{"id":15705,"date":"2021-09-18T12:28:26","date_gmt":"2021-09-18T15:28:26","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=15705"},"modified":"2021-09-16T21:30:17","modified_gmt":"2021-09-17T00:30:17","slug":"inflacao-agronegocio-e-a-ausencia-de-politicas-publicas-fazem-subir-o-preco-dos-alimentos-no-pais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2021\/09\/18\/inflacao-agronegocio-e-a-ausencia-de-politicas-publicas-fazem-subir-o-preco-dos-alimentos-no-pais\/","title":{"rendered":"Infla\u00e7\u00e3o, agroneg\u00f3cio e a aus\u00eancia de pol\u00edticas p\u00fablicas fazem subir o pre\u00e7o dos alimentos no Pa\u00eds"},"content":{"rendered":"<p><strong>Marina Verenicz<\/strong> &#8211; Em agosto, uma reportagem que mostrava pessoas na fila de um acougue que fazia doa\u00e7\u00e3o de ossos chocou o Pa\u00eds. Os resqu\u00edcios de carne que ficam nos ossos tem sido a principal fonte de alimento na casa de cuiabanos que vivem em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade financeira e inseguran\u00e7a alimentar. Essa cena se repetiu na \u00faltima semana, quando uma senhora foi flagrada aguardando a doa\u00e7\u00e3o de gordura de boi, desprezada por um com\u00e9rcio.<\/p>\n<p>No Brasil,\u00a0mais de 125,6 milh\u00f5es de pessoas vivem com algum tipo de incerteza quanto ao acesso \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o. Com a crise agravada pela pandemia e o aumento do pre\u00e7o dos alimentos, muitos brasileiros est\u00e3o com dificuldade de colocar comida na mesa.<\/p>\n<p>A ida ao supermercado ficou mais cara nos \u00faltimos meses. E n\u00e3o \u00e9 apenas impress\u00e3o. Um estudo da Universidade de Oxford com dados do Banco Mundial mostrou que foi no Brasil onde os pre\u00e7os dos alimentos subiram mais depressa na pandemia.<\/p>\n<p>Segundo um levantamento realizado pelo Departamento Intersindical de Estat\u00edstica e Estudos Socioecon\u00f4micos, o Dieese, divulgado em 5 de agosto, todas as capitais registraram aumento no pre\u00e7o da cesta b\u00e1sica. Bras\u00edlia foi a cidade onde esse valor subiu mais, com 29%, seguida por Porto Alegre (28,5%) e Vit\u00f3ria (26%).<\/p>\n<p>Essa alta \u00e9 provocada, em grande medida, pelo encarecimento dos alimentos que comp\u00f5em esse kit. O quilo do arroz subiu quase 70%; o feij\u00e3o preto, 51%; a batata, 47%; a carne, quase 30%; leite, 20%; e no \u00f3leo de soja alta de 87%, entre mar\u00e7o de 2020 e o mesmo m\u00eas de 2021.<\/p>\n<p>Para quem ganha um sal\u00e1rio m\u00ednimo, foi preciso comprometer mais de metade da renda com alimenta\u00e7\u00e3o. Ainda segundo o Dieese, o trabalhador remunerado pelo piso nacional comprometeu 55%, em m\u00e9dia, do seu sal\u00e1rio m\u00ednimo l\u00edquido para comprar alimentos b\u00e1sicos para uma pessoa adulta. Em junho, esse percentual foi de 53%.<\/p>\n<p>A edi\u00e7\u00e3o de maio da Pesquisa Nacional da Cesta B\u00e1sica da Dieese apontou que o sal\u00e1rio m\u00ednimo necess\u00e1rio para as despesas b\u00e1sicas de um trabalhador e sua fam\u00edlia teria que ser de 5.351,11 reais. Esse valor corresponde a 4,86 vezes o m\u00ednimo oficial, de 1.100 reais.<\/p>\n<p>Ao comentar sobre o assunto, o presidente Jair Bolsonaro, chegou a colocar a\u00a0<a href=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/politica\/bolsonaro-diz-que-o-preco-do-ovo-tambem-aumentou-e-a-lei-da-oferta-e-da-procura\/\">alta dos pre\u00e7os dos alimentos na conta do consumo<\/a>, baseando-se na l\u00f3gica mercadol\u00f3gica de que quanto maior a demanda, maior ser\u00e3o os pre\u00e7os. No entanto, tal afirma\u00e7\u00e3o ignora a realidade brasileira.<\/p>\n<p>O aux\u00edlio emergencial de 600 reais permitiu que as pessoas continuassem a consumir apesar da crise. Mas o valor passa longe do suficiente para atender as fam\u00edlias vulner\u00e1veis.<\/p>\n<p>Hoje o Brasil tem vinte milh\u00f5es de pessoas, aproximadamente, sem ter o que comer e mais da metade da popula\u00e7\u00e3o brasileira sofrendo diferentes n\u00edveis inseguran\u00e7a alimentar. A compara\u00e7\u00e3o com 2018 (10,3 milh\u00f5es) revela que s\u00e3o 9 milh\u00f5es de pessoas a mais nessa condi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O Brasil, que havia deixado o chamado Mapa da Fome da ONU em 2014, registrou um retrocesso. Nos anos de 2017 e 2018, o IBGE mostrou que a situa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a alimentar era vivenciada por 63,3% dos domic\u00edlios pesquisados.<\/p>\n<p>Ao assumir o governo federal, o presidente Jair Bolsonaro extinguiu o Conselho Nacional de Seguran\u00e7a Alimentar e Nutricional (Consea), que tinha atribui\u00e7\u00e3o de propor ao governo federal diretrizes e prioridades da pol\u00edtica de seguran\u00e7a alimentar e nutricional.<\/p>\n<p>Um estudo de pesquisadores vinculados a universidades na Alemanha e no Brasil, que mostrou que 59% dos domic\u00edlios entrevistados no fim de 2020 estavam em situa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a alimentar durante a pandemia, tamb\u00e9m citou o fim desse Conselho como um dos \u201cretrocessos institucionais e or\u00e7ament\u00e1rios na agenda da seguran\u00e7a alimentar e nutricional\u201d.<\/p>\n<p>Os pesquisadores destacam o fim do Minist\u00e9rio do Desenvolvimento Agr\u00e1rio (2016) e o baixo investimento no Programa de Aquisi\u00e7\u00e3o de Alimentos (PAA) e no Programa Nacional de Alimenta\u00e7\u00e3o Escolar (PNAE), como fatores importantes para analisar este cen\u00e1rio.<\/p>\n<p>Em junho, o ministro da Economia, Paulo Guedes, fez uma declara\u00e7\u00e3o, em que\u00a0<a href=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/politica\/guedes-diz-que-excessos-da-classe-media-podem-alimentar-mendigos-e-desamparados-politicos-reagem\/\">comparou a quantidade de comida do prato dos europeus e dos brasileiros<\/a>, numa clara tentativa de atribuir a situa\u00e7\u00e3o atual do Pa\u00eds com o apetite do brasileiro e falou em direcionar alimentos desperdi\u00e7ados a programas sociais.<\/p>\n<p>No entanto, o problema da fome no Brasil \u00e9 estrutural e n\u00e3o pode ser resolvido com a distribui\u00e7\u00e3o de sobras para popula\u00e7\u00e3o vulner\u00e1vel.<\/p>\n<p>Desde o come\u00e7o da pandemia, o percentual de brasileiros que vivem em extrema pobreza quase triplicou \u2013 de 4,5% para 12,8%. Os dados s\u00e3o do relat\u00f3rio da Oxfam, divulgado em julho.<\/p>\n<p>Grupos desfavorecidos, incluindo negros, mulheres, popula\u00e7\u00e3o rural e ind\u00edgena foram os mais atingidos pela fome. No final de 2020, 11% das fam\u00edlias chefiadas por mulheres conviviam com a fome, enquanto mais de 10% das fam\u00edlias negras enfrentavam o problema, em compara\u00e7\u00e3o com mais de 7% das fam\u00edlias brancas.<\/p>\n<p>\u201cA pandemia de Covid-19 escancarou as desigualdades brasileiras e trouxe essa emerg\u00eancia da fome a milh\u00f5es de pessoas no pa\u00eds\u201d, afirma Katia Maia, diretora-executiva da Oxfam Brasil. \u201cVivemos uma situa\u00e7\u00e3o catastr\u00f3fica. H\u00e1 uma neglig\u00eancia sem tamanho com a vida das brasileiras e brasileiros, que est\u00e3o sem vacinas, sem ter o que comer, sem emprego e sem renda.\u201d<\/p>\n<p>Os efeitos da pandemia, entretanto, n\u00e3o s\u00e3o suficientes para justificar o aumento do pre\u00e7o dos alimentos para o patamar atual.<\/p>\n<p>Em outros momentos, o presidente tamb\u00e9m faz o que sabe fazer de melhor: terceirizar a culpa. Ele atribui a responsabilidade do\u00a0<a href=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/politica\/em-manaus-bolsonaro-culpa-governadores-e-jornalistas-pela-inflacao-e-mente-sobre-decisoes-do-stf\/\">aumento dos pre\u00e7os dos alimentos \u00e0s medidas de isolamento adotadas pelos governadores<\/a>\u00a0em meio \u00e0 pandemia de covid-19 e \u00e0 alta do valor do combust\u00edvel nos estados.<\/p>\n<p>Economistas discordam do presidente e atribuem a alta dos pre\u00e7os dos alimentos a tr\u00eas grandes fatores: a alta do d\u00f3lar, a infla\u00e7\u00e3o em descontrole e o desmonte da Conab.<\/p>\n<p><b>Pol\u00edtica de com\u00e9rcio exterior<\/b><\/p>\n<p>O primeiro desses fatores \u00e9 o desmonte da Companhia Nacional de Abastecimento, o Conab, desde 2019. A empresa p\u00fablica, ligada ao Minist\u00e9rio da Agricultura, \u00e9 respons\u00e1vel pela estocagem de gr\u00e3o produzidos no Pa\u00eds, um dos reguladores internos do valor dos alimentos.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a empresa tamb\u00e9m tem uma fun\u00e7\u00e3o social baseada na doa\u00e7\u00e3o de alimentos e no fornecimento de insumo para pequenos agricultores.<\/p>\n<p>No entanto, durante o governo Bolsonaro os armaz\u00e9ns de armazenamento v\u00eam sendo esvaziados. Somente em 2019, foram vendidas 27 unidades. Em 2021, foram colocados para estudo de venda e concess\u00e3o 180 armaz\u00e9ns e 25 im\u00f3veis.<\/p>\n<p>Especialistas afirmam que a falta de armaz\u00e9ns causa preju\u00edzo financeiro e de abastecimento interno.<\/p>\n<p>O Brasil n\u00e3o tem onde guardar toda a produ\u00e7\u00e3o que sai do campo, acumulando um d\u00e9ficit de armazenagem de 100 milh\u00f5es de toneladas por safra, conforme estudos da consultoria Cogo Intelig\u00eancia em Agroneg\u00f3cio.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 um descolamento significativo entre a produ\u00e7\u00e3o e a capacidade est\u00e1tica dispon\u00edvel e a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 mais grave, especialmente em algumas regi\u00f5es, como Mato Grosso, e em determinados per\u00edodos do ano, como no auge da safra, afirmou Thom\u00e9 Guth, superintendente de Log\u00edstica Operacional da Conab.<\/p>\n<blockquote><p>A falta de estocagem deixa o Pa\u00eds suscet\u00edvel a mudan\u00e7as bruscas nos custos de produ\u00e7\u00e3o e impede a doa\u00e7\u00e3o de alimentos para os mais necessitados<\/p><\/blockquote>\n<p>A estocagem regular o pre\u00e7o do gr\u00e3os: quando h\u00e1 muito gr\u00e3o em circula\u00e7\u00e3o, o governo estoca uma parte da produ\u00e7\u00e3o para que os pre\u00e7os n\u00e3o despenquem. Quando os pre\u00e7os est\u00e3o muito altos, s\u00e3o liberadas partes do estoque para for\u00e7ar a baixa de pre\u00e7os. Essa l\u00f3gica tamb\u00e9m funciona para outras coisas, como a reserva de d\u00f3lar pelo Banco Central.<\/p>\n<p>O alto valor da moeda norte-americana tamb\u00e9m faz com que seja vantajoso exportar. Com o c\u00e2mbio desvalorizado, o Pa\u00eds recebe valores maiores comercializando os gr\u00e3os em d\u00f3lar do que fazendo o uso interno da safra.<\/p>\n<p>Sem a estocagem, o Pa\u00eds perde seu mecanismo de regula\u00e7\u00e3o interna. Al\u00e9m disso, com a maior exporta\u00e7\u00e3o, falta mat\u00e9ria-prima para atender as demandas internas.<\/p>\n<p>O Brasil \u00e9 o maior produtor mundial de soja, ultrapassando os Estados Unidos. Mas, por falta de planejamento e m\u00e1-administra\u00e7\u00e3o, ter\u00e1 de importar o gr\u00e3o para alimentar as cadeias produtivas aves e su\u00ednos, bem como para o sistema agroindustrial.<\/p>\n<p>No entanto, os altos valores comercializados n\u00e3o s\u00e3o repassados para o pequeno agricultor, ficando nas m\u00e3os das empresas de com\u00e9rcio exterior.<\/p>\n<p><b>Desvaloriza\u00e7\u00e3o do real<\/b><\/p>\n<p>Outro fator que se atribui a alta do valor dos alimentos \u00e9 a desvaloriza\u00e7\u00e3o da moeda nacional em compara\u00e7\u00e3o com o d\u00f3lar.<\/p>\n<p>Em mar\u00e7o de 2020, quando o d\u00f3lar passava de 4,60 reais, o ministro da Economia, Paulo Guedes, afirmou que, \u201cse fizesse muita besteira\u201d, a cota\u00e7\u00e3o da moeda americana poderia passar de 5 reais. Ap\u00f3s o avan\u00e7o da pandemia e a inseguran\u00e7a institucional interna,\u00a0<a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/economia\/noticia\/2021\/08\/27\/dolar.ghtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">o d\u00f3lar fechou em 5,19 nesta sexta-feira<\/a>, 27.<\/p>\n<p>A desvaloriza\u00e7\u00e3o do real \u00e9 fruto da crise econ\u00f4mica e pol\u00edtica vivenciada pelo Pa\u00eds desde 2015 \u2013 e agravada pela pandemia. A pouca capacidade de gest\u00e3o a falta de previs\u00f5es sobre a retomada econ\u00f4mico do Pa\u00eds no p\u00f3s-pandemia afugenta investidores.<\/p>\n<p>Neste cen\u00e1rio, diversos insumos importados acabam tendo seus pre\u00e7os influenciados pelo vaiv\u00e9m das cota\u00e7\u00f5es internacionais: o que, consequentemente, provoca aumento do pre\u00e7o da comida no mercado interno.<\/p>\n<p>O d\u00f3lar alto tamb\u00e9m acaba elevando o pre\u00e7o de insumos, j\u00e1 que muitos deles s\u00e3o comercializados sob a moeda norte-americana. E tamb\u00e9m encarece o valor do maquin\u00e1rio importado que \u00e9 utilizado na produ\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O pre\u00e7o do petr\u00f3leo, outra\u00a0<em>commodity<\/em>\u00a0em alta, interfere no valor do diesel, utilizado no transporte das mercadorias.<\/p>\n<p>A alta no pre\u00e7o das\u00a0<em>commodities<\/em>\u00a0\u00e9 atribu\u00edda por analistas \u00e0 pandemia. Em 2020, houve desorganiza\u00e7\u00e3o de cadeias de produ\u00e7\u00e3o, com paralisa\u00e7\u00e3o de atividades, o que gerou desequil\u00edbrio nos mercados do mundo todo.<\/p>\n<p>A proje\u00e7\u00e3o do banco norte-americano J.P. Morgan desde o fim do ano passado aponta para uma cota\u00e7\u00e3o mais pr\u00f3xima de R$ 5,40 no fim de 2021.<\/p>\n<p>Desde o in\u00edcio do governo de Jair Bolsonaro, o mercado tem reagido mal \u00e0s sucessivas queda de bra\u00e7o protagonizadas pela equipe econ\u00f4mica, liderada pelo ministro Paulo Guedes, que defende um controle maior de despesas, e setores do governo que querem expandir os gastos.<\/p>\n<p>A alta do d\u00f3lar nos \u00faltimos dias tamb\u00e9m reflete outro cen\u00e1rio: PEC dos precat\u00f3rios enviada pelo governo ao Congresso, que tem como objetivo postergar o pagamento de d\u00edvidas da Uni\u00e3o e as discuss\u00f5es sobre a cria\u00e7\u00e3o de despesas fora do teto de gastos.<\/p>\n<p>Considerando a desvaloriza\u00e7\u00e3o acumulada desde 2013, o real hoje s\u00f3 perde para a lira turca: \u00e9 a segunda moeda que mais perdeu valor, considerando a taxa de c\u00e2mbio de equil\u00edbrio.<\/p>\n<p><b>O descontrole da infla\u00e7\u00e3o<\/b><\/p>\n<p>Outro fator que os especialistas atribuem a alta do valor dos alimentos \u00e9 a infla\u00e7\u00e3o descontrolada.\u00a0O \u00cdndice Nacional de Pre\u00e7os ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15), pr\u00e9via da infla\u00e7\u00e3o oficial do Pa\u00eds, acelerou a alta para 0,89% em agosto, ap\u00f3s registrar taxa de 0,72% em julho. \u00c9 o maior aumento para agosto desde 2002. Os dados do IBGE foram divulgados em 25 de julho.<\/p>\n<p>A alta foi puxada pelo aumento de 5% na energia el\u00e9trica e de 2,05% na gasolina. No ano, o \u00edndice acumula avan\u00e7o de 5,81% e nos \u00faltimos 12 meses, de 9,30%.<\/p>\n<p>O resultado veio pior do que o esperado. Uma pesquisa da Reuters com economistas\u00a0<a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/economia\/noticia\/2021\/08\/25\/ipca-15-previa-da-inflacao-oficial-fica-em-089percent-em-agosto.ghtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">estimava alta de 0,82% para o per\u00edodo.<\/a>\u00a0\u201cEsse resultado \u00e9 o maior para um m\u00eas de agosto desde 2002, quando atingiu 1%\u201d, informou o IBGE.<\/p>\n<p>A crise sanit\u00e1ria mundial veio acompanhada de uma crise econ\u00f4mica. A pandemia causou a perda de 255 milh\u00f5es de postos de trabalho em 2020, segundo relat\u00f3rio da Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho, a OIT.<\/p>\n<p>Analistas apontam que a consequ\u00eancia do desemprego \u00e9 a diminui\u00e7\u00e3o da demanda por diversos produtos, no entanto, n\u00e3o foi isso que aconteceu. Com a diminui\u00e7\u00e3o da circula\u00e7\u00e3o de pessoas em raz\u00e3o das medidas de isolamento social, a produ\u00e7\u00e3o na totalidade diminuiu de ritmo, encarecendo o produto final.<\/p>\n<p>Entre maio de 2020 e maio de 2021 a infla\u00e7\u00e3o medida pelo IPCA subiu 15% na alimenta\u00e7\u00e3o domiciliar. Isso influ\u00eancia muito mais nas fam\u00edlias mais pobres, que dedicam uma fatia muito maior da renda para essa categoria de consumo.<\/p>\n<p>A alta da gasolina e a alta nos valores da produ\u00e7\u00e3o de energia causada pela crise h\u00eddrica\u00a0 tamb\u00e9m s\u00e3o repassadas para os produtos finais. A infla\u00e7\u00e3o de transporte cresceu 15% nesse mesmo per\u00edodo medido pelo IPCA.<\/p>\n<p>Contudo, a situa\u00e7\u00e3o que fez aumentar os pre\u00e7os, deveria ser passageira, conforme an\u00e1lises de diversos economistas. Mas novamente, as previs\u00f5es falharam.<\/p>\n<p>Os pa\u00edses ricos injetaram vultosas somas para que a economia interna voltasse a girar normalmente, refor\u00e7ando a alta dos pre\u00e7os.<\/p>\n<p>A alta dos pre\u00e7os dos produtos pode causar distor\u00e7\u00f5es quando aos n\u00fameros de crescimento do Pa\u00eds.<\/p>\n<p>Enquanto os consumidores pagam mais por alimentos b\u00e1sicos, por\u00e9m, estados e governo federal se beneficiam. Na Uni\u00e3o, por exemplo, a arrecada\u00e7\u00e3o de impostos teve aumento real de 24,49% no primeiro semestre de 2021 na compara\u00e7\u00e3o com o per\u00edodo hom\u00f3logo no ano anterior. \u00c9 a maior arrecada\u00e7\u00e3o da s\u00e9rie hist\u00f3rica, iniciada em 2007.<\/p>\n<p>Em julho de 2021, segundo dados divulgados pelo Minist\u00e9rio da Economia, houve alta de 37,5% na m\u00e9dia di\u00e1ria de exporta\u00e7\u00f5es, na compara\u00e7\u00e3o com o mesmo m\u00eas de 2020. Esses fatores contribuem para o aumento do PIB e uma falsa impress\u00e3o de reestabelecimento econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>Em junho tivemos a not\u00edcia de que o PIB do Brasil cresceu 1,2% no primeiro trimestre de 2021 e voltou ao patamar pr\u00e9-pandemia. O que parece ser uma not\u00edcia animadora. O an\u00fancio da subida do PIB foi comemorado pelo governo e tamb\u00e9m ajudou para manter a narrativa de que o Brasil est\u00e1 avan\u00e7ando.<\/p>\n<p>No entanto, uma an\u00e1lise mais minuciosa dos dados apontam que a maior fatia do PIB brasileiro foi do agroneg\u00f3cio, que se beneficiou da infla\u00e7\u00e3o. Com os pre\u00e7os dos produtos mais altos, arrecada-se mais e acaba causando a subida do PIB. Mas essa subida n\u00e3o indica crescimento econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>O PIB de servi\u00e7o, que o setor que mais gera empregos no Brasil, continuou encolhendo e o consumo das fam\u00edlias tamb\u00e9m. Cenas de pessoas fazendo fila na porta de um a\u00e7ougue para a doa\u00e7\u00e3o de ossos e gordura bovina n\u00e3o conversa com o aumento do PIB. O n\u00famero de desempregados no Brasil tamb\u00e9m n\u00e3o parece se encaixar na perspectiva da alta do PIB.<\/p>\n<p>Analistas tamb\u00e9m alertam que a subida do PIB era esperada, dado que a queda no ano anterior foi muito acentuada.<\/p>\n<p>A utiliza\u00e7\u00e3o dos n\u00fameros de forma publicit\u00e1ria e com an\u00e1lise rasa dos fen\u00f4menos econ\u00f4micos, pode ajudar a elevar a popularidade do presidente Jair Bolsonaro, mas n\u00e3o refletem uma melhora na vida do brasileiro.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Infla\u00e7\u00e3o, agroneg\u00f3cio e a aus\u00eancia de pol\u00edticas p\u00fablicas fazem subir o pre\u00e7o dos alimentos no Pa\u00eds &#8211; CartaCapital. 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