{"id":15687,"date":"2021-09-13T10:48:26","date_gmt":"2021-09-13T13:48:26","guid":{"rendered":"https:\/\/controversia.com.br\/?p=15687"},"modified":"2021-09-12T10:50:43","modified_gmt":"2021-09-12T13:50:43","slug":"substituimos-a-felicidade-genuina-por-objetos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/controversia.com.br\/pt\/2021\/09\/13\/substituimos-a-felicidade-genuina-por-objetos\/","title":{"rendered":"&#8220;Substitu\u00edmos a felicidade genu\u00edna por objetos&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><strong>Leonardo Neiva<\/strong> &#8211; Especialista em obsolesc\u00eancia programada, o escritor canadense Giles Slade fala do capitalismo baseado no consumo repetitivo e da perda de direitos sobre o que compramos<\/p>\n<p>Na cidade de Livermore, Calif\u00f3rnia, uma l\u00e2mpada vem iluminando a sede do corpo de bombeiros local h\u00e1 120 anos. O fato \u00e9 considerado t\u00e3o impressionante, num mundo de l\u00e2mpadas que se queimam em menos de um ano de uso, que o lugar virou at\u00e9 ponto tur\u00edstico. Num site dedicado ao curioso objeto, \u00e9 poss\u00edvel inclusive acompanhar sua trajet\u00f3ria em tempo real \u2014 vai que voc\u00ea d\u00e1 sorte, ou azar, de captar o momento hist\u00f3rico em que ele finalmente vai se apagar.<\/p>\n<p>Mais interessado na regra que na exce\u00e7\u00e3o, no entanto, o jornalista, escritor e cr\u00edtico social canadense Giles Slade publicou em 2006 o premiado livro \u201cMade to Break\u201d (feito para quebrar), um dos principais relatos contempor\u00e2neos sobre o fen\u00f4meno da obsolesc\u00eancia programada. Em linhas gerais, trata-se da estrat\u00e9gia usada por diversas ind\u00fastrias \u2014 mas que \u00e9 mais latente na \u00e1rea de tecnologia \u2014 de criar produtos com um prazo de validade planejado, como forma de garantir que o consumidor ter\u00e1 que retornar para comprar novamente.<\/p>\n<p>Em sua obra, Giles, que \u00e9 doutor em hist\u00f3ria cultural, explora desde as ra\u00edzes bem americanas desse projeto de mercado, que nasceu em produtos como tampas de garrafa, aparelhos de barbear e carros da GM, at\u00e9 seu desenvolvimento ao longo do s\u00e9culo 20, desembocando em quest\u00f5es diversas, como a produ\u00e7\u00e3o de lixo eletr\u00f4nico em massa e o esfriamento das rela\u00e7\u00f5es humanas.<\/p>\n<p>Seu interesse pelo tema despertou depois de passar um per\u00edodo lecionando cultura americana em universidades da \u00c1sia e Oriente M\u00e9dio, tendo voltado para o Canad\u00e1 ap\u00f3s os eventos que se seguiram ao 11 de Setembro. \u201cVoc\u00ea entra numa loja e te empurram todo tipo de coisa. Numa locadora, tentavam te vender uma carteirinha de s\u00f3cio ou alugar dez filmes em vez de um s\u00f3.\u201d<\/p>\n<p>Numa sociedade feita para o consumo r\u00e1pido e imediato, em que durabilidade n\u00e3o \u00e9 do interesse de ningu\u00e9m, n\u00e3o espanta a curiosidade despertada por uma simples l\u00e2mpada incandescente. Al\u00e9m do fasc\u00ednio pelo objeto em si, ela demonstra que outros produtos tamb\u00e9m poderiam ser feitos para durar uma vida inteira. \u201cNa Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, o problema n\u00e3o era produ\u00e7\u00e3o nem consumo, porque todo mundo queria o que a ind\u00fastria estatal produzisse. [\u2026] Se voc\u00ea tiver um refrigerador sovi\u00e9tico, ele vai durar para sempre\u201d, aponta o jornalista.<\/p>\n<p>Em entrevista a Gama, Giles fala sobre como empresas como a Apple t\u00eam usado a estrat\u00e9gia para ampliar seus neg\u00f3cios e seus lucros. Tamb\u00e9m aborda o direito de consertar um produto, algo que vem sendo tirado dos consumidores, al\u00e9m da crescente produ\u00e7\u00e3o de lixo no mundo e o distanciamento causado pela tecnologia.<\/p>\n<p>Nossos relacionamentos interpessoais t\u00eam refletido essa rela\u00e7\u00e3o com as coisas. As pr\u00f3prias pessoas se tornaram mais descart\u00e1veis<\/p>\n<p>G |Por que as empresas n\u00e3o criam coisas que durem? Isso quebraria nossa economia, como parece ser o pensamento corrente?<\/p>\n<p>Giles Slade |<\/p>\n<p>Vivemos um modelo de capitalismo baseado no consumo repetitivo. Movemos as engrenagens da ind\u00fastria ao continuamente produzirmos coisas novas. Os fabricantes enxergam isso como uma forma de ficar muito ricos, fazendo crescer seu poder, influ\u00eancia e seus recursos econ\u00f4micos e fiscais. Obviamente, \u00e9 muito f\u00e1cil criar uma m\u00e1quina que perdure. O Mars Rover [ve\u00edculo explorador de Marte], por exemplo, foi pensado para durar tr\u00eas anos. Mas, como n\u00e3o sabiam quais seriam as condi\u00e7\u00f5es da superf\u00edcie de Marte, estenderam esse per\u00edodo de forma tremenda. Ele j\u00e1 existe h\u00e1 20 anos e continua andando. Na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, o problema n\u00e3o era produ\u00e7\u00e3o nem consumo, porque todo mundo queria o que a ind\u00fastria estatal produzisse. Eles n\u00e3o tinham como ampliar suas f\u00e1bricas para competir com o capitalismo. Se voc\u00ea tiver um refrigerador sovi\u00e9tico, ele vai durar para sempre. No Ocidente, a marca registrada de um produto de luxo \u00e9 que ele dura muito tempo. Coisas como rel\u00f3gios Rolex e carros da Mercedes. Tamb\u00e9m supostamente a Apple, mas, apesar de voc\u00ea pagar mais pelos produtos, a marca, de forma muito inteligente, vai l\u00e1 e limita seu aparelho para que seja for\u00e7ado a comprar um novo. \u00c9 uma pol\u00edtica deliberada e est\u00e1 presente em todos os aspectos da Apple. \u00c9 como um v\u00edcio. Eles n\u00e3o v\u00e3o te dizer como parar de comprar, n\u00e3o faria sentido. E \u00e9 exatamente assim que a ind\u00fastria funciona, especialmente a de tecnologia.<\/p>\n<p>G |No seu livro \u201cMade to Break\u201d, voc\u00ea explora a evolu\u00e7\u00e3o da obsolesc\u00eancia programada ao longo do s\u00e9culo 20. Quando diria que ela come\u00e7ou a ser aplicada pela ind\u00fastria?<\/p>\n<p>GS |<\/p>\n<p>\u00c9 uma estrat\u00e9gia econ\u00f4mica que ganhou import\u00e2ncia na virada do s\u00e9culo 19 para o 20, com produtos como tampas de garrafas de Coca-Cola e aparelhos de barbear descart\u00e1veis. A ideia era criar produtos que precisassem ser eternamente substitu\u00eddos. Essa mudan\u00e7a foi poss\u00edvel porque aconteceu uma revolu\u00e7\u00e3o no tipo de materiais que eram usados. De repente, papel, estanho e a\u00e7o se tornaram muito mais baratos, porque ficaram mais f\u00e1ceis de processar. Acabei de voltar de Cuba, que nos oferece uma perspectiva bem interessante do problema, porque o embargo americano bloqueou o pa\u00eds para a maioria dos mercados do mundo. N\u00e3o existem novos materiais, carros ou celulares. As pessoas precisam se virar com o que j\u00e1 t\u00eam. Os cubanos s\u00e3o muito resilientes e inteligentes ao reciclar tudo, incluindo sua maldita revolu\u00e7\u00e3o. Voltei para o Canad\u00e1 um m\u00eas atr\u00e1s e me senti sobrecarregado com todas as op\u00e7\u00f5es de consumo. O mercado tem tantos celulares que n\u00e3o sou mais capaz de diferenciar um do outro. A Apple est\u00e1 usando sua posi\u00e7\u00e3o de poder, influ\u00eancia e monop\u00f3lio para criar novas formas de lucrar. Ent\u00e3o, se o aparelho que voc\u00ea compra custa US$ 1,2 mil d\u00f3lares, eles ganham US$ 500 em cima disso. Antigamente, voc\u00ea comprava um produto e era seu, podia fazer o que quisesse com ele. Hoje, as marcas enxergam como uma oportunidade de controlar a receita em um p\u00f3s-mercado. Por isso, o direito de consertar \u00e9 uma quest\u00e3o t\u00e3o vital para eles, e \u00e9 por isso que gastam tanto dinheiro tentando derrub\u00e1-la no mundo inteiro.<\/p>\n<p>G |Que impacto essa estrat\u00e9gia de mercado vem causando no mundo?<\/p>\n<p>GS |<\/p>\n<p>Esse impacto acontece em muitas frentes. Nosso fasc\u00ednio por tecnologia pessoal tem ra\u00edzes no per\u00edodo em que as pessoas deixaram a Europa e outras partes do planeta e vieram para o Novo Mundo. Cartas, cart\u00f5es-postais, telefones, grava\u00e7\u00f5es, fotografias s\u00e3o coisas que foram permitindo que as pessoas mantivessem contato com seus parentes e entes queridos que moram longe. S\u00f3 que acabamos desenvolvendo um fasc\u00ednio e uma depend\u00eancia desses objetos, a ponto de us\u00e1-los como substitutos para intera\u00e7\u00f5es humanas reais. Como descobrimos neste \u00faltimo ano, com a covid-19, s\u00e3o substitutos vazios. N\u00e3o liberam no c\u00e9rebro os mesmos ferom\u00f4nios que a comunica\u00e7\u00e3o cara a cara. Acredito que isso tenha nos tornado mais solit\u00e1rios. Ainda que sejamos consumidores que deveriam ser temidos por grandes corpora\u00e7\u00f5es, elas podem formar monop\u00f3lios e influenciar at\u00e9 a legisla\u00e7\u00e3o que precisamos obedecer. Isso desgastou nossa liberdade e tamb\u00e9m nossas intera\u00e7\u00f5es sociais. Hoje, as pessoas preferem mandar um texto ou ligar, porque encontros f\u00edsicos s\u00e3o vistos como mais fr\u00e1geis e perigosos do que eram no passado. A pandemia fez as pessoas entenderem que nenhuma soma de dinheiro significa conforto, o que elas precisam \u00e9 de gente ao redor delas. Ent\u00e3o essa \u00e9 tamb\u00e9m uma grande oportunidade.<\/p>\n<p>G |Quais estrat\u00e9gias as empresas usam para impedir que os consumidores consertem seus aparelhos?<\/p>\n<p>GS |<\/p>\n<p>O pr\u00f3prio sistema operacional impede interfer\u00eancias. Por isso, uma das principais reivindica\u00e7\u00f5es do movimento pelo direito de consertar \u00e9 o acesso aos manuais e c\u00f3digos do sistema, assim como aos componentes. A empresa pode argumentar que qualquer provedor de servi\u00e7o independente \u00e9 capaz de consertar seu telefone. Mas, infelizmente, s\u00f3 um t\u00e9cnico treinado pela Apple pode realmente efetuar o reparo necess\u00e1rio. Eles obstruem esse movimento porque querem toda a receita pelo conserto de seus aparelhos que, ap\u00f3s um certo ponto, s\u00e3o programados para funcionar de forma piorada. Em 2017, houve um processo nos EUA contra a Apple por seu novo sistema iOS. O iPhone 6 deliberadamente ficava mais devagar para encorajar as pessoas a comprarem novos produtos. Essa estrat\u00e9gia obscura acontece em toda a ind\u00fastria.<\/p>\n<p>G |Voc\u00ea acredita que o movimento pelo direito de consertar deve mudar esse cen\u00e1rio?<\/p>\n<p>GS |<\/p>\n<p>J\u00e1 est\u00e1 acontecendo. No Brasil, a Apple foi processada porque o novo sistema operacional do iPad 4 torna o anterior obsoleto. No ano anterior, fizeram uma campanha de marketing tremenda para vender todos os iPad 3. S\u00f3 que, \u00e9 claro, eles n\u00e3o funcionavam t\u00e3o bem porque o sistema operacional era para o iPad 4. \u00c9 algo brilhantemente c\u00ednico.<\/p>\n<p>A perda das preocupa\u00e7\u00f5es sociais nos deixou com uma cultura vazia, materialista, na qual substitu\u00edmos a felicidade genu\u00edna por objetos<\/p>\n<p>G |Por que esse problema fica t\u00e3o evidente no caso da Apple? E como isso nos afeta?<\/p>\n<p>GS |<\/p>\n<p>Para come\u00e7ar, n\u00e3o acho que haja nada inerentemente superior em rela\u00e7\u00e3o a um iPhone hoje. Aparelhos Samsung s\u00e3o t\u00e3o bons quanto eles. A Samsung aplica o mesmo tipo de pol\u00edtica que a Apple, tamb\u00e9m n\u00e3o querem que voc\u00ea entre nos dispositivos deles. Apesar disso, mais pessoas consertam Samsungs de forma independente do que iPhones. A Apple desenvolveu um parafuso que voc\u00ea n\u00e3o consegue abrir com uma chave de fenda comum. Precisa comprar uma ferramenta especial s\u00f3 para abrir o dispositivo. Programas de fidelidade, obsolesc\u00eancia programada de moda e tecnologia, todas essas coisas incentivam o consumidor a n\u00e3o manter seus produtos, mas sim comprar novos. E nossos relacionamentos interpessoais t\u00eam refletido essa rela\u00e7\u00e3o com as coisas. As pr\u00f3prias pessoas se tornaram mais descart\u00e1veis por causa disso. Se um amigo te causa problemas demais, voc\u00ea larga ele ou deixa de responder e arranja outro. N\u00e3o \u00e9 algo que acontecia no passado. N\u00f3s mudamos, nos tornamos muito mais temporais e tempor\u00e1rios.<\/p>\n<p>G |A sociedade sempre esteve ciente da exist\u00eancia da obsolesc\u00eancia programada? Ou isso \u00e9 algo recente?<\/p>\n<p>GS |<\/p>\n<p>Durante a Grande Depress\u00e3o, quando as pessoas tinham muito menos dinheiro para gastar, a pr\u00e1tica chegou a ser investigada. Mas nos anos 1930, 1940 e 1950, empresas como a General Motors vendiam isso como uma coisa incr\u00edvel, porque voc\u00ea tinha um produto melhorado todo ano. Um importante livro americano sobre o assunto foi publicado na d\u00e9cada de 1960, e as pessoas ficaram ultrajadas. \u00c9 algo que sempre aconteceu, a mesma coisa que colocar \u00e1gua no vinho. S\u00e3o todas formas de enganar o consumidor. Pode parecer moralista, mas \u00e9 uma quest\u00e3o moral: que responsabilidade o fabricante tem com voc\u00ea? E que responsabilidade voc\u00ea tem com a marca, uma vez que j\u00e1 pagou pelo produto? Se eu paguei por algo, aquilo \u00e9 meu, posso fazer o que quiser com ele. A Apple, a Samsung, a Microsoft e v\u00e1rias empresas n\u00e3o pensam da mesma forma. Elas querem mudar o princ\u00edpio fundamental da propriedade. \u00c9 a isso que temos que resistir. Porque, assim como a propriedade, o direito \u00e0 privacidade tamb\u00e9m pode virar uma quest\u00e3o.<\/p>\n<p>G |Como sua preocupa\u00e7\u00e3o com esse problema come\u00e7ou?<\/p>\n<p>GS |<\/p>\n<p>Eu estava dando aulas na Ar\u00e1bia Saudita e, quando voltei para a cultura de consumismo do Canad\u00e1 nos anos 1990, isso realmente me atingiu. Voc\u00ea entra numa loja e te empurram todo tipo de coisa. Numa locadora, tentavam te vender uma carteirinha de s\u00f3cio ou alugar dez filmes em vez de um s\u00f3. No restaurante: voc\u00ea quer fazer disso uma refei\u00e7\u00e3o completa? Batatas para acompanhar? Algo para beber? E n\u00e3o era s\u00f3 porque estavam tentando ampliar o lucro, mas tamb\u00e9m porque n\u00e3o eram intera\u00e7\u00f5es sociais de verdade, mas uma troca econ\u00f4mica. Isso realmente me irritou, porque na Ar\u00e1bia, assim como em pa\u00edses latinos, quando voc\u00ea compra algo, existe uma intera\u00e7\u00e3o social muito mais calorosa. Voc\u00ea pode realmente desenvolver uma rela\u00e7\u00e3o com o vendedor. Isso n\u00e3o acontece na Am\u00e9rica do Norte, onde voc\u00ea n\u00e3o passa de uma engrenagem no motor. Foi a\u00ed que comecei a pensar que nossa atitude sobre coisas materiais afeta nossas rela\u00e7\u00f5es interpessoais. A perda dessas preocupa\u00e7\u00f5es sociais nos deixou com uma cultura vazia, materialista, na qual substitu\u00edmos a felicidade genu\u00edna por objetos. Isso tamb\u00e9m tem a ver com os v\u00edcios e outros problemas psicol\u00f3gicos, com nossa profunda insatisfa\u00e7\u00e3o e a viol\u00eancia social.<\/p>\n<p>G |A quest\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o de lixo, que tem a ver com a obsolesc\u00eancia programada e se tornou ainda mais urgente na pandemia, deve entrar no foco das aten\u00e7\u00f5es?<\/p>\n<p>GS |<\/p>\n<p>Com certeza. N\u00f3s nos fixamos na imagem hist\u00f3rica da imuniza\u00e7\u00e3o individual porque n\u00e3o t\u00ednhamos sido atingidos por uma pandemia. S\u00e3o sete bilh\u00f5es de pessoas no mundo, que precisam receber duas ou tr\u00eas doses de vacina em seringas descart\u00e1veis. Uma quantidade infernal de pl\u00e1stico. Isso sem contar todo o aparato cir\u00fargico que vai parar no oceano. N\u00f3s t\u00ednhamos a capacidade de fazer a imuniza\u00e7\u00e3o de forma intramuscular com um aplicador por g\u00e1s. Existem muitos preconceitos hist\u00f3ricos como esse, que causaram enormes desperd\u00edcios. Se formos pensar em componentes, por que n\u00e3o temos um smartphone que se desconstr\u00f3i inteiro e \u00e9 f\u00e1cil de consertar? Tiveram essa ideia alguns anos atr\u00e1s, mas o aparelho foi rapidamente comprado por outra empresa e simplesmente sumiu.<\/p>\n<p>G |\u00c9 poss\u00edvel lutar de alguma forma contra essa realidade, j\u00e1 que ela est\u00e1 t\u00e3o integrada ao mercado e \u00e0 sociedade?<\/p>\n<p>GS |<\/p>\n<p>O problema s\u00e3o essas poderosas corpora\u00e7\u00f5es multinacionais como a Apple, que tem um lucro anual de US$ 300 bilh\u00f5es, quase um ter\u00e7o do PIB do Brasil. Ent\u00e3o imagine grandes empresas como a Apple, a Microsoft ou o Facebook. Por mais que um governo queira enfrent\u00e1-las, elas t\u00eam muito dinheiro e poder, al\u00e9m de influ\u00eancia pol\u00edtica. \u00c9 prov\u00e1vel que, mesmo que percam a\u00e7\u00f5es em alguns casos, continuem fazendo o que fazem hoje, porque s\u00e3o t\u00e3o poderosas que \u00e9 muito dif\u00edcil quebrar seu modelo de neg\u00f3cio atual.<\/p>\n<p>G |Meu pai tinha uma tend\u00eancia maior de querer consertar aparelhos digitais do que eu ou minha irm\u00e3. Para muita gente, se algo quebra, \u00e9 hora de trocar. Como \u00e9 poss\u00edvel mudar essa forma de pensar em toda uma sociedade que cresceu com ela?<\/p>\n<p>GS |<\/p>\n<p>O n\u00edvel de satisfa\u00e7\u00e3o que as pessoas recebem com uma nova compra tecnol\u00f3gica decaiu substancialmente. O remorso por consumir tamb\u00e9m tem batido mais forte e mais rapidamente. \u00c9 vendido para n\u00f3s que uma camisa branca, \u00f3culos de sol, um carro zero v\u00e3o nos tornar pessoas melhores ou nos ajudar a conquistar uma mulher ou um homem. Existe toda aquela mitologia, mas, no final, n\u00e3o conseguimos nos satisfazer. Se pretendemos continuar sendo humanos, precisamos alterar radicalmente nosso sistema de valores. Sen\u00e3o, empresas como o Facebook v\u00e3o intensificar essa estrat\u00e9gia, nos induzindo a comprar coisas sem que saibamos. A vis\u00e3o que a ind\u00fastria tem sobre a humanidade \u00e9 muito superficial, como se f\u00f4ssemos um rebanho de ovelhas que precisa ser tosado periodicamente, mas n\u00e3o muito bem alimentado ou cuidado. O modelo de capitalismo que desenvolvemos \u00e9 essencialmente desumano. Ele est\u00e1 nos destruindo, por causa de todo o lixo que despejamos sobre o planeta, mas tamb\u00e9m por raz\u00f5es espirituais dif\u00edceis de quantificar.<\/p>\n<p>N\u00e3o vivemos na natureza, mas da natureza. Para mudar, teria de haver uma revolu\u00e7\u00e3o de valores, que s\u00f3 vai acontecer com um colapso social horr\u00edvel<\/p>\n<p>G |Nesse caso, o que dizer sobre esses cultos que rodeiam marcas como a Apple, com filas enormes na frente das lojas a cada novo lan\u00e7amento?<\/p>\n<p>GS |<\/p>\n<p>N\u00f3s nos dissolvemos em tecnologia de forma injustific\u00e1vel. Olhamos para novas tecnologias como uma forma de salvar o futuro de problemas que a pr\u00f3pria tecnologia criou. Pensamos que seremos capazes de limpar a atmosfera, produzir menos carbono ou retirar pl\u00e1stico do oceano, porque os investimentos aumentam a cada ano. S\u00f3 que isso simplesmente n\u00e3o \u00e9 verdade. Essa realidade est\u00e1 nos danificando e nos mudando. Nossa confian\u00e7a nela \u00e9 uma evid\u00eancia profunda da nossa incapacidade de confiarmos uns nos outros. Preocupa\u00e7\u00f5es fundamentalmente humanas foram despeda\u00e7adas. \u00c9 uma sociedade muito ampla, com pessoas demais, e n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel responder por todo mundo, mas tamb\u00e9m n\u00e3o somos encorajados a faz\u00ea-lo. Nosso capital social est\u00e1 sendo destru\u00eddo.<\/p>\n<p>G |Que futuro voc\u00ea gostaria e acha que \u00e9 poss\u00edvel deixar para nossos filhos e netos?<\/p>\n<p>GS |<\/p>\n<p>Esse ethos de fazer avan\u00e7ar a ind\u00fastria capitalista e a m\u00e1quina de consumo hoje est\u00e1 causando inc\u00eandios, inunda\u00e7\u00f5es, o aumento do n\u00edvel do mar e o aquecimento global. Isso \u00e9 resultado do desperd\u00edcio e da falta de qualquer tipo de responsabilidade pelo lugar onde vivemos. N\u00e3o vivemos na natureza, vivemos da natureza. Para isso mudar, teria de haver uma revolu\u00e7\u00e3o de valores. Essa revolu\u00e7\u00e3o s\u00f3 vai acontecer se houver um colapso social horr\u00edvel. Essa possibilidade n\u00e3o me parece fora da realidade, especialmente depois desses \u00faltimos 16 meses. Algo semelhante \u00e0 queda do Imp\u00e9rio Romano \u00e9 poss\u00edvel, e pode acontecer mais r\u00e1pido do que a gente imagina. N\u00e3o quero falar sobre pol\u00edtica, mas \u00e9 s\u00f3 pensar no l\u00edder do seu pa\u00eds, que ignora todas as institui\u00e7\u00f5es e invariavelmente toma o caminho errado. Isso tem acontecido cada vez mais no mundo. N\u00e3o estamos mais conectados uns aos outros porque n\u00e3o estamos conectados a nada. Nossa responsabilidade com o pr\u00f3ximo \u00e9 m\u00ednima neste momento.<\/p>\n<p>G |\u00c9 poss\u00edvel que, nesse caminho que tomamos, n\u00e3o haja mais volta?<\/p>\n<p>GS |<\/p>\n<p>Pessoalmente, acho que pode ser tarde demais. Mas parte do foco \u2014 al\u00e9m do movimento pelo direito de consertar, que \u00e9 muito importante \u2014 deveria estar em limitar o poder desses monop\u00f3lios globais, que nos for\u00e7am a ser locat\u00e1rios de seus produtos apesar de termos pagado por eles.<\/p>\n<p>Procurada por Gama para comentar a entrevista, a Apple n\u00e3o respondeu at\u00e9 o fechamento da edi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Fonte da mat\u00e9ria: Giles Slade: &#8220;O capitalismo que desenvolvemos \u00e9 essencialmente desumano&#8221; \u2014 Gama Revista. Link: https:\/\/gamarevista.uol.com.br\/semana\/o-que-e-descartavel\/giles-slade-capitalismo-desumano\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Leonardo Neiva &#8211; Especialista em obsolesc\u00eancia programada, o escritor canadense Giles Slade fala do capitalismo baseado no consumo repetitivo e da perda de direitos sobre o que compramos Na cidade de Livermore, Calif\u00f3rnia, uma l\u00e2mpada vem iluminando a sede do corpo de bombeiros local h\u00e1 120 anos. 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