{"id":15723,"date":"2021-09-26T12:41:42","date_gmt":"2021-09-26T15:41:42","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=15723"},"modified":"2021-09-25T12:45:32","modified_gmt":"2021-09-25T15:45:32","slug":"evergrande-falencia-e-oportunidade-na-china","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2021\/09\/26\/evergrande-falencia-e-oportunidade-na-china\/","title":{"rendered":"Evergrande: fal\u00eancia e oportunidade na China"},"content":{"rendered":"<p><strong>Michael Roberts &#8211; <\/strong>O Grupo Evergrande \u00e9 o segundo maior conglomerado imobili\u00e1rio da China e est\u00e1 agora \u00e0 beira da fal\u00eancia. Contratou, por causa disso consultores especializados em reestrutura\u00e7\u00e3o e alertou os investidores que a sua liquidez est\u00e1 sob\u00a0<em>\u201ctremenda press\u00e3o\u201d\u00a0<\/em>por causa do colapso das vendas e dos protestos de compradores de resid\u00eancia e de investidores imobili\u00e1rios. Com sede em Shenzhen, no sul da China, o Evergrande est\u00e1 sobrecarregado, pois o seu passivo monta quase 2 trilh\u00f5es renminbi (moeda chinesa), ou seja, mais de 300 bilh\u00f5es de d\u00f3lares.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/1mr.png?resize=577%2C384&#038;ssl=1\" sizes=\"auto, (max-width: 577px) 100vw, 577px\" srcset=\"https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/1mr.png 577w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/1mr-300x200.png 300w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/1mr-272x182.png 272w\" alt=\"\" width=\"577\" height=\"384\" \/><\/p>\n<p>O pre\u00e7o das a\u00e7\u00f5es da controladora, a empresa 3333.HK, caiu 76% desde o in\u00edcio do ano. Em agosto, Xu Jiayin, o fundador do Evergrande \u2013 e um dos homens mais ricos da China \u2013 deixou o cargo de presidente do grupo. A negocia\u00e7\u00e3o dos t\u00edtulos da empresa foi suspensa em Xangai. A pol\u00edcia invadiu o seu pr\u00e9dio de escrit\u00f3rios, em Shenzhen, quando investidores individuais da empresa se reuniram para exigir o reembolso. Eles haviam investido na mir\u00edade de produtos voltados \u00e0 \u201cgest\u00e3o de patrim\u00f4nio\u201d.<\/p>\n<p>A morte dessa empresa \u201cn\u00e3o sempre t\u00e3o grande\u201d \u00e9 um reflexo dos perigos da especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria descontrolada que vem ocorrendo no setor capitalista da economia chinesa. A Evergrande depende fortemente dos clientes que pagam pelos apartamentos antes da conclus\u00e3o dos projetos.<\/p>\n<p>O seu modelo de acumula\u00e7\u00e3o \u00e9 essencialmente um esquema Ponzi: a empresa coleta dinheiro n\u00e3o s\u00f3 da pr\u00e9-venda de um n\u00famero cada vez maior de apartamentos, mas tamb\u00e9m de centenas de milhares de investidores individuais; assim, torna-se capaz de usar o dinheiro para financiar vendas adicionais, acelerando as constru\u00e7\u00f5es em andamento e obtendo novos adiantamentos.<\/p>\n<p>Como qualquer esquema Ponzi, o m\u00e9todo funciona enquanto estiver acelerando. Mas quando o mercado desacelera, os fluxos de entrada de caixa come\u00e7am a ficar para tr\u00e1s da crescente demandas por pagamentos. A Evergrande tem agora cerca de 800 projetos inacabados e cerca de 1,2 milh\u00e3o de pessoas esperando para se mudar.<\/p>\n<p>Considere-se, agora, um grande projeto da Evergrande. E veja-se que os pre\u00e7os das suas propriedades situadas a cerca de 90 km de Xangai, no litoral, triplicaram desde o in\u00edcio das vendas em 2012; ademais, 80% dos apartamentos foram vendidos no total, embora cerca de um ter\u00e7o ainda esteja desocupado. Mas este ano as vendas desaceleraram. Dados da ag\u00eancia de habita\u00e7\u00e3o municipal de Qidong mostram que apenas 60% dos apartamentos \u00e0 venda foram vendidos, apesar de um desconto de 15% no pre\u00e7o. A gigante imobili\u00e1ria introduziu descontos em todos os seus apartamentos de at\u00e9 30% sobre o pre\u00e7o inicial. Ademais, buscou levantar caixa por meio da venda de suas participa\u00e7\u00f5es em outras empresas.<\/p>\n<p>O caso da Evergrande revela que o enorme esfor\u00e7o de urbaniza\u00e7\u00e3o posto em andamento para abrigar o povo da China chegou a um impasse final. Na transforma\u00e7\u00e3o por que passaram as cidades desse pa\u00eds, a taxa de urbaniza\u00e7\u00e3o ultrapassou 60% no ano passado, em compara\u00e7\u00e3o com 50% em 2011. Sabe-se que 90% dos chineses possuem suas casas, principalmente sem hipotecas. Mas esse processo de urbaniza\u00e7\u00e3o foi conduzido pelo setor privado e, portanto, com fins lucrativos, de tal modo que a constru\u00e7\u00e3o de im\u00f3veis residenciais se tornou um investimento em ativos financeiros \u2013 exatamente como acontece nas principais economias do G7.<\/p>\n<p>Essa \u201cfinanceiriza\u00e7\u00e3o\u201d come\u00e7ou no final da d\u00e9cada de 1990. Ent\u00e3o, o governo passou a seguir uma pol\u00edtica de fazer com que as empresas estatais vendessem os seus ativos residenciais para os pr\u00f3prios funcion\u00e1rios \u2013 uma venda do tipo que Thatcher usara na Inglaterra. A ideia da pol\u00edtica consistia em admitir que a partir de ent\u00e3o caberia ao setor privado \u2013 e n\u00e3o ao Estado \u2013 cuidar da habita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Assim, em vez de a habita\u00e7\u00e3o\u00a0<em>\u201cser para morar\u201d<\/em>, passou a ser um setor\u00a0<em>\u201cpara especular\u201d,\u00a0<\/em>segundo Xi Jinping<em>.<\/em>\u00a0A compra de apartamentos tornou-se a forma de investimento preferida das pessoas na China. Poucos compradores compravam um apartamento da Evergrande como resid\u00eancia principal. Ela atendeu explicitamente os chineses em melhor situa\u00e7\u00e3o e, por isso, escolheu sempre locais para a edifica\u00e7\u00e3o de pr\u00e9dios fora das \u00e1reas que restringem o n\u00famero de unidades de que uma pessoa pode ser propriet\u00e1ria. Ao faz\u00ea-lo, anunciava os empreendimentos como uma forma de obter uma segunda resid\u00eancia. Em toda a China, at\u00e9 mesmo vendedores e oper\u00e1rios de f\u00e1brica tornaram-se donos de apartamentos vazios, pois sonhavam \u201csempre grande\u201d em vend\u00ea-los com uma grande margem de lucro. Assim, podiam financiar os estudos de seus filhos no exterior ou a sua pr\u00f3pria aposentadoria.<\/p>\n<p>Os pre\u00e7os dos im\u00f3veis nas cidades costeiras, onde se trabalhava por um sal\u00e1rio melhor, dobraram nos \u00faltimos dez anos. Em Shenzhen, o pre\u00e7o m\u00e9dio dos apartamentos subiu tanto que alguns acharam mais barato morar em Hong Kong, um dos mercados imobili\u00e1rios mais caros do mundo. Desde 2015, os pre\u00e7os dos im\u00f3veis residenciais subiram mais de 50% nas maiores cidades da China. Na \u00faltima d\u00e9cada, a oferta m\u00e9dia de lugares para residir nas dez principais cidades foi de apenas 23 m\u00b2 por morador \u2013 um cub\u00edculo pouco mais do que o tamanho de um quarto de hotel t\u00edpico. Essa dimens\u00e3o de apartamento \u00e9 60% menor do que o espa\u00e7o residencial m\u00e9dio per capita na China.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/2mr.png?resize=585%2C415&#038;ssl=1\" sizes=\"auto, (max-width: 585px) 100vw, 585px\" srcset=\"https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/2mr.png 585w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/2mr-300x213.png 300w\" alt=\"\" width=\"585\" height=\"415\" \/><\/p>\n<p>A especula\u00e7\u00e3o aumentou muito \u00e0 medida que os governos locais tentavam levantar fundos com a venda de terrenos para as empresas incorporadoras. Estas, constru\u00edam e ainda constroem propriedades por meio de empr\u00e9stimos a taxas baixas, muitas vezes obtidos no setor n\u00e3o-banc\u00e1rio que n\u00e3o \u00e9, tamb\u00e9m, regulamentado. \u201cA propriedade \u00e9 a fonte mais importante de risco financeiro e de desigualdade de riqueza na China\u201d \u2013disse Larry Hu, economista-chefe da Macquarie Securities na China, empresa de propriedade estrangeira. E ele est\u00e1 certo.<\/p>\n<p>Grande parte da especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria moveu-se do setor de habita\u00e7\u00e3o para o de empreendimentos comerciais. Isso ocorreu por op\u00e7\u00e3o dos governos locais que procuram aproveitar assim a prerrogativa de obter receita desse modo. Se conseguem atrair mais empresas para as suas jurisdi\u00e7\u00f5es e se essas empresas se tornam lucrativas, o governo local consegue coletar mais impostos corporativos. Ao mesmo tempo, eles mant\u00eam deliberadamente escassa a oferta de terrenos residenciais, pois \u00e9 assim que obt\u00eam mais recursos com a venda de terrenos para moradia. Assim, as vendas de terrenos residenciais subsidiam a venda de terrenos pr\u00f3-neg\u00f3cios. essa pol\u00edtica dos governos locais permite que os terrenos comerciais sejam vendidos mais baratos.<\/p>\n<p>O setor imobili\u00e1rio responde agora por 13% da economia chinesa quando fora apenas 5%, em 1995. Ademais, ele responde por cerca de 28% do total de empr\u00e9stimos feitos nesse pa\u00eds. Dado que os governos locais t\u00eam d\u00edvidas de US$ 10 trilh\u00f5es, a venda de terrenos se constitui numa fonte de receita imprescind\u00edvel \u2013 e mais confi\u00e1vel \u2013 para o pagamento das d\u00edvidas contra\u00eddas no passado. Portanto, quaisquer mudan\u00e7as dr\u00e1sticas aumentariam seriamente o risco de inadimpl\u00eancia dos governos locais.<\/p>\n<p>A forma de alavancar o setor imobili\u00e1rio, baseado na institui\u00e7\u00e3o da propriedade privada, tem se fundado na acumula\u00e7\u00e3o de mais terrenos assumindo grandes quantidades de d\u00edvidas \u2013 \u00e0s vezes em \u00e1reas especulativas fora das grandes cidades. No caso da Evergrande, veja-se que ela tem terra suficiente para abrigar toda a popula\u00e7\u00e3o de Portugal; ao mesmo tempo, ela tem mais d\u00edvidas do que a Nova Zel\u00e2ndia. Em 2010, tinha apenas 31 bilh\u00f5es de d\u00edvidas em renminbi (US$ 4,7 bilh\u00f5es); agora, ao final de 2020, a sua d\u00edvida somou US$ 190 bilh\u00f5es. Esses recursos estavam todos aplicados no desenvolvimento imobili\u00e1rio.<\/p>\n<p>Os crescentes problemas de cr\u00e9dito do grupo coincidiram com a mudan\u00e7a na pol\u00edtica governamental em dire\u00e7\u00e3o contr\u00e1ria \u00e0\u00a0<em>\u201cexpans\u00e3o desordenada do capital\u201d.\u00a0<\/em>Essa pol\u00edtica se voltou contra os grandes grupos de tecnologia, o setor imobili\u00e1rio, assim como contra outros setores monopolistas. O Minist\u00e9rio da Habita\u00e7\u00e3o do pa\u00eds anunciou uma campanha de inspe\u00e7\u00e3o com dura\u00e7\u00e3o de tr\u00eas anos com o fim de melhor regulamentar o setor imobili\u00e1rio.<\/p>\n<p>No ano passado, o governo implementou uma pol\u00edtica r\u00edgida destinada a reduzir a alavancagem dos desenvolvedores, pois a ag\u00eancia reguladora dos bancos na China havia classificado essa alavancagem como o maior risco financeiro do pa\u00eds. Os bancos foram instru\u00eddos a aumentar as taxas de hipotecas. Os governos locais foram orientados a acelerar o desenvolvimento de moradias para aluguel subsidiadas pelo governo. Ademais, foram instru\u00eddos a aumentar o escrut\u00ednio sobre tudo, desde o financiamento dos incorporadores, assim como os pre\u00e7os de casas rec\u00e9m-constru\u00eddas e at\u00e9 mesmo as transfer\u00eancias de t\u00edtulos.<\/p>\n<p>Em mais um caso cl\u00e1ssico de \u201cfinanceiriza\u00e7\u00e3o\u201d, a Evergrande financiou suas atividades emitindo t\u00edtulos que s\u00e3o chamados de \u201cprodutos de gest\u00e3o de fortunas\u201d. Na verdade, trata-se de t\u00edtulos garantidos por hipotecas que s\u00e3o vendidos para os investidores estrangeiros e chineses e que pagam altas taxas de juros (cerca de 7 a 9% ao ano). Nesse preciso momento, essa empresa est\u00e1 declarando sua incapacidade de cumprir com as obriga\u00e7\u00f5es financeiras assumidas. Essa expans\u00e3o descontrolada da d\u00edvida por parte da Evergrande e de outras empresas imobili\u00e1rias foi ignorada pelas autoridades regulat\u00f3rias da China. O mesmo acontecera nos Estados Unidos, o que levou \u00e0 crise imobili\u00e1ria e financeira de 2008, a qual amea\u00e7ou produzir um colapso financeiro global.<\/p>\n<p>O que vai acontecer se \u2013 e quando \u2013 a Evergrande quebrar? Outras empresas imobili\u00e1rias tamb\u00e9m ir\u00e3o quebrar junto com ela? Est\u00e1 a caminho um enorme colapso financeiro na China e, possivelmente, globalmente? Ocorrer\u00e1 o fim do boom imobili\u00e1rio na China? Bem, existem quatro outras grandes incorporadoras imobili\u00e1rias chinesas \u00e0 beira do abismo. Os pre\u00e7os dos t\u00edtulos em d\u00f3lar emitidos por essas empresas despencaram com o temor dos investidores internacionais de que esses t\u00edtulos n\u00e3o possam ser refinanciados quando vencerem, o que significaria um calote. Portanto, os investidores estrangeiros que aplicaram nesses t\u00edtulos est\u00e3o levando um grande susto. Pois, a capacidade dessas incorporadoras imobili\u00e1rias de emitir novas d\u00edvidas para levantar dinheiro novo, visando um refinanciamento das d\u00edvidas contra\u00eddas no passado, desapareceu.<\/p>\n<p>Em minha opini\u00e3o, entretanto, n\u00e3o haver\u00e1 um colapso financeiro na China. O governo controla quase tudo, incluindo o banco central e os quatro grandes bancos comerciais que tamb\u00e9m s\u00e3o estatais. Estes \u00faltimos s\u00e3o considerados os \u201cmaiores bancos do mundo\u201d. Ainda que sejam chamados \u201cbancos ruins\u201d porque absorvem os empr\u00e9stimos falidos, s\u00e3o grandes gestores de ativos, a maioria deles das maiores empresas. O governo pode simplesmente ordenar que esses quatro grandes bancos troquem os empr\u00e9stimos inadimplentes por participa\u00e7\u00f5es acion\u00e1rias \u2013 assim ser\u00e1 poss\u00edvel \u201cesquec\u00ea-los\u201d.<\/p>\n<p>O governo pode tamb\u00e9m dizer ao banco central, o Banco Popular da China, para fazer o que for preciso. Pode dizer aos gestores de ativos estatais e fundos de pens\u00e3o que comprem a\u00e7\u00f5es e t\u00edtulos para sustentar os pre\u00e7os e financiar empresas. Pode dizer aos bancos ruins do Estado que comprem d\u00edvidas ruins dos bancos comerciais. Portanto, uma crise financeira \u00e9 descartada porque o Estado controla o sistema banc\u00e1rio.<\/p>\n<p>Mas, mesmo se n\u00e3o ocorrer um\u00a0<em>crash<\/em>, o que se dir\u00e1 de uma quebra generalizada do mercado imobili\u00e1rio e uma alta inadimpl\u00eancia das d\u00edvidas contra\u00eddas em grande n\u00edvel? Isso n\u00e3o reduzir\u00e1 a capacidade da China de crescer no ritmo anteriormente alcan\u00e7ado e planejado para os pr\u00f3ximos cinco anos? Os economistas ocidentais s\u00e3o claros sobre isso: a d\u00edvida \u00e9 t\u00e3o grande e os setores produtivos da China est\u00e3o agora t\u00e3o fracos que, mesmo que a China evite um colapso financeiro, o impacto sobre a renda das fam\u00edlias e os lucros do setor capitalista ser\u00e3o grandes o suficiente para reduzir o investimento e o crescimento do PIB. A China est\u00e1 caminhando para uma estagna\u00e7\u00e3o, se n\u00e3o para um decl\u00ednio.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que a China acumulou uma montanha de d\u00edvidas nos \u00faltimos anos \u2013 e a d\u00edvida imobili\u00e1ria \u00e9 uma parte significativa dela. A d\u00edvida total atingiu 317% do PIB, em 2020. Mas a maior parte dessa d\u00edvida \u00e9 em moeda nacional, sendo devida por uma entidade estatal a outra. Ou seja, d\u00edvida do governo local aos bancos estaduais, dos bancos estaduais ao governo central etc. Quando tudo isso \u00e9 compensado, a d\u00edvida das fam\u00edlias (54% do PIB) e das empresas n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o alta, enquanto a d\u00edvida do governo central \u00e9 baixa para os padr\u00f5es globais. Al\u00e9m disso, a d\u00edvida externa em d\u00f3lares em rela\u00e7\u00e3o ao PIB \u00e9 muito baixa (15%) e, de fato, o resto do mundo deve \u00e0 China muito mais: 6% da d\u00edvida global \u00e9 detida pela China. Ela \u00e9 um grande credor do mundo e possui enormes reservas em d\u00f3lares e euros, 50% maiores do que sua d\u00edvida em d\u00f3lares.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/3mr.png?resize=602%2C482&#038;ssl=1\" sizes=\"auto, (max-width: 602px) 100vw, 602px\" srcset=\"https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/3mr.png 602w, https:\/\/outraspalavras.net\/wp-content\/uploads\/2021\/09\/3mr-300x240.png 300w\" alt=\"\" width=\"602\" height=\"482\" \/><\/p>\n<p>Os l\u00edderes chineses querem reduzir o n\u00edvel de endividamento. Mas, como j\u00e1 expliquei em um texto anterior, o controle do n\u00edvel de endividamento pode ocorrer de duas maneiras: por meio do alto crescimento do investimento no setor produtivo para manter o \u00edndice da d\u00edvida sob controle; e\/ou por redu\u00e7\u00e3o do excesso de cr\u00e9dito em \u00e1reas improdutivas, tais como a propriedade especulativa. Esta \u00faltima op\u00e7\u00e3o traria uma redu\u00e7\u00e3o da lucratividade do setor capitalista na China e isso diminuiria o seu potencial de investimento produtivo. Portanto, haveria uma perda de lucros que repercutiria na renda das fam\u00edlias. A contra\u00e7\u00e3o aumentaria a press\u00e3o para baixo sobre o crescimento da produ\u00e7\u00e3o e da renda.<\/p>\n<p>Mas essa previs\u00e3o \u00e9 baseada na vis\u00e3o de que o governo chin\u00eas vai continuar a depender cada vez mais de seu setor capitalista para obter resultados. No entanto, o setor capitalista da China est\u00e1 com muitos problemas, assim como os mesmos setores nas economias do G7. A lucratividade no setor capitalista tem ca\u00eddo e agora est\u00e1 em n\u00edveis m\u00ednimos hist\u00f3ricos. As atividades econ\u00f4micas est\u00e3o cada vez mais crescendo em setores \u201cimprodutivos\u201d, como o financiamento dos consumidores, propriedade imobili\u00e1ria ou mesmo de m\u00eddia social.<\/p>\n<p>Tal como argumentei antes, a contradi\u00e7\u00e3o b\u00e1sica da economia chinesa n\u00e3o \u00e9 entre o investimento e o consumo, ou entre o crescimento e a d\u00edvida; ela se encontra na lucratividade do capital e na produtividade do trabalho. O tamanho e a influ\u00eancia crescente do setor capitalista na China est\u00e3o enfraquecendo o desempenho da economia, ao mesmo tempo em que favorecem o aumento das desigualdades. Na minha opini\u00e3o, a economia chinesa agora \u00e9 forte o suficiente para n\u00e3o depender de investimento estrangeiro ou de setores capitalistas improdutivos para crescer. Aumentar o papel do planejamento e do investimento liderado pelo Estado, a principal base do sucesso econ\u00f4mico da China ao longo dos 70 anos da Rep\u00fablica Popular, nunca foi t\u00e3o atraente.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Evergrande: fal\u00eancia e oportunidade na China &#8211; Outras Palavras. Link: https:\/\/outraspalavras.net\/direitosouprivilegios\/evergrande-falencia-e-oportunidade-na-china\/<\/p>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Michael Roberts &#8211; O Grupo Evergrande \u00e9 o segundo maior conglomerado imobili\u00e1rio da China e est\u00e1 agora \u00e0 beira da fal\u00eancia. 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