{"id":15695,"date":"2021-09-16T11:03:28","date_gmt":"2021-09-16T14:03:28","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=15695"},"modified":"2021-09-12T11:07:54","modified_gmt":"2021-09-12T14:07:54","slug":"e-p-thompson-e-a-historia-vista-de-baixo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2021\/09\/16\/e-p-thompson-e-a-historia-vista-de-baixo\/","title":{"rendered":"E. P. Thompson e a hist\u00f3ria vista de baixo"},"content":{"rendered":"<p><strong>Fernando Pureza<\/strong> &#8211; Quando E. P. Thompson faleceu, Eric Hobsbawm escreveu um tocante obitu\u00e1rio dedicado a seu amigo para o jornal The Independent. Nele, Hobsbawm descreve Thompson como um intelectual eloquente, gentil, encantador, com presen\u00e7a de palco, com uma voz maravilhosa e \u201cdramaticamente\u201d bonito. Mais do que tudo isso, Thompson foi um desses casos fenomenais do s\u00e9culo XX onde intelectualidade e milit\u00e2ncia caminhavam de m\u00e3os dadas, compondo um marxismo vivo e pouco afeito a ortodoxias. Honrar sua mem\u00f3ria\u00a0 27 anos depois do dia de seu falecimento, em 28 de agosto de 1993, inevitavelmente exige que reconhe\u00e7amos algumas de suas maiores contribui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e te\u00f3ricas a partir da quest\u00e3o pol\u00edtica crucial: no que uma perspectiva thompsoniana pode ajudar os socialistas hoje?<\/p>\n<p><strong>Experi\u00eancia, o termo ausente<\/strong><\/p>\n<p>Uma das maiores contribui\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas de E. P. Thompson foi trazer a centralidade do conceito de \u201cexperi\u00eancia\u201d para os debates marxistas. Contudo, essa n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma contribui\u00e7\u00e3o te\u00f3rica, mas eminentemente pr\u00e1tica. Para Thompson, a experi\u00eancia era um conceito que permitia olhar para uma profunda dial\u00e9tica entre as determina\u00e7\u00f5es objetivas e as subjetividades da classe. Sua pr\u00f3pria trajet\u00f3ria de vida demonstra a centralidade da experi\u00eancia.<\/p>\n<p>O pai, Edward John Thompson, foi um poeta e intelectual metodista que se aproximou do anticolonialismo indiano. Casado com Theodosia Jessup, tiveram dois filhos: Frank e Edward. Ambos ingressaram na faculdade e, por ocasi\u00e3o da Segunda Guerra Mundial, se alistaram na luta antifascista. Frank, o mais velho, se aproximou do Partido Comunista da Gr\u00e3-Bretanha (PCGB) e, como oficial, se voluntariou a uma miss\u00e3o na Bulg\u00e1ria, onde foi assassinado em 1944. O irm\u00e3o mais novo, Edward, acabou indo lutar na It\u00e1lia. A perda do irm\u00e3o em meio a luta antifascista contribuiu para refor\u00e7ar o compromisso que compartilhavam, e o engajamento no PCGB.<\/p>\n<p>Assim como Frank Thompson, Edward n\u00e3o estava propriamente convicto da infalibilidade das diretrizes de Moscou. Frank era abertamente cr\u00edtico ao Pacto Ribbentropp-Molotov e se alistou por convic\u00e7\u00e3o de que a luta antifascista n\u00e3o poderia ser suspensa, mesmo que temporariamente. J\u00e1 E. P. Thompson, t\u00e3o logo a guerra terminou, decidiu participar da reconstru\u00e7\u00e3o da Iugosl\u00e1via sob o comando do Marechal Tito, construindo estradas de ferro. Nessas andan\u00e7as, conheceu Dorothy Towers, tamb\u00e9m historiadora, militante do partido e engajada na reconstru\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. A partir desse compromisso comum constitu\u00edram uma parceria que iria durar at\u00e9 o fim da vida de E. P. Thompson.<\/p>\n<p>O engajamento real e concreto com o antifascismo certamente o diferenciava de muitos outros intelectuais marxistas da \u00e9poca. Conv\u00e9m ressaltar, no entanto, que a partir de 1946 o PCGB constituira um n\u00facleo bastante ativo de historiadores, todos eles fazendo profundos questionamentos contra consensos acad\u00eamicos e discutindo novas perspectivas para a historiografia inglesa. \u00c9 nesse contexto que Thompson se alia com intelectuais como Christopher Hill, Eric Hobsbawm, Dora Torr, entre outros, que, decididos a deixar sua marca, criam a\u00a0<em>Past and Present<\/em>, uma revista de interven\u00e7\u00e3o pol\u00edtica no cen\u00e1rio intelectual brit\u00e2nico. Os chamados \u201chistoriadores marxistas brit\u00e2nicos\u201d causaram uma verdadeira revolu\u00e7\u00e3o ao reivindicarem uma hist\u00f3ria\u00a0<em>dos de baixo<\/em>.<\/p>\n<p><strong>De baixo para cima e \u00e0 esquerda<\/strong><\/p>\n<p>A ideia de uma \u201chist\u00f3ria vista de baixo\u201d buscava justamente resgatar as concep\u00e7\u00f5es das classes populares inglesas ao longo da hist\u00f3ria, por meio de uma orienta\u00e7\u00e3o organicamente vinculada a um marxismo militante. Havia algo de heterodoxo na posi\u00e7\u00e3o desses historiadores: a vida das classes populares deveria ser vista a partir do pr\u00f3prio contexto brit\u00e2nico, recusando-se a dispor de categorias de an\u00e1lise que fossem estranhas a essa realidade vivida, o que teria um imenso significado posteriormente na ideia de classe avan\u00e7ada por Thompson.<\/p>\n<p>O cen\u00e1rio internacional passava ent\u00e3o por mudan\u00e7as profundas. A morte de Stalin em 1953 e o Relat\u00f3rio Kruschev, de 1956, abalaram profundamente as concep\u00e7\u00f5es de muitos desses historiadores filiados ao PCGB. Come\u00e7aram a surgir den\u00fancias e cr\u00edticas internas ao partido. Thompson foi um dos que passou vocaliza-las, em parceria com John Saville, na cria\u00e7\u00e3o de uma revista nova chamada\u00a0<em>Reasoner<\/em>. De curta dura\u00e7\u00e3o (fechada por orienta\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio partido), a revista serviu para mostrar a necessidade de organizar as vozes cr\u00edticas do que viam como o \u201cdogmatismo pol\u00edtico do Partido Comunista da Gr\u00e3-Bretanha\u201d. A gota d\u2019\u00e1gua, contudo, foi a invas\u00e3o sovi\u00e9tica \u00e0 Hungria, em 1956. Os eventos em Budapeste precipitaram a sa\u00edda de Thompson e outros historiadores do partido.<\/p>\n<p>Os historiadores marxistas brit\u00e2nicos, contudo, n\u00e3o interromperam sua milit\u00e2ncia. A\u00a0<em>New Reasoner<\/em>, surgida em 1957, anunciava seu compromisso com \u201cvalores socialistas\u201d, mas tamb\u00e9m com uma \u201cpercep\u00e7\u00e3o n\u00e3o-dogm\u00e1tica da realidade\u201d. Apesar de fora do partido, Thompson reafirmou-se marxista in\u00fameras vezes, um compromisso que o acompanhou at\u00e9 o fim da vida. Aos poucos, a revista foi abrindo espa\u00e7o para as muitas dissid\u00eancias na esquerda brit\u00e2nica, tanto entre comunistas quanto entre trabalhistas cr\u00edticos das lideran\u00e7as dos seus partidos.<\/p>\n<p>A atividade de interven\u00e7\u00e3o militante era acompanhada da doc\u00eancia. Desde 1955 Thompson atuava nas escolas para jovens e adultos, dando aulas de hist\u00f3ria e literatura inglesa \u2013 uma de suas paix\u00f5es. As aulas, como o pr\u00f3prio Thompson lembrava, reafirmavam seu compromisso pol\u00edtico com os \u201cde baixo\u201d, com sua cultura, suas tradi\u00e7\u00f5es, suas vis\u00f5es de mundo. Aliadas com sua voz dissidente e radical, em pouco tempo a figura de Thompson se tornou famosa nos meios da esquerda brit\u00e2nica. Foi nesse meio tempo em que ele recebeu um convite inusitado: escrever um livro sobre a hist\u00f3ria da classe trabalhadora inglesa.<\/p>\n<p><strong>O enigma da classe<\/strong><\/p>\n<p>A abordagem de E. P. Thompson surpreendeu. At\u00e9 ent\u00e3o, a esquerda brit\u00e2nica contava a hist\u00f3ria da classe trabalhadora a partir da hist\u00f3ria do movimento oper\u00e1rio industrial, destacando as primeiras\u00a0<a href=\"https:\/\/www.marxists.org\/portugues\/marx\/1852\/08\/02.htm\">agremia\u00e7\u00f5es cartistas<\/a>, na d\u00e9cada de 1830, que tinham claro vi\u00e9s sindicalista. Thompson, por sua vez, resolvera retroceder at\u00e9 as \u00faltimas d\u00e9cadas do s\u00e9culo XVIII para focar-se naquilo que ele chamara de \u201co fazer-se da classe oper\u00e1ria\u201d (<em>making of<\/em>, que na edi\u00e7\u00e3o brasileira foi traduzido como \u201cforma\u00e7\u00e3o\u201d). Dessa forma, a classe trabalhadora n\u00e3o nasceria \u201cpronta\u201d, dada como resultado das determina\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas objetivas, mas era resultado de uma longa forma\u00e7\u00e3o social, pol\u00edtica e cultural. O foco de Thompson seria justamente as experi\u00eancias dos sujeitos prolet\u00e1rios ao longo do tempo conforme compunha uma forma de sentir e agir em coletivo.<\/p>\n<p>O impacto de\u00a0<em>A forma\u00e7\u00e3o da classe oper\u00e1ria inglesa<\/em>\u00a0foi imenso. Traduzida mundo afora, gerou impactos duradouros para al\u00e9m da Inglaterra e da pr\u00f3pria Europa \u2013 Brasil, \u00cdndia, Egito, Jap\u00e3o, etc.. Trata-se de uma obra imbu\u00edda de um duplo sentido da ideia de experi\u00eancia. Para Thompson, a experi\u00eancia \u00e9 o elemento capaz de mediar as determina\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e as tradi\u00e7\u00f5es culturais e pol\u00edticas. Dessa forma, a categoria carrega uma dial\u00e9tica profunda, capaz de mostrar o movimento entre a transforma\u00e7\u00e3o das for\u00e7as produtivas ao mesmo tempo em que sugere que as rela\u00e7\u00f5es produtivas s\u00e3o muito mais amplas do que aquelas do ch\u00e3o de f\u00e1brica. Tradi\u00e7\u00f5es como o metodismo, ou h\u00e1bitos alimentares, m\u00fasicas, literatura, folclore, se soma ao tortuoso processo de forma\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia coletiva dos trabalhadores ingleses, at\u00e9 o momento em que eles se reconhecem n\u00e3o mais por localidade, religi\u00e3o, ou of\u00edcio, mas sim como \u201cclasse\u201d. Para tanto, era necess\u00e1rio criar uma nova linguagem e uma nova cultura que desse conta das novas experi\u00eancias de explora\u00e7\u00e3o vivenciadas \u2013 esse arcabou\u00e7o n\u00e3o emergia do nada, mas do ac\u00famulo de in\u00fameras tradi\u00e7\u00f5es vindas do passado.<\/p>\n<p>Thompson enfatizava que sua obra s\u00f3 poderia ter sido escrita num contexto em que ele mesmo estava dividindo sua aten\u00e7\u00e3o com as aulas noturnas e com sua milit\u00e2ncia na Nova Esquerda. Como confessou, em 1961, em carta para o amigo e historiador Raphael Samuel:<\/p>\n<p>\u201cAl\u00e9m disso, estou com seis aulas e mais outros cursos adicionais para gerentes hospitalares (s\u00f3 essa semana j\u00e1 s\u00e3o nove aulas), al\u00e9m de estar no comit\u00ea de quatro departamentos diferentes, mais tr\u00eas crian\u00e7as que continuam celebrando o feriado de Guy Fawkes e seus anivers\u00e1rios, al\u00e9m de um crescimento miraculoso das campanhas de desarmamento nuclear em Yorkshire e Halifax (em Yorkshire fomos de 0 para 150 comit\u00eas em dois meses!) \u2013 al\u00e9m de toda a correspond\u00eancia do comit\u00ea editorial [da\u00a0<em>New Left Review<\/em>] que voc\u00ea j\u00e1 deve ter ouvido falar. A \u00fanica coisa em que sou parecido com Marx \u00e9 que eu tamb\u00e9m estou ficando com fur\u00fanculos no pesco\u00e7o.\u201d<\/p>\n<p>A experi\u00eancia como militante e professor \u00e9 fundamental para a escrita de Thompson. Dar aulas em diferentes cidades como Halifax, Yorkshire, Batley, Keighley, N\u2019Allerton, permitia conhecer diferentes realidades de trabalhadores, diversos n\u00e3o apenas pela localidade como pelo of\u00edcio \u2013 trabalhadores manuais, de escrit\u00f3rio, donas de casa, t\u00e9cnicos, professores. Uma classe multifacetada, com a qual Thompson tinha contato em suas aulas de hist\u00f3ria e literatura inglesa. Na sala de aula, estimulava que seus alunos trabalhadores falassem sobre suas tradi\u00e7\u00f5es e cultura. Esse est\u00edmulo, t\u00e3o vital para o processo de aprendizagem, o tornou cada vez mais atento \u00e0s tradi\u00e7\u00f5es culturais dos sujeitos subalternos, que eram frequentemente menosprezadas pela historiografia tradicional que tinha como objeto a classe oper\u00e1ria.<\/p>\n<p>A milit\u00e2ncia, por sua vez, seguia um caminho abertamente heterodoxo. Ap\u00f3s a sa\u00edda do PCGB, Thompson dedica sua atividade pol\u00edtica a duas a\u00e7\u00f5es primordiais: a participa\u00e7\u00e3o na\u00a0<em>New Left Review<\/em>\u00a0\u2013 e depois na\u00a0<em>Socialist Register<\/em>\u00a0\u2013 e o ativismo antinuclear, que gerou um livro pouco lembrado, mas muito instigante,\u00a0<em>Exterminismo e Guerra Fria<\/em>. Thompson se manteve um socialista ferrenho at\u00e9 os \u00faltimos dias, reivindicando uma tradi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica rom\u00e2ntica e revolucion\u00e1ria \u2013 e, principalmente, radicalmente democr\u00e1tica.<\/p>\n<p><strong>Rom\u00e2ntico e dissidente<\/strong><\/p>\n<p>\u201cDeixar o erro sem refuta\u00e7\u00e3o \u00e9 estimular a imoralidade intelectual\u201d. \u00c9 com essa frase de Marx que Thompson abre a sua mais c\u00e9lebre obra pol\u00eamica,\u00a0<em>A Mis\u00e9ria da Teoria<\/em>, onde se engaja numa discuss\u00e3o com o fil\u00f3sofo franc\u00eas Louis Althusser. Essa n\u00e3o foi, contudo, a \u00fanica pol\u00eamica de grandes propor\u00e7\u00f5es que Thompson comprara: Tom Nairn, Perry Anderson, Leszek Kolakowski, al\u00e9m do pr\u00f3prio Althusser, foram alguns de seus alvos principais. Mas n\u00e3o eram pol\u00eamicas vazias: em cada uma delas, o historiador ingl\u00eas identifica quest\u00f5es referentes ao campo do marxismo que precisavam ser trazidas para o debate p\u00fablico.<\/p>\n<p><img data-recalc-dims=\"1\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/jacobin.com.br\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/e_p_thompson_at_1980_protest_rally_1.jpg?w=640&#038;ssl=1\" alt=\"\" \/><br \/>\n<em>E P Thompson numa concentra\u00e7\u00e3o contra as armas nucleares, Oxford, 1980<\/em><\/p>\n<p>A experi\u00eancia de Thompson no PCGB, nos anos 1950, foi marcada pela cr\u00edtica constante ao fechamento de debates no interior do partido, promovidos por uma lideran\u00e7a cada vez mais alinhada com o marxismo vindo de Moscou. Thompson, por sua vez, acreditava no dissenso e no debate \u2013 nem sempre fraterno \u2013 e com isso concebia que seu papel como militante era justamente provocar a troca de ideias e a cr\u00edtica. Com isso, polemizou abertamente com o estruturalismo franc\u00eas e suas influ\u00eancias nos jovens marxistas brit\u00e2nicos. Tanto\u00a0<em>Peculiaridades dos Ingleses<\/em>\u00a0quanto\u00a0<em>A Mis\u00e9ria da Teoria<\/em>\u00a0inserem-se nesse debate.<\/p>\n<p>Tais dissensos muitas vezes geraram preju\u00edzos no \u00e2mbito profissional. Em 1971, Thompson antagonizou diretamente com a Warwick College, onde fora convidado a dar aulas ap\u00f3s o sucesso editorial de\u00a0<em>A forma\u00e7\u00e3o<\/em>. Segundo Barbara Winslow, que foi sua aluna na \u00e9poca, o professor Thompson ficou a favor dos alunos em um esc\u00e2ndalo no qual haviam descoberto que a administra\u00e7\u00e3o da universidade espionava um grupo de estudantes. O professor ent\u00e3o escreveu um libelo contra a universidade, posicionando-se a favor dos alunos. Em 1971, pediu demiss\u00e3o \u2013 a vida acad\u00eamica realmente n\u00e3o era para ele.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante as pol\u00eamicas, Thompson sempre manteve no horizonte a necessidade de uma pol\u00edtica de frente popular,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.thenation.com\/article\/archive\/e-p-thompsons-search-for-a-new-popular-front\/\">como salienta Stefan Collini<\/a>. As dissid\u00eancias dentro \u2013 e fora \u2013 do marxismo, combinadas com seu estilo ir\u00f4nico e afiado de escrita, n\u00e3o podem perder de vista que para ele, o que estava em jogo era a defesa de um projeto pol\u00edtico radicalmente democr\u00e1tico, inspirado nas lutas do passado. Esse projeto, contudo, n\u00e3o poderia jamais se submeter a uma autoridade que valorizasse a ortodoxia para al\u00e9m da raz\u00e3o. Nesse sentido, o marxismo proposto por E. P. Thompson sempre foi um marxismo rebelde, heterodoxo e cr\u00edtico, distribuindo farpas contra seus advers\u00e1rios. Uma frente popular na qual o debate e a dissid\u00eancia pudessem fazer parte \u2013 essa era a pretens\u00e3o thompsoniana.<\/p>\n<p><strong>Lendo E. P. Thompson no nosso tempo<\/strong><\/p>\n<p>Como militante e intelectual, Thompson seguiu seus afazeres at\u00e9 sua morte, em 1993. Alguns textos p\u00f3stumos ainda s\u00e3o lembrados e sua mem\u00f3ria \u00e9 constantemente reivindicada entre as esquerdas ao redor do mundo.<\/p>\n<p><em>A Forma\u00e7\u00e3o da Classe Oper\u00e1ria Inglesa<\/em>\u00a0\u00e9 o pontap\u00e9 inicial para conhecer o autor. O pref\u00e1cio \u00e9 um dos textos mais citados na historiografia, mas quem resolver se aventurar pelos tr\u00eas volumes encontrar\u00e1 uma longa e poderosa hist\u00f3ria sobre as muitas tradi\u00e7\u00f5es e lutas que estavam presentes no fazer-se da classe trabalhadora inglesa. Uma obra inspiradora, que inicia com uma pequena seita jacobina em Londres e termina apontando para um operariado que se afirma enquanto classe.<\/p>\n<p>Para os que se interessam por pol\u00eamicas,\u00a0<em>Peculiaridades dos Ingleses e Mis\u00e9ria da Teoria<\/em>\u00a0s\u00e3o excelentes op\u00e7\u00f5es. O estilo c\u00e1ustico da escrita de Thompson e seu compromisso pol\u00edtico com a \u201chist\u00f3ria vista de baixo\u201d \u00e9 reafirmado constantemente. No mesmo tom do Thompson polemista, seu ensaio \u201cCarta aberta \u00e0 Leszek Kolakowski\u201d \u2013 e a r\u00e9plica do fil\u00f3sofo polon\u00eas \u2013 foram recentemente publicadas pela Editora da UFSC e merece ser lido como um debate pol\u00eamico no interior do marxismo (que Thompson acusa Kolakowski de abandonar).<\/p>\n<p>Para aqueles que desejam uma pesquisa mais historiogr\u00e1fica,\u00a0<em>Senhores e Ca\u00e7adores<\/em>\u00a0e os ensaios de\u00a0<em>Costumes em Comum\u00a0<\/em>mostram o roteiro de pesquisa thompsoniano ap\u00f3s\u00a0<em>A forma\u00e7\u00e3o.<\/em>\u00a0De tanto voltar para o s\u00e9culo XVIII para falar sobre as origens da classe oper\u00e1ria, Thompson resolveu se demorar por l\u00e1 por mais algum tempo, analisando as diferentes tradi\u00e7\u00f5es rebeldes do per\u00edodo.<\/p>\n<p>Obras como\u00a0<em>Exterminismo e Guerra Fria<\/em>\u00a0e\u00a0<em>Os Rom\u00e2nticos\u00a0<\/em>parecem destoar desse quadro. Mas considerando a trajet\u00f3ria thompsoniana, s\u00e3o fundamentais para entend\u00ea-lo sujeito em sua faceta enquanto militante e educador. No primeiro, Thompson organizou um livro com intelectuais ligados a\u00a0<em>New Left Review<\/em>\u00a0e outras revistas para debater sobre a Guerra Fria e o conflito nuclear iminente. O livro pode parecer datado, mas o compromisso pol\u00edtico de E. P. Thompson e sua inegoci\u00e1vel defesa do desarmamento nuclear s\u00e3o apaixonantes, contextualizados a partir de uma an\u00e1lise pol\u00edtica ferina. J\u00e1\u00a0<em>Os Rom\u00e2nticos<\/em>\u00a0guarda alguns dos \u00faltimos ensaios de Thompson sobre a cultura inglesa do s\u00e9culo XVIII, sendo que um dos ensaios mais apaixonantes do livro se chama \u201cEduca\u00e7\u00e3o e Experi\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p>Para que resgatemos Thompson da \u201cimensa condescend\u00eancia da posteridade\u201d, devemos partir do princ\u00edpio de que ler suas obras \u00e9 uma forma de mant\u00ea-lo vivo. Creio, contudo, que podemos, e devemos, almejar mais. Este resgate n\u00e3o pode se resumir \u00e0 faceta intelectual, por mais digna de elogios que seja. Deve tamb\u00e9m concentrar-se em uma trajet\u00f3ria de vida comprometida com o marxismo, com o antifascismo e com um socialismo humanista. Trata-se tamb\u00e9m de que n\u00f3s, em nosso duro e angustiante presente, resgatemos as experi\u00eancias de milit\u00e2ncias e dissid\u00eancias, sem perder de vista a dedica\u00e7\u00e3o na constru\u00e7\u00e3o um projeto socialista que jamais poderia vir de cima para baixo, mas que deve ser constru\u00eddo nas densas determina\u00e7\u00f5es da vida cotidiana das pessoas trabalhadoras. Um socialismo radicalmente democr\u00e1tico, ligado \u00e0 experi\u00eancia dos sujeitos em luta.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: E. P. Thompson e a hist\u00f3ria vista de baixo &#8211; Outras Palavras. Link: https:\/\/outraspalavras.net\/outrasmidias\/e-p-thompson-e-a-historia-vista-de-baixo\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fernando Pureza &#8211; Quando E. P. Thompson faleceu, Eric Hobsbawm escreveu um tocante obitu\u00e1rio dedicado a seu amigo para o jornal The Independent. 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