando muitas pessoas a radicalizar seu pensamento, a pesquisar as ra\u00edzes profundas dos problemas sociais e a identificar as mudan\u00e7as estruturais necess\u00e1rias para super\u00e1-los. Mas esses per\u00edodos foram excepcionais. Em tempos \u201cnormais\u201d, quase todos os americanos, incluindo aqueles que se inclinaram para a esquerda, ficaram focados em reformar o sistema, buscando expandir direitos e oportunidades dentro dele.<\/p>\n<p>Deixe-me ser clara: n\u00e3o me oponho a todos esses esfor\u00e7os; pode haver boas raz\u00f5es t\u00e1ticas para buscar certos tipos de reformas em situa\u00e7\u00f5es historicamente espec\u00edficas. Mas quando o reformismo se torna a perspectiva padr\u00e3o tomada como correta, o efeito \u00e9 desviar a aten\u00e7\u00e3o das estruturas fundamentais da totalidade social. E isso est\u00e1 fadado a ser pol\u00edtica e intelectualmente incapacitante no longo prazo \u2013 principalmente em tempos de crise aguda, como presentemente.<\/p>\n<p>De qualquer forma, chegou um ponto em que tomei ci\u00eancia do problema: o interesse pela cr\u00edtica estrutural da totalidade social estava diminuindo nos c\u00edrculos progressistas. Em resposta, fiz uma s\u00e9rie de interven\u00e7\u00f5es destinadas a expor a amn\u00e9sia da economia pol\u00edtica \u2013 mostrando como ela havia ficado fora da cr\u00edtica feminista e antirracista, da Teoria Cr\u00edtica em todos os sentidos, assim como de todas as formas de pensamento igualit\u00e1rio.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m argumentei que um foco unilateral em quest\u00f5es de reconhecimento ou pol\u00edtica de identidade se encaixava no processo de neoliberaliza\u00e7\u00e3o ent\u00e3o em andamento e o fortalecia. Passei, assim, do pensamento bem \u00f3bvio de que o capitalismo era a quest\u00e3o central na teoriza\u00e7\u00e3o cr\u00edtica para a compreens\u00e3o de que essa tese tinha de ser discutida. Com o objetivo de enfrentar a quest\u00e3o diretamente, comecei a tentar convencer meus leitores a redirecionar sua aten\u00e7\u00e3o para o capitalismo. Essa agenda foi posta em destaque no livro.<\/p>\n<p>O livro tamb\u00e9m \u00e9 uma tentativa de integrar os melhores\u00a0<em>insights<\/em>\u00a0do marxismo com os da teoria feminista e da LGBTQ, a teoria anti-imperialista e cr\u00edtica do racismo, a teoria democr\u00e1tica e ecol\u00f3gica \u2013 resumindo tudo o que aprendemos desde os anos 1960. A meu ver, este processo n\u00e3o consiste em adicionar novas vari\u00e1veis ou \u201csistemas\u201d aos paradigmas marxistas existentes. Em vez disso, requer revisitar o conceito de capitalismo e pens\u00e1-lo de forma diferente.<\/p>\n<p><strong>Capitalismo<\/strong><\/p>\n<p>Muitas pessoas pensam que o capitalismo \u00e9 simplesmente um sistema econ\u00f4mico. Essa \u00e9 a vis\u00e3o dos economistas tradicionais e dirigentes das corpora\u00e7\u00f5es. \u00c9 tamb\u00e9m o senso comum da maioria das chamadas pessoas, incluindo os progressistas e, at\u00e9 mesmo, muitos que se autodenominam marxistas. Mas essa vis\u00e3o do capitalismo \u00e9 muito estreita. Ela obscurece todas as condi\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas necess\u00e1rias para uma economia capitalista prosperar, coisas das quais ela depende e das quais se apropria livremente, mas que despreza e n\u00e3o consegue recuperar.<\/p>\n<p>Direi quais s\u00e3o essas condi\u00e7\u00f5es concretamente em um minuto. Mas quero dizer algo primeiro: tudo o que constitui numa pressuposi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para a economia capitalista precisa figurar diretamente em nossa defini\u00e7\u00e3o do que \u00e9 o capitalismo. Longe de ser uma mera \u201ceconomia\u201d, o capitalismo \u00e9 algo maior, uma \u201cordem social institucionalizada\u201d no mesmo n\u00edvel de que o foi, por exemplo, o feudalismo. Assim como o feudalismo n\u00e3o era simplesmente um sistema econ\u00f4mico, nem um sistema militar, nem um sistema pol\u00edtico, mas uma ordem social ampla que abrangia tudo isso, o mesmo \u00e9 verdade para o capitalismo. \u00c9 uma forma de organiza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o apenas da produ\u00e7\u00e3o e troca econ\u00f4micas, mas da\u00a0<em>rela\u00e7\u00e3o\u00a0<\/em>da produ\u00e7\u00e3o e da troca com uma ampla gama de rela\u00e7\u00f5es, atividades e processos sociais, tidos como n\u00e3o econ\u00f4micos, que tornam a economia poss\u00edvel. No livro, descrevo quatro dessas condi\u00e7\u00f5es de fundo n\u00e3o econ\u00f4micas sem as quais uma economia capitalista n\u00e3o poderia existir.<\/p>\n<p>A primeira \u00e9 a reprodu\u00e7\u00e3o social \u2013 ou, como muitos agora o chamam, o \u201ccuidado\u201d (<em>carework<\/em>). Incluem-se aqui todas as atividades que criam, socializam, nutrem, sustentam e reabastecem os seres humanos que ocupam cargos na economia. Voc\u00ea n\u00e3o pode ter uma economia capitalista sem \u201ctrabalhadores\u201d que produzem mercadorias sob a \u00e9gide de empresas com fins lucrativos. E voc\u00ea n\u00e3o pode t\u00ea-los sem os \u201ccuidadores\u201d que reproduzem seres humanos em ambientes externos \u00e0 economia oficial. O cuidado inclui a gesta\u00e7\u00e3o, o parto, a amamenta\u00e7\u00e3o, a alimenta\u00e7\u00e3o, o banho, a socializa\u00e7\u00e3o, a educa\u00e7\u00e3o, a cura, a prote\u00e7\u00e3o, o consolo \u2013 em suma, tudo o que \u00e9 essencial para sustentar seres que s\u00e3o ao mesmo tempo biol\u00f3gicos e sociais.<\/p>\n<p>Historicamente, muito desse trabalho n\u00e3o era pago, pois era realizado por mulheres \u2013 frequentemente em fam\u00edlias, mas tamb\u00e9m em comunidades, bairros e vilas; em associa\u00e7\u00f5es da sociedade civil, ag\u00eancias do setor p\u00fablico e, cada vez mais agora, em empresas com fins lucrativos, como escolas e lares de idosos. Mas, onde quer que seja feita, a reprodu\u00e7\u00e3o social \u00e9 uma pr\u00e9-condi\u00e7\u00e3o indispens\u00e1vel para a produ\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica \u2013 portanto, para a obten\u00e7\u00e3o de lucro e a acumula\u00e7\u00e3o de capital.<\/p>\n<p>No entanto, o capital n\u00e3o mede esfor\u00e7os para evitar o pagamento desse servi\u00e7o \u2013 e, quando n\u00e3o pode faz\u00ea-lo, se esfor\u00e7a para pagar o m\u00ednimo poss\u00edvel por ele. E isso tem de ser tomado como um problema. Como as sociedades capitalistas incentivam os neg\u00f3cios a se aproveitarem da assist\u00eancia m\u00e9dica sem a obriga\u00e7\u00e3o de financi\u00e1-la, elas consolidam uma tend\u00eancia profunda \u00e0 crise s\u00f3cio-reprodutiva, bem como uma ordena\u00e7\u00e3o de g\u00eanero que subordina as mulheres.<\/p>\n<p>Uma segunda pr\u00e9-condi\u00e7\u00e3o para a economia capitalista prosperar \u00e9 ecol\u00f3gica. Assim como uma economia capitalista depende dos servi\u00e7os assistenciais, depende tamb\u00e9m da disponibilidade de energia para alimentar a produ\u00e7\u00e3o e dos substratos materiais, incluindo as \u201cmat\u00e9rias-primas\u201d para a ind\u00fastria de transforma\u00e7\u00e3o. O capital depende, em suma, da \u201cnatureza\u201d \u2013 primeiro, das subst\u00e2ncias espec\u00edficas apropriadas diretamente pela produ\u00e7\u00e3o; e segundo, das condi\u00e7\u00f5es ambientais gerais, tais como ar respir\u00e1vel, \u00e1gua pot\u00e1vel, solo f\u00e9rtil, n\u00edveis do mar relativamente est\u00e1veis, um clima habit\u00e1vel e assim por diante.<\/p>\n<p>Mas a\u00ed se encontra o problema. Pela sua pr\u00f3pria concep\u00e7\u00e3o, a sociedade capitalista incentiva os propriet\u00e1rios a tratar a natureza como um tesouro \u201cn\u00e3o econ\u00f4mico\u201d inesgot\u00e1vel, dispon\u00edvel para ser apropriado infinitamente, sem necessidade de reposi\u00e7\u00e3o ou reparo, na suposi\u00e7\u00e3o de que ele se autorregenera. Ora, isso \u00e9 uma receita para o desastre que talvez agora finalmente compreendemos. As sociedades capitalistas institucionalizam uma tend\u00eancia estrutural \u00e0 crise ecol\u00f3gica \u2013 bem como aprofundam as vulnerabilidades da natureza que prov\u00eam de sua a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Essas disparidades apontam para uma terceira condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para a acumula\u00e7\u00e3o de capital: a riqueza confiscada das popula\u00e7\u00f5es subjugadas. Quase sempre dominadas racialmente, essas popula\u00e7\u00f5es s\u00e3o destinadas \u00e0 expropria\u00e7\u00e3o \u2013 e n\u00e3o \u00e0 explora\u00e7\u00e3o. Privadas da prote\u00e7\u00e3o estatal e de direitos ativ\u00e1veis, suas terras e trabalho podem ser tomados sem remunera\u00e7\u00e3o para serem canalizados para os circuitos de acumula\u00e7\u00e3o. A expropria\u00e7\u00e3o \u00e9 muitas vezes vista como uma forma antiga e que foi substitu\u00edda por uma de um sistema que acumula riqueza por meio da explora\u00e7\u00e3o (gratuita) de \u201ctrabalhadores\u201d nas f\u00e1bricas. Mas isso \u00e9 um erro.<\/p>\n<p>A produ\u00e7\u00e3o capitalista n\u00e3o seria lucrativa sem um fluxo cont\u00ednuo de insumos baratos, incluindo recursos naturais e trabalho n\u00e3o livre ou dependente, confiscados de popula\u00e7\u00f5es sujeitas \u00e0 conquista, escravid\u00e3o, troca desigual, encarceramento ou d\u00edvida predat\u00f3ria e, portanto, incapaz de contra-atacar. Lembre-se: atr\u00e1s de Manchester ficava o Mississippi, ou seja, era o trabalho escravo que fornecia algod\u00e3o cru barato e que alimentava as ic\u00f4nicas f\u00e1bricas de t\u00eaxteis no in\u00edcio da industrializa\u00e7\u00e3o. Mas o mesmo \u00e9 verdade hoje: atr\u00e1s de Cupertino fica Kinshasa, onde o \u201ccoltan\u201d para iPhones \u00e9 extra\u00eddo de forma barata, \u00e0s vezes por crian\u00e7as congolesas escravizadas.<\/p>\n<p>Na verdade, a sociedade capitalista \u00e9 necessariamente imperialista. Ela cria continuamente popula\u00e7\u00f5es indefesas para a expropria\u00e7\u00e3o. A sua economia n\u00e3o funciona se todos recebem sal\u00e1rios que cobrem seus verdadeiros custos de reprodu\u00e7\u00e3o. Ela n\u00e3o funciona sem uma linha de cor que divide globalmente as popula\u00e7\u00f5es entre aquelas que s\u00e3o \u201cmeramente\u201d explor\u00e1veis daquelas que s\u00e3o totalmente expropriadas. Ao institucionalizar essa divis\u00e3o, o capitalismo tamb\u00e9m fortalece a opress\u00e3o racial-imperial e as lutas pol\u00edticas que a cercam.<\/p>\n<p>Isso sugere uma quarta condi\u00e7\u00e3o de fundo para a subsist\u00eancia da economia capitalista: o poder p\u00fablico \u2013 paradigmaticamente, mas n\u00e3o apenas, o poder do Estado. A acumula\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode prosseguir sem a atua\u00e7\u00e3o desse poder em seu n\u00facleo hist\u00f3rico: sem sistemas jur\u00eddicos que garantam a propriedade privada e as trocas contratuais. Tamb\u00e9m s\u00e3o essenciais as for\u00e7as repressivas que administram a dissid\u00eancia, acabam com as rebeli\u00f5es e refor\u00e7am as hierarquias de status que permitem \u00e0s corpora\u00e7\u00f5es expropriar popula\u00e7\u00f5es dominadas racialmente em casa e no exterior.<\/p>\n<p>E o sistema tamb\u00e9m n\u00e3o pode funcionar sem regulamenta\u00e7\u00f5es e os bens p\u00fablicos, incluindo as infraestruturas de v\u00e1rios tipos e da oferta monet\u00e1ria est\u00e1vel. Estes recursos s\u00e3o indispens\u00e1veis para a acumula\u00e7\u00e3o; contudo, eles n\u00e3o podem ser fornecidos pelo mercado. Em vez disso, eles s\u00f3 podem ser garantidos pelo exerc\u00edcio do poder p\u00fablico. O capital precisa, portanto, desse poder; mas tamb\u00e9m est\u00e1 preparado para min\u00e1-lo \u2013 sonegando os impostos, enfraquecendo as regulamenta\u00e7\u00f5es, terceirizando as opera\u00e7\u00f5es ou capturando ag\u00eancias p\u00fablicas. O resultado disso tudo \u00e9 um conjunto de tens\u00f5es embutidas entre \u201co econ\u00f4mico\u201d e \u201co pol\u00edtico\u201d \u2013 e esta \u00e9 uma tend\u00eancia profundamente arraigada da crise pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Em todos os quatro casos, as sociedades capitalistas instituem rela\u00e7\u00f5es contradit\u00f3rias entre os seus sistemas econ\u00f4micos e as condi\u00e7\u00f5es n\u00e3o econ\u00f4micas necess\u00e1rias para que subsistam. Essas rela\u00e7\u00f5es se tornam vis\u00edveis apenas quando entendemos o capitalismo de forma ampla \u2013 n\u00e3o como um \u201cmero\u201d sistema econ\u00f4mico, mas como uma ordem social institucionalizada que tamb\u00e9m inclui reprodu\u00e7\u00e3o social, natureza, riqueza expropriada de popula\u00e7\u00f5es subalternas e poder p\u00fablico \u2013 todos os quais s\u00e3o essenciais para acumula\u00e7\u00e3o, mas, ao mesmo tempo, s\u00e3o predados, desestabilizados e esgotados por ela.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o ponto principal do livro\u00a0<em>Capitalismo em debate \u2013 uma conversa em teoria cr\u00edtica<\/em>: substituir a defini\u00e7\u00e3o estreita de capitalismo como um sistema econ\u00f4mico por uma vis\u00e3o ampliada dele. Esta abordagem amplia nossa vis\u00e3o das contradi\u00e7\u00f5es do capitalismo e, portanto, explica por que as sociedades capitalistas s\u00e3o propriamente \u2013 e n\u00e3o acidentalmente \u2013 propensas a crises sist\u00eamicas \u2013 algumas das quais parecem ser \u201cn\u00e3o econ\u00f4micas\u201d. Ele busca tamb\u00e9m integrar o velho interesse dos socialistas na explora\u00e7\u00e3o com as preocupa\u00e7\u00f5es das feministas, ambientalistas, antirracistas, anti-imperialistas e democratas radicais.<\/p>\n<p><strong>As falhas do sistema<\/strong><\/p>\n<p>As tens\u00f5es est\u00e3o fadadas a surgir em qualquer forma de sociedade capitalista \u2013 n\u00e3o importa exatamente como se encontram disjuntas a produ\u00e7\u00e3o da reprodu\u00e7\u00e3o social, a economia da pol\u00edtica, a sociedade da natureza, a explora\u00e7\u00e3o do trabalho expropriado. Essas disjun\u00e7\u00f5es representam as falhas do sistema, as juntas que registram suas contradi\u00e7\u00f5es, as quais se acirram \u00e0 medida que o capital desestabiliza suas pr\u00f3prias condi\u00e7\u00f5es de possibilidade. O capital ele est\u00e1 disposto, como disse, a canibalizar a assist\u00eancia social, a natureza, o poder p\u00fablico, a riqueza das popula\u00e7\u00f5es dominadas racialmente \u2013 e assim, periodicamente, passa a amea\u00e7ar o bem-estar de quase todas as pessoas que n\u00e3o s\u00e3o propriet\u00e1rios. N\u00e3o importa o qu\u00e3o bem um determinado regime de acumula\u00e7\u00e3o consiga refinar essas contradi\u00e7\u00f5es por um tempo, ele nunca poder\u00e1 domin\u00e1-las totalmente. Eventualmente, eles ressurgem e o regime come\u00e7a a se desintegrar.<\/p>\n<p>O que se segue \u00e9 um interregno, um per\u00edodo de incerteza entre regimes sociais e pol\u00edticos, quando todas as irracionalidades e injusti\u00e7as do sistema surgem \u00e0 vista de todos. Em tais momentos \u2013 e houve apenas um punhado deles na hist\u00f3ria de mais de 500 anos do capitalismo \u2013, o que emerge n\u00e3o \u00e9 \u201capenas\u201d uma crise setorial, mas uma crise completa de toda a ordem social, que abala o senso comum reinante. E isso abre a porta para um espa\u00e7o p\u00fablico muito mais selvagem, onde atores sociais recentemente radicalizados apresentam uma ampla gama de ideias concorrentes sobre o que deve substitu\u00ed-lo. Visando construir uma contra-hegemonia, eles lutam para montar um novo bloco hist\u00f3rico com peso suficiente para reorganizar a sociedade capitalista \u2013 n\u00e3o apenas reestruturando a economia, mas tamb\u00e9m refazendo as rela\u00e7\u00f5es desta com suas condi\u00e7\u00f5es \u201cn\u00e3o econ\u00f4micas\u201d que o tornam poss\u00edvel.<\/p>\n<p>O resultado em cada uma dessas situa\u00e7\u00f5es at\u00e9 o momento tem sido uma nova forma de capitalismo, que supera, pelo menos por um tempo, as contradi\u00e7\u00f5es geradas pelo regime anterior, at\u00e9 que o mais recente gere, tamb\u00e9m, as suas pr\u00f3prias contradi\u00e7\u00f5es, cedendo ent\u00e3o espa\u00e7o para o pr\u00f3ximo. Este \u00e9 o padr\u00e3o de desenvolvimento capitalista at\u00e9 hoje: uma sucess\u00e3o de regimes, pontuada por crises de desenvolvimento.<\/p>\n<p>Assim, podemos distinguir entre a \u201cpol\u00edtica normal\u201d, quando uma massa cr\u00edtica de pessoas aceita os termos da ordem social como dados e luta para melhorar a sua posi\u00e7\u00e3o dentro dela \u2013 e a pol\u00edtica \u201canormal\u201d, quando toda a ordem parece inst\u00e1vel e \u00e9 posta em quest\u00e3o. As \u00faltimas situa\u00e7\u00f5es representam epis\u00f3dios libertadores raros \u2013 e relativamente enf\u00e1ticos \u2013, quando podemos contemplar a mudan\u00e7a das regras do jogo.<\/p>\n<p>Sou especialmente influenciada por\u00a0<em>O longo s\u00e9culo XX\u00a0<\/em>(Contraponto\/Unesp) de Giovanni Arrighi, assim como pela Escola da regula\u00e7\u00e3o francesa. Concordo com a sua ordem sucessiva de regimes: capitalismo mercantilista ou comercial; capitalismo\u00a0<em>laissez-faire<\/em>\u00a0ou liberal-colonial; capitalismo organizado pelo Estado ou social-democrata; capitalismo neoliberal ou financeirizado.<\/p>\n<p>Mas concebo esses regimes de forma diferente. Aqueles pensadores enfocaram as rela\u00e7\u00f5es entre Estados e mercados, mostrando como uma dada divis\u00e3o entre eles tornou-se contestada e, depois, revisada. Isso \u00e9 importante, com certeza. Mas \u00e9 apenas um dos v\u00e1rios enredos de uma hist\u00f3ria maior. As mudan\u00e7as de regime compreendem mais do que mudan\u00e7as nas rela\u00e7\u00f5es entre economia e pol\u00edtica; tamb\u00e9m mudam a rela\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o com a reprodu\u00e7\u00e3o, da economia com a natureza, da explora\u00e7\u00e3o com a expropria\u00e7\u00e3o. Essas outras vertentes foram negligenciadas na maioria das periodiza\u00e7\u00f5es anteriores. Mas s\u00e3o centrais na compreens\u00e3o que defendo. Como disse, estou empenhada em expandir nossa compreens\u00e3o do capitalismo de modo a incluir g\u00eanero, ecologia, ra\u00e7a e imp\u00e9rio. E isso requer trazer as partes que foram negligenciadas da hist\u00f3ria para o interior de nossas periodiza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: O que \u00e9 o capitalismo? &#8211; A TERRA \u00c9 REDONDA. Link: https:\/\/aterraeredonda.com.br\/o-que-e-o-neoliberalismo\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>NANCY FRASER &#8211;\u00a0Tudo o que constitui numa pressuposi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para a economia capitalista precisa figurar diretamente em nossa defini\u00e7\u00e3o do que \u00e9 o capitalismo Reformismo O protagonista do livro\u00a0Capitalismo em debate \u2013 uma conversa em teoria cr\u00edtica\u00a0(Boitempo, 2020) que escrevi em co-autoria com Rahel Jaeggi \u00e9 o capitalismo. 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